quarta-feira, janeiro 27, 2016

Passarinhos fritos e outras confissões impossíveis


No post abaixo já despejei a minha irritação contra a Marilú Pinóquia e contra o Cavaco das Cagarras: há gente que tem mau perder e mau feitio e estes dois não percebem que já acabou o tempo deles, que nos deviam poupar aos seus maus fígados, aos seus maus íntimos.

Mas, enfim, isso é no post abaixo. Aqui, agora, mudo de registo e vou mergulhar as mãos nas minhas vísceras. Bem, nas minhas não será bem.



  
Modifiquei-me um bocado com o decorrer dos anos. Por vezes penso que ainda sou muito igual ao que era quando era pequena mas, se cair em mim, vejo como me modifiquei.

Na minha maneira de ser intrínseca acho que me mantenho igual: acho que espontânea, franca, destemida, curiosa, sonhadora. Acho.


Mas há aspectos em que mudei muito. Acho. Tendo tido uma infância muito em contacto com o campo e com o mar, há coisas que, nessa altura, para mim eram naturais e que hoje já me fazem impressão. No entanto, descendo bem ao interior de mim, tenho que confessar que, noutras, parece que, apesar de tudo, ainda subsiste em mim uma certa maneira de ser primitiva.

Exemplifico.

O meu avô sempre gostou muito de pescar. Era um homem extraordinariamente paciente. Contra as investidas da minha avó, mulher controladora e com uns certos laivos de autoritarismo, ele calava-se como se não fosse nada com ele ou ia para a sua horta ou abalava para a pesca. Até ser bem velho, ia todos os dias à pesca e, até certa altura e contra a opinião dos filhos, ia de bicicleta. O meu pai, durante um período, também lhe deu para isso mas não terá durado mais que meia dúzia de anos, se tanto, esse hobby.

Com qualquer deles, havia uma coisa que eu gostava de fazer: amanhar o peixe. Os peixes vinham reluzentes do mar e eu gostava de lhes jogar as mãos às guelras, puxar as tripas. Também gostava de os escamar, despi-los daquela capa de partículas espessas e reluzentes mas, bom, bom mesmo, era sentir as tripas frescas, limpar bem as barrigas. Às vezes, por fim, já o alguidar estava rubro de sangue e eu com as mãos ali metidas. Isto era uma luta: nem a minha avó nem a minha mãe queriam, tinham medo que algum anzol tivesse ficado na guelra e que eu me magoasse ou que me magoasse com a faca. Mas eu sabia ter cuidado. Ainda hoje gosto de o fazer, e faço-o com cuidado, gosto de aproveitar o fígado, gosto imenso de fígado de peixe.

Pior que isso, e já aqui o referi, era um outro costume que o meu pai e os amigos tinham. O meu pai tinha um grupo de amigos com quem jogava futebol e voleibol. Alguns jogavam também hóquei em patins. Uns primos do meu pai eram exímios. No hóquei o meu pai apenas fazia parte da organização. Um dos primos, mais novo, ágil, bonito, bon vivant, tinha o sangue quente. Volta e meia pegavam-se quase à pancada. Aí o meu pai punha uma mão na vedação do campo e elevava-se, num salto, pelos ares, entrava em campo, separava-os, impunha respeito. Quando algum deles se casava, iam todos ao casamento. Lembro-me bem desses tempos, adorava andar por ali, no meio daquelas confusões. Adorava aqueles ambientes. A minha mãe nem sempre ia, só ia se algumas amigas também fossem e, então, sentavam-se juntas e conversavam o tempo todo. Mas, para além dessas práticas desportivas, havia uma outra, muito mais esporádica --  e era a essa que me referia. Em determinada altura, talvez fosse por estas alturas, iam aos pássaros. Antes, iam apanhar formigas de asas, umas formigas grandes a que chamavam agüidas (lê-se o u, pelo que lhe apliquei um trema mas não encontro no dicionário). Guardavam-nas numa caixa de cartão na qual faziam furos na tampa para elas respirarem.

Então armavam as ratoeiras (umas armações metálicas) com as ditas agüidas. Eu própria o fazia, embora os meus pais não quisessem com medo que eu ficasse com um dedo preso. Depois, nos dias em que combinavam, ao fim de semana, iam de manhã muito cedo, talvez quase de madrugada e iam deixar as ratoeiras. Mais tarde, iam levantá-las e traziam os pássaros. Por vezes os pássaros vinham ainda quentes. Gostava de sentir a sua penugem e pele ainda morninhas. E, então, sem que aquilo me fizesse qualquer impressão, queria ser eu a depená-los. Começava pelas asas, pelo rabo, as penas maiores, depois o corpo, a penugem macia. Depois abria-lhes a barriga, gostava de sentir as tripas quentes, aproveitava as moelas, abria-as, limpava-as, depois o fígado e o pequeno coração. Cortava-lhes também a cabeça. Nenhuma impressão.

Se acontecia algum pássaro ainda vir vivo, a minha mãe ficava incomodada. De resto não gostava nada de arranjar pássaros. O meu pai então dava-lhes uma torção no pescoço e eles ficavam-se. Eu assistia impávida.

E adorava comê-los. Passarinhos fritos era um pitéu que eu, na minha meninice e até ao princípio da adolescência, adorava.

Uma das minhas avós também tinha uma capoeira. Eu gostava de ver as galinhas, dava-lhes milho. Outras vezes ficava à espera de as ver entrar na parte fechada, depois virem cá para fora, dando uma cantada. Então eu entrava, ia até essa parte fechada, quase às escuras, e ia buscar os ovos ainda quentes. Depois pedia à minha avó que me fizesse uma gemada. Outro pitéu.

Volta e meia determinava-se que a refeição era galinha. O meu pai não tinha qualquer problema em matá-las. Não me lembro do meu avô nessas fainas. Mas a minha avó também não se ensaiava. Apesar de franzina, era muito indiferente em relação a essas coisas. E eu era sempre a ajudante. Ficava a segurar uma tigela por baixo do pescoço das galinhas, para aparar o sangue pois toda a gente gostava de uma apurada e cheirosa cabidela. O sangue esguichava, a galinha estremecia por todo o lado e eu, na maior, desviando a tigela no sentido do esguicho para não se perder nada. A seguir, o sangue quente, misturava-se vinagre. E depois a galinha era posta em água quente e eu entrava outra vez em acção: depenava, puxava as tripas, aproveitava as miudezas. A minha mãe sempre em cuidado que eu me não magoasse na faca, a minha avó também, mas eu manobrava-a com cuidado e participava na operação com perícia e prazer.

Acho que apenas se alterou alguma coisa dentro de mim uma certa vez, quando o meu pai quis ter no quintal da nossa casa, na parte de trás, junto à horta, uma capoeira.

A minha mãe não gostava, dizia que era uma prisão, que as galinhas só davam trabalho e faziam porcaria mas acho que o meu pai tinha aquela nostalgia de ter uma certa auto-suficiência alimentar. Também plantava feijão-verde, tomate, cenouras, salsa. 

Lembro-me que, por essa altura, arranjou um fogareiro que tinha um espeto e assava frangos. Era ele que os matava.

Acho que já o contei. Um dia ficou a trabalhar até mais tarde, a minha mãe que matasse a galinha. Ela não queria, que esperava. Mas ele não sabia a que horas chegava, ela que o fizesse, já tinha visto muitas vezes, não tinha problema. Não sei como, ela lá acabou por se encher de coragem.

