domingo, março 27, 2016

Carro cai do 4º andar e, por sorte, ninguém morreu. Marcelo Rebelo de Sousa também já tem um cão, o pequeno Asa, e até já lhe acho parecenças com o Obama. E está um repórter na televisão, a falar de Bruxelas, e não sei se não será ou o Fayçal Cheffou ou o Aboubakar A.


Estive a banhos no campo, longe da civilização, só chuva e um matagal verdejante de dar medo. Agora chego a casa, vejo a televisão e parece que aterrei num outro tempo.

Estava na TVI e, para o que era, não valia a pena mudar. A Judite, vestida com uma blusa multicolorida e com a cara pintada a sério, como se quisesse condizer com a blusa mas em dose dupla, anunciava que uma jovem em Towson, Maryland, ao estacionar no 4º andar de um silo de estacionamento, acelerou, aparentemente de marcha-atrás, e lá vai disto: parede abaixo e aí vem ela, em voo planado até pousar no passeio, felizmente um bocado em cima de um canteiro pelo que não se espatifou completamente. Talvez pela época que se atravessa, os santinhos puseram todos  os transeuntes longe da pista de aterragem e, portanto, apenas a pouco habilidosa Lindsay se magoou, mas parece que apenas um bocadinho.

Não me posso rir. Acho que já o contei. Com o carrinho impecável e nas minhas mãos há pouco tempo, num parque de estacionamento quase vazio, consegui encostar-me demais a um pilar e, quando o quis tirar de lá, baralhei-me e, em vez de me afastar, aproximei-me, e mais baralhada ainda, em vez de sair de marcha atrás, não sei que cálculo mental é que fiz que saí de rompante, de frente, raspando completamente um dos lados da porcaria do carro. Quando vi o estrago, só me apetecia culpar alguém: o carro propriamente dito ou o pilar mas, já que nenhum deles me daria troco, tive que me resignar e culpar-me a mim mesma. Ainda hoje estou para perceber como fui capaz de fazer tamanha burrice. 

Veja-se o vídeo do voo do 4º andar


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Vi também a Judite, ternurenta, contando que o seu Professor Marcelo tinha manifestado a intenção de se parecer com o Obama mas, para o Passos Coelho da Banca ou o Montenegro do Orçamento não virem arreganhar o dente e, em surdina, chamarem-lhe catavento, disse que não era preciso que fosse um cão d'água. Então os aviadores ofereceram-lhe um pastor alemão. E li agora, a má língua logo a funcionar, que a ausência de uma Primeira-Dama é, assim, compensada pelo Asinha.

Claro que a Judite não disse a notícia por estas exactas palavras mas apenas assimilei as gordas, ou seja, a mensagem subliminar.

Marcelo e o Asinha
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A televisão talvez tenha mudado de canal, entretanto. Não sei. O que sei é que estava eu aqui a fazer esta reportagem quando olho para a televisão e vejo um que mais me parece o Fayçal Cheffou ou o Aboubakar A. ou um primo deles. Não dei conta de quem era mas cá para mim é um infiltrado na comunicação social já que se apresentava de microfone na mão. 

No entanto, talvez seja apenas um jornalista com aspecto suspeito*. 
Ao escrever isto, lembrei-me que uma vez fomos a Paris numa altura de ameaça de atentados e toda a gente recomendava que o meu marido, que no verão fica mais moreno que um marroquino de gema, rapasse a barba, para evitar chatices. Ele não o fez pelo que toda a gente o olhava de lado. Acho que nem andámos de metro para evitar uma fuga de passageiros aterrorizados. De resto, tenho cá para mim que foi a minha presença, o meu ar angelical, que fez com que não o prendessem.
Mas vejam lá se não tenho razão.

Alguém sabe quem é?

* Claro que estou a brincar, até pode ser que seja um jornalista pacifista, eu é que não prestei atenção à notícia.

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Já cá volto. 
A ver se não me aparecem mais notícias malucas para eu poder entregar-me a assuntos mais relevantes ao futuro da nação.

E, entretanto, quem ainda não viu o 'Par de Sapatos' queira, por favor, descer até ao post seguinte.

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sábado, março 26, 2016

Um par de sapatos


Um par de sapatos -  Vincent van Gogh, 1886


Se, entretanto, já leram o que escrevi no post mais abaixo, saberão que, a ler livros que percorrem os caminhos do pensamento, não sou flor que se cheire. Não fui feita para nadar nas funduras, sou mais de procurar a luz que beija a superfície. Os labirintos do fundo do mar, que são parecidos com as convoluções da mente, contêm meandros onde há que ter vagares para se lá estar; ora, eu não sou de me deter, em sossego, nos desvãos por onde algumas mentes gostam de vaguear. Se por, um acaso ou incontida curiosidade, não resisto e por lá entro, logo quero perceber onde eles levam, quero atalhar caminho, fazer batota, chegar ao fim. O verdadeiro prazer de percorrer os caminhos apenas o alcanço se vou sem ir pela mão, se puder ir, em campo aberto, a correr ou aos saltos se assim me apetecer, se puder interromper, mudar a meio, parar a olhar para o outro lado, sair do trilho, subir a rochas para de lá olhar noutra direcção.

Mas, se isso é verdade, não o é menos se eu disser que inesperado e gostoso prazer tenho também se, andando por lá, ansiosa, querendo ver a luz -- sentindo que mergulhei num deserto sufocante feito de corredores cheios de intermináveis prateleiras, e prateleiras cheias de infinitas gavetas, e gavetas cheias de minúsculos e incontáveis compartimentos, e tudo, tudo, tudo, com etiquetas, etiquetas desnecessárias, repetitivas, ilegíveis -- descobrir, de repente, um oásis, uma clareira, uma luminosa e acolhedora capela.

Transcrevo:

(...) Pela pintura de van Gogh nem sequer podemos determinar onde estão estes sapatos. À volta deste par de sapatos camponês não há nada a que possam pertencer, nem aonde, apenas um espaço indeterminado. Nem sequer estão pegados a eles torrões de terra do campo de cultivo ou dos carreiros, o que poderia ao menos apontar para o seu uso. Um par de sapatos de camponês e nada mais. E, apesar disso...

Da abertura escura do interior deformado do calçado, a fadiga dos passos do trabalho olha-nos fixamente. No peso sólido, maciço, dos sapatos está retida a dureza da marcha lenta pelos sulcos que longamente se estendem, sempre iguais, pelo campo, sobre o qual perdura um vento agreste. No couro, está a marca da humidade e da saturação do solo. Sob as solas, insinua-se a solidão do carreiro pelo cair da tarde. O grito mudo da terra vibra nos sapatos, o seu presentear silencioso do trigo que amadurece e o seu recusar-se inexplicado no pousio desolado do campo de Inverno. Passa por este utensílio a inquietação sem queixume pela segurança do pão, a alegria sem palavras do acabar por vencer de novo a carestia, o estremecimento da chegada do nascimento e o tremor na ameaça da morte. Este utensílio pertence à terra e está abrigado no mundo da camponesa. (...)

