terça-feira, março 25, 2014

José Rodrigues dos Santos no espaço de "opinião de José Sócrates", ou quando o moderador resolveu armar-se em protagonista (não em jornalista) no espaço destinado ao convidado: esclarecimento junto de alguns dos Leitores do Um Jeito Manso que comentaram o post abaixo e que, ao que me parece, não o compreenderam.


Tem graça isto. Sócrates divide as águas, disso não haja dúvidas. Ontem escrevi um texto sobre o que se passou na RTP (o ataque à má fila que José Rodrigues dos Santos lhe desferiu), e as visitas ao UJM não param e os comentários agitam-se.





Os ânimos exaltam-se de cada vez que o tema Sócrates vem à baila e há pessoas que perdem a tramontana. Odeiam o homem e, muito sinceramente, não percebo porquê. Não sei o que tem ele que esfrangalha tão facilmente a racionalidade de alguns (a menos que a dita racionalidade já seja, de si, escassa).

Tenho a dizer-vos, meus Caros, que não sou das áreas da metafísica, do jornalismo, ou de outras áreas dadas à efabulação. Não. A minha formação académica anda pelas áreas das ciências exactas e toda a minha (longa) vida profissional gira à volta de áreas exactas, números, resultados, gestão. 

Pelos frutos os conhecemos, disse o apóstolo e por isso me guio. Mas não analiso resultados independentemente do contexto. Invoco de novo a minha formação (académica e pós-académica) e toda a minha (longa) vida profissional para vos dizer que sei bem identificar as variáveis, as restrições, as relações de contexto, as tendências, as causas e as consequências, etc, etc.

Olho para as peças que mostram o desempenho de uma organização e interpreto-as e interpreto-as não em ambiente asséptico mas inseridas no contexto. E analiso-as com racionalidade, não com emoção, muito menos com paixão.

Tenho também experiência em negociação. Digo-vos: não é qualquer um que consegue dar-me a volta. Diz de mim quem me conhece bem: como adversária ela é temível.

Por isso, quando defendo Sócrates não o faço por paixão, por pancada, por pulsão irracional. Não. Louvo-o no que acho que é de louvar, critico-o quando é de criticar. Várias vezes o fiz durante a sua governação. Por exemplo, quando aumentou os ordenados dos funcionários públicos em 2009, muito o critiquei. Não havia, na altura, razões nem condições para o fazer. Também, quando aceitou cumprir cegamente alguns regulamentos europeus (made in Alemanha) nas obras do Parque Escolar, critiquei-o. Não o critiquei por melhorar as escolas, por gerar emprego local e não só, não o critiquei por apoiar a arquitectura nacional, a engenharia nacional, as empresas locais, etc. Critiquei-o, sim, por, obedecendo a regulamentos europeus, ter aceitado importar equipamento térmico inadequado para o País, fazendo o frete aos alemães - coisa de pormenor, no entanto, face à dimensão dos aspectos positivos. 

Mas elogiei-o quando o vi (e vi mesmo - read my lips) a apoiar a reindustrialização do País, quando o vi a puxar pelo ensino e pela investigação, quando o vi a tentar vender os produtos do país por esse mundo fora, quando o vi, in extremis, a lutar por uma economia que ameaçava parar. Cada um dos processos não terá sido isento de erros. Mas isenção de erros é coisa que não existe em lado nenhum. Há é que fazer o balanço e identificar a linha de rumo e, não tenho dúvidas, caminhava-se, então, no bom sentido.

Analiso os resultados da governação Sócrates e separo os exercícios, não observando da mesma maneira o período 2005-2008 e o seguinte, em que estava em minoria, dependente da aprovação de uma maioria hostil, e pior, com o País a sofrer as vicissitudes de um mundo ocidental em crise e de uma UE a mandar, primeiro, avançar uma política expansionista (como forma de evitar a retracção decorrente da crise financeira internacional) e, logo a seguir, a mandar retroceder a todo o vapor.

Sei distinguir as boas decisões e as menos boas, fruto de algum voluntarismo inflaccionado por se sentir acossado face a uma maioria hostil.

Sócrates é um lutador e quer o bem do País. Sócrates ama Portugal e os Portugueses e disso eu não tenho dúvidas. Sócrates quer que Portugal seja um País desenvolvido, com gente instruída, capaz de encarar o futuro com orgulho. Disso não tenho dúvida. E nisso estou do seu lado.

Sei também que Sócrates, sabendo que a economia flui em função da confiança, lutou até ao último pingo das suas forças para escamotear o estado periclitante em que a crise internacional e a maioria hostil estavam a deixar o País - pois sabia que, quando baqueasse, os mercados fariam ajoelhar o País e que uma intervenção externa seria inevitável. Contra isso lutou até ao limite do razoável. Não considero que escamotear a situação do País para tentar evitar o que já se adivinhava como irremediável seja uma mentira mas sim uma forma (extrema) de lutar.

Acho que Sócrates, se não estivesse em minoria (com um Parlamento cheio de hienas ansiosas por avançar para a carniça - e refiro-me a um Passos Coelho impreparado e perigoso, a um Portas, ambicioso e bailarino e que, curiosamente, contavam com o apoio de um Louçã a querer afirmar o BE e de um Jerónimo sempre do contra), teria lutado de outra forma e Portugal não estaria como está hoje. 

Uma vez que tinha o apoio da UE e da própria Merkel, teria conseguido aguentar a pressão dos abutres até que a Europa e o BCE erguessem o escudo protector.

Mas, quando ganhou as segundas eleições sem a maioria absoluta, cometeu um erro, Sócrates. Aceitou formar governo sozinho. Deveria saber que Cavaco não é flor que se cheire e deveria ter percebido que hienas como Passos Coelho e Portas não tardariam a atirar-se ao pescoço do País.

E isto é o que eu penso de Sócrates e do período em que foi Primeiro-Ministro.

**

Quanto ao que José Rodrigues dos Santos fez ontem na RTP, volto a dizer que acho que foi deselegante, mal educado, inconveniente. Repito: aquilo é um espaço destinado à opinião de Sócrates. A que propósito desatou a fazer-lhe uma entrevista relativa ao passado?





Aqui há algum tempo, fui convidada para ir dar uma aula livre mas sobre um determinado tema a uma universidade.

Quem me convidou acompanhou-me ao anfiteatro, apresentou-me e deu-me a palavra. No final, deixei espaço para perguntas e respostas e a pessoa que me tinha convidado, para desbloquear a normal inibição, colocou-me a primeira pergunta. Imagine-se se essa pessoa, ao invés, ao apanhar-me ali no palco, perante um anfiteatro pejado de alunos e de alguns professores, resolvia começar a fazer-me perguntas a ver se me apanhava em falso, ali à frente daquela gente que se tinha juntado para ouvir a minha opinião sobre um determinado tema. 

Era só o que me faltava. Eu aceder a ir ali e, sem mais nem ontem, quando dava por mim estava a ser interrogada por alguém que parecia querer ver-me ali estendida ao comprido. Das duas uma: ou perguntava a essa pessoa se estava com os copos ou se estava a gozar comigo. E, se a pessoa persistisse, levantava-me e ia-me embora. Claro.

Uma coisa bem diferente seria se me tivessem convidado para ser entrevistada sobre um determinado tema. Se aceitasse, sabia ao que ia, sabia que, quem vai à guerra, dá e leva, sabia ao que me estava a sujeitar.

