segunda-feira, janeiro 23, 2012

Passear nas ruas de Lisboa (Chiado, S. Pedro de Alcântara, Tejo), fazer fotografias de rua - uma receita para tempos de crise. E fado com António Zambujo e dança com a Companhia Nacional de Bailado .


Este sábado depois de almoço, a caminho do heaven, fomos dar um passeio pelo Chiado que é um dos sítios mais bonitos, mais felizes e mais sagrados de Lisboa. Como sempre, estava uma animação - muitos jovens, casais elegantes, grupos de raparigas alegres e ruidosas, música, uma burguesia desempoeirada, vários casais de gays, escuteiros, estrangeiros, intelectuais provavelmente de esquerda. 



A Lisboa cosmopolita está ali, com o rio a espreitar lá de baixo.

E eu vou passeando, gosto de ouvir pontas de conversas, de ver sorrisos, gosto de ver quem passa, gosto de fotografar. Mais de cento e cinquenta fotografias. Depois seguimos, devagar, vendo montras. Seduzem-me os antiquários, com peças especiais, objectos delicados.

Antiquário na Rua da Misericórdia

E há imensa gente a fotografar a cidade, e as casas que começam a aparecer arranjadas, com a dignidade devida a uma capital europeia.

Quando eu andava a estudar, adorava percorrer estas ruas, andar pelos alfarrabistas e pelas livrarias. (Uma vez encontrei o Fernando Namora na Sá da Costa e ali, de súbito, peguei num livro dele, pedi-lhe um autógrafo e, parva, depois ofereci esse livro autografado ao namorado da altura. Paciência, já era.)

Vi, com pena, que a Pórtico está em liquidação, montras cobertas, ar de coisa que acabou. Tantas coisas que lá comprei para a minha casa. A Pórtico tinha várias salas, e subia-se e por trás das escadas havia outras salas e tantas coisas lindas e com preços bastante razoáveis. E comprava lá presentes para pais, sogros, cunhadas, tantas coisas bonitas. Fiquei mesmo entristecida.

Mas, em contrapartida, há lojas novas, galerias, espaços bonitos, uma qualidade requintada.


Estava uma tarde amena, um sol muito suave, as pessoas deslizavam sorridentes, conversando, uma primavera antecipada. E os passeios de calçada tão característicos, as ruas estreitas e cheias de gente e tudo tão animado como se este belo país não estivesse ameaçado por esta crise, como se uma gente impreparada e servil perante a troika e perante a Alemanha de Merkel não andasse a destruir a esperança num futuro decente. Nem eu, nem nenhuma das pessoas que ali andava, leve, pensava certamente nessas coisas maçadoras.

Galeria muito elegante
na R. Nova da Trindade

Lisboa, este sábado, era pois um sítio civilizado, feliz, um dos melhores sítios para se viver. Um pouco mais abaixo, no Marquês, concentravam-se as pessoas para mostrarem a sua indignação e mais um pequeno grupo que quis também lá ir dizer qualquer coisa, não sei exactamente o quê. Provocaram-se, arreliaram-se e vi, à noite, na televisão que chegaram a vias de facto. Nada de grave, nada de importante. Movimentos informes e sem um projecto conceptualmente bem definido não passarão nunca de grupos de catarse colectiva, nada mais que isso - e não é disso que se precisa. Mas mal também não faz, desopilam e isso é sempre bom.

No miradouro de S. Pedro de Alcântara

De seguida, subimos um pouco mais, apetecia-me reviver o ambiente e a vista de S. Pedro de Alcântara. Tanta gente ali, um jardinzito que, como jardim, até pode não ser extraordinário mas que vista, que vista...! Tantas vezes dali avistei Lisboa e, de todas, me deixo ficar assim, deleitada, este espaço limpo, estes telhados ao longo das colinas, e a Sé e o Castelo e o rio. Impossível ficar-se indiferente a tanta beleza. 

E se vos parece que isto está um texto sem jeito, descaradamente turístico, então deixem que vos desiluda um pouco mais porque já aqui abaixo vou colocar um fado (claro, não é? Pode falar-se de Lisboa e não referir o fado, ora essa?). Então, por favor, silêncio que António Zambujo vai cantar o fado, o 'fado da vida bela' (whatelse, no meio dum texto como o que estou a escrever...?)




Mas a coisa não fica por aqui porque a seguir fomos junto ao rio, e foi outra maravilha - gente a tocar viola, gente abraçada, gente a passear, miúdos a fazerem skate, gente a passear de bicicleta, gaivotas, veleiros, um rio escandaloso de tão belo, um céu limpo, velhos a dormir ao sol, crianças a correr, uma tarde feliz. 

Passeio rente ao rio entre o Cais do Sodré e o Terreiro do Paço

Eu sei que tanta felicidade pode cansar mas, meus Caros, tenho este defeito, que querem? Não padeço de spleen que é uma maleita que tanto enfeita de erudição os putativos ou os recém-intelectuais. 

Sou uma criatura básica, que fica radiante  perante coisas assim ou que fica fula da vida com a parvoíce alheia (com a minha já aprendi a conviver). 

E adoro cidades. Mas é que adoro mesmo. E adoro pessoas. Fotografar pessoas nas cidades, então é uma coisa que faz o pleno.

(Ah, deixem-me contar-vos. Ando pela rua sempre à procura de pessoas que possa fotografar. É uma adrenalina porque, se a situação se proporciona, naquele mesmo instante tenho que apontar, focar, enquadrar minimamente, disparar - e tudo sem que a pessoa dê por isso, senão estraga-se o momento e, sobretudo, corro o risco de a pessoa não achar graça nenhuma. 

No outro dia, ia eu na rua muito descansada, naquela altura estava sozinha, e ouço uma voz de homem atrás de mim:  'Olhe! Quem é a senhora? Faz favor de se identificar!" e eu já atrapalhada: 'Mas porquê?". E o homem, ar enervado, "É que a senhora esteve a tirar fotografias aos meus empregados e eles vieram-me dizer."

Percebi. Do outro lado da rua, mais abaixo, estavam uns homens, jeitosos por sinal, jovens, ar de leste, blusas de alças, uma coisa tipo anúncio coca-cola, carregando ao ombros grandes baldes de entulho e eu, discretamente, a fotografá-los. 

Então lá me justifiquei :" Ando a passear, estive a tirar fotografias lá em baixo e vi-os e apeteceu-me fotografá-los mas, se há problema, apago. Quer ver?" O homem espreitou e eu mostrei a última das fotografias, que apaguei à frente dele. E ele ainda zangado "é que se quer tirar fotografias, tem que pedir primeiro" e lá foi irritado, mas descansado. 

