sexta-feira, abril 11, 2014

Barreto Xavier, um sujeitinho pequenino e infantilmente primariozinho, na entrega do Prémio à Escritora e Jornalista Alexandra Lucas Coelho


Depois de abaixo vos ter revelado uma conversa pessoal minha sobre um tema sensível e de, mais abaixo ainda, ter falado de uma das características do comportamento do género humano, a de se portar como se do género ovino se tratasse, aqui, agora, viro-me para uma mulher de armas, perigosa.

Falo, claro, da mulher de quem se fala: Alexandra Lucas Coelho. Eis o relato que ela faz do que se passou na cerimónia que as televisões não mostraram. As televisões só mostram outro tipo de coisas. As televisões fedem.


Adiante. A palavra a Alexandra Lucas Coelho, a mulher sem papas na língua. Aliás, agora que falo nisto, acho que está mas é na hora de eu formar um partido, o partido das pessoas sem papas na língua. PPSPM. A Alexandra seria das primeiras pessoas que eu convidaria. Ah mulher valente que não as poupa!

(Os destaques no texto são de minha responsabilidade)

Alexandra, a Grande

Não há gravações do que se passou durante a entrega do Grande Prémio de Romance e Novela da APE, na sala 2 da Fundação Gulbenkian, a 7 de Abril. Havia jornalistas presentes mas não em trabalho, a tomar notas. Por isso não há forma de citar “ipsis verbis” o que disse o Secretário de Estado da Cultura (SEC), Jorge Barreto Xavier. Mas há algumas dezenas de testemunhas que podem acrescentar ou corrigir o que vou tentar resumir agora aqui, por tudo se ter passado numa cerimónia pública.


Sendo este prémio tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, decidiu o actual presidente, Cavaco Silva, à semelhança de anos anteriores, fazer-se representar. Neste caso, pelo seu Consultor para Assuntos Culturais, Diogo Pires Aurélio. Isto era o que eu sabia quando escrevi o discurso para a ocasião.

Já no átrio da Gulbenkian, perto da hora marcada, 18h, a APE comunicou-me que a cerimónia estava um pouco atrasada porque esperavam o Secretário de Estado da Cultura.

Xavier Barreto, o coisinho
Quando Barreto Xavier chegou e entrámos todos para a sala, o protocolo sentou-o ao centro da mesa, junto a Diogo Pires Aurélio. Nas pontas, Gulbenkian (representada por Rui Vieira Nery), APE (José Manuel Mendes, José Correia Tavares), júri (representado por Isabel Cristina Rodrigues) e eu. Vieira Nery abriu, sucintamente; seguiram-se discursos da APE; Isabel Cristina Rodrigues leu o texto em que o júri justifica a atribuição do prémio a "E a Noite Roda". Diogo Pires Aurélio e eu levantámo-nos para que ele me entregasse o sobrescrito do prémio, um minuto de formalidade, sem palavras, para a fotografia. Chegou a minha vez de discursar, li as páginas que trazia. No fim, houve uma ovação de pé. Digo isto para dar conta da atmosfera que os representantes do poder político tinham diante de si.

A APE convidou então o SEC a intervir. Ele escolheu falar sentado, sem se deslocar ao púlpito. Uma das coisas que disse, na parte, digamos, cultural da intervenção, foi que eu bem podia declarar que não fazia ficção porque claro que fazia ficção porque é isso que um escritor faz, ficção. Foi o primeiro arroubo dirigista, que nos devia ter preparado para o que aí vinha.

Na parte, digamos, política, destaco quatro coisas: o SEC disse que eu devia estar grata por estarmos em democracia e eu poder dizer o que dissera; que durante anos os portugueses se tinham endividado acima das suas possibilidades; que, ao contrário do que eu dissera, ninguém saíra de Portugal por incentivo deste governo; e, sobretudo, que eu tinha dito que não devia nada a este governo mas que isso não era verdade porque este governo também subsidiava o prémio.

Referia-se ele, assim, a um prémio com décadas de existência; atribuído a alguns dos mais extraordinários escritores de língua portuguesa; cujo montante em dinheiro resulta de vários patrocínios, sendo que os públicos resultam do dinheiro dos contribuintes; e que tem atravessado os mais variados governos, sem que nunca, que me recorde, algum governante o tenha tentado instrumentalizar. Foi a mais escancarada confusão de Estado com Governo que já presenciei, para além do tom chantagista ao nível de jardim de infância das ditaduras. E, apesar dos apupos, de quem lhe gritava da plateia "Mentira!" e "O Estado somos nós!", o SEC insistia.

Como cabe ao Presidente da República, ou seu representante, encerrar a cerimónia, a APE instou Diogo Pires Aurélio a falar. O representante do Presidente da República declinou e encerrou a sessão. No fim, cumprimentou cordatamente todos os presentes na mesa e retirou-se.

Já Barreto Xavier, aproximou-se de mim na confusão da retirada. Julguei que se vinha despedir, depois de dizer o que tinha a dizer. Nada disso. Queria dizer-me, visivelmente irritado, que o que eu fizera tinha sido de um grande "primarismo". Respondi-lhe que então devia ter dito isso mesmo ao microfone, que eu já dissera o que tinha a dizer e não lhe ia dizer mais nada. Fui andando, para contornar a mesa e acabar com a cena, mas o SEC insistia: que eu tinha sido “primária”.


O "Público" pediu-me o discurso para publicar online na tarde do dia 8. Quatro horas depois, 89 mil pessoas tinham lido o texto. Ontem, o post no FB do "Público" tinha sido visto por 170 mil. Obrigada a todos pela partilha.


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Sigam, por favor, pelo blog abaixo pois, da colheita de hoje, este é já o terceiro post.


Um gabarolas? Um tipo que não se enxerga? Um sujeito com um ego muito grande? Um brincalhão? Um fulano que não se vê ao espelho? Um sobredotado? ... What?


No post abaixo falo de uma experiência, a experiência de Asch, que mostra uma triste realidade: a de que tendemos a alinhar-nos com o resto do rebanho. Escolhi o caso da experiência do elevador.

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra.


Estarão talvez recordados do post de ontem no qual divulgava vídeos, um sobre o pénis e outro sobre vaginas.

Hoje perguntei a uma certa pessoa (do sexo masculino) e que não tinha visto o Um Jeito Manso se ele sabia o que tinham os pénis dos homens em comum com os dos cavalos.

Nem pensou. Respondeu logo. Mas teve a prudência de dar um leve toque de interrogação: 'O tamanho...?'.

Desatei-me a rir, claro. O tamanho...?! 

