terça-feira, março 03, 2026

Shibui

 

Há muitos anos comprei um blusão de pele. É forrado a cetim e tem um feitio intemporal. Sempre gostei imenso de o vestir, sinto-me bem, não é quente nem frio, não é justo nem é largo. Nem é desportivo nem clássico. Portanto, sempre o vesti em qualquer situação.

No entanto, não sei se foi o maluco do cão que, quando era mais pequeno, num daqueles saltos festivos, ferrou o dentinho ou se foi qualquer outro acidente: rasgou-se atrás, um pouco acima do cós. Fiquei passada. Não passada no sentido de zangada, já que acidentes acontecem, mas triste. Pus cola, tentando disfarçar, colando a pele ao forro. Não ficou grande coisa. E acabou por se deslocar e rasgar um bocado mais. Quando o visto, o meu marido diz que já não está capaz. É que, para além do rasgão, o cabedal também já está, em várias zonas, um pouco coçado. Tenho ideia que já a minha mãe também me dizia que o blusão já tinha visto melhores dias e que, se calhar, estava na altura de me desfazer dele.

Contudo, parece que gosto ainda mais dele. Parece que está cada vez mais afeiçoado a mim e eu a ele. E vejo beleza no passar do tempo sobre aquela pele.

Ocorre-me ainda uma outra coisa: há um lugar, in heaven, em que o terreno desce e se encosta à propriedade vizinha, vendo-se para lá e de lá para o nosso lado. Há uns anos imaginei um grande muro que estabelecesse uma barreira visual. Alto e comprido, com várias faces, quase como um grande livro aberto, com folhas desdobradas. A minha ideia era fazer pinturas em cada folha do muro. Poderia ser uma história que se desenrolasse ao longo da superfície ou poderia ser um deslizar de cores em movimento, formas abstractas, subtis. Sonhei com o que lá iria desenhar e pintar. Antecipei o prazer que era, para mim, pintar à mão livre em grandes superfícies. 

Para começar, houve que aplicar primário e, a seguir, umas camadas de tinta branca para que, com a superfície devidamente selada, pudesse, então, partir para as minhas rêveries.

E o que aconteceu é que me apaixonei pelo muro branco. As sombras que lá se desenhavam, as árvores ao lado, os arbustos por detrás, tudo aquilo, na singeleza de um grande muro branco, me parecia muito belo. 

Andei naquela dúvida durante algum tempo: persistir na ideia que me tinha levado a construi-lo ou abdicar dela e aceitar a surpresa da inesperada beleza de uma superfície branca. Ficou assim. Agora a perder cor, com alguns musgos, com aquela patine que acrescenta beleza ao tempo.

E depois há aquelas outras imperfeições que me parecem embelezar e enriquecer os objectos. Vou dar um exemplo do qual já aqui falei algumas vezes. Uma vez fui sozinha, para poder andar com tempo e à vontade, à FIL Artesanato. Já foi na FIL no Parque das Nações mas deve ter sido pouco depois da Expo 98. Saí do trabalho e fui para lá. Tínhamos mudado de casa pouco antes, havia muito por decorar. A feira enorme, cores, criatividade, tudo muito apelativo. Vi coisas giríssimas e fui comprando. Claro que não trouxe tudo aquilo de que gostava mas, ainda assim, muita coisa. Pior: coisas muito pesadas. As coisas mais pesadas, eu pedia para ficarem no stand enquanto ia passarinhar por outros stands. Antes de me vir embora, fui fazer a recolha. Tenho ideia que já eram umas dez da noite, senão mais. Quando me vi com aquilo tudo, percebi o disparate. Pensei que não ia conseguir. Quilos e quilos e quilos. Muitas peças em terracota, espessa, pesada. E peças muito grandes. Não podia deixar cair, senão partiam-se. E quase não conseguia dar passo. Aliás, dava dois passos e parava e pousava tudo. Depois mal conseguia retomar. O carro tinha ficado numa rua perto mas, com uma carga daquelas, era como se estivesse a milhas. Só me ocorria ligar ao meu marido e pedir que me fosse buscar. Mas já era tarde e não ia ficar no meio da rua, rodeada de tralha, assim de noite, para além de que não ia dar-lhe essa colherzinha de chá... 