Deviam ser trabalhadores clandestinos, está bem de ver. Desta vez foi fácil mas estou sempre com medo do que pode algum dia acontecer. Andar a tirar fotografias à sorrelfa comporta alguns riscos.)

Mas, enfim, continuando: Lisboa à beira Tejo estava uma maravilha e então, para encerrar isto, lembrei-me de vos mostrar um excerto de um bailado da Companhia Nacional de Bailado com música de Bernardo Sassetti , 'Uma coisa em forma de assim'. Tenho ideia de que, já uma vez, aqui o divulguei mas não faz mal, vale bem a pena.




Coreografias de Clara Andermatt, Francisco Camacho, Benvindo Fonseca, Rui Lopes Graça, Rui Horta, Paulo Ribeiro, Olga Roriz, Madalena Victorino e Vasco Wellenkamp


E, então, depois disto tudo, qual a moral da história? Simples: passear, desfrutar a cidade, olhar as pessoas, gostar das pessoas, ouvir música, ler livros, dançar, amar. Não custa dinheiro, encaixa-se bem em orçamentos apertados e proporciona um bem estar fantástico.

E tenham, meus Caros, uma bela semana ! Enjoy!
  

domingo, janeiro 22, 2012

Guimarães, 'nós fazemos parte' da capital europeia da cultura. E a Orquestra 'que embala o berço'.

Estou com muita vontade de lá ir. Parece-me ser uma coisa com qualidade.



A Orquestra dirigida pelo Maestro Rui Massena - fantástica.

....
Nota: Como podem ver, hoje comecei a colocar ali ao lado uma lista dos blogues que conheço e que visito. Sendo eu consideravelmente desconhecedora do quem é quem na blogosfera, tive conhecimento da grande maioria através das estatísticas do blogger dado que são blogues que costumam visitar os meus e cujo link fica registado - e atrás de quem eu fui. Se alguns dos meus leitores que têm blogues não os virem ali não fiquem aborrecidos comigo - a não inclusão na lista ali ao lado quer, com certeza, apenas dizer que não os conheço ou que, por razões técnicas,  não os consegui colocar (em relação a alguns recebi a mensagem de que não tinham 'feeds' ou coisa que o valha)

Para os identificar, não usei o seu nome próprio mas segui a ideia da Margarida que até há pouco tempo os identificava com nomes que ela própria atribuía. Assim fiz eu. Usei nomes que, na minha cabeça, associo ou aos blogues em si ou ao respectivo autor [nos casos em que autor e escrita quase se confundem (em minha opinião, é claro)]. Espero que ninguém fique melindrado com o cognome que atribuí. Se aqui coloquei estes blogues é porque gosto deles e o acto de os renomear pressupõe sempre um certo afecto.

Hoje não escrevo mais porque apenas aqui vim já muito tarde e, com a tarefa acima descrita, ainda estive um bom bocado; é tardíssimo, estou cansada.

Tenham um bom domingo, meus Amigos!

sábado, janeiro 21, 2012

Cavaco Silva, sem dinheiro para as despesas. Horta Osório, o ex deus ex machina. As insuportáveis provações dos muito ricos e, pior, muito pior ainda, as insuportáveis provações dos pobres. E Mario Testino, Natalia Osipova e Ute Lemper.

  
O tema do dinheiro ganho é, neste momento, um tema sensível.

Esta sexta feira deram brado as afirmações de Cavaco Silva que, com voz agastada, referiu os seus hábitos familiares de poupança e enunciou as parcelas da sua pensão de reforma, concluindo que a verba recebida (que os jornalistas referem ser cerca de 10.000 euros mensais) nem seria suficiente para cobrir as despesas. Vinha no carro e, logo a seguir, ouvi Fernando Nobre chocado, enumerando, em contraponto, exemplos dramáticos de quase miséria e agora, na televisão, já ouvi várias outras censuras.

Mas como não percebi qual o contexto em que Cavaco falou, nem ouvi toda a intervenção, não me vou pronunciar. Também não me vou referir aos esquemas de cálculo das pensões pois é tema que desconheço e não gosto de falar de cor.

Mas falemos de ordenados. Para quem tem de ordenado mensal 1.000 ou menos, ou mesmo 2.000 ou 3.000 euros por mês, ouvir falar em valores de 10.000 ou 15.000 ou verbas desta ordem, pode soar excessivo. São ricos, que paguem a crise, que se lhes aumente os impostos até sangrarem, que paguem a saúde, o ensino, que sejam proibidos de usar transportes públicos.

Ridículo. Ordenados da ordem dos 10.000 ou 15.000 ou mesmo um pouco mais não são nada de extraordinário e deveriam ser o padrão de uma classe média alta. E a classe média é essencial à manutenção do consumo e, por isso, da economia.

A classe alta deve ser situada para rendimentos mensais já bem acima disso. E a classe alta é também indispensável a um país pois puxa pela franja de economia atrás da qual vai a classe média alta e, atrás desta, vai a classe média e por aí fora e assim se ajuda a manter viva a economia.

Mas, dito isto, quero referir que se verbas desta ordem me parecem normais e aceitáveis, já verbas da ordem dos 50.000 euros por mês (45.000 em ordenado e 4.500 por mês para um ppr) para funções que não são executivas nem exigem trabalho a tempo inteiro me parecem exageradas, especialmente se forem usufruídas por pessoas que se fartam de pregar que os excessos têm que acabar, que tem que haver austeridade, que se têm que reduzir custos para se ser competitivo.


Não defendo (muito longe disso!) que a cada um segundo as suas necessidades; mas o contrário disso não deve a tresloucura de uns ganharem 500 e outros 50.000 - dizendo o que ganha 50.000 que o que ganha 500 tem que ser sujeito a mais austeridade. Rendimentos como aquele para funções como as referidas ou verbas que são o dobro ou o triplo disto são tão elevados que me parecem descabidos, ilógicos, atentatórios, quase uma provocação perante uma população a quem se exigem esforços, perante os desafortunados que desgraçadamente caem no desemprego e a quem agora se vai baixar o subsídio. Há qualquer coisa de imoral em coisas destas.

Mas entorpecidos que estamos por anos de coisas ilógicas e tão atormentados perante sucessivos anúncios de catástrofes, austeridade a doer e à toa, retrocessos fatais, já aceitamos, bovinamente, quase tudo.

Vem isto a propósito do endeusamento que se tem feito relativamente a Horta Osório que, por ter estado 2 meses a recuperar de excesso de stress, achou por bem abdicar de um bónus superior a 2 milhões de euros. Como é sabido, não se passou cá, passou-se no Reino Unido, no Lloyds.


Ora, quase tudo nesta história me indispõe. Não está em causa o mérito de Horta Osório. O que está em causa é a estupidez para a qual esta sociedade tem evoluído.

