domingo, abril 06, 2014

"Os piu-piu de Maçães" - mais um texto de antologia de Pacheco Pereira no Público


Todo o artigo é imperdível mas, para abrir o apetite a quem o não leu, aqui transcrevo uma parte:


Os tweets de um secretário de Estado chamado Bruno Maçães têm sido alvo de chacota generalizada na Internet, mas não é o seu contributo para o anedotário destes dias de lixo que é relevante. Eles significam muitas outras coisas, bem mais graves do que as inanidades que escreve: vão fundo ao pensamento débil de quem nos governa e mostram a perigosidade social de meia dúzia de ideias extremistas na mão de quem tem poder e que, sem mudarem nada, estragam o país por muitos anos.

Que ele canta como um pássaro de curtos trinados, que é o que significa tweets, isso é verdade. Mas que dificilmente se pode encontrar melhor exemplo da gigantesca arrogância e presunção de um conjunto de conselheiros de Passos Coelho, em que tudo transpira a uma gigantesca auto-suficiência e assertividade, associada a uma profunda ignorância do que é Portugal, a sua história e as suas pessoas, o povo, nós todos, o único “nós” que tem sentido.

Como todos os revolucionários são adâmicos, acham que o mundo começou com eles e vai acabar com eles, seja como paladinos de um combate mundial contra o Mal, quer como heróis consumidos num Armagedão de perversidade alheia, de preguiça colectiva, de pieguice generalizada, da maus costumes despesistas, de hábitos de vida de rico nuns miseráveis que acham que têm direitos e não sabem economia, ou seja, nas chamas do socialismo, da coligação do Papa Francisco com Obama, com Cavaco, com o Tribunal Constitucional, com os “socráticos” e com os ressabiados “velhos do Restelo” do PSD e CDS que só pensam nas suas pensões milionárias. Essa junção pestífera de demónios representa as mil cabeças do Diabo. Sim, eles viram o Exorcista em pequenos e têm medo do Diabo.

A metade de Passos Coelho que não foi feita por Relvas foi feita por homens como Maçães, combinando na mesma criação a esperteza aparelhística e o mundo das negociatas e das cunhas, com as altas esferas académicas sempre dispostas a fazerem de dr. Strangelove. 


Ou seja, o dr. sem ser dr., junto com o Professor Doutor. Infelizmente, a história tem muitos exemplos destes e dão sempre torto. Mas eles nunca querem saber de história.

Num desses trinados, em inglês como convém, Maçães escreve que “todos os dias lhe lembram o muito que os 35 anos de hegemonia socialista em Portugal fizeram de mal ao país. Felizmente podemos hoje dizer que esses dias acabaram”. É o equivalente ao “I think I saw a pussycat”, sendo que o “pussycat” que quer comer o passarinho é o socialismo, “I did, I did”, ele viu 35 anos de “pussycat”.



O artigo na íntegra pode ser lido aqui. Grande artigo, grande Pacheco Pereira.

*

sábado, abril 05, 2014

Jorge Fallorca foi para longe do mundo. Talvez uma sombra o aguardasse. Talvez um trilho se tivesse escoado sob os seus pés. Talvez tenha ido para onde ainda se ouvem as correrias e os gritos da infância.








Hoje, enquanto estava a almoçar, fiquei durante um bocado sozinha e aproveitei para publicar os comentários deste blogue e, nessa altura, vi, na galeria de blogues que tenho aqui ao lado, que a Ana Cristina Leonardo tinha uma notícia muito triste no seu Meditação na Pastelaria. Jorge Fallorca tinha morrido. 


Ocorreu-me que ela deveria estar muito triste com essa notícia. Já lá vi algumas trocas de comentários e havia ternura e companheirismo entre eles. Para ele, ela era a Leoparda. Agora quis deixar-lhe uma bola de berlim mas não consigo entrar na caixa dos comentários. Gostava de lhe dizer que sinto muito que ela tenha perdido este seu amigo. Custa muito perder um amigo. De cada vez que se perde um amigo, perdem-se alguns esteios que nos seguram em tempos conturbados. Neste post ela não escreveu nada, limitou-se a publicar a fotografia dele e o ano do nascimento e o da morte. Não deve ter conseguido escrever nada ou sentiu que qualquer palavra ficaria aquém do que sentia. Percebo muito bem isso.

Fiquei eu também muito triste. Aliás, fiquei mesmo muito impressionada.



Às vezes acontecem coisas comigo que me deixam muito surpreendida e, de certa forma, algo inquieta. Coincidências, certamente. Nem gosto de falar nisto porque estas coincidências não têm explicação e eu gosto de perceber o que me acontece.

Na quinta-feira, por várias vezes, me veio à cabeça o que seria feito dele. Estava a trabalhar e isto não me saía da ideia. Ocorreu-me que há já algum tempo não via actualizações no seu O Cheiro dos Livros
Depois, quando cheguei a casa, fui ali, à lista dos blogues que tenho aqui no UJM e que está organizada descendentemente em relação às actualizações e confirmei que há já algum tempo ele não o actualizava.
Veio-me aquela inquietação de quando não sei nada de alguém por quem ganhei estima e aquela estranheza por, a despropósito, passar esta sombra no meu horizonte. 
Por isso, hoje a notícia deixou-me ainda mais transida. 

É que uma pessoa, apesar de estar fisicamente longe das pessoas e de não as conhecer pessoalmente, parece que lhes ganha afecto. 

Novata na blogosfera e pouco conhecedora dos seus habitantes, foi com surpresa que um dia reparei que no Um Jeito Manso tinha muitas visitas a partir de um certo blogue de que nunca tinha ouvido falar e cujo endereço era a junção de nem sempre a lápis. Fui ver e reparei que era o blogue do Jorge Fallorca e que as visitas resultavam de ele lá ter colocado um link para o meu. Deitei-me à descoberta, li e fui lendo por ali abaixo e tanto gostei que logo o coloquei na minha galeria dos Amigos e Ilustres Desconhecidos


De vez em quando, esporadicamente, recebia um comentário seu e outras vezes era eu que lá deixava um comentário. Enternecia-me especialmente quando ele, orgulhoso, mostrava os bebés, fofos, lindos.

A última vez que lá deixei um comentário, ainda não há dois meses, mostrava-se ele entre a matriarca, a 'bisa', e os dois bebés que dormiam, uma ternura tocante.

Em Outubro passado descobri um livro seu, Longe do Mundo, numa pequena livraria e foi como se tivesse descoberto uma parte de alguém de quem me estava a habituar a estimar. Escrevi, então, um post sobre isso, um post que escrevi com muito apreço e carinho. Tinha lido o livro e estava muito agradada com a sua escrita e tocada pela vida que ele ali tinha deixado impressa.