Mas foi o bom e o bonito.

A minha avó ou o meu pai faziam aquilo nas calmas. Escolhiam a vítima, seguravam-na pelas asas, deitavam-na no chão, punham-lhe um pé em cima das patas, seguravam na cabeça e lá vai disto, em três tempos tinham procedido à degola. 

Com a minha mãe foi um festival. A galinha cacarejava, fugia, a minha mãe não a segurava bem. Eu ali à volta com a tigela para aparar o sangue (para fazer um arroz de cabidela, como acompanhamento) e a minha mãe aflita, só se lhe soltavam ais, eu também já aflita com a aflição da galinha e da minha mãe, incapaz de ajudar, com pena delas. Por fim a minha mãe lá se encheu de coragem, aplicou-lhe um golpe no pescoço mas apenas a feriu, a galinha quase gania, a minha mãe só lhe apetecia salvar a galinha, a galinha fugia, uma calamidade. Por fim, depois de uma verdadeira chacina, a minha mãe mais morta que viva, lá se conseguiu dar o assunto por concluído.

Acho que depois disso nunca mais me consegui abstrair do sofrimento dos animais. Hoje seria incapaz, mas absolutamente incapaz, de assistir à matança de uma galinha quanto mais participar, aparando o seu sangue.


Também deixei de ser capaz de comer passarinhos. De resto, o meu pai também deve ter ganho uma outra consciência, era eu adolescente e já ele se tinha deixado disso. Provavelmente mais tarde começou a ser proibido, não faço ideia.


A capoeira lá no quintal também pouco durou. A própria horta foi sol de pouca dura. O quintal (que fica na parte de trás da casa) foi relvado e apenas ficaram as laranjeiras e o limoeiro, que ainda lá estão. Os passarinhos voam por lá em liberdade.

Mas o que sei, e disso ainda me lembro bem, é de como antes nada disso me fazia impressão e, mais, de como gostava de mergulhar as mãos nos corpos e sentir as vísceras ensanguentadas.  

Por vezes penso que, não obstante as preocupações ambientais e ecológicas que tenho, o amor que tenho pelos animais e tudo isso, no fundo, ainda tenho vivo, dentro de mim, um pouco desse meu lado bárbaro, primitivo. Mas nem quero pensar nisso.

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As fotografias de adoráveis crianças são de Katrina Parry. A penúltima é de  Martin Stranka. A da mulher com a galinha e a última são de Margarita Kareva .

Lá em cima Catrin Finch interpreta Clear Sky.

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E, esperando que não estejam horrorizados comigo, convido-vos a descerem até ao post seguinte caso queiram saber o que acho das últimas manifestações da Marilú e do Cavaco.

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Maria Luís Albuquerque, a Pinóquia, está bem para Cavaco, el-rei das Cagarras


Ouvi a Marilú e custei a assimilar. Estamos quase no carnaval e admiti que se estivesse a fazer passar pela Pinókia, a chefe do Láparo. Mas não, Pinókia então e Pinókia forever.

Antes prometia o que sabia que não podia cumprir e agora, com aquela sua deslavada cara de pau, veio lamentar aquilo que sabe que é da sua responsabilidade.

Refiro-me à sua estuporada intervenção lamentando a impossibilidade de devolver a sobretaxa dados os resultados fiscais alcançados. 


Maria Luís “desiludida” por não receber a devolução da sobretaxa que tinha anunciado

Alguém lhe devia dizer para se deixar ficar calada, de preferência escondida debaixo do tampo da secretária na Assembleia da República. Ou, até, dada a época carnavalesca, que se mascare de banqueira malévola ou, se quer fazer-nos esquecer a sua passagem pelo Ministério das Finanças, que se apresente no hemiciclo armada em enfermeira sexy ou em coelhinha do Playboy. Qualquer coisa desde que não nos apareça mais à frente feita desavergonhada. É que, se continua a mostrar que ainda acha que os outros são parvos, arrisca-se a que alguém lhe atire uma bicha de rabear para os pés para ver se ela não vai a correr, corredor fora, aos ésses, com a bicha a rabear atrás dela -- ai não que não vai. 

Não é que a senhora seja sonsa que isso já seria desagradável - não, é pior: não tem mesmo uma boa relação com a verdade. É daquelas pessoas de quem se deve guardar distância. Não tem consciência moral nem aprende a estar calada. É má, sem vergonha e descarada. Chiça para a mulher. Credo.

Depois há o Cavaco, essa incómoda figura que se plantou na nossa democracia. 


Chegou como se viesse por acaso, foi ficando, foi dando cabo do país, tudo sempre como se não fosse com ele. Depois foi-se embora debaixo da hostilidade geral do país.

Passados uns anos ressuscitou e, graças à falta de jeito do PS em gerir a questão presidencial e à dificuldade das esquerdas em unir-se, conseguiu alcandorar-se à Presidência da República. Aí foi a saloice que se viu, sempre a auto-citar-se, sempre a atacar aqueles com que não concorda, mau todos os dias, ressabiado, uma daquelas pessoas com maus fígados, até deve ter mau hálito -- desagradável, o homem. 

E depois a Primeira-Dama Cavaca que, como o Leitor ECD disse em comentário abaixo, para além de bimba é metediça. Um atraso de vida, este casal presidencial. 

O homem não foi capaz de interpretar o sentir do país, não foi capaz de reagir quando se impunha, não foi capaz de defender o país, nada. Não descansou enquanto não infernizou a vida a Sócrates, não descansou enquanto não o viu pelas costas.

E depois não se percebe se aquilo foi só matarruanice dele ou se está agarrado de alguma forma -- a verdade é que não foi capaz de se mostrar acima dos interesses do PSD e CDS. 

E já nem falo das cenas do BPN nem das inventonas das escutas nem da incompreensível birra por causa do estatuto dos Açores nem de nada disso, que já não vale a pena. 

O que sei é que a rejeição é generalizada: Cavaco está num total estado de isolamento face ao país. Praticamente ninguém gosta dele e ele também não parece gostar de ninguém. 

Agora, a poucos dias de nos vermos livre dele, ainda veio feito mete-nojo a vetar aquilo que está mais que farto de saber que vai ter que deixar passar (adopção por casais do mesmo sexo e alterações à lei da IGV). 


O Presidente devolveu ao Parlamento o diploma que permitia a adoção por casais do mesmo sexo e as alterações à lei da interrupção voluntária da gravidez


Dá ideia que é mesmo só para chatear, que irá até ao último dia a provocar os deputados de quem não gosta, a picar os partidos que, por ele, estavam era a dar banho ao cão.

Não se aguenta. Mas é que não se aguenta mesmo tal pacóvia e aborrecida figura.

Sai com a popularidade nas ruas da amargura, toda a gente a querer vê-lo pelas costas, desejando que saia de cena, que não chateie mais, que vá curtir a reforma para a Coelha ou para onde quiser e que não chateie mais. Chiça para o homem. Credo.

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A única coisa boa destas duas fracas figuras são os fantásticas imagens que o Kaos fez com eles. Gente tão má (como a Marilú ou o Cavaco) é uma inspiração para quem tem sentido de humor e prazer no uso da ironia. 
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira muito boa.
  Enjoy.

terça-feira, janeiro 26, 2016

A arte é uma batata? Ou é a batata que é arte...?
Um milhão de euros...?!?!? Oh my dog...


