quinta-feira, setembro 14, 2017

Uma toca música com colheres e outra sinos com os pés.
(Se, com coisas destas, eu ia perder tempo com os tais das campanhas negras que aparecem sempre que há eleições? Ia, ia... )



Pois muito bem, sim senhor. 
Sim senhor e sim senhora que aqui somos todos pela igualdade de géneros.
Igualdade ou identidade? A esta hora já não vou lá pelo sentido, é mesmo só na base da oralidade. E agora não sei. Mesmo. Acaba em 'dade' mas não sei se devia dizer igualdade ou identidade. Também não interessa. Que o que interessa é que. 
As coisas estão animadas lá para as minhas bandas. Quero dizer, numa das minhas bandas. Que, na verdade, num dos meus poisos, tudo meio paradão, em compasso de espera. Estamos naquele limbo que antecede os momentos decisivos de vai ou racha e, se for, tudo muda e, se não for, tudo terá que mudar mas no sentido oposto. Portanto, aquele silêncio pesado que antecede as tempestades. No outro poiso, uma guerra. Um dizia-me: 'A ferro e fogo'. Outra dizia: 'Isto assim não se aguenta muito tempo'. Outra desesperava: 'Mas por quanto tempo aquele senhor ali vai continuar a fazer das dele?'. E eu: 'Calma. É peciso inteligência. Tudo menos precipitação'.


Porque tenho dois poisos, duas ocupações. Ontem, ia a sair a pé da garagem, um colega, no carro, a entrar. Abriu o vidro, cumprimentou: 'Ora viva quem agora tem dois ordenados!' Informei-o: 'Pois queira saber que é a primeira pessoa que se lembrou disso. Todos os outros acham que posso trabalhar a dobrar recebendo apenas um único ordenado'. Riu-se e provocou. Mas a provocação dele não posso eu escrevê-la aqui. Desiludi-o: 'Pois saiba que nem isso'.

Acho que tenho que falar com a santa padroeira do sindicato dos enfermeiros para ver se marco aí uma greve a reivindicar uma carreira e mais uns quantos leros para ver se abano a credibilidade da geringonça, que, francamente, só com a geringonça é que uma pouca-vergonha destas poderia acontecer. Se fosse noutra era, arregimentava-me no sindicato dos maquinistas. Agora é no dos enfermeiros.

Mas isto para dizer que se eu fosse esquizofrénica a coisa talvez fluisse ainda melhor. Duas ocupações, preocupações antagónicas, ritmos e equipas diferentes. Mas, enfim, não me queixo. Não corre mal. Não há monotonia.


A política é que anda monótona. Para o peditório das campanhas negras eu não dou mais, não. Os gentinhos escolados da jota, acabadinhos de receber lições de sumidades tais que nem a galinha rangélica ou a múmia cavaca, são useiros e vezeiros em perfis falsos, denúncias anónimas e outras babaquices e, consoante quem se apresenta a votos, assim eles escolhem os alvos. Agora é o Medina. Mas acho que a última coisa a fazer é dar palco a esses trampolineiros. Portanto, adiante que se faz tarde.

E só me apetece é falar de perfumes, fragrâncias, aldeídos, jasmim, bergamota. No outro dia, o H. falava-me no musgo de cedro, raríssimo. Coisas assim. Disso eu gosto. Ou músicas. Musiquinhas boas. Balanceamentos, mão dadas, conversinhas soltas e enleantes.

(E, com isto, adormeci. Mas adormeci para valer. Que coisa, isto.)


E, se, à partida, tinha alguma em mente, à chegada é que não tenho de certezinha absoluta. Só sei é que, há pouco, quando algum saudável propósito me animava, vi dois vídeos que reservei para sobre eles construir uma prosa. Agora que a mente abandonou a corpo, indo dormir e deixando-o a escrever sozinho, para aqui estão, despropositados.


Angels in heaven - Chris Rodrigues e a Spoon Lady



A complexa dança do tocadores de sinos do Alasca


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E amanhã logo mostro a Juju. Era para ser hoje mas distraí-me e agora acho que aqui já não cabe. Mas agradeço à querida MP e ao simpático P. a sua descoberta. 

As fotografias que plantei ali em cima são de Richard Avedon.

E o melhor é descerem até ao post abaixo em que se fala de 'palavras que fazem mal'.  Ao menos é capaz de ter uma linha de rumo já que este me quer cá a mim parecer que não tem.

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Palavras que fazem mal


Tento lembrar-me e, menina feliz, nada me ocorre. Palavras que, quando eu era criança, alguém me tenha dito e que tenham doído a ponto de nunca mais as ter esquecido. Mesmo adolescente. Mesmo adulta. Não me lembro de nada. No entanto, sabido é que tudo se me varre, especialmente coisas más. Admito que alguém, alguma vez, me tenha ofendido ou tentado denegrir-me. Contudo, provavelmente, na altura, devo ter pensado que palavras de burro não chegam ao céu ou que, quem assim me tratou, devia ser algum palerma encartado ou coisa do género e, portanto, na hora, a coisa logo se esvaneceu. A verdade é que não me lembro de nada. Não sei se é mecanismo de defesa, ou seja, se é uma forma inconsciente e automática de limpar emoções ou pensamentos tóxicos dentro de mim ou se sou simplesmente desmemoriada, vulgo cabeça de alho chocho.

No entanto, conheço pessoas que guardam mágoas de anos, recordando com tristeza palavras que alguém, em criança, lhes dirigiu. Dizem: 'Ficou-me gravado'. ou 'Ainda me lembro como se fosse hoje'.

Tenho estado aqui a pensar em gente com quem, ao longo de anos, tive alguns desaguisados. Por exemplo, o que já antes aqui contei, quando, sendo eu directora, o administrador de quem dependia me disse que, se eu não conseguia concordar com ele e acatar as suas orientações, sabia bem o que deveria fazer. Dessa não me esqueço. Mas também não me esqueço da minha resposta: 'Mais depressa vai um administrador ao ar que um director.' E, na verdade, pouco depois, tiraram-lhe o meu pelouro e, não muito depois, foi destituído. E eu continuei, tranquilamente. Portanto. Ou seja, as palavras dele não me perturbaram, apenas me deram pica e, no conjunto, recordo a conversa com vontade de rir.