Dei a esse post o seguinte título:

"Logo vais ter as mãos suspensas no luar: a memória da tarde", "O vento suspende os pássaros no ar", e outras palavras longe do mundo.

Estou a escrever isto e estou mesmo triste. Há pouco, não querendo ainda acreditar, fui ao google e li por aí que talvez a sua morte não fosse inesperada, estava doente. 

Mas fico com muita pena. Era novo, escrevia tão bem, era uma pessoa tão delicada, tão simpática, tão próximo da simplicidade da vida. Custa-me muito saber que Jorge Fallorca morreu. 


Evito falar de mortes por aqui. Quando morre alguém conhecido, a internet enche-se de RIP, de parêntesis com a data do nascimento e a da morte, e eu não digo nada, não gosto de me aproximar da morte nem que apenas em palavras. Mas há partidas que me tocam especialmente e de que não consigo deixar de falar.

Aqui há tempos morreu o Manuel Medeiros a quem eu me tinha afeiçoado e que me tinha incluído na sua roda alargada de amizades e eu, quando soube, fiquei também tristíssima. Tempos antes tinha escrito um texto em que fingia que estava mal e eu assustei-me e transmiti-lhe a minha preocupação (eu e o Onésimo). Dois dias depois, rindo-se e desculpando-se, escreveu um texto delicioso, explicando o que se passava. Um fino sentido de humor e uma delicadeza atenta. Mas pouco tempo depois foi-se mesmo embora o Livreiro Velho e eu fiquei sem esse amigo recente.

Mas os seus blogues continuaram aqui na minha galeria e ainda bem porque continuam bem vivos.

Assim acontecerá com o blogue de Jorge Fallorca a que eu, aqui na minha galeria, dei o nome de Andando por aí com música e palavras. Vou fazer de conta que foi só ali - talvez sentar-se debaixo da figueira, esperando que se encha de perfumada folhagem e cantarolante passarada - e que já vem.


Recordo hoje algumas das suas belas palavras que transcrevi no post acima referido e que hoje me parecem tão tristemente apropriadas.


A casa extingue-se na tarde. 

Por momentos tenho a ilusão do silêncio,
e apenas o estalido dos salgueiros me lembra que estou vivo.

Que uma sombra me aguarda.

Quando tudo retoma o seu lugar, um trilho escoou-se sob os meus pés.

...

Tacteio o ar para esquecer a aridez do tempo.

Nos corredores ainda se ouvem as correrias e os gritos da infância,

mas tudo não passa de uma ilusão para adiar a noite.





Tomara que a família saiba a maneira de atenuar a tristeza pela sua partida.


**   **

A música acima é Vita Brevis de Rodrigo Leão. As imagens são de Kim Keever


**   **

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom fim de semana.

sexta-feira, abril 04, 2014

Rainha Isabel visita o Papa Francisco no Vaticano e leva-lhe ovos, cerveja, chutney, whisky, sabonete e outros produtos regionais. Um cabaz de Natal em Abril.


No post a seguir a este falo de Manuela Ferreira Leite a dar uma bela bofetada no cherne. Claro que estava de luvas (brancas, por sinal) senão ficaria com as mãos a cheirar a pexum (pexum ou pechum?, não sei - procurei nos dicionários e não encontrei; na minha terra é peixe pouco fresco que já cheira mal).

Mais abaixo ainda, tenho uma coisa que todos vós gostarieis que vos acontecesse quando andardes às compras no supermercado [espero que os tempos verbais estejam correctamente usados e a conjugar-se como deve ser; quando usei vós em vez de vocês meti-me por um caminho demais estreito para a minha perícia gramatical; mas, se estiver mal, por favor corrijam-me].





*

Mas aqui, agora, a conversa é outra. Falo da Rainha de Inglaterra e do Papa Francisco no Vaticano. A Rainha foi conhecer mais um Papa. Salvo erro é o quinto ou sexto que conhece.


A Rainha Isabel e o Papa Francisco no Vaticano
(Philip, o Príncipe, discretamente afastado)

Notou-se a simpatia mútua, aquela simpatia amena tão característica das pessoas de alguma idade que se conhecem de longe, se admiram e que, finalmente, se conhecem pessoalmente.

A rainha, com 87 anos, estava elegante, com aquela toilette que lhe é tão típica, um casaco comprido sem gola, um belo chapéu de abas com flores, tudo nuns tons azul alfazema e lilás, cores claras e luminosas que a valorizam.

O Papa olhava-a com carinho, talvez com condescendência.

Mas não é por nada disso que estou aqui a falar. A questão é fiquei admirada com o presente que ela lhe levou, dizendo que era especialmente para ele (it is for you personally): uma espécie de cabaz de Natal, com ovos, cerveja, compota, e até um sabonete. 18 produtos ao todo. Tudo coisas regionais, explicou a família real a Jorge Bergoglio. 

Isto sim são presentes
[Repare-se no ar apreensivo da Rainha.
São habituais as boutades de Philip
e ela deveria temer que o marido se saísse com algum disparate]

Achei graça. Achei graça ver o Príncipe Filipe, 92 vigorosos anos, a pegar numa garrafa, a gabar o produto. Quanta simplicidade nisto.

Ocorreu-me que Isabel e o marido e os secretários pessoais devem  ter tido aquela dúvida que uma pessoa tem quando tem que oferecer um presente a alguém que não tem falta de nada.

E, muito justamente, optaram pela simplicidade.

Nada de ostentações, coisas de prata, artefactos sem utilidade que seriam enfiados num armazém ou num expositor, e que seriam para o Vaticano e não para o Papa.

Pensando na frugalidade de Francisco, devem ter pensado que ele iria apreciar isto e, pela expressão do Papa, acho que acertaram.

Na minha família também temos muito este hábito: oferecer coisas deste tipo, cestos com produtos alimentares artesanais ou gourmet ou com alguma característica mais ou menos especial.

Por exemplo, os meus filhos volta e meia, não sabendo o que nos oferecer e não sendo nós capazes de os ajudar, oferecem-nos coisas boas de comida, tostas com sementes, massas italianas boas, patés saborosos, compotas apuradinhas, chocolates suculentos, coisas assim.

E aos meus pais também: oferecem-lhes bolachinhas diferentes, doces, bolinhos, bombons.

E eu aos meus filhos também. Chego a dar-lhes, a par de roupa e livros e coisas assim, garrafas de azeite.