Todas as vezes que a camponesa, já noite dentro, põe de lado, no seu cansaço dorido mas são, os sapatos e, estando ainda escura a madrugada, os volta a tomar para si, ou quando, nos dias de descanso, passa junto deles, ela sabe tudo isto sem quaisquer considerações ou observações. (...)

Camponês e camponesa plantando batatas -  Vincent van Gogh, 1885



Prelúdio em B-flat Minor, BWV 867 -- J.S. Bach, Nancy Gerst, pianista

com as palavras de Martin Heidegger em 'Caminhos de Floresta' 

no capítulo 'A origem da Obra de Arte'

(de onde também transcrevi as palavras acima a partir do livro da ed. Fundação Calouste Gulbenkian )


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E queiram, então, se para aí estiverem virados, claro, descer até ao post seguinte onde se fala também de arte com alguns casos práticos.

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O que é a arte? Para que servem os poetas?
-- Se alguém sabe, de fonte segura, que não me diga que eu, por muito que pense ou que leia, não sei nem quero saber.
É que, para mim, a beleza da arte ou da poesia residem na sua injustificação


Perante a beleza desmedida de uma paisagem traçada pela arquitectura, ou perante a grandeza de uma escrita feita catedral, ou a atracção de uma pintura feita de cores, luz e coisa nenhuma, ou uma música que se transforme na alma que me comanda, detenho-me, muitas vezes fecho os olhos. Não quero esgotar o que me é dado, então, viver. Não quero racionalizar, não quero retalhar o todo nas partes que o compõem porque, para além das partes, há o espírito que as liga e há a forma como o sinto e o todo é sempre mais e muito diferente da soma das partes. O que em mim se altera pela emoção que me é despertada deve permanecer inexplicável, reacção mágica, indefinível. Só não analisando a arte que em mim toca as cordas da emoção poderei defender-me da indiferença ou da arrogância, só assim as minhas células permanecerão disponíveis para serem impressionadas em vezes futuras. 



Sendo um tema que me interessa, é daqueles que deliberadamente afloro como um pássaro que voa e pousa com ligeireza para logo voar e depois se acolher e depois voar e depois pousar para sentir a aragem na plumagem e sempre sem pensamentos profundos, apenas a leveza de quem gosta de viver em liberdade, sem seguir tendências, sem se prender a teorias, sem dever fidelidades.

Começo a ler o que parece ser esclarecedor e vou by the book, uma linha depois da outra, uma página a seguir à outra. Mas não dura muito o meu bom comportamento. É que logo depois já estou a espreitar páginas para a frente, depois quero ver qual o rumo que o raciocínio está a levar e leio a última página, depois leio do fim para o princípio e depois, se me parece inútil, salto páginas e voo até que as palavras chamem por mim e, assim vou, regressando à casa da partida. 

Se tiver sorte, terei permanecido na mesma ignorância que antes, apenas percebendo que, na longa parede ao longo da qual caminho, há portas de que antes não me tinha apercebido, penso que talvez um dia entre em alguma pela curiosidade de ver o que há do lado de lá. Mas evitarei isso porque, de cada vez que entrar por uma porta, ficarei fechada num compartimento em vez de continuar a percorrer o atraente caminho por onde gosto tanto de andar -- e de me perder.
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Procura ainda a vida que
podes viver quando reflecte
da floresta a sombria folha
que

no primeiro capítulo foi perdida.
Procura a proporção do que
cresce dentro e fora da casa –

o corpo,
no seu existir dia a dia
similiter tui domine
deus. Procura

a vibração do mar e da terra e
desce
na cavidade medida
o mais profundo golpe.


São coisas muito frágeis – uma sede
a transformar-se em água ou num sorriso
aberto à flor dos lábios,
a música de um corpo enquanto é verão
e sobretudo a chama de um olhar
que se entrega à primeira alegria,π
ao primeiro desejo.

Ele sabe, sempre soube que é difícil ser
fiel ao esplendor de tudo isso, à
melodia ou ao rumor do sangue. É um
segredo roubado à terra ou à infância
como se a voz dançasse.

Confidente das aves quando chegam
do sul
ou cúmplice da luz que se demora
à passagem do vento,
mal o vejo daqui
e a sombra que se move entre os seus olhos
é a lição do dia quando morre,
esse rasto de lume que o sol deixa
a arder no mar.

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E para que serve a música? E para que serve a dança?

(E o corpo, para que serve? E nós, para que servimos nós?)


Roberto Bolle e Polina Semionova dançam 'Passage', uma música de Fabrizio Ferri

Os poemas pertencem ao livro 'Aproximações a Eugénio de Andrade'. O primeiro é 'Naufrágio que le Prince Charmant sofreu ao tempo do Livro de Navegações de São Brandão' escrito para Eugénio por João Miguel Fernandes Jorge, que refere que foi o único poema que escreveu em 1999. O segundo é de Fernando Pinto do Amaral – “Para um retrato de Eugénio”

As fotografias foram feitas hoje rente ao Tejo.

Lá em cima Catrin Finch interpreta Blessing de John Rutter

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Convido-vos, ainda, a virem de visita até ao meu Ginjal onde hoje vou, feliz, no barquinho de Kabir

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Já cá volto mas, entretanto, desejo-vos um bom sábado.



sexta-feira, março 25, 2016

Leda
- e, com vossa licença, à laia de ovinhos da Páscoa, um link para a verdadeira história da Leda e do cisne e outro para uma derivação



Podem não acreditar mas cheguei a casa, depois de um dia tramado e, em especial, depois de uma tarde do mais arreliador que há, com aquela sensação que volta e meia tenho às sextas-feiras à noite, de só me apetecer desopilar. Terão percebido isso pelos posts que se seguem. 

Depois interrompi e preparei-me para começar um livro. O primeiro capítulo, 'A origem da obra de arte', começa assim:
'Origem' significa aqui aquilo a partir do qual e pelo qual algo é aquilo que é e como é. Àquilo que algo é, [sendo] como é, chamamos a sua essência. A origem de algo é a proveniência da sua essência.
Pensei: 'Mau'. De facto, para o meu gosto, a coisa não está a começar bem.


E lembrei-me de um colega que tive que punha toda a gente doida. Se uma pessoa simplesmente lhe pedia para mudar a posição da cadeira, era capaz de começar por nos pedir que definíssemos cadeira, depois que lhe explicássemos o objectivo da coisa e, a seguir, que lhe definíssemos prioridades. Preferíamos, claro, fazer nós a ter que o aturar com tanto preciosismo. Uma vez, estando o presidente da empresa a pedir-lhe que fizesse uma coisa qualquer, simples, o fulano virou-se para ele e disse que o pedido estava mal formulado e que o mal de tudo era não haver procedimentos actualizados e mais não sei o quê, deixando o presidente à beira de um ataque de nervos. Confessou-me ele, depois, que ficava nervoso de cada vez que falava com o tal pica-miolos, achava que o fulano era maluco e não estava certo de que não fosse dos perigosos. 

