Durante quase toda a minha vida tive a sensação de que andava sempre de um lado para o outro. Enquanto estudava na universidade, quando, chegado o fim de semana, tantas vezes tinha vontade de ficar na grande cidade, sem nada que fazer, só passear e ir ao cinema, mal chegava a tarde de sexta-feira aí estava eu a ir para casa. E só vinha na segunda de manhã. Levava e trazia roupas, livros. Sempre carregada. Depois comecei a trabalhar e ia para a escola onde dava aulas, ia para a faculdade, ia para a casa onde morava, ia para casa dos meus pais. Depois casei e praticamente mantive a mesma rotina pois, sendo tão novinha, receava que os meus pais sentissem a minha falta e ia lá todos os fins de semana. E depois mudei de emprego e tinha que apanhar vários meios de transporte para lá, para cá. Saía muito cedo, regressava muito tarde. Vieram os filhos e tinha que os levar ou a casa da avó ou à creche e ir trabalhar e o recíproco à tarde, e, ao fim de semana, ir visitar os meus pais. Depois comprámos a casa no campo e, mal chegava a sexta à noite ou o sábado de manhã, lá íamos carregados para lá, regressando no domingo à noite. Pelo meio, durante muitos anos, com frequência passávamos o sábado ou o domingo com amigos e, também durante algum tempo, íamos para a noite, os miúdos ficavam com os meus pais, e só regressávamos de madrugada. E passava o fim de semana e sentia que mal tinha descansado.
Depois, com as doenças de sogros e, depois, dos pais, todos os fins de semana tinham que esticar para haver tempo para lá ir, muitas vezes com compras que tinham que ser feitas previamente.
E sempre foi isto, de um lado para o outro, sacos e mais sacos, o tempo escasso, mil coisas para fazer.
Pelo meio havia as deslocações em serviço, as saídas e, quando os miúdos cresceram, passámos a ir umas cinco ou seis vezes por ano para fora, muito recorrentemente a Madrid, cidade de que gostamos muito.
Mas, quando vinham as férias 'grandes', tudo o que me apetecia era ficar quieta, em casa. Mas íamos para o Algarve ou sul de Espanha, também, embora menos, para sul de França, e íamos para o campo, íamos todos os dias para a praia, e, sempre, a apetecer-me estar sossegada, a desfrutar a casa. Os caranguejos são bichos caseiros.
Estou agora a desfrutar. Mas sei que tenho que ter cuidado para não ficar eremita militante. Contudo, como várias vezes aqui o confesso, tenho finalmente a vida tranquila que, ao longo dos anos, tanto desejei.
Acordar e abrir as janelas, ir para o terraço, olhar o céu, fazer festas ao cão, cozinhar*, jardinar, arrumar, caminhar, praticar actividade física, ler, escrever, fotografar, observar a natureza, ouvir os pássaros, respirar ao sol, conversar, saber que os meus estão bem, que têm os seus planos, que fazem o que gostam, que têm a sua vida realizada e motivação para ir atrás das suas vontades - tudo isso me acalma, me faz feliz. Foi por isto que tanto esperei.
Agora à noite, ao ver o youtube, um dos meus prazeres, apareceu-me, mais uma vez, um daqueles vídeos sobre os hábitos japoneses com que tanto me identifico. O vagar, o prazer das coisas simples, os hábitos tranquilos, a compreensão de que apenas o que é natural -- natural no sentido do contacto e respeito pela natureza -- me deixa verdadeiramente feliz.
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Gosto de cozinhar, em especial quando tenho a casa cheia. Mas, quando isso acontece, a verdade é que lamento sempre não ter um fogão e um forno maiores, pois cozinhar para muita gente é muito condicionador. Se a tachada é grande demais, por vezes não é fácil apurar, ou, se é no forno, não cabe tudo ao mesmo tempo, tem que ser por etapas, e isso complica a fluência, a sequência, que se quer ágil e ininterrupta.
Cozinhar só para nós dois permite-me fazer cozinhados feitos à nossa medida. Não tenho que pensar em pratos de que todos gostem, incluindo a malta miúda, e isso nem sempre é fácil pois uns não apreciam isto, outros não acham muita graça àquilo. Só para nós dois é simples.
Por exemplo, hoje fiz galinha com massa. E foi assim:
Num tacho, coloquei azeite, duas cebolas grandes. Dourei. Juntei uns quantos dentes de alho, duas folhas de louro fresco. Juntei, então, bocados de galinha. A galinha do campo, que tem carne mais rija, é bem mais saborosa que o frango. Envolvi e selei durante um bocado. Juntei uma cerveja mini e um pouco de sal. Ficou ali a cozinhar um bocado. Depois juntei um alho francês e salsa. Envolvi e deixei cozinhar em lume brando.