E só não digo com quem tive eu esta conversa para que os meus Caros não façam um sorrisinho malicioso e não fiquem a cogitar 'então é por isso que ela anda sempre tão bem disposta...' [embora seja verdade, confesso: geralmente dou-me com gente divertida, que me faz rir e me põe bem disposta].


[E mais não digo que é para amanhã não levar na cabeça.]

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Para não ficarem a abanar a cabeça, preocupados com a minha sanidade mental ou com a minha falta de juízo, desçam, por favor, até ao post seguinte onde falo de coisas sérias.

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quinta-feira, abril 10, 2014

E você, meu Caro Leitor? Consegue afirmar a sua vontade e maneira de ser mesmo em ambiente adverso no qual todos os outros agem da mesma maneira mas de uma maneira diferente da sua. Confira com a Experiência Asch.


Neste mundo de marias-vão-com-as-outras, como conseguimos preservar intacta a nossa vontade? Como conseguimos afirmar a nossa personalidade sem que sejamos acusados de pedantes ou de criaturas difíceis?

Nestes tempos de mediocridade e indiferença, interrogo-me frequentemente sobre isto.

Lembrei-me então de uma experiência célebre: a experiência do elevador da série de experimentações levadas a cabo por Solomon Asch. 


Asch combinava com um grupo de pessoas que todos iriam dar a mesma resposta mas uma resposta obviamente errada a uma questão simples. Depois, colocava no meio uma pessoa que não conhecia essa combinação. O indivíduo, apesar de ver qual a resposta certa, vendo todos os outros a darem uma resposta errada, acabava por responder também erradamente.

A experiência do elevador era a seguinte. Um grupo de homens, com aspecto de utilizadores acidentais, entrava num elevador e comportava-se parvamente: todos de costas para a porta, todos virados para um dos lados, todos a tirarem o chapéu, etc. E, no meio, entrava um pobre coitado, utente normal, que não sabia do que ali se passava. 

Vejam o seu comportamento e vejam se não é o que acontece aos papagaios, carneiros, bois mansos, etc, que por aí andam. Dá vontade de rir? A mim não. Dá-me é vontade de chorar. Somos assim. Pelo menos a maioria de nós, é. E quem o não for, volta e meia sentir-se-á muito isolado. Podem crer.




The Asch Experiment



O que é que os tubarões e as vaginas têm em comum? O que é que os pénis dos homens e os dos cavalos têm em comum? - isto e muito mais numas aulinhas sexuais para o menino e para a menina.


Bem, depois de, abaixo, ter mostrado com casos concretos o poder da maquilhagem e do photoshop na transformação da imagem de uma mulher e depois de vos ter confessado que, apesar das óbvias vantagens, não me sinto seduzida por nada disto, parto para outra.


Antes tenho que vos dizer uma coisa: estou perdida de sono. Não é raro - esta conversa é já uma banalidade por estas bandas - mas hoje estou para lá da conta. Por ter andado no sábado passado com a criançada ao colo (um queria apanhar um limão e não chegava lá acima, outro queria ver o bisavô na cama... e aquela cama é uma tentação para eles, com comando, sobe e desce - e eu com aqueles pesos-pesados ao colo) e porque ainda devia ter os músculos frágeis desde o último torcicolo, voltei a ficar aflita. Tenho andado a ver se passa mas está é cada vez pior. Então tomei o medicamento que tomei na outra vez: um relaxante muscular que é, nada mais, nada menos do que a versão reduzida do valium normal. Ora isto para mim é tiro e queda, boa noite cinderela. 

Volta e meia abro os olhos e tenho uma linha cheia da mesma letraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Adormeço com o dedo a carregar numa tecla. Depois lá acordo e apago mas, ainda assim, não garanto que isto vá com conteúdo que se aproveite.


Por isso, hoje fico-me por aqui.

Mas, para que não se sintam defraudados com a visita, aproveito para aqui vos deixar uma aulinha sexual. É para o menino e para a menina.

Há bocado, ao dar com o vídeo do photoshop dei com estes e, claro, a coisa tem graça e para um dia em que a cabeça já está a dormir, nada como usar material deste tipo.

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Factos sobre Vaginas - um tema de inegável interesse




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E será que sabe alguma coisa de jeito acerca de pénis? Ou tudo o que sabe está errado...?







E um dia destes continuo com estes relevantes temas


(E não sei se devo dizer que isto é uma promessa, se é uma ameaça - os meus filhos, por exemplo, até tremem quando eu me meto por estes caminhos).

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Relembro: 
Sharon Stone com e sem maquilhagem e photoshop e a experiência levada a cabo por quatro mulheres, é já a seguir.

Deve uma mulher parecer perfeita ou deve mostrar-se como é? Aceitam-se palpites.

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E por aqui me fico, meus Caros Leitores. 
Tenham, meus Caros, uma bela quinta feira. Be happy!


quarta-feira, abril 09, 2014

A beleza das mulheres com o passar dos anos e a ajuda da maquilhagem, das plásticas (quando estão dispostas a isso) e, até, do photoshop. Ou, então, nada a fazer e persistir na velha saudável máxima de que 'what you see, is what you get'


No outro dia, um amigo meu contou-me que tinha estado com um outro amigo que estava acompanhado pela mulher, ambos meus conhecidos. Dizia-me ele que tinha ficado surpreendido, que 'ela está velha, velha, velha'. Surpreendi-me: se há alguém neste país que tem todos os meios possíveis e imaginários para se manter bem cuidada é ela. Dado que há já algum tempo que a não vejo, admirei-me: 'eu até tenho ideia que ela já se esticou...'. Confirmou, 'sim, deve ter-se esticado, parece que já lhe faltam feições. Mas está toda ela muito velha'. Fiz contas de cabeça e pensei que a dita deve agora andar pelos 50. Não é inusual que a pele das mulheres, quando sobrevém a menopausa, perca a elasticidade. Mas entre cremes, massagens faciais, boa vida e refeições monitorizadas à lupa por nutricionaistas, não teria conseguido evitar a flacidez facial?

Estou curiosa. Sempre a vi com cara de boneca, toda lisinha, uma camada muito fina de base a disfarçar uma ou outra imperfeição, cabelo impecável, roupas de marca (e ponham marcas nisso) - não estou a imaginá-la com ar de velha. Além do mais, é casada com uma bela figura de homem a quem os anos têm trazido charme e patine e ficaria estranho ele todo executivo, sports man, e ela toda velhinha. Não acredito. Mas, enfim, a vida às vezes não poupa alguns rostos.

Lembro-me de, quando eu era pequena, uma das minhas avós já me parecer velha, com rugas na cara, cabelo já muito grisalho, dores nas mãos que, mais tarde degenerariam em artroses. Lembro-me de uma fotografia minha ao colo dela e ainda agora quando a vejo já me parece uma mulher quase velha. E, no entanto, ainda não tinha 50 anos.