Horta Osório trabalhava horas de mais, sob grande pressão e, às tantas, começou a ter distúrbios de sono. Tal como ele, inúmeras pessoas em todo o mundo têm o mesmo problema. Excesso de trabalho, excesso de pressão - e acabam por cair para o lado. Nada de muito grave. Tratam-se e curam-se. Há coisas bem piores, há quem caia morto.

Mas Horta Osório fez um a cura de sono, pôs-se bom – e, até aqui, tudo normal.

Agora entramos nas coisas ridículas.

Depois do médico que o tratou o ter declarado recuperado, teve que ser sujeito a uma auditoria médica ‘independente’ para ver se estava mesmo em condições - como se fosse uma máquina que, antes de ser colocada em funcionamento, tem que ser inspeccionada e reinspeccionada. Depois, três administradores, à vez, foram a casa dele ver com os seus próprios olhos se ele estava mesmo bem. E ele, submisso, a deixar que o observassem, que o interrogassem, a mostrar que já estava bom.

Pergunto eu: com isto tudo, não se sentiu humilhado? Tratado como se fosse um débil mental, incapaz de avaliar por si próprio a sua própria condição física?

Não, pelos vistos achou normal.

Pergunto eu: se o mal não fosse o sono, como seria? Por exemplo, se tivessem sido problemas de próstata, iriam na mesma lá a casa e far-lhe-iam o toque rectal? E ele acharia igualmente normal?  


Depois, uma jornalista do Expresso entrevistou-o e tratou-o como se ele fosse um débil mental e ele respondeu como se, de facto, o fosse. ‘Então e o que é que aprendeu?’ e ele, menino culpado, lá respondeu que tinha aprendido uma grande lição. E ela ainda não contente: ‘E a nível pessoal , o que é que aprendeu?’ - e ele em vez de a mandar bugiar respondeu que também tinha aprendido que tem que dormir e dar mais atenção à Ana.

Ridículo, tão ridículo.

Agora, depois de ter sido inspeccionado por dentro e por fora, depois de ter pedido desculpa, depois de ter voltado a ser aceite no posto de trabalho, eis que, numa derradeira assumpção de culpa por ser tão imperdoavelmente humano, renuncia a um bónus milionário. E é o delírio!

Claro que é um gesto inédito e surpreendente. Mas mais surpreendente é que estas pessoas recebam verbas tão obscenas, mais surpreendente é que existam disparidades tão obscenas, surpreendente é que uma pessoa se sujeite a ser tratada como se fosse menos do que um ser humano, como se fosse uma máquina sem dignidade nem sentimentos, surpreendente é que se ache que tudo isto é normal.

Não é. Nada disto é normal. Isto tudo é obsceno.




A sociedade não deveria permitir nenhum destes disparates, nenhumas destas absurdas disparidades.


%%%%%%

Mudança de tércio

É fim de semana, meus amigos, tempo de descontrair. Nada de pensar em toques rectais ou outras coisas que tais. Tempo de lavar o olhar para ver se a lavagem chega até à alma.

Venham pois comigo até sítios em que tudo é limpo, alvo, belo.

Sienna Millher por Mario Testino

eu volto o rosto para cheirar-te quando passas
para decorar de ti algum contorno
saber por fim que lume trazes
junto ao corpo

que incêndio apagas
ou amotinas


[Lume de João Miguel Henriques in 'Isso passa']





Natalia Osipova do Bolshoi interpreta La Bayadere




Ute Lemper, a magnífica.

ooooooo

Bom sábado!
 

sexta-feira, janeiro 20, 2012

João Proença, a UGT e a CGTP, a concertação social, os trabalhadores e os desempregados em Portugal, Alberto João Jardim e o acordo impossível da Madeira - e Francesco Schettino, comandante do cruzeiro Costa Cruzeiro, um homem irresponsável, cobarde e indigno


.1.



Francesco Schettino, comandante do cruzeiro Costa Cruzeiro, aparentemente para agradar a alguém, cometeu um erro que colocou em risco a vida das pessoas que estavam à sua responsabilidade. Ao ter cometido esse erro e ao perceber as consequências, cobardemente abandonou o navio. Mais tarde, disse que tinha caído para dentro do salva-vidas e que já não tinha conseguido regressar ao navio. Cobarde, indigno.

«««»»»

.2.


João Proença, secretário geral da UGT, assinou um acordo que em nada beneficia a economia e que basicamente se limita a prejudicar os trabalhadores, quer os que têm a sorte de ter trabalho (e que vão trabalhar mais por menos dinheiro) quer, sobretudo, os que vão ter a infelicidade de ficar desempregados (vai ser mais fácil despedir, os desempregados vão receber uma indemnização inferior, e vão receber um subsídio inferior e por menos tempo). Depois de ter assinado esse acordo, João Proença disse que, se não tivesse assinado o documento, seria pior (se calhar os trabalhadores seriam degolados no acto do despedimento para a poupança ser ainda maior). E agora, ao sentir a censura social, vem alegar que o fez também por sugestão da CGTP.

Soa-me a cobardia, a indignidade.

Mas vamos supor que algures no tempo, perante o que estava em cima da mesa, alguém da CGTP tenha dito a João Proença ‘Nós não alinhamos nisto. Se querem, assinem vocês’.  Foi por isto, então, que João Proença assinou o acordo? Mas é o quê? Um invertebrado? Uma maria vai com as outras? Faz o que lhe mandam e depois vem atirar as culpas para os outros? Também caíu para o salva vidas?

Ao que chegámos. A fraqueza da natureza humana a vir acima, até onde menos se suspeitava. Não era esta a ideia que eu tinha de João Proença.

  • Tal como já disse aqui tantas vezes, nunca fui sindicalizada, nem tenho especial simpatia por estes sindicatos, sempre muito instrumentalizados pelas forças partidárias e sempre com actuações muito pouco evoluídas. Defender os interesses dos trabalhadores é muito mais do que estes sindicatos fazem. Ser trabalhador não é ser inimigo do chefe ou do patrão e uma economia só progride se progredirem todos e se puxarem todos para o mesmo lado. Fazer greves, como tantas vezes tenho visto, em que fazem greve prejudicando as empresas e a economia apenas para cumprir uma agenda política, é péssimo e é muito isto que os sindicatos têm feito em Portugal. 
  • Parece-me importante que haja concertação social mas para se coordenarem todos no sentido de um objectivo comum para o país, num objectivo de crescimento, de progresso, de valorização humana. Não para isto de que agora se anda a falar.


Mas, à parte o que acabo de referir e apesar das limitações, achava João Proença um sujeito sensato, civilizado, digno.

Depois disto fico ainda mais preocupada com a situação dos trabalhadores portugueses e do país em geral. Assim não vamos lá.

