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sábado, fevereiro 27, 2021

Viajar

 


Nunca fui de turismo de massas. Em excursões só participei até ao liceu. A última deve ter sido a de finalistas. Nunca me imaginei a passear em excursão. O meu marido muito menos. Passeios em grupo fazíamos mas era coisa para no máximo uns quatro ou cinco casais e respectivos filhos. Mas, mesmo isso, era algo cansativo pois coordenarmo-nos todos em horários e preferências requeria uma certa ginástica.

Também nunca fui àqueles destinos turísticos a que toda a gente ia. Era como ler um livro ou ver um filme de que toda a gente falava: perdia logo a vontade. Punta Cana. Porto de Galinhas. Esses lugares de que tanto ouvia falar. Zero interesse.

Viajar para mim, para ser bom, era irmos só nós, em total liberdade. Quando digo 'nós' refiro-me a nós dois e os miúdos ou apenas os dois.

Mas mudei. 

Agora, se penso em passear, já não tenho aqueles sonhos de viagens para mais longe. Agora o que desejaria poder fazer era ir de carro por aí. Gosto muito, cada vez mais, do meu país. 

Não sei como pode haver quem não o ame de paixão. Penso que só gente cuja alma se deformou ou vendeu poderá não sentir profundo e reconhecido amor por este país tão lindo. 

Um país é a terra e as paisagens, é a língua, são os hábitos, são as pessoas. E, neste nosso país, eu gosto de tudo. Andar a calcorrear serras e vilas e aldeias, percorrer a beira dos rios ou degustar a beira do mar, provar os belos petiscos, observar as gentes, prestar atenção ao modo como falam -- para mim é tudo um prazer.

Talvez pudesse ir também até mais longe, andando por outros países adentro. Mas, sinceramente, parece que deixei de sentir a mesma atracção do que quando julgava que ia encontrar noutros lugares algumas pitadas de fascínio não existentes por cá. Não sei explicar. Parece que me vou modificando sem que perceba até quando continuarei a modificar-me. 

Ponho-me a pensar: o que quero fazer quando houver total liberdade de movimentos?

Não vou falar do óbvio: estar com os meus, com aqueles que o meu coração amo. Esses são a minha primeira e segunda e terceira e quarta e quinta prioridade. E parei na quinta para não maçar quem me lê. Mas, satisfeitas essas primeiras necessidades, de os abraçar e beijar e dar de comer e estar com eles, tendo eu tempo para ir em liberdade, talvez gostasse de fazer passeios temáticos. 

Conhecer bibliotecas. Conhecer edifícios de arquitectura espectacular. Conhecer jardins. Conhecer parques. Conhecer cidades na foz dos rios. Conhecer restaurantes principescamente decorados (e com boa comida). Conhecer esplanadas com uma grande vista de mar. Conhecer lagoas secretas. Conhecer as tocas dos lobos.

Penso nisso mas penso de forma indefinida, como se fossem hipóteses longínquas, viagens imaginárias. 

Passeios que me obrigassem a pesquisar, a planear. O oposto do que sempre fiz. Nunca planeámos quaisquer passeios. Íamos. E lá, todos os dias, pensávamos no que íamos ver ou a fazer a seguir. Agora não. Agora pensaria assim: vamos conhecer jardins extraordinários. Mas pensaria antes de ir. Teria que tentar descobri-los, pesquisar. Fazer um roteiro, escolher percursos, as estradas mais bonitas. Escolher hotéis bonitos. 

[Já sei que hotéis seria o meu marido a descobrir os melhores. Não sei como faz mas é sempre ele que desencanta hotéis incomuns e muito bons. Hotéis de charme. Hotéis invulgares e muito acolhedores, em locais onde sabe bem estar. Sempre ele, não percebo como porque aparentemente não tem paciência para grandes pesquisas.]

Mas quando poderei passear assim?

Dantes tinha também a ideia de comprar coisas nos sítios por onde passava. Agora penso que já não. Fotografar, isso sim. Mas comprar acho que não. 

Não sei como vai ficar o mundo. Tantas terras que viviam do turismo. Como viverão sem as gentes que vinham de fora e que deixavam o seu dinheiro no comércio e alojamento locais? 

Tantas incertezas.

Também não sei como vou ficar eu. Pode acontecer que seja tudo passageiro, pancada psicológica que se varrerá mal tenha ordem de soltura. Mas não creio. 

Tenho para mim que estou cada vez mais eremita.

Talvez acabe por me desinteressar de ir conhecer outros lugares, cada vez mais circunscrita ao meu pequeno espaço, ao meu jardim, às minhas árvores, aos pássaros desconhecidos que se escondem nas árvores ou cantam no beiral para que o meu despertar tenha a companhia da sua música, talvez acabe por me circunscrever às minhas casas. 

Às vezes penso que gostaria de ainda vir a ter também uma casa pequena, de pedra, numa aldeia na montanha. Não sei bem como poderia ajeitar a minha vida para ter tempo para poder ir, às vezes, para essa casinha, para esse refúgio que teria uma estreita escada interior que iria dar a um quarto com uma janela com vista para as serranias em volta. Por vezes penso nisso. Dantes pensava numa casa em cima da praia. Agora penso numa casinha de pedra na aldeia, talvez nas Beiras. Um quintalinho nas traseiras, uma pequena horta. Penso que aí seria inevitável ter um gato. Não sei que ideia é esta minha. Penso que sou uma pessoa de casas. Mas, na verdade, sei lá de que é que sou. 