Será que os meus pimentinhas também já me vêem como velha? Não faço ideia, tenho que lhes perguntar. Mas tenho ideia que um deles fez um desenho com a família e que a minha filha perguntou se eu fazia parte dos velhos e que ele, muito admirado, disse que não.

No outro dia cruzei-me com duas senhoras que caminhavam em passo acelerado. Diria eu que tinham idade para serem minhas mães. No entanto, uma olhou para mim como se me conhecesse mas eu não a conheci, nem abrandei o passo. Mas, mal começámos a afastar-nos, fez-se-me luz: eu conhecia aquela cara. Olhei para trás mas ela já seguia em passo apressado no sentido contrário ao meu. Mas não tive dúvidas. Gorda, gorda, cabelo grisalho, uma coisa extraordinária. Tinha sido minha colega na faculdade. Até fiquei mal disposta. Será que, quem me olha, também me vê envelhecida, irreconhecível? Acho que não mas vá lá a gente saber.

Mas já me aconteceu ver-me em fotografias e ter vontade de lhes dar uns (re)toques. Volta e meia, o meu filho apanha-me nuns grandes planos que não me favorecem especialmente. Já faz isso para me indispor, é malandreco. Mas photoshop? Para quê? Para enganar quem? Maquilho-me ao de leve e isto durante a semana. Ao fim de semana limito-me a passar uma sombra ao de leve na pálpebra superior, coisa ligeira, apenas para fazer algum contraste. Sou o que sou e boa noite.

Tive em tempos uma colega que pouco ria, que não se baixava e mais uns quantos cuidados, tudo para que a cara não lhe pendesse e para não ficar com rugas do riso. Sempre achei isso patético - mas ela não. Quando se reformou, parecia uma bonequinha que tivesse ficado presa na teia do tempo..

Mas, enfim, na permanente luta para conservar a juventude, há de tudo: os razoáveis, os fundamentalistas e os tarados.



Sharon Stone, a bela e sexy arrasadora de corações, que deita a seus pés legiões de homens babados, fez o mês passado 56 anos e temos dela a imagem da sensualidade perfeita.

Elegante, tentadora, difícil é aos homens não ficarem presos pelo beicinho quando a olham.

No entanto, sem maquilhagem, embora bela, quem a reconheceria como uma mulher fatal?

Deixo-vos agora com um vídeo sugestivo: reparem na transformação operada através de maquilhagem e photoshop. 

Face a tudo isto e para rematar, só tenho a dizer que, pela parte que me toca, vou manter-me fiel ao meu velho princípio: back to basis. Nem plásticas nem photoshop. Vá lá um risquito na pálpera superior, uma sombrazita discreta para valorizar a cor dos olhos e um pouco de ar saudável. E chega. Até há pouco tempo ainda pintava os lábios ou, pelo menos, passava um gloss em tom de fambroesa. Agora nem isso.



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Um grande discurso de Alexandra Lucas Coelho ao receber o prémio APE pelo seu romance 'E A NOITE RODA' ['Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do Governo do seu partido] - mulheres que escrevem são perigosas, disso não haja dúvidas


Depois de abaixo ter confessado alguns dos meus dilemas, exemplificando com o que se passa com os embustes do Láparo ou as boutades da Jonet, aqui agora, abro alas para um grande discurso. 

Um discurso que levanta muitas pedras e as atira para cima da mesa. Perigosa, perigosa, ela. Alexandra Lucas Coelho, que recebeu o prémio APE pelo romance E a Noite Roda, é bem o exemplo de como são perigosas as mulheres que escrevem.


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Tears for Animals




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Apenas parte do discurso de Alexandra Lucas Coelho:


Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um império perdido.


E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este Presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”.

(...)

Amar Portugal é estar em Portugal porque se quer. Poder estar em Portugal apesar de o Governo nos mandar embora. Contrariar quem nos manda embora como se fosse senhor da casa.

e a noite roda

Alexandra Lucas Coelho
Grande Prémio de Romance e Novela 

APE/DGLAB 2012

Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do Governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o Governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este Governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”.

Este país é dos bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.

Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu Governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.

Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura.

Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros, uma tonelada, para um 11.º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual Presidente da República.

E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou os braços quando o Governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dívidas à Segurança Social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E, ainda assim, de cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e baixos.

Não devo nada ao Governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta, que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa, que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.

Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.

(...)
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Grande discurso que pode ser lido na íntegra aqui.

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Assim começa o livro:


Se azuis são os seus olhos
azul será a minha lança


Ibn Al Qaysaran

Damasco

Escrevo para acabar com  história, escrevo para que a história comece. Esquece a morte e segue-me.

Sete e meia da manhã em agosto. Gosto do cheiro de jasmim pela manhã no pátio de Karim. Ainda não conheço, está no Brasil, chega em dezembro: Karim Farah. Nome estranho para um brasileiro, mas o amigo do amigo que nos pôs em contacto disse-me que há milhões de descendentes sírio-libaneses no Brasil.Não sei nada do Brasil, sabemos pouco do Brasil na Catalunha.




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E assim acaba:

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You provide the bourbon
I'll provide the skin


CocoRosie, versão Ana

(esta página não está junto ao fim do livro,
está aqui apenas porque sim)

Ontem, no meio dos papéis, dei com uma cantiga de amigo que transcrevi à mão por causa de um poeta português contemporâneo, Herberto Helder. Ele usou o refrão como título de uma antologia: Edoi Lelia Doura. É um refrão misterioso, talvez uma corruptela de árabe.


Eu velida nom dormia
lelia doura
e meu amigo venia,
edoi lelia doura.
nom dormia e cuidava
lelia doura
e meu amigo chegava,
edoi lelia doura.


O amigo seria um árabe do Al Andaluz. Mas que significa Edoi lelia doura? Goso desta hipóteses: E a noite roda.

Ah, aí vem Karim.


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A música lá em cima é Tears for Animals das CocoRosie (com Antony Hegarty) já que as CocoRosie fazem parte da banda sonora e dos agradecimentos da autora que aparecem no fim do livro.

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Relembro: sobre dilemas, Laparices, Jonezices e outras parvoíces escrevo no post já a seguir.

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E, por agora, por aqui me despeço. 
Tenham, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira. 
Alegria, saúde e muita sorte, está bem?

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terça-feira, abril 08, 2014

Dilemas... [Passos Coelho e os cortes de ordenados e pensões e a hipotética redução de impostos e o ficcionado aumento de salário mínimo (que afinal parece que já não é bem assim), e mais a Isabel Jonet e as redes sociais que são o maior inimigo dos desempregados - e, perante isto, a minha dúvida é: qual a forma mais eficaz de comentar tanto logro e tanta parvoíce sem parecer uma revoltada ou uma profissional da má língua?]