Adiante.

O facto é que, estando eu nestes pensamentos e a ganhar balanço para ultrapassar a minha resistência àquele tipo de proseado, tentando convencer-me de que, se conseguir superar a prova e ler ao menos o primeiro capítulo, me tornarei uma pessoa intelectualmente mais apta a enfrentar os desafios da vida, não é que me lembrei que, afinal, não apenas não era sexta-feira como, ainda por cima estamos em período pascal, período dado ao recolhimento e não à desbunda...?


À hora a que lerem isto já será efectivamente sexta-feira mas não é uma sexta-feira qualquer, é sexta-feira santa -- e, portanto, tenho que me esforçar por ter aqui alguma coisa mais apropriada.

Já pensei pôr aquele coro de que tanto gosto, dos crucificados dos Monty Phyton a cantarem o The Bright Side of Life, mas é muito déjà vu. Depois hesitei a propósito de um outro deles, uma caçada ao coelho, que isto da Páscoa puxa ao coelho. Mas, bolas, era um coelho maligno, assustador e, para isso, já temos a avantesma do post mais abaixo. Ocorreu-me, então, um número de burlesco a propósito de coelhinhos da páscoa. Mas, valham-me todas as santinhas, o que me apareceu foi de tal forma de bradar aos céus que, de imediato, bani a ideia.

Colocar imagens de Cristos mal encarados ou pensamentos profundos seria mais condicente com o momento mas, a sério, é coisa de que hoje não sou capaz. Já penei demais durante o dia para ter apetite para mais uma dose de sofrimento.


Por isso, fiquei aqui a patinar. E o que me ocorreu talvez o Freud ou alguma dessa rapaziada dada às correlações possa explicar. Eu não consigo. Presumo que, na realidade, não tenha mesmo nada a ver com nada. Lembrei-me, simplesmente, de um bailado em que Leda se soergue como se ressuscitasse, ou ela ou o cisne, tinha ideia de ter visto e ter achado que parecia que alguém se levantava da pedra, revivendo. Uma coisa nessa base. E encontrei o que procurava.

Numa coreografia de Kim Brandstrup, dançado por Zenaida Yanowsky e Tommy Franzen sobre o poema de Yeats lido por Fiona Shaw: Leda e o Cisne.

Só depois fui buscar imagens para 'enfeitar' o texto e que me perdoem os puristas pelas minhas heresias que eu própria reconheço que tempero fraca comida com raros condimentos. Mas se me apetece e não tenho aqui ninguém para mo proibir, porque não haveria de fazê-lo? 
Perdoem-me, pois, os que acham que intercalar pinturas destas com um texto tão desasado é de loucos. Receptiva à vossa sensibilidade, prometo voltar a fazê-lo.
Portanto, resumindo e concluindo, o bailado que aqui vos trago é muito bonito e gostava mesmo que vissem.

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Quem queira ler a verdadeira história da Leda e do seu cisne de estimação, queira, por favor, clicar aqui.

Quem queira ver umas derivações da dita que, inclusivamente, metem galinhas chocas, cliquem, então, por favor, aqui.

E volto a penitenciar-me: os puristas que, por favor, não me fustiguem. E não é por nada, é só porque não vale a pena. Reincido sempre.
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E relembro: os posts que se seguem não têm nada a ver com o espírito da época. São até muito inapropriados. Por isso, alertados que estão, não venham depois queixar-se de que foram ao engano.


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E se, depois da chapelada do Marcelo dando razão ao António Costa nisto da Banca, o Coelho não se enxergar e continuar, feito bobão, a desafiar o Costa, este só deve fazer uma coisa: desafiá-lo para um duelo. Quiçá de dança. Como este aqui entre o Rafinha e o Frota.


Esta agora do Marcelo trazer o Draghi e o totó do Carlos Costa (não o do fio dental, o outro, o que nem nas cuecas que usa deve ter graça) para o Conselho de Estado também é boa. Este Marcelo deve fervilhar, ideias à razão de cinco por minuto. Cada uma mais surpreendente que a outra e, até ver, todas de se lhe tirar o chapéu. Não se sabe bem se isto, com tanta ideia superlativa e borbulhante,  não vai acabar num desconchavado número de circo mas como não sou de agoirar, o que posso dizer é que, em minha opinião, so far so good.


Mas boa, boa, foi aquela de ele tirar o tapete, à bruta, ao Láparo, dando total razão ao António Costa por se ter interessado com a caldeirada vigente na Banca portuguesa. Isto depois do Láparo ter aparecido, armado em virgem esquentada, pedindo explicações ao Costa. 

A malta do PSD anda em pulgas com as laparices deste cómico Primeiro-Ministro no exílio que parece que anda hipnotizado. E digo hipnotizado porque parece que quem o hipnotizou anda a gozar à brava com o espectáculo e não o desipnotiza.
[Um parêntesis: nunca deixei que me hipnotizassem não apenas com medo que me pusessem a fazer tristes figuras como, sobretudo, que não conseguissem acordar-me. Fazer de galinha? Isso não teria problema mas imagine-se que depois ficava a cacarejar e a dar às asas para o resto da vida.]
Veja-se o que fizeram com o desgraçado do Láparo... Por aí anda a fazer figuras tristes e ou não querem ou não conseguem tirá-lo do estado de maluquice em que se encontra. Uma ópera bufa, digna de subir a palco com o La Féria.

Agora a sério: não sei como é que ainda têm paciência para o aturar.
Aliás, não têm. Veja-se que até no PSD já estão a perder a cabeça com as peripécias da criatura: o Morais Sarmento também já aí anda a mostra-lhe um lencinho branco e a cantar um venenoso good bye, my love, good bye.
De qualquer maneira, acho que da próxima vez que o Láparo se arme em leão, deverão desafiá-lo para ele fazer qualquer coisa. Desaparafusado como anda, aposto que topa logo. Uma cena na base desta que aqui abaixo se mostra.

Briga entre Alexandre Frota & Rafinha Bastos


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E queiram ir por aí abaixo. Há mais.

E se a recepção for muito calorosa... será caso para desconfiar...?


Pois eu não sei. Se o marido não desconfiou de nada é porque é sempre recebido da forma calorosa que aqui abaixo se vê. E, se ele é feliz, então porquê causar-lhe preocupação ou tristeza?

Aceitem um conselho: façam como eu. Bico caladinho e deixá-los viver o seu casamento feliz.


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De qualquer maneira, quem quiser fazer visitas a uma namorada que não more no rés-do-chão deverá acautelar que ela seja do tipo habilidoso como a madame do vídeo acima. Caso não, arrisca-se a passar pelo mesmo que o cavalheiro de S. Paulo, do vídeo abaixo, passou. Um susto.

