segunda-feira, abril 04, 2016

OMGYes que é como quem diz Oh my God...Yes...!
-- é o nome do site que explica tudo o que há a saber sobre o Big O
ou seja, o Orgasmo Feminino
Vamos lá a aprender, minha gente: é pr'ó menino e pr'á menina.
E, por causa disto, nem vou desenvolver aquela decisão inteligente do Láparo de se rodear de 4 belas espingardas na vice-presidência do PSD
E, claro, muito menos, falo dos Offshores e dos bichos caretas que, por lá, escondem e lavam o Big Money


Ora bem. Depois de ter partilhado convosco a minha breve visita à Tapada das Necessidades e de ter divulgado a hilariante campanha #PutMeFirst, chego então ao Big O. E, antão, assim sendo, vamos lá.


Oh my god... yes!




Nota introdutória

Mas primeiro deixem que confidencie: esta não era a minha ideia inicial. Estava numa de falar do estarola do Láparo que ainda não percebeu que, se uma coisa tem virtudes, pode deixar de as ter se ingerida em overdose. Já com aquilo da troika foi a mesma coisa: ele poderia ter seguido o memorando na dose recomendada; mas não: foi tudo em dose reforçada e à bruta. A menina padece de diarreia? Pois então vai Imodium, mas, se o Imodium faz bem, pois tome a menina três de cada vez e de hora a hora. E quando a menina, entupida até ao pescoço, for parar ao hospital a culpa terá sido da menina que é uma piegas.

E, portanto, seguindo o mesmo brilhante racional, se o Bloco de Esquerda se está a sair bem com a Catarina Martins e a Marisa Matias e se o PS também promoveu a Ana Catarina Mendes e se o CDS também lá tem agora a Cristas, pois ele há-de ultrapassá-los a todos e, de uma assentada, puxa 4 (quatro!) mulheres para vice-presidentes. E olha quem... : uma Pinókia, uma Peixeira, uma Sócia de uma boutique law firm e uma não sei bem o quê. Diz o meu marido: vai ser bonito quando desatarem todas a falar ao mesmo tempo... E todos os males fossem esses. Tem olho para tomar boas decisões, este Coelho. Não aprende, mas é que não aprende mesmo. Coisa nenhuma. Um caso perdido.

E, estando eu com esta em mente, vou ver as notícias para confirmar, não fosse ter percebido mal, e dou com aquela fuga de informação que revela parte da big laundry que grassa por esse submundinho da alta finança, do futebol, da baixa política, dos negócios, dos big cartéis de tudo e mais alguma coisa, off shores para tudo o que é bicho careta. E, perante, esta inundação de água suja, fico a pensar: caraças, mas o que é aquela infantilidade acéfala do láparo ao pé desta enxovia?

No entanto, estando ainda em fraca forma e ainda algo debilitada, senti que estava sem fôlego para tema tão longe da minha fraca sapiência na matéria. E, enquanto pensava que, a um domingo à noite, ninguém merece sujar os dedinhos com dinheiros escondidos por putins, pais de camerons, messis e até por idalécios de castro rodrigues de oliveira, resolvi refugiar-me num abrigo que, face a tudo isto, me saberia a edulcorado paraíso: a Madame Le Figaro. E por ali andava eu, descansada, vendo toilettes de casamento, sabendo da escolinha do petit prince George, quando dou com uma notícia que envolve a carismática jovem Emma que se tem destacado na luta feminista no mundo do cinema. Eu conto.

The Big O



Emma Watson veut démystifier l'orgasme féminin, ou seja, a jovem e bela feminista quer desmistificar o orgasmo feminino.


Curiosa, claro está, fui ver - é que nem fazia ideia que a coisa se tinha deslocado para terreno místico. Pois bem, diz a bela Emma que, desde que começou a contactar esta realidade, o OMGYes, tem sido uma revelação, que anda a descobrir os impenetráveis mistérios do orgasmo feminino.
Para começar, não sei se a palavra impenetrável aqui está bem escolhida e, a seguir, não sei se a coisa é misteriosa. Mas adiante.
Ou seja, avancei na leitura.
E estou a escrever isto em tom de brincadeira mas, por acaso, não é. Lembro-me de uma Leitora ter escrito que falo sobre o prazer feminino como se fosse um dado adquirido e não é, e contou que é um problema que tem e que lhe tem causado graves dificuldades ao longo da vida. Ao ler as suas palavras sentidas, imediatamente apresentei as minhas desculpas. É um assunto que não deve, mesmo, ser levado na ligeireza pois o prazer faz parte da vida e quem o não consiga alcançar deve mesmo procurar ajuda. Por isso, é sobretudo a pensar nas mulheres que não conseguem atingir o orgasmo (em França são 49%) ou nos homens que não fazem ideia de como agir ou de quem tem vergonha de assumir dificuldades, que aqui trago este tema. Sem tabus. O nosso corpo não deve ser um mistério nem uma fonte de vergonha. O nosso corpo deve ser compreendido e estimado. E o prazer não é pecado: é um direito. E um dever.
Couples who constantly explore new ways to increase pleasure are 5 times more likely to be happier in their relationships and 12 times more likely to be sexually satisfied.

