terça-feira, maio 12, 2020

Raposas metafísicas in heaven e outras conversas de nada





De manhã eles ficaram no estúdio e nós dois ficámos aqui, cada um nas suas reuniões. A casa estava um sossego. Juntámo-nos um pouco antes do almoço. Acabei uma reunião e, não os tendo visto, fui dar a minha caminhada enquanto ligava à minha mãe, convencida que ia encontrá-los. Mas não. Quando regressei estavam ao pé do miradouro, já tinham vindo do passeio deles.

Passado um bocado, já o mais novo estava numa aula, isto enquanto almoçava. Para conjugar as aulas de um e de outro, as reuniões da mãe e para apanharem uns minutos de sol e esticarem as pernas, a primeira aula da tarde foi com o prato à frente. Coisa, para ele, pacífica.

A seguir, vieram os dois instalar-se perto de mim. Estava eu concentrada, ouço o mais novo a apontar para o tecto: 'Está ali uma aranha com asas...' e o irmão a dizer, como se na continuação da frase '... que se chama melga...' e o mais novo '...e parece que está a saltar...' e o irmão '...chama-se voar...'. 

Farto-me de rir com eles. Logo a seguir já andavam em cima do sofá, de almofadas na mão a tentar dar cabo do animal.

Também encontraram uma caracoleta. Isto no outro dia. Pediram-me uma caixa. A única que arranjei, assim de repente, foi uma caixa de ovos vazia. Pediram-me cenoura e puseram lá o caracol. Deram-lhe um nome e decretaram que iam ser amigos para todo o sempre. Não me lembro se é Budd mas, se não for, é parecido. À tarde, o caracol já era. Contudo, hoje voltaram a descobri-lo. Ficaram todos contentes. O bff estava de volta.

Já viram o gatinho banco e cor de mel. Também já viram muitas lagartixas. No outro dia, quando estávamos a passear, perguntaram-me se também haveria raposas. Contei-lhes que o vizinho da ponta da rua nos tinha dito que às vezes levava a burrinha para o pé do rebanho pois, com a burra por perto, as raposas não se aproximam. Na altura fiquei muito admirada e ainda hoje o estou. Os meninos quiseram saber se cá dentro da quinta também as há e eu disse que não sei mas que gostava que houvesse. E gostava mesmo. Não sei se fazem algum mal mas estou em crer que não. Se tivesse galinhas recearia por elas mas, não as tendo, acho que seria pura fruição. Raposas ruivas e sedutoras ao cair do dia, lobos deslizando pelo escuro, leopardos azuis a atravessarem as madrugadas. Bichos que me cativam e tentam. Rosas abstractas perfumando os sonhos. Digo eu. E eu, já me conhecem, sou assim, dada a rêveries e conversas malucas.

Agora interrompi esta escritaria pois recebi um mail e, antes de aqui regressar, espreitei as notícias e li sobre uma espanhola de 113 anos que recuperou da covid e que o sintoma que teve foi uma infecção urinária.
Voltei a pensar: será que já apanhei a bicha dos totós cor-de-rosa? Conto. Não sei quando, talvez em Fevereiro, andei a sentir-me doente. Não sou de me sentir doente (noc-noc-noc, já bati três vezes na madeira) mas andava mesmo em baixo. Comecei por uma tendinite num ombro. Dores, dores, quase sem conseguir levantar o braço. Sem fazer ideia de como aquilo tinha aparecido. Dias depois, uma constipação e a sentir-me em baixo. Os olhos chorosos e tosse, tosse, tosse. Tosse seca, mas uma tosse absurda. Não sou de me assustar nem de ir facilmente ao médico. O meu marido dizia: vai ao médico. E eu que nem pensar, uma porcaria de uma constipação. Mas uma noite, tais os ataques de tosse, sem conseguir dormir, às tantas quase me asfixiava, sem conseguir parar. Fui mesmo ao médico, já cansada, já aflita de tanta tosse. Tratei-me e fui melhorando. Três ou quatro dias depois uma infecção urinária também vinda do nada. Uma coisa mesmo estúpida e dolorosa. Tive que voltar ao médico. Antibiótico. E três ou quatro dias depois, também do nada, uma dor de garganta insuportável. Nem conseguia engolir. Espreitei. Tinha um enorme ponto branco na garganta, as amígdalas inchadas. A sentir-me doente, sem saber outra vez o que fazer e a achar esta sucessão de coisas muito bizarra, meio envergonhada, quase como se estivesse a inventar doenças, voltei ao médico. Ele também admirado. Perguntei-lhe: 'mas haverá relação entre tudo isto?'. Achou que não mas reparei que estava também um bocado admirado. Tratei-me. Acabei por ficar bem e já lá vai.
Por essa altura uma colega andou também francamente em baixo, constipada, apanhada, uma tosse de dar medo. Foi para casa. Ouvíamos falar do vírus mas era coisa longínqua. Ela com tosse imparável, febre todos os dias ao fim do dia, durante semanas. Ela própria, lendo sobre os sintomas que íamos sabendo da China ou de Itália, estava com dúvidas. Mas o médico disse que era uma bronquite em rescaldo. Mas não parecia bater certo. Não tinha expectoração, só febre e uma tosse seca, enfraquecida e doente.
Nesses dias, um outro colega apareceu doente, com febre, tosse, falta de ar. Teve que ficar em casa, tais os ataques de tosse, tal a febre. Dizia que não tinha expectoração, só tosse, tosse, tosse e febre. Semanas em casa até que o bicho veio oficialmente para cá e entrámos todos em quarentena.

Pode ser que nem eu nem eles tivéssemos estado doentes com o merdinhas. Aliás, a minha filha nem quer que eu disserte sobre isto pois receia que seja pretexto para me deixar de cuidados. E eu, quando a dúvida me assolava, dizia de mim para mim: 'nunca se ouviu falar de sintomas destes associados ao dito, não deve ter sido'. Até hoje, ao ver aquela da infecção urinária na espanhola. Por isso, deixa cá ver. Eu gostava de ter dito e só espero é que um dia que possa fazer um teste se comprove que sim.  Pode querer dizer que já estou livre. Volto a confessar: estou farta destes cuidados, desta coisa de me chamarem a atenção de que mexi e não fui a correr desinfectar a mão, de que toquei e não deveria ter tocado, e eu a achar que, caraças, também não há-de ser bem assim, não está tudo contaminado, bolas, não há problema nenhum aqui, no campo, no meio do nada, e, por dentro, estou é a invectivar o mundo, que se lixe o corona, que se lixe esta porcaria, bolas, que seca.

E, pronto, calo-me já. Vou dormir a ver se, em sonhos, uma raposa vem visitar-me. Uma raposa metafísica. Abstracta, esquiva, com vontade de me contar segredos. Olha, vou contar-te um segredoNão digas nada, ouve só. E eu toda ouvidos, arrepiada, com medo de não saber o que fazer com tamanha revelação. Gostava mesmo.

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Pinturas de Noronha da Costa ao som de Sigur Rós com Ekki múkk
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Be happy. Be safe. Be cool.

segunda-feira, maio 11, 2020

Longo desabafo numa noite chuvosa in heaven





Penso: se fosse tão contagioso assim, com tanta gente em circulação -- não apenas depois de levantado o estado de emergência mas mesmo antes, quando meio país continuou a sair à rua para manter a trabalhar hospitais, fábricas, infraestruturas, quartéis e esquadras, pescas, agricultura, correios, etc -- já haveria centenas de milhares ou, mesmo, mais de um milhão de infectados em Portugal. E está longe disso.