E a reacção dele ao aterrar é também do melhor que há. Vocês, meus caros leitores homens, já viram se uma destas acontece convosco...? Medo....


Coitado.
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O narrador


Narro:
Poucas coisas são tão emocionantes quanto uma narração. Duvida? Com o dedo no mouse, você clica e escolhe o vídeo novo do Porta. A internet, naqueles dias mais lentos, causou uma demora inesperada no início do vídeo. Ansioso e frustrado, você deixa escapar um xingamento seguido de uma blasfêmia. Seus olhos passam pela sinopse. Ela está engraçada suficiente para lhe arrancar um risinho mas não uma risada. O vídeo está pronto. Você o assiste até o fim. Ao final, você dá de ombros e retruca a si mesmo como ele poderia ser engraçado e que o Porta já foi melhor.


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quinta-feira, março 24, 2016

A mulher do casaco amarelo


No post abaixo já falei de arte, já trouxe um poema do novo livro de Herberto Helder que, como uma daquelas estrelas de que o João fala,
Como as estrelas nascem e morrem, muitas das que hoje vemos podem já não ser estrelas. Estamos a olhar para o passado quando olhamos o céu.
continua a emitir luz lá dos longes onde agora está, e já mostrei um vídeo enviado pelo Leitor P. Rufino que, nisto da arte, tem gostos muito diferentes dos meus.

Mas agora, antes de me ir, apetece-me escrever mais uma coisa.

Apetece-me dizer que hoje, à hora de almoço, ouvi os Sinais de Fernando Alves e que ele disse que se lhe tinha rompido o dique ao ver a fotografia da mulher do casaco amarelo, essa mulher vítima dos atentados de Bruxelas, essa mulher com um olhar de medo, salpicos de sangue no rosto, que olha para todos nós, que não pára de olhar para todos nós, incrédulos como ela. 


Agora fui ver essa fotografia e aqui está: essa mulher que tinha saído de casa toda bem arranjada e que agora ali está, descomposta, meio despida, sem um sapato, como que abandonada, esquecida da vergonha que, noutras circunstâncias, teria por estar assim, talvez sem perceber se está viva da mesma maneira como estava antes de o mundo parecer cair-lhe em cima. 


A mim não me saltaram as lágrimas, não sou de lágrima fácil. Perante situações assim, tendo a ficar imóvel, como se sentisse que a contenção é a reacção mais inteligente porque, quem sabe, um dia poderá vir em que tenho que as ter de reserva para o tanto que delas talvez venha a precisar. 

Frequento quotidianamente locais que são de risco. Os meus filhos e o meu marido também. No entanto, não penso nisso. Ajo como se o mundo estivesse em vias de deixar de ser perigoso, como se, pela força da minha vontade, o mundo pudesse voltar a ser apenas uma terra fértil e pacífica, um pedaço de universo onde os rios fossem largos, limpos, cheios de luz e depois se estreitassem entre bosques altos e verdes, onde as florestas tivessem sombras perfumadas, pássaros coloridos, clareiras onde os habitantes se reunissem em rituais, danças, amores. Penso isso. Entrego-me a pensamentos bons, ouço músicas que me levam nos braços, imagino palavras bondosas, laços invisíveis entre pessoas generosas e, assim, vou mantendo afastadas de mim as sombras do medo.

Muitas vezes tenho vontade de sair por aí, perder-me no mundo, ir para onde possa ser útil, a resgatar feridos, a tratar crianças, a ensinar adolescentes, a ajudar a construir qualquer coisa. Mas sei que não poderia estar longe dos meus e sei que nada se faz por voluntarismo, que é preciso que as atitudes sejam concertadas, que haja inteligência na condução dos assuntos. Gestos isolados de nada servem. Por isso, não sei se cobarde ou se lucidamente, limito-me a continuar a viver como sempre, olhando o mundo, sendo sincera na forma como vivo, tentando compreender os outros, tentando ser feliz e que os que vivem perto de mim também se sintam felizes. Acomodo-me, pois, nas minhas inúteis e boas intenções e isso faz-me sentir bem comigo mesmo. Sentimento igualmente inútil mas, enfim, inofensivo. Ao menos isso.

Mas é verdade: vê-se a fotografia daquela mulher e pensa-se que isto não está a correr bem, que em algum momento o mundo caiu num precipício perigoso de onde pode ser difícil sair.

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E queiram, por favor, descer até ao post a seguir, caso vos apeteça ir em busca de territórios mais leves.

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Lá no cabo do mundo onde morávamos durante um momento
- O que é a arte? O que é boa arte?




Os comentários sobre o que ontem escrevi sobre Rui Chafes suscitam questões interessantes e que se prendem com a dúvida de fundo: o que é a arte?

Eu, de facto, não sei explicar porque é que algumas obras me tocam e outras não. Se aprecio arte 'antiga' seja sob a forma de pintura, escultura ou música, a verdade é que o que age mais directamente sobre o meu gerador emocional é a arte mais abstracta. E se, durante algum período, me deixo agradar pelas obras mais clássicas, seja a nível de poesia ou música ou do que for, a verdade é que logo de seguida, como se sentisse necessidade de me libertar, corto as amarras da perfeição e procuro o imperfeito, o rasgão, a fractura, o inexplicável, o que é novo, o que não se parece com nada.

Custa-me trazer-me a mim para o meio da conversa porque não faz sentido invocar-me como 'artista' mas, enfim, falo do que me é mais próximo e que sou eu. Quando fotografo -- e sabem que sou fotógrafa quase compulsiva -- fico em silêncio religioso perante uma paisagem divina e fotografo, claro que fotografo, mas, logo a seguir, só me apetece fotografar pedras, sombras, nuvens, folhas soltas, apontar o zoom para procurar a abstracção contida naquilo que os meus olhos vêem.

No domingo, como vos mostrei, fotografei a Casa da Cerca, os jardins, a vista sobre Lisboa. E foi o que vos mostrei. Mas saí de lá e só me apetecia fotografar o que me parecia insignificante, o pedaço de alma, o imaginado sorriso de alguém ao fazer um graffiti, os ramos nus e vermelhos de uma planta. E o prazer que me dá procurar os pequenos nadas é quase idêntico à contemplação da beleza perfeita.


Mas não sei explicar isto.

É como, por exemplo, com a poesia. Há a grega perante a qual muitos se ajoelham ficando cristalizados no tempo dentro da própria baba. Eu reconheço que há beleza na poesia grega, claro que sim. Mas longe de mim ficar encadeada, cega para a beleza de outras poesias. Mas, claro, é tudo do mais subjectivo que há.

Comprei hoje o livro 'Letra Aberta' de Herberto Helder, poemas inéditos escolhidos por Olga Lima. 


