Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, agosto 11, 2018

Pensamentos perdidos, casamentos gays, uma luz dourada e doce sobre o mar, gaivotas.
E o tempo que falta.





Estou com vontade de escrever uma história e isto porque, há bocado, em conversa ao jantar, depois de ter andado a ver o mar e a fotografar tudo o que mexe, me ocorreu uma cena. E tão delirante ou hilariante ela me pareceu que estou com aquela sensação de que tenho que pô-la a ver a luz do dia. E como me parece altamente improvável que, no contexto actual, a possa passar à prática, parece que a única maneira de a valorizar como ela o merece é inventar uma história e implantá-la lá no meio. Uma espécie de obrigação moral que, de repente, me caíu em cima.


Mas acontece também que, tão longo e cheio de arrelias e perplexidades e revoltas e fúrias e desprezos e incompreensões foi o meu dia que, a esta hora, tendo chegado há pouco a casa, o que me apetece é pôr-me para aqui feita maria-zonzinha, atapetada em preguiça, olhando vagarosamente as fotografias e ouvindo religiosamente a música que vai passeando sobre o meu corpo que, involuntariamente, se abandona.

Estava um fim de dia tão bonito. Fresquinho, uma aragem um pouco fria mas com uma luz derramada sobre o areal e sobre o mar quase de cortar a respiração. 
Não. Vou reescrever a parte da luz para ver se a banalidade do corte da respiração não desvaloriza a beleza a que me foi dado o privilégio de assistir. 

A luz era muito bela e doce, quase como se quisesse que mar e céu se fundissem.
Treta. Há dias em que eu devia limitar-me a despejar aqui as fotografias e manter-me de bico calado. Escrevo duas palavras de olhos semi-cerrados e acordo a meio da quarta sem saber bem o que saíu. Quanto mais calorias o meu cérebro consome durante o dia mais esvaziada a cabeça se sente quando a meia-noite se aproxima. Penso que deve ser a esta sensação que se chama boa noite, cinderela.
Olho para a televisão enquanto ouço a música. Um casamento. Cena bonita. Dois homens de uma certa idade casam-se. A seguir um desaguisado com um padre que tem mesmo cara de cínico e isto para não dizer parvo. Agora já estão a comunicar que têm que vender o apartamento. Parece que o barbudo que se desaguisou com o padreca foi despedido.
Pelo meio, estive a falar ao telefone com a minha filha. Fala-me de uma vila que diz que é muito bonita, não muito longe da nossa casa de campo. Tem um nome que também é bonito. Penso que conheço o país e, afinal, a toda a hora me falam de lugares que não conheço. No tempo que usei a viajar por outros países e a ir para a praia noutras paragens devia era ter andado a conhecer o meu país. Houve alturas da minha vida em que fui ainda mais parva do que sou agora. Se é que isso é possível.

Antes, durante o copo-de-água, uma mulher muito simpática disse que só de olhar para a comida engordava. Às vezes penso que isso também me acontece. Outras vezes sou honesta. Hoje sou: assumo que deve ser do bolo de chocolate com morangos que comi ao jantar. Mas foi a meias, só deve engordar metade. Que arrependida fico quando olho para a minha indecorosa barriga aqui mesmo à vista, quando deveria estar discretamente oculta.

Se calhar devia ver com mais atenção. O filme da 2, quero eu dizer. Agora a família discute na escada, naquela solidariedade alheia e fortuita que não dura muito. O que parece o Quintanilha parece que é pintor. A música do filme é bonita. Não sei se é filme ou série. O casal gay é simpático. Na verdade, também tendo a solidarizar-me com os casais gays, talvez porque acho que muita gente os vê quase como se fossem deficientes, uns a precisar de desprezo, outros a precisar de donativos. Eu olho e vejo-os como gente normal. No entanto, cá no fundo, acho que uma relação homossexual não deve ser tão descontraída como as heterossexuais que não precisam de estar à defesa ou envoltas numa carapaça de indiferença para suportarem bem os olhares de través.


Estou a ouvir uma voz que acho que conheço, uma voz bonita, um pouco rouca. Parece a voz da Debra Winger mas a mulher parece quase velha. Não pode ser. A Debra Winger é a jovem do Oficial e Cavalheiro e será forçosamente inocente e teenager para o resto da vida. Tenho que tirar a limpo. Apareceu e desapareceu logo: um papel de meia dúzia de falas, nem deve vir no elenco.

Bem.

Queria ter falado daquele momento que a gente sente, com emoção, que vai ser perfeito: a neblina envolvendo o poente, as silhuetas de navios ao longe, a gaivota a cruzar os ares ou, antes, a luz muito dourada, a cidade do outro lado completamente abstracta, um vago recorte no horizonte, como se fosse não mais do que uma pintura sem gente lá dentro, e o mar muito tranquilo e o pequeno forte a meio e, então, deslizando naquele céu maravilhoso, uma gaivota. Largas asas, largo o vagar, largo o seu tempo, imaterial. E, então, a gente dispara. Suspende o tempo. O momento para sempre eterno.

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Combien de temps...

Combien de temps encore ?

Des années, des jours, des heures, combien ?



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