Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, novembro 26, 2018

Diz que tenho que me esforçar mais





Choveu muito. Ainda não se conseguiu fazer uma queimada com os ramos que cortámos no verão. 

O meu marido, que é madrugador, diz que de manhã cedo não choveu muito. Sai pelo campo ainda deve ser quase de madrugada. Não sei o que faz. Só sei o que ele me conta quando volta a casa. Contou que andou com a roçadora a dar conta do tojo e das silvas. Na brincadeira, em vez de silvas, diz sílvias. Diz: andei a dar cabo das sílvias. Um dia que queira dizer bem já nem se lembra como é. 

Quando me levantei, chovia muito e depois foi em crescendo, o céu tombando em negrume, a chuva desabando com força.


Recebemos o pedido de uma pernada de pinheiro para fazer de pinheirinho. Pode parecer fácil mas não é. Os ramos curvam-se. Ou só têm ramagem de um dos lados. E chovia muito. Andámos à procura de um que pudesse ficar mais ou menos direito e que tivesse a ramagem distribuída de forma mais ou menos equilibrada. Não nos púnhamos de acordo. Mas pusemo-nos. Cortou três pernadas e limpou-as na parte de baixo. Para a semana trazemos para a minha filha. Hoje veio a do meu filho. Trouxe também uma estaca para que o tronco não se encurve.


Também trouxémos também musgo. Penso que nunca fizeram presépio. Nem as crianças devem saber o que isso é. Mas mesmo que não tenham uma Nossa Senhora ou um São José, bebés é o que não falta, nem que seja um Pin y Pon. É que, vendo bem, podem lá pôr quaisquer bonequinhos que ficará bonito na mesma. O importante é a graça de construirem todos, em conjunto, uma coisa, seja essa coisa um presépio, uma quinta, um campo de LOLs ou de jogadores da bola. O simbolismo das coisas somos nós que o fazemos e eu, nisso, sou muito versátil.

O meu filho pediu para eu tentar que a nossa bonequinha mais linda fizesse uma composição com muitas linhas pois no último teste só fez com quatro e era para ser com vinte e, teimosa como é, recusa-se a praticar. No sms o meu filho acrescentou: desde que não encostes o teu cabelo ao dela. Só não dei um salto porque estava amarrada ao banco com o cinto de salvação. Piolhos? Pois sim, respondeu ele.

Estava com o cabelo molhado, já lhe tinham posto o produto. Tinham recebido aviso da escola e estranharam que se coçasse tanto. Tinha mesmo.

Até tremo. Mas, como já estava desparasitada, espero não ter sido contagiada. Só de pensar nisso já fico com comichão.

Fomos para o escritório, para ela fazer uma composição. Dei-lhe um tema bom mas ela disse que primeiro ia fazer uma ficha para mim. Ao princípio não percebi. Depois vi que estava a preparar-me uma ficha para eu fazer: um sítio para escrever o meu nome, a data, um sítio para o encarregado de educação assinar. Eu a dizer para ela se despachar e fazer a composição e ela que primeiro tinha que fazer a ficha para eu fazer. Então escreveu perguntas, que definisse comércio, que dissesse que tipos de comércio existem, fez quadrados com letras para eu completar, mandou-me fazer o desenho de uma sala de aula. E o tempo a passar e ela sem fazer a composição. Fiz aquilo às três pancadas para ver se passávamos à fase seguinte. Não senhora. A seguir foi a vez dela corrigir a ficha. Emendou-me, escreveu as respostas que achava certas, concluíu, por escrito, que para a próxima deveria esforçar-me mais.

Com isto o meu marido já andava a pedir que eu me despachasse, o pequenino já andava a pedir papa e o mano do meio andava a cantar uma cantiga cuja letra era 'eu gostava de ter mais cromos, eu gostava que tivessem trazido cromos...'.

Portanto, não fez a composição. O meu filho gozou, disse que esperava mais de mim, que critico os métodos pedagógicos dele e afinal comigo era aquele insucesso. Reconheço. Um teimoso reconhece e respeita um teimoso ainda maior e acho que aquela menina ali saíu refinada. Nada a fazer. Pegas de caras com ela não resultarão nunca, terá de ser cernelha mas para isso é preciso tempo e eu estava sem muito tempo, ainda muitos afazeres domésticos pela frente.