I

Na minha vida real, seja ela pessoal, social ou profissional há linhas que não piso. Por vezes, dizem que tenho mau feitio, outras vezes dizem-me que há anti-corpos em relação a mim. Sei disso e encaro-o com naturalidade. Não se consegue viver em consenso quando há visões distintas para a mesma coisa. Se, por exemplo a nível  profissional, eu estou na gestão com o intuito de conseguir os melhores resultados e outros estão para se darem bem na vida, marimbando-se para a empresa, não há consenso possível. Eu marro a direito e vou causar maus momentos àqueles em quem marro e não há volta a dar. Claro que, primeiro, tento levar as coisas da forma menos dolorosa para ambos, tento trazer para o meu lado aqueles que estão em campos antagónicos ao meu ou tento fechar os olhos se achar a coisa não é muito grave. Mas há a tal linha: é a linha da minha consciência.

Se eu fosse líder do PS teria a maior dificuldade em lidar com cães com pulgas. Ora falam em cortes definitivos quando antes eram provisórios, ora falam em redução de impostos ou em aumento de salário mínimo para logo de seguida envolverem a conversa numa outra roupagem, falando em rendimentos indexados à economia. Coisas sérias tratadas com os pés (já para não dizer com as patas). 

No entanto, perceberá a opinião pública todos os logros, todos os embustes, todas as manipulações que os vendilhões armam? Perceberá que aqueles biltres mentem e escamoteiam sem escrúpulos e que é impossível a alguém que preze a dignidade estabelecer consensos com eles? Não poderá a opinião pública ainda pensar que as pessoas dignas que se recusam em alinhar em embustes são radicalistas?

Se eu fosse líder do PS poderia estabelecer algum consenso com o Láparo e com todos cães com pulgas e papagaios que o rodeiam? Jamais. Mas a opinião pública perceber-me-ia ou acusar-me-ia de arrogante ou esquerdista?

Não sei.

É aquela coisa: se fugir o bicho pega, se ficar o bicho mata. Um dilema, portanto.

É o caso ilustrado aqui abaixo. Ora vejam o dilema do pobre coitado.



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II

A Dame Jonet saíu-se com mais uma de antologia e eu não disse nada. Leitora atenta estranhou o meu silêncio e protestou por mail. Percebo-a. Claro que o tema merece referência. Mas o que eu já estou cansada com tanta parvoíce, Leitora...? É que parece que ainda sou eu que corro o risco de parecer que sou picuinhas, que sou ranzinza, que estou sempre a protestar com tudo.

Mas está bem, eu digo de minha justiça.

Disse a Dame Jonet que a maior inimiga do desemprego é a praga das redes sociais. Já cá faltava mais uma das famosas boutades da Jonet: só podia ser parvoíce da grossa, claro.

No entanto, tenho que confessar que tenho alguma dificuldade em atirar-me à jugular da senhora. O trabalho dela é meritório. Consegue mobilizar milhares de pessoas e consegue fazer chegar apoios a muitos milhares de pessoas carenciadas. Louvo-a por isso. Ainda bem que ela faz o que faz porque é importante que haja este tipo de apoios.

Onde ela se espalha, mas se espalha ao comprido, é quando se mete em analista ou ideóloga do regime. A actividade dela centra-se no assistencialismo, na caridade, e a cabecinha pensadora dela não sai daí. Não vale a pena porem-lhe um microfone à frente porque ela não dá mais do que falar de bitoques em vez de bifes ou em recomendar aos desempregados que vão fazer voluntariado em vez de ficarem no facebook.

Ignora a Dame Jonet que o mal tem que ser combatido na origem - e a origem de tanta pobreza é a debilidade da economia e o desvio das verbas circulantes para entidades financeiras em vez de servirem para financiar e dinamizar a economia. Os muitos milhares de milhões que foram subtraídos ao PIB traduzem-se em muito desemprego, muita emigração. Mas na cabecinha da Dame Jonet o mal não está aí, está no facebook ou nos blogues. 

Mais do que apostar na caridade (que é a política deste desgraçado Governo que primeiro empobrece a população para depois lhes atirar migalhas, migalhas essas que ainda regateia) o que tem que ser feito é pôr dinheiro a circular para que a economia arranque e crie emprego.

Redes sociais diz a Dame Jonet...? Bahhh.

Se as pessoas não arranjam trabalho devem fazer o quê? Enfiarem-se na cama? Andarem de porta em porta à esmola? Irem trabalhar para o Banco Alimentar na esperança que lhes dêem uma sopa à borla?

Está a ver, Leitora? Tenho dificuldade em pronunciar-me sobre tamanha indigência intelectual, que quer...?

No mail refere a Leitora que, de resto, é nas redes sociais que tantas vezes se arranja trabalho, especialmente no LinkedIn  [mas que, também nas redes sociais, há um risco pois há muitas empresas que, antes de entrevistarem os candidatos, varrem as redes sociais, pelo que todos os cuidados são poucos]

Este mundo anda virado do avesso, anda perigoso.

Mas, enfim, apesar de tudo ainda acho que a Dame Jonet é menos perigosa que o Láparo, o Maçães, o Portas (por onde andará o vice qualquer coisa?), a Pinókia, o Moedas, o Catroga, o Arnaut, o rei das cagarras e outros. .

Por isso, de cada vez que a Belicha Jonet diz uma enormidade (para não dizer alarvidade), eu fico num dilema. Faço de conta que não dou por nada ou digo para ela se deixar estar sossegada (e de bico calado) a fazer a sua caridadezinha?


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Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes


No post abaixo já falei das duas duplas mais famosas de momento na televisão portuguesa: José Sócrates & José Rodrigues dos Santos e Marcelo Rebelo de Sousa & Judite de Sousa, tendo eu, até, sugerido a troca de casais, a ver no que dava. Uma cena de swing, não sei se estão a ver. Num comentário a esse post podereis até ver algumas outras duplas de sucesso garantido que o Leitor P. Rufino aqui nos deixou à laia de sugestão.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Muito outra.


Música para a Felicidade e contra a Febre e a Depressão



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Como são crianças, fala-lhes de batalhas 
e de reis, de cavalos, de diabos, de elefantes
 e de anjos, mas não deixes de lhes falar de 
amor e de coisas semelhantes.