Ainda apenas folheei. Uns sim, outros ainda não, talvez depois de os sentir melhor. Mas, quando viu o livro, o meu marido encolheu os ombros. Não aprecia Herbero Helder. Vínhamos os dois a andar à noite e a falar nisto e eu comentava que ele nunca tinha saído do período dos clássicos e ele, para me provocar, começou a fazer a gracinha de dizer os Lusíadas e disse e disse. Pasmo com aquela memória. Mas ele gosta mesmo de Camões. Tudo bem. Camões é Camões e é inequívoco, claro que também gosto. Mas, nisto da arte, acho eu que não é para se andar a comparar se este é melhor que aquele nem é, lá porque se gosta de um, já achar que, depois dele, nada mais vale a pena.

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas

(Camões)
bom é ser odiado simetricamente por gregos e troianos
que se matem entre eles
a ver quem me odeia mais extenso e fundo:
e eu fora, citando os astros mudos: 
os clássicos!

(Herberto Helder)

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Um dos vídeos que consta de um dos comentários e que eu já tinha recebido por mail contém conteúdo com o qual não concordo completamente pois, como já observei nos comentários, há ali a argumentação levada à caricatura, naquilo a que se pode chamar 'demonstração por absurdo'. 

Contudo, porque é da contradição que nasce o estímulo ao pensamento, aqui o deixo -- e cada um que julgue por si.

Por que a arte moderna é tão ruim? - Robert Florczak


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E, agora, por mim, junto um vídeo sobre um dos pintores que, a mim, muito me impressiona e que é visto, por quem não aprecia o género, como um 'tangas' que pintou manchas iguais umas às outras ao longo de anos: Mark Rothko. Já estive junto a obras originais, em museus, e fico sempre 'agarrada', imersa naquelas manchas de cor, como se delas viesse um silêncio que me envolvesse de forma íntima, sem explicação. Não sou capaz de justificar usando argumentos racionais, apenas sei que é assim.

The Case For Mark Rothko | The Art Assignment



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A parte em itálico do título desta mensagem foi extraído de um poema de Letra Aberta de Herberto Helder


Lá em cima, Catrin Finch, uma artista que eu gostaria de ter sempre junto a mim, interpreta Tides

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.

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quarta-feira, março 23, 2016

Sob a pele
- um passo no sentido da impossibilidade


No post abaixo falei do atentado terrorista de Bruxelas e de como me parecem fátuos os fogos de indignação que se elevam pedindo que seja olho por olho, dente por dente. Quando escrevo sobre estes temas dói-me a impotência que sinto por me sentir fechada num mundo manietado por gente estúpida.

Por isso, se me permitem, mudo de registo, parto para outra. Sinto necessidade de respirar ar puro. Ou de me alienar - como queiram.




Milhões de horas já foram certamente despendidas a definir arte e nenhuma foi a definitiva nem alguma vez será. Identicamente nunca será definida de forma última a escala de valor para a arte. Estamos no domínio da subjectividade e cada um fala por si. Pode o ‘mercado’, como um deus cego, desprezar uns ou idolatrar outros, podem os homens, alguns, tentar impor algum nivelamento ou ditar modas, podem os tempos estabilizar numa relativa uniformidade de apreço e tudo isso, de alguma forma, estabelecer uma base valorimétrica -- mas uma coisa será sempre certa: nada disso será alguma vez passível de definição ou explicação inequívoca.

A olhos leigos tudo é relativo. No outro dia, na Casa da Cerca, em cima dos bancos de pedra, junto à janela, estavam uns rolos de pano ou umas coisas com cordas (já não me lembro bem e, pelas fotografias, não consigo perceber). Percebi que era uma instalação da Ana Vidigal.


Não percebo se tem valor comercial ou se tem algum sentido ou valor estético. Podia não ter mas eu gostar. Contudo, a mim nada me diz. E, no entanto, Ana Vidigal é um nome sólido nas artes nacionais. Também há umas duas semanas, ao vermos uma exposição  de peças atípicas ou vídeos do além, deparámo-nos, junto a uma das paredes, com um balde e uma esfregona. A minha filha, na brincadeira, perguntou se seria também uma obra de arte e os miúdos olharam para saber a resposta, talvez admitindo que pudesse ser. E não sei se era. Também na Casa da Cerca vi descrita como escultura uma ‘cena’ que era um grande livro com pedras entre as folhas.



Olho esse género de coisas com estranheza. No entanto, várias pessoas acharam normal ou gostaram e por isso as expõem. Não sou fundamentalista, não me choca, não generalizo: apenas passo à frente.

Mas já me aconteceu muitas vezes ficar caída de amores por uma peça de arte e ver, com espanto, que os outros a olham com indiferença ou desprezo. Tantas vezes isso.
Nessas alturas tenho que refrear os pensamentos que, indignados, ladram no meu ouvido: ‘há com cada uma… quem diria que me ia sair um burro encartado desta maneira…?’. Depois censuro-me, penso que gostos não se discutem, que não tem nada a ver e penso, uma vez mais, que tenho pensamentos que me deveriam envergonhar.
Um dos artistas que encaixa neste género é Rui Chafes. Gosto dele. Mas conheço pessoas que o acham desinteressante, pouco artista. Contudo, as suas obras têm, a meus olhos, uma beleza intangível que não sei situar em categorias ou descrever por palavras.


Para já, têm aquilo que me atrai: não se parecem com nada. E é disso que eu gosto: aprender formas, corpos, sombras, desequilíbrios.

Explico-me. Se virmos a estátua de Catarina de Bragança na Expo, cuja fotografia há tempos aqui coloquei, perceberemos o que quero dizer: é perfeita, uma mulher bonita esplendidamente passada para um material que a perpetuará.


Acho interessante que se queira eternizar a imagem de algumas pessoas em pedra ou metal. Contudo, estátuas como esta deixam-me indiferente. É quase como ver uma fotografia a três dimensões. Nada de extraordinário, apenas a mestria de quem fez o exercício.

No entanto, vejo um volume pesado, metálico, suspenso, sem forma reconhecível, sem propósito, e logo eu fico parada, agradada, com vontade de assimilar a estranheza.

Desde que tive contacto com a obra de Rui Chafes logo me senti intrigada, e do pasmo logo nasceu a vontade de ver mais, para me admirar, para  não reconhecer o que de indefinido cobre aquelas peças. E logo senti que as suas palavras seriam também assim, estranhamente vindas de dentro da terra, do fogo dos elementos, fascinantes como se incompreensivelmente familiares.

Portanto, sempre que vejo as suas palavras escritas logo me abeiro, e logo vou como se entrasse num lugar desconhecido, esperando ser surpreendida: talvez uma gruta com figuras suspensas, jogos de luzes místicas, água correndo em silêncio, caminhos levando ao centro do mundo ou procurando a luz, reflexos de origem obscura.


Este livrinho parece um missal. Pequeno, escuro, uns tons de azul que encerram o mistério das palavras de Rui Chafes, compacto como retratando a personalidade e a obra do escultor onde nada parece supérfluo, onde parece haver uma coerência intrínseca. Sou muito sensível ao grafismo, ao toque dos livros. Falo de ‘Sob a Pele’, Rui Chafes, conversas com Sara Antónia Matos, uma edição Documenta, Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar.


