sexta-feira, fevereiro 18, 2022

Depois de um dia do caneco, constato que a Clara Ferreira Alves continua no Eixo do Mal. Pior: igual a si própria.
Há mistérios que jamais terão explicação.

 


Mais uma vez enganei-me. Na quarta-feira à noite disse ao meu marido que pensava que ia ter uma quinta-feira tranquila. 

Qual quê? Quando a gente acha que está a salvo deve ficar calada. Falar atrai.

Conto.

Cedo apareceu-me o cão ao lado da cama, danadinho para lhe saltar para cima e o meu marido a chamá-lo a ver se ele não consumava o acto.

Ainda estava a refazer-me, avaliando se ainda faria sentido voltar a adormecer, toca-me o telefone. 

Uma dúvida sobre um tema complicado. Ainda à fresquinha (pijamas e camisas de dormir não são comigo) levantei-me e, para estar longe do urso peludo (não fosse pôr-se em pé para me fazer festas e arranhar-me de alto a baixo), fui enregelar para o escritório do lado. Telefonema longo. Problema complexo envolto em mil dúvidas.

Antevi logo que a coisa tinha tudo para ficar complicada. Como estas coisas do capeta nunca vêm sozinhas, juntaram-se vários factores e o meu marido, também cheio de telefonemas e afazeres e tendo que sair antes da hora de almoço, sugeriu que fossemos fazer uma rápida caminhada não fosse não haver outra oportunidade no resto do dia. 

Lá fomos. Mal pus o pé fora de casa, outro telefonema, um que queria reunião urgente. Tentei descartar-me, disse que não era tema apenas meu. Sabendo da agenda superlotada do outro, pensei que aquela reunião urgente seria agendada para o dia de são nunca. Comentei: 'Acho que desta já me livrei'.

Errado. Mais uma vez falei quando devia era ter ficado calada. Atrai, é o que digo. É que o dia estava fadado a ser um dia não -- passado um bocado, nova chamada: era esse mesmo a saber que raio de reunião era aquela. Uma estupidez de uma reunião, disse eu. Vontade de a ter: bola. Mas, sopesados os prós e os contras, acabámos por aceitar fazer a reunião na parte da tarde. Lembrei-me do outro, a confortar-me, anos antes: todos temos uma cruz para carregar.

Resumindo: nem dei pela caminhada.

Em casa, também mal tive tempo para comer uma mísera sopa, um mísero ovo e uma simples salada. Mais telefonemas, mais mails. Depois a reunião. Uma coisa enervante. Calma, maria-odete, pensei cá para mim a cada cinco minutos. 

A seguir, quando a xaropada acabou e me dirigia à cozinha para comer uns cajus e uns arandos, pensando que já não poderia aparecer mais nada para me chatear a cabeça, outra pessoa a ligar, se eu podia participar numa reunião. Não gritei por um triz. Caraças. Depois mais telefonemas. E mais essa reunião descabelada. E mails e apresentações para ver.

Quando chegou o meu marido estava eu ao telefone, irritada. Disse-me: 'Não tinhas dito que ias ter um dia tranquilo...?'. Pois. Limitei-me a encolher os ombros pois estava ao telefone . 

Há bocado sentei-me aqui e, enquanto ele adormecia no sofá e o cão dormia a sono solto no chão, adormeci também.

Acordei agora com ambos a irem para a cama (cada um para a sua, bem entendido). 

Enquanto tentava perceber quanto tempo tinha dormido, ouvi na televisão uma ave esganiçada, veias do pescoço salientes, ar sobredotado. Era a dita. Insurgia-se contra os portugueses que não sabem fazer nada, que não atinam, que já vem do tempo do Eça, que nunca foram capazes de fazer porcaria nenhuma. Notoriamente, a iluminada criatura, deve achar que não faz parte do grupo dos indigentes mentais dos portugueses. Será que acha que é chinesa? 

Tentei concentrar-me, numa de benefício da dúvida. Com muita paciência e tolerância, a modos que deixa cá ver se não sou eu que estou com os dois pés atrás, esforcei-me por lhe prestar atenção. Mas -- lamento -- não. Nada do que a senhora diz se aproveita. Mistura ironia, sarcasmo, desprezo, arrogância. Mas como tudo tem por base um zero absoluto, tudo aquilo resulta numa chachada.

Aliás, tudo o que se diz em volta daquela mesa é um exercício de parvoíce, de gabarolice, de pretenso humor. Não se aprende nada. Não se aproveita nada. Não sei qual a justificação para aquilo.

Se eu fosse responsável pela programação da SUC despedia-os a todos. Mas a que mais rapidamente ia de patins era esta insuportável criatura, que não diz uma que seja fundamentada. Ouve uma aqui, outra ali e vai para ali armar-se em letrada, em superior.

Não há pachorra. 

Nem sei porque é que isto ainda dá na SIC N. Vou fazer zapping ou espreitar a HBO e a Netflix. Puxa. Depois de um dia como o de hoje era o que me faltava era ainda ter que estar a aturar esta gente. Livra.

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Para ver se o post não é uma treta pegada, descobri estas fotografias no Guardian. Fazem parte de LensCulture Art photography awards 2022. Vêm acompanhadas pelos U2 com Stay (Faraway, So Close!)

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Desejo-vos uma boa sexta-feira

Confiança. Esperança.  Saúde. Alegria. Vida nova. 

quinta-feira, fevereiro 17, 2022

Algumas casas com recordações dentro

 



Tenho uma memória muito antiga da que foi a primeira casa em que vivi. Lembro-me de como era mas lembro-me sobretudo da minha mãe querer que a casa de banho estivesse pintada em verde-água. Lembro-me dela misturar mais branco na caixa de tinta para ficar uma cor francamente clara. Diria que a pintou ela sozinha, comigo a acompanhar. Se calhar foi nas férias dela pois tenho ideia que o meu pai chegou a casa ao fim da tarde, já a obra estava concluída. Fiquei com a ideia de que ela estava toda contente com essa melhoria lá em casa. Nessa casa, à noite, cá fora, havia pirilampos e eu andava, às escuras, com os meus pais, a tentar apanhar algum. Se conseguíamos, colocávamo-lo dentro de um copo de vidro virado ao contrário. De manhã, em vez do pirilampo estava lá uma moeda que eu guardava no mealheiro.

Da outra casa, a casa onde a minha mãe ainda mora, uma casa construída para eles, não me recordo das obras. Provavelmente ficava em casa dos meus avós enquanto eles lá iam ver o andamento dos trabalhos. Desta casa sempre me ficou a pena de não terem arranjado o sótão, tornando-o uma sala em open space. Sempre acharam que não valia a pena e sempre ficou uma zona em que o meu pai guardava ferramentas ou outras coisas ou ia para lá fazer arranjos ou, depois de se reformar, construir peças em madeira. Por isso, também nunca puseram um varandim em volta da entrada e eu, como sempre tive vertigens, quase não ia lá pois subir ainda subia mas, quando lá estava e olhava para baixo, para as escadas, sem ter um varandim para me apoiar, sentia uma terrível ansiedade, aquilo que quase se sente como uma incompreensível atracção para o abismo. Nem nunca quis que os meus filhos lá fossem com medo que caíssem.