É certo que o confinamento dos que se viram proibidos de trabalhar ou que puderam trabalhar em casa ou dos que já não trabalhavam antes ajudou a quebrar muitas cadeias de transmissão. É certo também que as medidas de higiene, de protocolo respiratório e de distanciamento produziram, certamente, bons resultados. Mas, apesar de tudo, entre os que se mantiveram em circulação, a propagação foi baixa.

Refiro-me aos números oficiais, claro.

Desde o início me pareceu que, sendo isto uma coisa nova e, em muitos casos, muito perigosa -- e, portanto, a evitar ao máximo, sobretudo para que os hospitais pudessem acorrer ao necessitados -- não seria coisa que galopasse até atingir números esmagadores.

Mas, apesar de a realidade ir no sentido das minhas previsões (e da minha intuição), os números intrigam-me.

Se é verdade que por cada pessoa suspeita de estar contagiada ou com sintomas há muito mais assintomáticas, talvez cinco ou sete vezes mais, poderão já ter sido contagiadas não os quase trinta mil mas talvez entre os cento e cinquenta e os duzentos mil. Mas isso é pouco. Pouco para garantir a imunidade e muito pouco para poder ser facilmente explicável. Pelo menos para mim, é ainda inexplicável.

Entretanto, as televisões e os jornais vão divulgando linhas de investigação: pode o défice de vitaminha D influir negativamente na imunidade face ao corona ou favorecer a severidade da reacção? Ou pode, também isto, ter a ver, como tantas e tantas coisas, com a enigmática microbiota? 

Ou pode a BCG ajudar a reforçar a imunidade contra o bandido do corona?

Gostava que assim fosse. Seriam explicações razoáveis.

É que alguma coisa há que, segundo me parece, está a ajudar os portugueses a enfrentar bem o dito merdinhas. 

Se afecta com especial força os que não apanham sol ou que, por qualquer outro motivo, têm défice de vitamina D, ou os que têm uma dieta alimentar pobre ou deficiente ou se, fruto de medicamentos que tomam ou doenças que têm, os que têm a microbiota franzina ou espapaçada, ou se não tomaram a BCG ou se esta já não está activa, ou se qualquer outra coisa, isso não sei. Mas acho que alguma coisa é porque a larga maioria parece que escapa, incólume.

Em especial com a minha mãe, pela idade, sempre recomendei que apanhasse sol, que fizesse exercício, que se alimente bem, que coma mel, frutos secos, frutos frescos, ovos, legumes, que se mantenha hidratada, que faça ginástica respiratória. Tenho para mim, e isto desde o princípio, que isto é fundamental. Aliás, fundamental para resistir ao merdinhas e a tudo o resto.

Mas, se calhar, é porque isto não é nenhum ovo de colombo mas senso comum que tão bem estamos a resistir à coiseca abichanada. Isso e mais a dita BCG que era obrigatória para toda a gente e que, se calhar, ainda está activa para a maioria.

E quem diz isto para os portugueses diz para o resto do mundo, em especial para os que têm resistido melhor.

É que se não houver uma explicação assim, básica e razoável, então não percebo como é que depois de três ou quatro meses de vírus no país ainda apenas tenham sido infectados 0,27% de portugueses. Mesmo que os infectados não sejam cerca de 28.000 mas, sim, na realidade, 200.000, ainda assim estaríamos a falar de 1,96% de infectados. Coisa fraca, reconheçamos.

Agora uma coisa também eu admito como provável: que toda esta minha conversa não seja senão wishful thinking, eu a querer convencer-me duma qualquer teoria ou suspeição. O facto é que começo a ficar completamente saturada. O meu marido diz-me que o meu problema é que sou intrinsecamente indisciplinada. Talvez. A verdade é que gosto de fazer o que me apetece, quando me apetece, com quem me apetece. Gosto de me sentir livre. Isto de ter cuidado com as coisas em que mexo, isto de ter presente que, se toco ali, tenho que ir a correr desinfectar-me, isto de ter que me manter distante, de ter que andar de máscara quando saio, de não poder sair e ir ali comer um gelado, de não poder sentar-me numa esplanada a petiscar, isto de me forçar a pensar que aquele que tocou ali onde eu vou mexer a seguir pode estar contaminado... tudo isto é um massacre para mim.


Apetece-me reaver a minha liberdade de movimentos, apetece-me poder ter em minha volta todos os meus sem medo de os contagiar ou medo que tenham contactado com outros que podem estar contaminados, apetece-me não ter que estar a pensar onde é que pouso isto ou se pus aquilo onde antes tinha posto aquilo que se calhar estava contaminado. Não consigo. Isto não é para mim. Não sou de medos. Não sou de auto-flagelação. Não sou. Forçar-me a ser assim esgota-me.

E, pelo meio, como se esta paranóia não bastasse, ter reuniões em contínuo, ter mails a chegar a toda a hora, estar a fazer um telefonema e ver que estão outros a ligar a quem terei que ligar depois e ver que, uma vez mais, não vou conseguir descansar, ver que está a aproximar-se a hora de preparar o almoço ou o jantar e ver que não vou ter tempo. Não consigo gerir o meu tempo por forma a sobrar-me tempo para mim, tempo para descansar, tempo para estar na boa, na minha.

Resumindo: espero que muito rapidamente se perceba como evitar cair nas malhas da bicha covida, e que isso seja antes da vacina já que a vacina vai durar bué de meses e eu não sei se aguento esta tortura até lá.

E mais nada que o desabafo já vai para além de longo.


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As fotografias foram feitas, entre aguaceiros, neste domingo, in heaven, e vêm pela mão de Julie Fowlis que interpreta Dh’èirich mi moch madainn cheòthar (I arose early on a misty morning)

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A todos desejo uma boa semana. Haja saúde e esperança.

domingo, maio 10, 2020

No dia em que um bárbaro anão a cavalo no seu pequeno pónei e duas anãs órfãs apareceram na minha sala





Choveu. Esteve ventoso e frio. Mas à tardinha abrandou, veio um pouco de sol, deu para passear um pouco. Aliás, a meio da tarde, durante um pouco, o sol chegou-se à sala e a minha filha foi sentar-se lá fora, numa pedra, a ler e eu abri as portas de vidro para que os meninos brincassem como se estivessem na rua. Coloquei uns tapetes para que não estivessem sentados ou de joelhos na tijoleira e ali estiveram, entretidos, a montar exércitos com bonecos do playmobil. Eu, que estava perdida de sono, deitei-me no sofá grande na esperança de um retemperador cochilo. Mas não deu, estava sempre a rir-me com as coisas que os ouvia a dizer. 


Como geralmente acontece, acabaram a disputar os bonecos um do outro. Às tantas um queria um cavaleiro e o outro, para desvalorizar o objecto da cobiça e dissuadir o irmão, perguntou 'mas para que o queres? não passa de um bárbaro anão montado num pequeno pónei...' ao que o irmão mais novo, eterno sacrificado, respondeu: 'não é nada, é um cavaleiro de verdade'. Passado um bocado, a mesma coisa, o mais novo a querer uns que o irmão tinha. Que não, nem pensar, não podia dar. Em contrapartida podia dar-lhe umas 'anãs orfãs'. Olhei. Eram umas figuras femininas de facto mais pequenas do que as outras e que aparentemente não faziam parte daquele grupo. Com estas coisas, a dar-me vontade de rir a toda a hora, passou-me o sono. 