No post abaixo já falei de não irmos ter Primeira-Dama e, até, mostrei a minha compreensão: Rita Amaral Cabral deve ter mais que fazer que aturar os salamaleques que a função exigiria, deve querer manter a sua profissão e, às tantas, acima de tudo, deve estar melhor assim: o Marcelo na casa dele, a armar aqueles furdunços lá dele, sms, mails, telefonemas, um frisson a duas mãos (não se dizia para aí que escrevia, em simultâneo, com as duas mãos?) e ela, sossegada, na sua própria casa.

Mas, enfim, sobre esse tema tão empolgante, falo no post abaixo.

Aqui, agora, o tema é arte. Há bocado estive a ver o que o autor de um artigo considerava serem As 10 obras de arte mais importantes de todos os tempos.


VÊNUS DE MILO (século II a.C., autor desconhecido)
FONTE (1917), de Duchamp
MONALISA (1503-06), de Leonardo da Vinci


Já tive a sorte de ver parte delas ao vivo. Não sei se concordo com a escolha de J.C. Guimarães, o autor do artigo, uma vez que, de imediato, poderia lembrar-me de outras tantas que me impressionaram tanto ou mais que algumas daquelas. Mas a verdade é que não ousaria pôr-me a fazer uma escolha. Nem saberia escolher 'as mais importantes', nem tão pouco 'aquelas de que mais gosto'.

Se me perguntassem quais os 10 livros da minha vida ou quais as 10 músicas haveria de ser igual batalhação: sei lá. Acho que me ia esquecer dos mais importantes. Não sou de fazer listas nem rankings. Se gosto, não quero deixar num lugar baixo do pódio ou deixar de fora aquilo que merece a minha estima. Gosta-se apesar das diferenças e há lugar para tudo aquilo de que se gosta. É como com pessoas: não é por gostar dos meus filhos que vou deixar de gostar dos meus amigos, não é por gostar do meu marido que vou deixar de gostar dos meus pais. E as crianças: vão chegando e a gente gosta sempre delas como se fossem únicas. O nosso coração é elástico.

Por exemplo, se gosto desta bela e enorme pintura (que ainda há uns dois anos vi no Rijksmuseum),

A RONDA NOTURNA (1642), de Rembrandt

ou deste clássico de Picasso,

SENHORAS DE AVIGNON (1907), de Picasso

a verdade é que logo penso em Caravaggio, em Chagall, em Matisse, em Gauguin, em Van Gogh, em de Chirico, em Rothko, em tantos, tantos - e isto se pensar em pintura.

Canção de Amor -- Chagall

Mas logo me ocorrem as esculturas, Rodin, por exemplo.

La Cathédrale ou Les Mains jointes -- Auguste Rodin
Mas tantos, tantos.

No entanto, e podem chamar-se conservadora ou conceptualmente míope, já tenho problemas em perceber que a provocação de Duchamp com o urinol, chamando-lhe fonte e classificando-o de obra de arte, possa ombrear com as inquestionáveis Vénus ou Mona Lisa. Nunca percebi. Nunca vou perceber. Poderá aquilo ser uma obra de arte?! Como...?! O tanas é que é. Caraças para tanta parvoíce.

E vem isto agora a propósito de uma notícia surpreendente: a fotografia de uma batata foi vendida por um milhão de euros. Li e não queria acreditar.


Fotografia foi tirada em 2010  |  KEVIN ABOSCH
Transcrevo:

 Fotógrafo de celebridades vende imagem de batata por um milhão de euros

Kevin Abosch, um fotógrafo irlandês de 46 anos, celebrizou-se pelos retratos de celebridades, entre as quais se contam Johnny Depp, Yoko Ono, Bob Geldof ou Dustin Hoffman. Os seus clientes de luxo chegam a pagar-lhe 250 mil euros por uma fotografia, mas até hoje nenhum dos seus retratos foi tão rentável quanto a fotografia de uma batata orgânica que tinha colocado nas paredes de sua casa.
Conforme confirmou o próprio Abosch ao The Sunday Times este fim de semana, a imagem do tubérculo, tirada em 2010, foi vendida a um empresário europeu que não quis ser identificado e que o fotógrafo recebera em casa.

Que a fotografia tem a sua graça, é um facto. Mas... 1 milhão de euros?!?! 

É esta loucura que me choca, que me deixa doida. Estou a ver na televisão os refugiados, barcos perdidos no mar, gente cheia de frio e fome. E depois há um maluco que gasta um milhão de euros na fotografia de uma batata. Não dá para entender. Qualquer coisa não vai bem no reino da dinamarca para que estas coisas sejam noticiadas como se fossem normais. O caraças é que são.

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Mas, enfim, isto é capaz de ser o sono que me está a retirar presciência. Talvez o comprador não seja um simples amante de arte mas um investidor, talvez tenha a visão de longo alcance que me escapa: talvez agora alguns saloios, entre os quais me incluo, não estejam bem a ver o filme mas, daqui por algum tempo, a batata vai é valer mil milhões de euros -- com um bocado de sorte ainda passa a valer tanto como toda a dívida pública portuguesa.

Só visto, é o que eu vos digo. Duvidavam de que a lógica fosse uma batata...? Pois então revejam lá isso.
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Mas olhem, This too shall pass

OK Go


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E queiram, agora, seguir para o comentador Marcelo que virou Presidente (sem Primeira-Dama e sem ir dormir ao Palácio).
É já aqui abaixo.

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Marcelo confirma: não vai haver Primeira-Dama. Percebo a vontade de Rita Amaral Cabral: eu, se fosse a ela, também não teria pachorra para tanta mesura e rapapé





Não conheço Rita Amaral Cabral mas conheço uma pessoa que lhe é muito próxima. Se ela se parecer, comportamentalmente, com essa pessoa que eu conheço, terá paciência para muita coisa menos para fazer sala, desenvolver aquilo a que se costuma chamar small talk, aturar chatos, fazer fretes, fazer mesuras e, até, portar-se bem quando a saturação pede um chega para lá. Admito que seja moça para não lhe dar para excessos e fúrias mas, ainda assim, parte dessa maneira de ser (digamos que rebelde) lhe deve correr nas veias. A verdade é que a idade traz habituação a tudo e que a sua própria profissão, as companhias e as circunstâncias da vida vão moldando a maneira de ser pelo que, mesmo que em jovem tenha sido uma irreverente, agora já deve estar polida, quase formatada. 

Mas, não a conhecendo, não posso ajuizar. Certo é que, pelo que se vai conhecendo, se sabe que privilegia um certo recato, que evita aparecer com ele em público especialmente em acontecimentos sociais ou mediáticos e que continua a exercer a sua profissão como jurista.

Falou-se muito nela por altura da bronca do BES, dado que era lá administradora mas a verdade é que a sua reserva e discrição ajudaram a que tivesse passado relativamente incólume perante o olhar da opinião pública.

Já antes se tinha falado dado que uma sua irmã era casada com Miguel Paes do Amaral, o que fazia de Marcelo quase cunhado do dito, na altura presidente do grupo Media Capital, dono da TVI onde Marcelo era comentador.