Se José Rodrigues dos Santos queria fazer uma entrevista sobre a governação de José Sócrates deveria convidá-lo para isso - e estou certa que Sócrates ia de boa vontade. Não o apanhava à má fila, como fez neste domingo.


Rodrigues dos Santos não fez jornalismo, não deve ter sido isto que aprendeu na BBC, não foi acutilante, não foi a Oriana Fallacci dos pobrezinhos: foi simplesmente despropositado e malcriado. Quis o protagonismo para si como, de resto, sempre quer.





Mas volto a dizer: em boa hora o fez. Sócrates não se irritou, não se desnorteou. Manteve a calma, manteve a cabeça no lugar, respondeu a tudo e respondeu bem. José Rodrigues dos Santos, de facto, deu a oportunidade de que Sócrates gosta para o combate político, para afirmar as suas convicções.


Espero agora ter sido mais clara para que os Leitores não venham tresler o que eu escrevi, tirando conclusões de pernas para o ar.

Mas, meus Caros, caso queiram, contem comigo para isto. Não viro costas a uma boa divergência. 


*

NB: A quem aterrou agora aqui, lembro que, descendo um pouco mais, encontrará o texto da polémica, o que ontem escrevi e que já recebeu (até à hora em que escrevo) para cima de 2.700 visitas.


segunda-feira, março 24, 2014

José Rodrigues dos Santos atira-se a Sócrates como um cão raivoso. Num inusitado ataque cerrado, trazendo afirmações de arquivo para ver se entalava Sócrates, parecia estar a fazer um despropositado ajuste de contas: em vez de o deixar fazer o habitual comentário semanal, atacou-o de uma forma traiçoeira. Mas eis que, em vez de entalar Sócrates, lhe proporciona uma inesperada oportunidade de defesa. Só faltou ao Animal Feroz dizer ao Orelhas: 'make my day...'. Veja o vídeo.


Juro. Eu estava a ver e não estava a acreditar. É como se eu convidasse uma pessoa para vir a minha casa lanchar, para trocarmos uns dedos de conversa e, sem aviso prévio, na presença de outros convidados, lhe desferisse um pérfido ataque. 

José Sócrates, na RTP 1, como habitualmente preparado para tecer o seu comentário sobre a actualidade, viu-se de repente, em directo, sem aviso prévio, a ser alvo de um ataque cerrado. Como se estivesse num violento debate com um líder da oposição, Sócrates viu-se confrontado com acusações atrás de acusações. José Rodrigues dos Santos parecia estar possuído. Carregado de papéis com frases de arquivo, tentou apanhar Sócrates em armadilhas, confrontando-o com afirmações proferidas em anos anteriores ou com medidas tomadas enquanto era primeiro-ministro. Tentava, na dele, demonstrar contradições. A isenção ou neutralidade de quem deve moderar um comentário político foram atiradas às malvas. José Rodrigues dos Santos parecia ter virado um mastim mas dos rafeiros, dos que não conhecem regras mínimas de convivência. 


José Rodrigues dos Santos armado em cão raivoso com Sócrates
Ao abusador José Rodrigues dos Santos
saíu-lhe o tiro pela culatra:
Sócrates não é bichinho meigo
que se deixe apanhar com facilidade
Sócrates parecia nem estar a acreditar no que lhe estava a acontecer e até deixou sair um 'não vim preparado para isto'.

Mas Sócrates é um animal político e um animal feroz. Se se sente atacado, vira um infalível predador. Tem sangue quente, sabe o que disse, sabe o que fez, sabe o que quer e para onde se deve ir, tem energia para dar e vender, tem a mais o que o Totózero tem a menos, e, por isso, nem por um instante se assustou, se atrapalhou. Teve resposta pronta para tudo e devo dizer que acho que se saíu muito bem.

Diria mesmo que, no fim, só lhe faltou soprar o cano do revólver e pedir ao putativo escritor que lhe proporcione mais oportunidades destas.

E uma coisa posso eu dizer: se, por um lado, José Rodrigues dos Santos mostrou a raça de que é feito, uma raça desleal, deselegante e mal-educada, por outro, proporcionou um inesperado momento de televisão, deixando que ficassem bem claras as grandes diferenças entre quem defende uma austeridade cega e mortífera (Passos & Portas) e quem defende rigor orçamental a par de crescimento e de respeito pelas pessoas (Sócrates - e, vá lá, concedo, Seguro).

Não sei se Rodrigues dos Santos tinha as costas quentes para uma actuação destas, tão violenta e mal educada, e se é moda agora na RTP destratarem os convidados, tentarem apunhalar os comentadores. Nunca tive grande impressão deste sujeito mas hoje ficou bem claro que é mesmo de má raça; resta saber se agiu em conivência com as estruturas da RTP ou se foi apenas uma coisa má que lhe deu..

Mas revelou fraca inteligência: deveria saber que Sócrates não é um pateta qualquer que se deixe apanhar na primeira ratoeira.

Sócrates pode não ser Deus na terra, pode não ter vocação para pastorinho, pode não ser o sobrinho bem comportado que qualquer tia beata deseje, pode ser teimoso, obstinado, por vezes irascível, pode isso tudo. Mas sabe o que quer, deseja o bem do país e dos portugueses, é um lutador, e tem resiliência e coragem para dar e vender. Mil vezes o tentaram derrubar e mil vezes ele se levantou.

Não ia ser um orelhas qualquer que o ia intimidar ou apanhar numa curva.

E a questão não está nas perguntas que José Rodrigues dos Santos fez ou deixou de fazer: está no facto de Sócrates não estar ali para ser entrevistado. Se José Rodrigues dos Santos queria tirar a limpo tudo o que Sócrates fez ou disse desde que nasceu deveria convidá-lo para uma entrevista e não apanhá-lo à traição e à má fé num espaço dedicado a outra coisa (isto é, ao comentário à actualidade). 


É que, apesar de muita gente querer o contrário, não vale tudo.


[Continua aqui].


*

O vídeo intitulado 'miserável julgamento de José Rodrigues dos Santos no comentário de José Sócrates' que se encontrava disponível no Youtube já o não está dado que a RTP o mandou retirar, alegando direitos de autor.


Encontrei um outro vídeo mas aquilo é uma justaposição absurda, frases que se repetem desconexamente (há gente estranha que se entretém a fazer coisas esquisitas).

*

Sobre este mesmo assunto, poderão também ler o comentário, também em cima do acontecimento, no DN.


***

Para lerem excertos de três artigos do Expresso que merecem uma leitura atenta (Pedro Santos Guerreiro, Maria Filomena Mónica e uma entrevista a José Félix Ribeiro) e, de passagem, para ouvirem um bom som, desçam, por favor, até ao post seguinte. Como um insignificante bónus, poderão ver, uma vez mais, a primavera em toda a sua graciosidade e força in heaven.


***

Muito gostaria ainda de vos convidar a irem até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje tenho Eduardo Tornaghi dizendo, com a sua voz quente, o poema O Fotógrafo do grande Manoel de Barros. Muito bom.

***

E, assim sendo, por aqui me fico por agora. Estava a preparar-me para vos falar de uma bailarina muito cá de casa, a versátil e talentosa Sylvie Guillem. Mas, quase no fim, fiz uma inflexão para escrever sobre o ataque do Rodrigues dos Santos ao Sócrates e agora já é tarde, estou com sono. Fica para amanhã, já que está quase pronto.

