Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, abril 19, 2021

In heaven a varrer e a carregar móveis.
Na praia a ver beldades em sessões fotográficas e a ver o mar.
Em casa, feliz da vida, a começar a desconfinar.

 


No sábado estivemos in heaven. Há quanto tempo... O campo está verde, lindo, lindo, o rosmaninho todo florido, há insectos e passarinhos, há perfumes no ar, há silêncio, há paz. É o meu chão, o meu ar, o meu céu.

As duas roçadoras, a mais antiga e a mais recente, estão avariadas. Não há como cortar o mato. O meu marido foi pôr as duas numa pequena oficina na vila mais próxima. Disseram que durante a semana ligam a informar se conseguem arranjá-las. A ver se sim. Sem se ter podido mudar de concelho e agora com as máquinas incapazes, está complicado cumprir o prazo para limpar o terreno.

Andei por lá, fotografei tudo, os verdes, as pequenas flores, as árvores, as pedras, as saudades que tinha. 

Já sei que, quando o meu marido se apanhar com uma roçadora nas mãos, vou tremer: por ele vai tudo à frente. Não é especialmente sensível a florzinhas ou a distinguir vulgares ervas daninhas de plantas aromáticas. Depois já não vê muito bem. Ele acha que só não vê bem ao perto mas eu tenho algumas dúvidas. Pior quando põe aqueles óculos de plástico de protecção. A tentação dele é despachar, ir tudo a eito. E eu fico em pânico. O que eu gostava mesmo é que ele andasse com o podão a cortar, à mão, tojo e silvas, poupando tudo o resto. Diz que sou maluca, diz que, se é isso que quero, vá eu para o meio do tojo e das silvas cortar pezinho a pezinho. É um tema que nos divide desde os primórdios.

Quanto à casa, a ver se conseguimos que coincidam no espaço e no tempo nós e as pessoas que gostaríamos que lá fossem ver os arranjos que queremos fazer para fazerem um orçamento e para nos dizerem quando poderiam começar. Olho para a casa e parece que já a vejo como eu gostaria que ficasse. Na zona mais antiga da casa, a zona central, os tectos e o chão são de madeira e os varandins das mezzanines também. Tenho vontade de -- com excepção do chão, que gosto de ver em soalho -- pintar tudo de branco. As janelas dessa zona são de madeira e vidro simples. A ver se as mudamos para vidro duplo e se calhar tudo em branco. Os aros dos vidros são bonitos em madeira mas requerem muita manutenção e, em termos de isolamento térmico, são fracos. E toda a casa precisa de ser pintada. E acho que é desta que vou ter coragem para fazer aquilo que tenho vontade de fazer desde que aquela passou a ser a nossa casa de campo. Já o contei: a casa, pelo que é, é uma casa rústica e as paredes são rugosas. Não sei se é tinta de areia, se tem outro nome. Ora eu prefiro paredes lisas. Deve ter que ser tudo lixado ou estucado, não sei. Deve ser demorado e uma sujeira pegada pela casa, só poeira. Mas alguma vez vai ter que ser. Não posso ver as teias de aranha entranhadas naquelas rugosidades. De cada vez que lá chego tenho que fazer um esforço para me abstrair, senão passava o pouco tempo de que disponho, a catar ínfimos fios por entre o arenoso da parede. Se vou com uma vassoura, mesmo que envolta num pano, ou consigo a leveza de gestos que as arranque, ou o que acontece é que as teias ainda mais se entranham. Só de pinça se conseguiria. Portanto, tem que haver outra solução.

Enfim. Andei a varrer cá fora: folhas, folhas, folhas. Se há coisa de que gosto é de varrer. Tenho uma vassoura daquelas grandes, pesadas, de 'pelo' de arame. A pá também é de metal, de pé alto. E ando com um balde grandão com rodas. Encho-o e vou vazá-lo nos canteiros mais longe. 

Também andámos a apanhar nêsperas. As nespereiras estão carregadinhas. Os frutinhos amarelinhos não estão ainda a saber a mel mas já se comem muito bem. 

