quarta-feira, dezembro 09, 2020

Ela, a mais bela, talvez não tenha companhia pelo Natal

 




Talvez haja quem pense que se escolhe. Não, não se escolhe. Os grandes, grandes amores não se escolhem. Os grandes amores não aparecem quando se procura. Nem aparecem quando se precisa. Não. Os grandes, grandes amores aparecem quando não se espera, sem aviso prévio. Aparecem muitos vezes quando e como não devem. Não obedecem a um cahier des charges

Se eu pudesse ter escolhido, nem pensar em escolhê-lo a ele. Não vale a pena atirarem-me pedras porque sou a primeira a achar que não devia, sobretudo porque, nisto, sou quem mais perde, quem mais sofre.

Depois de ter passado pelo que já passei, tantos sonhos frustrados, tanta indiferença sentida na pele, tanto abandono quando mais sentia necessidade de um abraço, tudo o que não precisava era dele.

Nos últimos anos, tantas ilusões caídas por terra, tantas noites de solidão e intranquilidade. Eu e a gata, duas tristes, ela rondando pela casa ou dormindo horas a fio no cadeirão aqui em frente, eu rondando pelo mundo em busca de uma possibilidade. Tantas horas, tantos dias, tantos meses. Tanto tempo que parece uma eternidade

Amigos e amigos. Centenas. Visto-me e arranjo-me e estico o braço e fotografo-me e, de volta, recebo sorrisos, corações, likes, elogios. Que estou linda, que as cores são lindas, que o cabelo está óptimo, que a gata é uma fofa, que não sabem qual a felina mais misteriosa, se eu, se ela, brincadeiras, trocadilhos e fúteis agrados. E quantas noites passadas nos chats desta vida, tantas vezes em que parece haver um caminho, almas gémeas, tantos gostos coincidentes, tantas vezes em que exclamamos que o mundo é pequeno, promissoras afinidades -- tantas ilusões que se alimentam de palavras, de equívocos, de meias verdades. E tantos blind dates, tantos jantares com homens aborrecidos, vazios, cheios de si próprios, inúteis. Tantas situações desagradáveis. Tantas vezes em que tentei, em que me esforcei por acreditar, em que me forcei a iludir-me, forjando um entusiasmo que, por dentro, não sentia. Tantas frustrações. 

Sempre a correr para o ginásio, sempre a correr para arranjar cabelo, mãos e unhas, sempre à procura do vestido mais elegante, dos sapatos que melhor definem a silhueta, sempre a ver ao espelho qual o melhor ângulo, a melhor pose, e sempre a combinar jantares, bares, copos, tretas. E tantas noites em casa, em silêncio, a ver o tempo a passar. 

A gata vem, percebe-me os humores, olha-me com aqueles olhos que sentem antes de verem e eu desvio o olhar para que ela não testemunhe o que quero esconder.

Está a chegar o natal, esse dia horrível. Pode ser bom para quem tem famílias grandes, crianças. Mas é um horror para quem quase não tem família e, pior, para quem não se dá com os poucos que sobraram. Enquanto isso, ele lá vai estar numa casa cheia de enfeites de natal, bacalhau com todos, a trinchar um peru fumegante, e todos em volta da mesa, mulher, filhos, pais. Tinha-me dito que, por causa disto, não iam estar os irmãos, só eles e os pais. Um dos irmãos e família ficariam com a véspera e o outro com a noite do dia. Mas tinha-me garantido que na véspera à tarde viria cá a casa. Isto já há mais de um mês. Parece impossível mas há já mais de um mês que não o vejo. Estúpido. Mil vezes estúpido. Todos os dias a aguardar que haja tempo para uma visita, um telefonema, um gesto. 

Não se escolhe, é o que tantas vezes digo. 

Se, naquele dia, a minha mãe não tivesse tido que ir às urgências, se uma semana depois também não, se não tivesse sido ele das duas vezes, se não o tivesse visto uns dias depois na livraria, se... se... se aquele blusão de cabedal não lhe ficasse a matar, se aquela barba não o tornasse ainda mais irresistível, se o livro que tinha na mão não fosse tão inesperado que me tivesse impelido a dirigir-lhe a palavra... se... se... o café que logo ali tomámos, ele porque estava mesmo a precisar e eu porque parecia tomada por um absurdo coup de foudre, se... E se eu, tão louca, não tivesse dado o meu número e se ele não me tivesse ligado logo a seguir e se eu, sempre tão carente, não tivesse caído de quatro, caída, caída, feita parva, apaixonada, cheia de esperança... e se... e se.... 

Até ao dia em que me disse que queria ser sincero e eu já a tremer de medo, a adivinhar o que ele ia dizer, e depois a querer desistir de tudo, um homem casado não, tudo menos isso. E os dois abraçados, abraçados, com medo do que estava a passar-se, sem saber bem como lidar com isso. E depois a vir cá para termos onde estar, sempre escondidos, ele sempre com pressa, um amor que não podia existir. E a minha família ofendida, a cortar relações, a rejeitar-me como se fosse uma perdida, uma destruidora de lares, alguém que ainda irá meter-se em trabalhos, tu vais ver as vergonhas por que vais passar, deixa a mulher dele descobrir... 

Mas ele sempre tão carinhoso: quando eu lhe dizia que eu era a outra, a sem nome, a ela, a dizer-me que não, que eu não era a ela, era, sim, a mais bela. Era assim que me tratava, a mais bela. Fotografava-me e eu gostava que ele me fotografasse. Entregava-me à sua lente, ao seu olhar, ao seu corpo.

Até que isto começou, porcaria do corona, raios partam o corona, e aí tudo começou a complicar-se. Não tinha tempo, sempre ocupado, sempre a trabalhar, sempre a receber e a fazer chamadas, sempre em stress, sempre a fugir. Agora já nem sei o que existe, se é que ainda existe. Tento compreender, claro que sim, não sou estúpida. Mas, bolas, nunca como agora fui tanto a outra, a descartável, a que se sente um estorvo.

Ah... não se escolhe. 

E agora, se ele está doente, em casa, como falar com ele...? Impossível. Nem para saber se está bem. Sei lá se a mulher está ao pé, sei lá. 

Vai chegar o natal e vai ser o mais triste de todos. Não tenho dúvidas. Nem dúvidas, nem presentes, nem companhia, nem nada, nada. Nem ninguém para ver como a mais bela está elegante, bem penteada, cheirosa. Ah, se se pudesse escolher...


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Marion Cotillard foi fotografada por Mikael Jansson e vem ao som de If you love me por Melody Gardot

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Um dia feliz.
Saúde.

terça-feira, dezembro 08, 2020

Mió ainda

 



Dia que pareceu suspenso no ar. Foi daqueles dias que é e não é. Precisava de fazer uma compra mas não sabia se podia circular, se o comércio estava aberto. Desatenta, certamente. Uns lugares saíram de muito elevado, não sabia bem quais. Fomos à hora de almoço, meia compra feita. De qualquer modo, dia de trabalho. 

Mas frio, muita humidade, escuro a meio da tarde. Esta terça-feira, dia feriado. Ainda há menos de um ano, dia de folga era dia de passeio ou de encontro. Agora é dia de recolhimento e ainda não aprendemos a viver assim. Sobra tempo mas não sabemos bem o que fazer com ele porque não podemos usá-lo como quereríamos. 

De tarde, lareira acesa. A trabalhar na mesa redonda junto ao calor. Acabou a faena já estava muito escuro e frio para ir passear no jardim. Fui buscar um livro e estive a ler ali mesmo. Uma estreia. Gosto de ler reclinada, não sentada numa cadeira. Mas, à lareira, estava-se bem. Podia ter ido para o lado de lá, sentar-me num cadeirão. Mas achei que não valia a pena. Fiz chá de erva-príncipe e gengibre, fui lendo e bebendo. Uma novidade, isto. Bem me soube.