Dado o adiantado da hora, segue mesmo em francês. Quem não saiba o suficiente da língua, pode tentar o translator da google mas, atenção, nada de conclusões precipitadas porque é sabido que o translator é useiro e vezeiro em aguadas.
Lancée en 2015 par la photographe Lydia Daniller et un pro du numérique, Rob Perkins, la plateforme OMGYes a pour but de montrer les bons gestes pour atteindre l'orgasme féminin, à travers des vidéos réalisées par des femmes et, dirons-nous, plutôt explicites. Témoignages, astuces, diagrammes, démonstrations, exercices pratiques... Valorisé par de véritables recherches médicales, le site promet « la première étude à grande échelle consacrée aux spécificités du plaisir féminin ».
Concrètement, près d’une cinquantaine de vidéos sont proposées, au prix de 25 euros chacune. Un investissement honnête pour des résultats semble-t-il garantis : « J’aurais aimé que l’expérience dure plus longtemps, s'est enthousiasmée Emma Watson pendant le débat. Le montant de l'inscription peut sembler cher mais les résultats sont vérifiés, ça vaut le coup », a précisé l'actrice, qui trouve nécessaire aujourd'hui de « démystifier l’orgasme féminin ». Selon une enquête de l’Ifop publiée en décembre 2015, 49% des Françaises admettent avoir « assez régulièrement » des difficultés à atteindre l’orgasme.

Ora, então, apesar do intuito do site ser vender vídeos a 25 euros cada, vamos lá entrar nele, só para ver como é: cliquem, por favor, no link.

Levantando o véu do prazer feminino, Oh my God... Yes:
OMGYes.com


Para quem não queira aventurar-se pelo site, aqui fica o vídeo de apresentação.

OMGYES Research based study exploring women's sexuality




E, para os que entraram no site e não são bons na navegação mas gostariam de perceber de que se trata, aqui fica o link para alguns exemplos, com casos práticos (atenção: com bolinha encarnada no canto). Estes podem ser vistos sem serem comprados pois são de curta duração e meramente exemplificativos. Não sei se conseguirão vê-los directamente ou se terão que, antes, confirmar que têm mais de 18 anos. E admito que os meus leitores sejam maiores de idade porque, se o não forem, deverão parar aqui e pedir informação aos papás e às mamãs, está bem?

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E, ao verem o que aqui coloco à vossa disposição, espero estar a contribuir para melhorar a vossa qualidade de vida - pelo menos, das minhas Leitoras (ou dos meus Leitores que têm parceiras e que ainda não perceberam bem a coisa, que é como quem diz).
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Acabemos com um pas de deux



Melody Mennite e Ian Casady dançam Petite Mort numa coreografia de Jiri Kylian

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E, agora, caso ainda não tenham lá estado, convido-vos a descerem até à Tapada das Necessidades
(depois deste post, o nome 'Tapada das Necessidades' até soa algo dúbio, ou é impressão minha?)

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Na Tapada das Necessidades


Bom, o prometido é devido e, depois da divertida campanha publicitária contra a utilização de telemóvel enquanto se conduz que poderão ver no post abaixo, dou-vos conta do segundo lugar onde fui, muito rapidamente, no sábado. O primeiro, talvez já tenham visto, foi a Pensão Amor, antigo lugar de má vida e hoje um lugar enigmático e, em parte, acolhedor.

Como vos contei, ontem estava muito apanhada, presumo que uma gripe ou virose daquelas que os mais pequenos apanham na escola e que passam aos adultos, deixando-os KO. Desta vez fomos três ao tapete, uns mais que outros, mas ainda assim, tramado. Hoje já estou um pouco melhor, menos frio, sem aquela dor de cabeça que até me deixava agoniada, sem aquela necessidade entorpecedora de me deixar estar deitada, mas ainda com o corpo meio dorido, meio cansada. Mas melhor. Portanto, bola para a frente.