Eu própria e o meu marido cada vez parece que estamos mais gulosos. Acho que são os meus filhos, com as coisas que nos dão, que nos habituam mal. Agora, quando vamos os dois ao supermercado, vamos escolher mel de zonas de rosmaninho, tostinhas gourmet, compota de mirtilo e arando, queijos diferentes, bons, coisas do género. Já me tenho lembrado que isto, se calhar, significa que estamos a ficar velhos. Sempre ouvi dizer que os velhos se tornam gulosos. Lembro-me da minha avó dizer, ternurenta, para o meu avô que adorava doces: é doce, é bom, não é? E ele ria-se, passando a língua pelos lábios, dando-se ares de lambão.

Portanto, às tantas a esta hora está Jorge Bergoglio, depois da oração da noite, a barrar tostinhas com o chutney - e isto se não estiver a dar um golinho de whisky, o pecador.





April 3, 2014 Queen Elizabeth met Pope Francis for first time and gave the bemused pontiff culinary delights from the royal estates, including a dozen eggs and a bottle of whisky.



**  **  **

A música lá em cima era Flower duet - C & Elina Garanca (Lakmé de Delibes)


**  **  **


Próximo Futuro/Next Future
Exposição no edifício da fundação Gulbenkian

E assim, uma vez mais, chego a esta hora já incapaz de avançar para a reportagem sobre a ida às exposições da Gulbenkian no fim de semana passado.

Já nem sei o que vos diga, já parece mal andar a prometer e não cumprir.

Digo apenas que uma ida à Gulbenkian é sempre tempo bem empregue. Seja pelas exposições, seja pelos jardins, seja pelo restaurante/cafetaria do CAM, vale sempre a pena.

Há sempre matéria que fará as delícias de cada um (e, ao falar em delícias, não me refiro, especificamente, ao cavalheiro aqui ao lado)

Desta vez não almoçámos lá mas, claro, lanchámos.

Ainda parte da tripulação estava a abastecer-se na livraria, já os miúdos estavam ao balcão a pedir queques de chocolate. Ainda fui à pressa a ver se comiam primeiro iogurtes mas já não cheguei a tempo, o avô já lhes tinha feito a vontade: queques de chocolate e bongos.


E há os lagos, as esculturas, os patos e, agora, até o grande  rinoceronte.

E esplanadas e namorados e crianças e aviões no céu a caminho do aeroporto. E há as recordações gravadas em cada recanto e há as sombras e o sol e os reflexos e a vida que se vai desdobrando de geração em geração.

O tempo passando e a Gulbenkian permanecendo. Um marco na cidade. Um marco na minha vida. 




****


Relembro. Descendo um pouco mais encontrarão a Drª Manuela Ferreira Leite, provavelmente a desfazer-se da luva branca que usou para dar um valente bofetão no cherne. Um pouco mais abaixo encontrarão uma cena imprevista passada num supermercado inglês.


****

Resta-me, por agora, desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira! 
Estamos quase lá, no fim de semana, tão bom.

____________

Manuela Ferreira Leite na TVI 24 diz que a frase de Durão Barroso na entrevista ao Expresso e à SIC foi infeliz pois até parece que ele pensa que, quem anda na política, apenas se move por interesses pessoais. Tumba! Ora toma lá uma bofetada de luva branca, ó cherne mal cheiroso!


No post abaixo mostrei uma coisa incrível e que só vista: uma surpresa no supermercado que eu não me importava nada que me acontecesse na próxima vez que for às compras.

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, falo de Manuela Ferreira Leite.
Estive a vê-la na TVI 24 com o educado e simpático Paulo Magalhães.




Eu juntava-me com Manuela Ferreira Leite,
Ana Lourenço, Ana Gomes, Bagão Félix,
Adriano Moreira e tantos outros, e fazíamos uma espera
aos chernes, barítonos, pinóquios, papagaios
e outros palhaços
- e o que fazíamos a seguir nem vos digo nem vos conto

Ó mulher combativa, ó mulher valente, ó mulher destemida!

Sobre aquela estupidez, deselegante e pérfida, de Durão Barroso, na entrevista ao Expresso e à SIC, dizer que ela e Bagão Félix eram daquelas pessoas reformadas da classe média-alta que tinham perdido qualidade de vida e que era isso que os tinha levado a assinar o Manifesto a favor da Reestruturação da Dívida, diz Manuela Ferreira Leite que, dizendo isso, até parece que ele, andando há tantos anos na política, acha que quem o faz apenas se move por interesses pessoais. 

Boa! Ele que enfie o garruço!

Que enfie que lhe ficará a matar - francamente: logo ele que apenas se move por ambições pessoais, que não se importou de se deitar no chão para o Bush lhe limpar os pés em cima, tudo a troco de umas pancadinhas nas costas e de um lugar longe de Portugal e que, assim que teve possibilidade, largou o País para ir satisfazer o seu ego de cherne amorfo. Há gente que não se enxerga, caraças.

É que nem para mordomo da Merkel Durão Barroso serve.


E, sobre esta novidade de os seus correlegionários do PSD/Governo andarem agora a falar de impostos, diz Manuela Ferreira Leite que não consegue dizer muito dado que a conversa a semana passada era que seriam precisos mais cortes nos ordenados e nas pensões, que não se percebe como, de repente, no prazo de uma semana, e vinda do nada, a conversa passou a ser a oposta - mas que fica contente que se comecem a equacionar alternativas. 

Paulo Magalhães
tem verdadeiro prazer em falar com Manuela Ferreira Leite

(vê-se que a admira)


Boa, uma vez mais.


Nunca eu pensei estar aqui a dar razão e a identificar-me desta maneira com ela - mas estou. Ela, tal como eu, mostra um total desprezo por esta gentinha desqualificada que nos desgoverna, que tudo aceita servilmente, que tudo faz e desfaz para agradar aos 'mercados' e para bajular o aparelho do partido. 

A forma abjecta e primária como agora começam a aparecer milhões e milhões para serem postos no terreno na altura das eleições, como usam o engodo da baixa de impostos, ao mesmo tempo que continuam a ameaçar com o fantasma da crise e da austeridade - como se fossemos burros comandados a toque de chicote e cenoura - é difícil de suportar.

Pelo menos é difícil de suportar por gente que preze a dignidade.

Estamos no terreno do carácter, da ética, da moral - e a gentinha que nos desgoverna e a respectiva corte não sabe o que isso é.


*

Relembro: sobre o funiculi, funiculà no supermercado, é favor descerem até ao post seguinte.

___________________________

quinta-feira, abril 03, 2014

E se na próxima vez que for ao supermercado alguns empregados e clientes desatarem a cantar o Funiculì, Funiculà?