Depois fui ver as notícias. Mas ando enjoada, niquenta: nada me interessa por aí além. Aquilo que sei que deveria dizer é de tal forma incómodo (sobretudo para mim própria) que ando a evitá-lo há meses. Tem a ver com a morte de Ihor Homenyuk no aeroporto de Lisboa. Não gosto de falar do que não sei. Mas fosse o que fosse que tivesse provocado tal sanha por parte dos inspectores e fosse o que fosse que os levou a todos a encobrir o caso, pelo menos com os contornos que parece ter tido, uma coisa parece inegável: é indesculpável que agentes da autoridade agridam alguém até à morte, deixando-o a agonizar, sem tratamento ou suporte de vida. Acho tudo o que se vai conhecendo de uma tal barbaridade que não compreendo como não houve uma investigação célere e exaustiva para que já houvesse acusados e para que já tivessem sido retiradas conclusões políticas. Seria bom que fosse público o que ali se passou naquele dia trágico para um homem que, ao que parece, vinha em busca de uma vida melhor; e seria bom que também se conhecesse quais os procedimentos habituais para averiguações do SEF no aeroporto e quais os mecanismos de controlo para que nunca mais haja lugar a situações de violência e encobrimento como as que envolveram o espancamento até à morte de Ihor. Também me parece que seria bom que tivéssemos todos conhecimento dos exames psicológicos a que os agentes de autoridade são geralmente sujeitos bem como qual o controlo de despiste de consumo de álcool ou drogas que lhes é feito.

A bem da transparência e da confiança da população nas autoridades, tudo isto deveria ser claramente exposto.

Mas, enfim, tema de tal gravidade não pode ser falado en passant e, por isso, prefiro nada dizer. 

Continuo, então, onde estava: no meu livro. Um livrinho pequenino. Manuscritos de Felipa. No outro dia, quando o folheei estava com aquela alta expectativa que sempre sinto em relação a Adélia Prado e, não tendo sido atingida por um raio de luz ao abri-lo, logo me assustei perante a perspectiva de que, desta vez, talvez fosse decepcionar-me.

Mas não: há na escrita de Adélia Prado uma irreverência, uma subversão, uma brincadeira, uma graça e, ao mesmo tempo, uma tal ida ao miolo que não consigo nunca ficar-lhe indiferente. Pelo contrário, espanto-me. Mas é um espanto agradado, uma vontade de perceber como se consegue cerzir de forma tão criativa palavras normalmente dadas a outras companhias.

Não é fácil transcrever excertos pois perde a graça se descontextualizado. Há ali uma dança em que cada passo faz parte da coreografia. Não dá para amputar o pas-de-deux, não dá para retirar o voo, a graciosidade do movimento, a amplitude do salto. Mas, ainda assim, arrisco. Um petit amuse-bouche.

Teodoro atende o telefone e pelo jeito a Angelina acabou de morrer. Me dá a notícia no tom em que toda a notícia assim deveria ser dada: olha, a Angelina terminou o serviço dela, tomou banho e voltou para casa dos pais, foi de primeira classe. (...)

Acordei ótima, sem estranhar o mundo, nos eixos. Eixo é uma palavra perfeita, não propriamente bonita, mas como palavra é sentido, esta tem apenas o que chamaríamos beleza interior, consolo dado a mulheres feias e bondosas, ideia e consolo enganosos, porque beleza radia e o que radia radia para fora, ou estou delirando? Vou acabar descobrindo que eixo é uma palavra bonita por dentro e por fora? Azeite. Vou pensar muito não, pra não gerar confusão. 

Estou no eixo, isto é, funcionando sem estranhezas para alegria ou tristeza, rima e solução; mais ou menos no 'tanto faz' daqueles santos meio estranhos, esquisitos e inteiros como o macaco da historinha que acharam felicíssimo em seu galho:

-- Macaco, sua mãe morreu.

-- Ah, é? Mió.

-- É mentira, macaco.

-- Mió ainda.

Se minha mãe morrer vou ter escrúpulos de falar: melhor, ou melhor ainda, porque não sou perfeita, não sei conversar sem adjectivos, ainda não sou essencial. (...)

E é isto. Um prazer. A vida pode ser uma coisa simples. Basta não complicar. Mas não é fácil. Descomplicar é como desajectivar. A gente quer, quer, mas, mal se distrai, já está a acrescentar adjectivo ou complicação. Ou as duas coisas ao mesmo tempo que é ainda pior.

Talvez por isso, quando passei para o YouTube, o meu amigo algoritmo, adivinhando que ando a complicar o que é simples, avançou com uns vídeos que me prenderam do princípio ao fim. Cada um com uns vinte e poucos minutos. Ou seja, ao todo, para mais de uma hora de coisa boa. Ainda por cima, uma hora falada em francês -- que é língua que me agrada por demais, civilizada, elegante, cheia de convite para viver bem -- e com música suave em fundo. Caso não saibam francês, não faz mal. São vídeos bonitos de ver. Três casos de saber viver bem. E se vocês já têm uma vida assim, simples e boa, mió ainda.

Sylvie Ramu, sculptrice et femme de cœur dans son petit paradis 


La folle vie d’un aventurier philosophe de 95 ans - Paul Du Marchie


Les merveilles d'une créatrice de papier, Viviane Fontaine

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Pinturas de Oscar Howe ao som de Farewll, Angelina segundo Joan Baez
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Até aqui, no post, não entrou a palavra Natal mas não faz mal: entrou agora e está bem assim. Se gostaram destes vídeos façam de conta que são três presentes que aqui vos ofereço

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segunda-feira, dezembro 07, 2020

Se calhar, nem uma nem outra terão presente de Natal

 




Na volta da rua, desacelera. Vai agora devagar. Muito cansado. Sem velocidade, o carro mal anda. Faz inversão na rua, encosta junto à porta. O telemóvel toca. Atende. Pedem-lhe opinião. Enquanto fala, vê que há outra chamada. Pensa que liga quando acabar a chamada. Mas, mal a chamada acaba, uma outra. Atende. Uma má notícia. Expectável mas, ainda assim, um murro no estômago. Depois de tantos anos, ainda o mesmo murro no estômago. 

Sai do carro muito abatido e, de tão cansado,  mal se aguenta em pé. 

Encosta-se à parede da casa. A lua. Muito frio, muita humidade, o luar envolto em névoa como um rio banhando as árvores e as casas. Moon River. Era o que vinha a ouvir no carro. Obviamente não repara no céu nem no luar nem em nada disso, nem se lembra do que vinha a ouvir no carro. Há muitos meses que não olha para o céu nem repara que anda sempre a ouvir o mesmo cd.

Sente-se trémulo.

Antes de entrar em casa, volta a desinfectar as mãos, o telemóvel, a chave do carro, as chaves de casa. Descalça-se, vai directamente para a casa de banho. Põe a roupa no saco que lhe está destinado. Toma banho. 

Só então vai falar com a mulher e com os filhos. Os rapazes estão quase a ir para a cama, pouca atenção lhe dispensam. E ele, cansado como está, também não se importa. A mulher, que o conhece bem, pergunta: 'Então, como foi...? Não correu bem, não...?'. Ele deixa-se cair no sofá, derrotado. 'Não. Cada vez pior. Aquele de que te falei...' Não precisa de dizer mais nada, a mulher percebe.

Ela chega-se a ele, faz-lhe uma festa na cabeça. Ele diz: 'Tenho que ir dormir'. A mulher pergunta-lhe: 'Mas olha lá, não vais comer alguma coisa? Deixei-te ali um prato arranjado...'. Mas ele diz que come uma banana. Passado poucos minutos já dormia. 

De manhã, o telefone voltou a tocar mas não conseguiu atender. Doía-lhe a cabeça. A mulher pegou no telemóvel e levou-o para o hall para ver se ele dormia um pouco mais.

Quando se levantou, sentiu-se muito cansado. A mulher disse-lhe: 'Trabalhas demais. Não aguentas. Não faz sentido. Tantas horas seguidas... como é possível?' Ele apenas respondeu: 'Tem que ser'. 

Os filhos já tinham saído para as aulas. A mulher despediu-se: 'Ficas bem?'. Sentia-o muito cansado. 