Talvez por isso -- porque nunca percebi o desinteresse dos meus pais por aquele espaço que poderia ter uma decoração interessante e no qual poderiam pôr uma janela de onde se poderia ter a melhor vista da casa -- nunca achei esta casa extraordinária excepto pela vista que essa, sim, o era. Era e ainda é mas, na altura, ainda era melhor, sem prédios a tirarem a vista do rio.

Como desde sempre tive um gosto imenso por casas, lembro-me bem de algumas que, por essas alturas, me deixavam agradavelmente surpreendida. Chegava a casa e contava à minha mãe. Vinha encantada, não me cansava de as descrever.

Uma dessas era a casa de uma colega de liceu. Era o último andar de um prédio muito alto e muito grande. O prédio era dos melhores da cidade e fazia uma meia lua. Em cada andar havia três apartamentos, o direito, o esquerdo e o frente, cada um bastante grande. A casa dela ocupava todo o andar. Era enorme. E tinha um grande terraço, com solário e tinha uma zona com uma enorme claraboia. A zona dos quartos era de um lado, a zona das salas e escritórios era do outro e, a meio, havia a zona da cozinha, copa, lavandaria, despensa e mais não sei o quê. Na zona da cozinha havia um painel de campainhas. Cada divisão tinha uma campainha. As empregadas recebiam os avisos, viam qual a divisão que estava a chamar e iam ver o que era. Andavam fardadas.

Ela tinha um irmão. Quando eu lá ia estava sempre muita gente lá em casa mas tudo maltinha miúda: éramos nós, as amigas dela, era o irmão e os amigos. Pouco víamos a mãe dela. Tenho a ideia que sempre a vi triste. Tinha perdido um filho uns anos antes e parece que nunca tinha conseguido superar o desgosto. O pai ainda se via menos. Era um homem grande, forte e que era simpático, embora distante. A ideia que eu tinha era que ela e o irmão viviam um com o outro e que eram as empregadas que, na realidade, geriam integralmente a casa. A dimensão das divisões, a decoração requintada e a liberdade que ali se vivia eram, para mim, o máximo. Ao passo que a minha mãe e o meu pai queriam saber tudo o que eu fazia e impediam-me de fazer muitas coisas, ali parecia não haver mãe ou pai a controlar o que quer que fosse. Lembro-me do equilibrismo que alguns dos miúdos faziam em cima do rebordo da claraboia ou da forma como trepavam às paredes e até me arrepio com o risco que tenho ideia que se corria.

Ela tinha uma prima, também nossa colega e amiga que vivia numa casa de dimensão normal mas, a meus olhos, também especial. A mãe dela era muito bonita e moderna. Usava uma grande franja, vestia-se de uma maneira muito pouco usual. Ia muito a Londres fazer compras. Fumava muito e parecia que tinha a sua própria agenda, que não incluía os filhos. A casa tinha um pátio interior que eu achava uma coisa exótica. Nunca antes tinha visto uma casa com um pátio interior. E havia uma escada na sala. Essa sala tinha estantes à volta, incluindo debaixo das escadas. Isso parecia-me também uma extravagância. Foi lá que vi a primeira vez uma enciclopédia completa, muitos livros elegantemente encadernados. Quando lá estávamos não nos cruzávamos muito com a mãe e, se calhava ela lá estar, pouco nos ligava, estava a ler, a ouvir música, a fumar, ao telefone. Ou ia sair. Ou chegava a casa, olhando com indiferença para a confusão que lá causávamos. Também parecia que a casa estava entregue à empregada.

Havia também a casa de uma outra colega e amiga. Era uma casa senhorial no meio de uma quinta perto da escola onde a minha mãe dava aulas. Eram seis ou sete filhos. Nunca vi o pai. A mãe também pouco parava em casa. De vez em quando chegava um grande carro e o motorista abria-lhe a porta e ela chegava a casa sem sequer olhar para a miudagem. Havia um laranjal e nós íamos apanhar laranjas para comer logo ali. Lembro-me muito bem dessa casa. Tinha daquelas janelas altas que tinham um banco de pedra de cada lado. E as janelas tinham portadas de madeira. Achava isso muito bonito. Gostava de me sentar nesses bancos e imaginava que, se morasse lá, gostaria de me sentar ali a ler. Mas, quando lá estava, ninguém parava sossegado nem ninguém ligava aos banquinhos pelo que nunca consegui satisfazer esse meu gosto.

Já era eu um pouco mais crescida, uma nova amiga entrou no grupo de amigos inseparáveis. Era muito bem comportada e silenciosa. Tinha vários irmãos e vários primos. Enquanto os primos eram muito irrequietos e brincalhões, ela e os irmãos contrastavam pelo bom comportamento. É médica tal como uma das irmãs e deve continuar a ser calada, bem comportada. A mãe quase parecia avó dela mas também ela era a mais nova, tinha irmãs bem mais velhas. A casa era uma moradia geminada num bairro residencial. A porta estava ao  nível do passeio mas nas traseiras havia um grande quintal. Quando se abria a porta da frente, subia-se um lance de escadas e havia um comprido corredor com divisões dos dois lados e, ao lado, descia-se um outro lance que dava para a cave. Nessa cave trabalhava em permanência a costureira, coisa que eu achava insólita pois era a única costureira privativa que eu conhecia. Era frequente ouvir-se a máquina de costura. 

Uma das particularidades desta família é que tinham uma casa de campo que, do que me lembro, deveria estar a uns dez ou quinze quilómetros da outra casa. No entanto, na altura eu não achava bizarro ter-se uma casa de campo tão perto da casa da cidade. Ao lado da casa dela estava a casa dos primos. No verão iam todos viver para lá. E todo o grupo de amigos também lá estava caído dia após dia. Íamos a pé para lá e tudo aquilo era uma aventura. Na maior parte dos dias, íamos de manhã para a praia e, depois de almoço, para lá. Na altura, eu estava muito apaixonada por um rapaz da minha idade e estarmos os dois lá era, para mim, a maior das aventuras. Nessa casa, na parte da frente da casa, no jardim, havia um coreto com bancos de pedra e uma mesa de ferro forjado ao meio. Foi daí que vi o meu amor fazer cavalinhos e piões de bicicleta, derrapando na areia, caindo e partindo um dente da frente. Nesse dia ele ficou com sangue na boca, com os lábios inchados. Mas, quando passou, ficou o dente partido que lhe dava imenso charme. Lembro-me de termos ido para a casa de banho tratar dele, só miudagem. E, também aqui, não tenho ideia de ver adultos. Só as irmãs mais velhas que nos queriam era à distância. Nessa casa pouco entrávamos, estávamos quase sempre no jardim, em especial no coreto. Ali perto havia uma extensão de campo por onde saíamos a passeio, à descoberta de um convento abandonado onde numa das vezes descobri, escrito ainda de fresco e a todo o tamanho da parede: AMO-TE e, por baixo, o meu nome, também em maiúsculas. Tempos de grande amor.