Acho de um tremendo mau gosto e um desatino que as centrais sindicais andem à bulha uma com a outra numa altura destas. Mas acho que João Proença - que acabou de assinar um documento lesivo para os trabalhadores e que vem agora dar como desculpa que, se não o fizesse, era pior e que seguiu sugestões da CGTP - está a ter uma atitude que moralmente me parecem indigente e isso deixa-me incomodada. E também me parece excessiva a reacção da CGTP, dizendo que vai interpor uma acção. Absurdo.

Por estas e por muitas outras é que uma parte tão significativa dos portugueses não está feliz com a democracia. E isto, sim, é muito preocupante.

«««»»»

.3.


Dizem pessoas que pouco sabem do mundo do trabalho que as condições para despedir em Portugal eram, antes disto, muito favoráveis aos trabalhadores. Penoso ouvir isto. Quem vai para o desemprego não é um nenhum felizardo. Mas quem pensa isso, devia saber como é despedir alguém em Espanha, por exemplo. Quase impossível. Os trabalhadores portugueses e os sindicatos portugueses ao pé dos da Catalunha, por exemplo, são meninos do coro.

E sabem os grandes entusiastas desta concertação, as diferenças de salários entre Portugal e os outros países? 

Receber uns meses de salário em Portugal, como indemnização é tão, tão diferente do que é receber noutro país...!

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.4.


Numa altura em que o grave é haver tanto desemprego, tanto desemprego de longa duração, tanto desemprego jovem, é a economia estar a definhar tão gravemente, é o País não gerar riqueza suficiente para amortizar a dívida, o que menos faz falta é legislação que penalize ainda mais as pessoas que tenham a infelicidade de cair no desemprego. Dizer que isto é uma vitória é de uma estupidez inacreditável. 

Nenhum país floresce em cima do desemprego e da miséria. O país precisa é do contrário. Pobreza gera pobreza. Estamos a percorrer o caminho ao contrário. 

«««»»»

.5.


Uma palavra para a situação na Madeira. Pouco se fala disto. Não aprecio, mas nem um pouco, o estilo de gestão de Alberto João Jardim. Despesista, pouco leal, escamoteou gastos, desobedeceu às leis do país, faz o que quer, porta-se como um cacique. Mas uma coisa é certa: esquecendo-se que é português e sendo de um bairrismo bacoco, defende o que ele pensa serem os interesses da Madeira (à maneira dele). Mas penso que é inegável que desenvolveu aquela parcela de território.

E compreendo que, agora, neste momento de aperto, ele, habituado à abundância, esteja desorientado. Mas percebo também que lhe custe assinar um acordo que acha inexequível. Tal como o contrato da Troika, da maneira como tudo isto está a ser conduzido, é inexequível. Não vai ser possível amortizar a dívida toda no prazo estabelecido. Portanto, Alberto João Jardim tem razão quando não quer assinar uma coisa assim, um acordo impossível que vai dificultar tanto a vida das 'suas' pessoas. Infelizmente para ele, tal como para todos nós, sem dinheiro, com a corda na garganta, vamos aceitando tudo o que nos impingem, o que faz sentido e o que não faz qualquer sentido. Vai ter que assinar, que remédio tem, mas percebo a sua angústia. 

Tenho pena dos madeirenses. Tenho pena dos portugueses.

«««»»»

.6.

Lily Cole por Bettina Rheims

E, pronto, meus amigos, já desabafei. Agora vou descansar que estas ralações dão cabo da minha beleza.

O que vale é que já é outra vez sexta-feira. (Que coisa, o tempo passa a correr: outra vez sexta-feira?)

Depois de vos ter maçado tanto, até tenho vergonha de vos dizer que se divirtam. Mas, enfim, tentem - apesar de tudo. E lembrem-se: há mais marés que marinheiros. Tenham um bom dia.

  

quinta-feira, janeiro 19, 2012

A vida sexual das mulheres - evidências científicas e fotográficas


Kim Basinger, 58 anos, sedutora, sempre sexy

Um estudo publicado pelo American Journal of Medicine, realizado ao longo de anos e com mais de 800 mulheres com idades variáveis entre os 40 e os 100 anos, com uma idade média de 67 anos, demonstrou claramente que a satisfação sexual vai aumentando com a idade.

Susan Sarandon, bela e sexy, 65 anos -
aqui fotografada por Annie Leibovitz

Segundo o estudo, a frequência das actividades sexuais vai-se reduzindo mas a qualidade do prazer obtido é crescente.

Isabel Allende, 69 anos, diz que conserva
o espírito de  uma adolescente
 e o mesmo interesse sexual de sempre,
que não passa sem sexo


Talvez um pouco surpreendentemente para quem pensa que a partir de certa idade as mulheres fecham a loja, o estudo revela que cerca de 47% das mulheres mais velhas (com 80 anos, em média!) obtém satisfação sexual enquanto, entre as mulheres mais novas, a percentagem não passa de 25%.

Jane Fonda, 74 anos, diz que a sua boa forma
é atribuível a uma boa alimentação, exercício físico
e actividade sexual regular

De notar que as mulheres mais velhas têm uma percepção mais holística, digamos assim, do prazer do que as mulheres mais novas. Enquanto as mais novas, em regra, só obtêm a satisfação sexual através de actividades sexuais puras e duras (uma maneira de dizer, claro), as mulheres mais velhas que já não mantêm uma vida sexual muita activa dizem, ainda assim, atingir a satisfação - 'they may have achieved sexual satisfaction through touching, caressing or other intimacies developed over a long relationship. Emotional and physical closeness to the partner may be more important than experiencing orgasm.’ (nas palavras de Susan Trompeter, autora do estudo).


Boas notícias, portanto, para toda a gente. 

E, já agora, para uma terna diversão, uma amostra de um filme engraçadíssimo com Diane Keaton (agora com 65 anos e, no filme, com 57) e Jack Nicholson, Something's gotta give (Alguém tem que ceder).




E, assim sendo, meus amigos, hoje não vamos maçar-nos com chatices, com preocupações - nada disso, hoje é dia de diversão, de sorrisos, de boa disposição. E que viva a vida!
  

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Concertação Social, Legislação Laboral, Competitividade, UGT - mitos e tretas e, se me permitem, a minha solução para a crise (não brinco eu serviço, eu). E, de brinde, um pouco de l'air du temps


A parvoíve é tanta que se torna fastidioso enunciar.

Primeiro, o importante, para salvar a economia, era baixar a TSU: lembro-me de um debate entre Passos Coelho e Sócrates, este último descrente e Passos Coelho, fundamentalista e tonto, a querer que Sócrates dissesse ali mesmo, naquele instante, quanto ia baixar, se era 4 se 8%, coisa que Sócrates obviamente evitou responder.