Mas, não sei como, lá consegui. Cheguei a casa esbaforida, derreada, arrasada, apesar de ter deixado grande parte das compras no carro, para o meu marido lá ir buscar. Escusado será dizer que ficou até assustado com o despropósito de tamanho carregamento. Aliás, já tinha apanhado um susto pois eu nunca mais aparecia e não atendia o telefone. Lá dentro, com o barulho, não ouvia tocar. E, na rua, ajoujada como ia, não tinha mãos para pegar no telemóvel e depois, não sei como, deixei-o cair para dentro de um saco que ficou no porta-bagagem e nessa altura ainda não havia bluetooth. Aquela noite foi um stress do qual jamais me esquecerei

Uma das peças que trouxe é uma senhora a fazer tricot. Andando eu, naquela altura, sempre a fazer tapetes de arraiolos, isto depois do período do crochet e do tricot, achei que aquela mulher era uma bela piada para mim própria. E nessa mesma noite coloquei-a na sala do piso superior. 

Na altura, a nossa cãzinha, a doce boxer cor de mel, estava na flor da sua idade. Dormia na sua caminha, na copa. Geralmente, quando acordava, subia a escada e vinha para o nosso quarto. Mas, na manhã seguinte, acordámos com ela a ladrar furiosamente, como quando alguém tocava à porta. Contudo, o ladrar vinha da sala. Não fazíamos ideia do que se passava, alguma coisa era. Fomos ver, intrigados. 

Estava, então, a ladrar, possuída, aos saltos, junto à senhora que, tranquilamente, fazia tricot. Fartámo-nos de rir. 

Por segurança, tivemos que pôr a nova habitante quase entalada entre um sofá e o móvel-estante, para a proteger, pois a raiva contra o abuso de invasão do seu espaço poderia levar a ex-pacífica cãzinha a atacar a pacífica senhora.

Sempre tive mil cuidados para que não se partisse. Quando mudámos de casa, quase a trouxe ao colo, entre espuma, com receio de algum acidente.

Pois bem... há algum tempo, ao passar por ela, o casaco de malha solto que trazia prendeu-se numa das agulhas de tricot e, pimbas, lá caiu a senhora. Desastre, desastre. Quebrou-se toda. Fiquei cilindrada. Mas por pouco tempo. Resolvi que ainda não tinha chegado a hora dela. Fui buscar cola e tentei recompô-la. Depois, ainda pensei tentar disfarçar as cicatrizes. Mas ficou assim. Acho-a ainda mais bonita, imperfeita, não escondendo as vicissitudes pelas quais passou. 

(ampliem a saia e os joelhos e verão as cicatrizes...)

Quem a veja, pensará que termos, num lugar de tanto destaque, uma peça que se vê que já se escaqueirou toda não tem grande jeito. Mas eu acho que tem.

E, com todas estas minhas particularidades, já concluí muitas vezes que, afinal, se calhar o que há em mim não será tanto uma valente pancada mas uma veia oriental. 

A minha casa não é nada como as casas que no vídeo abaixo se veem, pois resulta de uma vida inteira vivida segundo hábitos ocidentais. Não é uma casa minimalista nem monocromática. Mas, apesar de tudo, é uma casa que privilegia o espaço livre e a entrada da luz. Circula-se abertamente pela casa toda, sem obstáculos. 

E passo a vida a fotografar reflexos, projecções, sombras e luzes vogando sobre os objectos.

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Shibui é a estética japonesa que encontra beleza na simplicidade, na imperfeição e na passagem do tempo. Ao contrário do minimalismo extremo que se concentra no vazio, o Shibui cria riqueza através de materiais naturais, artesanato e uma elegância discreta que se torna ainda mais bela com o passar dos anos.

Principais Características do Shibui

  • Beleza Sutil e Natural: Valoriza materiais naturais (madeira, pedra, algodão) e formas imperfeitas, muitas vezes associado ao conceito de wabi-sabi.
  • Contenção e Moderação: O design é simples, funcional e sem adornos desnecessários.
  • Profundidade: A beleza não é óbvia; é algo que cresce com o tempo e o uso.
  • Cores Neutras: Preferência por tons suaves, apagados ou monocromáticos, como cinza, castanho e branco suave.
  • Elegância Discreta: É o oposto de chamativo; uma sofisticação tranquila. 

O Shibui aplica-se a artes, design de interiores, arquitetura e à vida quotidiana, focando-se no que permanece bonito ao longo do tempo.

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3 regras japonesas para um lar pacífico

Desejo-vos um dia feliz

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