E vou ficar por aqui pois de todas as casas que, na minha juventude, conheci estas foram das que melhor me recordo. E o texto já vai longo.

[Mas, pensando em tudo isto, tenho também que reconhecer que também eu andava à solta. Desde os meus dez, onze anos que me habituei a ir sozinha para casa dos meus amigos. No verão devia chegar a casa para jantar -- e era tudo normal. E sem telemóveis...]

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A propósito de casas, deixem que partilhe convosco esta moderna casa indiana com um belo lago interior


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Pinturas de Chung Eun-Mo na companhia de Ludovico Einaudi com Flora

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Desejo-vos um belo dia
Harmonia. Tranquilidade. Saúde. Boa disposição.

quarta-feira, fevereiro 16, 2022

Tá lá? É da guerra? Aqui fala do inimigo.

 

Ia dizer que a máquina de guerra tem os motores a aquecer na expectativa de encomendas das valentes mas que a malta não é maluca a ponto de desencadear uma guerra só para fazer a vontade aos mesmos de sempre. Eles e os do petróleo. Ia dizer... mas já não digo nada. 

Não hei-de esquecer-me de estar numa reunião daquelas que juntava umas quinze pessoas em volta de uma magnífica mesa ovalada em nogueira e de se falar na previsível queda do BPP e de 'a ver se um dia destes não vai o BES' e eu dizer e insistir que o BPP ainda vá que não vá embora me custasse a crer mas que o BES e o GES eram too big to fail: impossível, as quebras haveriam de ser brutais, impossíveis de acomodar, que o risco da queda era maior do que as chatices de limpar o que houvesse a limpar. Insistiam que a coisa estava a ficar feia, que cuidado com o que andava a passar-se, que algumas guerras intestinas às vezes acabavam mal e eu que aquilo era uma daquelas conversas fatalistas que podiam resultar mal, que começa um a dizer isso, outro repete, um terceiro ouve dois e faz-se eco e que, às tantas, o que não era nada passava a ser um big buraco. Por fim, estávamos dois em posições bem definidas: ele a a dizer que eu não me fiasse na sensatez dos políticos e de alguns decisores e eu a dar a entender que ele era um conservador fatalista, um pessimista daqueles que ajuda a espalhar o medo, um descrente da democracia. 

Algum tempo depois andava a fazer-se as contas às imparidades, à dimensão do risco, a avaliar protecções e salvaguardas, a analisar os colaterais, a encarar a forte probabilidade de encaixar vultuosas perdas, os advogados e consultores e auditores a trabalharem a todo o gás, todos atordoados com o que estava a acontecer.

Nunca ele me lembrou: então? quem é que tinha razão? Mas eu, que sou humilde, várias vezes o referi: tinha razão e eu não, enganei-me redondamente, nunca pude sequer imaginar tal coisa.

Depois disso ainda mais incerta fiquei nas minhas certezas. Juraria que não vai haver guerra coisíssima nenhuma. Os russos e os americanos podem parecer parvos mas burros não são. Ou o contrário: podem parecer burros mas parvos não são. 

A gente vê aqueles tipos, um com cara de pero saloio, a pares, numa mesa com vários metros de comprido, um em cada ponta, numa sala com uma decoração à Monty Python e fica à espera que apareça um conselheiro a andar com passo maluco ou um psiquiatra alucinado a recolher um dos que ali está, feito parvo, a dizer coisas sem qualquer sentido. 

Mas isto sou eu, tolhida pela lembrança de todos os meus muitos anteriores juízos errados, cheia de incertezas. 

E se, apesar de tudo, estou uma vez mais enganada e um destes dias acordamos com guerra às portas de casa? 

Não dá para acreditar, temos todos mais que fazer, certo....? 

Mas, com tanto doido varrido por aí à solta, às tantas estou eu aqui no maior cepticismo, armada em engraçadinha, achando que anda por aí muita histeria, os media todos empolgados, a acharem que não precisam de inventar assunto, com os comentadores do corona e da vacina e do estado de emergência, os mesmos das eleições e da seca e das alterações climáticas, agora já especialistas em geopolítica... e já por aí anda a tropa em treinos, os campos de tiro todos numa efervescência, tiro aos pratos a doer, todos a marcharem para aprenderem a disciplina de marcar passo para o mesmo lado...


Na volta até já aqui, pelo burgo, anda malta em exercício. O nosso charmoso Vice-Almirante capaz até de já andar a treinar task-forces para desentupirem os canhões, a malta dos paióis, Tancos included, a fazer contagem de munições (e, se não houver balas, que se usem supositórios) e o nosso ubíquo Marcelo já a mandar recados motivacionais aos soldados e, todo enciumado, a mandar bocas ao Putin por não o ter recebido na big mesa oval. 


Vamos lá a ver. Não há pachorra para palhaçadas, invasões, tretas que já só encaixam em cenas para rir. Era só mesmo o que faltava. 

Portanto, repito: não acredito. Mas...

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Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Bom senso. Alegria. Esperança. Paz.

terça-feira, fevereiro 15, 2022

São Valentim para todos os gostos

 


Não festejei o São Valentim. 

Este dia faz algum sentido? Diria que não. No entanto, como cada vez tenho menos certezas, não respondo, mantenho a questão em aberto.

Por um lado não tenho grandes dúvidas de que é uma treta, um mero motivo para o comércio espevitar. Além disso, quem gosta de outra pessoa não precisa de um dia para o manifestar. E, depois, manifestações importadas ou copiadas, cheias de um simbolismo já estafado, fazem algum sentido? Qual o real efeito para uma relação se um dos parceiros, geralmente o homem, chegar a casa com flores e bombons? Só posso falar por mim mas, para mim, se o meu marido fizesse isso, ficaria de pé atrás. Pensaria: se ele não era assim, o que se passa para, de repente, me aparecer assim, feito parvo...? estará a ficar choné?). Se há coisa que nunca apreciei foi um parceiro normalizado, alinhado com o mainstream

Claro que seria diferente se ele chegasse ao pé de mim e dissesse: vai arranjar-te que hoje é dia de festa, depois podes ir andando para a sala, ouvir música -- e fosse ele a escolher a música e fosse uma coisa tão boa, tão boa, que eu nem conseguisse acreditar. E me servisse uma bebida surpreendentemente boa, tão boa, tão boa que eu nem conseguisse identificar os ingredientes. 