Vestiu-se, tomou o pequeno almoço mas tão arrasado estava que nem a comida lhe soube bem nem o café lhe soube a café.

Pensou que deveria aproveitar a folga para ir comprar o presente de natal para a mulher. Receava não encontrar o que sabia que ela gostava e receava que, por encomenda, demorasse a ser entregue. O melhor seria ir já tratar do assunto. O telemóvel de novo. Atendeu. 'Não consegui. Sim, está tudo bem, sim. E tu?'. Do lado de lá, alguém falava agastadamente. Passado um pouco ele disse: 'Não deu. Vou sair agora. Tenho uma coisa a tratar. Depois passo aí. Vá, até já'. 

Mas logo outro telefonema. Deixa-se cair no sofá. Não estava à espera. Não percebe. Não era suposto, nada o indiciava. E, de repente, desata a chorar. Chora, chora. Soluça.

Quando se levanta, a dor de cabeça está mais forte. Liga para o colega: 'Não perguntei. Mais quantos?'. Quando ouve a resposta, diz: 'Vou para aí'. Do outro lado, dizem que não. Mas ele insiste: 'Vou. Está complicado. Daqui a nada estou aí'.

Mas, ao levantar-se, sentiu uma tontura. Voltou a sentar-se. Sente frio. Lentamente vai procurar um casaco. A dor de cabeça incomoda-o. Vai à cozinha para tomar paracetamol. E, de repente, uma suspeita.

Volta ao quarto. Vê a temperatura. Quando vê o resultado, deita a cabeça para trás. Era o que temia. Toca o telemóvel. Ela outra vez. Queria saber se almoçava lá em casa. Ficou calado. Ela insistiu: a que horas chegava, se almoçava, se podia ficar de tarde, que há tanto tempo, que ele devia descansar, que qualquer dia ainda havia um problema, que assim não dava, que já não sabia se ainda fazia sentido. Finalmente arranjou energia para responder. 'Olha. Não. Afinal não posso. Estou com febre. Estou com dor de cabeça. Talvez até esteja sem paladar.' Do outro lado silêncio. Continuou: 'Percebes o que isso significa, não percebes?'. Não conseguiu prestar atenção à voz do outro lado, doía-lhe demais a cabeça.

Liga à mulher: 'Olha. Acho que vou ter que me isolar. Estou infectado. Nem preciso de esperar pelo resultado pelo teste que vou fazer'. 

A seguir liga para o hospital, para o colega: 'Olha, pá, afinal não vou. Estou infectado, pá. Vou fazer o teste mas não tem dúvida'. Sente-se doente. E muito preocupado: 'Agora sobra ainda mais para ti, meu. Aguenta-te... Força, meu. Sim, eu vou dando notícias. Cuida-te, meu'. Do outro lado, o outro médico diz apenas que faz dele as suas palavras.

Deitou-se para trás e pensou que não sabia como seria o natal. 

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Melody Gardot interpreta Moon River e pinturas e esculturas de Wolfgang Lettl

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Uma boa semana. 

Saúde.

Uma fenda minúscula

 



Um escritor inglês, Henry Blackwood, tinha uma teoria singular: ele dizia que sempre à meia noite se formava uma fenda minúscula entre o dia que acabava e o que começava, e que uma pessoa que conseguisse deslizar nessa frincha sairia do tempo e encontrar-se-ia num reino independente de todas as mudanças que nos acontecem; nesse lugar encontram-se todas as coisas que nós perdemos.


[Excerto de Sapatos de Corda - Agustina de Mónica Baldaque, ao som de Night Song por Nina Simone e na companhia de Night Blue de Mak Rothko]

domingo, dezembro 06, 2020

A gorda do call center também vai receber um presente pelo Natal

 

De cada vez que se vê ao espelho descobre que está mais gorda, mais velha, mais feia. Acorda cedo demais. Tenta voltar a adormecer mas não consegue. Levanta-se, veste um roupão que já lhe fica justo, enfia uns chinelos que já estão gastos. Na cozinha prepara torradas e café com leite. A seguir liga a televisão. Pensa: só porcaria. Acaba onde sempre acaba, no correio da manhã tv. Percebe que gosta de ver desgraças para sentir que há quem esteja pior que ela. E sente-se patética por isso.

Liga o computador, começa a atender chamadas. Está em teletrabalho. A meio da manhã abre um pacote de bolachas. Leva-as para o pé do computador. Atende as chamadas da mesma maneira, dezenas de vezes por dia. Chega a um ponto em que já nem sabe o que diz.

Vai à casa de banho. Pensa que deveria pintar o cabelo mas falta-lhe a vontade. Pintar o cabelo para quê? Se nem banho lhe apetece tomar.

De passagem pela cozinha, espreita o frigorífico. Tira uma piza congelada. Dá para o almoço e para o jantar. Volta a atender chamadas. Pensa muitas vezes que há pessoas muito estúpidas. Ameaçam-na ou insultam-na como se ela fosse a responsável pela política comercial da empresa. Tem que ter uma paciência... Muitas vezes exigem que passe ao supervisor. Claro que não passa. É avaliada em função do número de chamadas e descontam as vezes em que não consegue resolver e passa a chamada ao chefe. Portanto, atura até mais não poder. Quantas vezes, quando acaba o dia, não se senta a chorar? Quando não chora, está como que anestesiada. Diz o seu nome incontáveis vezes por dia. Nunca gostou do nome e agora ainda menos gosta. 

Sujeita-se. Precisa do que ganha. Ficou desempregada, esteve no desemprego, não arranjou nada. Até que apareceu isto. Tanto se lhe dá. 

Vive sozinha. A mãe diz que podiam viver juntas, que poupava a renda, que faziam companhia uma à outra. Não quer, sente que perderia a única coisa que tem, liberdade. A mãe no outro dia perguntou-lhe com desprezo na voz: liberdade para quê? Para ficares fechada em casa, cada vez mais gorda, cada vez mais desleixada? Nessa noite não conseguiu dormir. 

Esta noite está aborrecida, mais do que é costume. Continua de pijama, de robe, mal penteada. Na televisão falam de natal. Não quer ouvir. É um dia triste, o de natal, sempre o foi. A solidão muito palpável, ela e a mãe, as duas à mesa a verem televisão. Costuma dar à mãe uma camisola ou, então, collants de malha e uma embalagem de broas, a mãe gosta de broas, e a mãe costuma dar-lhe pijamas ou toalhas para a casa de banho ou panos de cozinha, coisas que já não sabe onde guardar. Depois de almoço e de lavarem a louça, vão para o sofá, a televisão da sala ligada, a mãe a fazer pegas de cozinha, a falar-lhe das vizinhas ou a contar histórias antigas, e ela sem nada que dizer. Nem as vizinhas da mãe lhe interessam nem tem paciência para histórias que conhece de cor e salteado. Nesses dias só deseja que seja hora de ir para casa. Agora, com isto da pandemia, só pede a deus que seja proibido festejar o natal. 

Senta-se na cama e pensa naquela voz que, ao fim da tarde, lhe pareceu tão simpática. Tem a impressão que na véspera aquela voz já lhe tinha aparecido. Ela disse o nome e perguntou o que sempre pergunta, em que poderia ser útil. A voz disse o seu nome, coisa rara, nunca ninguém fixa o seu nome. No fim, voltou a dizer o seu nome a desejou-lhe um bom resto de dia. Foi ao espelho ver-se. Está mais acabada do que a mãe. Flácida, descorada, cabelo comprido demais, já sem jeito, as raízes já meio brancas, mal arranjada. A mãe tem razão, tem um ar cada vez mais desleixado.

Deitou-se tarde. Pôs-se a ver telenovelas, big brother, porcarias. De vez em quando muda de canal e é isso que diz a toda a hora: porcarias. Tomou um comprimido para dormir. Dormiu mal.

No dia seguinte, acordou a sentir-se infeliz. Acorda muitas vezes assim. Olhou-se ao espelho e teve pena do que viu. 

