Só espero que França, Inglaterra, a Bélgica ou qualquer outro país europeu não caiam na esparrela de enviar navios de guerra para o Estreito de Ormuz sob a chantagem de Trump. A situação é crítica e podemos estar em vias de enfrentar graves disrupções de abastecimento, mas, ainda assim, não faz sentido enviar carne para canhão para alimentar o desvario de Trump e dos outros palhaços que o rodeiam, mormente o bronquésimo Pete Hegseth. É deixá-lo provar o veneno que ele próprio se gaba de espalhar. Não é ele que diz que vai continuar a atirar, nem que seja pela piada de o fazer? Trump says US may strike Iran’s Kharg Island oil export hub ‘just for fun’. Sem ajuda talvez o demente narcisista perceba que tem que recuar. Embora, mesmo que um dia capitule, nada apagará o estrago, o irreparável estrago, a todos os títulos irreparável, que já causou. Criminoso.
Igualmente só espero que os cobardolas europeus, incluindo Montenegro (não esquecendo o Rangel, verdadeira chicken), que não souberam demarcar-se do demente presidente dos Estados Unidos -- que, pela mão do assassino Netanyahu --, lançou esta guerra estúpida, desnecessária e de gravíssimas consequências, sigam o exemplo de Giorgia Meloni. Se todos os europeus, a uma só voz, se demarcassem, alto e bom som, de Trump, tal como se demarcaram de Putin (e não falo de Órban pois há mais marés que marinheiros e tenho esperança que a Hungria um destes dias se veja livre dele), talvez Trump pensasse duas vezes antes de se meter em alhadas. Mas, mesmo que não pensasse (porque já se viu que é cavalgadura pouco dada a pensamentos), talvez os congressistas tomassem mais alento para avançar para o que deve ser feito. Avançar ASAP -- antes que seja tarde demais (se é que já não o é).
Só espero também que a União Europeia, atordoada com a irrelevância com que é olhada pelos facínoras que parecem estar na crista da onda, não ceda à tentação de se juntar aos piores com receio de ser ainda mais irrelevante. É que, volto a dizer, há mais marés que marinheiros e, um dia, talvez não muito distante, pelo menos assim o espero, os que agora parecem estar na crista da onda estarão sob ela, a estrebuchar para sobreviver. Tenho para mim que, uma vez que não há mal que sempre dure, não tarda muito o dia em que toda esta horrenda corja estará na prisão, enfrentando, no mínimo, prisão perpétua.
Penso muitas vezes, naqueles momentos em que a minha veia de optimista e de sonhadora tentam levar a melhor, que talvez, das brumas, venham a surgir aqueles que, em conjunto, vão saber travar esta deriva bélica e suicidária e restaurar os maravilhosos tempos de paz de que nunca mais deveríamos abdicar. Mas onde um Churchill, um de Gaulle, um Roosevelt? Onde os estadistas que sabem subir um degrau e pensar no mundo, pensar no futuro, pensar no bem da humanidade?
Quando vejo que Melania (que, com um desplante inaudito se gaba do que não é, descrevendo-se a ela própria como 'uma visionária'), que, ao fim de não sei quanto tempo a viver nos Estados Unidos ainda não sabe falar um inglês escorreito e que não tem quaisquer credenciais ou competências, presidiu ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e que os representantes dos outros países aceitaram fazer parte daquele circo, ou que Trump envia como seus representantes para negociar a paz noutros países, mormente naqueles em que se coloca ao lado do agressor, (ou, melhor, para negociar de reconstrução pós guerra) o genro e um outro pato bravo e ninguém se recusa a reunir com aqueles dois descredenciados, fico desconsolada de todo. Não há quem se erga, saia da sala e diga que já chega de palhaçada?
Sempre fui furiosamente contra tudo o que vagamente se assemelhasse a teorias da conspiração. Se há uns tempos me viessem dizer que, na volta, Trump anda a toque de caixa do Netanyahu ou do Putin porque estes o têm agarrado pelas goelas, quiçá pelos testículos (pois, segundo dizem, basta um apertãozinho menos cuidadoso para já doer), porventura porque têm provas irrefutáveis que o conduziriam de imediato à prisão, eu diria que não me viessem com cantigas. Agora, depois de tudo o que se tem vindo a saber na sequência da libertação dos ficheiros Epstein e na sequência do que muitos ex-apoiantes de Trump, nomeadamente de congressistas e ex-congressistas e alguns dos mais sonantes vultos do podcast político americano, têm vindo a divulgar sobre o poder de Israel sobre o Congresso, já não digo a mesma coisa.