A noite não comunica com o dia. Arde nele. Levam-na para a fogueira ao alvorecer. E, juntamente com ela, a sua gente, os beberrões, os poetas, os amantes. Nós somos um povo de degredados, de condenados à morte. A ti não te conheço. Conheço o teu amigo turco; é um dos nossos. A pouco e pouco desaparece do mundo, engolido pela sombra e pelas suas miragens; somos irmãos. Não sei que dor ou que prazer o empurrou para nós, para o pó de estrela, talvez o ópio, talvez o vinho, talvez o amor; talvez alguma obscura ferida da alma, bem escondida nos recessos da alma.

Queres juntar-te a nós.

O teu medo e a confusão em que estás lançam-te nos nossos braços, procuras aninhar-te neles, mas o teu corpo duro continua agarrado às suas certezas, afasta o desejo, recusa abandonar-se.


O teu braço é duro. O teu corpo é duro. A tua alma é dura. é claro que não estás a dormir. Sei que estavas à minha espera. Há pouco reparei nos teus olhares. sabias que eu ia chegar. Tudo acaba sempre por acontecer. Desejaste a minha presença, e aqui estou. Muitos, deitados no escuro, desejariam ter-me junto deles; tu viras-me as costas. Sinto os teus músculos tensos, os teus músculos de bárbaro ou de guerreiro. Só com o manejo da espada se conseguem braços tão fortes. Da espada ou da foice. No entanto, não te imagino camponês, nem soldado, senão não estarias aqui. És áspero de mais para seres poeta como o teu amigo turco. Serás então marinheiro, capitão, mercador? Não sei. Não me olhavas como coisa que se pode comprar ou possuir pelas armas.

Gostei do teu modo de me observar enquanto cantava. A precisão dos teus olhos, a delicadeza da sua cobiça. E agora, quê? Tens medo, estrangeiro? Eu é que deveria ter medo. Não passo de uma voz na escuridão, irei desaparecer com a alvorada. 

Deslizarei para fora deste quarto quando se puder distinguir uma linha preta de uma linha branca e os muçulmanos chamarem para a oração.

Vão pagar-me, não há nada de que te possas acusar. Deixa-te levar pelo prazer. Estás a tremer. Não me desejas? Então ouve. 

Era uma vez num país distante... Não, não te vou contar uma história. Já não é tempo de histórias. A época dos contos terminou. Os reis são uns selvagens que matam os cavalos que montam; há muito que deixaram de oferecer elefantes às suas princesas.

Os astros desviam-se de nós; mergulham-nos na penumbra. Vai-se a luz para o outro lado da terra, quem sabe quando voltará. Não te conheço, estrangeiro. Nada sabes de mim, apenas temos a noite em comum. Partilhamos este momento, sem o quereremos. Apesar dos golpes que em nós vibrámos, apesar das coisas destruídas, estou encostada a ti no escuro. Não vou entreter-te com as minhas histórias até ao alvorecer. Não irei falar-te de génios bons, nem de vampiros aterradores, nem de viagens em ilhas perigosas. Não resistas. Esquece o teu medo, aproveita eu ser, como tu, um pedaço de carne que não pertence a ninguém a não ser a Deus. Toma um pouco da minha beleza, do perfume da minha pele. Oferecem-to. Não será nem uma traição, nem uma jura; nem uma derrota, nem uma vitória.

Apenas duas mãos agarradas, como lábios que se apertam sem nunca se unir.


A tua embriaguez é tão doce que me estonteia. Respiras suavemente. Estás vivo. Gostaria de passar para o teu lado do mundo, de ver nos teus sonhos. Será que sonhas com um amor branco, frágil, distante, tão longe? Com uma infância, com um palácio perdido? Sei que lá não tenho lugar. que nenhum de nós lá terá lugar. Estás fechado como uma concha. E, no entanto, fácil te seria abrires-te, uma minúscula fenda por onde a vida se precipitaria. Adivinho o teu destino. Permanecerás na luz, serás celebrado, serás rico. O teu nome imenso como uma fortaleza irá esconder-nos da tua sombra. Irá esquecer-se o que aqui viste. esses instantes irão desaparecer. Até tu esquecerás a minha voz, o corpo que desejaste, os teus tremores, as tuas hesitações. 

Como eu gostaria de que algo conservasses disso. Que levasses contigo uma parte de mim. Que se transmitisse o meu país distante. Não uma vaga recordação, uma imagem, mas a energia de uma estrela, a sua vibração no escuro. Uma verdade. Sei que os homens são crianças que expulsam o seu desespero com a cólera, e o seu medo para o amor; ao vazio respondem construindo castelos e templos. Agarram-se a historietas, levam-nas à sua frente como estandartes; cada um faz sua uma história para se ligar à multidão que a partilha. São conquistados quando se lhes fala de batalhas, de reis, de elefantes e de seres maravilhosos; quando se lhes narra a felicidade que haverá para além da morte, a luz viva que presidiu ao seu nascimento, os anjos que giram à sua volta, os demónios que os ameaçam, e o amor, o amor, essa promessa de olvido e de saciedade. Fala-lhes de tudo isso e hão de amar-te; far-te-ão igual a um deus. Mas, pois que estás aqui encostado a mim, tu saberás, tu, um franco malcheiroso que o acaso trouxe para te pôr ao alcance das minhas mãos, saberás que tudo isso não passa de um véu perfumado que esconde a eterna dor da noite.


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O texto é um conjunto de excertos do belíssimo livro Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes de Mathias Énard (que nasceu em 1972, estudou persa e árabe, viveu largos períodos no Médio Oriente e que é professor de árabe na Universidade de Barcelona, cidade onde vive) e que e foi traduzido por Pedro Tamen para a D. Quixote. 


Este livro ganhou o Prémio Goncourt des Lycéens, 2010, e o Prémio do Livro em Poitou-Charentes, 2011. Fala da estadia de Miguel Ângelo (Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni) na Turquia, para idealizar a ponte de Constantinopla. E não vou dizer mais nada a não ser que o livro é maravilhosamente diferente das tretas que por aí abundam.

As imagens usadas para ilustrar o texto mostram partes da obra de Michelangelo (Pietà, David, os nus da tecto da Capela Sistina, a Sibilla Delfica).

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A música é, segundo leio no texto de apresentação no youtube: 


  • Turkish Music therapy / Hüseyni Sema: for Happiness and against fever by Cantemir *1673
  • Ottoman Turkish Healing/Sufi Music - Segah Peşrev - Osman Bey *1816 - against depressive disorder
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E porque a noite já vai longa despeço-me já e só espero que isto não esteja cheio de gralhas, seria uma mácula imperdoável no texto. 

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

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José Sócrates dá baile ao papagaio pouco inteligente que teima em entrevistá-lo na RTP 1 enquanto, na TVI, Marcelo se queixa das colonoscopias sem sedação com que Passos Coelho tem andado a fustigar a população - e eu pergunto: porque não trocar ao domingo à noite o José Rodrigues dos Santos com a Judite de Sousa? Só para ver no que dava.