***

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana, a começar já por esta segunda feira. 
Saúde e e bons momentos de felicidade é o que vos desejo.

domingo, março 23, 2014

'Silêncio que se vai pagar a dívida. Chiu...', escreve Pedro Santos Guerreiro. 'Um Estado Imoral', diz Maria Filomena Mónica. 'Portugal desceu de divisão', explica José Félix Ribeiro. [Apesar de algumas nulidades que lá escrevem, o Expresso ainda nos dá a ler coisas interessantes]


Os temas que aqui vos trago não serão do mais sexy que há, eu sei. Um domingo à noite pede mais do que dívidas imensas, impossíveis de pagar durante o tempo que dura uma vida, pede mais do que falar de um Estado imoral ou de um País que desceu de divisão e que não se respeita.

Mas, para que aqui fiquem registados alguns gritos de alma, faço questão de deles me fazer eco. São textos acutilantes, sérios, preocupados com a realidade que nos cerca. Lê-los ajuda-nos a perceber o que se passa e é uma forma de sentirmos que ainda há quem conserve a faculdade de ver as coisas com limpidez e o dever de cidadania de as divulgar.

No entanto, acredito que a alguns de vós apeteça mais um acorde, um cesto de cores, um perfume no ar. Por isso, para tentar que não se afastem já do texto, introduzo aqui o Martial Solal Trio, uma beleza.

E, vejam só, para tentar oferecer-vos a tal cor e, também, para enfeitar o texto (e desculpem-me a piroseira da palavra 'enfeitar' mas acho que as palavras ganham outra força se houver junto a elas um sopro de oxigénio - é sabido que o oxigénio favorece a combustão), acompanho-as com fotografias que fiz há pouco, in heaven.

*

The Last Time I Saw Paris - Body & Soul - Begin the Beguine





*   *   *


Somos o sexto país do mundo com maior peso de dívida mo PIB e temos dos mais medíocres registos de crescimento económico. O problema é que nem que a UE nos perdoasse os quase 50 mil milhões de euros que nos emprestou (o resto veio do FMI) ficaríamos tranquilos. Os termos da nossa equação ainda não mudaram. Temos saldo primário dependente de cortes de salários e pensões, não de uma transformação do Estado.

Chiu?

Pois é, chiu. O chinfrim sobre a dívida pública deixa sempre de fora o endividamento privado: são 280 mil milhões de euros e, lamento dizê-lo, também não serão pagos na totalidade.

Há plano para a dívida pública mas não para a privada. Talvez o Estado se financie às taxas anteriores à crise. Mas uma PME paga 6,5% por um empréstimo, quase o dobro do que paga uma concorrente alemã. Para compensar o sobrecusto do capital (e, já agora, da energia), as empresas cortam... salários.

Chiu? Mesmo?


Excertos de 'Silêncio que se vai pagar a dívida' do lúcido e honesto Pedro Santos Guerreiro (tomara que assim se mantenha; lê-lo é um sopro de ar fresco)



*   *   *


O Presidente da República acaba de aprovar o orçamento rectificativo de 2014, que inclui, entre outras coisas, novos cortes das reformas. 

E que vejo eu?

O Governo entrega dinheiros públicos a escolas privadas, o serviço nacional de saúde corre o risco de perder qualidade e os tribunais deixam prescrever processos de gente tão poderosa quanto os administradores do BPN, do BPP e do BCP. Mais: a fim de salvar as chafaricas que dirigiam, o Estado já gastou cinco mil milhões de euros com aqueles patriotas: para nós, os velhos, não há dinheiro, mas ele existe para Oliveira Costa, João Rendeiro , Jardim Gonçalves & associados.

Por natureza frugal, a reforma dava-me para viver. Pensei que se manteria igual até à minha morte. Afinal, o Estado dera-me a sua palavra de honra, não dera?

Enganava-me.

Dou um salto até Espanha, um país governado por gente com quem não tenho afinidades, mas que trata os seus cidadãos melhor do que Portugal.

A minha irmã Isabel vive ali há cinquenta anos Eis o início da carta que, a 3 de Janeiro deste ano, recebeu:

"Estimado/a Pensionista: 

Após um ano, de novo entro em contacto consigo para lhe dar informações sobre a revalorização da sua pensão durante o ano fiscal de 2014. A 1 de Janeiro, a sua pensão aumentou 0,25%. Quero ainda informar que entrou em vigor uma nova fórmula de revalorização das pensões e subsídios do sistema público da Segurança Social, que garanta que as pensões subirão todos os anos seja qual for a situação económica e que nunca serão congeladas".

Assina Fátima Báñez Garcia, Ministra del Empleo y de Seguridad Social.

No que me respeita, tudo quanto recebo são papeluchos da Caixa Geral de Aposentações, onde, em várias colunas, aparecem 'abonos' e 'descontos'.

Continuando a olhar para os números, verifiquei que metade da minha reforma reentra imediatamente nos cofres públicos e que, desde 2007, o corte fora, em termos líquidos anuais, de 30%.

Há tempos, o primeiro-ministro declarou que afinal os cortes 'provisórios' eram 'definitivos'. Alguém protestou? Não. Portugal é um país de mortos.


In 'Um estado imoral' de Maria Filomena Mónica (excertos)



*   *   *


Como se enfrentam todos estes desafios com a perspectiva de ter 20 ou 30 anos de austeridade?

Acho uma loucura dizer que vamos ter 20 anos de austeridade. (...) O euro foi criado com características que não o preparavam para ser uma moeda internacional em turbulência. As pessoas pensavam que era um avião mas era um planador.

Fomos apanhados na tempestade?

Quando os mercados perceberam que era um planador, começaram a disparar para a parte mais frágil que éramos nós e os gregos. Durante um ano e meio aguentámos os tiros. Além disso, quando houve a crise de 2008 do Lehman Brothers a ordem de Bruxelas foi para fazer despesa à vontade.

Mas nós fomos longe de mais.

Com uma ordem vinda de cima. Depois, de repente, as mesmas pessoas vêm dizer para pôr tudo em ordem em três anos. Há de haver um momento para ajustar contas com a europa.

Diz que Portugal só será um país periférico se continuar centrado na Europa. Devemos mudar o foco?

A crise do euro está a mudar a Europa. A Alemanha não tem nem condições económicas para gerir o euro nem condições políticas para liderar a Europa. Faz algum sentido o primeiro-ministro português ir saber o futuro pós-troika a Berlim e não a Bruxelas?


In 'Portugal desceu de divisão', excerto da entrevista de João Silvestre e Pedro Lima a José Félix Ribeiro, economista e ex-director do Departamento de Prospetiva e Planeamento.



*   *   *

Os textos em itálico são excertos de artigos publicados no Expresso de dia 22 de Março de 2013.

O Martial Solal Trio é composto por:  Martial Solal - piano; François Moutin - baixo; Louis Moutin - bateria

*   *   *

As crónicas semanais de José Tolentino Mendonça, Pedro Mexia, Ana Cristina Leonardo e outros que me mantêm presa ao Expresso. Com eles apetece primaverar. As suas palavras não se limitam a alegrar canteiros bem ordenados, a sua floração inédita dá-nos o endereço da torrente. Que coisa são as nuvens, fraco consolo e isto anda tudo ligado. Ah pois é.


Depois de, no post abaixo, vos mostrar uma mãe aflita, a patinar em seco, tentando explicar à filha o que significa 'virgem' e de, no seguinte, ter entrado na Maison Chanel para ver o enigmático Lagerfeld a preparar o desfile primavera/verão 2014, aqui, agora, parto para outra.