E fosse ele para a cozinha e me surpreendesse com os seus dotes culinários. E, ao chegar à mesa, quisesse ser ele a servir-me e me dissesse um poema tão extraordinário que eu me sentisse emocionada, passada da cabeça tamanho o espanto. Mas, enfim, fosse como fosse, uma coisa a sós, sem fotografias, sem público. Coisa privada. Tão privada que nem aqui poderei explicar como acabaríamos a celebração do São Valentim.

Mas isto sou eu a falar. E, de resto, alguém acredita que se ele fosse assim (um charme) no Dia de São Valentim mas, nos outros dias, fosse um Bruno de Carvalho eu relevaria os outros dias e acharia bem a encenação com poesia à mistura? Nem pensar. É que nem pó. 

Aliás, se ele fosse um Bruno de Carvalho ou um Zé-Cueca qualquer, um choninhas ou um palerma encartado, alguma vez poderia pôr um pé na minha casa... abeirar-se da minha cama...?? Está bem, está. Bem se poderia pintar de cor-de-rosa, cobrir de chocolate, sussurrar-me poemas de amor ao ouvido ou pegar em mim para dançar um tango que não levava nada daqui. Nem uma tampa eu me daria ao trabalho de dar.

No entanto, disponível como cada vez mais estou para abrir uma excepção no meu ascetismo*, admito que se pode ter uma atitude simpática em data marcada, talvez de amigos para amigos -- ou seja, um momento como outro qualquer em que se possa celebrar o afecto em geral. Um gesto. Uma graça. Uma coisa assim: olhem, no sábado não querem ir lanchar à beira rio? Dress Code: quelque chose avec un je ne sais quoi. 

Ou seja: convidar uns amigos para festejar a amizade. 

E, quando eles lá chegassem, ter um bolo em forma de coração e uma caixinha em forma de coração para oferecer a cada um. E eles espantados: mas o que é isto??? está a escapar-nos alguma coisa? E, para surpresa geral, eu explicar: É que na segunda-feira foi Dia de São Valentim e lembrei-me de vos convidar para vos dizer que gosto muito de estar convosco e gostava que se lembrassem deste dia e, por isso, a caixinha de lembrança. E eles aparvalhados, sem perceberem se era partida, se eu estava perturbada, se quê... E depois todos a rirem um bocado a medo: Então vamos lá ver se o bolo é bom. E seria bom, bom de verdade. 

Uma coisa assim poderia fazer sentido. Sem fotografias, sem publicações, sem nada. Só a recordação. Bem... uma fotografia poderia haver mas apenas para os próprios, sem tretas de instagram ou facebook.

Mas, enfim, não vale a pena estar para aqui a inventar cenas. Comigo nem São Valentim nem São Querubim nem nada que se lhes pareça. 

(Já agora, num registo autobiográfico: o jantar deste dia de São Valentim foram restos e não houve música ambiente nem poemas. E o chocolate foi do usual, bem preto. Por acaso até comi um morango mas foi cortado aos bocadinhos e misturado com a salada. E, no entanto, o dia foi bom.)

* Lá em cima, falei em ascetismo. Mas não sei se usei a palavra certa. Poderia ser estoicismo. Mas talvez não seja isso. Acho que o ascetismo ou o estoicismo estão em patamares bem acima daquele em que me situo. Despojamento? Talvez. Ou talvez não. Gostava de já lá estar mas acho que também ainda lá não cheguei. Talvez simplicidade. Ou nada disso. Sei lá.


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Fotografias das Vogue russa, espanhola, italiana na companhia de Chet Baker com My Funny Valentine

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Quanto a algumas cenas amorosas do Dia de São Valentim dos outros aqui está uma selecção:

Fails With Benefits | Valentine's Day Couples Fails


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Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, fevereiro 14, 2022

Reencontro pós-covid e Inventing Anna

 


O sábado foi preenchido. Com os covides recuperados, juntámo-nos cá em casa para um brunch. Uma alegria. Os meninos felizes por voltarem a estar reunidos e eu talvez ainda mais por tê-los cá todos, de boa saúde, bem dispostos. 

Em casa do meu filho, o bicho varreu-os a todos. Em casa da minha filha apenas um dos meninos teve, apesar de não se encontrar explicação para os outros não terem apanhado, em especial o irmão que andou agarrado e em cima e em baixo dele, já ele estava sintomático. E o bizarro é que, a seguir, esteve engripadíssimo, todo apanhado, parecia que a covid lhe estava a dar com mais força que ao irmão. Contudo, para pena dele, todos os testes lhe deram negativo.

Já em casa do meu filho, numa das vezes, tendo a menina mais linda testado positivo, ao ligar-lhes, apareceu-me ao telefone o mais pequeno, em festa, cantarolando: 'A mana tem covid...! A mana tem covid....!'. Dias depois era ele: 'Estou com covid..! Estou com covid...!'.

Mas pronto, felizmente nada de grave e agora, pelo menos durante algum tempo, estão livres de maçadas.

Portanto, cá estivemos. Como é bom de ver, havendo um outro convalescente, a festa foi também com ele. Para alegria de todos, o nosso urso felpudo partilhou também do mimo colectivo. Nos dois dias de internamento perdeu para aí um quilo e meio. Impressionante. Não sei como é possível mas sei que aconteceu. Nestes dias cá em casa, em que dormiu como uma pequena lontra, já os recuperou e até parece que cresceu.

Depois, a meio da tarde, um dos meninos tinha um jogo e fomos todos vê-lo. Uma alegria para o menino ter tanta família na bancada a aplaudi-lo. Todos menos o avô que ficou em casa com o dog cabeludo. 

Depois do jogo fomos para casa do meu filho, onde o avô se juntou com a pequena fera. Aliás, quando ouviram bater à porta, dois deles exclamaram, numa alegria, que o urso peludo tinha chegado. Não o avô. O cão. Achei um piadão. Ainda não contei ao meu marido, primeiro porque não me lembrei, segundo porque não sei se vai achar a mesma piada.

Portanto, o sábado correu assim, em família, observando o afecto que une os meninos, a alegria por estarmos juntos. A vida, aos poucos, voltando à normalidade.

Nesse dia, depois de almoço, aceitei um café, esquecida que, quando bebo café sem ser de manhã, fico com o sono comprometido. De tarde, em sua casa, a minha nora também preparou um chá saboroso mas que, na volta, também tinha alguma cafeína. Portanto, de noite, estava com uma daquelas espertinas para as quais não há explicação. Só já de madrugada me lembrei a que se devia tal insónia.

Portanto, de manhã, quando tocou o despertador estava ainda no primeiro sono.

No domingo de manhã fomos buscar a minha mãe para a caminhada à beira mar. Como sempre, a festa é mútua: ela e o bicho felpudo têm um amor mútuo exuberante. Ele salta, ela abraça-o, ele encosta-se a ela, ela puxa-o para si. No entanto, estava frio e vento ali à beira-mar, desagradável. 