Há papagaios bem ensinados, há os que aprendem coisas a metro, há os que gostam é de espanejar e dar nas vistas, há de todo o tipo.

O que os papagaios deveriam ter presente é que, embora falem imitando outros, não são outros: são apenas papagaios. E, assim sendo, aconselharia a mais elementar prudência que medissem bem com quem se metem.

É que podem imitar um gato, um porco, um galo, podem cantar os parabéns a você... mas não sei se conseguem sair por cima se se forem meter com um animal feroz.

Vejamos um papagaio de um tipo mais evoluído: Einstein the Parrot, com quem o The Pseudo-Writer poderia ter umas sessões de coaching caso, armado em fera, persista em atirar-se à jugular do comentador. É que, assim como assim, já que não vai conseguir fazer sangue, ao menos sempre pode entreter-nos fazendo umas habilidadezitas.


E mais: talvez o papagaio Einstein o ensine que não se diz ter a haver mas sim ter a ver




Já em relação a Judite de Sousa, agora que anda mais cheiinha, toda bem maquilhada, toda gira e de bela perna ao léu, sugeria que fosse fazer uma cura de sono para acalmar os nervos que apanha à segunda feira, sempre que atura o chato do Medina. Hoje, então, antes do meu marido ter tido um ataque de fúria com o Vítor Bento que estava à desgarrada com o Medina, vi-a mesmo em palpos de aranha para pôr alguma ordem na mesa. Coitada. Deve sair dali com a cabeça feita em água. Ficava umas duas semanitas a banhos com o seu gato e deixava o terreno para uma certa experiência.

Eu punha o Bruno Nogueira a fazer a primeira parte do programa do Professor, tipo peão de brega. E isto na esperança de que entretanto tivesse adquirido maior perícia e desenvolvido alguma capacidade de réplica face ao que abaixo vos mostro.

E a seguir avançava então o papagaio orelhudo. Sempre queria ver se chegava carregado de folhas de arquivo e se desatava a fazer barulho e a arreganhar o dente armado em tigrão. 'Tenho aqui uns papéis a dizer que se encontrou com o outro num quarto de hotel'. 'Pois olhe que não é o que se lia na imprensa por altura da vichyssoise'. A ver se, de cada vez que o Marcelo abrisse a boca, o interrompia com uma treta tirada de um papel qualquer. 




Ou então o Marcelo a entrevistar o Sócrates - também teria graça. Com o pequeno Marques Mendes a apanhar bolas.

Ou o papagaio Einstein a entrevistar o Láparo. De cada vez que o Láparo respondesse, o Einstein desatava a rir-se à porco.

Mas, enfim, isto já é o meu olho para o negócio a pensar em fazer subir as shares se fosse eu a mandar num canal televisivo.

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segunda-feira, abril 07, 2014

A autora de Um Jeito Manso e a sua impossível definição. Ela não sou eu, ela é outra.


No post abaixo já mostrei parte da reportagem fotográfica que fiz há uma semana quando fui com a família ver as exposições da Gulbenkian, nomeadamente a de Rui Chafes. Complementei o post com excertos do livro 'Entre o céu e a terra' da autoria do escultor.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, falo de outra coisa. Falo de retratos. Ou de auto-retratos.


Wild is the Wind




Sendo o Um Jeito Manso um blogue em que a autora não se apresenta de Cartão de Cidadão em punho, percebo a curiosidade que se manifesta quase todos os dias nos motores de busca e que trazem os intrigados até mim: 'Quem é a autora do blog Um Jeito Manso?'. Já um dia tentei prestar os esclarecimentos mínimos para que me conheçam qb, para que não sintam que me procuram em vão. Mas temo que não fiquem satisfeitos.

No meu perfil do google também fiquei sem saber o que escrever. Então escrevi muito pouco (já nem sei o quê, se calhar nada) e, para me ilustrar, coloquei uma fotografia que fiz ao rio a bater numa muralha desgastada, muito bonita, cheia de limos. Não sei bem porque a escolhi mas talvez seja porque é uma imagem que vive dentro de mim.

Vejo outros blogues em que as pessoas se apresentam de nome completo, fotografia, tudo. (E isso não é nada comparado com o que milhões de pessoas por todo o mundo fazem quando se expõem abertamente no facebook, mostrando-se no restaurante, com o cão, com o gato, a lamber o gelado, a contemplar o rio ao pôr do sol, ou talvez algumas, raras certamente, no sofá a ler). Embora não seja o meu estilo, quase admiro as pessoas que se sabem apresentar de forma tão directa, como que sabendo, de certeza absoluta, que se descrevem inequivocamente dizendo o nome, mostrando a fotografia e revelando o que lá dizem o mostram (que gostam dos livros tal e tal, que gostam as músicas tais e tais, etc). Eu não consigo. Gosto de uns quantos livros e de mais uns mil e dos que hei-se ainda descobrir, alguns dos quais ainda nem sequer foram escritos. Idem em relação às músicas, aos filmes, a tudo. E sobre o meu nome também já aqui confessei que acho que o meu nome me assenta como uma luva mas que os meus pais e a minha família me tratam pelo meu diminutivo e também me reconheço nessa forma carinhosa de tratamento, e uma amiga da minha mãe me trata por Jicas e também me reconheço e que os meus amorzinhos pequeninos me tratam por Tá e essa também sou eu.

Pois bem, depois de um sábado muito animado em família alargada, numa dupla festa de aniversário, brincadeiras, cantoria e muita alegria, o domingo foi de descanso in heaven. Banhos de sol, sesta, a música dos pássaros e insectos e várias leituras. Tão bom, tão tranquilo.

Um dos livros que li e que agora está aqui ao meu lado é Why it does not have to be in focus (modern photography explained) de Jackie Higgins da Thames & Hudson. Livro agradável de ler e que, como tantas vezes me acontece, me abre várias portas.

O primeiro capítulo é Portraits/Smile e vou partilhar convosco parte da introdução (em tradução livre).


O ser indefinido, paradoxal,
 uma mistura de seres
cuja vida se esbate na intersecção com um outro.
Nasce um novo ser, parte de um, parte de outro, um ser inexistente

['Marriage' de John Stekazer]

Esperamos que um auto-retrato seja um acto de introspecção, para, de certa forma, revelar a alma do artista. 

Da mesma forma, esperamos que um retrato exponha o carácter do retratado.

Contudo, as faces raramente reflectem o funcionamento interior das mentes. 

Mais do que isso, os estudos de psiquiatria sugerem que não existe isso do 'eu' único; o 'eu' é invariavelmente fracturado, multifacetado, fugaz e em mutação.