Andam todos contentes. O mais crescido, de vez em quando, do nada, vem abraçar-se a mim. Meu menino lindo.
Não falta muito para estar da minha altura. Numa das fotografias da cómoda aqui do quarto está ele, sentado, ainda mal se aguentando sozinho, casaquinho de malha, bebé fofinho e, desde sempre, sorridente e bem disposto. 
Devia estar com saudades, deve estar contente de aqui estar. A minha filha disse que o mais novo lhe disse que estavam a ser as melhores férias de sempre. Ela explicou-lhe que não são bem férias já que estão com escola e ela e nós a trabalhar. Mas não interessa, se a ele lhe parecem férias, e das boas, ainda bem, é porque são.


Da casa do meu filho chegam fotografias do belo pão que por lá se faz, vê-se e até parece que cheira a pãozinho quente e bom, desta vez feito também com farinha de aveia, escreveu a minha nora. E também fotografias dos belos acepipes que por lá se confeccionam. O mais pequeno, três anos feitos quase em vésperas do mundo virar outro, volta e meia, durante o dia, liga-nos. Quer saber onde estamos, o que estamos a fazer, o que vamos comer. De tarde, a mana estava a jogar e  mano estava furibundo à espera que a mana acabasse para jogar ele a seguir. Perguntei-lhe: 'E os pais?'. Disse que estavam lá em baixo. Nem sei se sabem as chamadas que ele nos faz. Liga para o grupo 'família' e, portanto, recebemos a chamada ao mesmo tempo. Hoje, quando a ligação ficou instável e, por um instante, deixámos de ouvi-lo, diz ele, a seguir, à tia: 'Ficaste sem rede'. Parece que nada neste novo mundo representa qualquer mistério para ele. Tem três anos e já sabe o impacto da deficiente cobertura de rede.

À noite, quando falávamos de novo, eu estava encostada à minha filha para aparecermos ao mesmo tempo na imagem e os meninos estavam atrás de mim, abraçados a mim, um com a cabeça no meu ombro e outro com a cabeça colada à minha do outro lado. O meu marido, na ponta da mesa, disse apenas: 'Distanciamento social'. Rimo-nos. A minha filha disse: 'Pois...'. Eu já sabia que não seria capaz. Nem um minuto durou. Só tenho pena de, no domingo, não ter abraçado os outros tr~es. Mas naquele dia, pelos contactos todos que tínhamos tido e, apesar de termos ido a casa tomar banho e mudar de roupa, foi prudente. Nas tenho umas saudades danadas de também os abraçar.


Voltei a não conseguir pegar num livro. Tenho sempre qualquer coisa para fazer e, quando paro, dá-me sono. E, uma vez mais, não vi quaisquer notícias. Fomos dar uma voltinha lá abaixo por volta das seis e o meu marido quis regressar a casa para ver as notícias na rtp3 pois disse que, senão, voltaria a não conseguir vê-las. Mas nem lhe perguntei o que há de novo. Provavelmente tudo na mesma.

Temos estado a ver coisas da Netflix no computador da minha filha. Estive também com ela a escolher coisas para vermos nos próximos dias. O meu marido também viu algumas e há bocado disse-me que, se calhar, era coisa boa para também termos, em especial quando aqui estamos. Na volta... Dizia-se aquela coisa de 'qualquer dia ainda fuma...' e eu, por este andar, 'qualquer dia ainda me ponho no facebook...'. Modernices. Ah, que vontade de rir me dá isto tudo.

O bebé disse que de tarde tinham ido dar um passeio a uma floresta. O meu filho depois contou onde foi. Não seria exactamente uma big floresta mas foi uma mudança de ares. É bom passear. Sinto vontade de passear. O nosso país é tão lindo, tem terras tão lindas. Penso que conheço muito mas a toda a hora descubro lugares onde nunca estive. Só que agora não sei quando poderemos voltar a ir por aí, em turismo. Só se tivesse uma caravana. Muitas vezes isso esteve em cima da mesa mas nunca nos deixámos convencer. Mas agora seria uma solução para podermos fazer turismo. 

Enfim. Sonhar não custa.


Quanto ao resto, a vida continua

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As fotografias foram feitas esta tarde e 
I get along without you very well foi o Chet Baker quem disse, não eu

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Um bom dia de domingo

sábado, maio 09, 2020

Neste novo mundo, os meninos descobrem que também sou outra




Durante quase dois meses a casa estava sempre arrumada. As coisas não mudavam de sítio sozinhas e nós também não as mudávamos. Agora tudo levou uma volta. Melhor: uma permanente reviravolta. Olho à minha volta e tudo se alterou. Pode até nem estar propriamente tudo desarrumado. Simplesmente as coisas mudam de sítio. Os meninos têm aulas, fazem trabalhos, brincam, lancham várias vezes por dia, mudam de poiso, levam as coisas com eles. Há um movimento constante cá em casa. Hoje havia ao mesmo tempo três adultos em videoconferência e dois meninos em aulas remotas, e eles sempre circulando. 

A dada altura a professora dava aula em inglês e ia mandando um e outro desligar o microfone, depois punha-os a fazer trabalhos em grupo mas mandava um estar quieto, outro desligar o microfone, outro que participasse. E eu a ter reunião e a ouvir a minha filha, a ouvir o meu marido, o outro menino a ouvir uma aula. Tempos novos.
Como o mundo mudou tão depressa... Como foi possível que tudo levasse tamanha volta e que nós, em cima de um mundo em reviravolta, nos aguentássemos em pé, alterando o nosso modo de vida de uma maneira tão radical? Custa a perceber. Se um dia por cá aterrasse uma nave espacial e de lá saíssem uns seres esquisitos a dizer que vinham tomar conta da Terra e que ficássemos sossegados como ratos assustados, em três tempos ficaríamos todos enfiados em casa, sem darmos luta, acobardados, manietados. E se a seguir chegassem outros e nos dissessem que cavássemos buracos no chão para nos enfiarmos lá dentro, fá-lo-íamos também. 
E digo isto incluindo-me no grupo dos confinados já que faço parte da grande multidão que recolheu às boxes, que se modificou de uma ponta a outra, que aceitou na boa que nos isolássemos. O medo é o nosso maior inimigo. Ou aliado -- nem sei.
Por vezes, ocorre-me que, na volta, até já apanhei o bicho e já estou imunizada. Mas o esquisito é que também não sei se quero voltar exactamente à vida antiga. Não quero. 
Enfim. Paradoxos.
Adiante.

Hoje estava eu a ter uma reunião, uma daquelas que me tira do sério -- porque a incompetência e a estupidez natural cada vez mais me tiram do sério -- e o menino mais novo, que estava a fazer trabalhos na outra sala, pegou no seu iPad e veio sentar-se à minha mesa, em frente, para me ouvir atentamente. Se eu o encarava, ele sorria e fazia de conta que voltava aos seus trabalhos mas logo a seguir punha-se a olhar para mim com uma atenção admirada. Não conhecia esta minha faceta e dir-se-ia que estava estupefacto. A seguir, o mais crescido, quando a aula acabou, veio sentar-se também e ali ficou, identicamente atento. Presumo que pouco tenham entendido, mas estavam atentos como se não pudessem perder pitada.