Agora mesmo, ao jantar, o meu marido lembrou outro caso, uma situação com o nosso vizinho Rodrigo. Conto. O que ele disse também é inesquecível.

Terá uns trinta e tais, talvez já uns quarenta, consultor, boa figura, bem vestido, bem falante. Na altura vivia com a primeira mulher e com a filha. Uma conversa sempre extraordinária, mesmo bem falante. Tinha feito umas obras aparatosas no andar e, da rua, via-se a casa sempre super-iluminada, grandes janelas sem cortinas deixando ver o interior. Era, então, o responsável pela gestão do condomínio. Já ia no segundo ano. Entretanto, a mulher deixou-o e ele ficou com a casa. Entrou numa fase de festas e festanças. Rapou o cabelo, deixou crescer a barba. Parecia um consultor-taliban. E, com frequência, até às quinhentas, a casa cheia de gente, não sei se dançavam, se quê. Se calhava chegarmos tarde a casa, lá se via aquele ajuntamento aparentemente numa grande farra. Nada a ver. Não tínhamos nada a ver com aqueles convívios. Estou apenas a contextualizar. A questão é que não fazia as contas do condomínio. Não recebia as mensalidades de parte dos condóminos que, por ele não ter antes passado recibos, tinham deixado de pagar. Connosco também aconteceu isso. E já havia também queixas de atrasos em alguns pagamentos, às senhoras da limpeza, por exemplo. E, como não tinha contas, não podia passar o testemunho já que ninguém queria pegar numas contas por fazer, uma bagunça: não se sabia quem e quanto devia ou a quem é que o condomínio devia. Com aquela conversa dele, sempre charmoso, ia empurrando com a barriga: que na semana seguinte apresentava as contas, depois que não tinha conseguido, que no mês seguinte era de certeza, e assim sucessivamente.

Um dia subi com ele no elevador e chamei-lhe, de novo, a atenção. Por uma vez foi honesto e, cabisbaixo, confessou que tinha perdido o fio à meada, que não conseguiria fechar as contas. Disse-lhe: 'Isso já eu percebi há muito tempo. Mas alguma coisa vai ter que fazer, senão isto apenas se agrava. Organize minimamente os papéis, peça ajuda. Porque é que antes ainda não me tinha dito isso?'. Ficou em silêncio e depois disse esta coisa surreal: 'Porque tenho medo de si'.

Bem. Fiquei estupefacta. Só fui capaz de lhe dizer: 'Essa é boa. Coisa mais disparatada. Você não é bom da cabeça.' E ele entrou em casa dele e eu segui viagem no elevador.

Quando cheguei a casa, contei ao meu marido. Fartou-se de rir. Disse: 'É para que vejas o que eu sofro contigo. Até o Rodrigo, que pouco te vê, tem medo de ti...'

Mas lá está. Desta não me esqueço. Mas não me traumatizou, apenas me divertiu.

O bom do Rodrigo, entretanto, arranjou logo outra mulher e já tem mais um filho. Quando me vê, baixa a cabeça e cumprimenta-me com deferência. O meu marido diz em surdina: 'Coitado, não conseguiu fugir a tempo, teve que te cumprimentar, mas olha para ele, coitado, aflito..., vê-se bem o medo que tem de ti...'

Mas pronto. Vem isto a propósito do vídeo abaixo. Infelizmente, acho que não há versão legendada até porque o vídeo foi publicado ontem. É um vídeo de sensibilização para que não sejamos agressivos, maus, ofensivos para os outros, em especial com crianças. As palavras que nos fazem mal. Não usar palavras que magoem. Não magoar os outros tal como não queremos que nos magoem a nós. Palavras que ficam gravadas: 'Não vales nada', por exemplo. Nunca dizer nada a uma criança que a faça sofrer. Nunca, nunca, nunca. As palavras podem ferir mais do que uma palmada. Nunca dizer a uma criança: 'Já não gosto de ti' ou 'gosto mais do teu irmão do que de ti' ou 'que mal fiz eu para merecer ter um filho como tu?'. Nunca, nunca, nunca. 

Contra a violência verbal.
Não dizer às nossas crianças (nem a ninguém) palavras que fazem mal




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As imagens que intercalei no texto mostram trabalhos feitos pelo tatuador turco Alican Gorgu (AKA PigmentNinja) que tatua imagens que representam fotografias de família, em especial dos próprios quando crianças.


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quarta-feira, setembro 13, 2017

Uma professora muito lá de casa


O que se passa é que, tendo eu ainda aqui umas quantas para dizer, me deixei ficar a ver o filme da 2 e, pelo meio, apesar de enternecida, me fui adormecendo e, quando melhor despertei, ainda o apanhei a tempo de me comover com o final -- e agora me passou a vontade de para aqui invocar o que de importância a tinha nula.

Prefiro antes falar de.

O filme mostra o último ano de um professor que, a seguir, ao fim de quarenta anos de trabalho, se foi reformar. 

E lembrei-me de todos os anos em que, no fim do ano, a minha mãe chegava a casa carregada de flores ou de lembranças, algumas feitas pelos meninos. Outras vezes eram as mães que ofereciam coisas e a maior parte das vezes eram coisas que a minha mãe nem sabia onde pôr e que dizia sempre que não queria mas que insistiam em oferecer-lhe. Por vezes, eu via o que ela tinha trazido e não sabia o que era e ela olhava e dizia que também não. E interrogava-se: Mas para que gastarão dinheiro nisto, senhores? Mas flores sempre muitas. Talvez pelo natal também. As jarras lá de casa cheia de flores. 

De tudo o que recebeu, só ficou com as mil histórias com as crianças. Recorda-as. Imita as crianças. Desata-se a rir com essas memórias. Orgulha-se de uns: Bailarino. Músico. Engenheiro. Do teatro.

Os meus filhos gostavam de lá ir. Uma vez por ano, talvez, levava-os a passarem lá uma aula. A avó era adorada pelos alunos. Usava uma bata branca, sempre elegante. Eles gostavam de estar entre os alunos da avó.

Quando deu aulas num bairro problemático, levava-os lá para casa. Sentavam-se nos sofás enquanto cabiam, outros no chão. Quando se entrava a casa, cheirava a escola em fim de dia, a ténis. Ela nem dava por isso.