Num supermercado em Londres, uma marca de produtos alimentares italianos resolveu surpreender os clientes: cinco cantores de opera disfarçados de empregados ou de clientes, do nada, sem aviso prévio, desataram a cantar o clássico Funiculì, Funiculà.

O espanto foi geral. Uma coisa arrebatadora. 

Foi um Leitor que, uma vez mais me enviou este filme e eu aqui digo o que lhe disse a ele: tomara que a mim me acontecesse uma coisa assim, ia adorar, acho que ficaria arrepiada até à medula. 

Mas agora que estou a escrever lembro-me que uma vez, num grande jantar em que participei e que decorreu no Museu do Azulejo, houve um momento quase imprevisto. Sabíamos que ia haver um momento de canto e esperávamos uma coisa mais convencional. Contudo, a coisa foi um pouco diferente: um casal de jovens cantores cantou ópera, andando entre as mesas, fazendo jogos de sedução com os convidados, encenando cenas de ciúmes entre eles, uma coisa bem divertida. 

Aqui vos deixo com este momento de surpresa e alegria.



Sacla' Stage Shopera in London Foodhall


______________________________________________________________________________

Carolina de Mónaco vai ao Baile da Rosa de ténis debaixo do vestido de noite. E de bengala. Se fosse a mana Stéphanie a aparecer assim, a gente não estranhava. Agora a Carolina...? //// E, fazendo a agulha para um outro mundo, ofereço-vos um 'amuse-bouche': Rui Chafes no CAM (Gulbenkian)


No post abaixo já mostrei o vídeo que está nas bocas do mundo: o que foi projectado no tempo de antena do PS para o Dia das Mentiras, demostrando factualmente o patranheiro que tem vindo a revelar-se o barítono frustrado Passos-Láparo.

Ou seja, para constatarem as mentiras e outros embustes do gang que nos desgoverna, queiram, por favor, descer até ao post seguinte.

Mas aqui, agora, a conversa é outra. Façam o favor de se aperaltarem que vamos entrar na Sala das Estrelas. A preceito, se faz favor.





Todos os anos se repete o glamour. A família real monegasca recebe os convidados para o Baile da Rosa, um baile de caridade. Pagam 800 euros pelo ingresso, verba destinada à Princess Grace Foundation.

No entanto, a bem dizer, ninguém pensa muito no assunto da caridade. O baile é o momento por execelência para se ver em que param as modas - a todos os níveis. Os olhos convergem sobre as princesas, as câmaras estão a postos, os editores das revistas do coração aguardam o grande momento.. Estarão elas sorridentes ou, sabidos os choques de personalidades, revelarão mal estar, frieza ? O que vão vestir? Stéphanie vai ou zangou-se de vez com a mana? Vai algum dos namorados? A bela (e sonsa) Charlene vai arrastar-se com ar distante ou vai dar um ar de sua graça?

Pois bem. No passado dia 29 de Março decorreu mais uma edição do badalado Baile da Rosa e é disso que eu hoje, qual Pipoca mais Doce, aqui vou falar.

A elegância foi a de sempre. No entanto, Stéphanie desta vez não compareceu. O afastamento é cada vez mais um dado oficial. Andrea também não foi.

Charlotte, a bela, estava linda embora o vestido não mostrasse a sua elegância.

Talvez não seja como a Carolina Patrocínio que, ao fim de seis dias, já não tem rasto de gravidez e se apresenta com cintura estreita e barriga lisa. 

Talvez a bela Charlotte ainda tenha um pouco de barriguinha e tenha tentado disfarçar com o vestido solto.


Mas a beleza é muita, exuberante: herdou os traços perfeitos da mãe e também do pai.

O vestido, em cinza-gelo, era Chanel Couture.

Beatrice e Pierre
Esteve divertida e fartou-se de dançar ao som de Mika.

Quem surpreendeu foi Charlene. Depois de ter sido fotografada há pouco tempo toda dengosa com um outro, eis que no Baile se apresentou sorridente, vestida com um requintado Akris azul-escuro com detalhes pretos, encostada ao mulherengo Alberto, e, num dado momento, até lhe passou o braço à volta do pescoço.

Pierre lá estava com a sua bela Beatrice Borromeo, elegante, suave como um pêssego reluzente, vestida com Armani Privé, uma verdadeira princesa.


De resto, a surpresa da noite foi mesmo  Carolina de Mónaco. Debaixo do vestido Chanel estava de ténis. Claro que os ténis não eram uns ténis quaisquer: eram Karl (Lagerfeld) mas, valham-me todos os santinhos, eram uns ténis! E avançava lentamente e de bengala!


Se fosse a Lady Gaga isto podia fazer parte do modelo. Mas não.

A questão era afinal mais comezinha. Carolina é humana, apenas isso. Tinha sido operada a um joelho e, portanto, não podia usar sapatos apertados ou altos. 


Sei bem o que isso é. Durante um mês ou dois andei de havaianas ou outras chinelinhas, sandálias, sabrinas e por aí. Toda a gente olhava para mim com um sorriso indulgente. Eu, sempre de saltos, naqueles preparos. Calhou no verão, menos mal. Ainda agora, ao fim de semana, uso maioritariamente ténis ou outros sapatos confortáveis. Foi um hábito bom que veio com a operação.

É, pois, de louvar a descontração e o estoicismo de Carolina. Provavelmente estava com o joelho inchado, provavelmente estava a custar-lhe imenso estar de pé e, ainda assim, ali esteve, a sorrir e a deixar-se fotografar.

Não é nada de mais, é certo. Pelo mundo fora, milhões de mulheres têm dores e fome e mantêm-se de pé para tentarem manter-se vivas. Mas não é isso.

A questão é que Carolina foi 'vendida' desde que nasceu como o bebé perfeito, a menina perfeita, a noiva perfeita, a mulher perfeita, a mãe perfeita, a filha perfeita, a órfã perfeita, a viúva perfeita, e, com esta imagem, mostra bem que, mais do que perfeita, ela é humana. 

É certo que desde há uns anos a imagem das princesas tem sido dessacralizada, já não é possível manter aquela etérea imagem sempre tão deificada pela imprensa cor de rosa. Mas, ainda assim, pelo inesperado da imagem, pode dizer-se que, apesar de não ser pelos melhores motivos, Carolina continuou a congregar as maiores atenções.


***

A música é Grace Kelly interpretada por Mika a quem coube animar a noite no Baile da Rosa 2014.


*

Pernas suspensas com botas
Rui Chafes no CAM
Pois é. 

Era hoje que eu ia falar de Rui Chafes, João Tabarra, Pieter Hugo na Gulbenkian.