Foi ao roupeiro buscar umas calças mas não lhe serviram. Tentou outras e também não serviram. Foi à procura do fato de treino. Cheirava a roupa guardada há muito tempo. Coube mas ficou justo, ridículo. Vestiu uma parka para disfarçar. Foi ao supermercado logo à abertura, fez as compras do costume e, quando estava a ir para a caixa, voltou atrás. Tinta para o cabelo. Em vez da cor do costume resolveu trazer louro. Quando estava na caixa, hesitou: louro? Voltou à prateleira, trocou pela cor do costume. Quando ia a chegar à caixa, num repente voltou atrás e resolveu trazer mesmo o louro. Pensou que, fechada em casa sem ninguém a ver, mesmo que ridícula, o mais que poderia acontecer seria passadas duas ou três semanas voltar ao supermercado e trazer a cor habitual.

Quando chegou a casa, pegou numa tesoura e cortou o cabelo. Não cortou muito, só as pontas, só para ficar com algum jeito. Depois aplicou a tinta. Quando estava na hora, meteu-se na banheira e tirou a tinta, lavou-se.

Até estava com medo de se ver ao espelho. Olhou a medo à medida que retirava a toalha. Espantou-se. 

Pensou que tinha que comprar roupa que lhe servisse. Depois pensou que devia era fazer dieta. Descobriu uma camisola que lhe cabia embora justa demais e, por cima, vestiu uma túnica larga de verão, sempre disfarçava.

Quando ligou o computador e começou a atender chamadas sentiu-se mais animada. Quando à tarde, de novo, lhe apareceu aquela voz, sorriu. Quando perguntou em que podia ser útil, ele disse: liguei apenas para lhe dizer que gostava de lhe oferecer um presente de natal. Com o coração em sobressalto, ela respondeu: peço desculpa mas este número não deve ser usado para brincadeiras. E ele: não é brincadeira, gostava de retribuir a sua simpatia. Ela sentiu-se a tremer. Não foi capaz de dizer nada. Ele continuou: se quiser dizer-me para onde posso enviar, agradecia. Desconhecendo-se, sem pensar no que estava a fazer, ela perguntou: não quer antes encontrar-se comigo? Foi a vez dele ficar em silêncio. O coração dela descompassado, já arrependida pela ousadia. Ao fim de uns instantes que lhe pareceram uma eternidade, ela ouviu-o a dizer: Sim, eu gostava, não tive coragem de lhe fazer a proposta com medo que levasse a mal. Mas sim, vou gostar de conhecer a mulher que tem uma voz tão doce. 

Ao fim do dia, vestiu uma camisa larga aos quadrados, saíu a correr, foi à primark comprar roupa, voltou ao supermercado para comprar chá para perder peso, um baton e uma sombra para os olhos. Voltou para casa a correr para ir ver na internet o que é que se oferece a um homem, para experimentar a roupa nova, para experimentar a maquilhagem. E não conseguia parar de sorrir. 

Nessa noite não viu televisão. Esqueceu-se de tomar o comprimido. E dormiu como uma santa.

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Nota: Não sei quem é a senhora da fotografia. Encontrei-a aqui e achei que poderia ser assim a minha heroína.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, dezembro 05, 2020

Um milagre de Natal avant la lettre

 

Chega a casa sensivelmente à mesma hora de sempre. Descalça-se na entrada, onde os chinelos de chambre o aguardam. Depois pousa a chave, despe o casaco e vai para a casa de banho onde lava escrupulosamente as mãos. Só então retira a máscara.

A seguir, vai guardar as compras que trouxe mas apenas depois de as ter lavado, mudado de embalagem, lavado as mãos.

Vai, então, verificar o correio no computador. Essa etapa do seu dia é precedida do ritual de sempre. Faz um chá, leva o chá, coloca um pano da louça dobrado em quatro debaixo da chávena, ajeita a almofada na cadeira, endireita o livro do lado direito, a pilha de três livros do lado esquerdo, endireita o pequeno candeeiro de mesa que acenderá quando a luz exterior se for. Depois tira o telemóvel do bolso, desinfecta-o,  e coloca-o à frente do computador. 

O seu mundo é um mundo sem surpresas. Em tempos teve uma gata. Noutra vida. Agora não tem. 

Trabalha ao computador. É perfeccionista mas de uma forma burocrática. 

Raramente alguém lhe telefona e ele também pouco telefona. Todos os dias liga à mãe, conversa monótona, breve e desinteressada, quase como se fosse uma tarefa que é obrigado a cumprir. A mãe pergunta-lhe se está bom, ele diz que sim, depois pergunta à mãe se estão bons, ela diz que vão andando, ele pergunta se está frio, ela diz que sim, frio e chuva, ele diz que ela se agasalhe, ela diz que sim e pergunta se ele precisa de alguma coisa e ele diz que não, mãe, está tudo bem. E despedem-se, adeus filho, diz ela, um beijinho, mãe, diz ele, a voz já a desligar-se. Acaba o telefonema com a sensação de que já cumpriu uma das tarefas diárias. Vê as horas. Pensa que daqui a nada são horas de ir pôr a comida ao lume. Vai à casa de banho e aproveita para lavar cuidadosamente as mãos. Quem o observe, pensará que vai entrar para o bloco operatório. 

Vai fazer ervilhas com ovos. Lembra-se de que era prato que muito apreciava quando era pequeno. Agora usa bacon. A mãe fazia com chouriço de carne. O que ele gostava quando algumas rodelas de chouriço ficavam presas na clara do ovo escalfado... Mas, agora que é ele a cozinhar, escolhe um espaço entre as ervilhas e coloca o ovo com cuidado, para ficar perfeito. 

Põe, então, a mesa. Liga a televisão, não gosta e não presta grande atenção mas, afinal, sempre é uma companhia. Além disso faz parte do ritual e ele não é capaz de beliscar os seus rituais. É quase uma superstição. Acha que a vida lhe corre bem sem sobressaltos cumprindo todos os rituais, não quer arriscar, incumprindo-os. Depois, ajeita um individual, enche o copo de água, põe uma fatia de pão sobre o guardanapo, serve-se e senta-se à mesa. Come rapidamente. Depois apaga a televisão, lava a louça, lava os dentes, lava as mãos. Senta-se, então, num outro cadeirão, pega num livro e num lápis, vê as horas, e entrega-se à leitura, fazendo algumas anotações nas margens.

Meia hora depois, arruma o livro e o lápis e volta para o computador.  Um mail deixa-o transtornado. Para qualquer outra pessoa um mail daqueles seria irrelevante. Mas ele parece precisar de alguma emoção e, portanto, arranja aquele mail como pretexto para se enervar. Diz um palavrão em voz alta. Levanta-se, vai à janela como se precisasse de descomprimir. Pensa que, se ainda fumasse, agora puxaria de um cigarro. 

Vai até à cozinha, vai preparar outro chá. De manhã é um, de tarde outro, à noite um de tília ou camomila.

Volta para o computador. Pensa na resposta que há-de dar ao mail. Abre o calendário para avaliar prazos. Escreve um mail que relê cuidadosamente.

Começa a escurecer. Pensa: mais outro dia. Vê as horas. Diz em voz baixa: cada vez mais pequenos, os dias. De vez em quando, ao falar assim, sozinho, fica admirado ao ouvir a sua própria voz. Sem perceber porquê, relembra os dias em que vinha da escola, a mala às costas, trabalhos de casa para fazer, e já era quase de noite. Comia pão com marmelada quando chegava, vinha sempre cheio de fome. A mãe dizia: daqui a nada são horas de jantar, não te enchas de pão com marmelada.

Olha para o relógio. Parece que quer que o tempo passe depresse mas, se pensar na razão por que o quer, acha que não faz sentido. Volta a trabalhar. Passado um bocado, olha para a janela. As recordações voltam. Levanta-se. Põe as mãos nos bolsos do casaco polar e fica a pensar. Repara que anoiteceu. A rua vazia.

Tocam, então, à campainha. Sobressalta-se apesar de estar à espera. Põe álcool gel nas mãos, coloca a máscara, abre a porta.