Então, depois do Cais Sodré, apetecia-me ir até a um miradouro, talvez o da Graça. O meu marido disse que não haveria lugar para o carro e, no estado em que eu estava, mais valia nem tentar pois não seria capaz de andar muito a pé. Lembrei-me, então, de passar pelo das Necessidades, coisa simples, só uma espreitadela já que também não devia haver lugar para estacionar e ele ficaria no carro enquanto eu espraiava a vista pelo casario e pelo Tejo. Mas arranjámos lugar e, então, ele lembrou-se de darmos um passeio ao de leve pela Tapada, coisa mais na base da espreitadela. E assim foi. Mais ou menos.

Fontanário no Miradouro das Necessidades
Numa tarde chuvosa, triste de tão cinzenta, a Ponte 25 de Abril, com o tabuleiro para automóveis em cima e para comboios em baixo, sobre o casario de Alcântara

Mas, se estiverem de acordo, vamos com Agnes Obel: Dorian


Palácio das Necessidades
(onde funcionam serviços do MNE)
À esquerda, a Capela onde decorria uma missa (razão pela qual não a fotografei)

Numa porta lateral, este enigmático papel: Comunicação Autêntica (entre pf)

Não entrámos, apesar de sermos autênticos quando comunicamos; e dirigimo-nos, então, para o portão da Tapada que é mesmo ao lado. 

Uma pessoa às vezes até se esquece destas maravilhas que tem ao alcance dos seus pés -- dos pés e dos sentidos. Não se paga para lá estar: é uma bênção à nossa disposição. 

Bonitos e tão tranquilos, estes gansos, absortos na sua actividade de ser

É um jardim amplo, com 10 hectares, bonito, inesperado no meio do bulício que é o movimento dentro da cidade de Lisboa.

No entanto, tirando um grupo de jogava futebol num amplo relvado, de uma senhora que, por lá, passeava o seu cão, e de um grupo de jovens mulheres que, numa mesa, festejava o que me pareceu o aniversário de uma delas, não se via vivalma como, de resto, é habitual em Portugal, em lugares assim. 

Um relvado enorme: não será o ideal para o futebol - digo eu, já que não é plano - mas, nem por isso, o grupo estava menos animado

O pior é o resto: tudo o que é edificação (salvo uma excepção de que já falo) está com ar abandonado, a carecer de reparação e, sobretudo, de utilização.

A estufa - ou o edifício onde em tempos houve uma estufa

Mais adiante, um espaço vedado com pequenos edifícios cor-de-rosa degradados chamou a minha atenção. Aliás, pasmo sempre com a falta de cuidado que os portugueses põem naquilo que é uma maravilha e que, em qualquer outro país estaria cuidado e seria valorizado. Li que a Câmara ainda não tem ideia concreta do que fazer mas pretende lançar um concurso par reabilitar e dar utilidade a alguns dos edifícios. Tomara. Os empresários portugueses, para além de serem quase inexistentes e de estarem, quase todos, tesos, não têm o hábito de financiar a reabilitação e a exploração de lugares públicos de qualidade. Não têm mas deviam passar a ter. A Cultura é a cola que ajuda a sedimentar a cidadania, a soberania. E as actividades de mecenato dignificam quem o pratica (para além de representar algum alívio fiscal) e, mais do que relatórios de responsabilidade social que são vazios de significado, implantam as empresas no tecido cultural e social dos lugares.


Deveria, pois, ser prioridade absoluta reabilitar edifícios e jardins públicos dos quais os cidadãos possam usufruir. Em lugares assim deveria haver exposições, concertos, teatros, actividades lúdicas e culturais.

Não apenas atrairia turismo como chamaria os portugueses que mais parece que preferem ficarem fechados em casa do que conviverem uns com os outros, ao ar livre, em contacto com a natureza.


Penso que foi neste conjunto de edifícios que chegou a haver um jardim zoológico. No site O Voo do Corvo li:
Aí, em seis torreões rodeados por gradeamentos de ferro, eram albergados animais, como aves raras e macacos, "mandados vir de diversos lugares propositadamente para este local por D. Fernando II, para desenvolvimento dos conhecimentos sobre fauna dos príncipes D. Pedro e D. Luís". A explicação é de uma nota camarária, que sublinha a "enorme importância histórica" de que este conjunto, erguido entre 1848 e 1856, se reveste. 