As mães dos alunos também gostavam muito dela. Ainda gostam. Quando ando com ela na cidade, ou alunos ou pais de alunos, alguém está sempre a cumprimentá-la. O que ela temia eram as visitas de estudo. Tinha medo de perder algum ou que algum se magoasse. Lembro-me de excursões que acabavam tarde. A confusão da entrega dos alunos aos pais. A aflição dela se não via ou se se atrasavam os pais de algum. Acho que andava ela e o meu pai a ver se os encontravam. Até que chegasse a casa, via-a enervada. Detestava esses dias. Vinha cansada.

Tirando isso, nunca se queixava. também nunca faltava, nunca abrandava, nunca facilitava. E acho que não devia conseguir zangar-se com os alunos. Nem devia precisar. Eles respeitavam-na, ela deixava-lhes espaço para a criatividade, para se divertirem. 

A fazer-se de professora comigo a coisa nunca correu bem. Nunca conseguiu que eu corrigisse o que quer que fosse. Isto quando, na 4ª classe, resolveu preparar-me para o exame de admissão ao liceu. Lembro essas crises. Não gosto de fazer coisas desnecessárias. Se fazia uma coisa mal e ela me dizia como era, eu aprendia, escusava de corrigir ou de fazer três vezes. O que a minha mãe penou comigo naquela altura. Ela ainda se lembra disso e eu também. Traumatizante.
Já o contei aqui: a minha menina linda que fez agora sete anos e está agora para o 2º ano é igual a mim. Uma crise se a fazem repetir para garantir que aprendeu. Não faz. Zanga-se, desiste. Não verga. Percebo-a tão bem.
Mas antes e depois desse mês de fim de ano, teria eu uns nove anos, nunca a minha mãe tentou ensinar-me nada da escola. Nem criticava o método de ensino das colegas, nem sequer se pronunciava. Aliás, acho que guardava distância disso. O que eu temia era, em época de provas ou exames, quando trocavam de escola para vigiarem alunos alheios e calhava ela ir à minha. Já sabia que conversava com a minha pofessora e ficava com algum receio das queixas. À noite lá vinham algumas reprimendas. Coisa ligeira mas que me deixava um bocado inquieta.

Não me lembro do seu último dia como professora. Eu estava a trabalhar, nem a vi nesse dia. Mas imagino que a par de saudades e pena, tenha sentido algum alívio. Havia reformas escolares, colocavam professores excedentários como ajudantes, tenho ideia de que isso a perturbava um bocado. Volta e meia também inventavam novos métodos e com alguns ela não concordava lá muito. Imagino que cumprisse as regras mas mantivesse os seus próprios métodos que tão bons resultados davam. Também a gestão da escola estava um bocado politizada e isso impacientava-a já que estava ali para ensinar, para cuidar dos alunos, para os ajudar a melhor singrarem pela vida. Eleições, listas, partidos, rivalidades, etc, tudo isso lhe parecia ali deslocado.

Sempre teve boas amigas entre as colegas. Pelas diferentes escolas pelas quais passou, creio que quatro, arranjou amigos, sobretudo amigas. Ainda o são embora, desde que o meu pai teve o AVC, tenha deixado de se encontrar com elas no lanche e tertúlia semanal. Mas uma delas ainda vai lá a casa regularmente e, com outras, telefonam-se.

Procurei agora o filme Adeus, meu Professor para aqui o partilhar mas não descubro. Um filme tão bonito, tão, tão bonito. No meio de tanta porcaria que passa nas televisões, de vez em quando uma coisa belíssima. Para quem tenha verdadeira vocação, não deve haver profissão mais gratificante. E sei do que falo já que fui professora durante dois anos e picos e não me senti cativada dando, com o meu abandono, um certo desgosto à minha mãe que sempre achou que não havia melhor profissão do que a de professora, permitindo conciliar profissão e vida familiar. Mas não era para mim. 

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Entretanto, mão amiga fez-me chegar, por mail, esta versão do Cry me a river na voz da Mariza.


Obrigada. Estou a gostar de ouvir.


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As fotografias de crianças foram obtidas na net e acho que ficam aqui bem

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E queiram continuar a descer pois há uma entrevista interessante e uma canção muito bonita.

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Regresso ao trabalho.
Pedro, o menino que tinha um único amigo: um monstro.
E Paul Auster sobre Trump


Tenho a dizer que já estou, de novo e em força, na minha vidinha de sempre. Mas, vinda de umas não-férias, ligeiramente com falta de descanso e, sobretudo, estando cada vez mais ciente da perecibilidade de tudo, não estou para meias palavras, mas-mas-mas ou simpatias ingenuínas. Portanto, se sempre fui frontal, sinto que estou cada vez mais a tender para o politicamente muito incorrecto. Olham-me, reconheço, com algum assombro, como se eu estivesse a pôr à vista algumas verdades incómodas e isso fosse assustador porque enquanto não se fala é como se não existisse mas, uma vez as coisas ditas, já não é possível fazer de conta que não existem.

Não sei se, um destes dias, vou voltar a cobrir-me de paciência e fazer de conta que levo a sério o que só pode ser brincadeira. Mas, até lá, é mesmo: 'Só pode ser brincadeira..'. Ou: 'Não vou, não estou para perder tempo com macacadas'. Do outro lado, o olhar espantado. Paciência.

Nunca fiz fretes mas volta e meia fazia de conta que não era nada comigo ou que, coitados, deixá-los pensarem que são importantes. Agora não. 

Mas, regressada à vidinha, voltei também ao trânsito. Não saí muito tarde mas cheguei tarde a casa. Uma maçada, isto. De manhã, ao fim do dia. O tempo que perco nisto, um mar de carros. É certo que deu para os telefonemas, para ouvir música, para olhar a luz que se esvai já tão cedo. Depois, à chegada, ainda deu para uma mini-caminhada mas coisa ligeira. Mas, ainda assim, um desperdício.