Poderia fazer a vontade aos leitores que entram no Um Jeito Manso escrevendo nos motores de busca frases como: 'revelada orientação sexual de deputados e ministros' ou 'artigo sobre a homossexualidade dos que votaram contra a co-adopção'. 


Desde há vários dias que estas questões me aparecem, algumas referindo os nomes em concreto. Claro que, logo no dia seguinte ao ex-dirigente do PSD Carlos Reis ter protestado contra a votação do PSD e CDS, confrontando alguns políticos com a sua coerência pessoal dado que, segundo ele, são homossexuais, recebi, de alguns leitores, o texto em questão com os nomes bem explícitos. Não publiquei nada na altura tal como não me pronuncio agora


Os nomes que lá aparecem são nomes de quem sobejamente se afirma a homossexualidade mas, assumi-lo publicamente, é coisa que é com cada um e não serei eu que aqui me farei eco disso. Aliás se eu sou favorável à co-adopção isso tem a ver com a minha consciência e não com a minha orientação sexual e, portanto, não é disso que vou aqui falar hoje.

Também não me pronunciarei sobre uma questão que ultimamente me aparece muito nas estatísticas do blogue: a magreza, que prenuncia doença, de uma certa figura pública. É doença, sim, mas não me parece que seja tema para aqui falar. Só se for para dizer que admiro a coragem dos que, apesar de ser notória a magreza e de saberem que poderão passar a ser olhados com uma certa comiseração, continuam a exercer as suas funções, tomando, inclusivamente, posição em assuntos controversos e, por isso, sujeitando-se a críticas e censuras incómodas.

Gostaria, pelo contrário, de falar de alguns artigos sobre a dívida portuguesa: é pagável? é para esquecer? fazer o quê? varrer o assunto para baixo da carpete? ... what...? - mas agora não me apetece.


*


Estou in heaven, na maior paz. Isto está a maravilha de sempre, a natureza delicada e pujante (se é que possível conciliar conceitos aparentemente contraditórios) que sempre me surpreende na primavera. E, quando estou assim, mergulhada em quietude e beleza, não me apetece nem um bocadinho falar em dívida descontrolada ou em estúpidos que não sabem lidar com situações complexas.

Além do mais, é quase uma da manhã, estou perdida de sono e estou a fazer tempo para o Downton Abbey que nunca mais começa. Ainda hei-de perceber a anormalidade das cabeças dos responsáveis pela programação das televisões que enchem os horários mais acessíveis com porcaria e mais porcaria e deixam as coisas boas para horas absolutamente impróprias. A estupidez instalou-se em todo o lado, senhores.

Por isso, se me permitem, em vez de falar de coisas chatas, vou antes primaverar.


Uma vez mais vou buscar as luminosas palavras do Pde. José Tolentino Mendonça.

As suas crónicas semanais quase justificariam o Expresso e fazem com que não me sinta burra de todo por comprar um jornal que aloja opinadores que atentam contra a inteligência de quem os lê como é o caso de um tal João Vieira Pereira de quem nem consigo pronunciar-me, um Henrique Raposo que escreve como um rapazola armado em esperto, um Duque cuja opinião varia consoante o sentido do vento, um Daniel Bessa cujos textos têm a consistência da enxúndia, um Henrique Monteiro que fala do que não sabe com uma soberba que induz em erro os incautos, um Ricardo Costa que disserta sobre evidências ou que se arma em zandinga, ou um José Mário Silva que não tem gosto literário apurado ou que, ao fazer uma crítica, revela coisas que o autor certamente gostaria de reservar para o momento certo (como é o caso da absurda recensão que faz do último livro de Dulce Maria Cardoso, o 'Tudo são histórias de amor').


No entanto, para ser justa, terei que dizer que não é só José Tolentino Mendonça que me cativa dentro da casa que é o Expresso. Pedro Mexia, sempre: é um príncipe na forma como escreve. Clara Ferreira Alves é outra âncora. Miguel Sousa Tavares também. João Garcia, Nicolau Santos, Fernando Madrinha são sempre portos seguros onde não se pode deixar de ir. Desde há pouco tempo, o Expresso tem uma das mais lúcidas vozes do jornalismo português: Pedro Santos Guerreiro. Um prazer ler o que escreve e provavelmente a ele voltarei amanhã. 


E não deixo também de ler as crónicas de Ana Cristina Leonardo, 'Isto anda tudo ligado'. Anda triste com isto tudo, ela, e compreendo-a, também eu me sinto muitas vezes cercada por mediocridade; além disso, do que percebo, as coisas não estão fáceis para ela. Por vezes, ao ler o que escreve, fico preocupada por ela. Depois de ter tido um lugar de destaque no Expresso, a sua presença tem vindo a reduzir-se. Não percebo porque não aparece mais na crítica literária. Nem sempre concordei com ela mas, apesar de uma ou outra divergência, reconheço que é culta, inteligente, que tem uma forma irreverente de estruturar as ideias. Por isso, lê-la não nos deixa indiferentes. O Expresso deveria reconsiderar alguns critérios: há nomes que atraem leitores e Ana Cristina Leonardo é seguramente um deles.


Quando penso em negócios a que eu gostaria de deitar mão, um deles é o de ter uma revista literária. A LER caminha cada vez mais para ser carta fora do baralho. O mercado de língua portuguesa tem espaço para uma nova revista. Tenho bem claro na minha cabeça o que seria uma revista boa e rentável e tenho também bem claro quem é que eu contrataria. Não contrataria nem o kitsch Valtinho, nem o inconsistente José Mário Silva, nem o Casanova, esse chato pedante. Mas contratava os acima referidos da área da escrita literária e talvez também o António Guerreiro. Gostava de quando ele escrevia no Expresso. E mais uns quantos, alguns bem improváveis (que aqui não divulgo porque o segredo é a alma do negócio e sei lá se um dia não me abalanço mesmo a isso).



Mas adiante, que já se faz tarde e eu ainda para aqui na conversa.

*

Green Kalahari, se faz favor.

Que Abdullah Ibrahim solte as suas mãos sobre o piano e deixe que a música nos envolva



*

Esquecemo-nos que as estações se conjugam como um verbo e que, por isso, a pimavera não é apenas um fenómeno exterior, um substantivo que descreve anualmente a natureza à nossa volta, mas é uma realidade que posso dizer de mim: 'eu primavero'. 



Desde o fio de erva à vegetação mais grandiosa, tudo passa por um incrível processo de rejuvenescimento. 

A vida parece uma rebentação, um contágio imparável, um sobressalto. 

Quando, de repente, tínhamos tudo para nos pensarmos completos, gastos ou acabados, descobrimos que a vida é o aberto. A verdadeira sabedoria, aquela que nos faz tocar o coração da vida, é a sabedoria do inicial, do verde tenro, do primaveril, do incessante. 

Desde que nascemos estamos não só prontos para morrer, mas estamos sobretudo preparados para nascer, as vezes que forem precisas.

Primaverar é persistir numa atitude de hospitalidade em relação à vida. Ao lado do previsto, irrompe o imprevisível que precisamos aprender a acolher. 


Misturado com aquilo que escolhemos, chega-nos o que não escolhemos e que temos, na mesma, de viver, transformando-o em oportunidade e desafio para a confiança.


A primavera não tem uma linha demarcada: transborda sempre e temos de preparar-nos para isso. Ela não fica a alegrar apenas os canteiros muito bem ordenados. A sua floração inédita dá-nos o endereço da torrente, para lá da vida que pensamos domesticada pelos nossos cálculos.