O primeiro prazer começa logo na dimensão, o sabê-lo transportável dentro da carteira. Anda comigo. Assim que posso, abro-o, leio umas palavras ao acaso -- como agora.

O artista é um predador?
     
      Pode dizer-se que o artista tem um olhar de rapina. Dou, muitas vezes, por mim a olhar obcecadamente para um pormenor de uma pessoa, de uma planta, de uma parede, de um edifício, do que for. Fico parado a estudar a forma como a sombra de uma coluna se projecta no chão, fico preso nas qualidades de um determinado material, pode até ser o puxador de uma porta, por exemplo. A atenção pode deslocar-se, simplesmente, para um gesto da pessoa, uma ruga, um traço de expressão, um dente, uma mão, para a forma como o cabelo de uma rapariga cai sobre o pescoço, etc. Deixo de ouvir, momentaneamente, o que a pessoa está a dizer, o olhar torna-se mais importante. 
     Sempre defendi a ideia do artista-ladrão (talvez predador, como dizes). O que um bom artista faz é roubar imagens ao mundo e esconder as provas. É o roubo perfeito, no caso dos melhores artistas .... [sorriso]

Ainda dentro da temática do corpo, o que separa desejo e pornografia?

    Distância. Tenho de falar de distâncias, é isso que está em causa.
     O erótico envolve poesia e esta nasce, ou advém, da distância (...). A poesia é sempre um passo no sentido da impossibilidade e, portanto, se não houver esse espaço de inacessibilidade, que separa o sujeito do objecto pretendido, não há poesia nem erotismo. Há um colapso entre sujeito e objecto, que resulta da anulação da distância, e que corresponde ao 'já', ao 'aqui e agora', e à consumação imediata do acto ou do pensamento pornográfico.


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Viagem aos confins de um sítio onde nunca estive 

Filme de João Mário Grilo sobre a exposição 'O Peso do Paraíso' de Rui Chafes
CAM -- Centro de Arte Moderna, Lisboa 2014

 

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Lá em cima Renée Fleming, com a Prague Symphony Orchestra, interpreta 'Morgen' de Richard Strauss
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E permitam que me repita: para temas tristemente actuais queiram, por favor, descer até ao post seguinte onde afloro o que penso sobre a forma como acho que deveríamos olhar para isto do terrorismo na Europa (e só falo da Europa porque, se disto porque entendo, imagine-se a minha ignorância relativamente a outras geografias)

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Bruxelas e o terrorismo. A Europa e o terrorismo. O mundo dito civilizado e o terrorismo
Está a chegar a hora dos sociólogos, antropólogos, filósofos, politólogos, psicólogos, historiadores, etc.



O dia todo a trabalhar, não acompanhei as notícias. De manhã tinha sabido que havia drama em Bruxelas mas não sabia exactamente a extensão. À hora de almoço já ouvi falar em mortos e em muitos feridos. Agora estou a ver apontamentos de reportagem e alguns comentários.


Não sou especialista em nada, muito menos em crises deste género. Ouço que isto é uma guerra que está em curso, que há que combater ferozmente os terroristas, que, uma vez mais, falharam os serviços de informação. E tudo estará certo.

Mas a mim uma coisa me faz espécie: não há terroristas com mais de 40 anos? Só putos? Estamos a falar maioritariamente de jovens já nascidos e criados nos subúrbios das cidades ocidentais? Filhos de pais desenraizados? Jovens sem ideais e que procuram uma causa por que lutar?

Não sei. Estou a perguntar por mera ignorância.

A mim, leiga, leiga, mil vezes leiga, parece-me que há neles a motivação e os meios e que é, sobretudo por aí, que há que travar o combate.

Nos últimos anos, os economistas, os gestores e os advogados têm sido a força de elite que tem comandado o mundo: em regra, é gente culturalmente ignorante, desconhecedora de quase tudo o que não seja EBIT, NOPLAT, ROI, ROCE (e por aí vai) e o que é preciso fazer para que os indicadores de criação de riqueza para os accionistas sejam maximizados.

À volta dos núcleos onde se fazem todas as ginásticas para que o capital saia incólume, orbitam as pessoas a quem é preciso sonegar direitos de trabalho, a quem é preciso precarizar os vínculos laborais e, logo, sociais. 

Na periferia dos parques de edifícios onde se instalam as sedes das grandes empresas há bairros sociais habitados por hordas de jovens sem nada que fazer, que passam parte do dia na ociosidade, uns com os outros. Vejo-os por vezes, em grupos encostados aos prédios ou sentados no passeio à porta de casa, capuz da cabeça, conversando, dias a fio. Sem estudarem, sem trabalharem, sem nada fazerem, quais serão as suas motivações?
Lembro-me agora de uma experiência cujo relato li há dias. Colocaram um conjunto de pessoas fechadas num local, sem terem nada que fazer. Contudo poderiam aplicar a si próprias choques eléctricos. Para saberem qual a sensação, estes eram-lhes aplicados choques antes de começar a experiência. Conheciam, pois, a dor. Pois bem, grande parte das pessoas, ao fim de algum tempo, não suportando o tédio, aplicavam a si próprias choques eléctricos. Recomendo a leitura pois talvez explique algumas coisas.
O tédio recorrente a que os jovens se entregam acontece em Portugal, especialmente nas grandes cidades, e, certamente, em todas as grandes cidades europeias.

Durante anos, os executivos têm troçado de quem tem cursos ditos inúteis, aqueles cursos onde se aprende a pensar, a conhecer as civilizações, as culturas, os hábitos, a história, as religiões. Têm sido os profissionais destas áreas que mais têm sentido na pele o peso da crise económica (e civilizacional) que atravessamos. Não sabem gerir empresas, não contribuem para a criação de valor para os accionistas, logo pouco mais são do que parasitas - e, se o não querem ser, pois que trabalhem em caixas de supermercados, em call centers ou onde quiserem desde que não chateiem.
- E isto tem sido, mais coisa menos coisa, o pensamento dominante nas nossas brilhantes sociedades.
Sabemos também como a direita liberal que tem vindo a governar grande parte dos países da Europa (e os EUA, especialmente antes de Obama) é avessa ao Estado Social. Investir na inclusão, em programas de ensino e ocupação, investir na cultura e no conhecimento, é visto por esses crânios como um desperdício de dinheiro. Os mercados dispensam essas frescuras.


E, portanto, sem acompanhamento, entregues a si próprios e sem que ninguém os compreenda e tente integrá-los, tem vindo a desenvolver-se -- nestes meios suburbanos em que há jovens oriundos de famílias desenraizadas onde o desemprego e a pobreza imperam --  um caldo de insatisfação, de disponibilidade para a rebelião, para a vingança, para o crime, para a ficção seja sob que forma for. Ou para o simples combate ao tédio.