E outra coisa: nesta casa, esta onde estou agora, como já o referi, os móveis do apartamento encaixaram como um puzzle perfeito. Misteriosamente, tudo parece ter sido feito à medida desta casa. Porém sempre houve uma zona da casa em que a coisa não convenceu: é a entrada principal. Há uma espécie de curto corredor que vai dar a um pequeno hall de onde partem mais dois corredores. Embora largo, por ser curto, nunca se percebeu bem o que haveria de ali ficar. Pusemos um móvel de meia altura, com três prateleiras e uma gaveta em baixo. Mas parecia um pouco insignificante ali. Uma aguarela por cima, uns bibelots simples. Comecei por lhe arranjar um banco de veludo claro e pés dourados para pôr ao lado, para compor o espaço e porque um banquinho na entrada dá sempre jeito.

Mas, in heaven, na sala de jantar, tínhamos um móvel bonito em nogueira, com pés altos, três gavetas e duas portas. Ali onde estava não achava que estivesse muito bem e ocorreu-me que onde estaria mesmo bem seria aqui na entrada. 

Portanto, lá o conseguimos levar, em cima de um tapete, até ao carro. Pesado, pesado, pesado. Madeira maciça, pesadérrima. Mas o pior foi conseguir enfiá-lo no carro. Rebatemos os bancos e lá conseguimos.

À vinda fomos a casa da minha mãe. Aproveitei para tratar do irs dela e para tirar dúvidas no tablet. Fartou-se de insistir para eu não comer tantos frutos secos, para não comer tanta fruta, diz que tenho que perder algum peso. Também acho. Ela não tem um grama a mais e acha que eu deveria seguir-lhe o exemplo. Diz: tens sempre fome, desde pequena que és assim, sempre com vontade de comer. Confirmo. Digo-lhe que é da menopausa, que alarguei, que engordei. Ela diz que com ela foi a mesma coisa, também alargou, os casacos deixaram de lhe servir. Mas diz que depois normalizou. Espero que comigo seja a mesma coisa. Nem me peso para não ter desgostos. Imagino que devo estar para aí com uns sessenta e cinco quilos, senão mais. Uma desgraça. Abaixo dos sessenta já não devo ir. Tantos anos nos cinquenta e cinco, toda delgadinha, e agora este disparate. Mas como é que arranjo disposição para uma dieta das valentes? Gaita.

Quando chegámos aqui a casa, já era de noite. Manobra inversa com o móvel. Pior mesmo foi conseguirmos subir os degraus até à porta. Um pesadelo. Mas conseguimos. Um dia destes é provável que me apareçam dores nas costas ou nas pernas. Depois foi preciso trazer o móvel que lá estava aqui para esta sala onde estou. A cómoda pequena com tampo de mármore da Arrábida, que estava com a televisão em cima, foi para o lado do sofá grande. A televisão agora está em cima do móvel que estava na entrada. Ficou tudo a fazer sentido.

Na entrada, o quadro que estava em cima do móvel teve que ser subido e eu já temia o pior, que ele se recusasse a ir buscar o berbequim. Afinal, tudo se resolveu, encurtando o arame. Portanto, embora tarde e más horas, tudo ficou pronto.

Contudo, não estou especialmente convencida. Agora parece-me um bocado grande demais. Mas não digo nada para não despertar a fúria dos deuses.

Este domingo à tarde, fomos ter com a minha filha e com os meninos à praia. Na primeira, tivemos que dar meia volta: carros, carros, carros. Não havia onde estacionar. Muita gente. Fomos a outra. 

Uma belíssima tarde de praia. Os meninos tomaram um belo banho. Muito bom. A praia quase cheia. Zero covid. E digo-o sem sombra de censura. Ao ar livre e desde que com algum distanciamento não creio que haja problema. Sempre desejei Abril. Penso que com os mais velhos vacinados, com vida ao ar livre e com algum cuidado, poderemos voltar a estar uns com os outros.