Coisas que passam já que, em qualquer dos casos, Rita Amaral Cabral não teve papel relevante no que estava em causa. E, não sendo dada a ribaltas, o sururu passa e ninguém mais se lembra de falar nela. E, quando se fala, sobretudo o que se diz é que é a  'namorada de longa data de Marcelo'. E a verdade é que há anos e anos que Rita é mesmo a namorada de Marcelo.



Viver com Marcelo não deve ser fácil: hiperactivo, hipocondríaco, certamente habituado às suas rotinas e com alguma dificuldade em suportar o contraditório, percebe-se que a opção de ambos tenha sido a de viver cada um em sua casa. A convivência diária com uma pessoa como Marcelo não deve se fácil e, pelo que se sabe, Rita Amaral Cabral preza a sua paz de espírito, tal como preza a sua independência e liberdade. Portanto, a nível de convivência, devem ter optado pelas doses homeopáticas ou espaçadas e, pelos vistos, tem resultado.

Li há pouco:
Ele não se cansa de lhe tecer elogios e refere-se a ela como sendo a sua «sensação espiritual». Rita Amaral Cabral namora com Marcelo Rebelo de Sousa desde os primeiros anos da década de 1980 mas nunca contraíram matrimónio nem nunca sequer quiseram viver juntos. «Não me voltarei a casar nunca mais. A Igreja Católica não aceita o divórcio e eu concordo. E recuso-me pelas mesmas razões de princípio a pedir a anulação do [meu primeiro] casamento», disse à jornalista Clara Ferreira Alves, numa entrevista.
«Tive a sorte de encontrá-la [à Rita Amaral Cabral] porque ambos partilhamos a mesma convicção católica de que o matrimonio dura ate a morte. Tive a sorte de que a mulher a quem tive de pedir sacrifícios concordasse inteiramente [com eles]», justificou o comentador. O romance iniciou-se quando se (re)encontraram, em 1981, nas reuniões da assembleia de representantes da Faculdade de Direito, o órgão que votava e escolhia os elementos do conselho diretivo.
No outono desse ano, no final de umas eleições, ficam sozinhos a fiscalizar a urna de voto enquanto os restantes membros da mesa vão jantar. Quando os colegas regressam, vão eles dois cear. Pouco depois, começam a sair juntos e a namorar, iniciando uma relação que se prolonga até os dias de hoje. Em 2006, um problema cardíaco de Rita Amaral Cabral trava a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência da República. Ele considera que a doença dela foi um sinal da providência divina para não se submeter a sufrágio.
Não sei se Rita alguma vez se casou ou se tem a nostalgia do casamento de fadas com que talvez tenha sonhado em menina. Ou se, tal como Marcelo, tendo-se casado uma vez, ficou vacinada. Ou se é mesmo convicção religiosa ('casamento só há um'). Ou se, pura e simplesmente, acha que não teria saco para aturar as pancas do namorado. Não faço ideia.


Não interessa: vivem nesse regime e, pelos vistos, assim vão continuar. Pareceu-me ouvir dizer a Marcelo que não vai viver em Belém e, de certeza, que o ouvi afirmar que não vai haver Primeira-Dama. 

Pareceu vagamente incomodado, como se, perguntando-lhe por isso, lhe tivessem tocado nalguma corda sensível. Se foi, não tem porquê. Cada um faz o que quer da sua vida privada e, quando alguém elege uma pessoa para desempenhar algumas funções, é para isso, e só para isso, que o elege: não para que encarne o modelo da figura exemplar (casado, pai de família, etc). Portanto, o que desejo é que vivam felizes. E só não lhes desejo que tenham muitos meninos porque já estão mais para avós do que para terem filhos. 
Ou seja, agora muito a sério, o que lhes desejo é que estes próximos cinco anos sejam para Marcelo anos de um trabalho desempenhado com competência, próximo dos portugueses, isento, sensato, evoluído, civilizado, democrata, humanista, grande defensor da liberdade, zelador dos mais desfavorecidos. E etc e tal. Tirando isso, se vive aqui ou acolá, se vive sozinho ou acompanhado, se come pastéis de nata ou pão-de-ló, tanto me dá. Por mim, nessas coisas, está tudo certo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

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segunda-feira, janeiro 25, 2016

No rescaldo das eleições presidenciais.
Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente da República e eu só espero que ele se contenha e não queira festa a toda a hora.
O PSD de Passos Coelho bem pode ir pondo as barbas de molho.
E era bom que o PS percebesse o que se passou pois, uma vez mais, se espetou neste assunto das presidenciais.
O Bloco de Esquerda soma e segue e Catarina Martins não perdeu tempo a reivindicar o seu papel como agregador da esquerda dos trabalhadores.
O PCP teve a prova que os fiéis indefectíveis já não passam de uns 3 ou 4% e que a malta de esquerda já não está nem aí para o sectarismo ou para os dogmas de antanho.
E a brutalidade dos valores da abstenção: a indiferença de uma parte significativa da população é inquietante.




1. Senhor Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa



Agora que Marcelo Rebelo de Sousa -- ao colo da comunicação social -- foi eleito Presidente da República, o que eu desejo, a bem do país, é que ele ponha de lado a sua veia de zelig, a sua veia de entertainer, a sua veia de catavento, a sua veia de fazedor de factos políticos e etc e, comedido, sensato, ponderado, exerça com equilíbrio e elevação as suas funções. O discurso de vitória foi ajuizado, entre o tranquilo e o formal, talvez um bocado forçado, ele a encenar já a figura de presidente -- mas, enfim, do mal o menos. Só espero que o frenesim não tome conta dele e que se consiga manter, nos próximos cinco anos, num registo atilado. 
E que, uma vez chegado ao Palácio de Belém, perceba que não precisa de ir fazer brushing às senhoras que lá trabalham nem passar revista às unhas das convidadas. Muito menos precisa de ir passar a ferro as toalhas de mesa nos dias em que haja recepções. 
Bem. Vamos ver.
E, muito a sério, o que desejo é que Marcelo, enquanto no exercício das suas funções de Presidente da República, tenha sorte, saúde e estabilidade emocional. Melhor que o Cavaco acredito que será e, portanto, corações ao alto.

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2. O PSD a caminho de se ver livre de Passos Coelho



Para além disso, uma coisa é certa: Marcelo pode ter mil defeitos mas não é um burro nem um saloio nem um deslumbrado. Por isso, tenho para mim que Passos Coelho vai sentir que a hostilidade de Marcelo lhe vai pesar e que, aberta ou veladamente, sentirá que o novo PR favorecerá outra liderança no PSD. 

E as hostes laranjas começarão a ficar inquietas: Passos Coelho é um líder a quem a realidade prova todos os dias que seguiu, ao longo de quatro anos, uma política errada e, portanto, a quem os seus correlegionários não tardarão a querer ver pelas costas. Marcelo, PSD convicto, terá a vida facilitada se houver barrela e se for afastada a pessoa que personificou um erro tão grosseiro e tão nefasto para o País. Portanto, para mim, a eleição de Marcelo é uma guia de marcha para Passos Coelho.