Vêm entregar a encomenda. Abre a porta e recebe a caixa. Deve ser o único presente que recebe, o dele próprio. Foi escolhido após demorada selecção. Viu todos os sites, fez quadros comparativos, pensou, deixou pousar os pensamentos, reviu, leu comentários. Até que se decidiu. Seria aquela. O seu presente de natal. Especial. 

Tirou-o da embalagem, pôs a caixa do lado de fora da porta. Depois desinfectou as mãos com álcool gel, tirou a máscara, voltou a desinfectar as mãos. Com mil cuidados, com emoção, retirou o seu presente da embalagem de plástico. Há quanto tempo não recebia um presente. Isto de alguém vir entregar em casa até disfarçava o facto de ter sido encomenda sua. 

Pensou: finalmente vou ter companhia pelo natal. Pegou nas instruções, sentou-se a ler, concentrado. Antecipou a hora em que ia sentá-la a seu lado, ele com o braço sobe os seus ombros, ela com a cabeça encostada ao seu peito. Disse, como se contasse um segredo: vou ler-te poemas. Imaginou-se, à noite, o Je t'aime... moi non plus em fundo: Sissi, vais gostar deste, escuta. Depois sorriria. O que é? Porque te ris? Não gostas que te chame Sissi? E antecipava as noites loucas que estavam por vir.

E a sua vida, de repente, qual milagre do Menino Jesus, parecia ser outra.

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E, esperando que tenham gostado de mais este conto de Natal, desejo-vos um belo sábado.

sexta-feira, dezembro 04, 2020

Conto de Natal: o lobo e a gatinha

 


A gatinha anda por aí. Branquinha e cor de mel. Silenciosa. Apanha sol, desliza por entre as flores, disfarça-se por entre as sombras, oculta-se em plena luz. Existe e isso chega-lhe. Quando se espreguiça sabe que é feliz e essa é a felicidade maior, a que não precisa de ser procurada. Por vezes brinca. Brinca às escondidas, a gatinha. Foge, espreita, vigia, tem vontade de se aproximar mas também tem vontade de fugir, e hesita. Hesita, hesita. Esconde-se. Brinca. Não diz nada. À gatinha nunca ninguém ouve uma queixa, não é disso. É mais de virar as costas e dar um bye. Mas fica de longe, a espreitar. A esperar. A querer aproximar-se. 

Escuta, confunde-se com o silêncio. E espreita. Observa. Talvez pense. Ou talvez não. Não é de pensar, é mais de sentir.

Mas, na sua inocência de gatinha feliz, ela sabe que o mundo não é bem assim, não é só o muro em que se deita ao sol, os carreiros por onde se esgueira entre as árvores, os pássaros que por ali andam. Não, não. Ela sabe que há perigos.


Muitas vezes pensa que, se fosse de pensar, pensaria no que faria se o perigo acontecesse. Ocorre-lhe que não sabe. Não sabe pensar nem sabe o que pensaria se pensasse. Por isso não se defende. Nem se atormenta. Se fosse outra a sua natureza talvez se amedrontasse com pensamentos envoltos em medo: Ai... Se surgir um lobo... o que farei? Assustar-me-ei? Morrerei de aflição? Esconder-me-ei? Desafiarei o lobo? Ou esperarei que ele se decida e só então verei? 

E o lobo? O que faria o lobo? Assustar-se-ia com a doçura da gatinha? Teria coragem de atacar quem parece nada temer?

Talvez o lobo tivesse vontade de chamar a gatinha. Mas não sabe o seu nome. Se quiser chamá-la, talvez se limite a fazer bschhh, bschhhh, bschhh. De que outra forme a chamaria? Apenas com o bater do seu coração? Talvez o lobo pense que, se tivesse dois corações, assim a gatinha o ouvisse. Assim, não ouve. Então, entre respirações, talvez ensaie o tal chamamento: bschhhh, bschhh. 

A gatinha fará de conta que não ouve. Gosta de fazer que não percebe, gosta de se fingir desinteressada. 

Talvez o lobo se deite, silencioso, disfarçando o tremor que lhe nasce da ansiedade, talvez em surdina balbucie bchhh, bschhh, bschhh. Os olhos luzindo na noite, a respiração ofegante, o lobo quer mas não quer, quer mas não quer. 

Que faria ele se estivesse perto da gatinha? Não sabe. Não sabe lidar com gatinhas despreocupadas, felizes. Receia que a gatinha quebre o seu coração em dois. Ficaria, então, com dois corações mas incompletos, despedaçados.

Recuará, certamente, o lobo. Hesitará. Os lobos são seres literários, uivam em silêncio na calada da noite, são seres solitários, preferem viver nos sonhos, nas páginas dos livros, preferem a companhia das palavras. São seres dúplices. Atravessam os caminhos frios e sombrios em que não há vivalma, escondem-se onde ninguém os pode ver, vivem em grutas, são vultos, confundem-se com vultos, desdobram-se em vultos. São obscuras emanações da noite. Desconhecem a voluptuosidade do sol sobre a pele, desconhecem a alegria de pouco mais saber do que viver sem pensar.

Mas o lobo é também um ser atento e cultivado, sabe que é natal. E, então, armado em bonzinho, anda um pouco mais, rasteja por entre as ervas húmidas da noite, o bafo morno transformado em fumo, quase deslizando por entre as silenciosas sombras da madrugada, põe o peito a descoberto para que melhor ela lhe arranque o coração, mostra as patas cheias de cicatrizes, quer que a gatinha saiba que já foi ao fim da noite. Depois aproxima-se ainda mais e sussurra: rom-rom... rom-rom... rom-rom...

Quanto à gatinha não vou nem dizer qual a reacção. O conto é de natal mas convém que tenha algum suspense, pelo menos para poder ter continuação.


Miaaaauuuuuuuuuuuuuu.....................................

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E um dia feliz para todos, sejam vocês gatas, gatos, lobos ou lobas.

quinta-feira, dezembro 03, 2020

Natal à moda da Sta UJM: br>três presentes úteis, um bolinho fofo e um outfit à maneira, incluindo lingerie para donas de casa convencionais
-- e ainda uma criativa, requintada e muito eco-friendly árvore de Natal ---

 

O quarto ali do fundo está a servir de armazém de presentes de Natal. Fraco armazém. Este ano não há frescuras nem excessos. Apenas utilidades. Utilidades por contraponto a futilidades. 

Dito assim parece bem. Até a mim, que sou suspeita, me parece bem. 

Contudo, note-se que a utilidade e a futilidade são conceitos fluidos. O que utilidade para um é futilidade para outro. Um livro é útil ou fútil? Depende do livro, depende da pessoa que o vai receber. Ou umas meias. Se forem do tipo meias da tia pode ser que sejam utilidade. Se forem meias malucas pode ser futilidade. Ou o contrário.

Portanto, resumindo: nada a acrescentar.

Para mim só há uma coisa que eu gostava de ter. Já o anunciei. Há anos que alimento um secreto desejo de tal. Mas nunca me atrevi. Há coisas que requerem circunstâncias. E não que eu esteja certa de que as circunstâncias já existem mas, naquela minha nova onda de fazer (quase) tudo o que quero, achei que idos são os tempos de procrastinação. Se alguma vez os houve. Perguntei ao meu marido: 'Sabes o que é que eu gostava de ter pelo Natal, não sabes?'. Olhou para mim, espantado: 'Não. O que é?'. Há coisas que não dá para acreditar: 'A sério?! Não sabes? Já disse mil vezes'. Espantado: 'Não sei. Não faço ideia'. Voltei a dizer-lhe. Não disse nada, nem sequer quis detalhes. Isso preocupa-me. Se fosse eu, perguntaria logo mil coisas: cor, tamanho, tipo, etc. Ele nada. Fico sempre meio arrependida pois pode acabar por me aparecer o oposto. Uma vez, no início dos inícios, eu tinha-lhe dito que tinha visto um anel de ouro muito fininho com dois corações juntinhos, de marfim, debruados a ouro. Na altura ainda não havia consciência em relação ao marfim. Ou não seria marfim? Seria madrepérola? Não me lembro. Só sei que, quando o recebi, ao abrir a caixinha, vi um anel de ouro branco com um rubi. Fiquei parva. Nem queria acreditar. 'Mas o que é que isto tem a ver com o que eu gostava?'. Não se torceu nem amolgou: 'Gostei deste'. Pronto. Como se o que eu tinha dito fosse irrelevante. Outra vez vi uma moldura linda, em ouro velho, uma coisa em talha mas não excessiva, até com um toque de elegância. Íamos a passar e eu disse: 'Olha, se não souberes o que me oferecer, acho esta moldura muito bonita'. No Natal recebi uma moldura. O oposto, do mais linear e moderno que se possa imaginar, em aço escovado. Fiquei furiosa. Naquela altura ainda não tinha percebido que o mindset dele é o oposto do meu. 