Também não me tinha apercebido da influência brutal, do verdadeiro poder manipulador e mesmo estrangulador, que os grandes bilionários deste mundo, talvez em especial os das tecnológicas que dominam as redes sociais, a inteligência artificial e os grandes conglomerados da informação têm sobre a condução dos destinos do mundo.
A minha visão do que se passa é hoje menos inocente e, logo, mais preocupada. Aquela imagem de que somos meros peões num jogo de que mal conhecemos as regras está hoje muito marcada em mim. Hoje sei que estamos indefesos. E, pior, sei que mais depressa se atacam e deixam morrer os indefesos do que alguém mexe uma palha para impedir os agressores de continuarem a espalhar o mal. E sei que esse mal existe tantas vezes por nada, a troco de nada, a troco de parvoíces, de desvarios, de imaturidades.
Salva-me deste estado de espírito (talvez um realismo que chegou tardiamente à minha vida) a capacidade de me alhear, de me encantar com os musgos, com os líquenes, com as flores, com o canto dos pássaros, com as folhinhas que nascem pela primavera. Ia acrescentar: e com os meus meninos. Mas não é verdade. Preocupo-me com eles, preocupo-me cada vez mais. Em que raio de mundo estão a entrar agora que são adolescentes ou a caminho disso? Tanto que eu desejava para eles um mundo de paz, de fraternidade, de prosperidade. E, afinal, o mundo está cada vez mais perigoso, mais pejado de falsidades, de manipulações, de inimizades, menos inclusivo, mais egoísta, mais enraivecido, mais brutal. Preocupo-me, pois, sempre que penso neles, e penso tanto.
Mas, enfim, coração ao alto. É madrugada, a casa está silenciosa. Pelo menos, por aqui os mísseis não rasgam os céus e, por isso, devo dar-me por contente. E amanhã voltarei a andar pelos campos à procura de flores, de rebentos, de bagas para olhar por dentro, para fotografar. E isso é bom.


9 comentários:
É um desabafo necessário. Sentimos esse "chumbo" no ar, uma estranheza perante o surrealismo das figuras que hoje ocupam os palcos do poder. Mas há algo de profundamente resistente nessa sua última nota: a de que, enquanto o mundo parece desmoronar-se em jogos de força, a primavera continua a ocupar-se de fazer nascer folhas e o silêncio da madrugada permanece um reduto de sanidade. Que as flores e os rebentos lhe tragam o alento que as notícias nos tentam roubar. Um bom domingo.
Hoje estava a ouvir Nuno Rogeiro na SIC, e a dada altura, apresenta um quadro com as percentagens das capacidades de armamento nas várias valências que ainda resta ao Irão. Então, segundo o gráfico, só o armamento de artilharia e carros de combate, (portanto, exército terrestre) estão ainda com capacidade de 60 a 70%, o restante equipamento, de misseis; aviões; submarinos e rampas lançamento de toda a ordem para resposta aérea na guerra, estão reduzidos a uma média de 15 a 20%.
Como o exemplo desta guerra, fez mudar o mundo ao nível de forças armadas. Dantes eram os militares dando o corpo às balas, é que morriam. Agora, são as populações que morrem, com os militares sentados nos gabinetes de comando a carregar no míssil para disparar a 4000km de distância atravessando países até ao alvo destruindo cidades em minutos com a carnificina civil que conhecemos.
Com o desenvolvimento tecnológico e científico no armamento desenvolvido ao minuto, os exércitos dos países deixam de ser numerosos em militares, para em número reduzidíssimo, passarem a ter a Engenharia Aeronaval dada a especificidade da tecnologia utilizada. Logo, exércitos pequenos, alta tecnologia galopante, e soldados cada vez menos mortos e acidentados, ao contrario, populações dilaceradas vítimas da alta tecnologia.
Para aqueles que são contra o SMO, começam a ficar descansados, porque já não são necessários para limpar casernas, cuidar jardins, levar os filhos do oficiais ao colégio etc, qualquer empresa de limpeza trata dos gabinetes onde se dispara o míssil. Agora, para a malta de engenharia e afins, o futuro é risonho nas Forças Armadas, digo eu.