Nessa altura, escrevi aqui várias vezes, demonstrando o absurdo que isso seria, prejudicando seriamente a já de si débil sustentabilidade da Segurança Social (em sentido lato), e não acrescentando nada à competitividade da economia. Nenhuma esperteza da minha parte, apenas aritmética. Felizmente a medida foi abandonada. Um dos grandes cavalos de batalha de Passos Coelho caíu, portanto, por terra.

Eis senão quando algum esperto teve a ideia peregrina de substituir a tontice da descida da TSU por outra tontice, a subida do horário diário de trabalho em meia hora. Também aqui tive ocasião de me pronunciar. Não leva a lado nenhum e só vem causar constrangimentos práticos de vária ordem. Meses de desgaste e negociações improdutivas à volta desta parvoíce que a ninguém agradava, nem sequer aos patrões. Caíu, é claro.

E ontem, depois de muita conversa e de cedências por parte da UGT, eis que lá chegaram a acordo em sede de concertação social.

Aqui chegados tenho que fazer uma declaração e peço desculpa aos que a vêem pela segunda vez pois já não é a primeira vez: nunca fui sindicalizada, sempre me incomodei com as posições da CGTP que, mais que uma agenda pró-laboral, tinha uma agenda política contra-o-poder, qualquer que ele fosse; nunca, nas legislativas votei no PCP (muito menos nos partidos à esquerda deste) – mas já votei PC nas autárquicas; na maioria das vezes votei PS (e sempre na lógica do O’Neill: não me apetece mas voto PS – e, se o fiz, foi sempre com a consciência que seria o menor dos males); mas também já votei no PSD e, nas europeias, no CDS. Ou seja, quando tenho que votar, em consciência, analiso os objectivos e as condicionantes face à oferta partidária e, geralmente contrariada (porque a oferta me parece quase sempre aquém das necessidades), lá faço a minha escolha.

Ou seja: não tenho qualquer costela sindicalista ou esquerdista. Também não me revejo no estilo apocalíptico de Medina Carreira.

Mas quero aqui dizer que acho que todas estas medidas de que se vai ouvindo falar, tais como estas grandes e memoráveis alterações na concertação social, são pouco mais do que tretas.

Em minha opinião, nada daquilo resolve o que quer que seja em relação aos problemas endémicos do país e penaliza inutilmente os trabalhadores. 

O país não é competitivo porque lhe falta uma estratégia de desenvolvimento -  e esse é o problema,  o grande problema.

Quem está mais por dentro dos meandros da gestão, conhece certamente a metodologia dos Balanced Scorecard. Uma estratégia, qualquer que seja, pressupõe que se defina um objectivo global e que se perceba que assenta basicamente em quatro pilares: o do mercado, o dos processos, o financeiro e o do conhecimento. Isto aplica-se na gestão de empresas, de projectos, de organizações de qualquer tipo e, porque não?, à gestão estratégica de um país.

Ou seja, trocando por miúdos: em primeiro lugar, temos que encontrar qual o objectivo que, a partir daí, vamos perseguir (vamos supor, de uma forma muito simplista:  ter um crescimento anual sustentado ao longo dos primeiros 5 anos, nunca inferior a um ponto percentual acima do valor da inflação e, nos 5 anos seguintes, nunca inferior a 2 pontos percentuais acima do valor da inflação ).

A seguir, tem que se definir o que temos que fazer para o alcançar, em cada uma das quatro vertentes.

Por exemplo, na vertente Mercado:  junto à orla costeira apostar no sector Mar (desenvolver pescas, aquacultura, investigação marítima, bio farmacêutica e cosmética marinha, alimentos baseados em produtos do mar, etc, etc) e, mais no interior, apostar no sector Moda (confecções, calçado, malas, tecelagem, etc) e junto às universidades, apostar no sector Conteúdos Multimédia (aplicações para iPads, jogos para computador, para telemóveis, etc, etc, etc) e por aí fora.

A seguir na vertente Processos: então se vamos apostar naqueles sectores, vamos ver o que temos que fazer. Por exemplo: construir barcos, fabricar equipamentos para os navios, equipamentos de monitorização de parques de aquacultura, fabricar ferramentas, fabricar fibra de vidro para não sei o quê, etc, etc e o mesmo para os restantes sectores a desenvolver.

A seguir na vertente Financeira: então se vamos ter aquelas fábricas e aquilo tudo, de quanto dinheiro vamos precisar e onde vamos arranjar esse dinheiro, e qual o retorno esperado para vermos a viabilidade dos investimentos.

Finalmente na vertente Conhecimento: se vamos fazer aquilo e se vamos precisar de fazer fábricas, programar, apostar na moda, etc, etc, de que recursos humanos vamos precisar – engenheiros mecânicos, engenheiros informáticos, engenheiros têxteis, pessoas que saibam de design, pessoas de marketing para divulgar junto do mercado, pessoas que saibam de vendas e compras em mercados internacionais, juristas de direito comercial em contexto internacional, etc, etc. – e vamos preparar uma estratégia ao nível do ensino, da formação profissional, e, uma vez que tudo isto é para melhorar a vida das pessoas e porque, pessoas felizes e motivadas produzem muito mais, vamos parar de lhes atentar o juízo legislações laborais, aumentos de impostos e o escambau, etc, etc, etc.

A seguir, para cada vertente, vamos fazer um planeamento articulado, calendarizado, estabelecendo parâmetros de monitorização para garantir que a coisa avança coordenada e alinhada em todas as frentes, ao longo de todo o período de implementação da estratégia.

E vamos atribuir responsáveis a cada acção. E, e, e...

... Enfim, não vou alongar-me mais mas, mais coisa, menos coisa, é assim se constrói uma estratégia.

Não se trabalhando assim, anda-se aos bochechos a fazer coisas desgarradas que não levam a lado nenhum. Chegam uns e desfazem o que os anteriores fizeram, depois inventam umas flores, dão-nos música, manipulam a nossa opinião, fazem um foguetório, depois descarrilam e são corridos; a seguir vêm outros e reiniciam o ciclo. Ou seja, um passo em frente, dois para o lado e um para trás.

O País sem sair do mesmo sítio. 

E, cada um que vem, arranja uns técnicos de comunicação que criam umas parangonas, depois dão entrevistas e a comunicação social vai atrás como é o presente caso da grande festa do acordo da concertação social. E nunca se vai ao fundo da questão. E o fundo da questão é que isto tem que ser visto numa lógica de crescimento equilibrado, seguindo ordeiramente uma linha de rumo que articule as várias vertentes da estratégia, e tem que ser feito com inteligência, experiência, competência, determinação, honestidade (sobretudo intelectual), humanismo.. 

Outro aspecto que aqui quero referir.

Um dos grande problema de Portugal é que tem que importar quase tudo o que consome e pouco tem para exportar face ao que importa. Ora estamos a falar de ‘coisas’,  não de serviços.