Até um Leitor me enviou fotografias da exposição do escultor no CAM e uma entrevista de Rui Chafes ao Público na qual ele diz que não sabe o que faz (- mas as fotografias que aqui tenho são minhas). 

Mas, uma vez mais, ponho-me a escrever sobre faits divers e o tempo passa e eu começo a bocejar e ando cansada e como não curo as constipações e está frio ou os miúdos pegam-me ou é de trabalhar num sítio sem janelas ou sei lá o que é, estou um bocado mal da garganta, a modos que a sentir-me, outra vez, meio constipada, e tenho mil reuniões, pegam-se umas às outras, e saio tarde, chego a casa às horas a que meio mundo já acabou de jantar e está na sala a descansar, e não consigo tempo para responder a mails ou comentários, não sei para que lado me virar, e esta semana até já tive uma festa de anos, e já fui fazer parte do turno da tarde a fazer baby sitting a um dos miúdos que estava doente, e nada disso é coisa demais mas o certo é que tudo junto faz com que chegue a esta hora e já não consiga dar uma para a caixa. Se calhar, se o tempo estivesse bom, talvez eu conseguisse escrever aqui até às duas da manhã fresca e inspirada mas, assim, o facto é que não consigo.

Uma bola sentada ao lado da minha filha
A bola é da autoria de Rui Chafes
A minha filha é de minha co-autoria
Eu queria dizer-vos hoje que as peças de Rui Chafes não são nada em concreto mas que eu gosto delas e os miúdos adoraram, andavam de volta, riam, chamavam a atenção uns aos outros e eu também gostei, deve ser o meu lado infantil. Gosto de coisas que não são nada ou que aparecem em lugares inesperados porque, se reproduzirem coisas a sério e em situações previsíveis, mais vale ver os originais e, por isso, gosto de ver coisas que não existem em mais lado nenhum, só na cabeça doida dos artistas.

Mas talvez fale disso amanhã. Se conseguir. Se não me puser a falar de outras coisas antes.

Agora tenho que me ir deitar. Estou cheia de sono e amanhã tenho a agenda preenchida de manhã até ao fim do dia, entre reuniões e conference calls, vai seu uma estopada das valentes; e nem sei se vou conseguir almoçar.



****

Recordo: o vídeo do PS passado na televisão no Dia das Mentiras e onde se pode ver o mais trapaceiro dos trapaceiros, o mais perigoso dos perigosos, é já a seguir.


****

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira.


Vídeo do PS com as mentiras de Passos Coelho - tempo de antena na RTP do Partido Socialista no Dia das Mentiras sobre Passos Coelho, aquele para quem a palavra nada vale. O PS de parabéns pela oportunidade e clareza da denúncia..


Passou na RTP no Dia das Mentiras e parece que foi líder de audiências na RTP - é uma compilação das mentiras, dos logros, dos embustes que estiveram na base da eleição de Passos Coelho e Paulo Portas e que têm sido a sua base de actuação enquanto Governo.



Os números provam-no e os portugueses saem-no bem: nunca, no Portugal democrático, em tão pouco tempo, se tinha levado a cabo tão brutal devastação. Fazendo o oposto do que dizia propor-se fazer, o líder do PSD tem vindo a mostrar-se uma figura sinistra de quem ninguém se esquecerá no momento de votar.

O PS de vez em quando acerta na mouche e ter preparado este best of com as patranhas de Passos Coelho para difundir no Dia das Mentiras foi de mestre. E o vídeo é tanto mais claro quanto é ilustrado com gráficos bem explícitos e comentários objectivos e claros.

Vá lá... o PS de vez em quando acerta. Está de parabéns.


Este vídeo, relativo às eleições europeias e a apelar ao voto no próximo dia 25 de Maio, é uma verdadeira peça de antologia e é um bom resumo da desgraça que este Governo tem causado a Portugal.





*


Não sei quem é o autor da fotografia. Foi-me enviada por mail por um Leitor a quem agradeço.

*

quarta-feira, abril 02, 2014

Ainda os desenhadores de letras - agora em português. "Lx Type. Eléctricos de Lisboa dão origem a novo tipo de letra" (os céus de Lisboa podem agora ser vistos numa folha de papel ou num ecrã de computador) e "O estilo de letra agora adoptado pelo Banco da Noruega é da autoria de um designer português", Rui Abreu. Este é o mundo inesperado e maravilhoso das letras.


No post abaixo falei-vos de um encantador de leões. Melhor: mostrei as imagens impressionantes de um homem que os leões respeitam como se de um seu igual se tratasse. Foi um Leitor, a quem muito agradeço, que mo enviou. 

Agora, aqui, falo de uma coisa muito diferente mas que me foi dada a conhecer também por uma Leitora.

[Sou uma felizarda. Abro a caixa de correio e tenho sempre presentes imprevistos e que muito me agradam.]

A todos agradeço e só lamento não ter tempo para a todos responder atempadamente e com o vagar que merecem.

*

No outro dia já aqui falei de uma profissão de que não nos lembramos quando usamos letras e com elas formamos palavras, profissão que, mais que uma profissão, deve ser uma paixão: a dos desenhadores de letras.


Pois bem. Agora, pela mão da Leitora a quem muito agradeço, trago-vos desenhadores de letras que falam português. 

Sobre a letra criada para Lisboa, a Lx Typetranscrevo: a cidade já ganhou um tipo de letra, feito a partir da malha criada pelos cabos dos eléctricos.



O alfabeto  Lx Type

Lisboa está na moda, ninguém duvida disso, e já há quem diga que se tornou a nova Berlim. Até a CNN avançou no início desta semana com sete razões para Lisboa ser considerada "a cidade mais cool da Europa", a saber: a vida nocturna (que põe Madrid a um canto em horários tardios), a cozinha experimental (com destaque para José Avillez), a ironia ("um mecanismo de defesa", dizem eles), praias e castelos, um "design fabuloso", a arte (da Gulbenkian ao Museu do Oriente) e, a acabar, as "ruas fascinantes". Esqueceram-se de outra razão, mas estamos aqui para a lembrar: Lisboa tem o seu próprio tipo de letra. Ainda por cima, desenhado a partir da malha dos cabos dos eléctricos que circulam pela cidade. How cool is that?

A letra G

A ideia de criar uma tipografia para Lisboa partiu de uma equipa da agência de publicidade Leo Burnett, que espera que a fonte "se espalhe pela mão de designers e artistas", explica o copywriter Jaime Nascimento, de 31 anos.

(...)

A letra M

Para pôr a ideia em prática tiraram fotografias aos cabos dos eléctricos da cidade e, com a ajuda do Photoshop, começaram a descobrir o alfabeto na malha - apostamos que, depois de ler isto, também vai começar a olhar com outros olhos para os cabos.

