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domingo, julho 08, 2018

A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas




Almocei um peixe a saber a mar na beira-praia. Antes tinha ligado à minha mãe, que se arranjasse, que passaríamos lá a apanhá-la. 
Não, não, o teu pai. Não. Já sabes que não. Não quero. Já sabes. Não.
       -
Sempre isso. O pai nem dá por nada. É como ir às compras. Vá.
Não é, não é a mesma coisa. Não. Não gosto de sair e deixá-lo aqui. Já sabes.
       - Ora, deixe-se disso e vá-se arranjar. Não demoramos. Vá.
Mas tenho que avisar a Z., tenho que lhe pedir que fique cá. 
       - Sim, claro, ligue-lhe.
Mas agora ela foi tratar de uma senhora longe daqui e nunca leva o telemóvel. 
       - Vá, então ligue daqui a nada para o fixo de casa dela 
Pouco tempo depois, apanhámo-la. Tudo combinado com a Z. Com a blusa nova em tricot, de meia manga, muito elegante, acabada de fazer por ela a partir de fios de linha que há muito tempo uma tia do meu marido lhe tinha mandado, um em cor de pérola e outro em cor de mel claro. Estava como sempre, toda jovem e solar, sorridente e conversadora.


Gostou do restaurante, relembrou o lugar que tão bem conheceu quando não era nada disto. Agora tudo está mais bonito. Aliás, é geral: as cidades estão todas mais bonitas.

A comida boa mas o serviço demorado. Portanto, almoço longo. A ver o mar, os barquinhos, as pessoas na praia. Bom. Sem pressas.

Regressou contente e eu feliz por vê-la feliz. 

Depois, já só nós dois. Aqui chegados, estava aquele verão que aqui é tão intenso e bom. Biquini, espreguiçadeira, o perfume da figueira, os pássaros.


Mas, antes de preguiçar, caminhei, contemplei as flores, observei as diferenças desde a semana passada, a caruma que cresceu nos caminhos, os orégãos mais floridos, os figos a deitar corpo.

Quis registar-me imersa em verde. Fotografei-me. Um dia ainda me rendo à moda das selfies, provavelmente quando as selfies tiverem passado de moda. Não sei porquê, a mini-mini maquininha disparou o flash. Sabe que não quero mostrar-me e mostrou ser mais inteligente do que eu supunha.


Depois, deitei-me entre a sombra da figueira e a do telheiro. Pensava que ia dormir mas não. Olhei as telhas. Estão aqui há mais de vinte anos. Vão mudando de cor. Cada vez estão mais bonitas. Com o tempo estão tão verdes como o verde que aqui nos rodeia.

A estrela de vidro que tem lá dentro uma vela mantem-se amarelinha e eu gosto de vê-la suspensa das traves de madeira.


Uma paz tão boa, tão doce e luminosa.

Não sei porquê, resolvi fazer um exercício. De olhos fechados, pensei: agora a perna -- e senti a perna --, agora a outra -- e senti a outra --, devagar, agora o braço. Pensei: isto, se calhar, é meditação. E é bom.

Tranquila de corpo e alma, pus-me a ler.

Depois veio o meu marido e armou-se em cigano, daqueles que não conseguem ver sem mexer. E então, para nosso espanto, ouvimos um pipilar furibundo. Uma valente desanda, alto e bom som, com irritação e veemência. O meu marido tirou a maozinha e deitou o olhar ao alto, tentando descobrir o pássaro puritano. Eu também, intrigada. Mas só depois o vi a bater as asas apressadamente, enquanto levantava voo. Disse-lhe: Como vês, até irritaste o pássaro. Não ligou, riu-se. Não aprende a portar-se bem nem por mais uma.

Continuei a ler.


A prosa boa que conheci do blog que a autora em má hora tirou do ar. E eu, under a fig tree, os passarinhos, os verdes all around, tudo tão bom, chego ao apontamento 83 onde, a terminar, leio assim:
A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas.
Parei. Gostei. Uma coisa que não lembraria a ninguém mas que me soou bem. Imaginei. Lá em baixo, na minha horta, um tigre, com o seu passo subtil e vagaroso, a avançar, lento, inteligente, perigoso.  Haveria de ser azul.

Gostei mesmo da ideia. De olhos fechados, para mim, repeti a frase. A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas. Muito bom.


Numa horta ninguém espera que apareça um tigre. Se eu soubesse que, aqui in heaven, existia um tigre, eu haveria de andar, a respiração suspensa, arrepiada de curiosidade e medo, evitando a gruta e os locais mais sombrios do bosque, aqueles em que ele, traiçoeiro, haveria de se pôr escondido.


E, por isso, que susto sentiria quando inocentemente fosse à horta e... do nada... sentisse um olhar felino ameaçadoramente pousado sobre a minha pele, um olhar cor de mel num corpo sedoso e azul.

Resolvi transcrever aqui a frase.

Só que agora, ao transcrever, reparei que não era bem aquilo. A frase, afinal, é assim:
A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as horas. 
Reli, espantada. Horas? Afinal não é hortas? Bolas. Não pode ser. Logo agora que começava a habituar-me à ideia de que andava um tigre na minha horta.


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E, já agora, por falar em tigres azuis: Jorge Luis Borges


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As fotografias foram feitas este sábado.

Lá em cima Cohen canta Take this Waltz por sugestão contida no apontamento 119 do livro Dano e Virtude de Ivone Mendes da Silva

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