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3. O PS novo, o PS velho, e a falta de tino quando se trata de escolher um candidato a Presidente da República






Quando perguntei à minha mãe em quem é que ia votar, fiquei arreliada: disse-me que ia votar no Marcelo. Questionei-a. Disse-me que acha que ele sabe qual o papel de presidente, que acha que vai ser equilibrado e, sobretudo, que os outros não a convenciam e que o PS estava dividido, com os candidatos do PS em luta um contra o outro. Tentei demovê-la -- mas não consegui. Sugeri a Marisa. Que não, que não a estava a ver como presidente. Há bocado, já o Marcelo eleito, voltou a dizer-me: deixa lá que o PS também deu um lindo espectáculo... não foi capaz de se decidir por um, pôs os dois à bulha um contra o outro, muito bonito.... Já não lhe disse nada, a coisa estava feita, não vale a pena chorar sobre leite derramado. Até porque não lhe tiro a razão.

Outra surpresa que tive foi com um amigo meu. Socialista ferrenho, um daqueles que bate no peito quando se fala no PS, disse-me que ia votar no Marcelo. Fiquei de queixo caído, pensei que estava no gozo. Não estava. Disse-me que o Nóvoa não percebia bem qual o papel de um presidente. Que o Marcelo sabe o que a Constituição impõe a um presidente, que é honesto e inteligente -- e que o PS não apresentou alternativa viável. Fiquei sem saber o que dizer. Dele nunca esperaria este voto.

Mas a verdade é que também não me revi na candidatura do Nóvoa -- apesar de o achar digno,  bem preparado, civilizado, mobilizador, com um discurso que sabe empolgar.

Claro que a candidatura da Maria de Belém só veio agudizar o problema: um tiro no pé, uma coisa que não se percebeu, que só serviu para dividir o eleitorado (e, pior, sem que se percebesse ao que ia). Dá ideia que o PS não consegue unir-se em torno de uma ideia, de um nome, de um propósito. Ver cada um dos dirigentes para seu lado deu cabo de tudo. O problema não foi ter dividido os votos dos socialistas ou simpatizantes: o problema é que, perante a ausência de uma alternativa válida e perante aquele triste espectáculo, muita gente, do mal o menos, votou no Marcelo. Ou seja, a divisão do PS afugentou parte do seu eleitorado.

Há uma reflexão a fazer em torno disto. Num partido (e isto sou eu a dizer, eu que nunca fui filiada em coisa nenhuma, quanto mais num partido) tem que haver utopia, sonho, ideais -- mas tem que haver também pragmatismo, capacidade para ler os sinais, inteligência para saber captar o ar do tempo. Ao PS parece faltar o equilíbrio entre estes dois lados. E, nos momentos em que são chamados a unirem-se, não senhor, tornam-se adversários, canibalizam-se.

Ou aprendem com os erros, e este foi mais um, ou um dia destes vão ter um desgosto.

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4. O Bloco de Esquerda na linha da frente da esquerda. 



Há uma linhagem de guerreiras nestas mulheres que avançaram para a frente do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, Mariana Mortágua, Marisa Matias. Não perdoam, não vacilam, não se desfocam. Preparam-se como nenhuns outros, vão à luta, vencem, declaram a vitória, marcam o território. 

Em tempos, nos primórdios do BE, um amigo meu, anarquista de direita dizia-se ele, gozava com os bloquistas, dizia-me que aquilo lá era só charros e orgias. Eu dizia que ele era parvo dizendo coisas daquelas e ele ria e respondia: diz que sim, que são parvoíces... Não faço ideia. O que sei é que o Bloco de então, que se dividia, que eram meia dúzia e, mesmo assim, havia um dissidente novo todos os dias, já lá vai. O Bloco agora é uma força que se quer mostrar como implacável, que enfrenta sem complacência quem quer que esteja à sua frente e que defenda interesses contrários aos que o Bloco defende.

Os dirigentes do BE sabem interpretar as ansiedades da população, sabem informar-se do ponto de vista técnico e político e têm uma grande vantagem sobre os outros: falam claro e marram a direito. 

Catarina Martins, no seu discurso sobre o resultado das eleições foi inequívoca: o terreno das lutas dos trabalhadores já é também do Bloco e cada vez será mais.

(O PCP deve ferver ao ouvir isto. Mas, em vez de ferver, deveria era tentar perceber.)

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5. O PCP na sua trajectória descendente



Ao longo da campanha, fui sentindo cada vez mais simpatia por Edgar Silva. Mostrou ser um homem sério, convicto dos seus ideais, simpático, simples, próximo das pessoas. Não admira, conhecendo-se o seu percurso.

Contudo, volta e meia sentia-se que tinha alguma dificuldade em falar sem peias. Parece que há, no PCP, um formato estabelecido que deve ser seguido aquando de questionamentos mais melindrosos, parece que o PCP não consegue assumir que tem que haver novos caminhos, caminhos que se desviem de uma ortodoxia ultrapassada.

Os trabalhadores de hoje já não são as ceifeiras, os trabalhadores do 'balão' do Barreiro, os operários metalúrgicos de há quarenta anos atrás: os trabalhadores de hoje são pessoas que se habituaram ao consumo, gente que tem filhos formados que não arranjam emprego cá e que vão para fora, ou que tem filhos que não conseguem doutorar-se cá, ou gente que tem cursos e não arranja emprego razoável -- e todos trocam opiniões nos facebooks desta vida e têm hábitos que já não se coadunam com os ditames do comité central. Ou seja, os explorados de hoje são de uma outra geração, habituados a uma outra conversa. Conversas que metam PIDE, Caxias, reformas agrárias, etc, já não dizem nada à maior parte dos trabalhadores ou desempregados de hoje. 

Persistir em temas ou lemas ou jargões situados nesse horizonte datado é um erro. O PCP vai perdendo eleitores à medida que os seus apoiantes dos gloriosos tempos de Abril de 74 vão desaparecendo.

O PCP tem nas suas fileiras gente muito válida, gente evoluída, aberta, capaz de representar os interesses dos pobres e explorados (que são tantos!). Se quer sobreviver como partido relevante o PCP tem que puxar para primeiro plano essas pessoas. E, apesar dos resultados, é minha convicção que Edgar Silva é uma dessas pessoas. 

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6. A abstenção que revela bem o interesse com que os portugueses encararam estas eleições



Foram várias eleições de seguida, as presidenciais muito em cima das legislativas, depois nove candidatos não muito convincentes contra um que andou semanalmente desde há muitos anos a ganhar a habituação dos portugueses -- presença habitual e simpática, nas suas casas, a voz da moderação, um aconselhamento afável, que sabia responder a todas as perguntas, desde coisas de futebol até ao estado do tempo (que fosse um manipulador de primeira era pormenor...). A coisa estava, pois, decidida à partida. Depois, a overdose de comentários políticos nas televisões que faz com que as pessoas já quase vomitem quando lhes aparece algum político pela frente. Tudo junto. Gerou-se, com isto, um tédio. Votar? Para quê? Em quem? Tenho mais que fazer! - era o que mais se ouvia dizer.

A comunicação social anda a intoxicar a opinião pública. Há uma tendência para a mediocridade, para a banalização. Isto leva à abulia, ao desinteresse. Isto mina a saúde da democracia.

Talvez fosse um bom tema para o novo Presidente da República apadrinhar, este. Digo eu.

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NB: Não falei do CDS porque acho que não tem expressão.

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E mais não digo porque já estou cansada de tanto escrever. Se alguém tem conseguido ler isto tudo é um herói. My hero. E isto vai tudo sem rede, sem qualquer revisão, sem nada. Se encontrarem gralhas -- e acredito que vão encontrar muitas -- por favor relevem.