O resultado pode ser visto aqui onde a fonte Lx Type está disponível para download gratuito, para ser utilizada por toda a gente. 

No site, se passar ao de leve o cursor sobre cada uma das fotografias, verá a letra que dela nasceu.

E depois há as histórias. Lisboa. Os céus de Lisboa. A luz de Lisboa. O amor por Lisboa.


Lx Type - Histórias # 01 Para Sempre

Leonor Fonseca, a Fotógrafa




Lx Type - Histórias  # Rafael

O Condutor de Eléctricos




Este é o maravilhoso mundo dos criativos que tão bem registam e interpretam o que os rodeiam.

E abençoados os que amam Lisboa e os que a habitam.

Lx forever.


****

Mas não fica por aqui a criatividade dos desenhadores de letras portugueses. Volto a transcrever:

Pelo nome 'Azo Sans', a tipografia eleita pelo Norges Bank é "inspirada nos alfabetos geométricos do fim dos anos 20". A aquisição dos direitos para uso da fonte de Rui Abreu aconteceu há poucos meses, depois de o banco norueguês entrar em contacto com um dos revendedores do designer. 


"A Azo foi desenhada com uma abordagem mais humanista, que a torna 'simpática' e calorosa, apesar do desenho marcadamente racional e depurado', conta ao Boas Notícias. "A geometria tem algo de apelativo ao nosso olhar e os tipos de letra geométricos mantiveram-se sempre intemporais, quer em termos 'branding' quer em editorial. E é precisamente nesta tradição que a Azo Sans se baseia, embora com um tratamento moderno". 

O interesse pela tipografia surgiu ainda na faculdade, mas longe de fazer prever que, atualmente, Rui dependesse exclusivamente da mesma. 

"Quando comecei a perceber o que era o design gráfico, dei conta que as fontes são desenhadas por alguém e que cada uma tem a sua 'voz' e comportamento consoante a aplicação a que se destina", revela o tipógrafo, natural do Porto. 

Desde então que a tipografia "passou a ser, naturalmente, a resposta para muita coisa". Aliando a sua "tendência natural para o desenho e uma certa inclinação artística", decidiu arriscar e criar, sozinho, as suas próprias fontes. Enquanto trabalhava para diferentes agências de design e publicidade, aproveitava os tempos livres para aprender a trabalhar com o software dedicado.

Hoje em dia a viver em Lisboa, Rui Abreu é 'pai' de doze famílias de fontes. (...) e as suas criações podem ser vistas aqui.


O que eu gosto de ouvir falar sobre isto. Dizer que um´tipo de letra é simpático e caloroso parece-me uma conversa misteriosa, cheia de enigmas. 

Será qualquer coisa de emocional que nos leva a identificar com um determinado tipo de letra? 

Quando mudo o visual do blogue tento sempre mudar também o lettering do título mas, por mais que experimente, parece que nenhum outro se identifica mais com o espírito do que por aqui se passa. Chama-se Permanent Marker, o que escolhi. Mas viajo sempre pelos tipos de letra, experimento, acho piada ao nome que lhes dão.

O que não me tinha lembrado (até há dias, quando recebi o filme que depois deu origem ao post acima referido), é que há pessoas por trás destas letras, pessoas que as pensam, as trabalham, as sentem, que ficam ligados a elas mais como pais do que como assépticos autores.



*

Este é o maravilhoso mundo dos desenhadores de letras e quem muito ame as palavras deverá pensar nestes laboriosos artistas que as amam ainda mais, a ponto de inventarem novas formas para as letras que as compõem.


****


de João Tabarra no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian

Tinha estado a escolher fotografias para vos falar da exposição de Rui Chafes e de João Tabarra no CAM e outras (Gulbenkian) mas temo que seja coisa para um post longo e não é agora, à 1h, da manhã que o vou começar, iria dar para muito tarde. Além do mais, isto já vai longo e não quero maçar-vos para além da conta.




Por isso, fica para amanhã (a menos que o bando de pinóquios e piratas que nos desgoverna faça mais uma das suas e eu seja desviada das minhas boas intenções).


****

Relembro: se descerem um pouco mais poderão ir ao encontro de um extraordinário encantador de leões.

****

E, assim sendo, desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira e vamos esperar que o mau tempo comece a ir-se embora.
Estou farta de tanta chuva, de tanto frio, de tanto trânsito.
Para quando o sol, o calorzinho, os belos passeios à beira rio, as blusinhas leves, as pernas sem meias?


terça-feira, abril 01, 2014

Kevin Richardson, o encantador de leões


Há pessoas que têm o dom de comunicar com alguns animais como se fossem um deles. 

O cinema deu-nos um filme de que gosto bastante, O Encantador de Cavalos com Robert Redford, Kristin Scott Thomas, Kristin Scott Thomas, Sam Neill e Scarlett Johansson e a verdade é que não é apenas no cinema que os há: na vida real há algumas pessoas conhecidas por whisperer - o que em português se converterá em 'encantador' - de vários animais.

Kevin Richardson é um sul-africano de 40 anos que é responsável por parques zoológicos e que, justamente, é conhecido por the lion's whisperer. De facto, de todos os animais com que lida prefere o contacto com leões e também, imagine-se, com hienas. Conhece-os desde que nasceram e é aceite por estes animais como se não fosse um ser estranho na paisagem - aliás, por precaução, só se aproxima dos que conhece desde o nascimento. A proximidade e a tranquilidade do convívio entre Kevin e os grandes animais é impressionante. Quando se vê Kevin deitado, a descansar, encostado a um destes grandes animais percebemos como a sua cabeça caberia facilmente na grande boca da fera.

Kevin sabe os riscos que corre. Já teve problemas, já viu o caso mal parado mas diz que, sopesando os prós e os contras, continua a sentir um grande prazer em viver em liberdade na natureza, junto destes animais conhecidos pela sua majestade e ferocidade.

Convido-vos a verem. É mesmo impressionante.



***

O que é o amor? Porque é que uns resultam e outros não? Como pode um casamento durar uma vida e haver amor e felicidade até ao fim? - Não sei. Mas, na minha ignorância, arrisco algumas pistas.


No post a seguir a este já gabei a pinta do novo Primeiro-Ministro francês, Manuel Valls, e tenho cá para mim que é moço para dar que falar. O que eu gostava mesmo é que ele impusesse algum respeito a essa gente ordinária que tem vindo a alastrar pela Europa por não haver quem lhes faça frente. Mas vamos ver. Pinta tem ele. E tem uma mulher também com muita pinta.