Já em casa dela, fui resgatar um mail que ela, sem querer, tinha movido para o arquivo e, portanto, não encontrava. Eram trabalhos de casa de inglês, coisa que leva totalmente a sério.

O domingo à tarde foi em casa, só nós. Tinha pensado que ia aproveitar para dormir mas comecei a ver o Inventing Anna e fui ficando agarrada. Já conhecia a história real de Anna Sorokin que tinha achado incrível, fruto dos tempos de ilusão que atravessamos. 

As redes sociais e a ficção que se engendra em torno de quem gosta de se mostrar em locais que invariavelmente serão descritos como fantásticos -- sejam paisagens que se dirão do outro mundo sejam restaurantes que despertarão a gula e a inveja alheia -- são o caldo perfeito em que podem medrar histórias que não lembram ao careca (e, como é sabido, nada contra os carecas). 

Pode uma vida ser descrita através da auto-reportagem que dela se vai fazendo, mostrando-se com amigos, mostrando toilettes, mostrando sorrisos, pôres-do-sol, recolhendo corações, likes, dedinhos de aprovação, palavras reduzidas a metade..? Diria eu que quanto muito reflecte as andanças dos avatares que tomaram o lugar das pessoas de verdade. Ou que ajudam a forjar identidades de estrelas que a qualquer momento se irão despenhar. Mas isso sou eu que estou fora deste mundo.

Bem sei que as redes sociais estão cheias de pessoas que acabam por fazer a vida ganhando gorjetas, borlas, recebendo as compras do supermercado, roupas, cremes, dinheiro, e tudo apenas por publicitarem essas marcas nas suas stories, vídeos, fotografias. Algumas, segundo me dizem, acabam por viver bastante bem, só com isso. Fogo fátuo, forçosamete.

Anna Sorokin mais não é do que um fruto extremados destes tempos. Junte-se a isto a superficialidade de quem se convence que se é apenas porque se aparece ou que se é rico apenas porque se é visto ao pé dos ricos, ou a ganância e a futilidade de quem aceita tudo acefalamente por pensar que pode partilhar os lucros de uma galinha dos ovos de ouro, e aí temos como uma jovem sem um tostão conseguiu enganar meio mundo, receber empréstimos de bancos que acreditavam que era uma herdeira rica, frequentar restaurantes e hotéis caríssimos, fretar aviões e tudo o que lhe ocorresse. 

A série da Netflix espelha isso muito bem. Isso e o bluff que tantas vezes está associado ao delírio dos unicórnios, essas startups que, não sendo nada, valem milhões. A personagem do namorado dela, Chase Sikorski, representa bem a estupidez e a cegueira colectivas que frequentemente envolve a angariação de fundos para reforçar capitais de projectos que não passam de mãos cheias de nada.

Mas, então, dizia eu, pus-me a ver a série e, com esta minha pulsão para o excesso, fui vendo de seguida, episódio após episódio. Até que a pequena fera acordou da sua sesta e veio para o pé de mim. Até aí tudo bem. Só que, ao fim de dois minutos de bom comportamento, logo quis brincar comigo, pondo a pata em cima do computador, puxando-me a meia, tentando arrancar a franja do tapete, indo buscar uma almofada para tentar arrancar uns bordados que lá tem, etc. Ou seja, impossível estar quieta. 

Ouvindo-me a zangar com ele, o meu marido resolveu intervir, dizendo que o melhor seria irmos dar um passeio com ele.

Fomos. Caía uma chuvinha de nada, coisa que nem atenua a seca nem deixa secar a roupa estendida. Daquelas coisas de que se diz que não coisa nem sai de cima. Resumindo: chegámos a casa de noite, todos molhados. Escuso de dizer que limpar o urso é um desafio: quer roubar-me a toalha, puxa-a, quer fugir com ela, brinca e desafia-me ele, saltando para cima do sofá ainda molhado, depois saltando para o chão. Parece que ri enquanto faz isso.

Com tudo isto, foi já depois de jantar e aqui sentada que me deu a pancada: adormeci. Não durou muito pelo que estou aqui que não me aguento, naquelas noites em que o sono me envolve, me baixa as pálpebras, quase me vence. Ou seja, um fim de semana dos bons mas curto demais pois agora é que eu estava capaz de entrar em fim-de-semana. 

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Fotografias de  Daniel Holfeld ao som de YEИDRY x Lous and the Yakuza - Mascarade | A colors show 

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

Boa sorte. Boa saúde. Tudo a correr pelo melhor

domingo, fevereiro 13, 2022

Vou já avisando: este post não é para almas sensíveis ou tementes
[E agora, José?]

 

Eu acredito em tanta coisa, tanta. Mas, acima de tudo, acredito no supremo mistério da harmonia que nasce do acaso e do caos. 

Tudo o resto em que acredito são derivadas desse supremo mistério.

Milhões de representações dessas infinitas derivadas: a beleza das flores, a bondade dos animais, a inteligência da natureza, a magnificência do mar, a magia da arte, o indecifrável jogo de luzes e de sombras que é a poesia, o privilégio que é a vida que nos é dado testemunhar. Tantos exemplos.

Acredito nesse mistério que não quero compreender. Não encontro explicação para ele nem a procuro. Seríamos esmagados pela imensidão do que há para saber sobre a improbabilidade do caos se transformar em harmonia que a toda a hora, em todos os lugares e sob as mais diversas formas acontece. 

A nossa ínfima capacidade de compreensão humana jamais poderia abarcar a explicação para o inexplicável. O frágil equilíbrio e a beleza harmoniosa que acontecem a cada instante são indecifráveis e assim devem continuar. 

Há quem chame deus a esse mistério e há quem o vista com roupas humanas. 

Há quem acredite no enorme edifício de regras, segredos e vícios que, ao longo dos tempos se foi construindo em torno do nome dado a esse mistério. Mas há quem lhe chame outros nomes. 

Para mim, neste caso, os nomes não importam. O que importa, penso eu, é respeitar esse mistério e as suas diferentes emanações: as pessoas, ou outros animais, as flores, os rios e os mares, os céus e as montanhas, as pedras e as grutas e as crateras e os labirintos. 

Por isso, acho que não se devem estabelecer hierarquias, preceitos, preconceitos ou mandamentos que procurem reger o nosso pensamento. 

Devemos, penso eu, ser inocentemente livres para nos descobrirmos e deslumbramos com toda esta imensa maravilha que nos rodeia. Não vejo necessidade nem compreendo o propósito de dar nomes, estabelecer limites ou incutir medo e a necessidade de prestar contas. Ou a necessidade de se criar a ilusão de uma outra vida com toda a maravilha que há nesta.

Pelo menos, tal como vejo e sinto, basta-me fazer parte do milagre dos infinitos e permanentes acasos que acontecem sem se perceber como ou porquê. Da separação de uma célula em duas e de duas em quatro e de toda essa virtuosa multiplicação pode nascer um lobo que atravesse a noite, uma águia que deslize junto às nuvens, uma rosa azul que se deposite aos pés dos incréus, pode nascer um filho. Fazer parte deste milagre e senti-lo é um dom que nunca saberei como agradecer nem a quem agradecer. 

