Há pequenas coisas, insignificantes. E, no entanto, ficam. Por exemplo, lembro-me de estar no meu gabinete, ocupada, provavelmente a atender um telefonema, e estando lá dois colegas, amigos, ao precisar de alguma coisa, pedir a um deles que me desse uma coisa que estava dentro da minha carteira (carteira, no sentido de malinha de mão). Para meu espanto, recusou-se. Eu intrigada. Porque não? 'Tenho sempre medo do que se pode encontrar dentro de uma mala de uma senhora.'. O outro disse o mesmo. Fiquei com imensa vontade de rir mas compreendi.
O meu marido, se precisa de alguma coisa que esteja dentro da minha pequena malita (e vou dizer assim para não se confundir com a carteira de moedas ou documentos), também se recusa a procurar. Por mais que eu insista, recusa-se. Não sei se também tem medo.
Durante muito tempo, provavelmente durante a maior parte da minha vida profissional, usava carteiras grandes. Isto é, malas grandes. Ou de mão ou de usar ao ombro. Na altura não havia Parfois ou afins. Ou, se havia, eu não as frequentava. Usava malas de pele. Tinha a preocupação que fossem de boa qualidade, que tivessem compartimentos, que fossem grandes. Cabia lá tudo.
Contudo, frequentemente interrogava-me se não seria era peso a mais. A minha mãe pegava nelas e ficava espantada, dizia que era um disparate, que forçosamente me faria mal às costas. Mas não me parecia possível reduzir a sua capacidade com tanto que lá tinha que colocar dentro.
Uma vez, tinha ido à loja das lãs comprar material para os meus tapetes de Arraiolos. A lã era vendida a peso. A senhora, para acomodar as meadas, pegou na minha mala, que eu tinha colocado no balcão, ao lado da balança, e, no acto, soltou uma exclamação. 'Ai, credo! Que é que tem aqui...?!'. E, divertida, pediu: 'Posso pesar? Já agora, só para ver...'. Já não me lembro, não sei se seriam uns quatro quilos, tenho ideia disso mas não garanto que não fosse até mais. A senhora riu-se: 'Ah pois, logo vi... E consegue andar todos os dias a carregar esse peso...?'. Sim, conseguia, não me fazia diferença.
Mas, daquela vez, fiquei mesmo a pensar naquilo.
E acabei por me declarar vencida.
A partir do momento em que me rendi à necessidade de ser mais criteriosa e a ter que fazer, de vez em quando uma limpeza, repesquei uma que tinha, de pele, redondinha, pequenina, em tom pérola, com uma rosinha também em pele. Na altura, tinha-a comprado para a levar a um evento qualquer, uma pequena bolsinha.
Pelo meio já usei várias outras, coloridas, brincalhonas, vistosas. Mas regresso sempre a esta. Parece-me o modelo, a dimensão e a cor ideal.
Ainda a uso. Mas tenho que me despedir dela, está a ficar velhinha, já está a ficar quase acinzentada, o fecho, de vez em quando, já se abre, o fechinho já não está grande coisa. Mas gosto imenso dela. Contudo, continua a andar bem pesada. O que contém é para lá do que se pode imaginar. No outro dia, esvaziei-a para reduzir o peso e fiquei, como sempre fico, espantada com o que lá encontrei. Por exemplo, uma molinha dourada do cabelo que julgava que tinha perdido. Por exemplo, um batom de que gostava imenso e que também tinha dado por perdido. E ganchinhos e elásticos para o cabelo. E uma amostrinha de perfume para um just in case. E um balm para os lábios. E um pequeno creme para as mãos. E uma pequena lanterna de manivela. Tudo escondido, lá para o fundo, debaixo de outras pequenas carteiritas, umas para documentos, outras para moedas. E lápis e canetas e chaves, algumas nem sei bem de onde. Uma miríade de coisas. E estou a falar de uma malinha que terá de diâmetro pouco mais que um palmo aberto. Não me perguntem como lá cabe tudo. Mas cabe. Um fenómeno.
Não sei como há quem tenha poucas coisas, tudo organizado. Metem a mão e encontram à primeira. Admiro pessoas assim. Invejo-as. São tudo o que eu gostava de ser. Eu nem pouco mais ou menos. Se quero uma coisa, enfio a mão, dou uma volta às cegas e, se não encontro, desisto. Ou estou em casa e posso esvaziar tudo em cima da cama ou do sofá para uma inventariação a preceito ou dou por causa perdida. E o dramático é que nunca consegui arranjar uma solução para este problema. Não sei o que é que isto diz sobe mim ou sobre as pessoas que são o meu oposto mas, de certeza, diz qualquer coisa. E temo que não seja bom para mim.
Se calhar, é por isso que acho tanta graça a ver os vídeos em que pessoas conhecidas revelam o que têm dentro das suas malas. Sinto-me menos caótica. Ou melhor, penso que não sou a única a não conseguir evitar o caos numa situação aparentemente tão fácil de ultrapassar. Quando vejo o meu marido com uma única carteira (neste caso refiro-me a carteira mesmo carteira, para documentos e notas), e, ainda por cima, super arrumada, que fecha sem problemas, e a não sentir falta de mais nada, interrogo-me como é possível. Mas, pelos vistos, é.
Dentro da mala Hermès Birkin de Dua Lipa | Dentro da Bolsa | Vogue
A cantora e atriz Dua Lipa abre, em exclusivo, a sua Birkin alegremente decorada para a Vogue. Entre molho picante, o seu diário, um patinho pequenino, uma câmara digital, furikake e muito mais, cada item conta uma história. A vencedora do Grammy ainda fala sobre “Two-Dollar Steve”, explica por que ama fones com fio e partilha as aventuras da sua divertida viagem honky-tonk a Austin, Texas.
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