Mas isso é mais abaixo.

*

Aqui, agora, vou falar de outra coisa.

Vinha com outra ideia, vinha com vontade de pegar em sugestões deixadas ou enviadas por Leitores mas, enquanto escrevia o post anterior, comecei a ver o Prós e Contras que, esta segunda feira, foi dedicado ao amor.


O inusitado do tema despertou-me a atenção mas, sobretudo, despertou-me a atenção o facto de, ao ter passado pela RTP 1, ter visto uma pessoa conhecida a falar. Enviei logo um sms à minha filha, porque é pessoa que ela também conhece, e depois fui deixando ficar.

O meu marido já se foi deitar e, portanto, agora por aqui não se faz zapping, agora posso estar a ver sossegada sem que ele se enjoe. Se aqui estivesse já estaria a bufar: 'é pá, não tenho paciência para estas conversas de chacha'.

Entretanto, já caíu uma chuvada assustadora. Não tenho ideia de uma coisa assim. Um dilúvio. Uma chuva intensa, pegada, nem sei se terá sido granizo, tal o barulho que fazia. Abri a janela para espreitar mas não consegui perceber pois tive que a fechar logo, tal a brutal queda de água, um barulho, um barulho, uma coisa medonha.

Bom. Volto a Fátima Campos Ferreira.
Ainda este domingo a vi no Centro de Arte Moderna. Gosto mais de a ver menos maquilhada do que carregada de pinturas como está quando a vejo na televisão. 
Mas volto a ela não para falar dela mas do tema que ela trouxe ao programa: o amor, como já acima o referi.

Já aqui ouvi muitas teorias - do camião TIR da paixão, das inseguranças, das vulnerabilidades, etc, - e ouvi um casal recém-casado cheio de conversinhas e ilusãozinhas, e ouvi o casal do Solar dos Presuntos, a Graça e o Evaristo, casados há montes de anos e cada vez mais amigos, e estou a ouvir Daniel Sampaio, sempre sensato, e a bela Beatriz Valério, advogada de divórcios, e a ginecologista Maria do Céu Santo que é uma descontraída, e a Catarina Beato mãe solteira de dois filhos de pais diferentes, e mais a autora do blogue dos Saltos Altos, e mais uns quantos cujo nome ou razão de ser de estarem ali não captei. 

E, já que meio mundo opina, opino também eu. Não hei-de dar tiros mais ao lado do que eles.


Hit the Ground, meus Caros





Sou casada há tanto tempo que acho que devo ser capaz de dizer qualquer coisa. Sou casada há mil anos e ainda não consigo passar sem o meu marido. No entanto, nada de falsas ideias: há momentos em que não o posso nem ver, que, se pudesse depois voltar atrás sem pôr em causa a minha imagem, lhe punha as malas à porta. E, se tenho alguma coisa para dizer, é que nem me passa pela cabeça escolher a melhor forma de o dizer ou o momento mais adequado. Não: é logo, na hora, ao rubro. Estrebucho, grito, choro, ameaço, e tudo o que me vem à cabeça. Sempre assim foi. Sou primária até mais não poder. Mas isso tem uma vantagem: como sai tudo na hora e em dose maciça, também passa logo. Estou a lembrar-me da Graça e do Evaristo que dizem que se chegavam um ao outro na cama e faziam logo as pazes. Eu acho que comigo nem é preciso esse truque. Esqueço-me que estava zangada. E acho que o meu marido também. Ou então já se habituou, já sabe que o vendaval passa logo. E com ele a coisa não é muito diferente. Já nos topamos mutuamente.

Provavelmente há pessoas que, à mínima, fazem um drama. Eu não e ele, felizmente, também não.

Eu acho que isto é como tudo na vida. Não há pessoas a quem tudo corre mal e outras a quem tudo corre bem: o que há é pessoas que dão a volta e seguem viagem e outras que extremam os problemas e estragam tudo.

Como não me casei pela igreja, também não frequentei aqueles cursos de aconselhamento matrimonial. Jamais poderia frequentar tal coisa. Há coisas que não se aprendem e esta de um casamento dar certo é uma delas.

Quando me casei também não transformei o casamento num evento preparado ao milímetro.

Hoje vejo algumas 'noivas' que começam a organizar o casamento com um ano ou mais de antecedência, que contratam um coro para a igreja e karaoke e DJ para o copo de água, um fotógrafo e um ajudante, que encomendam convites, cartões para as mesas, mais lembranças para os convidados, que obrigam os ditos convidados a comprarem as coisas de uma lista ou a darem dinheiro para uma viagem para o outro lado do mundo. Uma tal mise en scène que parece que aquilo é mais uma festa de angariação de fundos preparada ao milímetro do que a união de duas pessoas apaixonadas. Tudo isso me é estranho e tudo isso me parece um festival que tem pouco a ver com o genuíno espírito de um casamento a sério. Acho que essas pessoas que encaram o casamento como uma religião ou como uma etapa mediática são as que vão para um relacionamento cheias de ilusões, de cinefilias, de ficções, idealizando perfeições que não existem na vida real.


Mas depois há as outras.

As que não atinam. As que complicam, as que não toleram nada no outro, as que concebem teorias atrás de teorias. Há homens que acham que as mulheres são assim e  assado, tudo tipificado, e que desenvolvem teorias para fazerem aproximações à pista sem se despistarem, ou que se rodeiam de toda a espécie de seguranças para evitarem ser apanhados. E as mulheres idem: desenvolvem também toda a espécie de tácticas para detectarem intenções menos claras, vícios, taras, indícios de infidelidades futuras.

Tudo errado.

Pelo menos, eu acho.






Sou completamente contra todas as teorias de cão de caça. 

Sabido que é melhor (até para a saúde) que uma pessoa tenha companhia no seu percurso de vida e que, melhor ainda, que essa companhia seja boa, que proporcione um ambiente cúmplice, de afecto, de partilha, e podendo eu ser vista como um exemplo, a verdade é que chego a esta altura do campeonato sem conseguir dissertar muito sobre o assunto.

O que leva uma pessoa a ter um relacionamento bom e duradouro? Não sei. Mas é que não sei mesmo.


Vou arriscar mas admito que só vou dizer burrices. 

  • Diria que, em primeiro lugar, tem que haver atracção física. É fundamental. Tem que ter havido algures, no início pelo menos (mas, desejavelmente, ao longo de todo o relacionamento mesmo que, então, de forma mais fugaz ou ligeira), um coup de foudre. Paixão. Perdição. Loucura e borboletas no estômago, no peito, pelas pernas acima.