Mais acima, finalmente um edifício bem arranjado. É a Casa do Regalo que foi reabilitada e onde Jorge Sampaio trabalha. Dado que fica mesmo no alto da tapada e que eu já estava cansada e cheia de dores nas pernas (não sei que diabo de virose foi esta que me provocou dores nas pernas e nas ancas), não fui mesmo lá perto. Terei que voltar para visitar tudo com mais tempo. A Casa está cercada por um jardim bem cuidado e foi por aí que me fiquei.

A Casa do Regalo, situada no topo da Tapada das Necessidades, entre frondosa mata, hoje algo desordenada, cerca do antigo Picadeiro ( onde se encontra o moderno edifício-sede do Instituto de Defesa Nacional), teria sido mandada construir pelo rei D. Carlos I, após subir ao trono, em 1889, destinada a estúdio de pintura da rainha D. Amélia (1865-1951)
(...)

No site do Sistema de Informação para o Património Arquitectónico pode ler-se informação detalhada sobre a Tapada das Necessidades. Mas até nisto, senhores, o cuidado não é muito: a letra é miudinha e o texto compacto, custa a ler. Parece que alguém ali colocou tudo o que havia para saber sobre o lugar e para ali ficou o texto, a ganhar pó.

A falta de cuidado e carinho que as instituições culturais põem na preservação e divulgação do nosso património está patente em todo o lado. Falta de dinheiro, talvez, pouco pessoal, desmotivação, não sei. Mas, sobretudo, uma deficiente alocação de recursos, consequência de uma deficiente atribuição de prioridades.

Depois iniciámos o caminho descendente, a caminho da saída. Chovia. Os gansos tinham-se abrigado sob uma palmeira. Aos poucos foram-se-lhes juntando pombos. Felizes os seres que tão tranquilamente assim vivem.


E, a caminho do portão da saída, apesar do frio e da chuva, ainda fotografei o cata-vento. Mas, como sou discreta, completamente avessa a exibicionismos (mesmo sabendo que os cata-ventos tendem a gostar de protagonismo), fotografei-o meio camuflado. Cherchez le cata-vento, mes amis.

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E queiram agora fazer o favor de descer até ao post seguinte, para que fiquem sensibilizados em relação aos riscos de esticar a mão para agarrar o telemóvel quando vão a conduzir... e, ao vosso lado, vai alguém... Ui.
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(E já cá volto -- e, read my lips -- com um assunto fora da caixa, útil pr'ó menino e pr'á menina e, se querem que vá levantando a ponta do véu, dir-vos-ei que tem a ver com uma coisa que é a modos que tabu. Ou não. Não sei. Mas tem a ver com sexo. Já vêem.)

Até já.

#PutMeFirst
- Se estiver a conduzir, não atenda o telefone nem faça chamadas, não veja nem escreva mensagens (a menos que tenha dispositivos que o permitam fazer sem riscos)
Para bem dos que o amam (ou para não descobrir que o amam....), ponha a sua segurança em primeiro lugar


Segundo estudos recentes, a utilização do telemóvel ao volante multiplica por 23 os riscos de acidente.

Para combater este risco e sensibilizar os mais jovens, que estão mais presos ao uso de telemóvel que o resto da população, a Agência Nacional de Transportes da Nova Zelândia acabou de lançar uma divertida campanha.

Pretende-se que se perceba que em certas situações o uso de telemóvel deve ser socialmente inaceitável: no cinema, no teatro... ou quando se arrisca a descobrir os sentimentos do passageiro ao seu lado...

Hello

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Nunca mais estendo a mão para o telemóvel, ou para o pedir, quando estiver com alguém no banco ao meu lado. Fogo. Imagina se é alguma amiga minha que, pensando que estou a estender a minha incauta mãozinha para ela, a agarra e me lança olhinhos tentadores... Ná, não vá o diabo tecê-las, a partir de agora, vou jogar pelo seguro. We never know.

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E, por falar em amor, queiram, então, descer e vir comigo até à Pensão Amor.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma belíssima semana a começar já nesta segunda-feira.

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domingo, abril 03, 2016

Na Pensão Amor


Bom, abaixo já mostrei as Virgens e, a propósito -- bem, a propósito é como quem diz... posso não ser virgem (sou caranguejo, como é sabido) mas sou santinha -- mostrei uma selfie que fiz esta tarde (porque, se também sou filha de deus, também haveria de ter direito a uma selfizinha, ora essa).

E, como lá expliquei, fui à Pensão Amor no Cais Sodré, esse mau pedaço de Lisboa, antro de pecado e perdição. Outrora. 