Ao falarmos de coisas, e salvo indústrias como as de conteúdos ou coisas do género, estamos a falar de indústria transformadora, com fábricas ou máquinas que transformam matérias primas em produtos acabados. Ora, de forma geral, na indústria transformadora, o peso dos custos com pessoal não é o que tem maior expressão. Talvez represente no máximo 20% (há quem fale em pouco mais de 15%). Ora, variações como 2 ou 3 dias a mais de trabalho, redução de custos de trabalho extraordinário, são casa de decimais de pouca coisa.

O que é que tem peso expressivo na indústria transformadora? A energia eléctrica, os custos logísticos, o IRC (aliás, tal como todos os impostos em Portugal, que são insustentavelmente altos). E onde é que, para além destes factores, interessa optimizar margens? Na boa negociação nas compras, na racionalização de operações para evitar desperdícios, redundâncias, numa boa negociação de vendas, valorizando o produto, etc. Ou seja, relevante mesmo para além daqueles grandes factores exógenos à gestão da empresa (energia, logística e impostos), é a gestão, é haver boa gestão.

Andar a insistir no factor trabalho como se fosse por isso que o país não é competitivo é não perceber patavina do que é a economia real, é conversa de professores, de gente de gabinete ou de gente mal intencionada.

Por isso, toda esta conversa à volta da concertação social é uma treta, uma treta!

.....

Bom, isto está maçador, não está? Mas apeteceu-me dizer isto, que é o que penso. Estou farta de tanto ruído, tanto fala-barato, tanta parvoíce. O país definha, empobrece, marca passo, o desemprego a aumentar, a recessão a agudizar-se e toda a comunicação social de volta de uma coisa que não aquece, nem arrefece.

Enfim.

Para tentar introduzir aqui alguma leveza, permitam que vos mostre imagens que trazem algum charme e beleza a estes dias tão cheios de coisas cinzentas. Já agora: não gosto muito dos perfumes Nina Ricci, acabam por ficar um bocado intensos e enjoativos, pelo menos na minha pele. Como é sabido pelos que costumam ler-me, eu sou toda Chanel. (... e, como vêem, pode ser-se toda Chanel e, simultaneamente,  proleta - ... que é o que eu sou, uma humilde assalariada)













Cherchez la femme, digo eu aos homens; cherchez l'homme, digo eu às mulheres.

E a todos: que sejam muito felizes, meus amigos.


terça-feira, janeiro 17, 2012

Consta que o braço hacker das Produções Fictícias está a entrar nos computadores dos ministérios e que o que estamos a presenciar é fruto disso - o que é quase tão mau como apanhar com um gato na cabeça.


Existe em matemática, mais concretamente no ramo que se ocupa do estudo das probabilidades, uma ‘lei’ que rege os acontecimentos improváveis. Designa-se Distribuição de Poisson e aplica-se a fenómenos raros. Por essa razão, a esta distribuição chama-se também a lei da morte por coice de burro. Já aqui falei dela uma vez. Tem este nome porque foi demonstrada pela primeira vez com o número anual de mortes por coice nos regimentos prussianos de cavalaria.

Vou exemplificar um caso de aplicação: qual a probabilidade de, numa discussão conjugal, o marido agredir a mulher pegando no gato de estimação e atirando-lhe à cabeça?

Probabilidade ínfima, diria eu.

E qual a probabilidade de, vendo o gato a vir pelos ares na sua direcção, a mulher ter reflexos suficientemente rápidos para se desviar a tempo, seguindo, pois, o gato a sua trajectória que, por sinal, é na direcção de uma janela? 



E qual a probabilidade de a janela estar aberta e, de facto, sem obstáculos pela frente, o gato voar pela janela? Ínfima, diria eu.



E qual a probabilidade de uma senhora de 85 anos ir a passar na rua justamente no momento em que o gato voou e apanhar com ele na cabeça? Ainda mais ínfima, diria eu.



Resumindo: qual a probabilidade de uma senhora de 85 anos ir parar ao hospital e ter que ser posta com respiração assistida não por maleitas próprias da idade mas sim devido a um traumatismo craniano resultante de levar com um gato em voo picado desde um 4º andar? Ínfima.

Pois é… mas aconteceu em Belgrano na Argentina. História absolutamente verídica.

É o caso em que se aplicam aqueles irritantes ditados populares, ‘para morrer basta estar vivo’, etc, etc.

Mas que às vezes acontecem destas coisas improváveis, lá isso é. Certamente aqui aplicar-se-ia na perfeição a distribuição de Poisson se quisessemos prever quantas pessoas têm que passar na rua até que novo gato aterre a cabeça de uma delas.

{...}

Mas às vezes os matemáticos enganam-se. 

Então não é que por cá aconteceu uma coisa igualmente bizarra e improvável? A ser verdade, é uma coisa rara, de pasmar. Ora ouçam.

Sabem os meus amigos que ‘eles andem aí’… os hackers… aquelas diabólicas criaturas que invadem as redes informáticas, pirateiam sites, alteram os conteúdos? A comunicação social deu-nos conta de que entraram nos sites de autarquias, soube-se de um ataque ao Banco de  Portugal, a ministérios, etc. Pouco destaque foi dado a estas notícias porque convém não alarmar as populações e, supostamente, os departamentos de segurança informática destes organismos teriam controlado a situação.

Teriam… digo bem.

Pois a questão é que parece que há fundadas suspeitas que eles continuam a entrar e sair das redes informáticas, especialmente nas dos ministérios.


Várias improbabilidades se juntam nesta história. Consta que não se tratam dos Anonymous, mas sim do braço hacker das Produções Fictícias (consta - que eu não sou do SIED nem da maçonaria, nem sequer da Ongoing, limito-me a segredar-vos rumores que correm por aí). Consta que se partem a rir, dobrados com dores no estômago de tanto rirem, lágrimas cara baixo. Consta que o ministério preferido é o da Economia. Mas também o do Relvas, o do Gaspar e, claro, o próprio gabinete do nosso Primeiro Ministro.

E, ao que consta, que fazem estes foliões?

Pois bem. Alteram os discursos. E quando algum deles, mais cuidadoso, diz: 'Ó pá, 'pera lá, essa ele vai logo dar por ela, desconfia que isto é no gozo, vão desconfiar que a malta anda aqui, ele não vai dizer isso', logo os outros o tranquilizam: 'Qual quê, pá... ele é um totó do caraças, não dá por nada, papa tudo, vais ver como o gajo vai dizer isso com o ar mais tecnocrático deste mundo...'.

E, na maior risota, lá vão trocando tudo. Vão ao discurso do Relvas e onde o da agência de comunicação tinha escrito: 'andámos a investir nos jovens, queremo-los cá, a desenvolver o país' vão os malandrecos e trocam por: 'devem emigrar, e nem ter saudades, nem saber de que pátria são'.
  ..