Consequentemente, como o historiador de arte Jean François Chevrier refere, 'Cada retrato, mesmo o mais simples e menos encenado, é o retrato de outro'. 


Muito se especulou para saber quem seria a mulher retratada.
Afinal este rosto não pertenceu nunca a ninguém, nunca existiu.
É uma mistura de Jane Fonda, Jacqueline Bisset, Diane Keaton, Brooke Shields e Meryl Streep

['Second beauty composite' de Nancy Burson]


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Revejo-me nestas ideias.

Mesmo que eu me quisesse aqui identificar de nada valeria. Quem sou eu?

Sou a que agora aqui vos escreve ou a que amanhã talvez escreva algo completamente diferente? Ou a que brinca no chão com crianças? A que vive e revive mil vezes no amor que tem aos seus?

Ou que caminha entre as flores, fotografando a sua silhueta impressa nestes doces caminhos?






Ou a que deita ao sol um corpo nu para que a pele sinta o calor afectuoso da natureza?

Ou a que se senta à sombra a ouvir os pássaros e a ler?

Ou a que se rodeia de poemas impressos nos muros, nos recantos?

Ou a que não limpa os bancos porque gosta de ver o rasto do tempo?

A que vê beleza na terra, nas folhas secas, nos sulcos da idade?





Ou a que se insurge contra os políticos medíocres ou que tem pena de criaturinhas invejosas? Ou a que se distrai falando de faits divers, princesas, ex-presidentes agora pintores, apresentadoras de televisão, escritores metidos a besta, gente sem história, gente com história ou, tantas vezes, de palermas de toda a espécie e feitio?


Lisboa numa manhã em que a primavera se apresentava cheia de disfarces e neblina


Ou a que anda pela beira do rio, perdida nas suas ideias, a fotografar a névoa, o levantar do voo das gaivotas, os veleiros elegantes e silenciosos, os gatos pensativos, a cidade magnífica oculta entre silêncios suaves e brancos?

Não. Não saberia como vos dizer: esta sou eu. Se o fizesse, estaria a enganar-vos porque eu não sou esta, eu sou outra.

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A música lá em cima é Wild is the Wind interpretada por Nina Simone

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Muito gostaria ainda de vos convidar a visitarem o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje tenho Al Berto dito por ele próprio. No centro da cidade, um grito. A beleza assume muitas formas.

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Relembro: se, entretanto, descerem um pouco mais poderão ver algumas das fotografias que fiz na exposição de Rui Chafes na Gulbenkian. Ver as peças lá é melhor mas, não podendo ir, talvez possam ficar, aqui, com uma ideia, tanto mais que acompanho as imagens com palavras do próprio escultor.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.


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domingo, abril 06, 2014

Rui Chafes 'Entre o céu e a terra', sentindo 'O Peso do Paraíso'




24. Tento sempre fazer esculturas que sejam como a presença de um felino na sombra, do qual só apercebemos o brilho fugaz dos seus olhos, para que João Miguel Fernandes Jorge as consiga ver.



26. Existe uma 'perfídia do objecto: ele observa, com uma alegria maligna, os nossos vãos esforços para o subjugar. Temos de arrancar o objecto ao seu contexto natural, temos de o libertar dos laços que o unem aos outros objectos para o tornar absoluto. Só poderá existir uma aura em torno dos objectos se, como queria Nietzsche, reconduzirmos o pensamento à vida para a aumentarmos até a tornar num absoluto. Não há razão nenhuma para não nos sentirmos também observados pelos objectos.A arte tem de ser uma declaração de amor. Tem de possuir, de cada vez que a visitamos, a emoção e o deslumbramento do primeiro olhar: a revelação, a emoção, a expectativa, a comunhão e a transformação, infinitamente.


42. Não é a escultura, o desenho, a pintura, a fotografia... é a alma. A arte é o duro trabalho da nossa alma. A história da alma de um artista é dura, difícil, por vezes desagrad´vel e custosa. Mas do lado de lá, do outro lado, onde se encontram todos os nossos demónios e onde já estamos para além de tudo, encontramos a única geometria possível, a mais cristalina, parecida com a que rege os astros que rodeiam a bela lua. Aí construímos flores de aço e observarmos, maravilhdos, a transprência da chuva velando as suas pétalas metálicas. É este o único realismo que me interessa.



43. Acredito na poesia, no seu poder único. Como Novalis, acredito que tudo é poesia, que a mais pequena flor representa um pensamento, a intuição pura de um instante, uma explosão gelada de verdade. O sentido poético (tal como o entendia Pier Paolo Pasolini) é o que nos permite agir sobre o mundo mediante uma deslocação, por vezes mínima, de sentido ou de ponto de vista. O sentido poétco é o que desloca o espectador para um ponto onde uma nova construção da realidade pode acontecer. O fim da poesia é estabelecer um desvio, é quebrar e desconstruir todos os códigos de comunicação existentes, alterar o mundo coo os homens o conhecem, abrir fissuras no espaço com a sua presença. A poesia não é outra linguagem, é, sobretudo, um outro olhr. Robert Bresson disse que não é necessário nem possível procurar a poesia, ela penetra pelas juntas, o que é preciso é saber recebê-la. Para isso, é necessário juntar o que está separado, desequilibrar para reequilibrar, pois não existe arte sem transformação.


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As fotografias mostram peças da exposição antológica 'O peso do paraíso' de Rui Chafes que pode ser vista no Centro de Arte Moderna e nos Jardins da Gulbenkian até 18 de Maio (que recomendo - e que os meus pimentinhas adoraram; nada disto, para eles, é estranho).


O texto acima é um conjunto aleatório de excertos do livro 'Entre o céu e a terra' de Rui Chafes da editora Documenta.


A música é  Majâz interpretada por Le Trio Joubran.


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'A inveja é uma reivindicação estéril e infeliz'. Pelo contrário, 'a gratidão constrói e reconstrói o mundo, dentro e fora de nós'. Mais uma boa crónica de José Tolentino Mendonça na Revista do Expresso


No post abaixo mostro as lindas obras que estão a sair dos pincéis de George W. Bush, agora que lhe deu para ser pintor. Ainda bem que nunca me deu para ter uma carreira política internacional, senão ainda corria  o risco de me ver retratada por ele.

A seguir a esse post tenho os piu-pius do Maçães e não há voz mais lúcida para falar do ground zero a que a política nacional chegou do que Pacheco Pereira.

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Mas isso é depois. Aqui, agora, a conversa é outra e é da boa (embora verse sobre um tema que não é bom). Se eu fosse imodesta diria que José Tolentino Mendonça me tira as palavras da boca. Assim, digo apenas que este homem sabe bastante da natureza humana.