Portanto. 

Ou seja, já não digo nada. 

Mais:

Ontem, estava eu ao sol, tocou-me o telemóvel. Um número não identificado. Atendi. Uma voz de homem perguntou se era eu. Confirmei. Disse que estava ao portão com uma coisa para mim. Quando me viu, disse que deixava ali. Deixou e pirou-se. Abri o portão e apanhei. Hoje, ainda mal estava eu a acabar de saborear a minha saborosa papa matinal (kefir, abacate, cajus, arandos, mel, canela) tocaram à campainha. Espreitei. Um rapaz ao portão perguntava se eu era eu. Confirmei. Disse-me que deixava ali. Deixou e pirou-se. 

Este é, pois, o 'novo normal' no meu Natal. Não é mau de todo. Excepto que, ao abrir as caixas, fico na dúvida com o que vejo. Ao vivo, teria ponderado. Mas penso que neste 'novo normal' do Natal, as ponderações devem ser guardadas para coisas mais úteis. Por exemplo, para decidir o tipo de pão que trago do supermercado. Aliás, devo aqui confessar, o pão é que anda a dar cabo da minha elegância. Há pão de toda a espécie e feitio e eu, que sempre gostei de pão e que, ainda por cima, gosto de experimentar coisas diferentes, não resisto. Ou isso, ou variedades de kefir. Ou frutos secos. Misturas de. 

Bem. 

Dilemas à parte.

Voltando aos presentes, tenho aqui três sugestões para presentes úteis. 

Umas luvas de tricot, quiçá até fáceis de fazer em casa, quentinhas e muito práticas, em especial para quem conduz:


Nestes tempos de confinamento, uns capacetezinhos das obras para os dedões dos pés para que, quando andamos descalços em casa, se dermos alguma topada, não os magoarmos. Muito, muito útil. Incontornável, mesmo:


Um prático porta fatias de pizza para quando queremos ir a algum lado, por exemplo, para a sala ver televisão, e nos apetece ter pizza para comer.


Tenho ainda a sugerir uns biscoitinhos adequados à época fria. Devem ser tão bons que estou capaz de dar uma trinca no ecrã. E isto não é para rir, é mesmo para levar a sério. Claro que comer ursos polares pode parecer a bit anti-ecológico (já para não dizer que nada vegan) mas, lá está, é o 'novo normal', ninguém leva a mal.


E grandes momentos requerem grandes toilettes. Portanto, aqui vai a minha sugestão para um outfit no masculino para homens de verdade. Os homenzinhos, ou seja, as amostras de homem, podem ficar-se pelo tradicional. Cuecas largas, meias da tia, carinha a descoberto. Mas os homens de verdade devem arranjar-se para o novo normal. Ficarão lindos. Podem até não ter mais nada em cima que esta sugestão é todo um programa. Jingle bells, jingle bells.


Quanto a mim e aos meus gostos, não foi este menino aqui abaixo que pedi, nada que se pareça, mas, se me aparecer no sapatinho, também não vou protestar. Acabei por me habituar a receber coisas que nada têm a ver com o que peço. Portanto, se vier, terei que me resignar e dizer: 'anda cá que és meu'. 


Finalmente, posso ainda sugerir aos maridos que têm esposas pudicas e conservadoras um conjunto de lingerie à moda antiga, coisa toda coberta, com uma camisolinha interior e tudo, verdadeiramente do tempo em que as mulheres ainda eram como deviam ser.


Ah não, agora é que é para terminar. 

Aqui deixo uma sugestão de árvore de Natal à moda do 'novo normal', eco-sustentável, um grito de revolta contra o consumismo e coiso e tal. Obtive-a aqui e acho que tem muita pinta. Fica bem em qualquer cantinho.

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Ficha técnica

Os três presentes são uma pequena amostra das criações de Matty Benedetto. O ursinho e outras iguarias podem ser vistas na Vogue francesa. O belo adereço de moda pode ser visto na Vogue italiana e a fantástica gargantilha Bulgari também. tal como a lingerie que é La Perla 

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E a si que está aí desse lado desejo um dia feliz 


quarta-feira, dezembro 02, 2020

Labirintos





Isto de estar nas lojas o mínimo de tempo possível e de não provar nada, dá nisto. No outro dia, foi já em casa que provei uma coisa que era para oferecer e outra para mim. A minha estava justa demais e a outra notoriamente não entraria já que é um modelo destituído de elasticidade. Por isso, hoje tivemos que lá voltar. E como havia outros presentes para comprar, tratava-se de tudo ao mesmo tempo. 

Enquanto lá andávamos, sentia o telemóvel a estremecer e a piar-me no bolso. Quando consegui, espreitei: eram os membros do grupo da família e mandarem mensagens uns aos outros, dum lado uns faziam caminhadas no bosque, do outro os meninos trepavam às árvores. Numa das últimas, o mais velho estava bem lá para cima numa árvore gigante. Na outra, havia um mapa com a localização de por onde andavam. Passado um bocado, voltei a espreitar. A minha filha dizia 'Va la que nao revelaram os presentes de natal ehehe'. Não percebi, voltei a guardar o telemóvel no bolso, pensei que era coisa lá deles. Mas, quando estava na fila para pagar, pensei: 'espera lá, mas se eles andam a passear e nós é que andamos às compras, querem lá ver que aquilo é mesmo para nós?'. Voltei a ver. Aquilo era ela a comentar qualquer coisa. Ocupada, farta de andar naquilo e, sobretudo, a morrer de calor (é só a mim que a máscara faz subir a temperatura do corpo todo?), não percebi o que era. Até que reparei que, mais acima, estava uma gravação. Ouvi e ia-me caindo tudo. Era eu e o meu marido a conversarmos: ele a perguntar se íamos primeiro fazer as trocas, eu a dizer que não, que era tudo no mesmo sítio, eu a perguntar onde é que se levantava o que tínhamos que levantar. Desliguei, estarrecida. Como é que aquilo tinha acontecido? Caraças. Sem querer carreguei no microfone. Felizmente, não desvendei nenhum segredo nem pronunciei nenhuma palavra imprópria para consumo. Fiquei a pensar se uma coisa destas ou parecida não terá acontecido alguma vez antes com outras pessoas que, por pudor, não me disseram nada.

Aliás, agora que falo nisto, lembrei-me de uma que aconteceu faz anos. Tinha acabado de ser apresentada a um tal cheio de nove horas, cheio de de cerimónias, pessoa, ainda por cima, com uma maneira de ser distante, talvez, até, um pouco acanhada. Durante a reunião, ficámos de obter uma informação e de nos telefonarmos. De tarde, tendo eu conseguido saber o que era pretendido, liguei-lhe. Atendeu, eu disse olá e, acto contínuo, ouvi um sonoro 'F...-se!' e a chamada acabou ali. Fiquei perplexa, em suspenso, o telemóvel na mão. Era então assim que o senhor doutor, pessoa tão importante, atendia as chamadas? Ou, melhor, despachava as pessoas?