Depois, enquanto o meu compagnon de route sofria a ver o volte-face do Sporting, vim aqui ao computador a ver se descobria quem era uma tal Juju que vinha a cantar o Cry me a river. Pelo menos era a legenda que me aparecia no monitor do carro. Pois bem. Não descobri. Uma voz de veludo, um sussurro colado à voz. Mas, pondo Juju, nada do que me aparece tem a ver com a voz que ouvi. Não é a Julie London. Pareceu-me uma voz jovem, acetinada. Em contrapartida, o YouTube dizia que recomendava para mim o vídeo que aqui mostro. Não morro de amores pelo Paul Auster mas tenho que dizer que gosto de ouvir o que ele aqui diz sobre a besta quadrada que os americanos fizeram o disparate de eleger (e não vou entrar na conversa dos milhões de diferença e dos métodos de apuramento, dos votos por estados, ou, sequer, pelas escandalosas tramóias de toda a espécie que Trump ou sua entourage levaram a cabo nas eleições. Votaram, foi eleito, está onde está). 


Mas eu estava numa de ouvir música, uma qualquer nostalgia que me deu. Procurei. Não é fácil procurar quando se quer procurar o que não se conhece. Mas descobri. Uma metáfora. Ninguém sabe. O dragão do Pedro. O menino que tinha como amigo um dragão. Há meninos que gostam de viver com monstros, mesmo que monstros interiores, e que dificilmente conseguem separar-se deles.

Que canção tão bonita. Tenho estado a ouvir e estranhamente a música envolve-me em melancolia. Ou serenidade, nem sei.

Talvez seja porque é interpretada pelos The Lumineers. Gosto deles.

Ou saudades de qualquer coisa. Talvez de estar in heaven, talvez de passear junto ao mar.


I was silent in love

And nobody really knows what i would do for you

Nobody really knows how much I love you

I had a vision of you

That carried me through

Mas vejam se também acham bonito. A internet tem isto de fantástico: dá-nos a conhecer o que de outra forma dificilmente conheceríamos.


Mas, primeiro, if you please, o Paul Auster. Unhappy rest.

Paul Auster is one of the USA’s most important contemporary writers. In this short video, he speaks his mind about the growing right-wing and Donald Trump: “I think he’s the most dangerous being that has ever existed in public office in the United States.” 
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Nobody knows (da banda sonora de Pete's Dragon) - The Lumineers



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Até já.

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terça-feira, setembro 12, 2017

Fugas no paraíso





Como já o disse, as minhas so-called férias foram deveras atípicas e não me apetece entrar em pormenores. Já basta o que basta, quanto mais pôr-me ainda a falar disso.

Mas, no meio do que foi sucedendo, outros sucedidos foram igualmente atípicos.

Conto.

Para começar, estávamos com uma fuga de água e sem fazermos ideia de onde. Todas as torneiras desligadas e o contador a correr. 

Isso podia ser mau mas pior foram as contas da água. Uma loucura. E sem fazermos ideia de onde saía aquela água toda. Em casa ou cá fora, que se visse, nem uma gota. Do contador até à casa principal e do contador até ao estúdio e do contador até ao telheiro: tubos enterrados debaixo do empedrado que rodeia a casa. Depois, em cada um desses sítios, canos everywhere. Mesmo debaixo do telheiro há a torneira da mangueira, depois o tubo vai enterrado ou por dentro da parede, não faço ideia, até ao lava-louça. E dentro da casa principal? Espatifar a casa toda até descobrir? É que vestígios, como disse, zero.

Falámos com o vizinho da ponta da rua que conhece meio mundo. Ficou de ir lá com um canalizador e já punha a hipótese de neutralizar as canalizações existentes e fazer novas, por fora, à vista. Mas o canalizador não podia, disse que ia mas depois não conseguiu.

Entretanto, abro a caixa do correio e um aviso de corte da água. Espantada. Porquê, caraças, se o pagamento é por débito directo? Mas ainda ia a tempo de pagar desde que fosse in loco, ou mandasse um cheque e que pagasse juros e mais as despesas que tiveram para activar o aviso de corte.

Aflita, liguei para lá. Mas o que se passa?! O banco não tinha pago a factura. Pedi: Dê-me a referência que pago por multibanco. Não, por débito directo não há cá multibancos. Liguei para o banco: Por que raio não pagaram a factura? Falta de saldo não é. Foram ver. Mandaram depois um mail. Quando autorizámos a transferência, colocámos um valor máximo e, dada a fuga de água, esse plafond foi amplamente ultrapassado. Portanto, não pagaram. Indignada, perguntei: E não avisaram? Responderam que não, que é tudo automático. Indignada, questionei as Águas: Mas, então, viram que o banco não pagou e ninguém nos avisa? Isso é assim?. Resposta: É assim, sim, é tudo automático, não sabemos, não damos por nada, não podemos avisar. Conclusão. Lá fui a uma estação dos CTT enviar um vale postal. 

Sem canalizador e sem pistas, procurámos na net e encontrámos uma firma que faz detecção de fugas através de uma máquina. Um balúrdio mas que remédio. Mas só dentro de dias.

Entretanto, o meu marido teve uma intuição: Não serão as raízes daquela azinheira? Não terão dado cabo da entrada dos canos em casa?

Toca a levantar a chão, as pedras todas fora, um buraco no chão. Nada. As raízes estão mais fundas que os canos.

Mas o meu marido com aquela intuição. Pediu ao pedreiro que chamámos: Abra mais. Um buracão. Nada. O meu marido: 'Mais'. O homem dizia: 'Pode ser noutro sítio qualquer'. Entretanto, naquelas nossas vidas agitadas, não pudémos lá ficar. Porque tudo isto se passou in heaven -- sim, no paraíso também há fugas. No dia seguinte, liga-lhe o vizinho: Teve sorte. Nem queira saber. Ao pé do portão, um repuxo! E logo ali combinaram que o vizinho, para resolver o repuxo, haveria de tapar os canos de qualquer maneira e que o canalizador depois ia arranjar aquilo como devia ser. 

Suspendemos a ida lá do senhor com a máquina que detecta fugas. Menos mal, o mistério tinha sido detectado.

Depois foi a espera pelo canalizador.  Que ia, que ia, mas nunca mais lá ia. 

Até que lá foi. Canalização toda nova naquele troço. Agora estamos à espera que lá vá o pedreiro tapar o buraco e refazer o empedrado naquela zona toda.

Dias depois, nova carta no correio. Novo aviso de corte. Mais uma factura tinha batido na trave. Nova ida aos Correios para pagar antes que, na nossa ausência, lá aparecesse alguém a cortar a água. É que sem água é que não: transpirados com aquela nossa lide de podar árvores, apanhar folhas e sei lá que mais, os banhos são imprescindíveis.