Vão ao discurso do Álvaro e onde era suposto ele falar de indústria, de clusters de desenvolvimento económico a sério, é vê-lo todo professoral, quase erudito, como se interrogasse uma turma inteira: 'Qual é a diferença entre um frango no churrasco e um pastel de nata?' - e, ao vê-lo na televisão a dizer aquilo, os hackers rebolam-se a rir: é demais!!!
 ..



Depois, vendo que estão à vontade, vão ao discurso do Passos Coelho que ia falar nessa mesma conferência organizada pelo Diário de Notícias, com o tema 'Made in Portugal', e viram-lhe o discurso do avesso. Em vez de falar de produção nacional, põem-no a falar, a despropósito, de nomeações, com números ao calhas, tudo trocado - e quando o vêem na televisão, patético, os hackers nem querem acreditar, ali está ele, a mostrar os bonecos que eles fizeram no gozo, ar muito convencido. E no momento em que eles escreveram entre parêntesis rectos [fazer ar triste, compungido e bater com a mão no peito] os hackers juram que viram Passos Coelho a simular uma lágrima no canto do olho e a fazer uma ginástica para não deixar cair o papel, enquanto tentava bater com a mão no peito.

Entretanto, a gente vai rindo com as cenas divertidas que os nossos ministros nos andam a proporcionar e até já consta que se prepara para breve uma rábula ao estilo dos Monty Python. Estejam atentos.


...

Parece-vos improvável? Pois, a mim também. Nem sei se acredite, se não. Que a malta das Produções Fictícias se conseguisse infiltrar nos computadores dos ministérios já me pareceria improvável, mas que os ministros papagueassem tudo o que lhes põem à frente sem perceber que não estão a dizer coisa com coisa, ainda me parece mais improvável.

Mas enfim, pode ser mais um caso raro, uma improbabilidade, tão raro como sofrer um traumatismo causado por um gato atirado de um 4º andar.


Tenham, meus amigos, uma bela terça feira e, pelo sim, pelo não, tenham muito cuidado quando passarem debaixo de janelas abertas...! 
  

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Aqui in heaven eu, mulher da terra, me depuro - venham comigo respirar o oxigénio de que tanto necessitamos para enfrentar a cidade


Acontece que, por vezes, tenho que me depurar. Afasto de mim as análises económicas, os artigos financeiros, os textos sobre política, ou sobre a actualidade que me desilude. Em dias assim, apenas o mar bravo do oceano, a água fresca do rio ou a terra bravia me sossegam.

Este fim de semana estive outra vez in heaven.

Agora que escrevo, já é quase uma da manhã, e já estou de volta à cidade, aqui nesta torre perto do céu, e a terra pedregosa está longe - mas sempre tão perto, tão dentro de mim.

São assim os grandes amores a quem tudo se perdoa, por quem ansiamos quando estamos longe, que guardamos amorosamente, com todo o carinho, quando nos afastamos. Sempre dentro de nós.

Tantas vezes aqui já vos falei da pequena parcela de terra que um dia me acolheu, me escolheu. Já vos contei: não está cuidada, não é arável, é selvagem, indomável. Dela nascem grandes pedras, mato selvagem que não tento controlar. Mas nela me abrigo, com ela me encanto como se fosse amor de primeira descoberta.

Por ela ando devagar, respiro o cheiro a terra molhada, odores femininos que vêm do seu ventre, afago os pinheiros que exalam um cheiro doce, olho com ternura as pequenas flores lilases que despontam no alecrim e  que atraem as abelhas que as beijam, enredadas, fotografo os refegos das minhas árvores como se fossem dobras nas perninhas gordas dos bebés, sorrio com o charme de maravilhosos líquenes, tanto tempo a olhar, a cheirar, a sentir.

E, então, penso que amo esta terra como se fosse gente, e começo a descobrir formas femininas e formas masculinas, e olhos que me olham, meigos como olhos de animais, e braços que se abraçam e quase me emociono ao pensar: esta é também a minha gente, a gente que tão carinhosamente me acolhe.

Fiz um estufado ao almoço. Tinha um bocado de chambão e estufei-o. Cebola abundante, azeite, um pouco de vinho tinto. Quando a carne estava macia juntei um pouco de água e batatas, cenouras, batata doce, ervilhas, um ramo de alecrim. Rescendia. Ficou saboroso, apurado.

E, enquanto estava ao lume, o odor a cozinha e a casa acolhedora e quente, saía pela chaminé e eu andava lá fora, a percorrer os caminhos mil vezes percorridos, e ao cheiro a campo juntava-se o cheiro a cozinha e eu pensei, como sempre penso que aqui, in heaven, eu sou uma mulher mais completa e que esta é a terra à qual eu pertenço inteira.


Reflexo do céu e do grande e cheiroso cedro num espelho de chuva

Tronco de pinheiro que me olha, humano, compreensivo


Ramos de azinheira que se abraçam, que me abraçam - e por detrás um dos pássaros de grandes asas que habitam este espaço


Abertura do corpo da terra, vulva quase secreta, inexpugnável esconderijo


Mulher deitada em fundo e, a zelar por ela, pinheiro de cujo forte tronco sai uma pinha quase fálica


Mulher plena de requebros femininos, sedutora, encantadora, assim é esta minha terra que se enfeita com líquenes belíssimos - ah, eu mulher também vaidosa, com vontade de lhe arrancar estes requintados enfeites para me enfeitarem a mim


E, logo, mais à frente, novos adereços macios, de um verde dourado, elegantes, e eu invejo esta mulher que assim se embeleza, mulher  moderna de gostos telúricos, que se perfuma com o cheiro sensual dos cedros e dos pinheiros,  mulher que se veste de veludos e que usa estas arrojadas jóias ondulantes 


O aloe vera floresce e ergue-se belo e vermelho, e é tal uma explosão de cor, de vida, e eu olho-o de vários ângulos e sempre me surpreendo com os contrastes e com a imagem de vitalidade que emana desta minha tão amada terra

Respiremos fundo, aspiremos o ar tão puro que existe ainda dentro de nós, revigoremo-nos, tentemos ser felizes. 

Com um sorriso vos desejo, meus amigos, uma bela semana! E aproveitem a vida em cada pequeno instante.

  

domingo, janeiro 15, 2012

José Castelo Branco, a Imperatriz, acompanhado por D. Betty e por Nelson, foi ao tribunal dizer que não se lembra de ter participado em orgias; não há quem conheça a explicação para Celeste Cardona ir parar ao Conselho Geral e de Supervisão da EDP; e eu não consigo perceber como é que Luís Menezes, um gaiato, tem tanto relevo no PSD. Só mistérios.