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Porque é assim que penso, não me sinto chocada ou ofendida com os vídeos religiosos da Porta dos Fundos. Pelo contrário, acho saudável e divertido que questionem e riam dando largas à sua imaginação em reinterpretações pouco canónicas de episódios fundadores da história e da cultura em que a maioria de nós foi nada e criada. Mas a quem pense de outra forma aconselho que considerem a abstenção em relação ao que se segue. 

E agora, José? - segundo a endiabrada rapaziada da Porta dos Fundos

Dizem que pai é quem cria, mas mesmo assim Jesus largou a carpintaria pra se dedicar ao projeto do Outro Pai. Complicado


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Pinturas de Odile Redon ao som de Amarumar - Francis Mann
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Desejo-vos um feliz dia de domingo
Tudo de bom

sábado, fevereiro 12, 2022

Podemos defender-nos dos piratas?

 


As empresas e organismos portugueses estão desprotegidos em relação aos ciberataques?

- Estão

Uma empresa ou um organismo pode garantir que, depois de ter investido muito dinheiro em segurança, está seguro contra ciberataques?

- Não

Um pirata informático consegue sempre entrar nos sistemas de uma qualquer empresa ou de um qualquer organismo, por melhor protegidos que estejam?

- Consegue. É uma questão de tempo.

Quais são as principais vulnerabilidades das redes e dos sistemas informáticos?

- Muitas. Essencialmente as humanas.

O que deve uma empresa ou organismo fazer para melhor se defender de um ataque informático?

- Para além de investir em segurança (equipamentos, aplicações, etc), em formação a todas as pessoas da empresa e num seguro adequado, deve, acima de tudo, ter um bom plano de contingência que contemple bons sistemas de backup. Mais tarde ou mais cedo, todos serão atacados. A diferença estará na capacidade de rápida recuperação.

Pode dar um exemplo de como pode ser fácil a um hacker entrar em sistemas alheios, danificando ficheiros, capturando acessos, copiando informação, impedindo os serviços, etc?

- Um exemplo muito simples. Imagine-se um estagiário que vá trabalhar na área de IT. E, quem diz estagiário, pode dizer um trabalhador temporário. Ou mesmo efectivo. Tanto faz. Enquanto lá está, para poder trabalhar, atribuem-lhe permissões adequadas a pessoas que trabalham nesta área (permissões alargadas). Enquanto lá está, sabe como é a arquitectura das redes, dos sistemas, como é a segurança, quais as rotinas dos administradores de sistemas, etc. Quando sai, suponha-se que, por lapso, não lhe são retirados de imediato os acessos. Ou nem isso. Suponha-se que, quando lá estava, criou um utilizador com permissões alargadas. Suponha-se que, já lá fora, resolve fazer uso dos acessos e dos conhecimentos. Entra legitimamente, não é detectado pelos sistemas de segurança. Faz o que quer. Ou suponha-se que nem é ninguém de fora mas alguém que, lá dentro, resolve vingar-se. Ou que está a ser pago por alguém para fazer isso. Mil hipóteses. Mil hipóteses quase impossíveis de detectar. Ou, numa organização ainda pouco apetrechada para detectar brechas, suponha-se que alguém instalou algum equipamento ligado à rede e que se esqueceram de mudar a palavra-passe que o equipamento traz por defeito, palavra-passe essa disponível na net. Mil hipóteses. Mil. Impossível a blindagem absoluta. Impossível. Uma vez lá dentro, é só o tempo para ir entrando, conhecendo, agindo. Pode até nunca dar a conhecer que lá está ou lá esteve. E estar, silenciosamente, fazendo o que quer. Ou pode, um dia, deitar tudo abaixo. Apesar de não estar ao alcance de qualquer um, é fácil.

O que leva um pirata informático a entrar nos sistemas e nas redes de empresas ou organismos?

- Motivações políticas (em especial quando os hackers actuam a mando de Estados), motivações comerciais (para prejudicar as empresas atacadas), motivações económicas (pedindo resgates), por gozo (entrar em sistemas alheios é um desafio, é como vencer etapas de um jogo).

Os únicos riscos que se correm quando uma empresa ou organismo são atacados são apenas os de se perder informação ou de se ficar sem acesso durante uns dias?

- Não. Pode ser muito pior que isso. Se pensarmos nos equipamentos de controlo de instalações críticas tais como redes eléctricas ou de abastecimento de água ou gás, salas de controlo na aviação ou na rede ferroviária ou de metropolitano, salas de controlo em fábricas químicas ou petroquímicas, ou redes de operadores de comunicação, em especial se forem de mais que um em simultâneo. Em qualquer destes casos pode estar a falar-se em risco de vida, potencialmente em risco para muitas vidas. Ou seja, há casos que dizem respeito à segurança nacional. E espero bem que, a esta altura do campeonato, os nossos SIS estejam a validar com as empresas críticas como estão os seus planos de contingência.

De novo, o que devem as empresas e organismos fazer para prevenir situações graves?

- Levar o risco muito a sério. Em primeiro lugar devem ter um responsável de Segurança. Não deve ser uma pessoa qualquer. Deve ser alguém muito competente, muito pragmático, muito assertivo, muito bem conhecedor do funcionamento e da cultura da organização, deve ter um grande ascendente junto de todas as pessoas, deve reportar à Administração. Em segundo lugar deve haver um orçamento generoso para o tema da Segurança. 

Numa empresa ou organismo críticos, em caso de suspeita de que algum deslize pode ter acontecido, de que algo de suspeito pode estar a acontecer, o que se deve fazer?

- Ao contrário do que é costume (desvalorizar, recear 'dramatizar', ter medo de que acusem de ser paranóíco, etc), deve agir-se prudencialmente: devem avisar-se de imediato as autoridades (SIS e/ou Centro Nacional de Cibersegurança, consoante a natureza da suspeita), chamar peritos em segurança, começar de imediato a monitorizar de perto todos os comportamentos na rede e nos sistemas, em especial os que pareçam anómalos e, de imediato, verificar se todos os sistemas de contingência estão operacionais e se há quem saiba conduzi-los.

A comunicação social tem estado a dramatizar ou a empolar a gravidade dos ataques sofridos este ano (e ainda estamos no início de Fevereiro) pelo grupo Impresa, pelo grupo Cofina, pela Assembleia da República, pela Vodafone, pelos laboratórios Germano de Sousa...?

- Não. Pelo contrário. Neste caso, maior divulgação dos riscos e maior divulgação de quais as melhores práticas seriam necessárias. 
Este tema é sexy?

- Não.

Então porque temos que lhe dar atenção?

- Porque disso pode depender a nossa liberdade. Ou a nossa vida.  