E também já confidenciei que hoje não estou nos meus melhores dias. Fora eu moça dada às tecnologias e a esta hora já estava com um levezinho iPad nas mãos, estendida, tapada, abafada, escrevendo na boazinha. Mas, como sou avessa a modas e a gadgets, apenas tenho um computador grandão e pesadão que está bem é aqui, em cima da mesa. E, para me chegar a ele, aqui estou eu sentada, sem posição, dores no corpo, olhos meio lacrimejantes, com camisola, casaco, écharpe e meias de lã. 

É vício isto, de escrever aqui à noite, faça chuva, frio ou calor, esteja eu bem, fresca ou nem por isso. Há bocado, quando estava estendida no sofá, tapada até ao pescoço com uma manta de lã, li uma coisa de que gostei e que, acho eu, explica um bocado isto.

Se eu conseguisse, levantava-me e ia ali buscar o livro para transcrever. Mas dói-me tudo, caraças. Que chatice. Bom, vou tentar. (Depois de ter escrito isto ou ia buscar ou apagava o que tinha escrito, né?)

Encontrei. Não tinha assinalado e agora tive que passar os olhos por várias páginas até descobrir.
(...) O meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei alguma coisa em contrapartida; li e viajei e pensei e escrevi. Tive uma união com o mundo, essa união especial com o mundo que é a de quem escreve e de quem lê.
Isto pode ser lido no texto 'A minha vida' de Oliver Sacks, no livro 'Gratidão'. Está escrito no passado pois ele tinha sabido, um mês antes, que o cancro tinha reaparecido e que, dessa vez, a coisa era feia. Morreria pouco tempo depois, em Agosto de 2015. 

Mas gostei de ler esta passagem (tal como gostei de ler todo o livro, que é sábio e tocante) porque é aquilo que sinto: tal como quando leio, escrevendo sinto-me misteriosamente ligada ao mundo. Fui agora ver as estatísticas. Neste preciso momento, estão mais de cem pessoas ligadas ao Um Jeito Manso. A maioria é de Portugal, 79 pessoas mais concretamente, mas vejo que está alguém que escreve um interessante blog sobre livros e arte em Espanha, e pessoas no Brasil, em França, na Alemanha, etc. Esta ligação anónima fascina-me. Eu e você, Caro Leitor, estamos unidos, desinteressadamente unidos -- e essa é a melhor forma de união, a que é livre, voluntária, que nada pede em troca, a que se baseia no puro prazer da partilha de momentos. 

Bem, tudo isto para dizer que, tal como nos dias de trabalho quando o corpo me pede descanso, tenho esta vontade de estar aqui, também hoje, em fraca forma e em franco esforço, para aqui estou. Nada nem ninguém me obriga ou, sequer, pede. É mesmo um gosto meu e é pensar que também vos agrada estar aqui comigo.

Com isto tudo ainda não fui ao que aqui me trouxe: a Pensão Amor


Mas vamos com a minha amiga Blanche DeBris que hoje nos traz outra querida, a Sweetpea. São as damas do Burlesco, género que muito me apraz. Deixemos que entrem connosco na Pensão Amor.



Entra-se na Pensão Amor pela Rua do Alecrim. Quase não se dá por ela. Mas é um edifício que deve ter uns cinco ou seis andares. Na entrada uma sala magnífica, verdadeiramente magnífica. A decoração, a música, a frequência, tudo aquilo é um ambiente envolvente, invulgar.

Nestas salas, onde funciona o café, não me ia pôr a fotografar as pessoas que ali estão tranquilamente, conversando - era o que faltava. Por isso, foi apenas de raspão, como quem não quer a coisa, que lá tirei umas quantas, sobretudo ao décor, sem apontar a ninguém -- mas, sem focar, sem flash, claro que não ficaram extraordinárias.


Se eu quisesse reproduzir a música que lá se ouvia, não era nada do género que aqui coloquei, era mais para blues, músicas arrastadas, algo dengosas, sentidas, a alma dolente sob as luzes quentes daquelas salas tão acolhedoras.


Mas as pinturas das paredes das escadas entre andares, o ambiente, aquelas divisões, a sugestão do que, por ali, se pode ter passado, e os nomes das mulheres desenhadas, a Simone, a Esmeralda, a Regina, a Valentina, tudo me sugere os números de burlesco que, de resto, por lá também se anunciam. Aqui já fotografei à vontade.


No entanto, devo dizer que esperava que a pensão tivesse muito mais vida. Apenas o café instalado no piso da entrada pela Rua do Alecrim tem vida. Mesmo a pequena livraria de Livros Eróticos estava fechada.


