sexta-feira, abril 27, 2018

Alugar uma família


Não conheço o Japão mas, numa outra minha vida, tive muito contacto com japoneses. Não apenas contacto telefónico ou por escrito mas, também, presencial. Pelo menos uma vez por ano, vinham até cá e eu, noblesse oblige, tinha que passar o dia com eles: em longas reuniões, em almoços, a acompanhá-los a visitas profissionais que queriam fazer e que, de resto, tinham sido programadas com antecedência. O que nunca consegui foi aguentar até à noite, jantando com eles. Arranjava sempre maneira de os empandeirar, deixando-os a cargo de alguém a quem cravava para me fazer esse favor.

De uma extrema delicadeza comigo, deixavam-me sempre desconfortável com a falta de delicadeza que demonstravam para com pessoas que consideraravm de nível inferior ao meu. Identicamente, nunca consegui perceber como, tratando-me com tanta deferência e simpatia, cometiam a falta de respeito de se porem a falar em japonês entre eles, deixando-me, no meio deles, sem preceber patavina. Contudo, para eles deveria ser normal pois, mal acabavam a sua negociação privada, retomavam a conversa comigo na maior gentileza.

Por vezes, na forma como demonstravam a sua simpatia ou na forma extrovertidamente alegre como se juntavam para serem fotografados comigo, achava-os quase infantis. E, no entanto, eram hábeis, influentes e implacáveis homens de negócio.

Claro que não posso extrapolar a partir de uma dúzia de japoneses mas ficou-me sempre a ideia de uma estranha duplicidade na maneira de ser deles.

Mas, para além desse meu conhecimento pessoal, há o que se sabe: a estranho modo de vida de alguns, o afeiçoarem-se a bonecas sexuais, os casais que vivem sem sexo, a solidão triste de muitos, a aceitação social de vida em condições infra-humanas, o excesso de trabalho que é tido como normal. Etc. 

E agora fico a saber que o negócio de alugarem famílias vai de vento em popa. Estranhíssimo.

Um homem ficou viúvo e não superava a sensação de solidão. Por essa altura, a filha teve uma discussão com ele e sumiu. A solidão do homem agudizou-se. Resolveu, então, alugar uma mulher e uma filha. Ao princípo elas tratavam-no com a mulher e a filha de verdade o tratavam. Saíam, iam aos restaurantes e aos lugares onde ele antes ia com a família de verdade. Aos poucos ele foi-se afeiçoando. Um dia, mandou a chave de casa à empresa para a qual eles colaboravam para ter a sensação de, ao chegar a casa, vindo do trabalho, tê-las à sua espera, as luzes acesas, o conforto de uma família. Aos poucos elas deixaram de fingir ser outras e ele aceitou-as tal como elas eram.

Não conto mais para não tirar a vontade de ler o artigo na íntegra. A históra vem contada no The New Yorker: Japan’s Rent-a-Family IndustryPeople who are short on relatives can hire a husband, a mother, a grandson. The resulting relationships can be more real than you’d expect -- um artigo de Elif Batuman. Há histórias inesperadas (como, por exemplo, a referência a jovens cujos pais são obcecados com o noivado das filhas e que, para não os ouvirem mais, contratam um pseudo-namorado; mães a fingir, amigos a fingir, homens mais velhos para serem simplesmente conselheiros). Há de tudo. Uma forma como qualquer outra de vencer a solidão ou de ultrapassar uma perda, para ajudar a vencer um sofrimento. Uma forma de terapia, talvez. Não sei. 

Há de tudo nas histórias de quem recorre a estas empresas e talvez não me engane muito se disser que o artigo, sobretudo, demonstra que os preconceitos distorcem a nossa capacidade de compreender e aceitar o que é diferente. 


A verdade é que o choque que senti ao ler o título se atenuou à medida que fui lendo o insólito que ali se descreve. 
Quantas vezes eu recebo mails íntimos, histórias de solidão, perda e tristeza, desabafos sentidos? Tantas, tantas vezes. Dizem-me -- e eu acredito -- que é mais fácil falar com um desconhecido do que com quem se conhece e que pode mostrar estranheza ou desconforto. Um desconhecido é uma entidade distante, intangível, alguém que melhor aceitará e compreenderá a intimidade alheia. Sem esforço, eu sinto-me o ombro amigo, a mão que apoia, a voz silenciosa. Sinto que estou aqui para escutar, para ajudar. Talvez seja como se os meus Leitores estivessem a alugar a minha companhia e eu aceitasse de bom gosto, sem pedir nada em troca apenas por puro e desinteressado afecto.


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Para um tema mais levezinho, queiram descer ao encontro de coisas espertas.

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