Acontece que, quando estou focada, nada me desfoca. Observava-os mas continuei na minha.

Ouvia que, ao lado, na cozinha, a minha filha servia e aquecia a comida. O meu marido também passou por ali, mas ao largo, para ir para a cozinha mas, habituado, não ligou.

Quando acabei, fui logo ter com a minha filha a ver se precisava de alguma coisa. Disse ela: 'Aquilo ali estava complicado...'. E logo a seguir disse aquilo que eu tinha pensado. Aqueles incompetentes apanharam-me pela frente bem como, por sorte, mais três colegas que, em conjunto comigo, fizeram uma barreira de fogo que, espero eu, tenha neutralizado a parvoíce perigosa que estava ali a armar-se. Mas e se, em vez de nós, tivessem apanhado uns verdinhos, daqueles que comem tudo o que lhes dão a comer e que comem e calam? Quantas alarvidades acontecem assim. Falava-se ali que, numa situação destas, se poderiam suprimir não sei quantos fte's aqui, ali mais outros tantos, acolá mais uns quantos. E, para quem não saiba o que são fte's, eu informo: o equivalente a tempo inteiro. Mais concretamente: uma pessoa a tempo inteiro. Isto usa-se porque, por exemplo, se eu disser que aquele empregado está meio dia sem nada que fazer e outro também meio dia, pode dizer-se que ao todo tenho uma pessoa disponível (meia pessoa + meia pessoa) pois posso passar o meio dia de trabalho de uma para a outra. Ficarei com uma ocupada a tempo inteiro (1 fte) e dispenso a outra. 

Mas isto não se pode ver assim. E não vou agora aqui explicar porquê mas dou um exemplo limite para exemplificar que não se pode usar uma lógica redutora: se tenho um director que só tem trabalho para meio dia e um motorista que também só tem ocupação durante meio dia, faço o quê? Corro com o director e ponho o motorista meio dia a ser motorista e a outra metade do dia a ser director? Ou vice versa? Disparates.

Chegam ao fim de um trabalho e gabam-se que têm um plano para 'capturar' 'eficiências', reduzindo custos que nunca mais acabam mas, se formos a espremer, são só disparates. Acresce que a maior parte das eficiências são pessoas que ficariam sem emprego. E até poderia ter mesmo que acontecer. Mas tem que se ter a certeza que é mesmo isso e que não se sacrificam postos de trabalho, poupando de um lado para se gastar mais de outro.

Não há pachorra.

A seguir ao almoço, os meninos pegaram nas suas coisas e vieram, de novo, abancar em volta da minha mesa. Tenho, pois, agora, assistência. Habituados à sua Tá que gosta de fazer comidinhas para os ver a enfardar ou que gosta de lhes dar beijinhos e que arranja sempre maneira de os deixar ser livres, deparam-se agora com uma outra mulher que fala de assuntos diferentes e que se revela surpreendentemente diferente da que conhecem.

Antes de jantar, estava eu a confeccioná-lo e a minha filha a fazer uma óptima sobremesa cuja receita tinha combinado ao telefone com a minha mãe, recebeu ela uma chamada e eu outra. Ambas de trabalho. E então andávamos as duas de telemóvel preso entre a cara e o ombro e a preparar a janta. Pelo meio, um e outro a entrarem e a saírem da cozinha. E isto também é atípico pois eu, habituada desde sempre a barafunda à minha volta, sempre precisei de espaço e sossego quando estava a telefonar. Agora já nem isso. 

Depois de jantar, ligaram os outros meninos. Meus lindos. Gostava tanto que cá estivessem todos. Sinto muita falta de os ter fisicamente todos à minha volta, todos ao mesmo tempo, vê-los a brincarem uns com os outros na maior animação e confusão. 

Felizmente temos agora o fim de semana. Não haverá reuniões, não haverá telefonemas de trabalho, não haverá stresses. Haverá limpezas, descanso, fotografias, convivência. Tão bom.


Se há coisa que me faz passar dos carretos é quando alguém fala em regressar ao trabalho. Regressar ao trabalho? Caraças. Acho que nunca trabalhei tanto. Estou é a precisar de férias.

Portanto, meus Caros, descansem também. E portem-se mal. E tenham um belo sábado. Saúde.

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Mas antes de me ir vou aqui ouvir um poema. Assim como quem bebe um copo. 


[Ah, é verdade: pinturas de Willem de Kooning]

sexta-feira, maio 08, 2020

A civeta mijona, o lama salvador, o corona seminal, a mandarina assassina.
E os avantes covid-free dos Camaradas.





As notícias do mundo são um eco tardio que aqui chega apenas quando, à noite, a casa meio adormecida, por inércia, procuro o que antes procurava com avidez.

Tal como dantes aqui eu via passar os aviões ou ouvia ao longe o rugido longínquo e constante dos carros nas autoestradas e agora, perante a ausência desses sinais, quase já nem me lembro de como era, assim com as notícias.

Há pouco, ligámos a televisão e dizia 'sem sinal'. Como os meninos a tiveram ligada à Play Station, ficámos sem saber se deveríamos desligar ou ligar alguma coisa. Afinal era simples. Mas já passa bem da meia-noite, já estou no dia seguinte. Não ouvi notícias. Não sei de Trumps, Bolsonaros ou quejandos. Também não sei bem os números. Sei que ainda não chegámos aos trinta mil que era, nas minhas humildes projecções, o valor máximo a que se chegaria no fim de Abril. Mas, fora do mundo urbano e longe das notícias, tudo isso me parece um tema bom para filmes e que um dia alguém haverá de explicar. Gostava de ser capaz de adivinhar o que vai passar-se a seguir mas não sou; o que me parece é que a vida será, cada vez mais, uma roleta russa. Alguém, que não sabemos exactamente quem, permanentemente andará a jogar aos dados num tabuleiro indefinido, com peças invisíveis, sem regras. Um mundo topológico no seu melhor. Nós talvez sejamos os dados; ou nem isso.


Mas.

Abri agora o DN e vi coisas meio incompreensíveis e relativamente às quais não me apetece aprofundar.

Por exemplo.

Uma civeta pode ser a chave para fechar o puzzle. E eu nem sabia que isto era um puzzle. Mas, pelos vistos, é. A chave para o puzzle também poderia ser coisa normal. Mas não, o elo que pode estar a faltar para ligar o morcego ao homem pode ser mais sexy que o pangolim, bicho exótico até no nome. Pode não estar sequer numa experiência macaca feita em laboratório. Agora, segundo dizem as más línguas,  a chave para perceber esta cegada pode estar numa civeta. Tive que ler uns parágrafos para saber o que é uma civeta. Sou ignorante, já confessei. Vejo que também dá pelo nome de gato-de-algália. Pensava eu que algália era aquele tubinho que se enfia num certo buaquinho para tirar o chichi para um saquinho. Ele há coisas. Afinal a civeta pode ser a tal coisa que explica o que os outros que andam a levar tiros no peito andam à procura. Nem vale a pena procurar mais. O bicho mijão é que sabe.