Ainda mal refeita, toca o telemóvel. Era ele. Pensei: e agora? Digo alguma coisa? Ou ele vai dizer alguma coisa? Mas não, simpatiquíssimo: 'Peço desculpa, estava a sair do carro, quando ia atender deixei cair o telemóvel.'. E eu, sonsa: 'Ah, não tem problema'. E a conversa prosseguiu. Até hoje nunca lhe falei nisto. Para quê? Só se fosse para nos rirmos os dois. Mas sei que, lá no fundo, haveria de ficar um pouco agastado. Nem tanto pelo que aconteceu pois já me conhece bem, sabe que não estou nem aí para deslizes mas pela mesma razão que eu: e se isto já aconteceu alguma vez e se alguém ouviu o que não devia ouvir?

Mas, enfim, nada de mais. O que foi de mais foi outra coisa. Nestas coisas ando sempre à rédea curta. Cronometrando-me os movimentos, o meu marido decidiu que já não dava tempo de ir a outro sítio senão não conseguiríamos estar em casa à uma. Mas eu, que ando há uns dias a querer arranjar um vaso alto e uma planta que cresça em altura para colocar perto do portão para encobrir os contentores do lixo e dos recicláveis, insisti, insisti, insisti. Que já não dava, que não valia a pena, que viéssemos para casa. Mas não sou de me render tão facilmente. Lá fomos. Mas já não deixaram entrar. Fiquei furiosa e ele vitorioso. Portanto, regressámos sem o vaso e sem a planta. E isso contristou-me. Já me estava a imaginar a tratar do transplante e a estava a imaginar o efeito. 

De tarde, consegui estar um pouco ao sol. Levei a espreguiçadeira para o bocado de relva ao sol, estive a ler. Tirei a blusa, fiquei apenas com o top de alcinhas, o sol suave a deslizar na minha pele, os passarinhos a cantarem e a brincarem por entre a folhagem, e o livro bom. Não é só o saber bem, é também o ser saudável. Depois andei por ali, a cirandar, a fotografar, a sentir a felicidade de ver as árvores e as flores e a, mais simples de todas, a felicidade de de existir.

Fui até à horta. Não sei o que há ali. Parece que há um qualquer microclima: talvez mais morno, mais húmido. Pelo menos é o que se sente. Isso e os cheiros, bons. Ao canto de um canteiro, descobri um jarro. Agora fui ver se o nome é mesmo jarro e descobri que pode ser mas que o nome botanicamente falando, isto é em esperanto botânico, é Zantedeschia aethiopica. Quando o vi, hesitei. Tive vontade de apanhá-lo para o pôr numa jarra a fotografá-lo. Mas, no último momento, tive pena. Uma flor pode ser sacrificada just for the fun of it? Tive dúvidas.

Ao passar pela estufa, senti pena de ainda não lhe ter prestado atenção. É rudimentar, precisa de ser arranjada. Está abandonada e as coisas, tal como a natureza, sentem o abandono. As pessoas também. Tenho que cuidar daquilo que amo, não posso deixar que se sintam abandonados. A ver se amanhã tenho disponibilidade para lá ir, para entrar, para começar a limpar. Mas receio. Sei que se for é para me entregar, para não abandonar mais. E não creio que esteja chegada a hora para isso. 

Também tenho saudades do meu heaven. Estas restrições à movimentação condicionam-nos. Deve estar tudo tão verdinho, o musgo tão fofo e macio. Transformei em bosque um bocado de terra pedregosa e inóspita. Quando toda a gente achava insano aquele meu sonho, eu dizia que haveria de por lá passear à sombra das árvores que estava a plantar. E isso aconteceu. E essa é outra grande felicidade. Se quero sentir felicidade, construo-a. Flor a flor, árvore a árvore, sorriso a sorriso, palavra a palavra.

Gosto de ler sobre jardins. E gosto de ver vídeos sobre pessoas que transforam terra árida em florestas verdejantes que multiplicam a flora e atraem a fauna. Parece-me um milagre e gosto de testemunhar a existência de milagres assim.

E fui ainda ver os livros de Eduardo Lourenço. Aquela estante é daquelas que tem livros que não sei bem como arrumar. Estão ali para uma segunda reflexão. Gostei de relembrar os livros de uma pessoa que sempre admirei. Creio que haverá por cá mais um ou dois livros mas não sei se estarão noutras estantes. Agora estou a ouvir uma entrevista com ele. Fala do que o faz feliz, explica que a felicidade está nas pequenas coisas que estão ao alcance de todos.

É daquelas pessoas que pensa com as mãos na terra e com o olhar acima da multidão -- e com o coração no meio dos homens.  Penso naquela vez, não há muito, em que o vi a atravessar a rua ali mais ou menos em frente à Biblioteca Nacional. Não sei precisar, talvez uns três anos. Ou seriam quatro? Não sei. Parece que esta vida em resguardo me está a esbater as coordenadas temporais. Sei que o vi já frágil. Pensei que, com a idade que tinha, era um aventureiro e um corajoso em andar ali, sozinho, sem apoio, quase parecendo um passarinho hesitante, em dificuldade. Tive vontade de lhe ir dar o braço. Mas não o fiz, claro. As pessoas têm o seu orgulho e há que saber respeitá-lo.

Quando parte uma pessoa boa e inteligente fico a pensar que talvez venha o dia em que quase não subsistam portugueses de lei. Como será, então? Quem nos ajudará com as palavras? Não correremos o risco de ficar encurralados em tristes labirintos?

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Mas, enfim, voltando a florestas, ao milagre da natureza que podemos fazer acontecer 


E um dia feliz!

terça-feira, dezembro 01, 2020

Uma mulher feliz
[Life isn't about finding yourself, life is about creating yourself]

 


Conheço uma pessoa, muito boa pessoa, daquelas pessoas discretas de que quase ninguém se apercebe. Ela conhece-me a mim há mais tempo do que a conheço a ela. Quando me foi apresentada, disse-me que já me conhecia há uns anos, que eu frequentava um lugar onde ela costumava estar. Não tinha ideia. Eu ia de visita: para mim, tirando a pessoa que eu ia visitar, todos os outros eram desconhecidos. Para quem lá estava, eu era a que vinha de fora para ter reuniões com o Big Boss, o Senhor Doutor. 

Simpatizei logo com ela. A minha filha, quando a conheceu, dizia que parecia saída dos anos oitenta. Sim, parecia. Um ar antiquado: a roupa, o cabelo, a armação dos óculos. Parecia que tinha cristalizado no tempo. Mas dizia-me também: 'É tão querida. Daquelas pessoas mesmo queridas.'. E era. 

Durante algum tempo pensei que era daquelas mulheres que vivem para o trabalho. Trabalhava horas a fio. Por mais complexo que fosse o trabalho que alguém lhe entregasse, o trabalho aparecia feito e bem feito. E isso orgulhava-a tanto que parecia mesmo que se alimentava desses seus sucessos em que ninguém reparava ou agradecia. 

Rapidamente me tomou como sua confidente. Queixava-se, com alguma tristeza, mas parecia uma tristeza conformada, que exigiam, exigiam, sem quererem saber do trabalho que dava e sem quererem saber do que tinha que sacrificar para cumprir. Mas que, apesar disso, cumpria e sempre cumpriria, assegurava com orgulho. 

Quanto melhor a conhecia mais a admirava. E olhando-a, sempre com aquele seu ar um bocado fora de moda, eu pensava que, a trabalhar como trabalhava, era natural que não tivesse tempo para andar às compras ou a embonecar-se.

De vez em quando levava pão de ló com doce de ovos, feito por ela, que distribuía. Ou bôla de carnes, deliciosa. Pelo Natal, fritos de Natal. Massa folhada com recheio de noz, pastel de massa tenra com receheio de abóbora. Tudo feito em casa. Quando eu me espantava, descrevia, com simplicidade, as receitas. Faz-se uma calda, quando estiver em fio, mistura uma a uma, mas tem que mexer bem .... Contava com todos os preceitos. Parecia ter tempo para tudo. 

Um dia, para meu espanto, percebi que, afinal, tinha uma família, marido, filhos. Conseguia dar conta de tudo. Sem carta de condução, gastava horas em transportes públicos. Nunca consegui perceber como conseguia trabalhar tanto, gastar tanto tempo em transportes, muitas vezes despachar processos em casa e, ainda assim, tratar da casa, dos filhos adolescentes, fazer bolos e outras iguarias.