Mas voltando aos meus passos em terra molhada. Foi pouco o que andei e tive que andar com o chapéu de chuva aberto. A terra ensopada, as árvores escorrendo. Muito bonitos os campos assim. Tudo muito verdinho, tudo muito silencioso, só mesmo o som da chuva e de um ou outro pássaro mais afoito.


Continuam a aparecer novos cogumelos, alguns lindos, parecem nacarados. E tão frágeis. Outros cada vez mais parecidos com folhas de outono. 




A perfeição da natureza emociona-me. Apesar de tudo ser efémero, há um permanente renascer, há uma harmonia e uma beleza que, na sua tocante singeleza, me parece o mais transcendente dos magníficos acasos. Há quem ache que a mão de um qualquer deus está na origem de tudo isto. Eu, ignorante como sou, não sei quem foi, não sei de nada disso. Inclino-me para que não foi ninguém e nessa ausência de responsabilidade parece-me estar a mais divina das inexplicações de toda a maravilha que nos rodeia.

Mas lá está, na volta, para melhor perceber tudo isto, deverei mesmo passar a esforçar-me mais.

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As fotografias foram feitas, este fim de semana, in heaven

Wilhelm Kempff interpreta ao piano Le rappel des oiseaux, de Rameau

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E, por falar em divindades, queiram fazer o favor de descer um pouco mais porque o que ali poderão ver é dessa ordem.

11 comentários:

Isabel disse...

Lindíssimas as fotos da natureza! As cores são de pintura!

Gosto dos seus galos. Também tenho uma colecção de galos e galinhas. Já não compro mais por falta de espaço.

Também já apanhei piolhos, logo no meu 3º ou 4º ano de trabalho. Nunca tinha visto nenhum:(
Curiosamente e apesar de todos os anos ter alunos com eles, nunca mais os apanhei. É aborrecido, mas já não me faz tanta confusão.

Essa menina é espertalhona! Lá se livrou de fazer a composição!...

Beijinhos:))

Anónimo disse...

1- Plágio descarado:

Uma flor diferente
para cada erva -
Magia
Matsuo Bashô

Um cogumelo diferente
para cada erva -
Magia.
Mariô

2- Cocorococó
Sugiro leitura de crónica do Pedro Mexia sobre um galo na cidade: hilariante!

3- Aquele ovo é real?

4- Provérbios:
a) Para teimosa, teimosa e meia :)
b) Quem sai aos seus...
c) Neta de Peixe (Carangueja, neste caso) sabe nadar.
Gostei!

Tenha uma belíssima semana!

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

O seu heaven e histórias com as doçuras marotas é post completo da UJM.
A maneira como a menina inverteu os papeis foi de mestre, para a próxima a UJM afina a pedagogia.

Uma bela semana.

Um Jeito Manso disse...

Olá Isabel,

Hoje teve teste. Perguntei-lhe quantas linhas escreveu na composição. Disse-me que desanove. Fiquei toda contente. Perguntei-lhe sobre que tinha sido. Respondeu: 'Sobre uma coisa'. Percebi que era mais uma, tortinha como é não podia ceder em tudo. Insisti: 'Vá, diz lá, qual o título?' e ela, implacável: 'Uma coisa'.

Ouvi o irmão por trás: 'Bolo-rei'. O meu filho disse-me: 'Também não me disse'. E ela: 'O mano disse'. Portanto, agora que fiquei contente por ter escrito as linhas devidas (ou quase), não consegui que dissesse qual o tema. Duvido que tenha sido 'Bolo-Rei'.

Imagino, para uma professora, a luta que deve ser quando apanha teimosos deste calibre pela frente.

Lembro-me que a Isabel também tem galinhas, uma até igual a uma das minhas. E a falta de espaço resolve-se: pode sempre ter uma na sua sala de aula, não é?

Beijinhos!!!!

Um Jeito Manso disse...

Quem foi a Leitora (ou Leitor) que escreveu o curioso segundo comentário? Gostei imenso.

A Gina é que fala num Mariô mas a excelentíssima aforista Teresa Borges do Canto é que tem trazido Matsuo Bashô lá aos seus atalhos de campo.

Seja quem for, escreveu um belo comentário.

E claro que o ovo é real. Um ovinho de cerâmica, real todos os dias. De lá ainda não saíu nenhum pinto nem nunca me senti tentada a parti-lo mas isso só abona a favor do ovo.