Dois dias antes de nos virmos embora, tinham caído umas pingas de chuva na véspera. Estava eu não sei onde, à noite, chama-me o meu marido para ir ver um fenómeno. Odeio que me chame e se limite, depois de dizer o meu nome, a acrescentar: 'Anda cá'. Quero sempre que me diga o que é, para eu ver se vale a pena. Adiantou: 'Para veres uma coisa'. Ora abóbora. Quis pormenores: 'Para ver o quê?'. Nada. Assertivo. 'Anda cá. Vem cá ver se percebes o que é isto'. Contrariada, lá fui.

Daquela é que eu não estava à espera. Chovia na cozinha. Chovia do tecto entre a chaminé e o frigorífico. Ele estupefacto, eu estupefacta. 'Mas não choveu nada de jeito... ' E ele, 'Estará uma telha fora do sitio...?'. Mas não tinha chovido que justificasse, um dia depois, uma chuva daquelas dentro de casa.

Foi buscar o escadote, espreitar dentro do sótão. Não conseguiu ver nada. E continuava a chover copiosamente. 

No dia seguinte, um SOS ao vizinho. Sempre prestável, apareceu com uma escada enorme, subiu ao telhado, destelhou, encavalitou-se e viu tudo molhado. Afinal a canalização passa pelo sótão e havia nova rotura. Desconhecíamos tal percurso. Não era coisa que ele soubesse reparar. Tinha que vir o canalizador. Meteram-se no carro e foram ver se arranjavam um. Difícil, outros trabalhos. Talvez mais logo. Senão logo de manhã. Na tarde do dia seguinte ainda esperávamos.

Tínhamos que fechar a água no contador. Mal a abríamos, uma chuva do caneco. Até que apareceu o canalizador. Foi ver. Veredicto: tinha que se abrir a placa para ele conseguir ver onde é que o cano trabalhava e onde é que havia o problema. Lá foi o pedreiro. À medida que abria o buraco na placa, a chuva caía mais copiosamente. 

A despensa alagada, baldes e alguidares por todo o lado, a tralha da despensa na cozinha, o micro-ondas, na cozinha, fora do sítio, o carrinho das batatas e cebolas e toda aquela tralha também fora do sítio.

E isto tudo no meio dos nossos problemas -- ao pé dos quais isto eram amendoins.

Até que tivemos mesmo que nos vir embora. Um buraco no telhado, os canos rotos, tudo a cheirar a molhado e desarrumado. E um buracão na zona do jardim onde tinha havido a outra fuga. O pedreiro ficou de ir lá tapar o buraco da placa e voltar a telhar o telhado. Acho que isso já fez. O do jardim é que continua no mesmo estado.

Entretanto, com tudo o que aconteceu, não voltámos lá. E as férias a chegarem ao fim. Resolvemos ir na quinta-feira passada para o Algarve. Ou seja, de facto, de facto, tivemos dois dias úteis de férias (já que o fim-de-semana, em que também lá estivemos, não será justo considerá-lo férias). Quando lá chegámos, como nesse dia contei, estava tão esgotada que, sem querer, deixei-me dormir até às tantas -- pelo que essa tarde foi quase perdida.

Parecia que tínhamos deixado para trás uma hecatombe tal a sucessão de sucedidos. Os dias no Algarve foram bons mas muito curtos. 

Esta segunda-feira já foi dia de trabalho. E eu só espero que agora sejam tempos de acalmia e que, para além disso, os canos parem de se romper porque não há paciência para tanta maçadoria. 

E, assim sendo, qual a conclusão...? Ou seja, apesar de tudo, what...?
E a resposta é: Apesar de tudo, cá estamos. Ou melhor, que isto do plural majestático não está com nada: Cá estou.
E a vida continua e é boa e eu gosto dela. 
Um tio meu, quando soube que tinha cancro nos pulmões disse, com ar tranquilo, que não se importava muito, que já tinha vivido bastante e tinha vivido uma vida boa e que tomara muitos terem vivido o que ele já tinha vivido. Quando partisse, partiria feliz. Infelizmente todo este estado de espírito viria a desmoronar-se quando soube que a minha tia estava também com cancro, e bastante adiantado. Mas, enfim, isso foi apenas um azar dos távoras que apareceu para acelerar as coisas e fazer com que ele não tivesse morrido feliz. Mas, ainda assim, partindo do princípio que azares destes só acontecem once in a lifetime, continuo a dizer que a vida é uma coisa muito boa. Boa, boa. 

E agora talvez vá já dormir que, parecendo que não, talvez eu tenha uns little motivos para andar ainda um bocadinho cansada. Já vejo se me aguento ou se vou juntar-me ao meu marido que já foi entregar-se aos braços do outro.
Do outro, salvo seja, claro, que isto do morfeu melhor fora que fosse assexuado para evitar confusões.
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Algumas fotografias são de Paolo Roversi e outras de Sølve Sundsbø. Podem não ter muito a ver com o descrito... mas quem vos diz que não têm a ver comigo...? E mesmo que não tenham. 

Thomas Rhett interpreta Die A Happy Man e escuso de explicar porque me apetece tê-lo aqui comigo. Connosco. Ou, se calhar, até devia para não parecer que vem a despropósito. Mas, olhem, ficamos assim.

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E um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

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segunda-feira, setembro 11, 2017

Crónica de uma veraneante acidental à beira da piscina





Depois da praia, descanso à beira da piscina. Aqui descanso é mesmo descanso. Ninguém fala alto. Há um silêncio apenas entrecortado pela aragem nas folhas das altíssimas árvores. Palmeiras, bananeiras e, mais afastados, pinheiros gigantes com a copa a roçar as nuvens.

Não há muitas crianças. É natural, a época escolar já começou. Quem aqui está é, na grande maioria, gente sem filhos pequenos. Casais de meia idade, casais muito jovens, casais muito velhos. 

É a segunda vez que aqui estamos e, do que já experimentámos, não conhecemos melhor. Amplo, tranquilo, confortável. 

A piscina tem um desenho irregular com jardins a meio, em grandes canteiros, recantos e zonas de sol e de sombra entre árvores.

Ao contrário das piscinas rectangulares dos hotéis em que quem está à sua beira pode ver todos os demais, aqui não é assim. Vê-se os que estão naquela zona e, quanto muito, alguns que estão em frente e isto se não tivermos jardins e árvores pela frente.