Mas eis que leio também que o lama pode ser o caminho para a salvação. Já não é atitude plena de misericórdia nem a da pia expiação dos pecados. Não. Agora o caminho para a salvação pode fazer-se a cavalo num lama. Não vale a pena pedir milagre a santinho. Basta sacar material genético ao Winter e ver no que dá.


Também vi que o corona foi apanhado a surfar no sémen. Ao princípio ainda pensei que seria no sémen do lama ou do civeta. Mas não. No sémen humano, mesmo. Como é que o bicho lá foi parar? A coisa não é inalada? Será que há ligação directa entre o pulmão e o testículo? É que, a ser tudo isto verdade, inspira-se o corona e ele anda, anda, e vai aconchegar-se no quentinho do tomatinho. Coisa mais fofa... Todo feito pompom com totós cor-de-rosa lá vai ele à procura de leitinho. Face a isso, o melhor é ninguém se aproximar de certos bicharocos abelhudos antes de lhes pôr uma máscara. Não tarda que apareçam tutoriais de gente habilidosa a ensinar a fazer mascarilhas para énis. Digo énis para não ferir algumas susceptibilidades. E também aconselho a que, à falta de melhor, não se agarre em qualquer coisa para fazer uma zaragatoa. E façam o favor de levar em linha de conta que honi soit qui mal y pense.

E vi também que o PCP quer fazer a festa do Avante porque, tal como a manifestação do 1º de maio não foi uma manifestação, também a festa do Avante não é um festival. Percebe-se. Também a maluqueira da Coreia do Norte não é uma maluqueira nem a maluqueira da Venezuela é uma maluqueira. O Magritte teria muito com que se entreter com estes estados de negação. Em vez de andar a escrever que o desenho do cachimbo não é um cachimbo poderia fazer pinturas com as maluqueiras dos camaradas. Ceci n'est pas une manif. Ceci n'est pas um montão de camaradas a cantar loas ao camarada Jerónimo. Aleluia, Irmãos. E mordam aqui a ver se eu deixo.


Podia ainda falar naquela bacana da vespa gigantona, bicho grandalhão, olharapo de dar susto. Uma vespa mandarina, dizem que assassina. E dizem mais, dizem que veio da Ásia de propósito para dar cabo de mais umas quantas coisas no ocidente, a começar pelos amigos amaricanos. Ao que consta não veio para dar trinca no bicho-homem mas, sim, para dar conta das abelhas. Mas é assim que os filmes começam. Parece passarinho inocente, coisa quase de abelhinha maia. Certo que mede cinco centímetros, oito quando abre as asonas. Mas, devagar, devagarinho, a mandarina, que é prima do corona, também pode vir para mostrar que, neste mundo desgovernado, quem manda são os tais do império do meio. Ou, se não for isso, é outra maluquice qualquer. O melhor é pedir aos camaradas que arranjem um argumento onde estas coisas façam de conta que fazem sentido.

Eu, pela parte que me toca, nada mais tenho a declarar.


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Há mais recriações de obras de arte no tussenkunstenquarantaine. Vêm, aqui, ao som das The Unthanks de que gosto bastante mas que sempre associarei ao dia em que fiquei sem travões e ia indo desta para melhor ao som delas. Mas tenho que isolar. Se gosto delas, tenho que me abstrair do lado sinistro-soft que há nelas.

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E saúde, minha gente. 

quinta-feira, maio 07, 2020

Notícias de um heaven de repente pouco confinado


Não vi televisão, não li notícias, não sei de nada do que se passa por aí, pelo vosso mundo. Aqui, pelo meu, reina a paz.

O dia foi bom. Muito trabalho, como sempre mas com uma boa novidade. Temos visitas e isso deixa-me muito feliz. temos agora por cá uns passarinhos fora da gaiola, à solta no campo. Passarinhos comilões, bem dispostos, a fervilhar de energia. 

Acho que ainda por aí há covides mas eu aqui, com este pessoalzinho, é como se nem nos lembrássemos de tal. Quando chegaram, cumprimentámo-nos de longe. Passado um minuto já nem nos lembrávamos de tal, já andávamos encostados, agarrados. Nada a fazer. Vieram com playstations, raquetes, computadores para a escola, uma home made tarte folhada de pera que marchou quase toda, alegria de dar gosto.

Hoje não escrevo mais, é muito tarde. Depois de se deitarem estive aqui noutra faena e agora é tarde demais. E o pior é que daqui a nada tenho que começar a minha habitual maratona de reuniões. Já tenho o almoço feito e agora vou ter que andar sempre com uma refeição de avanço que, quando a fome aperta, pode não dar tempo a ainda ir pôr a janta ao lume. 

E saudinha. A ver se amanhã me organizo melhor para aqui poder prosear um pouco mais.

PS: Queria aqui colocar, ao menos, uma musiquinha mas estava a ouvir o Nick Cave ou a Nina Simone para escolher uma mas o meu marido está a protestar, diz que precisa de descansar, que não são horas para eu estar nisto. E eu acho que ele tem razão. Por isso isto hoje é mesmo assim, na base da sobriedade. 

quarta-feira, maio 06, 2020

Este meu Dia da Mãe -- e todos os dias de todas as mães





Não sou de ligar ao dia de, em especial quando sinto que se mercantiliza uma coisa que não tem preço. 

Apesar disso, este ano, no dia da mãe, recebi um boiãozinho de vidro pintado, com terra e uma florzinha pequenina lá dentro. Foi obra da minha filha. Gostei e fiquei sensibilizada. Levou também um para a minha mãe. Muito bonitos, uma ternura.

Vou guardando tudo. Ontem estava a fazer uma limpeza e dei com um vasinho pintado, coisa do meu filho, teria uns cinco anos, e também um bonequinho de madeira com cabelo de lã, já nem sei de qual deles. Por todo o lado me aparecem pecinhas assim. Fico sempre com o coração a sorrir. Quando eram pequeninos, pelos meus anos ou pelo natal, eu sempre dizia que gostava era de receber coisas feitas por eles, fosse o que fosse, mesmo que um papelinho com um desenho, com uma dedicatória. É o que fica. Pelo menos para mim é. 


Em contrapartida, nunca fui de oferecer coisas à minha mãe no dia da mãe. Sempre achei que, se o fizesse, estaria a trair o que penso, que dia da mãe é sempre, todos os dias, sem folgas ou feriados, sempre, dia e noite. Por mil anos que passem, os nossos filhos serão sempre os nossos filhos queridos e a nossa mãe será sempre a nossa querida mãe -- todos os dias de todos os anos. Mas, quando me lembro disso, costumo dizer-lhe, mais por graça, mais para fazer de conta que estou a fazer o favor à convenção, mais para parecer que, por uma vez, sou capaz de me alinhar: feliz dia da mãe. Mas desta vez não disse. Feliz não seria palavra que pudesse condizer com aquele dia.

O meu filho também não me desejou feliz dia da mãe. Sabia que não ia ser um dia feliz.