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As ilustrações são da autoria das gentes da Design Crowd
E a cantoria (Contado ninguém acredita) está a cargo dos Deolinda.

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Abaixo encontrarão uma apreciação crítica em relação a três toilettes da jornada eleitoral: António Costa, Paulo Portas e Marisa Matias.

Mais abaixo ainda, poderão ver o desenrolar das minhas opiniões à medida que ia sabendo os resultados eleitorais.

Ainda lá mais abaixo, o registo é outro: as pessoas da beira-Tejo. Um passeio à beira rio com Lisboa em fundo.

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Dia 24 de janeiro de 2015, dia da eleição de Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente da República - um breve apontamento: as toilettes do dia


1. António Costa à civil e primeiro-ministro


Quando vi o António Costa a votar, salvo erro numa assembleia de voto na Bobadela, fiquei morta de riso. Não foi tanto aquelas calças todas largueironas que comecei por pensar que eram da Decathlon, daquelas que têm mil bolsos de lado, mas que depois me pareceu que seriam, sim, de bombazina. Também não foi a camisola encarnada, encarnada. Nem foi o facto de ir de colete impermeável sem mangas. Foi, isso sim, o facto de o colete ser, nitidamnete, de uma era em que ele devia pesar menos 30 kg. Justinho, justinho. Mas nem foi só isso. Foi o facto, de estando justo, justo, o levar com o fecho corrido. Assim se apresentou ele às urnas: de calças largueironas escuras, camisola (de malha?) encarnada e de apertado colete impermeável sem mangas, cintado, todo estrelicado. Uma coisa nunca vista. Sabia que ia ser filmado e, ainda assim, se marimbou. É típico dele. Não faz mal nenhum. Mas é de ir às lágrimas a maneira como ele se aperalta quando está por conta dele.

Agora acabei de vê-lo, com Marcelo já presidente confirmado, já vestido à primeiro-ministro, arranjadinho, todo aprumadinho. Ou seja, quando tem que fazer o sacrifício de se vestir bem, parece que já consegue.


2. Marisa Matias, in spring white


Gostei de a ver, cabelo esticado, vestida de branco, de mangas curtas. Sorridente, primaveril, bonita, com aquela sua bela voz rouca.

O meu marido, que achava que não fazia sentido eu votar nela (problema dele e não meu, claro), à falta de melhor, provavelmente querendo demonstrar que lhe falta gravitas, dizia-me que ela se ri demais, que se abraça demais a toda a gente, que está sempre a mexer no cabelo, que põe o cabelo de lado e ri, que mexe no cabelo e ri. Não liguei a nada disso nem acho que ele ligue mas, se eu quiser ser objectiva, diria que, à Marisa, se quisesse ter mais uma mão cheia de votos, talvez lhe bastasse perder um pouco o hábito (o tique?) de mexer tantas vezes no cabelo ou sorrir de forma tão derretida quando quer ser simpática. Admito que a pessoas mais conservadoras faça um bocado confusão a perspectiva de ter uma mulher presidente com esta atitude corporal. Digo isto mas não sei. O que sei é que a toilette que escolheu para esta noite de eleições foi muito elegante, muito adequada.


3. Paulo Portas, in street style


Não prestei atenção ao que Paulo Portas disse. Não me interessa. Tal como não prestei atenção ao que o Manequim dos Fanqueiros II, Passos Coelho de seu nome, apareceu a dizer. Mas reparei na toilette casual do ex-irrevogável, todo ele street style. Já fez o switch, já não é estadista. Agora faz de conta que não está nem aí, que já está a lançar uma carreira de empreendedor, a lançar empresas ou lá o que foi que ele disse (ou que alguém disse por ele). Todo de camisa e pullover, de blusão. Confesso que gostei de o ver assim. Gosto de ver os homens vestidos assim, ao fim de semana ou em férias. Mas pronto, de facto é fim-de-semana e se Paulo Portas já não está na política e foi ali só mesmo para cumprir uma formalidade, pois então está bem, que use o street style que a gente percebe.

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Sobre o resultado das eleições, comentado em cima das contagens, é favor descer até ao post já a seguir.

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Marcelo Presidente. Pois não sei o que diga. ..... [Post em permanente actualização]



O que sei é que gostei de ver o famoso escritor José Rodrigues dos Santos a abrir o telejornal numa excitação, quase saltava do ecrã para fora tal o entusiasmo por ter o candidato-comentador praticamente eleito.

Tirando isso, achei graça às tias todas eufóricas ali na Faculdade de Direito. Sempre comedidas, quando as tias soltam a franga é isto: um desatino. Saltaram, riram, abraçaram-se como umas alegres meninas da campanha.

Também achei graça ao Eduardo Barroso: todo contente pelo resultado do amigo. Acredito: Marcelo deve ser um bom amigo. Quanto a vir a ser um bom presidente tenho dúvidas mas, tal a insustentabilidade das alternativas, que dificilmente ele não ganharia. Teve a comunicação social com ele ao colo desde o primeiro dia, como não faria ele disto um passeio na avenida?


Pena deve ter uma das suas mais fiéis promotoras, a Judite, por ter que estar a aturar uns quantos comentadores em vez de estar aos abraços e beijinhos com o seu querido Professor.

Mais? O KO na Mariazinha que ficou completamente fora de Belém. Não percebo o Vera Jardim. O que é que ele ainda não percebeu? Alguém teve culpa nisto? Só se for ele e ela e os outros que não perceberam que não se deviam ter metido nisto. O que tinham para oferecer? Nada, a não ser uma amostra do que é o aparelho socialista. 

E mais? O Tino. Muita gente do 'povo' revê-se no estilo simples, genuíno do Tino. Na volta ainda ultrapassa a pimpolha.

E mais ainda? Parece que a Marisa vai ter um belo resultado. Expectável. Lançou-se com energia e mostrou que é uma lutadora. Cavalgou um bocado demagogicamente aquilo das subvenções mas, enfim, será, não tarda, uma voz importante na democracia portuguesa.

Quanto ao Nóvoa? Um bom homem, um homem da cultura. Mas fica-me a impressão que é a kind of a catavento em versão levezinha, utópica. Desde o início que acho que a este bom homem falta qualquer coisa (e nem me estou a referir ao facto de ele não barbear o pescoço e prolongar a barba até onde ela quiser). De qualquer forma, obteve, ao que parece, um resultado digno.

Do Edgar? Tenho pena do resultado. É também um bom homem. Merecia mais. Mas, enfim, falta-lhe algum brilho. O pó de algumas ideias bafientas ainda lhe retira algum lustro (como é possível ainda não conseguir demarcar-se da maluquice do regime da Coreia do Norte?). Há coisas que o PCP ainda não percebeu: os tempos mudaram! A esquerda hoje é uma esquerda que quer mudança. Enquanto o PCP não fizer avançar a malta nova (e deixar de lhes exigir que carreguem com o peso de dogmas antigos) a coisa não vai lá.

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O tal Cândido, que até não tem má figura e que fala como se estivesse a imitar o Eanes, continua a queixar-se. Não se percebe de quê. Desde o primeiro dia que anda a refilar. Que criatura mais chata. Como será conviver no dia a dia com um chato destes?

