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segunda-feira, agosto 06, 2018

Porque é que, nestes dias tão quentes, o céu perdeu o azul e o sol parecia a lua?
[O resto, incluindo a minha receita de entrecosto com favas, está aqui apenas porque sim]




Ontem, quando chegámos, não se conseguia aguentar: estavam 47º. Ali o clima é continental, tudo muito extremado e, quando está calor, ali está ainda mais. Ou frio. Ou vento. Mas ontem estava demais. Sente-se o calor na pele, na respiração, e percebe-se que estamos no limiar do humanamente suportável se isto vier a ser frequente e prolongado.

Os pássaros estavam enlouquecidos. Não cantavam, gritavam. E, ao cair da noite, as cigarras desataram também em desaustinada gritaria. Qualquer coisa de estranho naqueles sons, habitualmente tão tranquilizadores.

Ao passo que habitualmente não consigo ver os pássaros, ontem andavam à vista, passavam de árvore em árvore, pareciam desorientados.

As uvas foram-se. Os bagos secaram. Uma tristeza. Estavam ainda verdes e pequenos. Agora estão como se vê.


E as flores a ressequirem, as folhas a amarelarem. 

Dentro de casa estava-se melhor, 32º. Não temos ar condicionado. As paredes da parte antiga são de pedra e têm metro e tal de espessura. Na zona nova as paredes também são largas e duplas. Portanto, isolam relativamente. Quando chegamos, gosto de abrir as portadas para a casa arejar. Ontem foi impossível. Nem de noite. Aliás, de noite, se abrimos as janelas com a luz acesa, entram melgas. Conseguimos estar razoavelmente à noite apenas porque ligámos duas ventoinhas.

Por volta das oito da noite reparei que a lua estava num sítio diferente do habitual. E estava cheia. 


Pensei que não podia ser. Fotografei-a, olhei-a bem. Branca. O céu cinzento, asfixiado. Todo o dia o dia o azul esteve oculto. Pensei que há pouco tempo a lua tinha estado cheia. Chamei o meu marido e perguntei-lhe o que era aquilo. Olhou e disse: deve ser a lua. Mas não estava convencido. Disse-lhe: a lua costuma estar sobre a casa ou sobre o jardim, não ali ao fundo. Fui ver qual a fase em que estava. Quarto minguante. Ontem, cerca de 53% oculta.

Fui ver de novo. Estava mais perto da linha de horizonte, ao fundo, na linha das serranias, e estava mais amarela.


Concluímos que só poderia ser o sol. Olhávamo-lo sem qualquer dificuldade. Lentamente, foi desaparecendo naquele céu triste e leitoso.

Hoje o céu manteve-se branco ou cinzento, levemente amarelado, o sol encoberto.  

O ar esteve quente, quente, mas mais suportável. 43º. 

Tal como ontem, tive que me ir molhando, bebendo ágiua fria. Estive na espreguiçadeira à sombra e fui buscar a ventoinha de pé alto. Entre ontem e hoje li um livro magnífico: 'Contos naturais' de Carlos Fuentes. Muito, muito bom. De vez em quando acontece-me ficar rendida. É uma sensação tão boa. Não consegui parar enquanto o não li todo.

Hoje, ao fim da tarde ainda peguei noutro, no 'Raul Brandão íntimo' do Vitorino Nemésio. Mas não deu. Uma pausa é necessária quando se acaba de ler uma coisa muito boa.


Ao fim do dia sentimos que a temperatura ia baixando, ficou nos 42º. Quando saímos, já ia nos 41º. Quando chegámos a Lisboa estava mais fresco, 39º. Fomos comer um gelado. Adoro gelados. 

Quando chegámos, não sabíamos o que jantar. Agora não dá para comer sopa. Fui ao supermercado. Trouxe entrecosto, favas, coentros, chouriços. O meu marido disse que não era comida de verão. Pois não. Mas o almoço já tinha sido uma salada fria. Às tantas, já não tenho imaginação.

Fiz assim: 
Num tacho, coloquei azeite, três cebolas grandinhas aos bocados, meio chouriço de carne das Beiras às rodelas, três dentes de alho, louro. Alourei levemente. Juntei uma cenourona grandona às rodelas e dois tomates bem maduros aos bocados. Juntei o entrecosto. Pus por cima alecrim e uma mão cheia bem generosa de coentros. Um pouco de sal. Quando ferveu, baixei para a temperatura 4 (numa escala de 1 a 9). Fui mexendo de vez em quando para os sabores se misturarem. Quando me pareceu que a carninha já estava a despegar-se dos ossos, sinal de que estava a ficar cozida, juntei as favas (que, entretanto, tinha deixado a descongelar), mais um bocado de chouriço preto às rodelas e, por cima, mais um bocado de coentros. Levantei a temperatura e, de novo, quando levantou fervura, baixei. Fui envolvendo de vez em quando... até que vi que estava tudo já devidamente macio.
Pois vos digo: belas. Servidas com salada de alface.

E agora que já fiz uma máquina de roupa e que já escolhi a roupa para amanhã, aqui estou a pensar se transcreva um pouco do livro. Se calhar não. É todo tão bom que desvirtuaria o conjunto se o amputasse. Acho eu. Vou pensar.


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Este vídeo e não outro mais completo apenas porque este é pequenino, vê-se num instantinho

Carlos Fuentes na primeira pessoa


...

Até já.

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