Anda-se por ali e ninguém. Claro que, apesar de me doerem as pernas e as ancas e sei lá que mais, não resisti a andar a espreitar tudo. Um ambiente quase misterioso.


Parece habitado, há sofás antigos, mesas, uma televisão antiga, pequenos armários com naperons, bibelots de outros tempos.


Talvez pudéssemos ter ficado ali sentados a conversar ou a namorar, talvez a ideia até seja essa, não sei.

Até tem uma sala com um varão, tudo com uma decoração indescritível, cortinas plastificadas que devem reflectir as cores do tecto quando, de noite, os candeeiros se acenderem e houver espectáculo, tudo com cores que parecem que não condizem umas com as outras, uma coisa meio desconcertante. Um lugar que dá vontade que a gente o ficcione.


Quando entrei numa sala interior, com ar decrépito, pareceu-me ouvir bater uma porta e um som não identificável. Até me arrepiei. Saí logo de lá e nem disse nem ai nem ui. O que terá sido? Haveria por lá alguém, numa daquelas salas fechadas?

Depois, quando já vinha em sentido descendente, vinha a pensar que gostava de ter conhecido a pensão nos seus áureos tempos, gostava de ter conhecido a Clarissa, a Valéria e as outras mulheres que consolavam marinheiros, boémios, solitários.


Transcrevo de um artigo sobre o lugar:
Na Pensão Amor ainda há camas, armários, cadeiras e espelhos dos tempos em que o prédio era casa de prostituição. Na verdade, no número 38 da Rua Nova do Carvalho, em Lisboa, funcionavam quatro pensões que alugavam quartos à hora a prostitutas e a marinheiros que atracavam no Cais do Sodré, vindos de várias partes do mundo. Agora, os quartos também podem ser alugados ao dia, à semana ou ao mês, mas a empresas – que nada têm a ver com prostituição.
Quem sobe as escadas da Pensão Amor é surpreendido por uma mulher de pernas abertas. “Valéria vai levá-lo à miséria”, lê-se do lado esquerdo. Nos andares de cima, o cenário é idêntico: “Anita, a mulher por quem o seu coração palpita”, “Clarissa, peitos firmes, bem roliça” ou “Regina, dá um espectáculo que você nem imagina”. Os desenhos e as frases foram pintados nas paredes pelo ilustrador Mário Belém. “Fizemos um concurso e convidámos artistas a recriar cartazes burlescos de cabarets”, explica Queirós de Carvalho. “Este foi o que seleccionámos e ele optou por pintar as frases em português, já que se trata do Cais do Sodré.”
As escadas do prédio mantêm-se desde o tempo em que foi construído, logo após o terramoto de 1755. “Optámos por não arranjar as paredes e deixar as várias camadas de história”, conta Queirós de Carvalho. No segundo e no terceiro andar, os quartos das antigas pensões foram recuperados e funcionam como escritórios e ateliês. 

Contudo, apesar do que leio no artigo, agora não vi lojas nem ateliês, nem salões de cabeleireiro. mas vi divisões fechadas, só se for aí e, por ser sábado de tarde, estavam fechadas. Não sei.

Seja como for, gostei de ter visitado e fiquei com muita vontade de lá voltar, ficou a apetecer-me estar lá sentada a beber um chá bem apaladado ou um sumo fresco, ou um fumegante café, espreitando pela janela, olhando em volta, ouvindo música.

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Se não se importam, vamos agora com a Julie London: Cry me a river



                                       Tempo de dança num vago compasso de bela toada
                                       fecha solene a última festa do longo inverno.
                                       Chove de novo na húmida noite gelada de abril*;
                                       nada faria prever o perfume da música nova.

                                       Vejo agora teu rosto no espelho da sala dourada;
                                       luzem teus olhos ao brilho das velas nos lustres acesos,
                                       quando de novo a orquestra entoa a música nova,
                                       sempre que soa no brilho da sala a triste gavote.

                                       Música minha alheia não soa às árvores altas:
                                       ramos e folhas ondulam à chuva na escura montanha,
                                       cantam por mim o que vejo ao ver-te no límpido espelho,
                                       hoje que mais do que nunca rebrilham teus olhos brilhantes.

                                       Pena seria portanto perdermos a última dança;
                                       ambos sabemos que vêm vazios compassos de espera,
                                       logo que raie daqui a minutos a pálida aurora,
                                       ela que traz como sempre o ocaso dos nossos amores.