Quando a carne já estava quase macia, juntei três cenouras aos bocadinhos, uma punhado de feijões verdes aos bocados e 2 beringelas (com casca, bem entendido) também aos bocados. Juntei mais um copo de água a ferver. Ficou a cozinhar. Quando a beringela já mal se via, juntei penne integral. Quando estava já cozinhado, juntei um pouco de vinagre de maçã e envolvi.
Ficou a modos que caldoso, mas um caldo espesso, muito saboroso. Os legumes estavam desfeitos, a carne super macia e tudo envolvido em creme saboroso, quase como se tivesse levado natas. Mas, claro, nada de natas. A textura das beringelas desfeitas agrada-nos muito. O caldo, no fundo, é só legumes e tudo sempre cozinhado em lume branco, slow cooking.
E, ao passo que, quando trabalhávamos, jantávamos sempre às nove e tal quando não às dez, agora jantamos às oito ou mesmo um pouco antes. E é bom. Daqui a nada os dias estarão maiores e jantaremos de dia, e isso é muito agradável.
Mas adiante. Que venham os hábitos japoneses que são simples e, segundo consta, também saudáveis.
10 hábitos japoneses gratuitos para se manter jovem e energético
"Envelhecer é inevitável, mas a ferrugem não." No Japão, a longevidade é tratada como uma arte refinada — um efeito colateral natural do equilíbrio, e não uma batalha contra o tempo. Descubra 10 rituais atemporais, desde o movimento matinal do "Asa Taiso" até o propósito profundo do "Ikigai", que podem adicionar não apenas anos à sua vida, mas vida aos seus anos.
Neste vídeo, exploramos como alinhar seus ritmos diários com a natureza para alcançar clareza, mobilidade e paz. É hora de parar com a correria e começar a cultivar um estilo de vida onde a vitalidade surge da simplicidade.

4 comentários:
Caríssima Vera,
Diria que encontrou o seu paraíso particular, esse estágio de "eremita seletiva" que, vistas bem as coisas, é a forma mais elevada de liberdade.
Identifico-me profundamente com esse percurso. Também eu elegi o campo como projeto de refúgio, uma construção a longo prazo onde o sossego é o material principal. Por agora, durante a semana, ainda é o relógio quem dita o ritmo e a "moedeira" do corpo tenta, por vezes, ensombrar o espírito. Mas é precisamente aí que entra a perspetiva otimista de que fala: o sol que espreita entre compromissos, a antecipação de uma ida ao teatro no sábado e, claro, os meus rituais de evasão.
Para mim, essa "ponte" para a tranquilidade faz-se muitas vezes em duas rodas. Há uma simplicidade quase japonesa — já que os mencionou — no ato de conduzir uma scooter pela cidade ou pelas curvas que levam ao descanso. O vento no corpo não é apenas deslocação; é um prenúncio de liberdade, um "slow movement" que nos devolve a escala humana antes de chegarmos ao destino. E, ao chegar ao recolhimento, adotei um novo hábito: deixo-me ir ao som da música clássica, com o temporizador do rádio a marcar o compasso final do dia. É o meu pequeno ritual de descompressão, uma forma de garantir que a alma adormece em paz, longe do ruído frenético do mundo e das guerras que o compõem.
Que os seus hábitos japoneses e o seu fogão continuem a ditar esse tempo bom. Daqui, sigo inspirado pelo seu "vagar".
Um abraço
https://www.youtube.com/watch?v=6THHrPyZQuQ&list=RD6THHrPyZQuQ&start_radio=1
Obrigada. Uma música sempre a acompanhar a disposição do dia! Um bom dia!
Sabe, Daniel, quando falo diariamente com os meus filhos, e estão no trânsito a caminho de casa ou acabaram de chegar e já é tarde, e quando penso nos stresses diários pelos quais também passei durante uma vida inteira, penso: 'o que eu andei para aqui chegar'... Por isso, acho importante que o trabalho não absorva completamente o dia a dia, e, também, que não extinga a capacidade de uma pessoa continuar a maravilhar-se quando deixa de trabalhar. A vida é uma bênção, não só a nossa mas a de todos e de tudo o que nos rodeia. Saibamos desfrutar o privilégio de a aproveitar bem, mesmo que apenas no agradecimento pelas pequenas coisas que nos é dado presenciar na nossa vida quotidiana.
Quando leio sobre os seus prazeres nos seus percursos sinto que, felizmente para si, sabe prestar atenção aos pormenores, sabe ver o que está para além do óbvio, sabe sentir a graça de contemplar. Que assim continue, Daniel.
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