Pobres de nós: achamos que conseguimos dominar completamente o mundo com os nossos cinco sentidos! Precisaríamos, na verdade, de cinco mil para perceber um pequeno quinhão do que somos.

Há quanto tempo não caminhamos assobiando, ou seguimos com um fio de erva nos lábios, sem mais, sem pressas nem pretensões, acreditando simplesmente no valor de ser e que, por isso, nos dão a possibilidade de estar, de vaguear, de medir o momento apenas com o peso e a leveza da própria marcha?



Quando vamos de um lado para o outro estamos, normalmente, presos aos motivos que justificam a deslocação. 

Mas - temos que reconhecê-lo - uma viagem assim é demasiado curta. Há uma outra viagem que só começa quando as perguntas sobre o que fazemos ali deixam de interessar. 

Estamos, ponto final. Viemos.







Não é o saber ou a utilidade que a definem, mas o próprio ser, a expressão profunda de si. 



A sabedoria dos que primaveram não consiste, assim, num reconhecimento prévio, mas em alguma coisa que se descobre na habitação do próprio caminho.






***


O texto acima, em itálico, é formado por excertos da crónica 'PRIMAVERAR' de José Tolentino Mendonça da Revista do Expresso deste sábado.


As fotografias foram feitas este sábado in heaven onde a primavera rebenta fora de canteiros, livre, iluminada, feliz como os inocentes pássaros e coelhos que são os verdadeiros donos deste espaço.


***

Recordo: por aí abaixo há vídeos bons de ver.

***

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo. 
E primaverem, meus Caros, primaverem. 


Mãe, o que quer dizer 'virgem'?, pergunta a inocente menina.


Depois de, no post abaixo abaixo, ter entrado na Casa Chanel para, em conjunto convosco, assistir à preparação do desfile de moda primavera/verão 2014 na versão alta-costura, agora aqui mostro um filme em que uma mãe, com alguma dificuldade, explica à filha, uma criança talvez de cinco ou seis anos, o que significa 'virgem'.

Não é fácil, convenhamos, mas, ainda assim, é sempre bom estarmos preparados e, sobretudo, antes de nos embrenharmos num exercício de alto risco, convém pensarmos duas vezes. Caso contrário, corremos o risco de nos atirarmos para fora de pé e, quando dermos por ela, estamos mas é a nadar em seco.



*

Moda Primavera-Verão 2014. Chanel, claro


Eu sei, meus Caros, que os tempos não estão para loucuras mas, se não podemos ser loucos de verdade, o que nos impede de imaginar, de contemplar a loucura alheia? E... qual loucura...? Não, não é loucura, é beleza, é arte.

Não dá para usar todos os dias? Paciência. Não chegamos lá? Paciência.

Mas ver não faz mal. Tirar ideias também não. 

Gosto de (ver) Chanel, que hei-de eu fazer? 

Aqui há tempos, ia a um casamento em Seteais, uma coisa muito especial de corrida, e então, estando de férias em Madrid, fui ali ao bairro dos artistas, para as bandas da Serrano, escolher um modelito. Queria uma coisa pouco convencional e lá a oferta é múltipla, é a zona dos costureiros.

Fui a um deles, uma conhecida casa francesa, e experimentei um vestido em lilás claro, um modelo bem à maneira. Mas estava um bocado justo (ou seria largo?, já não me lembro bem). O costureiro que estava a ocupar-se de mim, escolheu-me uns sapatos em verde água, uma capa também em verde água, a ligação ficava perfeita. Mas o que eu gostei mais é que ele era bicha, completamente bicha, e todo ele me ajeitava, me puxava o vestido (que era cai-cai e quase caía), punha alfinetes, aconselhava-me a pôr a capa de uma certa maneira, sugeria um penteado que valorizaria o conjunto. Uma maravilha. Se me saísse o euromilhões, não me importava nada de ter um conselheiro de moda assim, muito bicha, com muita paciência para me pôr toda fashion. Acabei por não trazer, precisava mesmo de uns ajustes e eu não podia lá ficar o tempo suficiente para que fizessem os arranjos.

Mais à frente descobri o modelo que acabei por trazer, uma toilette linda, em azul alfazema e preto, um tecido sumptuoso, elegantésimo. Qualquer mulher ficaria bem lá dentro e a vantagem é que é suficientemente versátil para poder ser usado em situações com algum requinte mas que não precisam forçosamente de ser uma festa especial.

Bem, mas vou deixar-me de conversas e vou deixar-vos com a moda para a saison em que acabámos de entrar. Karl Lagerfeld, o Mestre, o Mago, acompanha a preparação do desfile Chanel.

Ah, as pedrarias, a delicadeza das cores, a estrutura perfeitas dos cortes.... Lindo, lindo.




O show CHANEL Spring-Summer 2014 Haute Couture teve lugar no final de Janeiro no Grand Palais, Paris.


A música chama-se Coco e é de Sébastien Tellier, em versão tango.


sábado, março 22, 2014

'O emprego' - ou 'a desvalorização do trabalho' - ou 'o mundo medonho que, passivamente, vamos permitindo' - ou, 'ao fecharmos os olhos, somos coniventes com a escravatura e com a indignidade' - ou 'não podemos dizer que não sabemos'. Um vídeo de Santiago 'Bou' Grasso rigorosamente a não perder.


No post abaixo falo dos livros de Maria Filomena Mónica sobre o que se passa dentro das salas de aula. Antes, estive a dormir e, quando abri os olhos, estava ela a ser entrevistada. Pus-me logo esperta. Gostei imenso de a ouvir.

Sobre isso falo a seguir.

*


Não foi feito em Portugal este vídeo que abaixo vos mostro até porque o que se passa em Portugal não é um problema especificamente português. 

Talvez que a especificidade portuguesa resida na passividade bovina com que aceitamos tudo o que mesquinhas mas poderosas criaturas impõem a Portugal.

Enquanto nos outros países há uma revolta activa, quase uníssona, há um vigoroso cerrar de fileiras, aqui, bem comportados, doentiamente diplomáticos, criticamos quem se revolta, lamentamos quem ousa levantar a cabeça. Não é oportuno, não havia necessidade, dizem.

E, perante a boa educação, a gentileza e a cumplicidade das pias lusas almas, o mal vai alastrando.

*

Afastada que estive do mundo durante dois dias, cheguei a casa com a cabeça a modos que esvaída e, ao cair no sofá, automaticamente apaguei.

Tenho esta facilidade. Trabalho durante horas impensáveis, suporto o stress, mantenho o ânimo mesmo perante a adversidade mas, quando me deito, o meu corpo desliga-se automaticamente. Ao fim de pouco tempo, acordo, fresca como uma alface.
Por exemplo, na quinta-feira à noite, no hotel, dormi como uma pedra. E dormi desde o preciso momento em que me deitei. De manhã, como usualmente, os meus colegas queixavam-se da cama, da almofada, da luz que entrava pela janela, do barulho do corredor. Eu nada. Acho que a cama devia ser maravilhosa bem como tudo o resto, dado que dormi de seguida, como uma pedra.
Apago: não dou por nada. Acho que deve ser a isto que se chama sono dos justos.

Mas, dizia eu, adormeci no sofá e acordei há pouco. Ainda deitada no sofá, vi a Filomena Mónica (e disso, como já referi, falo no post abaixo) e, depois, para saber a quantas anda o mundo, dei uma volta por alguns blogues. E, caraças, fiquei estupefacta.