Também, ao contrário do que é usual, não se ouvem conversas. As espreguiçadeiras não estão encostadas e, quem ali está, ou fala muito baixo ou, a maioria, não fala. Quase todos os que chegam vêm com pequenos tablets ou telemóveis e, mal chegam, começam a deslizar os dedos no écran. Ao todo devo ter visto umas quatro ou cinco pessoas com livros em papel (e uma das pessoas era eu, que estive a ler O Grilo na Varanda, correspondência de Luíz Pacheco para Laureano Ramos).


Chegou um casal inglês que era uma das excepções: vinham com duas crianças, uma menina que teria uns três anos e um bebé que teria uns sete ou oito meses. Não estão ainda em idade em que se fale de ano lectivo. Escolheram umas espreguiçadeiras relativamente à nossa frente. Ele sentou-se e imediatamente se conectou (emocionalmente) ao telemóvel, desligando de tudo o que ali se passava. A menina trazia um tablet cor-de-rosa de brincar mas que me pareceu funcionar como um tablet normal e, numa espreguiçadeira, esteve o tempo todo entretida com o que ali via. O bebé esteve sentado, encostado ao pai, com chucha e a brincar com umas argolinhas. A mãe esteve deitada de barriga para baixo entretida com o seu smartphone branquinho.

Enquanto ali estive, li, quase dormi, nadei, sequei-me. Aqueles dois não se mexeram das posições iniciais.

Nas espreguiçadeiras quase ao meu lado, com uma palmeira de permeio, estava um casal mais velho que nós. Entre os dois uma pequena mesa. Cada um com o seu tablet. Não trocaram uma palavra, apenas viram o respectivo tablet. Quando olhei para o tablet do senhor, pareceu-me ver um vídeo suspeito. Como sou um bocado míope, disse ao meu marido: 'Mas ele está a ver pornografia...?!'. O meu marido olhou mas estava ainda mais longe que eu, não teve a certeza: 'É capaz'. E não fez mais comentários, se calhar para eu me desinteressar de averiguar. Como ele inclinava o écrã mais para mim, certamente para a mulher não ver, tive quase a certeza disso. Fiquei um bocado incomodada, devo confessar.

A seguir chegou um casal cheio de contrastes. Ele sem nada a reportar a não ser que trazia um livro em papel na mão. Ela, extraordinária. Tal como ele, também ela bastante alta. Mas, em volume, talvez o dobro dele. Com um cabelo louro platinado, liso, quase até à cintura. Um vestido de renda, todo transparência, até aos pés. Despiu o vestido e ficou com um biquini curto em verde, exactamente da cor das unhas das mãos e dos pés. Com umas ancas generosas, um peito generoso, toda ela parecia querer transbordar do curto biquini. Sentou-se, ajeitou o cabelo, colocou a melena loura sobre um dos ombros. Chegou então um empregado com um jarro de sangria e uma garrafa de espumante que colocou na mesinha entre as espreguiçadeiras. A sangria era para ele, o espumante para ela.


Ele deitou-se de lado a ler, de vez em quando soerguia-se para se refrescar com a sangria. Ela reclinada, flute numa mão, telemóvel na outra. Depois de beber, pousava a flute e deslizava o dedo no telemóvel. Quando nos vínhamos embora, levantou-se ela, imponente, e foi ver se a água estava boa. Reparei que já tinha avançado bem na garrafa .

Depois de ter nadado, para me secar, fomos para umas espreguiçadeiras que estão ao sol num relvado afastado da piscina. Várias pessoas a dormir, outros a lerem em tablets ou telemóveis. Apenas um tinha um livro analógico.

Cruzámo-nos na escada com os dois casais de ontem, eles todos tatuados. Irlandeses, animados. Reparei que ambos, nas costas, tinham o que pareciam ser fotografias de homens. Uma banda? Companheiros de armas? Apenas imagens dos amigos? Na frente flores, monstros, dragões, borboletas. Nas costas um grupo de homens. Elas, sorridentes, sem tatuagens.

Depois saímos, armas e bagagens, e fomos comer sardinhas assadas. Óptimas. E uma salada de tomate também muito boa, com uma cebola doce, saborosa. e um pão saloio, com aquele sabor antido a fermento. O que eu gosto daquele pão molhado no molho das sardinhas ou no molho da salada de tomate. Claro que tanto me desforrei nestes dias que a balança também já se desforrou: um quilo a mais.


Entretanto, à vinda, voltei a adormecer no carro. Depois de uns dias que me exauriram, agora, onde pouso, adormeço. Também já passei pelos meus pais. Deixei lá o Expresso. O meu marido disse: 'Não sei para que compras esse pasquim'. Comprei para ler a entrevista com a ministra Ana Paula Vitorino, uma mulher muito corajosa. Também tinha comprado numa estação de serviço, mas isso à ida para baixo, a Hola. Tenho esta pancada. Quando vou de férias, gosto de comprar uma revista. Andei a ver e não vi nada recomendável. Então, para ver boas casas e boas toilettes e porque só custava 2€, trouxe a espanhola Hola!. Também ficou para a minha mãe. Não estranhou o Expresso mas ficou surpreendida com a Hola. Depois de lê-la, há-de passá-las à amiga J. a quem, volta e meia, também empresta livros. Não sei como subsistem estas revistas. Nada se aproveita ali. Só fotografias da beautiful people. Do que vi, a única coisa que retive foi que Mario Vargas Llosa saíu do seu usual retiro numa clínica para onde, pelos vistos, todos os anos, vai para se pôr 'al punto' e que apareceu formoso, ao lado da guapíssima Isabel Preysler. Também vi uma reportagem da baronesa Thyssen com as filhas gémeas de onze anos e fiquei muito admirada pois ela está mais para netas do que para filhas pequenas. Fui agora conferir a idade dela (74) e, de facto, li que foram concebidas via barriga de aluguer. Li também agora que se especula se o pai das crianças não será o filho dela, um tal Alexandro Borja. A ser, seria simultaneamente irmão e pai das miúdas. Tudo gente com uma certa pancada.