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Fotografias feitas na praia ao fim de uma tarde de névoa na companhia de Sofiane Pamart que interpreta Love
A última fotografia, como é bom de ver, não fui eu que a fiz. 
Nada disto tem a ver com o texto mas de alguma forma eu haveria de tentar compensar a aridez do tema, certo?
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Desejo-vos um sábado feliz
Afecto. Encontros. Abraços. Alegria. 

sexta-feira, fevereiro 11, 2022

O que Kamila faz ao som do Bolero

 


Sei que sou lida por gente nova. Há pouco, para escrever isto, fui confirmar. Segundo as estatísticas do Blogger, 75% dos meus Leitores terão menos de 44 anos. Já agora, a maioria (cerca de 55%) são homens.

Mas, para o efeito do que vou dizer, o sexo tanto faz. A idade é que sim, faz a difereça. É que imagino que estes meus Leitores não façam nem ideia de quem é a Bo nem do sururu que por aí houve aquando do afamado 10, muito menos da cena do Bolero e de mais não sei o quê.

Para dizer a verdade nunca vi o dito filme. Sou visceralmente avessa a tudo o que é falado por toda a gente. Falava-se com ar de coisa tal como se falava da cena da manteiga do Último Tango ou da cadeira da Sylvia Kristel. Estava-se naturalmente no dealbar dos novos tempos e havia muito boa gente que se escandalizava com pouco.

Mas, imaginando que nada de transcendente teve lugar, pelo menos de forma explícita, o certo é que ficou a ideia de que algo de especial aconteceu ali ao som do Bolero. 

A propósito disso, do que pode acontecer ao som do Bolero, tenho que aqui abrir um parêntesis para inserir aquela expressão que, sabe-se lá porquê, viralizou: quem nunca...?

Mas isso agora não interessa para nada. O que interessa é que o Bolero é, na realidade, desafiador para a imaginação (de quem a tem), apela aos movimentos cadenciados e tem um timing muito ajustado a quem goste de se esmerar.

Não admira pois que inspire bailados que nos envolvem e nos transportam para momentos de sedução e intimidade. 

Sylvie Guillem, por exemplo, é extraordinária na interpretação do Bolero. Rodeada de admiradores, ela seduz um por um, cativando-os, prendendo-os aos seus movimentos sensuais.

Em tempos, eu gostava de ver a patinagem artística no gelo, especialmente nos Jogos Olímpicos ou campeonatos mundiais. Agora nunca sei quando e onde dá pelo que perco tudo. Mas soube que uma jovem de 15 anos, Kamila Valieva, talentosa, virtuosa, certamente inocente em relação a malícias e subentendidos, dançou primorosamente o Bolero, fez um salto quadruplo nunca antes visto e encantou todos quantos a viram.

Fui ver e, na realidade, ela desafia as leis da física. Não se percebe como consegue girar a tal velocidade, elevando-se no ar, rodopiando, girando e caindo de pé para continuar a deslizar. E sempre com uma leveza e graciosidade encantadoras. 

Numa das vezes cai mas, de imediato, se levanta e prossegue como se nada tivesse acontecido. E prossegue magistralmente. Contudo, no fim, faz beicinho, está triste, sente que não foi perfeita. Uma menina.

O pior são agora as suspeitas. Dizem que testou positivo a uma certa substância. Li que se trata de um medicamento que previne os ataques de angina (se bem percebo, a chamada angina de peito). Não me perguntem porque é que ela, a serem verdadeiras as suspeitas, tomará isso nem como é que um medicamento para uma questão cardíaca pode funcionar como um estimulante ou coisa que o valha. Nem sei quem é que, no caso de uma criança de 15 anos, decide o que ela toma ou deixa de tomar. Diria que seriam os pais. Mas os pais autorizariam uma filha, uma criança, a tomar medicamentos que a podem prejudicar quer a nível desportivo quer, sobretudo, a nível físico? E já nem falo no aspecto psicológico. 

E, pensando bem -- se isto do simbolismo vale alguma coisa --, se a minha filha, aos 15 anos, participasse nos Jogos Olímpicos, a mim não me agradaria que dançasse o Bolero. Com tantos milhares de hipóteses de músicas por que raio de carga de água logo haveria de dançar o Bolero...? Claro que o Bolero é o Bolero é o Bolero e é independente do que se pode fazer ao ouvi-lo mas, sabendo que a coreografia teria forçosamente alguma conotação sexual, eu acharia que se poderia muito bem esperar pelos 18 anos da miúda.

Mas, enfim, isto é uma idosa a falar. Acho que estou assim, a modos que mal disposta, por pensar que uma jovem tão fantástica -- com umas pernas esguias desta boa maneira, com uns braços que giram em volta do corpo, com uma capacidade de elevação e uma elegância tão superlativas, com uma vida tão promissora pela frente -- pode ver manchada a sua reputação e comprometida a sua carreira por lhe darem a tomar medicamentos proibidos.

Desejo que tudo não passe de um equívoco. 

Isto no dia em que soubemos que, por cá, um puto de 18 anos se preparava para causar um desgraça na escola. Soube na rádio, quando estava no carro à vinda para casa, à noite, e nem queria acreditar.

Nestas ocasiões as televisões são inundadas de espertos. Ainda não se sabe de nada e já eles sabem de tudo. Ouvi que se tratará de um puto tímido, introvertido e que consumia muitos videojogos de violência. Não vale a pena tecer considerações antes de haver certezas. O que sei, independentemente deste caso, é que deixar os putos entregues às PlayStations, a brincarem às guerras, aos ataques e a essas cenas virtuais que parecem verdadeiras e em que o seu cérebro, dúctil, se habitua às mortes e às múltiplas vidas que se podem comprar e em que as mortes não causam dor é daqueles erros que mais cedo ou mais tarde se pagam caros.

Mas, enfim, não me apetece escrever mais. Más notícias que envolvem crianças ou adolescentes deixam-me sem vontade de escrever.

Kamila Valieva Lands Historic Quadruple Jump At Only 15 Years Old | 2022 Winter Olympics



Já agora: Sylvie Guillem - Bolero


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Desejo-vos uma bela e happy friday
Alegria. Saúde. Ar puro e paz de espírito.

quinta-feira, fevereiro 10, 2022

O ano do pensamento mágico

 


Hoje estou contente com uma pequena vitória pessoal: consegui ler um pouco à hora de almoço. Coisa rara e gostosa. 

Em casa, depois de uma manhã sem história, estava com frio. Resolvi que era coisa com fácil solução: fui para o sol. Levei a biografia do Pina e 'O ano do pensamento mágico' para espreitar o segundo e depois regressar ao primeiro.

Depois, aqueci e despi a blusa de manga comprida. Como o sol estava a dar com força e me incomodava a leitura, com a blusa fiz uma cobertura à árabe: coloquei-a sobre a cabeça, cobrindo os ombros e a modos que descaindo sobre a testa para fazer alguma sombra. Com as mangas, ajustei-a com um nó atrás da cabeça. 