Basta circular pela blogosfera para ver, volta e meia, aqui e ali, destilada em bílis e azedume aquilo de que o Padre-Poeta tão justamente fala na sua crónica deste sábado na Revista do Expresso: a inveja.


Diz ele que todos nós, em algum momento, incorremos nela. Não sendo eu perfeita, bem, bem longe disso, não posso dizer que nunca a senti em relação a outros. Mas, a ter isso acontecido, terá sido coisa tão esporádica e incipiente que, agora que aqui escrevo, não me lembro de nenhuma situação em concreto.

Mas conheço pessoas invejosas e penso que não é coisa bonita de se ver. Confesso que, uma ou outra vez, já me senti objecto de inveja e sempre achei que quem me invejava não devia estar bem da cabeça porque não me senti merecedora de tal sentimento. Várias vezes algumas pessoas vieram avisar-me contra alguns outros, dizendo que eu deveria ter cuidado com certas pessoas  porque me invejavam de uma forma tal que tudo fariam para me prejudicar.

Nunca liguei. Nem nunca passei a olhar essas pessoas com irritação ou mágoa. Sinto até uma certa pena. No entanto, não gosto de me dar com pessoas invejosas, tal como não gosto de me dar com pessoas egoístas, mesquinhas ou mentirosas. Tento manter-me afastada de pessoas assim, tóxicas, com quem não se consegue estabelecer uma relação de verdadeira amizade, onde uma empatia cúmplice (e desculpem a redundância porque a empatia, ao pressupor uma partilha emocional, já significa cumplicidade) nunca consegue edificar-se. Mas não lhes quero mal, apenas tento que a sua maneira de ser não me incomode e, nestas coisas, nada melhor do que manter alguma distância - porque 'olhos que não vêem, coração que não sente'.


Uma pessoa invejosa corrói-se a si própria e corrói o ambiente que a cerca. Penso que ser-se ou não invejoso faz parte do ADN de cada um porque tenho visto cenas de inveja completamente absurdas, pessoas que invejam banalidades ou que invejam alguém com base em motivos inexistentes. Geralmente o que vejo em pessoas assim é uma pobreza de espírito, na verdade. Poderia tentar-se explicar a um invejoso que não tem motivos para o ser ou que está a perder o melhor da sua própria vida mas o facto é que as pessoas são o que são e é difícil tentar meter alguma racionalidade na cabeça de quem não consegue ter comportamentos lógicos nem controlar as emoções.


A crónica de José Tolentino Mendonça inserida na rubrica 'que coisa são as nuvens' na Revista do Expresso é, pois, sobre isto: A Inveja


Transcrevo alguns excertos:


Estranho sentimento, a inveja. E, contudo, tão infiltrado nas relações humanas, tão abrasivo da vida interior, tão capaz de fazer em cacos ambientes (familiares, de trabalho, de amizade). 

Kierkegaard explicava a inveja como uma admiração transtornada, e com isso toca na ferida.


De facto, aquele que inveja reveste o seu objecto de uma admiração que tem pouco a ver com a realidade. Imagina que aquilo que o outro possui (inteligência, sucesso, beleza, bens, o que seja) lhe confere uma espécie de omnipotência, o coloca a salvo da fadiga de viver, da sua turbulência e da sua dor, coisas inteiramente falsas. A desproporcionada felicidade que sonhamos que há nos outros obsidia-nos, e essa admiração adoecida é experimentada como uma perda pessoal e uma injustiça, numa modalidade tão avassaladora que suscita uma ânsia irreversível de destruição, de cancelamento do outro.


A inveja é o sentimento disruptivo em relação a outra pessoa que possui ou desfruta algo de desejável - e o impulso do invejoso é eliminar ou estragar o que pensa ser a fonte daquela alegria.

Cada um traz em si um quinhão de falhas de amor, e a questão é como as reconhece, integra e transfigura.

O contrário da inveja é a gratidão, e esta está intimamente ligada à confiança, no bem que se desenvolve nos outros, no bem que o outro é em si mesmo (independentemente de mim) e no bem que recebo dele. 

A experiência de gratificação que o outro constitui torna-se então uma escola de generosidade: passamos a ser capazes de compartilhar com os outros o nosso dom. 

A inveja é uma reivindicação estéril e infeliz. A gratidão constrói e reconstrói o mundo, dentro e fora de nós.


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Palavras acertadas as de José Tolentino de Mendonça. Gosto e ler o que ele escreve. É como se houvesse uma luz a iluminar as palavras que dão corpo aos seus pensamentos.

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As imagens são citações colhidas por aí mas, sobretudo por aqui.

A música é Gravediggress das CocoRosie e sobre o vídeo dirigido por Bianca Casady, transcrevo parte do texto que o acompanha: 

Shot in Southern France, spanning several different seasons, The Gravediggress emerges from the imagination of the clown. Played and danced by Biño Sauitzvy, The Clown oscillates between young and old, innocent and deranged. 

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The time you have





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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo!

O que eu me fartava de rir se o Cavaco, quando nos virmos livres dele em Belém, também se tornasse pintor. Às tantas, podíamos ir já mandando Sua Excelência para os EUA para ir fazendo um workshop com o George W. Bush, essa inteligente e dotada criatura. (Aquele Bush nunca atinou. Ele é retratos da Merkel, do Putin, dessa malta toda. Mas ou aquilo são caricaturas ou ele pinta quando está com os copos]


Depois de, no post abaixo, ter deixado um delicioso excerto relativo aos piu-pius do Maçanetas, aqui, agora, falo de outro cromo.

Ainda no Público, vejo que o totó do Bush, já não podendo andar a invadir países e a brincar aos cowboys, lhe deu para ser pintor. E que jeitinho ele tem.

Transcrevo o início do artigo:


O antigo Presidente norte-americano George W. Bush dedicou-se à pintura depois de sair da Casa Branca, com tendência para o retrato. 





Na sua última exposição, revela 24 retratos de líderes mundiais com os quais conviveu, entre os quais os ex-Presidentes franceses Nicolas Sarkozy e Jacques Chirac; a chanceler alemã, Angela Merkel; e Vladimir Putin – a quem após o primeiro encontro disse ter olhado profundamente nos olhos e ter visto a sua alma.



A exposição foi inaugurada na sexta-feira na sua biblioteca presidencial, em Dallas, no Texas, e estará patente até 3 de Junho.



Por isso, meus Caros Leitores, se forem de visita a Dallas, Texas, e se forem malucos, primos do Maçães ou simplesmente apreciadores de coisas meio parvas, não deixem de ir visitar a exposição do amigo do cherne. Deve ser divertida.

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