Agora já estou em casa. Já fiz uma máquina de roupa. Já fiz uma bela sopinha de nabiças e já assei umas costeletas com maçã para o jantar de amanhã. Já arrumei a roupa, já tomei banho, já passei um brilhozinho discreto nas unhas. E agora ainda aqui estou a ver se prolongo a sensação de férias.

Mas já passa da meia-noite, já é segunda feira e o que me espera é mais do que eu, neste momento, estou preparada para aguentar. Mas que remédio terei eu senão aguentar. É a vida.

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E, a todos quantos por aqui me acompanham, desejo uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.

Be happy.

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domingo, setembro 10, 2017

Leituras, passarinhos, cataventos, florzinhas.
[1º de 5 posts]


Leio. Javier Marias. Divirto-me a lê-lo. Sorrio. Outras vezes não, porque calha não ser para sorrir. Escrita solta, inteligente, despreocupada por vezes, palavras de quem não se leva muito a sério. Tinha que gostar de quem assim escreve.

Afinidades. Sei de uma pessoa que também gosta de ler Javier Marias. Penso: 'É natural'. Há pontos de convergência que cartografam o mapa de afinidades que nos aproximam.




E enquanto leio, entre um e outro texto, fotografo. Há muitos passarinhos aqui. Vêm para perto de nós.


Ou as flores delicadas e tão bonitas que vejo nas dunas. Encantam-me. 


Ou o catavento artesanal que, com canas e corda, alguém fez e ali se move com a aragem da tarde.


Ou a gaivota que contempla o sol que começa a pôr-se quando o mar começa a aquietar-se.


Vejo, fotografo, fecho os olhos para guardar a sensação bem dentrinho de mim. Depois prossigo a leitura. Sei que não vou guardar as palavras que leio, só as ideias. A seguir, vou ver se a água está boa. Se estiver, mergulho, nado um pouco, deixo que o mar deixe em mim sensações boas que perdurem pelos próximos meses. O mar na minha pele. O sol na minha pele. A luz suave das tardes de Setembro. O riso dos jovens, O olhar tranquilo das gaivotas. Os últimos dias deste meu verão que tão invulgar me foi.

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Mulher ao mar...!
[2º de 5 posts]


Nestes dias de início de Setembro, por aqui, já não há muita gente. As tardes são longas, tranquilas, a temperatura amena. Para a tardinha, levanta-se uma aragem forte, arrefece. 

Os jovens que estão de guarda à praia já não têm muito que fazer. Conversam, riem, brincam. Dois rapazes e uma rapariga. Gosto de vê-los. A amizade que parece uni-los torna-lhes, certamente, em prazer aquelas horas de fim de verão.

As brincadeiras por vezes passam das palavras aos actos. Correm, riem, seguram-se. Eles unem-se para a atirar ao mar. Ela luta, resiste. Mas depois, vendo que não conseguirá, despe o casaco e rende-se.








Doces memórias serão guardadas para mais tarde as recordarem. Entre sorrisos. 

Saberão eles que os vi, jovens e felizes, brincando neste início de Setembro? Saberão eles que a sua alegria e os seus risos habitam agora este meu espaço que é o espaço de todos quantos o visitam? 

Gostava que soubessem e que ficassem contentes de se saber aqui, eternamente felizes.

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O meu corpo é uma tela e dela faço eu o que quiser?
[3º de 5 posts]


De novo, dois casais. Elas sem nada a referir. Eles, pelo contrário, com o corpo orgulhosamente tatuado de uma ponta a outra. Já não muito novos. Coloridos de uma forma muito idêntica. Sendo amigos, devem ter feito as tauagens no mesmo sítio. 

Interrogo-me: porque se tatua assim uma pessoa? É uma questão estética? Um gesto de auto-afirmação? Com o meu corpo faço o que eu quiser? Uma forma de exprimr a liberdade que lhes vai na alma?

Não percebo. Não gosto. Acho quase uma mutilação. Mas respeito. E, no caso destes dois homens, até achei uma certa piada. Flores e monstros impressos no corpo como se a pele fosse um cenário para as suas fantasias.





Extraordinários. 

Pena tenho eu de não ter coragem para chegar ao pé das pessoas e pedir-lhes que me deixem fotografá-las à vontade, entrevistá-las, trazer para aqui a sua história. Isso é que era. Tenho a certeza que, com estes dois, a conversa haveria de ser animada.

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Porque é que, quando dois casais vão a andar, geralmente os homens vão à frente e as mulheres atrás?.
[4º de 5 posts]


Dois casais. Coloridos. Coordenados. Afins. Homens à frente, mulheres atrás. Conversando.  




E mais dois casais. Em tons neutros, de novo parecidos. E, de novo, eles à frente, elas atrás. 


Deve haver uma explicação para ser sempre assim mas não ouso aventar uma para não dar uma colherinha de chá aos meus Leitores homens.

Para poder extrair conclusões mais robustas teria que tentar fazer demonstrações por absurdo mas o tempo não me permite tal. Portanto, ficamos assim: homens à frente e mulheres atrás e vá lá saber-se porquê.

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Aquela minha teoria de que os membros dos casais, com o tempo, se tornam parecidos.
[5º de 5 posts]





Tenho esta teoria que, com o meu espírito vagamente científico, tento comprovar. Estando na praia, sentada, sossegada, é como se estivesse perante um campo de observação. Ou na maneira de andar, de vestir ou, por vezes, mesmo fisicamente, olha-se para um e vê-se alguém que parece dar ares ao outro.

Se um é muito arrumadinho na maneira de estar, o outro é do mesmo género. Se um é todo floreadinho, o outro não destoa. Se são descontraídos, são os dois. 

Talvez seja algo de indefinido ou que, caso a caso, se consubstancia através de parecenças ou afinidades. Mas olho para eles e vejo quando é que a coisa funciona como casal ou nem por isso. 


E é engraçado como mesmo de costas e mesmo na praia, com pouca roupa, se consegue perceber o companheirismo, a sintonia, a convergência de gostos, o passo acertado.


Se calha serem atilados ou compenetrados, são os dois. Se são desconstruídos, são os dois. 


Não sei como é que com tantos milhões de pessoas, os que virão a formar um casal se descobrem um ao outro e como é que, tendo-se descoberto, se vem a confirmar que foram, de facto, feitos para se completarem, para serem o esteio um do outro. Poderiam nunca se ter conhecido e nem suspeitarem da existência desse outro alguém que viria a dar forma e conteúdo à sua vida. Mas, encontrando-se, parece que arranjam maneira de se ajustarem, seja de uma maneira mais explícita ou mais implícita.