Mistério Nº1.  Madame José Castelo Branco, segundo ela própria vestida de imperatriz mas mais parecendo uma viúva negra, ou uma versão feminina do Rei Nimba, ou uma árabe milionária vestida de homem vinda de uma expedição à Namíbia, nem sei, e Senhora Dona Lady, Betty Grafstein de seu nome, vestida de cossaca, apresentaram-se a tribunal.

Diz a Imperatriz Condessa Zeza Castelo Branco que não se lembra de ter participado nas badaladas orgias, ao que parece de cariz sado-masoch, que até já foi a um vidente, que já se submeteu a uma sessão de hipnose para ver se, regredindo no tempo, conseguia recordar-se de por lá ter andado a fazer uma perninha  - mas nada, não tem ideia de nadica. Pediu, então, à juíza que o deixasse ver o filme das ditas para ver se tinha tido algum orgasmo mas, imagine-se, a juíza não o satisfez.

E, no meio dos disparos dos fotógrafos, lá saíram as duas mais o motorista e guarda-costas Nelson, cheios de glamour, sem que o mistério se tivesse esclarecido, ela confessando-se cansada e a Senhora Dona Lady , como sempre, caladinha e sorridente. 

O País continua, portanto, à espera que coisa se esclareça. Ao que parece haverá nova audição e, portanto, lá estaremos todos, à porta do tribunal, à espera do show que aquelas duas sempre proporcionam. A Imperatriz Zeza (brilhantésima, cheia de charme, extraordinárias toilettes) e sua Senhora (sempre com toilette a fazer pendant, inacreditavelmente ainda pelo próprio pé,  e sempre com aquele seu fantástico sorriso) nunca desiludem - aparições plenas de surrealismo estão garantidas!

...

Mistério Nº2. O outro mistério que nos anda agora a preocupar é igualmente perturbante. Ninguém consegue perceber como é que Celeste Cardona apareceu naquele albergue espanhol (ou deverei dizer bazar chinês?). Para os outros, ainda parece encontrar-se uma lógica - um porque é um conhecido humorista (a piada pubiana correu mundo), outro porque esteve em Macau, outro porque tem ar de inteligente alucinado, outro porque faz uns poemas muito engraçados e pinta uns quadros minimalistas que são verdadeiramente do além - ... agora para a Dona Celeste ninguém consegue perceber que piada é aquela.  Quem é a que a escolheu? E a propósito de quê? O senhor presidente Catroga também está intrigado, não faz ideia.


Talvez Paulo Portas pudesse desvendar o mistério mas, como parece que é o único inteligente ali para as bandas do governo, anda caladinho, caladinho, a ver se passa despercebido. Os outros vão-se espalhando ao comprido a cada passo que dão e ele, sorridente, passando entre os pingos da chuva. 

...

Mistério Nº3. Como é que uma criança é agora a voz mais avalizada no PSD para botar faladura sobre o que quer que se passe neste mundo e no outro? Alguém me explica? Em terra de cegos quem tem um olho é rei, é bem certo. Face ao estado de penúria de competências que reina no PSD, a criança (que usa barba para disfarçar) até já conseguiu chegar a vice-presidente da bancada. Parece anedota mas não é.


Dá pelo nome de Luís Menezes, o filho de seu pai. E opina sobre as decisões de Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, opina sobre Cavaco Silva, opina sobre política nacional e internacional e sobre o que quer que seja desde que lhe ponham um microfone à frente. Convicto, sábio, vivido, carregadinho de mundo e de experiência de vida,  hoje ouvi-o pedir ao governo que não se desfoque da política de austeridade, e que, uma vez que a Standard & Poors baixou a nota da dívida portuguesa para 'lixo' - invocando que, com esta política de austeridade o país não vai conseguir pagar o que deve (ah pois não! É que nisto a S&P tem toda a razão) - o gaiato concluíu que o que o Governo tem que fazer é reforçar as medidas de austeridade. Esperto. 

É o que dá entregar o destino do País a miúdos inexperientes.

Eu talvez o aceitasse como estagiário, para ver se ele aprendia o que é a vida real. Mas não, ele optou por mais interessante carreira. Como disse em cima, e desculpem se me estou a repetir, o catraio chegou a deputado e, aí chegado, em vez de o porem nos juniores, não: puseram-no como cereja em cima do bolo, já é vice-presidente da bancada do partido da maioria. Como é que isto é possível?

Alguém me explica um mistério destes? É que isto ainda é mais difícil de perceber que aquela cena maluca de um tal Mário Mendes, professor universitário em Évora, que se fazia passar, na internet, por Ana Sofia Magalhães, mulher sedutora, e depois passava a infernizar a vida dos pobres homens que caíam na esparrela. Ele há coisas...

Valham-nos todos os santinhos ... que já começo a temer que 2012 seja mesmo o ano do fim do mundo.

...

by Robert Maplethorpe

E assim, envolta em mistérios, me despeço por agora, desejando-vos um bom domingo!
  

sábado, janeiro 14, 2012

Nando's, o frango - o business case a seguir para Portugal deixar de ser lixo (segundo o Álvaro, o rei dos Pastéis de Nata)


E eis que inesperadamente dou com um anúncio do Nando's...!

É o último de uma série de outros igualmente inspiradores. Convido-vos a colher exemplos, talvez daqui vos venham ideias para negócios. Temos que tirar o pé da lama, meus Caros, vamos lá a isso. Não tem que ser no ramo culinário tal como o nosso pequeno Alvarito parece querer dar a entender (ele são os hamburgures, ele são 'as natas', ele são os frangos de churrasco nando's), podemos todos fazer pegas de cozinha para exportar, porque não...? Deixem-se lá de ser esquisitos, vamos lá a ver estes filmezitos a ver se têm alguma ideia, boa...?




E quanto à Standard & Poors:

A dívida soberana é lixo? Portugal é lixo?
 Lixo? Nós? 
O tanas é que eu sou lixo! E vocês também não! 
Marimbemo-nos para tanto lixo!

Abaixo o lixo. Pum! 
Morra o lixo. Pum! 
Abaixo as agências de rating. Pum! 
Abaixo quem se põe de gatas aos pés destas agências que manipulam o mundo. Pum! 
Abaixo também o Gaspar que se enganou estupidamente a fazer o orçamento e que ainda mais vai descredibilizar este país governado por gente que parece tonta. Pum, pum!
Abaixo as medidas de austeridade que estão a caminho devido a tanta medida estúpida e a tanto erro. Pum, pum, pum! 
Abaixo tanta gente incompetente por todo o lado. Pim!
PIM!

(óbvios créditos a Almada Negreiros com o seu Manifesto anti-Dantas).

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Divirtam-se, meus amigos. E tenham um bom fim de semana!