Junte-se a isso a cegueira da ganância que leva a que, sobre este clima de medo e insegurança, reinem, imperiais e intocáveis, a indústria do armamento e comércio do petróleo.

Diria eu, na minha ingenuidade, que uma luta objectiva contra estas sérias e difusas ameaças terroristas deveria dar primazia à suspensão do fornecimento de armas e da aquisição de petróleo (e de obras de arte, já agora). E, em simultâneo, constituir núcleos de saber polivalente para saber interpretar todos quantos são potenciais candidatos a ingressarem movimentos terroristas, e com dois objectivos: uns ao serviço dos sistemas de informações e outros para ajudar na inclusão, mas na inclusão a sério, daqueles que hoje são menos que nada nas sociedades ditas desenvolvidas.
E nem estou a falar nas centenas de milhares de refugiados que são acantonados em parques sem quaisquer condições de vida e tratados abaixo de cão. Daqui só pode nascer a revolta.
Uma sociedade decrépita, com uma demografia anémica, com uma economia de rastos, deveria ser capaz de aproveitar esta oportunidade para se rejuvenescer e enriquecer com tanta gente caída do céu, gente nova, com conhecimentos novos, oriundos de outras culturas. Pelo contrário, sem líderes, sem verdadeiros políticos, com o poder nas mãos de burocratas e de medíocres, estamos como estamos.

Condenar os crimes não chega, é preciso perceber o que está na raiz do pensamento dos criminosos. E eu, quando vejo as fotografias deles, o que vejo são putos. E o que sinto é que é preciso ver mais longe, mais fundo, e deixar que as pessoas que sabem pensar e que conhecem a história, os hábitos, as religiões, o funcionamento da mente, sejam chamadas a ajudar o mundo civilizado que tão entregue tem estado a gente incivilizada.

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Termino com poesia

Há vídeo novo do Cine Povero

De Jorge de Sena :: Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya / Dito por Mário Viegas



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As fotografias são da autoria de  Hidenobu Suzuki e mostram a Primavera no Japão

Glenn Gould interpreta, de J.S.Bach: Concerto No.5 in F-minor for Harpsichord and Strings (BWV 1056)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira muito feliz.

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terça-feira, março 22, 2016

Todas as pessoas que gostam de matemática são feias, quadradonas e chatas?
Não senhor, nada disso! Vejamos o caso de Pietro Boselli, o professor de matemática mais sexy do mundo.
E reparem vocês bem o que eu vou buscar só para fazer a caridade de não me alargar muito a falar do pobre Láparo, esse infeliz que para aí anda a mostrar o raquitismo do seu intelecto.
Ou a caridade de também não falar muito nesse outro triste, esse Carlos Costa do Manco de Portugal


Bom, no post abaixo já falei disso aí dos brasileiros virem para cá atrás do Super Jato, correndo o risco de distrairem o nosso querido Super-Alex e nosso fofinho Super-Rosarinho -- que eles, coitados, já andam tão atarefados a patinar em seco no meio de resmas, paletes, de processos nacionais cuja única graça é o nome inspirado que têm que, se lhes arranjam mais brotoeja, então é que não param de se coçar; e descascarem os abacaxis a que deitaram mãos, então, é que nunca mais.

E agora estou aqui com vontade de me ir atirar às poesias e às esculturas mas, como volta e meia me acontece, só a procrastinar. Mas não é uma procrastinação qualquer que eu, quando me dá para isto, não o faço por meias palavras.

A questão é que ando há tempos com vontade de me atirar ao Láparo (exactamente esse, um da mesma linhagem do tal que larga pêlo) e ao Carlos Costa (não o da Quinta das Celebridades mas o outro, o que não usa cuecas de fio dental - digo eu). Mas, parecendo que não, tive uma educação católica. Fiz a primeira-comunhão e a comunhão-solene e sabia os mandamentos e os pecados capitais. Já não me lembro deles mas tenho cá para mim que bater nos ceguinhos deve encaixar aí. Ou isso ou bater nas velhinhas. Ou gozar com os taralhoucos. Não sei se com estas exactas palavras ou através de metáforas. Portanto, não sei como falar deles sem infringir os ensinamentos que colhi na infância.

Mas, então, vou tentar... deixa cá ver se consigo pegar neles com pinças.

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1º caso patológico


O Senhor Doutor Médico Cirurgião Dentista Passos Coelho nunca percebeu o que é ser-se Primeiro-Ministro e, agora que está no exílio, continua a olhar para o que está em funções sem perceber nada: confunde o género humano com o Manuel Germano, a governação com a intromissão, a gestão com a ménage, a inteligência com a espertalhice, o sentido de Estado com fazer farófias. Como ninguém lhe ensinou que é preciso saber a altura de se levantar da mesa, continua todo prosa, a falar como se ainda estivesse a candidatar-se a um espectáculo do La Feria, de bandeirinha na lapela, a fingir que sabe do que fala. Caíu da cadeira, já não é primeiro-ministro, já está outro em funções mas ele ainda acha que merece ribalta, ainda fala como se estivesse nos seus tempos áureos em que dava lições sobre pieguices e outras palermices. Um espectáculo triste de se ver, esta criatura. Claro que contratou um pató para o convencer, um tal puto que agora é pau para toda a obra, um mais apresentável que o Amorim, nunca me lembro do nome do catraio (será Bácoro? Amar-o-Bácoro?). E então é vê-los à vez a dizer baboseiras, ora é o Láparo ora é o Bácoro. Se é a TAP, aí estão eles a pedir explicações. 

Acabaram de por lá andar a fazer porcaria e mal põem o pé de fora, ei-los, maria-amélias: 
Ai! Quem é que fez aquilo? Ai! Quem é que vendeu um bocadinho da TAP?  
Ou então: 
Ai! Mas então o que é o Governo tem a ver com o sistema financeiro? Ai! Então não é de ver os bancos caírem como tordos?! Onde é que se viu um Primeiro-Ministro querer salvar alguma coisa?!? Não pode ser! Não pode ser! Ponham os olhinhos em mim.
Uma tristeza, uma rábula patética.
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2º caso patológico


E o outro, o que não pinta os olhos (e anda sempre com eles wide closed), não usa coroas de rainha nos caracóis nem cuequinha de fio dental...? O que anda Sua Excelência, El Banquero, a fazer enquanto as hostes angolanas e espanholas se perfilam para tomar de ataque os últimos quinhões? Onde anda a última ave rara da trupe do Rei das Cagarras? Já todo o mundo lhe tirou o tapete, até esse exemplo acabado de irrevogabilidade e de consistência intelectual que dá pelo nome de Vice-Portas já lhe enfiou um par de patins mas a Excelência não se enxerga e não desampara a loja. Não faz nada como nunca fez desde que lá está no agora Manco de Portugal mas não vaza. É daqueles casos em que se pode dizer (e deixa-me cá usar uma metáfora): não dança nem sai da pista. Os bancos esvaem-se, finam-se, esburacam-se, e ele, na sua torrezinha acolchoada, a fazer de conta que fez mais do que a gente pensa. Daria pena se, pela sua confortável cegueira e imobilismo mental, não fosse corresponsável pelo descalabro da banca. Não há uma alminha que o leve pela mão até à porta da rua? Por favor...