Enfim, ideias que me ocorrem neste meu dia que, apesar de ser um simples sábado, foi vivido como se fosse de puras férias.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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sábado, setembro 09, 2017

O barco vai de saída.
[1º de 6 posts]



Sem contar essa história escondida
Por servir de criado essa senhora
Serviu-se ela também tão sedutora
Foi pecado
Foi pecado
E foi pecado sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa


E a conversa já vai longa e a noite já também se alonga. Deixo-vos com o veleiro que, ao longe, muito ao longe, quase etéreo, branco e elegante, vai indo para o mar. Vou também eu descansar. Levo para os meus sonhos o azul do mar, o azul do céu, o azul de quem ama o azul. E as gaivotas que aqui também são brancas e as velas também brancas dos veleiros que guardam a luz e o sal que vem do mar.

Vou no espantoso trono das águas
vou no tremendo assopro dos ventos
vou por cima dos meus pensamentos


vou de viagem ai que largada
só vejo cores ai que alegria
só vejo piratas e tesouros
são pratas, são ouros,
são noites, são dias

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Desejo-vos, também, meus Caros Leitores, um belo e luminoso dia.

E vão descendo pelos posts abaixo, vão descendo, sim senhor,

com sonhos de prata e fantasia
com sonhos da cor do arco-íris
desvaira se os vires
desvairas magias

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Olha, amor, olha o barquinho.
Ai.. não... afinal são dois barquinhos...
[2º de 6 posts]





Na quinta-feira, mal cheguei, deitei-me. Uma coisa quase como se fosse para experimentar a cama. Com um livro na mão. Literatura e Fantasma de Javier Marias. 'Um bocadinho. Ler um bocadinho. Descansar uns minutos'. Mas instataneamente apaguei. O meu marido tentou acordar-me e eu própria o tentei. Mas não consegui. Contra os seus princípios, adormeceu também. Só ao fim da tarde acordei. Acordámos. A tarde praticamente perdida, portanto. Esta sexta-feira quase também adormeci de manhã e à tarde. Ele diz que adormeci mesmo. Eu acho que não. Mas ando nisto. Depois de três semanas para esquecer, eis que o meu organismo resolveu fazer reset. Desliga-se e, felizmente, como geralmente acontece com as máquinas, também eu acordo melhor.

Mas isto para dizer que chego à praia e grande parte do tempo estou, na maior preguiça, a ver o que se passa à minha volta ou tentando ver o que vai passando na linha do horizonte.

Este início de Setembro, pelo menos por aqui, está tranquilo. As gentes que por aqui andam são poucas e silenciosas. E eu fotografo. Registo os meus dias em imagens. Outras vezes em palavras.

E estava eu nisto quando vejo um belo barco ao longe. 'Olha aquele barcalhaço'. O meu marido diz-me: 'Acho que não é um, que são dois'. Naquela altura iam lado a lado e a mim, tão longe, parecia-me apenas um. Mas já um tomou a dianteira e eu, com zoom a toda a brida, logo ali os registei, brother in arms, iguais, prontos para enfrentar, em conjunto, a fúria dos mares. 


Até que a morte os separe.
[3º de 6 posts]



Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz


Na luz dourada da tarde, passeavam pela beira do mar, abraçados. Passaram para lá, conversando, abraçados. Fotografei-os. A felicidade de ter, ao longo da vida, alguém que nos acompanhe, que nos ouça, que nos fale das suas ideias, que nos abrace, que seja nosso amigo não cabe em meia dúzia de palavras. 

Depois voltaram a passar, agora em sentido contrário. Mantinham-se abraçados, continuavam a conversar. Belíssimos no seu amor, na luz que os envolvia, na passada certa e alinhada, na certeza de enfrentarem juntos ventos e marés.


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O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

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Há cerca de sete anos, de manhã, -- e já tantas vezes o contei -- tínhamos ido no carro a ouvir a Bethânia. 'O meu amor', que já conhecíamos cantada pelo Chico, ficou presa à língua do meu marido que todo o santo dia a cantou. E eu com ele. De vez em quando. os dois ao mesmo tempo. Nessa noite, depois dele se ter ido deitar, resolvi fazer um blog e, ao ter que lhe dar um nome, o que me ocorreu foi 'um jeito manso' dado que, lá por casa, outra coisa não se tinha cantado ao longo do dia. E cantámo-la não apenas porque a música e a interpretação nos agradavam mas também porque a letra da canção é qualquer coisa. 
Hoje, enquanto nos deslocávamos de carro durante uma curta viagem (já que, por estes abençoados dias, felizmente só temos andado a pé), de novo 'o meu amor', desta vez na interpretação da Carminho e do António Zambujo. O meu marido de novo a cantou. E eu fechei os olhos, pensando em todos estes anos, juntos, ouvindo esta mesma canção, cantando-a como se fosse feita para nós.

Fica aqui bem, junto do casal da fotografia. Quanta ternura e companheirismo naquele andar enlaçado.

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Deslizar elegantemente até à fímbria do mar.
[4º de 6 posts]






O mar pôs-se branco, encheu-se de sedas e tules, fez-se delicado, baixou a crista da onda, estendeu suavidades e espumas pela areia -- e toda esta cortesia, todo este adoçar para melhor se apresentar à jovem mulher que, de branco, passo elegante, se aproximava.

E assim ficaram os dois, envoltos em luminosa doçura, serenos e tímidos, prontos um para o outro.


Pega de caras ao mar.
[5º de 6 posts]






Eh mar lindo... Eh mar lindo... Eh-eh-eh!

Nem de cernelha, nem à rabadilha. De caras. Pegar o mar pelos cornos. Uma lide taco a taco. A mulher enfrenta o mar. Venha ele.

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Uma pantera negra no areal.
[6º de 6 posts]






Com um andar alongado, sem pressas, atravessou o areal. Quando passou perto de mim, olhou-me e fiquei siderada com a assombrosa cor verde dos seus olhos. Depois prosseguiu como se fosse uma majestade a desfilar. Belíssimo. Misterioso.

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Votos de saúde, felicidade e... um grande fim-de-semana a todos quantos agora estão aí desse lado.

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