Depois adoeceu. Esteve mal. Chegou a ter que fazer transfusões. Um grande susto. Quando andou a fazer os tratamentos subsequentes, ficou algum tempo de baixa mas depois quis ir trabalhar. Lembro-me que, muitas vezes, nessa altura, depois dos tratamentos, ao chegar, tinha que se deitar num canto que preparou com um cadeirão antigo e uma cadeira, a fazerem de cama. Mas sempre com aquele seu ar simples, sorridente, nunca pessimista. A admiração que tinha por ela aumentou. Parecia eu mais preocupada que ela. Isto passa..., dizia ela.

E felizmente passou. 

Mas decorria depois algum tempo durante o qual eu, também sempre atarefada, pouco a via e em que, para falar verdade, quase me esquecia dela. 

Um dia vi-a com semblante fechado, coisa rara nela. Perguntei-lhe. Contou-me que estava preocupada com a mãe. Que tinha sabido recentemente que a mãe andava sem apetite há algum tempo, com a sensação de não conseguir engolir. Exames feitos, coisa má, adiantada demais. Contava isto e a boca secava-se-lhe, a garganta estrangulada. O medo bem visível. Uma médica dizia que a mãe tinha que ser operada de urgência, outra dizia que já não se ia a tempo. Até já tinha ido a um médico naturista. Estava desesperada. Acompanhei-a e ajudei-a como pude, triste porque, afinal, já nada havia mesmo a fazer. E levei-a ao hospital e fui lá buscá-la, sempre que me foi possível. Acompanhei-a na aflição. O sofrimento de ver a mãe a esvaziar-se de vida, sem qualquer esperança. Por fim, não se alimentava de todo, emagreceu muito, perdeu o andar. Ainda foi a casa pelos anos, sabendo que seria a última vez que estava em casa. Regressou ao hospital para atenuar o sofrimento e ela tentava conter o soluço de tristeza ao contar-me isso. Que tiveram que levá-la ao colo, um corpinho de menina, dizia ela. Ligou-me uns dias depois, era feriado. A mãe tinha morrido. Daqueles telefonemas que a gente nem sabe bem o que dizer. Acabou a agradecer-me. E eu nem quis ouvir tal coisa. Agradecer o quê?

Por precaução, o médico quis que ela própria fizesse um exame, é daqueles casos em que a hereditariedade conta. Infelizmente, o exame deu positivo. Encarou com naturalidade, disse que já estava à espera: o tio, irmão da mãe, tinha morrido da mesma coisa. Teve que se submeter a uma cirurgia. Falava disso sem dramatismo, quase sem preocupação. Pelo meio mostrava-se apreensiva com o trabalho que tinha em mãos e que ia atrasar-se, com os filhos, o marido a ter que se sacrificar. E eu ouvia e pensava: se fosse comigo, ficaria paralisada de medo. Ela não, falava como se fosse apenas mais uma tarefa a cumprir. E a verdade é que voltou a ficar bem. A sorrir, sempre optimista em relação a tudo.

Um dia, encontrei-a numa azáfama, apressada, tinha que ir a casa do pai, estava arreliada, atendia telefonemas, disse que depois me explicava. Perguntei se precisava de boleia. Que não, que o taxi devia estar a chegar. 

Contou-me no dia seguinte. O pai tinha uma empregada que ela achava muito suspeita, achava que era mais do que apenas empregada. O pai andava a levantar muito dinheiro, não queria lá a filha, tudo muito estranho. Um dia que ela tinha manifestado preocupação, tinha-se virado, furioso, e perguntado: 'Não posso gastar o que é meu? Porquê? Queres todo para ti?'. Ofendida, não voltou a dizer nada. E naquele dia, o pai que tinha tido que ir à terra, ao regressar a casa, tinha encontrado a porta escancarada, a casa quase vazia, nem televisão, nem os melhores móveis, nem o dinheiro e até os caixilhos das janelas tinham levado. O pai tinha-se sentido mal ao ver aquilo, tinha-lhe ligado e tinha-lhe pedido para ir ter com ele. 

Entretanto, ela e o marido foram com o pai à polícia. Disseram que iam investigar mas não se mostraram surpreendidos: velhos, viúvos, com algum dinheiro são presa fácil. Ah, e, claro, ninguém sabia da empregada.

O pai teve que ir para casa dela. Foram tempos difíceis, o pai com um feitio complicado. Contou-me que a mãe sofreu muito com ele, que ele só foi bom para a mulher quando soube que ela estava a morrer. As coisas que ele lhe fez, nem quero pensar, muitas lágrimas ela chorou. Coitadinha da minha mãe. Tentava conter as lágrimas enquanto me contava isso. 

Ao fim de pouco tempo, obras feitas, o pai regressou a casa e ela voltou à mesma alegria discreta. Dizia que tinha recuperado a intimidade da vida em família, que o pai sempre haveria de ser para ela um estranho. E já descontraída, contava-me dos filhos, contava-me de receitas novas. Depois, uma vez levou uma peça de cerâmica. Tinha adquirido um forno, estava toda orgulhosa. O marido tinha-lhe transformado a garagem num estúdio para os seus trabalhos de cerâmica. Usava termos técnicos para se referir ao forno e às técnicas que usava para modelar, para pintar - mas agora não me lembro deles. Contou que antes já o praticava mas que tinha que ir pôr as peças num forno colectivo. Fiquei espantada: ainda tinha tempo para isso? Claro que tinha, dizia ela. Sempre tranquila, sempre feliz. Trabalhando até mais não poder, noitadas que os outros davam como adquiridas e depois, não sei como, ainda lhe sobrava tempo para os seus hobbies. Pelo meio, lamentava que não a valorizassem e, ao mesmo tempo, lhe atirassem para os braços trabalhos tão complexos, demorados, e, sobretudo, sempre tão em cima da hora. Mas, minutos depois, já me falava dos filhos, e, toda orgulhosa, anunciava que ia ser avó.

Recentemente, sem se fazer anunciar, mais uma má notícia, mais um susto. Um grande susto. Um enfarte. Hospitalizada, algumas sequelas. Comentávamos: coitada, tudo lhe acontece. E, no entanto, há-de aí aparecer como se não fosse nada com ela.

E assim foi. Para surpresa geral, ao fim de duas ou três semanas, nem sei, ei-la de volta. Cansando-se ao falar, cansando-se a andar, mais magra, mal encarada. Isto passa, descansava-nos ela. E a verdade é que, dias depois, quando a vi, nem queria acreditar. Digo dias mas, se calhar, foram semanas. Não sei. Apareceu com um outro corte de cabelo, outra cor. De facto, bem mais magra, jeans, blusa justa. Parecia filha da outra. Toda sorridente, explicou: O médico disse que tinha que fazer dieta, fazer mais exercício. E apeteceu-me uma vida nova.  Já não trabalho tanto. Vou mais cedo para casa. Todos os dias vou fazer uma caminhada. Está na altura de pensar em mim'. Toda orgulhosa e feliz. Eu olhava para ela e parecia-me outra. 'E já vem outro a caminho, imagine'. Um segundo neto. A vida não para. Toda contente. Perguntei-lhe pelo pai. Riu: 'Já não quero saber. Anda outra vez de namorada nova. No outro dia fui lá a casa, estava uma a sair que não enganava ninguém. Sempre foi disso que ele gostou. Há-de acabar depenado. Deixa-o, é o que quer, quem sou eu para impedir?'. Nem mais, concordei. Leve, leve, ela. Ajeitou a bolsa a tiracolo, um livro na mão. Ar de teenager que vai à descoberta do futuro. Vou mais cedo, dá para ler nos transportes.

Já não a vejo há muitos meses. Não sei se voltarei a vê-la. Mas há-de estar sempre optimista, sempre feliz. A ver se, da próxima vez, sou eu que lhe ligo.



Fotografias cá de casa ao som do Amalgamation Choir que hoje a conversa é no feminino

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E tenham um bom dia feriado.
And be happy