Apela-se a que se ponha um travão nesta política criminosa (uma política de destruição de riqueza através de uma austeridade cega que suga a vida do país para a transformar em juros que são canalizados para bancos e que, ainda assim, não podendo ser todos pagos, se vão acumulando à dívida, atolando o país de uma forma que o deixam sem seiva, sem oxigénio, à mercê de golden visas a criminosos ou a quem quer que cá queira vir acoitar-se) - e algumas pessoas esclarecidas, em vez de apoiarem a iniciativa com ambas as mãos, põem-se com pruridos, tiques de tia controladora de bons costumes, remoques incompreensíveis.

Fico revoltada. 

Um país em que os jovens ou emigram ou têm que se sujeitar a empregos escravizantes, em que os desempregados se sujeitam a todas as humilhações para poderem receber uma verba miserável, em que meio milhão de pessoas já não recebe qualquer verba, em que o trabalho é desprezado por um governo ultrajante, deveria unir-se e exigir respeito pelas pessoas. 

As pessoas somos nós. As pessoas têm que ser respeitadas. As pessoas não são objectos descartáveis.

Já aqui o disse muitas vezes. Apesar de indecentemente esbulhada pelo fisco, sou uma privilegiada. Sei que sou e sinto-me abençoada e agradecida por isso. O que eu e o meu marido temos devemo-lo ao nosso trabalho - mas podíamos não ter sorte e, até aqui, temo-la tido. Mas não é por me sentir afortunada que deixo de imaginar o que é o sofrimento de quem é vilmente acossado, tendo que optar entre um livro ou comida, entre comprar medicamentos ou comida, ou que se levanta de manhã sem ter um objectivo na vida, uma ocupação, um trabalho remunerado.

Sou privilegiada sim e, por saber que o sou e por não suportar a ideia de que haja quem viva mal devido à estupidez, ignorância, maldade de um bando, não me cansarei de lutar contra o mal e a favor dos que pouco têm. Não me cansarei. Não me importarei que achem que sou pouco polida, que falo sem punhos de renda, que viro a mesa, que parto a louça, que bato com a porta. É verdade que sou assim mesmo e acho que ainda sou pouco. Soubesse eu o que mais fazer e mais faria.


*

O filme que aqui vos vou mostrar é terrível. Terrível mesmo. Há uma solidão tremenda que se abate sobre aquelas tristes pessoas. Ou sobre nós.

É um filme que expressa bem a sociedade que estamos a permitir que se desenvolva sob o nosso olhar. Não podemos dizer que não sabemos. Sabemos.

Enfermeiras a recibo verde e em trabalho temporário que ganham uma miséria e que trabalham horas a fio, jovens licenciados que trabalham por uma miséria em call centers, tantos, tantos, tantos casos. Gente que fica desempregada aos 50 sem qualquer esperança mais na vida. Pessoas de idade que vêem as reformas cortadas e que, para sobreviverem, têm que ir de mão estendida aos filhos, apesar de saberem no sufoco em que eles também estão.

Que raio de país é este?

Que raios de portugueses somos nós que permitimos isto e em que alguns ainda se dão ao luxo de aparecer em público com remoques em relação aos que corajosamente ousam pedir o alívio para este sofrimento?



EL EMPLEO



'El Empleo' - Ganhador de 103 prémios internacionais 


  • Direcção: Santiago 'Bou' Grasso (argentino, desenhador, ilustrador e animador, formado pela Facultad de Bellas Artes da Universidad Nacional de La Plata)

  • Ideia: Patricio Plaza
  • Animação: Santiago Grasso / Patricio Plaza
  • Produtora: Opusbou


***

Relembro: sobre os livros de Maria Filomena Mónica com diários de professoras e alunas relativos ao que se passa nas salas de aula, é descer, por favor, até ao post seguinte.


***

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom fim de semana.


Maria Filomena Mónica e os diários numa sala de aulas onde professoras e alunas descrevem o que lá se passa


Vi há pouco Maria Filomena Mónica a ser entrevistada por Ana Lourenço. 


Naquele seu ar destravado, falou apaixonadamente sobre o tema dos seus novos livros. Desta vez gostei de a ouvir. 


Esclareceu que os livros, que descrevem a hecatombe do ensino público português, não significam que ela defenda o ensino privado sobre o público. Explicou que é ao contrário. 


Explicou que o ensino público tem que ser defendido de quem, por astúcia ou inépcia, o tem vindo a destruir.



E descreve aulas de trinta alunos onde os professores não conseguem dar aulas, não conseguem conhecer bem os alunos. Descreve uma carga burocrática sobre os professores que lhes retira a criatividade e o ânimo para preparar bem as aulas, descreve métodos absurdos que o Ministério inventa para controlar professores.

Reconhece que haverá alguns professores baldas (- mas há alguma profissão em que os não haja?), reconhece que a culpa não é exclusivamente deste ministro paranóico, reconhece que os pais também são responsáveis porque não ligam à educação dos filhos, reconhece que não é só a escola pública que está mal - e, descrevendo o que se passa nas salas de aula, descreve um cenário preocupante. Os manuais escolares são mal feitos, os programas são absurdos, as salas estão cheias demais. Tudo está mal.

Ora, e isto já sou eu a perguntar, se a escola não prepara bem os alunos e se os jovens avançam na vida sem saberem aprender e sem saberem comportar-se, que raio de sociedade é esta que estamos a desenhar?

E que raio de sociedade é esta que permite que uma das profissões mais nobres do mundo, a de professor, seja tão desprezada? Como podemos permitir que bandos de ignorantes, de medíocres, de fala-baratos, de vendidos (e estou a referir-me a governantes, deputados e papagaios avençados) façam tanto mal a uma profissão e façam tanto mal a um País?

Gaita!


sexta-feira, março 21, 2014

Em noite de retiro espiritual, furo o esquema e escapo-me para um clube muito especial: Nude Girls Reading. Um clube muito privado, claro.


Música por favor: Read in the nude





Pois cá estou. Quando ontem estava a preparar a valise eis que não a encontro. Mistério. O meu marido, que é mais atinado que eu, recordou-se que eu a tinha emprestado ao meu filho quando ele foi visitar umas aldeias em Itália. Juraria que já a tinha usado depois disso, que fosse o meu marido a despachar-me para eu não o fazer procurar melhor no armário das malas (o sítio onde estaria é lá no alto e eu não chego, só ele). Afinal o meu filho confirmou, ainda a tem, sim senhor. 

Lá trouxe uma outra de tipo saco, problema nenhum. Mas, porque não acomoda tão bem, não trouxe o computador usual, trouxe outra vez o pequenino. Anda a pedal, senhores, deve estar outra vez a actualizar tudo e mais alguma coisa. A pedal, que seca.

Isto não está a correr bem. Liguei a televisão já passava das 11 da noite e eu preparadinha para a Quadratura do Círculo. Seria uma forma de me ligar ao mundo tal como eu o frequento habitualmente. Nada. O fulano do futebol, aquele de caracolinhos e óculos que fala como um intelectual da coisa. Não sei como se chama mas é um chato do caraças.

Depois, tento navegar aqui nesta porcaria para saber notícias e isto empastela, empastela. Não sei se já apareceu o avião da Malásia, se já apareceu a Maddie, se mais 74 pessoas, desta vez talvez assessores do próprio Governo, apoiaram o Manifesto a favor da Reestruturação, se o Putin já raptou a Merkel, se a Judite já entrou em guerra com o Moniz. Não sei nada, que impressão que isto me faz.