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Momento artístico

E, portanto, não sabendo como falar destes dois doentes sem ferir os seus (deles) sentimentos, faço a caridade de passar à frente e, com devoção, posso finalmente entregar-me à poesia e à escultura. Mas, como sou mulher de números, vou buscar um expoente humano que reúne em si (nele) todas as virtudes de tão requintadas artes.

Com óculos, para parecer que até sabe de Investigação Operacional ou Teoria das Probabilidades

Chama-se Pietro Boselli, tem 27 aninhos, é italiano, professor de matemática e lindo de morrer. Olha-se e só se vê poesia, quase parece o James Dean mas em versão bem alimentada, bem musculada. Uma escultura. E não é das gregas, não senhor: não desfazendo mas é das italianas, também todo esculpidinho como deve ser. E, ainda por cima, é dado a equações, a trignometrias, quiçá até a topologias, essa nobre arte do discurso em torno de bolas abertas e bolas fechadas, objectos espaciais a n dimensões, coisa que não é para qualquer um. Não é para qualquer um... mas é para o belo Pietro.



Claro que o Giorgio lhe deitou o olho e agora, em vez de encantar adolescentes nas salas de aula, desfila como um veado (não, veado não, que veado tem conotações; melhor gazela; não gazela também não, melhor tigre, tigre fofinho) pelas passerelles do mundo da moda. Armani chamou-lhe, pois, um figo e só não digo que eu faria o mesmo para não escandalizar os homens da família (da minha).

Dizem que Pietro Boselli é o professor de matemática mais sexy do mundo e eu, apesar de não os conhecer a todos, juraria que sim, que é mesmo. Assim até eu não me importava de voltar à escola, se necessário fosse até voltava a aprender a fazer raízes quadradas e cálculos logarítmicos. Até à mão, se fosse caso disso.

Aqui, para quem queira ver como o menino é simpático: 
o Pietrinho há 5 anos, quando ainda era pequenino 


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E agora, caso ainda não tenham participado, ainda que remotamente, na sucursal portuguesa da suruba do Lava Jato, queiram, por favor, descer até ao post já aqui abaixo nem que seja para fazerem uma visitinha de cortesia ao Super-Judge Alex e ao Super-Procurador Rosy-bad-Boy.

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Mas será que com isto do Lava Jato ter chegado a Portugal não vão deixar o Super-Judge Alex e o Super-Investigator Rosy-bad-Boy sem tempo para andar para a frente com as Operações Montebranco, Furacão, Marquês, Vistos Gold, BES e com os mil outros processos que eles, tadinhos, sozinhos, têm entre mãos?
Pergunto.
Vamo mas é convocar aí uma Reunião de Emergência, vai.
Chama a turminha da Porta dos Fundos, vai.


Pois eu sobre isto do Brasil não tenho sabedoria para me pronunciar.

No outro dia disse que aquilo lá mais parece uma novela da Globo, daquelas bem puxadas na caricatura, um forró geral envolvendo Justiça, Estado, Empresas, Partidos e o escambau e logo um Leitor agoniado me veio dar um chega pr'a lá, que eu estava fazendo o jogo de não sei quem e que isso não estava certo, não. Pois não estou não, meu irmão, não estou fazendo jogo de ninguém que eu não percebo nada daqueles carnavais envolvendo turmas tão assanhadas.

Lhe confesso, meu irmão: se aquilo lá tem enredo pois eu cá não o entendo, não, tudo me parece uma suruba generalizada, todo o mundo torpedeando todo o mundo, e repara meu irmão como 'tou usando expressão de salão. Por isso, eu cá, euzinha, só 'tou dizendo que, visto de cá, me parece que a coisa 'tá bem esquentada e que não há bicho careta que consiga perceber onde andam as pontas de tão grande novelo.

E agora a última é que 'tá parecendo que querem que a capital do império mande pr'a lá um tal que estava vivendo aí num apart de luxo e que 'tão dando dois dias pr'a Justiça portuguesa resolver a demanda.

Ora eu, que destas coisas não sei nada, só sei que ninguém deve ter dito pr'aqueles camaradas lá que a Justiça cá deste lado não anda a jato. Poderia dar aí uma mão cheia de casos em que a coisa pode levar mais de 1 ano na suspeição sem formação de culpa, os cara aí de cara suja pela rua e nada de concreto contra eles. 

Mas seriam tantos casos que o melhor mesmo é não dar muitos exemplos, pr'a não envergonhar a nossa cara tuga que é tão laroca.

E ninguém deve também ter contado pr'a eles que isto aqui, deste lado do mar, também só tem 1 (um!) juiz para tudo o que é caso importante, 1 só cara para ler toneladas de dossiers, quilómetros de dossiers; e mais: que as investigações 'tão todas nas mãos de um cara que também leva todas, um cara valentão que começa por meter toda a gente dentro mas que depois desatina, não sabe concretizar, é só fintinha no meio campo, rodriguinho com a bola, um cara que até parece meio bobalhão porque começa na suspeição da maior corrupção e acaba consultando lista de compras nas livrarias do supermercado e que, com tanta minhoca naquela cabeça, nunca consegue condenar ninguém, muito menos meter alguém na choça. O Rosy-bad-Boy tem muita garganta, muitas bolas ao mesmo tempo mas, meu irmão, aquilo lá é tudo bola pr'ó pinhal.

Por isso, ó seus tiras lá do Brasil, ou vocês mandam pr'a cá o Moro e deixam que a Dilula tenha algum descanso -- ou quem diz o Moro diz outro juizão qualquer da Globo como esse tal Castor de Mattos que mandaram pr'a cá que é um cara enxutaço mas que não chega, não -- ou não vão é conseguir levar o Raul Schmidt pr'aí é nunca, que o Super-Judge Alex e o super-Rosy têm mais que fazer.

E mais, ó meus irmãos, o que é que vocês andam pr'aí cutucando? Deixem lá aqui este pessoal em paz, tão ouvindo? Vai que cutucam, cutucam e ainda vão levantar onda a propósito do nosso querido Relvas e outros empresários transatlânticos que a gente cá tem pr'a ajudar aí nas ponte aéreas. Vai, presta atenção no que 'tou lhe dizendo, desvia lá a atenção daqui, que daqui vocês vão é levar nadica de nada, ouviu? Por isso, vai, chega pr'a lá. Deixa aí que o nosso Super Judge Alex e o seu irmão gémeo Rosy-bad-Boy continuem entretidos com os casinhos que, por cá, têm em mãos vai pr'a cima de mil anos... tá bom?

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E como não 'tou conseguindo dizer mais que isto, vamos mas é fazer Reunião de Emergência.
Chama ai a turma da Porta dos Fundos, ouviu?




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