Perto de nós, uma mulher bonita, alta, magra, elegante. A minha filha chamou-me a atenção: era uma conhecida actriz de telenovelas. Não a fazia tão alta. Brindou-nos com uma inspirada sessão de fotografias. Fez poses de toda a espécie e feitio, sorriu e espevitou a perna, esticou o braço, pôs-se contra o mar, contra a luz, a cabeça para a frente, a cabeça para trás. Não contente com isso, fez selfies atrás de selfies. Passado um bocado a minha filha confirmou: as fotografias já estavam nas suas páginas das redes sociais. Penso que, neste caso, também se pode usar aquilo do 'novo normal'. O culto do 'eu. Diz a minha filha que não é só isso, é que também ganham dinheiro com aquilo. Basta que sejam pessoas conhecidas e que façam publicidade ao que vestem, calçam, que produtos usam, onde compram.

A poucos metros, duas outras, com carnaduras mais generosas, estavam na mesma: uma, deitada ou sentada na areia, fazia poses, esticava a perna, esticava o braço, fazia trejeitos e habilidades; a outra, de pé, fazia a reportagem, orientava a animada diva. 

Toda a gente se sente uma vedette, uma star, alguém com direito a toda a fama do mundo. Não é preciso ser-se conhecido, bonito, elegante, culto, inteligente, sabedor de alguma coisa: não senhor, todo o cão e gato, desde que haja uma máquina fotográfica por perto, se sente no direito de se exibir ao mundo. 

E, se calhar, é hábito que veio para ficar e, se calhar, quem, como eu, gosta de fotografar o mar, as flores, os outros e os seus hábitos, só revela não estar alinhada com os astros. Mas é isso aí: sou vintage. Acho que são os outros têm graça, não eu. 

Fartei-me de fotografar, claro está. E adoraria mostrá-las inteiras, a actriz, os que a fotografavam, as outras duas. Mas não, só uns relances. 

Inteiras, mas é porque estavam de costas, só as duas beldades que embelezaram as cores e a bravura do mar com a sua graciosidade.

Depois da praia viemos todos cá para casa, mais concretamente para o jardim. Arranjei-lhes um lanchinho. Enquanto eles estiveram a comer, eu estive por perto e com máscara. Tranquilo. O meu marido, nestas ocasiões, anda sempre a vigiar-me. Acha que não sou cuidadosa. Mas gosto tanto de estar com eles que volta e meia até me esqueço dos cuidados a ter. 

Varreram o jardim, apanharam folhas, andaram de balouço, riram, brincaram às lutas, espantaram a rola que se acolhe dentro da buganvília.

Contei-lhes que estou com a ideia de colocar no jardim a gaiola grande que está na garagem. Mas para a ter aberta, com água e sementes para os pássaros irem servir-se. Uma coisa tipo bar aberto. Eles acharam boa ideia. O meu marido caladinho. Perguntei-lhe o que achava. Disse: desde que depois sejas tu a limpá-la.

Não sei porque se há-de sujar: os pássaros entrarão, comerão e beberão e voltarão a sair. Não vão lá ficar a fazer as necessidades. É o que me parece.

E é isto. Estou ferrada de sono. Estou assim desde que vim da praia. O meu marido também estava assim. Disse: é do ar do mar. Duvido. 

Ainda por cima, isto de escolher as fotografias, reduzir-lhes a resolução, colocá-las aqui, demora. Já meio a dormir e ainda nisto. O que me preocupa mais nem é o sono, é o receio de que isto vá cheio de gralhas e já não ter pachorra para dar uma vista de olhos. Gaita. Nem consigo agradecer os comentários nem dar uma vista de olhos a ver se isto não vai desvirgulado, despassarado.

[A chuvada do outro dia deixou o vidro em bom estado, deixou, deixou.... Só agora, ao ver a fotografia, reparei nisso. Ainda hesitei em colocá-la aqui. Mas até acho que o fundo, assim, tal como está, ainda valoriza mais as minhas perfumadas rosas mutantes. Não são tão bonitas?]

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Desejo-vos uma boa semana. 

Saúde. Alegria. Força.

1 comentário:

Anónimo disse...

os pássaros entrarão, comerão e beberão e voltarão a sair. Não vão lá ficar a fazer as necessidades. É o que me parece.
Ahahahahahah!

O marido tem carradas de razão!