Queria falar sobre o Dia da Felicidade - que nesta fobia de haver dias para tudo e mais alguma coisa agora até há o da felicidade e tenho ideia que calha no dia em que começa a Primavera (que eu tinha ideia que começava a 21 e agora mudou para 20. Ou então sou eu que estava enganada. Ou que estou baralhada). Queria confirmar mas esta porcaria agora diz-me que tenho que desligar para instalar as actualizações. Ou seja, sempre esteve para aqui a descarregar actualizações. Daqui a nada ainda se desliga.

Por isso, não vá não ter sido Dia da Felicidade coisa nenhuma, não me arrisco a pôr-me para aqui a dissertar sobre uma coisa que não tem nada a ver.

E, dado que amanhã tenho que madrugar, vou já abreviar.

Uma vez mais estou numa cidade linda, mas linda mesmo linda, e só a vejo de carro a caminho do hotel ou entre o hotel e o local das reuniões. E tudo isto se passa às primeiras horas da manhã e às últimas da noite. Será isto normal? Eu acho que não mas é esta a minha vida. Claro que podia cá ficar para o fim de semana mas teria o meu marido que vir ter comigo e depois tínhamos que regressar em dois carros, coisa que não daria jeito nenhum. 

Enfim. É que ninguém facilita, bolas. Toda a gente poderia admitir que o programa de festas contemplaria uma manhã livre - mas não. Dado que isto é tudo homens e é mais do que sabido que os homens não têm um pingo de sentido prático, armam-se em homens de negócios (que, por acaso, até são) e vá de marcar reuniões que começam mal o sol nasce. 

Bem. Vou ler. Devia ir ler mails mas isso fica para amanhã de manhã. Vou ler coisa melhor e isto se não adormecer de súbito.

E, a propósito de ler: sabem aquele clube especial que tem um motivo de atracção?

Eu conto. Ou melhor: eu mostro. Mulheres nuas a ler. Naked girls reading. Acho o máximo.


Transcrevo um pouco:

Naked Girls Reading is "a group of beautiful ladies who love to read... naked." The concept first began in 2009 in Chicago, as the brainchild of erotic luminaries Michelle L'amour and Franky Vivid. 



It has since grown to include NGR chapters around the country and the world. 

These live events feature a cast of nude women reading literary selections aloud for an adult audience. 

The subject matter read varies from show to show; for example, themes may include mystery novels, poetry, biographies, even song lyrics and instructional manuals!


Não sei se por cá há disto mas acho uma ideia interessante. É o que eu digo: um dia que me reforme (daqui por uns 50 ou 60 anos, pelo andar da carruagem), não me vão faltar ideias de negócio.

A diferença para isto é que não seriam só mulheres nuas a ler. Haveria também sessões de leitura a cargo de homens. Nus, claro.

.....

E, esperando que também tenham achado uma boa ideia, por aqui me fico. Não tarda tenho que estar a pé, pronta para uma longa maratona. É que se isto fosse um retiro espiritual ainda dava para ir até à piscina, meditar, ler (nua ao sol), cantar uns hinos à felicidade (quiçá de mão dada com os meus colegas), tudo peace and love, amor na gestão, ética, sustentabilidade, tudo green e coisa e tal, aleluia irmãos. Mas não. Por isso, deixa-me mas é ir dormir senão amanhã ainda me dá o sono a meio de alguma coisa importante.

.....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma sexta feira muito feliz.

quinta-feira, março 20, 2014

Sou um bocado de esquerda e um bocadinho libertária. Ou seja, sou muito parecida com o Gandhi (enfim, parecida é como quem diz: ele era um pouco mais de esquerda e, sobretudo, não tinha cabelo e eu tenho muito). É o meu Political Compass.


No post a seguir a este falo dos novos 74 apoiantes do Manifesto a favor da Reestruturação da Dívida. 

Depois falo da Ratolândia, uma fábula de gatos e ratos que muito vivamente vos recomendo. Não deixem de ver o filme pois é engraçado e oportuno (especialmente em tempo de comunicação de Cavaco Silva ao País, ensinando como nos devemos portar nas eleições).

Mais abaixo, no post que se lhe segue, deslizo. Tenho que reconhecer: tenho alguns defeitos. Não muitos mas tenho. Não fiquem admirados. Eu bem que tento enganar-vos a ver se vos convenço que sou a perfeição em forma de gente mas, por amor à verdade, aqui vos confesso; tenho alguns pequenos e insignificantes rasgos na minha perfeição. Eu concretizo. Sou gulosa e tenho dificuldade em resistir à gulodice, ou seja, sou preguiçosa no que se refere a resistir a tentações. Verão porquê.

*

Mas isso é lá mais para baixo. Aqui, agora, a conversa é outra. 

No outro dia fui atrás de um blogue que aqui me aparecia nas estatísticas. Não é que eu seja muito cusca até porque o tempo me escasseia para deambulações dessas mas o nome do blogue chamou por mim. A Física sempre me atraíu embora mais por razões estéticas do que outra coisa. Isso e ser uma coisa misteriosa. Quarks, quantum, coisas quase abstractas, muitas delas cuja existência se adivinha pelo rasto. Os livros da Universidade de Berkeley eram um fascínio. Agora nem sei onde é que eles andam. Na volta ficaram em casa dos meus pais.

Ou seja, fui espreitar o dito blogue. Não o divulgo agora aqui porque, da espreitadela rápida que lhe dei, ainda não concluí nada. Vi coisas que me parecem ser de um direitolas pré-histórico, conservador, coisa do tempo da velha senhora, nem sei, daqueles que até me assustam mas, no entanto, parece ser pessoa inteligente e talvez até intelectualmente honesta e, portanto, requer apreciação mais aturada. Contudo, ao espreitar, dei com uma coisa daquelas que desperta a minha curiosidade: The Political Compass. Agora que estou a escrever fui lá outra vez para confirmar e para ver quais os resultados que o autor do dito blogue obteve. Tenho ideia que o teste confirmava que, de facto, anda por quadrantes opostos aos meus mas agora não dou com isso. Se tivesse tempo procurava melhor mas não tenho. Amanhã saio cedo e de mala aviada, dois dias fora a trabalho e, portanto, não posso madrugar em pesquisas cuscas.

Mas, enfim, fiz o teste para ver o que me dava a mim. Nada que eu não estivesse à espera.

O dito teste, composto por um ror de perguntas, valida o nosso posicionamento segundo o eixo social e económico, variando entre o autoritário e o libertário quando na perspectiva social, e entre a esquerda (comunista) e a direita (neo-liberal) quando na perspectiva económica.




Para se perceber melhor, na nota explicativa, colocam nomes nos quadrantes. Não sei se questionaram as ditas pessoas lá onde eles estão, se arranjaram mediums para se comunicarem com elas ou o quê. Não interessa. O que conta, nestes casos, é a intenção e a intenção é dar exemplos.





Pois bem. Tendo respondido em menos de um foguete a todo o teste, que o tempo não abunda e nisto mais vale nem pensar, o que o Political Compass deu para mim foi, nada mais, nada menos que isto:



Economic     Left/Right: -4.00
Social      Libertarian/Authoritarian: -2.77


ou seja, se repararem bem, piso quase o mesmo terreno ideológico que Gandhi. Nenhum outro resultado me poderia orgulhar mais.

Ele era um pouco mais de esquerda que eu mas, ainda assim, fico satisfeita.

Não sou comunista nem anarquista, sou de uma esquerda moderada, com preocupações sociais e acreditando na necessidade de alguma ordem mas nada de uma ordem de cariz autoritário. 