Mas o dia teve momentos bons. Não vou dizer que não. Teve sim. Estive com a minha mãe. Estive com os meus filhos. Acabei o dia em casa do meu filho, nós numa ponta da mesa, da mesa grande do jardim, eles e os meninos na outra ponta. Tudo muito estranho. O mais pequeno intrigado. Sabe do corona mas não percebe bem que a sua Tá, que sempre o agarra e abraça e enche de beijos, agora se ponha de longe. Fica a olhar de lado, desconfiado, quase sentido. No fim, fez adeus de uma forma carinhosa, uma maturidade naquele sorriso inocente que me enterneceu. Os mais crescidinhos compreendem. Contaram coisas, perguntaram coisas, mostraram coisas. Muito bom, estar com todos eles. Que vontade de os agarrar. A toda a hora a pensar: mas faz isto sentido? será que é mesmo necessário? que mal poderia haver se eu os abraçasse e beijasse? Mas, pronto, tudo isto é estranho e uma pessoa vai interiorizando a estranheza. 


Hoje o dia também esteve assim, cinzento, abafado e triste. Mas, ao fim do dia, quando consegui ir dar um passeio por entre as árvores, ao som de um coro de pássaros felizes, quase já estava a dá-lo por perdido, eis que o céu se abriu e, em fez de se pôr, o sol nasceu. E, de súbito, sobreveio aquela poalha dourada que pousou sobre as árvores, sobre o alecrim, sobre o rosmaninho e sobre a madressilva, aquela luz mansa que adoça o olhar e a alma. E eu, que ainda tinha limpezas para fazer, fui-me a elas com mais gosto e energia.

Estive a trabalhar até há pouco. Depois da jornada do costume, que acabou tarde, vieram as limpezas e, a seguir à janta, que foi o resto do almoço, engrenei no turno da noite. Agora aqui estou, já liberta, e, como habitualmente, fui espreitar os ilustres da galeria lateral. E fui da ternura à saudade, da surpresa ao agrado, da admiração ao riso, da aprendizagem à estranheza. Até que cheguei a um que me derrubou tal a força do abraço que continha. Every Day is Mothers’ Day. Uma maravilha, um aconchego. Provêm de lá estas fotografias -- que são todas do autor do blog, Steve McCurry, excepto a última que é de Dorothea Lange -- tal como de lá vêm também as citações que mais abaixo podem ser lidas bem como a Reverie de Scott Buckley.


Motherhood: All love begins and ends there.
    – Robert Browning

It may be possible to gild pure gold, but who can make his mother more beautiful?
    – Mahatma Gandhi

All that I am, or ever hope to be, I owe to my angel mother.
    – Abraham Lincoln

Mother is the name for God in the lips and hearts of little children. 
    – William Makepeace Thackeray

Mother: the most beautiful word on the lips of mankind.
    —Kahlil Gibran

A mother’s love for her child is like nothing else in the world. It knows no law…
   – Agatha Christie


Todas as mães têm uma força imensa, uma força que move o mundo

terça-feira, maio 05, 2020

O infinito caminho





A vida da gente tem fases. Quero dizer, penso que tem fases. Mas sei lá se tem. E, se tem, nem me apetece falar disso. Não tenho sabedoria para me aventurar por caminhos de múltiplas derivações nem disposição para conversas que não levam a lado nenhum. 

O que sei, e ainda assim também não sei se sei, é que o tempo vai andando ao nosso lado e a gente vai levando a nossa vida, umas vezes na boa, na leveza, outras deslizando sobre ele, sobre o tempo, na maior, na preguiça, veleiro sobre as águas em dia de ventinho amigo, outras vezes, quando o céu carrega e as nuvens escurecem, arrastamo-nos sob ele, esmagados sob o seu jugo inexorável.


E assim, andando pelos caminhos da vida, o tempo ao nosso lado, vamos criando laços e vão aparecendo novos caminhantes. Tecemos a nossa vida e, muitas vezes, distraídos, esquecidos da fragilidade do invisível fio com que a vida é tecida. Ignorantes de tudo, não queremos acreditar que um dia nos vamos despedir de alguns. É como se fossemos unos, carne da mesma carne, sangue do mesmo sangue. Mas o tempo e a vida são mesmo assim e um dia começam as perdas. Percebemos, então, que alguns dos que nos acompanhavam já não nos acompanham. Olhamos para trás, percebemos que vão ficando pelo caminho. Com tristeza o digo: vão ficando pelo caminho. E reconhecemos, com pena, que são cada vez mais os que ficam pelo caminho.

E vamos seguindo, sabendo que um dia seremos nós. Um dia serão os outros a prosseguir. Não estaremos cá para o lamentar. Talvez nos recordem. Mas isso já não interessará. O que interessa é o caminho que se faz enquanto se pode caminhar, lado a lado, partilhando o amor pelo mesmo caminho. 

O tempo vai avançando. Ou, se calhar, não. Se calhar o tempo simplesmente existe. Existe independentemente de tudo. Nós é que avançamos. Em círculo. Do nada até ao nada. Talvez, de cada vez que um novo elo se move, um novo fragmento de espaço seja desbravado. Umas vezes adiante, outras para trás, outras para os lados. Mas isso de pouco interessa. O que interessa é o durante, durante a aparente inutilidade do movimento. Mas ainda assim, só fará sentido se for pela beleza do instante, pelo afecto que une os que caminham juntos, pela boa memória dos que ficaram para trás, pela esperança nos bons momentos que ainda teremos pela frente até ao fim do nosso próprio caminho.

Não sei muito mais o que dizer. Só que a força dos nossos passos e a força dos que vão ao nosso lado e à nossa frente nos fazem continuar a caminhar. Caminhamos. Sempre haverá quem caminhe mesmo que os nossos passos se detenham. Outros continuarão a percorrer o insano caminho, olhando em frente, descobrindo os que de novo se vão juntando, lembrando os que vão ficando pelo caminho. Um caminho infinito. O inexplicável devir.

Mas não digo mais nada. Não sei o que dizer. Faltam-me as palavras. Mas também estou em crer que as palavras, aqui, não fazem qualquer falta.


segunda-feira, maio 04, 2020

Quarentena com a Dona Helena - desta vez um vídeo clandestino sobre a ciência da coisa.
E, a propósito disto do teletrabalho, o Home do Office


Não que hoje esteja capaz de escrever, que não estou. E se algumas dúvidas fervilham dentro de mim. Por exemplo, isto do  corona. Dúvidas. Há coisas que gostava de ver melhor explicadas. Não cá em Portugal: no mundo. Gosto de perceber as coisas numa lógica de princípio, meio e fim. E aqui tudo está frouxo. Não gosto de me encaixar numa realidade que não compreendo. Sei que este corona é dos esquisitos, bicho novo e mal explicado. Se os cientistas andam à nora farei eu. Mas não é isso, é outra coisa. Não percebo o trilho por onde isto está a ser levado. No mundo.

Não percebo. 

Mas, com vossa licença, não estou com disposição para conversatórios (e talvez a palavra conversatório não exista mas não faz mal. É a palavra que melhor se me ajusta ao presente estado de espírito). 

Por isso, limito-me a partilhar mais um vídeo da bem informada Dona Helena que, da quarentena, nos vai brindando com alguns segredos bem cabeludos. Ou seja, úteis. Mais do que cabeludos, úteis. Hoje ela fala de ciência: descodifica a essência do bicho.



