Quando não havia El Corte Inglês em Portugal, sempre que eu ia a Espanha tentava dar uma volta por esse 'mercado. Ou pelos Preciados. Tal como, em Paris, gostava de ir às Galerias Lafayette ou ao Printemps. Sobretudo, gostava do piso de baixo e, aí, em especial, gostava da zona dos chapéus.
Gostava de me pôr a experimentar chapéus. Quanto mais arrojados e espectaculares melhor. Gostava deles coloridos, com véus, com plumas, com flores. Gostava de me ver com eles. Ficava sempre tentada a trazer alguns. Se ia com o meu marido, só para eu me despachar -- pois achava um absurdo eu perder tempo a experimentar chapéus, se era para não trazer algum -- dizia: 'Esse é bom, vá, traz esse.', fosse qual fosse. Mas eu não trazia pois não teria onde usá-lo.
Houve uma altura que usei, de feltro, discretos, elegantes, mas, ainda assim, era sempre olhada com alguma curiosidade. A moda dos chapéus, nos tempos recentes, nunca pegou em Portugal.
Mesmo que pense: 'Se gosto tanto de chapéus, o que me impede de os usar?', há sempre o lado prático das coisas. Ia onde com um chapéu artístico: ao supermercado? Ao shopping? Almoçar ou jantar fora? Ao museu? Ver uma exposição? Onde...? Não faria sentido, seria a única nesses preparos, seria como se estivesse deslocada no tempo e no espaço, uma carnavalesca deslocada.
Agora, quando está frio, quando vamos fazer as nossas caminhadas, uso um de que gosto muito, um modelo muito engraçado num veludinho macio, castanho escuro. Ainda hoje o meu marido se riu a olhar para mim, disse que eu parecia 'de leste' com aquele chapéu. Mas aqui não há problema: com este tempo somos praticamente os únicos malucos a andar na rua e, além do mais, este frio justifica-o bem.
Mas este meu gosto não é só com chapéus: mesmo com as roupas, existe em mim uma certa contradição: por um lado, sou atraída por roupas divertidas, com um certo toque de exuberância e graça, mas, por outro, não gosto de me sentir a doida fugida do manicómio. Por isso, tenho uma certa pena que a moda comum, do dia a dia, não ouse, não desafie convenções, não resulte da criatividade individual em que cada um possa misturar peças irreverentes, engraçadas.
Há tempo, partilhei um vídeo no qual uma actriz britânica que admiro bastante lia um poema. Essa actriz é bastante heterodoxa, audaciosa, usa vestidos com decotes ousados e rendas à vista, casacos de veludo com golas de pele e enfeites insólitos, chapéus nunca vistos, toda ela quase vitoriana. E achei graça à reacção de uma amiga minha: 'É parecida contigo, muito o teu género, não é?'. Fiquei surpreendida, não me tinha ocorrido tal. Olho para mim como sendo muito mais convencional. Mas nunca nos vemos como os outros nos veem.
Ao ver o vídeo abaixo, todo ele feito de pessoas e coisas realmente inexistentes, não posso deixar de pensar que ali, naquele mercado, eu estaria em casa. Tudo ali me agrada: as maquilhagens, os penteados, as toilettes, as bijuterias, os excessos e as graciosidades, os chapéus, as batatas e cebolas e frutas à mistura com coelhos e galinhas e todos os objectos que se vendem naquele mercado, as pessoas e os bichos que o frequentem, a graciosidade, a alegria, o toque festivo da pequena loucura.
A Inteligência Artificial tem este lado agradável: permite imaginar mundos alegres, bem humorados, leves, felizes. E a canção, composta também com recurso a IA, é também dançante, ou melhor, flutuante (e uma ameaça para os compositores, para os músicos...).
A propósito do Market Of Impossible Things, a palavra à autora, © 2026 Kelly Boesch:
Com todas as cenas horríveis que vemos nas redes sociais, quero tentar dar às pessoas alguns minutos para se afastarem desses pensamentos e sentimentos, para que possam imaginar um lugar cheio de bondade e alegria... e um pouco de estranheza. Escrevo sobre isso sempre, mas acho que é importante manter a esperança, sermos fortes e mantermo-nos unidos. Esta obra chama-se "Mercado de Coisas Impossíveis". Mais um conto de fadas para adultos :-)
Faço muitos vídeos sobre mercados. Adoro explorar feiras de rua, observar as pessoas e imaginar histórias sobre as suas vidas. Criei estas imagens usando um bonito código de referência ao estilo #Midjourney. A animação foi feita com #VEO3 e #Pika. O VEO não anima as crianças, por isso usei o Pika para estas imagens. O novo lançamento deles é ótimo. Letra escrita por mim, Kelly Boesch. Música criada sob a minha direção criativa com a ajuda de Suno.

Sem comentários:
Enviar um comentário