O little teddy bear, como geralmente acontece, veio comigo. Primeiro escovei-o. Disse-lhe: 'Vamos pentear?' Começou logo a tentar tirar-me a escova da mão. Disse-lhe: 'Deita que a dona vai para o pé de ti'. Então deitou-se. Sentei-me ao lado e escovei-o. Depois disse: 'Vá, agora do outro lado'. E dei-lhe um toque para o rebolar. Assim fez. Deixou muito bem. Depois encostei a minha cabeça ao seu corpinho felpudo e macio. Estava quentinho, ali deitadinho ao sol. Ficou todo quietinho, sabendo-lhe bem o chamego.

Passado um bocado, pensei que não bebia há um bom bocado e fui lá dentro buscar-lhe a tigela da água. O meu marido, quando me viu, desatou a rir: 'Eh pá...! O que é isso...!?'. 

Dantes, à hora de almoço, estava em restaurantes ou noutros lugares decentes. Agora estou à porta de casa, sentada numa cadeira, os pés em cima de outra, com umas calças que arregaço até ao joelho (vitamina D oblige), uma tshirt com braços ao léu e uma blusa a servir de chapéu-turbante. 

Por vezes, quando me vê nestes preparos, o meu marido diz: eu devia era tirar-te uma fotografia e mandar para os teus leitores para eles verem o estado em que te apresentas. E era. Um dia em que resolva dar-me a conhecer há-de ser assim para vos provocar uma barrigada de riso.

Mas, dizia eu, levei os dois livros mas um deles, o da Joan Didion, era apenas para lhe tomar o pulso. 

Afinal não consegui parar. 

Uma escrita seca, desajectivada, depurada. Muito sincera. Fez-me pensar. Por diversas vezes, fiquei a pensar. 

Joan Didion quis ficar em casa sozinha na noite em que o marido morreu. Sentiu necessidade disso. Com a minha mãe aconteceu o mesmo. Será que também queria ter esperança que não tivesse acontecido?

O documentário sobre a Joan já me tinha deixado com esta impressão: o acaso e a precaridade de tudo. Num instante está tudo bem e no instante seguinte já está tudo mal. E quando queremos contar como tudo aconteceu, temos necessidade de contar que antes estava tudo bem. No outro dia, quando contei o que aconteceu ao meu ursinho felpudo, sem querer, também comecei por contar como antes estava tudo tão normal, tão bem. Talvez queiramos mostrar como é tão chocante as coisas ficarem tão mal quando antes nada prenunciava o que aí vinha.

Ou será que, quando está tudo mal, nos ocorre que antes estava tudo bem e não o valorizámos o suficiente? Desvalorizámos porque achámos normal. Em vez de termos retido o momento, aspirado bem o ar que se vivia no momento em que estava tudo bem, não, deixámos o momento passar. A mim acontece isso. 

No entanto, por vezes, quando sinto que tudo está perfeito, apercebo-me do milagre que é essa convergência virtuosa e, interiormente, recolho-me, agradeço e tento assimilar para todo o sempre a felicidade daquele momento. 

Mas isso não é frequente. O frequente é não pensar que tudo pode mudar de um momento para o outro e desaproveitarmos os momentos bons.

Ela escreveu uma outra coisa que também me deixou a pensar. Recorda um período em que estava num lugar agradável, em que tinha uma rotina agradável com o marido, em que estavam mesmo bem. E interroga-se: estariam excessivamente dependentes um do outro?

Percebo-a. A posteriori, ao escrever, amputada da companhia do marido, recordando o tempo, depois da sua morte, em que desejava que ele regressasse, provavelmente pensou que, se antes não fosse tão chegada a ele, talvez depois não sentisse tanto a sua falta. 

Percebo-a. Mas tenho para mim que é um pensamento inútil, póstumo, até perverso. Se não se viver um grande amor e se não se souber degustar esses momentos depois não se sente falta dele. É um facto. Mas será preferível uma vida sempre vazia só para não se sentir falta de quando a vida era boa? Não creio.

E a roupa de John Dunne, o marido dela? O separar tudo para dar... mas ficar com algumas coisas. Por exemplo, alguns sapatos. Pode ele regressar e depois não ter sapatos para se calçar. Parece uma piada. Mas pode ser uma piada para quem está de fora, não para quem sofre a dor da perda e, mesmo sem querer, se agarra às mais improváveis esperanças. Ao fim de algum tempo a minha mãe separou a roupa do meu pai. No entanto, no outro dia fiquei surpreendida ao saber que ainda conserva algumas coisas. Não digo nada. Percebo-a. 

Pode acontecer que um dia seja comigo. Ou com o meu marido. Sabemos lá o que a vida tem guardado para nós. Melhor nem pensar. Mas tenho que confessar: cada vez me custa menos pensar nisso. A vida da gente é assim mesmo. Numa visão microscópica a vida é um segmento: nascemos, vivemos, morremos. E somos todos importantes, indivíduos com nome, história, família. Mas, se a visão for macro, a vida é uma recta, um contínuo, um infinito devir em que os que entram e os que saem da cadeia são episódios irrelevantes.

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Mas depois chegou um telefonema e mais os problemas do costume, pedidos, explicações. E eu tive que pedir análises de rentabilidade, contextualizações, essas coisas das quais não se consegue extrair matéria para romances ou poemas. E o ano do pensamento mágico ficou para trás.

A seguir fomos fazer uma brevíssima caminhada. Depois fomos à consulta no hospital veterinário para se confirmar a alta. A pequena fera não queria subir para a mesa de observação, depois rosnou quando sentiu que o termómetro o estava a penetrar, depois não quis mostrar a língua, estrebuchou, deu alguma luta. Mas, felizmente, estava tudo bem. Um alívio e uma grande alegria. Quando o pusemos no chão, ficou numa alegria e até festejou com a veterinária. 

Ainda passámos por casa do meu filho, que ainda não estava mas estavam os meninos com a sua mãe. Tudo recuperado da covid, os meninos bem encarados, a mãe ainda com ar um pouco debilitado, mais magra e tudo.

Chegámos a casa tarde. Claro. Não é essa a história da minha vida? Por um motivo ou por outro, todos os dias há qualquer coisa. E tanto que me apetecia poder estar mais tempo como hoje estive, ao sol, a temperatura amena, os passarinhos a cantarem, eu a ler, o meu amiguinho felpudo ao meu lado, e tudo bem, todos bem, tudo tranquilo, tudo em paz.

(Embora saiba que isto de não chover é uma chatice)

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Pinturas de Paul Klee na companhia de Elisabeth Leonskaja que interpreta de Mozart: Piano Sonata No. 6 in D Major, K. 284: II. Rondeau en polonaise

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Desejo-vos um dia feliz

Paz de espírito. Saúde. Força. Confiança.