Acredito na liberdade e na democracia participada.



Agora digam-me vocês: com esta minha maneira de ser e de ver o mundo, vou votar em quem nas próximas eleições?

Aliás, ainda hoje confessei ao meu marido que, para estas eleições, estou com maus instintos e tão maus eles são que nem me atrevo a confessá-los aqui. Pelo menos por agora.

(Ao meu marido, que é esperto, bastou que eu dissesse isto para perceber logo as minhas intenções. Mas eu nem fui capaz de verbalizar, limitei-me a dizer que sim com a cabeça).


***

Relembro: por aí abaixo há material para todos os gostos. E tanto ele é que nem vou poder rever. Tomara que não tenha disparates graves pois nem tão cedo poderei emendar. E as vírgulas, senhores, tão ciosa eu sou em que apenas pousem nos sítios certos e tão voadoras elas são quando me apanham apressada ou distraída.

Outra coisa: não sei se esta quinta à noite vou conseguir escrever alguma coisa. Seria bom que estivesse em retiro espiritual mas não: estou mesmo a trabalho, com agenda cheia nos dois dias desde o pequeno almoço ao jantar. Mas vou tentar. Gosto de falar convosco.


***

Se forem até ao Ginjal, verão o vídeo bem disposto que lá coloquei hoje. Mete assobio, mão na perna e sei lá que mais.

***

E, assim sendo, por hoje fico-me por aqui. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira!

74 economistas estrangeiros apoiam o Manifesto a favor da Reestruturação da Dívida. É um apoio importantíssimo. [E não deixa de ser curioso vermos Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite a darem o peito às balas nesta guerra. Corajosos.]


Este é o terceiro post desta noite. Aliás já estava a escrever  o quarto quando ouvi esta notícia.

Eu sei que, quando foram ministros, Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix não foram impolutos e, na altura, muitas vezes o critiquei. Não tinha blogue nessa altura nem sei se já os havia nessa altura. Mas, nos meus círculos, sempre fui opinativa e, do que me lembro, sempre tive um pé atrás em relação a eles. No entanto, meus Caros, entre Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix e esta gente impreparada, ignorante, sem moral, gente que não sabe o que é a pátria ou que desconhece conceitos como solidariedade, justiça social ou ética, vai um mundo de diferença. Não há comparação possível entre eles e Passos Coelho, Paulo Portas, Albuquerque, Gaspar. É outra gente.

E, admitindo que todas as pessoas erram e todas as pessoas de bem merecem que as perdoemos e lhes concedamos uma segunda oportunidade, o que tenho a dizer-vos é que me vejo a concordar com muita frequência com as posições que têm defendido e devo, mesmo, confessar que os acho corajosos e patriotas. Sabendo que os iriam acusar de tudo e mais alguma coisa, eis que ambos se levantam e, sem medo, dizem o que pensam, batendo-se como uns leões pelo País e pelos seus concidadãos.



Claro que há 74 pessoas e estou a falar apenas em Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix. Mas, enfim, pelo inesperado que é, dado virem exactamente dos dois partidos da coligação governamental e dado terem sido ambos Ministros das Finanças, acho que merecem um louvor especial.

Pois bem. Já não são apenas 74 personalidades nacionais que defendem que a dívida é impagável nos moldes em que as coisas estão a decorrer e que a única solução é que se invertam as políticas e se proceda à sua reestruturação. Agora há mais 74. Vêm de vários países e têm diferentes profissões.

São mais de 70 nomes prestigiados e este apoio internacional é importantíssimo.


Transcrevo o início do artigo do Público: 

São 74 economistas estrangeiros que agora se vêm juntar às 74 personalidades portuguesas que, na semana passada, publicaram um manifesto a defender a reestruturação da dívida pública nacional. São economistas, muitos com cargos de relevo em instituições internacionais como o FMI, editores de revistas científicas de economia e autores de livros e ensaios de referência na área.


Estes economistas assinam um documento – com um conteúdo muito semelhante ao manifesto promovido por João Cravinho – intitulado “Reestruturar a dívida insustentável e promover o crescimento, recusando a austeridade”, no qual manifestam total concordância com o documento subscrito por vários políticos portugueses (de Manuela Ferreira Leite a Francisco Louçã), empresários, sindicalistas, académicos e constitucionalistas.

Neste novo manifesto, os 74 economistas estrangeiros dizem apoiar “os esforços dos que em Portugal propõem a reestruturação da dívida pública global, no sentido de se obterem menores taxas de juro e prazos mais amplos, de modo a que o esforço de pagamento seja compatível com uma estratégia de crescimento, de investimento e de criação de emprego”.

Subscrevem este manifesto, a que o PÚBLICO teve acesso, académicos de várias correntes de pensamento económico e de muitas nacionalidades: dos EUA, Canadá, México, Brasil, Argentina, África do Sul, Austrália, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Espanha, Grécia, Estónia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Áustria, Polónia e Suíça.


Tomara que apareçam mais 74 e mais 74 e mais 74 e mais 74 e mais. E que o País acorde e que a Europa acorde. Tomara.


**

Relembro: indo aí abaixo podem continuar a ler os posts de hoje.

quarta-feira, março 19, 2014

'Cavaco pede contenção aos portugueses nas próximas eleições' - votem preto ou votem branco, mas votem bem, votem gato. [Vejam e ouçam, Senhores e Senhoras, a fábula da Ratolândia e perceberão o que vos digo]


No post abaixo já vos confidenciei qual poderia ser um dos meus hobbies nos próximos tempos. Coisa pouco canónica, dirão os meus Caros, sempre desejando que esta aqui que vos escreve se porte bem. Pois. A questão é que esta aqui que vos escreve tem dias. Ou melhor: tem momentos.

Já aqui, agora, estou engagée. Pronta para a luta. No intervalo dou uma escapadinha para me portar mal mas, passado esse momento, eis-me capaz de depor todos os governos de palermas deste mundo.

Ora bem. Não ouvi Cavaco Silva a convocar as eleições europeias. Estava noutra. Os meus horários não são compatíveis com prime times. Apenas li no Expresso online. O Presidente da República apelou hoje aos partidos para que evitem "querelas artificiais e controvérsias estéreis" durante o período da campanha eleitoral para as eleições europeias, que marcou para o próximo dia 25 de maio, bla bla bla, bla bla bla.

E eu a pensar nisto quando vejo um dos vídeos com que o incansável Bob Marley me presenteou - e nem de propósito.

Transcrevo o texto de apresentação do vídeo que deve mesmo ser visto.

A fábula Mouseland (em português: "Ratolândia") foi inicialmente contada por Clarence Gillis e mais tarde popularizada em discurso por Tommy Douglas, político canadiano. A fábula expressava a visão de que o sistema político canadiano estava viciado, pois oferecia aos eleitores um falso dilema: a escolha de dois partidos, dos quais nenhum representava os interesses do povo.


Na fábula, os ratos (o povo canadiano) votavam nos gatos negros (Partido Progressivo Conservador) e depois de algum tempo descobriam o quão difícil suas vidas eram. Depois votavam nos gatos brancos (Partido Liberal) e assim ficavam alternando entre os dois partidos. 

Um dos ratos tem então a ideia de que os ratos deveriam formar seu próprio governo...

*

Ora bem. À bon entendeur, salut !



*

Caso queiram imaginar esta aqui que vos escreve a borrifar um bando de encalorados moçoilos, queiram, então, por favor, descer até ao post seguinte.