Ao certo o que sei é que estou aqui na sala, a ouvir música e a escrever estas coisas. A viajar. É isso: a viajar até vocês. Vocês são o destino das minhas viagens.

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Quanto às fotografias o que posso dizer é que, respectivamente, são de: © Alexandrina Chirila© gabrielegiussani.com, não sei quem fotografou, não sei quem fotografou a moda de Susan Fang

E tudo isto ao som de River na interpretação de Julie Stone

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Num outro registo, permitam-me a sugestão: sobre viagens, é interessante o que The Economist tem a dizer sobre tudo isto:

How will covid-19 change travel? 

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Desejo-vos um belo sábado

Sol. Alegria. Tudo de bom.

5 comentários:

Maria Dolores Garrido disse...

Bom dia! Que bela viagem para começar o (meu)dia. E tanta coisa com que identifico, sobretudo nesta fase da minha vida, em que tantas vezes me sinto igualmente 'eremita', a interagir com o mundo mas sem sair do meu mundo de que gosto cada vez mais. Embora esses destinos muito escolhidos não fossem nunca a minha escolha, visitei países distantes, muitas vezes em grupos organizados, e o tempo era gerido pelas agências e nós deixávamos de ser agentes da nossa própria viagem, embora a pagássemos. Crescendo, as minhas filhas também nisso nos fizeram mudar. Graças a Deus!
Agora,quando puder, quero ir mas ficar por mais perto e, sobretudo, com tempo para ficar e desfrutar de tanta coisa boa e bonita que existe. E às vezes bem perto.
Obrigada por mais esta viagem e feliz fim de semana.

Pôr do Sol disse...

Olá UJM,

Hoje acordei com um radioso Sol a entrar-me no quarto.

Disse ao meu marido que me apetecia dar uma volta. Aonde? veio a pergunta demolidora. Não podes sair do concelho. Apetecia-me ir tomar um café à beira rio, andar por Lisboa, subir ao Facho e ter S. Martinho e a baía aos pés, ver os amigos de lá, que culpa desta pandemia, não vejo há mais de um ano.

Até quando? Já estamos quase resignados a ficar fechados para sempre na nossa concha. Mas não haverá outra hipótese?

Depois lembrei-me de uma reunião de médicos promovida pelo jornalista Carlos Enes a propósito da (não) administração de Ivermectina que vi e recomendo. São cerca de noventa minutos mas vale a pena.

Vale, para ficarmos mais tristes com o desinteresse das farmaceuticas e do Governo, ou para ficarmos com Esperança naquela menina de olhos verdes de que fala Mário Quintana.

Na lista de intenções para a próxima semana fica a procura de um daqueles conceituados médicos.

Na lista de perguntas que nunca terão resposta fica o porquê da Tv não divulgar estes coloquios de interesse de todos nós.

Um beijinho, um bom fim de semana e boas viagens virtuais.

Anónimo disse...

Não sei se estou a precisar de novas lentes, ou se o meu computador está a pifar, o facto é que chego ao fim de ler os seus textos e tenho os olhos cansados!
O fundo cor de rosa faz sumirem-se as letras e exigem um maior esforço a quem as lê.
Apesar disso, cá venho diàriamente com muito agrado!
Bom fim de semana.

Um Jeito Manso disse...

Olá Maria Dolores,

Vários amigos nossos eram fãs de viagens em grupo, organizadas. Nós nunca nos vimos a ter que cumprir programas e horários, somos demasiado anarcas para isso. Anarcas e pouco organizados. Quando toda a gente comprava previamente as entradas nos museus, por exemplo nós no dia é que resolvíamos passar por lá para ver o que estava (nas temporárias)e, frequentemente, dávamos com filas horríveis.

Mas tenho saudades de sair, de arejar. Mas, ao mesmo tempo, tenho a sensação que já não me apetecerá ir para longe. Só se for de carro, por exemplo voltar a Saint-Malo, a Honfleur, a essas terras tão lindas da Normandia. Ou a Donostia, cidade de que gosto muito. Mas acho que o que me agora me apetece mesmo é ir pelo nosso país, descobrir as suas imensas maravilhas.

Continuação de um bom fim de semana e continuação de boas leituras (estive a ver o seu blog...)!

Um Jeito Manso disse...

Olá Pôr do Sol,

A televisão privilegia a má língua, a desgraça, o que corre mal, o que deixe as pessoas a pensar que este país não presta. Tudo enganoso. Há coisas más mas há também coisas dignas de realce pela positiva. Os programas ou são pimbalhada ou comentário de futebol ou tretas do género. Coisas boas só na em horários escondidos, em canais onde a gente nem se lembra de ir.

Ir procurar esse vídeo para perceber de que se trata. Tudo o que mete indústria farmacêutica tem geralmente por detrás muitos interesses, altas negociações, muitas vezes espionagem empresarial. Quando há muito dinheiro em jogo, os bons princípios muitas vezes só servem para atrapalhar...

E a ver se este domingo apanhamos um pouco de sol. Apetece dar um passeio como deve ser, não é? Ir um pouco para mais longe.

Mas melhores dias virão. Haveremos de voltar a ser donos dos nossos passos e de perder o medo de ficar doentes ou contagiar os outros.

Ânimo, Sol Nascente, boa disposição. E saúde!

Um beijinho,