[Poema 3 de IV de Frederico Lourenço in 'Clara Suspeita de Luz'. *No original é Março ou é que mudei para Abril]
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Por sugestão de Rosa Pinto, em comentário abaixo, silêncio que se vai cantar o fado:

Xaile encarnado -- Aldina Duarte

Fragmento do filme A Religiosa Portuguesa. 
Diretor - Eugéne Green

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Se tiver energia (coisa que me parece pouco provável) ainda cá voltarei com a reportagem do outro sítio por onde andei (a custo) neste sábado à tarde.
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Entretanto, convido-vos a continuarem o passeio, descendo até ao post seguinte, para verem as Virgens que habitam estes lugares (e uma selfie minha, à mistura).

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Virgens (e Auto-Retrato)


Em dia frio, céu cinzento, chuva miúda, dores no corpo e frio na pele, por puro prazer de andar e olhar, forço-me a sair de casa e passear como se as pernas não estivessem presas e doridas, a cabeça latejante e a humidade fria não me atrasasse os movimentos.

A primeira paragem foi o Cais Sodré. Queria conhecer a Pensão Amor. 

Pelo caminho, fui vendo as novas lojas que vão abrindo na zona. Coloridas, diferentes, invulgares.

E a minha selfie: apenas a minha mão captando a imagem -- mas é o que interessa para este fim.
Com as mãos fotografo, com as mãos escrevo.

O aproveitamento do Mercado da Ribeira para espaço de restauração, com as características que tem, impulsionou muito a nova vivência que se respira por estas bandas.
Pensava que a prostituição já não habitava estas ruas mas ainda lá vi uma ou outra, das que, em seu tempo, teriam sido jovens vistosas e hoje são mulheres já de alguma idade, cabelos muito louros, rostos muito pintados, vestuário exclamativo e uma boa disposição exuberante, trocando conversas divertidas e altissonantes com os conhecidos da rua. Nada de mais. 
Na decoração das lojas há um ar retro, um look vintage, e há gentes de fora, há um ambiente que se adivinha boémio quando anoitecer. Mesmo de dia e com mau tempo, já há gente na rua, de copo na mão, conversando, circulando, gente em esplanadas.

Mas uma coisa me surpreendeu. Tantas vezes que venho para estas bandas e tantas vezes que já fui à Ribeira e dali até ao Chiado via Rua do Alecrim. E, no entanto, nunca tinha reparado: Nossas Senhoras em pequenos nichos.


Numa das ruas, na parede, quase ao nível do chão, este aqui abaixo. E a mistura entre motivos religiosos, bonecos populares, fotografias e objectos de plástico, flores bem coloridas, fica curioso. Nem sei se é suposto inspirar alguma religiosidade ou se é apenas um motivo decorativo kitsch mas gosto, acho inesperado e, até, simpático.


Numa outra loja, um arranjo que muito me agradou. Na fotografia talvez não se perceba, mas são garrafas de vidro transparente, empilhadas, com o gargalo virado para a frente. A meio há a abertura que serve de altar onde brilha, azul e piedosa, a Virgem.

Fotografei neste ângulo pois gostei de ver o reflexo de um dos prédios do largo e das árvores nuas no vidro da montra.


Depois, já dentro da Pensão Amor, ao fundo de um daqueles corredores com ar decadente, entre salas incompreensíveis ou quartos vazios, mais um nicho, mais uma Nossa Senhora


Com umas cortininhas de veludo à frente, quer a Nossa Senhora grande quer as que estão nas campânulas de vidro, devem ter vindo de lojas chinesas. Digo eu. Mas tem graça. Há qualquer coisa de ilógico nisto. Ou, então, de lógico. Talvez se pretenda a protecção ou o perdão da Nossa Senhora num lugar que se associa ao 'pecado'.

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Momentos houve em que os anjos
entreabriram as portas do céu:
mas acredite em mim, o silêncio
é a mais estimável qualidade do divino
e é afinal tudo o que a terra tem para nos dar.

Terminou o concerto. Voltemos para casa.
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O poema é  'À saída do concerto' de Luís Filipe Castro Mendes in 'Outro Ulisses regressa a casa'

Amy Camie e Jessica Goodenough Heuser interpretam"O Viridissima Virga" de Hildegard von Bingen.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo

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sábado, abril 02, 2016

Passos Coelho diz no congresso do PSD que 'O dr. Rebelo de Sousa não deve ser instrumentalizado'.
E eu pergunto: uma pessoa com uma cara daquelas e a dizer coisas daquelas pode ser levada a sério?


E nada mais tenho a acrescentar pois, para mal dos pecados dos portugueses, a minha pergunta há muito tempo que obteve resposta.