E agora o teletrabalho. As dificuldades, o stress, isto de se estar a trabalhar como se se estivesse no escritório mas, de facto, estar em casa, em ambiente familiar. Uma pessoa a tratar de um assunto sério, complicado, e ao mesmo tempo, alguém a fazer-nos sinal sobre um qualquer assunto doméstico. 

No outro dia, um jovem que trabalha comigo apareceu sentado na cama, a acomodar a almofada atrás da cabeça. Fiquei perplexa. Estava a digerir aquilo, a pensar em passar-lhe um raspanete, se eram maneiras de se apresentar no trabalho, mas felizmente contive-me. Entretanto, desfocou o fundo e eu achei melhor não aprofundar. Pensei: sei lá que condições têm as pessoas em casa. Dias depois, o fundo de novo desfocado, apareceu-lhe uma criança ao lado e ele, atrapalhado, a afastá-la. Intrigada, porque sei que não tem filhos, ia perguntar quem era. Mas ele antecipou-se: estava em casa da irmã, o cunhado tinha morrido, ele tinha ido para casa dela para ajudar em casa, com as crianças. Imagino, pois, a dificuldade em acomodar todas as emoções, todas as dificuldades. Fiquei a admirá-lo ainda mais. Como lhe deve ser difícil assegurar o trabalho nestas condições. E fiquei a achar outra coisa: esta coisa do teletrabalho tem algumas coisas boas. Muitas coisas boas. Por exemplo, faz-nos voltar à convivência em volta de nós, da casa, das tarefas mais normais da sobrevivência: cozinhar, arrumar, lavar, estarmos presentes.



sábado, maio 02, 2020

Porque é que se trabalha?





Não me posso queixar. Pelo contrário. Mas a gente às vezes queixa-se não porque tenha ponderosas razões de queixa mas porque faz parte da nossa natureza de gente. A gente queixa-se. Às vezes por razões grandes, outras por razões pequenas, outras por razões permanentes, outras por razões ocasionais.

Outra coisa: não se trabalha apenas porque disso dependa a nossa sobrevivência. Trabalha-se porque trabalhar faz parte da nossa natureza.

Pelo menos da minha faz. Comecei a trabalhar cedo e sempre trabalhei muito: estava a dar aulas em horário completo e, ao mesmo tempo, a fazer uma licenciatura que só não me punha a cabeça em água porque eu relevava os pesadelos que quase se abatiam sobre mim. Daí passei para um lugar onde trabalhava sem horários, sob orientação de um super especialista que vinha dos States para me guiar, e, ao mesmo tempo, andava em transportes, grávida até ao fim da gravidez, uma barriga de impor respeito. Depois o segundo filho, a primeira ainda pequenina, o trabalho a levar-me por todo o país. O meu marido também sobreocupado, muitas vezes fora. Toda a vida, com muito trabalho, a garantir a presença e a atenção junto dos meus filhos, razão primeira de tudo. Faz parte de mim ser assim.

Há quem trabalhe pouco, se arraste, se queixe de tédio. Nunca me passou pela cabeça ser apenas dona de casa ou viver à custa de alguém. Até a mesada dos meus pais eu tinha dificuldade em aceitar. Sou independente por natureza, trabalhadora por natureza.

Não digo que seja virtude. Na volta é mais inteligente trabalhar pouco e viver à conta. Mas, na volta, a inteligência nunca foi o meu forte.

Uma vez, o Mourinho saíu de um clube qualquer com uma indemnização de milhões. Nesse dia eu estava a almoçar com um dos homens mais ricos do país. Mas desse homem, se a gente se distrair, ninguém percebe a dimensão da sua riqueza porque também trabalha que se farta. Havia uma televisão no bar onde se esperava e ficámos ali enquanto não chegavam outros dois. Vi então alguém a perguntar ao José Mourinho onde é que ele ia trabalhar a seguir e ele a dizer que ainda não sabia. Aquilo fez-me impressão. Então, ao almoço, ainda conversando sobre isso, distraída, eu disse: 'Como é que uma pessoa que, de repente, recebe assim uns milhões ainda precisa de trabalhar?' Então, ele, aquele que estava à minha frente, encolheu os ombros e sorriu. Insisti: 'Mas não acha?'. Ele, ainda sorrindo, quase como se confessasse uma fraqueza: 'Sabe, trabalha-se porque sim, porque não se sabe fazer outra coisa, porque é como uma pessoa se realiza, porque se gosta do que se faz, porque não se sabe estar sem trabalhar'. E eu olhei para ele sem saber o que dizer, de repente recordada da sua grande fortuna. Sorri também porque ele estava a falar dele próprio e porque sei bem como ele estava a falar verdade. 
Fiz caldeirada de asa de raia para o almoço. Com abundante cebola, tomate bem maduro, batata normal e batata doce, salsa, azeite e um pouco de sal. Sobrou um bocado. Então, para o jantar, retirei o peixe, tirei as espinhas (ou melhor, aquela cartilagem fina que, por acaso até gosto de trincar). Juntei um pouco de água, um fio de azeite e moí tudo bem. No fim juntei o peixe, um pouco de coentros e uma folhinha de hortelã. Tinha cozido ovos. então, em cada tigela de sopa, juntei um ovo picado. Estava uma maravilha. E ainda sobrou um pouco.
Também andei a varrer lã fora. Debaixo do telheiro, debaixo dos bancos, o jardim, a zona das árvores de fruta perto da casa, o caminho desde o portão. Apanhei carros de folhas secas e terra que fui despejar ao fundo, na zona dos pinheiros. Agora tenho as mão doridas e secas.
Este sábado irei fazer uma ou duas máquinas de roupa, fazer limpeza ao estúdio, pôr roupas a arejar. Não sei ainda o que vou fazer para o almoço. Não sei se favas guisadas com entrecosto se frango no forno.
Não posso dizer que trabalhe muito pois sei que há quem trabalhe muito mais, em condições muito mais duras, debaixo de aflições, se calhar sem gostar do que faz, se calhar com medo de, ainda assim, perder o trabalho que tem.


Mas não se pode pensar assim pois há sempre quem esteja pior. Pode é ser-se sincero. E, por isso, falo com sinceridade quando me queixo do que me incomoda ou quando me confesso cansada. 

Podia, é certo, deixar de trabalhar. Mas deixarei alguma vez de trabalhar? Faria o quê se deixasse de trabalhar? Varria e lavava o chão sem parar, cavava, podava árvores, cozinhava, escrevia, sei lá.

Lembro-me agora de um outro amigo, alguém com quem gostava muito de conversar e com quem tinha longas e saborosas conversas, e de quem, pelas circunstâncias da vida, acabei por me distanciar um pouco. Uma vez -- tinha ele feito cinquenta anos e, para o festejar, tinha ido jantar a Paris -- disse-me: 'Sempre pensei que só trabalharia até aos cinquenta anos. Agora que aqui cheguei, acho que vou mudar de ideias'. Com quatro filhos em idade escolar, dois a estudarem no estrangeiro, cada um em seu país, outra a mudar de curso pela segunda vez e sempre desorientada e uma outra a passar um ano a levantar a nota para tentar entrar no curso que queria, perguntei: 'Mas com as despesas que tem... E não consegue reformar-se tão cedo. Como faria? Desempregava-se? Vivia de quê' E ele: 'Tenho com o que viver bem até morrer'. Disse-me que não apenas tinha  uma verba considerável aplicada como muitas casas e garagens arrendadas. Acrescentou: 'Não preciso de trabalhar para nada, apenas para me manter ocupado. E faço o que gosto.'. Uma vez eu estava a falar de um restaurante muito bom, sempre cheio, disse-me ele: 'Mas sabe que esse restaurante é meu...?'. Não sabia, não fazia ideia. Ele pensava que sim, que já tínhamos sobre isso. Mas não. Era apenas mais um dos seus investimentos. Um dia disse-me que estava todo contente porque tinha satisfeito um capricho. Perguntei: 'Uma mota?'. Riu e disse que não. 'Um barco?'. Não. Acabou por me contar que era um Porsche. No dia seguinte apareceu numa mota, uma mota brutal. Era isso, a mota já ele a tinha. No entanto, trabalhava como um normal assalariado. E ainda trabalha. 