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O Marcelo deve andar em órbita, a recolher inputs, mil telefonemas, mil sms, a traçar conjecturas, a pensar em cinquenta comprimentos de onda diferentes, uma agitex. Parece que os resultados já o confirmam como Presidente mas ele continua sem aparecer. Ou então, dado que o zapping aqui em casa impera, não o apanhámos nalguma mudança de canal. Tempo não me vai faltar para o ver.

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O José Rodrigues dos Santos, de dedo em riste, corado de tanto júbilo, rejubilante, diz que o Tino vai ter mais votos que o Edgar. Parece que sonha com sangue, este escritor: o corte de cabeça do Jerónimo, por exemplo? 

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Tenho dificuldade em dizer alguma coisa sobre aquele senhor dos óculos bizarros: acho que se meteu nisto a ver se pegava. Mas nunca percebi onde queria ele pegar-se. Mas talvez o contratem para fazer presenças: o que não faltam são pessoas parvas nas empresas que gostam de contratar pessoas assim, na base do senhor Jorge Sequeira.

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Olha, tinha-me esquecido do Paulo de Morais. É um homem que toca uma nota só: monocórdico até dizer chega. Isso e a farta cabeleira provocam um efeito qualquer em mim que nem sei bem explicar: parece que o coloco num buraco negro, sem querer ignoro-o. No fundo, apesar de dizer algumas coisas que batem certo, parece que o que não bate é que, por causa disso, tenha achado que fazia sentido candidatar-se.
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Já cá volto.

A quem aqui chegou e tenha vontade de espraiar a vista, aconselho que desça até à beira do Tejo.

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Um mundo efémero onde estamos de passagem






Antes que comece o tempo das contagens no final desta amorfa campanha eleitoral, e antes de me ir estender a ler e, quiçá deixar que o sono chegue e me tome nos seus doces braços, venho aqui para vos dizer que não sei como é aí, onde me estão a ler, mas, por aqui, esteve uma temperatura amena, o céu quase limpo e as poucas nuvens apenas serviram de véu, como que querendo atenuar o excesso de luz.

Parece que se adivinha a primavera. A beira do rio tinha muita gente, o parque agora de tarde também. Parece que as pessoas, sentindo o cheiro a bom tempo, procuram o sol.

Ontem, quando cheguei a casa da minha mãe, não apenas as persianas estavam todas levantadas como alguns vidros também abertos. Disse-me que era para deixar entrar o bom tempo. Também eu, aqui em casa, abro as janelas, ponho-me à janela a ver as cores limpas e suaves deste dia luminoso.


Antes, andei rente ao rio, fotografando. As pessoas recortam-se contra um pano de boca de cena sem igual: do outro lado, sobre um chão azul, Lisboa, a bela. Não resisto e capto as suas imagens, actores perfeitos num tableau ímpar, magnífico.

Fotografo as pessoas, a paisagem, e o meu coração expande-se de ternura pela visão de beleza que me proporcionam. Parece-me quase impossível tanta harmonia, tanta tranquilidade.

Ocorrem-me muitas vezes pensamentos terríveis: os que tentam alcançar um mundo em paz e se afogam, não chegando a ver de perto como é também difícil o seu sonho (mas que, sendo difícil, oferece a serenidade que um céu não atravessado por disparos e morte sempre tem para oferecer). Por aqui, em paz e liberdade, os namorados podem brincar, os pais podem passear com os filhos, os donos passear com os seus cães e eu posso deliciar-me, sempre e sempre, contemplando este cenário maravilhoso. 


Nos dias de vendaval e invernia os pescadores escasseiam: o fraco pescado não compensa as inclemências do frio e da chuva. Mas, mal o sol desponta, logo os cais se enchem de pessoas pacientes ou necessitadas que, por ali, tentam que um peixe pique o engodo. Não precisam de patranhas, de pentear cabeleireiras, de andar de feira em feira, de dizer balelas e distribuir beijinhos a granel: basta que fiquem imóveis que algum (peixe) palerma há-de morder o anzol.


É um mundo maioritariamente masculino, este dos pacientes. (Pacientes no sentido de terem paciência e não de estarem doentes). Mas há também mulheres pacientes. Gosto de ver as pescadoras. Um dia hei-de ir conversar com uma delas. Não sei se, para elas, haverá o lado lúdico que vejo nos homens ou se há apenas persistência.


Sabe muito bem estar à beira de água, ouvir o som das águas, sentir o calor do sol ameno, ouvir o voo livre das gaivotas, o deslizar dos barcos. Também eu tenho sempre vontade de me deitar ao sol, sentir o prazer de existir junto a um lugar de tanta beleza. Nem sempre o consigo mas é uma sensação de felicidade mesmo boa. Mesmo apenas passar e ver quem sabe descansar o corpo ao sol, já me sabe bem.


Outras vezes, penso que haveria eu de pegar num livro e sentar-me ali, em sossego e pôr-me a ler, com vagar. Mas não me dá para ler livros em lugares assim. Acho que qualquer veleiro que passasse me haveria de distrair, haveria de me dar vontade de voar e ir pousar nele. Tenho como que uma urgência em não deixar de ver aquilo que considero bonito e fugaz: um barco que passa, uma gaivota que dança nos céus, um traço de luz que ilumina uma rua ou o rio, uns cabelos esvoaçando, uma ponte quase invisível ao fundo.


E depois há os gatos. Estão gordos. Uma senhora, vá lá perceber-se porquê, em vez de os deixar andar na vadiagem, comendo peixes que tenham dado à costa ou que tenham sido desprezado pelos pescadores ou rapinando o que lhes apetecer, parece ter feito de razão de viver a engorda dos gatos. Leva-lhes comida enlatada e esparguete. Chama pelos gatos pelo nome: a Milu, a Estrela, a Maria, sei lá. Em tom de reprimenda, chama-lhes a atenção caso não respondam logo à chamada. Até às gaivotas já eu a vi a deixar esparguete cozido com qualquer coisa. Um dia eu estava a fotografar uma gaivota que vinha pousar e ela disse-me, à laia de ralhete: 'assim ela não vem comer'. Fiquei estupefacta.

Não sei se não se devia proibir isto. Os gatos estão a ficar obesos, já andam ronceiramente, pesados. Antes via-os esgueirando-se paredes acima, alcançando num ápice os telhados, saltando de pedra em pedra à beira de água. Agora não, agora deitam-se ao sol, arrastam-se entediados.

Tenho sempre vontade de dizer à senhora que não devia fazer isto. Mas não tenho coragem. Ela vem carregada com caixas, sacos, tem uma mala grande com rodas, por ali vem, chamando por eles, orgulhosa da sua boa acção.

No outro dia, quando me viu a fotografar um gato, disse-me com ar vaidoso: 'Têm uma página no facebook'. Eu talvez tenha dito 'Ai é?' porque não me ocorreu dizer mais nada pois o que tinha vontade de dizer era que só faltava mesmo mais essa.

Mas, enfim, fazer o quê? Se eu dissesse alguma coisa a senhora talvez me achasse insensível por não compreender a sua obra caridosa. Chova ou faça sol, lá vai ela naquela sua missão.


Seja como for, os gatos apesar de anafados, são lindos. Têm um ar inteligente. Gosto de os olhar, gosto de ver como me olham com indiferença. Não sei o que pensam eles da sua benfeitora ou o que pensam de mim que por ali ando, sempre encantada com eles. Talvez não pensem nada, talvez nos achem seres inferiores e, na volta, se calhar até têm razão. Não estou a ver os gatos a irem votar para escolher alguém em que, verdadeiramente, não se revêem. Enfim.