Conheço essa crónica do galo cosmopolita do Senhor Assessor. Os meus são silenciosos, apenas o aparato das suas cores grita.

Agora uma coisa: vou ficar à espera de mais comentários destes, ok? Pode ser?

Dias felizes para si!

Um Jeito Manso disse...

Olá Francisco,

Eu e a minha filha sempre foi uma zaragata pegada mas sempre mais ou menos ajustando-nos uma à outra. Teimosa e respondona mas, apesar de tudo, relativamente gerível. Com o meu filho era uma carga de trabalhos: teimoso até mais não. Quando não conseguia dobrá-lo ou quando se portava mal, punha-o de castigo. Para o quarto a pensar que não pode ser. E ele ia, furioso. E depois para de lá sair...? Não saía, dizia que estava de castigo. Tinha que tirá-lo do castigo quase à força. Muitas palmadas deve ter levado para sair de castigo. Só fazia o que queria. Mas era excelente aluno, excelente pessoa e, portanto, eu não tinha muito por onde pegar. Eu dizia-lhe: vai estudar, amanhã tens teste. E ele respondia: não preciso, vou ter 20. Eu passava-me. Mas ele tinha 20.

Agora a filha dele saíu pior que ele. Imagine-se um teimosão daqueles a lidar com uma filha mais teimosa ainda que ele...?

E eu, agora, assisto de galeria: um espectáculo ver aqueles dois.

Digo-lhe o mesmo que disse à Isabel: quando a nível profissional se apanha gente assim, teimosana, de personalidades vincadas, deve ser uma dor de cabeça, não...?

Uma bela terça-feira, Francisco.

Isabel disse...

Também dou comigo a ver os pares dos casamentos. Nunca vi nenhum programa destes, mas como este passa a uma hora que a televisão está ligada e ando por aqui, tenho visto. Até estou a torcer por este último casal que entrou, porque pelos outros, não dou nada. Sinceramente, os homens...coitados, qual deles o pior! Um parvinho, um psicopata, um bébe mimado e um conde estragado. As mulheres parecem-me bem mais sensatas e mais atinadinhas e por isso surpreende-me que estejam a participar num programa destes. Não acho normal que uma pessoa "normal" se exponha assim desta maneira. Surpreende-me que alguém o faça e pergunto-me
o que os levará a concorrer. Será que acreditam que vão realmente encontrar um grande amor? Será que ganham muito dinheiro, se chegarem ao fim? Será que querem ser conhecidos na rua?...Acho tão indigno este tipo de exposição, que não consigo compreender porque é que alguém se sujeita a isto.

Bem, mas isto é só a minha opinião e a minha maneira de ver as coisas.

Beijinhos e um bom fim-de-semana:)))

(Por acaso ter miúdos teimosos na sala de aula, é muito difícil. Tenho um que por vezes tenho que ser eu a desistir, porque insistir, ralhar, ameaçar, brincar...nada o demove. É difícil!

Uma composição de dezanove linhas já é um bom texto!)

Anónimo disse...

Hello,it's me!
Maria tree lover!
Não reconheceu logo o meu silly style?
Estive a pôr uns haikus num outro blog e achei que este (com um ligeiro retoque) ficaria bem aqui nos cogumelos.
E assinei Mariô para rimar com Bashô.
Bj

Um Jeito Manso disse...

Olá Isabel,

Sabe que também acho. Será que há um prémio para quem se aguentar até ao fim? Tanta exposição, tanta coisa estranha... para quê? Só pode ser dinheiro.

Quanto a meninos teimosos... é preciso muito saber para conseguir lidar com eles. Os professores de meninos pequenos ficam santos em vida. Sempre achei isso. Testemunhei isso pela minha mãe. E os dela sempre se portaram bem.

Beijinhos, Isabel!

Um Jeito Manso disse...

Olá, Ms Tree Lover,

E não é que não tinha adivinhado mesmo...? Mas foi um belo comentário mesmo. Gostei.

Thanks!

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Filhos da UJM, teimosos ou não, serão pessoas com P. E os netos também!

Profissionalmente tudo faz parte do trabalho, nada que não vá a bom porto uma vez o trabalho seja continuado. Há pessoas com as quais temos de colocar objetivos a um prazo mais alargado e colaborar de acordo e com as suas partes observadoras.

Um Abraço.