O trabalho não é apenas uma fonte de rendimento: é uma forma de se viver, é uma fonte de dignidade, é um motivo de realização.


Pelo menos, assim o penso. Mas isso, claro, cada um sabe de si e cada um que pense pela sua própria cabeça.

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É como escrever.
Escrever para quê? Porque que é que se escreve? Para quem se escreve?


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Pinturas de Diego Rivera e música de Ennio Morricone, banda sonora de Novecento.

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Um bom sábado. Saúde.


sexta-feira, maio 01, 2020

Dizer que hoje é o Dia do Trabalhador





Já é dia feriado e ainda bem. Não sei se me aguentaria inteira se tivesse que aguentar mais um dia assim. Aliás, a semana veio em crescendo e esta quinta explodi umas quantas vezes e estive em vias disso outras tantas. Não foi fácil. Cheguei ao fim do dia exausta. Fazem-me muita impressão as situações que não percebo e relativamente às quais, quanto tento que me expliquem, fico na mesma. Por exemplo, envolvi-me tanto num assunto que é crítico, esforcei-me, entreguei-me, expliquei, sensibilizei tanta gente que, quando estava convencida que ia deixá-lo em boas mãos, vejo que não devem ter percebido nada pois o entregam a quem tem zero competências para tal. Custa-me imenso assistir (de perto) a situações incompreensíveis. Apetece-me dar dois pares de coices. Claro que situações estúpidas há em todo o lado e aberrações é o que não falta  -- e uma pessoa vai adquirindo defesas para saber lidar com tudo. Mas pior é quando se trata de uma situação deveras crítica que requereria competências à prova de bala. Não um incompetente, não um desprovido. E a culpa não é dele, a culpa nunca é dos destituídos, a culpa é dos que, sabendo que é destituído, ainda assim o escolhem. Não se compreende. Ficou furiosa. Nem é bem furiosa. É desiludida. Descrente. Desinteressada.


Mas, tirando isso, foi todo o santo dia. Parece que, de repente, tudo entrou em roda livre.

Cansada. Dá ideia que, se uma pessoa se se distrai, é atropelada por uma manada desencabrestada. 

Acontece que, em cima disso, há cada vez aquelas expressões que tudo o que é mente fraca usa e que a mim me deixam em polvorosa. Faço de conta que não ouço. Quem me veja dirá que não reparo. Mas só eu sei. Uma violência. E já nem sei se alguém, para além de mim, fica com brotoeja na alma. A coisa quando pega de estaca desenvolve-se com viço. Rebenta por todo o lado. Erva daninha. Uma pessoa sente-se sozinha, incompreendida, com vontade de hibernar, de recolher ao convento.

Explico-me. Gente que tem mais do que obrigação de saber falar, gente com formação na área das humanidades ou sei lá o quê, gente que andou nas melhores universidades e com toda a espécie de mestrados, mba's, pós-graduações e o escambau e, quando começa a falar, enfatuadamente diz: 'dizer que este período tem sido desafiante para todos' e, a cada pausa e recomeço, iniciam a frase da mesma enervante maneira, 'dizer que estou agradecido', 'expressar o reconhecimento por todos quantos', 'transmitir que o regresso não vai ser ao normal mas, sim, ao novo normal', 'isto não tem a haver com' 'mas tem a haver com'. E, ouvindo isto, eu sinto a crescer dentro de mim aquela impaciência que me faz ficar irrequieta na cadeira pois sei que tenho que aguentar e calar.

Faz-me ainda outra coisa: ter vontade de ganhar o euromilhões. Dou por mim a pensar: se me saísse o euromilhões, viria trabalhar só para sair em beleza. Deixá-los-ia falar e, quando acabassem, diria: 'não é assim que se fala, ó seus papagaios que nem ao menos sabem escolher o que papaguear. Vou-me embora, já dei demais para este peditório, já aguentei demais, e esta maneira de falar é a gota de água, deixá-los-ei com a vossa oca prosápia'. Claro que ficariam a olhar para mim incrédulos e, quando eu virasse costas, haveriam de ficar sem perceber o que se tinha passado, concluindo: 'mulheres...' Ou, então, diriam: 'Mas quem é que ela pensa que é? Nem falar sabe. Em vez de 'deixarei-os falar disse deixá-los-ei. Loura burra''.


Por vezes, quando a reunião é alargada e o tema não me diz directamente respeito ou não me é especialmente interessante, aproveito para ver mails. Sempre me poupa trabalho à noite e sempre desanuvio. Mas, então, estava eu nisto, a ver mails, dou com esta pérola: Se estiver de acordo, podia-mos deixar o outro assunto para depois para nos pudermos concentrar no problema que temos em mãos. 

Fiquei a olhar para aquilo, a sentir-me besta. Quando recebo uma coisa assim, hesito sempre entre fazer de conta que não vejo, responder arranjando maneira de escrever aquelas palavras como deve ser ou responder, assinalando abaixo, a encarnado, os erros. Se fizer de conta que não vejo, fico a sentir-me incoerente, acomodada, acobardada. Se responder usando as palavras bem escritas, corro o risco de os broncos acharem que não sei escrever. Se assinalo os erros, vão dizer que sou mal educada, deselegante, má colega. Portanto, depois de ficar a olhar, resolvi fechar o mail e prestar atenção à reunião. O que me intriga nisto é que juraria que ele, dantes, não escrevia assim. Fiquei a pensar: terá sido o corrector automático que lhe pregou uma partida? ou estará a ficar demente? uma pandemia de bestalhice?

Santa paciência.

Bem. Não digo mais nada. Não estou nas melhores condições. Nem consigo responder aos comentários.

Tenho limpezas grandes para fazer durante este fim de semana alargado mas a ver se neste dia do trabalhador arranjo maneira de poder agradecer e responder a cada um. Não levem a mal.

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Há poetas de que gosto muito. Há poemas de que gosto muito. Há pessoas que dizem poemas de que gosto de uma forma que me agrada muito. Por exemplo. Gosto dos poemas de Michael Ondaatje. Gosto de Tom O'Bedlam. A voz dele e as pausas são preciosas. E gosto deste poema, 'What we lost'.  Partilho-o convosco não apenas porque estou a ouvi-lo mas, também, porque me custaria que aqui tivessem vindo e saíssem com a sensação de tempo perdido. Assim, talvez gostem de ouvir o poema.


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As imagens -- que acho lindas -- são de Christy Lee Rogers

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Um bom Dia do Trabalhador.
Saúde.