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Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos


['Os gatos', Manuel António Pina]

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A quem chegou só agora aqui e ainda não viu a Little Blue Girl, Pearl de seu nickname, sugiro que desçam até ao post já aqui abaixo.
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Até já.

domingo, janeiro 24, 2016

Janis: Little Blue Girl





Na terça-feira passada teria feito 73 anos. Talvez nos aparecesse como aquelas artistas que a gente vê já com o peso dos anos em cima, pesadas, feições envelhecidas. Talvez conservasse ainda a rebeldia dos verdes anos e nos aparecesse com um ar vagamente desconcertante, cabelos compridos e fracos, pulseiras e anéis em excesso, talvez rindo-se como uma adolescente fora de tempo. 

Há pessoas que, pensando bem, parece conservarem-se melhor junto a nós se as tivermos assim, perto de nós mas de forma remota,  nós lembrando-nos delas como se paradas no tempo, para sempre imobilizadas num sorriso, num gesto, num requebro de voz. Não assistimos aos momentos de imperfeição, ao ruir do corpo, ao ruir da nossa ilusão.

Quando me encantei pela Janis Joplin já ela fazia parte do grupo das vítimas de overdose.

Não sendo eu dada a ter ídolos, nunca o fui, se me tivessem perguntado quem, na música, era a minha heroína eu teria respondido, sem pestanejar que era ela, Janis, uma heroína derrotada pela heroína aos vinte e sete anos.

No entanto, não sei porquê, eu pensava nela como estando viva.

Ainda hoje, 46 anos depois do seu desaparecimento, se a ouço, ouço-a como se ainda por aí andasse, igual ao que era, tal como eu a via na capa dos LP's. Aparecia com coletes bordados com brilhantes, túnicas coloridas, jeans, cabelos soltos, plumas coloridas sobre o cabelo que quase faziam parecer que tinha o cabelo cor-de-rosa ou verde, óculos exorbitantes. Gostava imenso de a ver assim, diferente de tudo o que se tinha visto até então.

Identificava-me com esse look.

Nunca fui de me arranjar à punk, mas usar cabelos soltos, túnicas coloridas ou jeans justinhos, pulseiras, isso sim, gostava. 

Mas não era aquele aspecto moderno, que parecia não conhecer fronteiras ou limites, nem aquele sorriso alegre, divertido ou ternurento, nem a irreverência que a mim mais me seduziam: era a voz. A voz de Janis, desde sempre, foi um grito de sensualidade, de vida, de força, de rotura. Sempre foi a forma quente, ousada, ilimitada com que ela se entregava ao momento que me prenderam. Cantava como se estivesse a nascer, a ter um filho, a entrar num mundo incandescente. Não sei explicar.

Quando era adolescente, especialmente a partir dos meus 13 anos e com intensidade crescente até aos 18, entrando depois num regime mais moderado, eu, que fazia parte de um grupo de uns cerca de 10 amigos fixos (e mais uns quantos que iam e vinham), tinha todos os fins de semana festas. Ou eram festas de anos, ou convívios que o liceu organizava, ou festas de garagem, ou fosse do que fosse. Sempre tive namorado e, portanto, essas festas exerciam sobre mim vários apelos: era o ambiente da festa em si, era a toilette, era o lanche, era a música e eram, sobretudo, horas e horas interinhas de dança. Ou dançávamos todos, freneticamente, em grupo ou eu dançava, in love, gostosos slows com o meu namorado (que começou por ser um, depois passou a ser outro; e, por fim, quando passou ao último, acabaram-se os bailaricos já que dançar não é, nem nunca foi com ele). E nessas gloriosas tardes dançantes (que, quanto muito, iam até às dez da noite), sempre que Janis entrava a rasgar, nós desatávamos todos, em uníssono, a cantar, alto e bom som, uma energia comum, uma emoção que nos electrizava o corpo e a alma. Quando a música se proporcionava, o meu namorado arrancava-me ao grupo, tomava-me nos braços e juntos celebrávamos a aprendizagem do prazer a dois, sentindo o corpo de um encostado ao corpo do outro.

Mais tarde, já com o meu desportista pé-de-chumbo, muitas vezes dancei eu, com ele a ver. E. algumas raras e gloriosas vezes, consegui puxar por ele e, a custo, dançar um dos tais gostosos slows.

A voz de Janis, aquelas canções, a forma explosiva, rasgada ou quente como as interpretava ainda me parecem actuais. Há intemporalidade naquele excesso, naquela transcendência.

Sei agora que aquele furacão que a invadia quando se encontrava em palco, a deixava vazia a seguir. Sentia-se muitas vezes sozinha. Ficava no hotel à espera que algum amigo aparecesse ou telefonasse. Enquanto eles não vinham, e muitas vezes não vinham, bebia, drogava-se. Na noite em que morreu, ninguém apareceu. Quando a encontraram, no quarto do hotel, estava caída, sem vida. Pensa-se que a heroína seria mais concentrada que o habitual. Pensa-se também que a sobredosagem, em conjunto com o álcool, aconteceram porque sim, porque eram uma forma habitual de compensar a ausência de adrenalina do quarto, ou talvez a solidão. Mas não terá havido vontade de morrer, terá sido um acidente como tantos que aconteceram nesses loucos anos.

Mas a vida é sábia. Parece haver uma lógica que muitas vezes nos escapa mas que, anos depois, se apresenta como razoável, talvez, até, justa.

Aquela voz extraordinária que arrancava uma força vinda sabe-se lá de onde -- porque daquele corpo menineiro não devia ser -- não conseguiria manter-se assim por toda a vida. Nem ela, pássaro louco e escandalosamente colorido, saberia viver como uma aquietada senhora de meia idade.

Partiu cedo, e, se calhar, partiu na altura certa, levando consigo o fulgor dos seus verdes anos.

Tomara que o filme/documentário Janis: Little Blue Girl, que saíu há cerca de mês e tal nos EUA, cá nos chegue. A sua vida foi reconstituída a partir das suas cartas, de entrevistas a amigos, dos filmes que existem, do que se conhece da sua curta e eterna vida -- e eu gostava muito de a conhecer um pouco melhor.



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Lá em cima, no primeiro vídeo, cantando 'Cry Baby', ela não sabia, ninguém podia saber mas Janis estava numa das suas últimas actuações, em 1970, a poucos meses de morrer.

Mas o fantástico é que não morreu: aqui está, no Um Jeito Manso, e a sua autora, como sempre, está encantada a ouvi-la, com vontade de cantar com ela, de dançar ao som da sua vibrante e poderosa voz.


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E daqui a nada vou votar. E vou votar esperançada de que haja segunda volta. E vou contente porque está quase a chegar a hora de nos vermos livres da múmia que se aboletou em Belém, não se sabe bem a fazer o quê. E vou a pensar que, com sorte, irá para lá alguém que dignifique o meu país e não o atraso de vida que nos últimos dez anos pareceu apreciar mais os mercados, as vacas e as cagarras do que os portugueses.

Tinha ideia de escrever ainda qualquer coisa mas já não vai dar. Cheguei agora a casa, tarde e más horas, já domingo, e, portanto, vou mas é para a caminha e amanhã há mais. 
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo. 
E, please, please, please, vão votar. Ficar em casa, no bem bom, é que non.

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