Para alegrar o pessoal, este Himno a la Alegria sempre bom de ouvir:
https://www.youtube.com/watch?v=J9J85rkqEzI
ccastanho, é bastante discutível que reduzir equipamento militar de vanguarda aérea ou naval de um país via missel seja sinónimo de conquistas militares. Tenho as maiores dúvidas que estejamos a assistir a uma "guerra".
O Irão está no top-20 dos países com maior poder militar do mundo. Jamais um país iria pôr em causa o seu poder militar humano, é talvez a sua maior riqueza.
Tem cerca de 600 mil militares, mais 300 mil na reserva, mais 200 mil paramilitares. Tem 41 milhões de pessoas aptas para o serviço militar, dos quais todos os anos 1 milhão e 400 mil entram na chamada idade militar. A dispersão deste gigantesco potencial militar, mais de 1\4 do poder militar do país, para fazer uma guerra de tipo defensivo nas zonas montanhosas do país e nos seus túneis fariam dessa guerra um autêntico desastre, a todos os níveis.
Interessante, esta cabeça.
https://www.rtp.pt/play/p16274/e913080/primeira-pessoa
Meu Caríssimo. Anónimo.
Como muito bem diz, o Irão é uma potência militar com todo esse efetivo de homens, pergunto: serve para quê, quando já foi arrasado pela alta tecnologia aérea e naval Americana e Israelita?
O que esta guerra nos mostra, é que as paradas de exércitos autocráticos para alimentar egos e ostentações de poder, bem alinhados, e de uniformes bem cuidados, sucumbem ao disparo de um simples drone de baixíssimo custo, mas de elevada tecnologia. Veja por exemplo a Ucrânia que desenvolve tecnologia de drone, em abrigos de 3 ou 4 m de área e combate contra armas russas de altíssimo valor económico, com custos brutais. Para os russos. Portugal também já está na frente nesse desempenho tecnológico como sabe.
Olá Daniel. Tenho a sorte de ser muito primária. Rapidamente mudo o registo. Salvo casos que me atormentam de uma forma muito íntima e intensa (como aconteceu, por exemplo, nos tempos que precederam a morte da minha mãe), tenho a capacidade de, uma vez deitado cá para fora o que me preocupa, facilmente passo para outra. Neste caso, em que o mundo anda virado de pantanas, estou preocupada, preocupada, preocupada. Mas como sei que o mal está numa escala dilatada à qual não consigo aceder, tento abstrair-me... e, nem que seja por momentos, consigo. Foco-me nas coisas boas da vida e a verdade é que, pelo menos nesses momentos, esqueço-me das desgraças totais que grassam pelo mundo...
Obrigada pelas suas palavras, Daniel, e votos de uma boa semana.
É verdade. E é tanto assim, quase virtual, que há uns palermas, como os parvalhões da Casa Branca que fizeram um vídeo sobre esta guerra que mistura videojogos e imagens de filmes de aventuras. E concordo plenamente: poupam-se as vidas dos militares mas esquece-se a vertente humana das cidades que são arrasadas à bomba. Uma chacina. E, neste caso, com as televisões impedidas de transmitir imagens de proximidade da guerra, em que não vemos gente a chorar, rastos de sangue, gente estropiada a ser levada em macas ou tapadas com lençóis, ainda parece mais virtual...
Tempos bárbaros, cruéis, em que o direito internacional já de pouco vale...
Muito obrigada pela alegria do hino. Uma boa semana para si, Ccastanho.
Vou ouvir. Obrigada pela dica!
não ponho em causa a importância das armas modernas, mas o seu grande erro é achar que o exército iraniano não iria impor uma guerra brutal se os americanos invadirem o seu território. Por outras palavras, o exército iraniano não sofreu quase nada com isto, é bem provável que haja muito potencial bélico escondido. Todos os analistas internacionais dizem que a invasão seria um disparate completo. Respondendo à sua questão: o efectivo de homens serve primeiro para disuasão, segundo para uma guerra defensiva à moda antiga, que é bastante eficaz.
A guerra na Ucrânia não é comparável, é uma guerra em duas frentes, uma em domínio posicional que já custou a vida estimada a mais de 1 milhão de russos e a mais de 200 mil ucranianos (como vê, não há guerra moderna sem soldados), e a outra uma guerra de desgaste psicológico, à base dessa tecnologia moderna que atinge Kiev, que não é um alvo militar.
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