  • Depois tem que haver afinidade intelectual e complementaridade a nível comportamental - e reparem bem no que eu disse: se a nível intelectual tem que haver equilíbrio e sintonia, já a nível de comportamentos acho que resulta melhor se não forem iguais mas sim complementares.

  • Depois tem que haver admiração mútua. Seja no que for: ou no trabalho, ou a a cozinhar, ou a pregar prateleiras, ou a ser bom pai ou boa mãe, ou a saber poemas de cor, ou a fazer amor - no que for. O desdém é inimigo do amor.

  • E tolerância - a tolerância é fundamental. Mas tolerância no que não for basilar. Se o eu marido fosse um admirador do Henrique Barroso, do Jorge Jesus ou do Passos Coelho ou se se vestisse com fato com risca de giz ou se usasse um aftershave intenso e insuportável, se usasse a unha do dedo mindinho comprida, se usasse pulseira ou anel, se usasse sapato de berloques, ou outras coisas imperdoáveis do género, então é claro que a tolerância teria que ser zero. Mas em coisas acessórias como fazer zapping quando não deve ou querer ouvir comentários desportivos ou nem reparar se eu vestir um blusa nova toda gira ou se nem reparar que cortei o cabelo ou outras insignificâncias do género, aí eu tolero.

  • E tem que haver humor. Os membros de um casal têm que se fazer mutuamente rir. Fundamental isto. Não conseguiria conceber estar com um chato, mal humorado, uma seca, um embirrante. Imagino que um homem também não suporte uma mulher soturna, mal disposta, ensimesmada, desconfiada.

  • E não pode haver ciúmes. Pelo menos ciúmes por tudo e por nada. Ciúmes doentios é do pior que há. É fundamental pôr o coração ao largo.

  • E tem que ser-se capaz de ter uma conversa de igual para igual. Eu não poderia ser casada com um palerma que não percebesse metade do que eu dissesse, que desse pontapés na gramática a torto e a direito, com quem eu nunca aprendesse nada, com quem eu não tivesse afinidades estéticas, intelectuais, morais, políticas. Pode haver diferença nos interesses, nas posturas, nas opiniões mas não pode haver um afastamento sistemático, divergências insanáveis. (Acho que já falei disto lá mais para cima mas é que isto é mesmo importante)

  • E deve haver uma vontade, motivação mesmo, em partilhar um projecto de vida em comum, vontade de caminhar a dois. 

  • E é capaz de haver mais uma série de coisas mas, às tantas, vai tudo dar ao mesmo.

E a ordem dos factores é capaz de não ser bem esta mas isso também é irrelevante pois a importância das coisas vai mudando ao longo da vida.


****

As fotografias são de Anja Rubik e Sasha Knezevic para a Vogue Alemanha e de Toni Garrn e Clive Owen para  Vogue Espanha - em ambos os casos, o fotógrafo é Alexi Lubomirski.

A música é Hit the Ground de Lizz Wright.


****

Relembro: sobre o malandreco e pintaroludo Manuel Valls que agora é Primeiro-Ministro em França (e que parece que acha que é melhor não se falar em socialismo, vejam bem como ele é), falo no post abaixo.


****

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça feira (apesar deste tempo assustador)


*

ETERNIDADES

Foi no teu olhar que encontrei sempre a minha âncora
mesmo quando eras tu a desencadear os vendavais
a minha barca quase se afundava
coberta de ondas, tremia
e depois se alevantava
mais forte mais bela mais segura

e quando fui eu que inventei as tempestades
e fiz tremer o casco dos navios
e nascer a impensável escuridão

de rastos e olhar vadio
atravessei o nevoeiro
perdi a noção do norte e das estrelas
esqueci mesmo o bater do coração à procura do arco íris

e de novo
o TEU OLHAR
a eterna razão que me trazia à tona de água

nadei até ao cais
exausta confusa arrependida
seguindo o único farol que me traz de volta a casa
ilumina o resto do caminho
e continua a dar sentido à minha vida...



[Poema da Leitora 'Era uma Vez', num comentário aqui abaixo]

Manuel Valls, o novo Primeiro-Ministro francês, pode ser um socialista chegado à direita, pode enervar os mais à gauche, etc e tal. Mas que tem uma bela pinta, lá isso tem. Tem aquele killer instinct que atrai as mulheres e é sabido como agradar às mulheres é da máxima importância.


Manuel Carlos Valls nasceu em 1962, em Barcelona, filho de um pintor suave, Xavier Valls.

Aderiu cedo ao partido socialista francês, tinha apenas 17 anos, e cedo revelou ser determinado, polémico, ambicioso, sem receio de provocar conflitos ou rupturas.

Naturalizou-se francês aos 20 anos. Formou-se em História.

Recentemente, nas eleições internas do Partido, apoiou Ségolène Royale contra François Hollande.

Manuel Valls tem quatro filhos do seu primeiro casamento. 

Em 2010, depois de se ter divorciado, casou com a sua segunda mulher, a bela e talentosa Anne Gravoin, uma violinista que ganhou o prestigiado primeiro Prémio para Violino e Orquestra de Câmara do Conservatório de Paris.


Dizem que Manuel podia ter um palmo a mais e acredito que sim. Se fosse mais alto, teria uma presença ainda mais marcante. Mas deixá-lo.

Dizem que, volta e meia, podia ser mais fiel aos ideais socialistas e menos pragmático ou direitolas, que podia tentar ser mais consensual, menos controverso. Mas basta olhar-lhe para a cara, para aquela linha do queixo, para ver que é determinado, provocador e que aguenta bem qualquer embate. 

De resto, o que posso dizer ao ver as suas fotografias é que tem uma pinta que não é despiciente.

Cá para mim, num abrir e fechar de olhos, Valls vai meter no bolso o pequeno Hollande, essa pequena nódoa que parece guardar todos os seus méritos para actividades venéreas (venéreas aqui no sentido que César das Neves, esse grande pregador da moral e dos bons costumes, atribui à palavra na crónica de 2ª feira, O fósforo e a gasolina: ou seja, no sentido de Vénus, de cópula, de sensualidade).

Na sequência do trambolhão eleitoral dos socialistas nas autárquicas, Hollande não teve outro remédio senão deixar cair o Governo e avançar com sangue novo. Manuel Valls é pois, desde esta segunda feira, o novo Primeiro-Ministro francês e de uma coisa acho que poderemos estar certos: não vai passar despercebido.


Que consiga imprimir um novo impulso à esquerda europeia é o que eu desejo (e nem vale a pena dizer se, face aos dados conhecidos, é com muita ou pouca esperança que o desejo).

*



Anne Gravoin no violino

*