Mas, como em tudo na vida, há sempre quem, mesmo perante a evidência dos factos, veja o que não existe e que, por exemplo, perante uma mão cheia de patacoadas ditas num tom de voz em crescendo, quase a tender para o apologético, desate e bater palmas. Será talvez por reflexo condicionado ou, então, a prova de que há mesmo uma franja de gente intelectualmente muito pouco abonada e que, por sorte, em vez de andar por aí dispersa, se acantonou no PSD.

Agora, que começou o noticiário das 13, vejo-o a dizer que só faz falta quem está e, portanto, não quer cá saber do Rio nem dos outros. E a quem lhe pede que o PSD se reinvente ele diz que não é maria-vai-com-as-outras. Inteligente na argumentação, este mariola.


Mas, vá lá, já não trata o Marcelo por catavento, agora, promoveu-o a Dr. Rebelo de Sousa. Ou seja, usando o seu léxico, 'acusou o toque' depois dos remoques com que o Presidente o brinda a toda a hora, já começa a mostrar algum respeitinho. Ou isso, ou tem medo que o Marcelo lhe aplique outro tabefe.


Tirando isso vi a Marilú toda descaradona, como é seu timbre, a dizer que se vão catar com isso da Arrow que ela faz o que muito bem lhe apetece. E até a vi a dançar, toda ramboireira, ela e a Morais.


Li agora que o cão com pulgas diz que vai uns tempos para a casota. Pudera. Há quem diga que para passar despercebido nada como estar na moita - é a mesma coisa.

E nada mais, para já.

Pedro Passos Coelho, presidente do PSD, no 36º congresso, em Espinho
(O fácies não diz tudo...? Pergunto)

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E, caso ainda não tenham lá estado, convido-vos a descerem até ao post abaixo, onde tenho uma breve antologia de malucos. Coisa de primeira água. 


Breve antologia de malucos
- ou umas quantas maluqueiras de antologia


Bem. Agora que já falei de, por pura distracção -- e logo no dia em que avantesma reapareceu travestida de assombração laranja -- ter passado ao lado do Dia das Mentiras, mas em que, nem de propósito, vivi um fantástico Dia dos Prodígios, resolvi dar mais uma volta pela net.

Antes, estava numa de tentar parecer vagamente erudita e já me tinha municiado com uns ensaios dantescos e até já tinha aqui uns coros a condizer, uma toda vestida de preto, da cabeça aos pés, numa igreja com aspecto sinistro, mais umas outras que tais ao fundo, todas a cantarem numa língua que não entendo (o que não é de estranhar já que pouca coisa entendo) mas que eu ia fazer de conta que percebia muito bem. Só que a natureza tem mais força. Bocejo, bocejo, bocejo. Portanto, como estou cheia de sono, resolvi que essa aventura fica para outro dia e que hoje nem meto o pé nos ensaios, que me fico pelos jornais online, pelos blogues. E, enquanto estava nisto, surprise, surprise, não é que dei com um outro prodígio...? A sério. E mais um daqueles de gargalhada.

E, talvez por isso, ocorreu-me fazer um post sobre malucos. Como é de todos sabido e consabido, há-os de toda a espécie e feitio. Os encartados, os engraçados, os tresloucados, os simplesmente parvalhões, os que mantêm a elegância, os que não têm jeito e se atiram para fora de pé -- há de tudo.

Ao escrever isto, apetece-me logo partir aqui para uma antologia. Podia pensar num âmbito alargado e transcrever excertos ou colocar links para a vasta amostragem que rapidamente colheria pela blogosfera. Mas não, há por aí muita fancaria, teria que perder algum tempo com avaliações para apenas aqui trazer malucos de qualidade. Por isso, não vai ser assim. 

Vai ser uma coisa na base da 'consulta directa': ocorre-me uma meia dúzia de nomes, portugueses, homens e ligados aos meios artísticos (em sentido lato), e desses é que vou buscar uma amostra. Com tempo a ver se alargo a amostragem, que malucos é o que não falta.

Aviso: não é de espantar nem deve ofender a linguagem algo libertina e desprovida de auto-censura que se encontra nos vídeos que selecconei (afinal são malucos, digamos assim). Contudo, por prudência, as almas sensíveis deverão abster-se e saltar directamente para o post seguinte.

Ora, então, vamos lá. Pedro, Miguel, Manuel, Mário, Luíz, João. A ordem é aleatória. Cada um que escolha o seu maluco preferido.

1. Pedro

Uma mulher e uma pistola


Pedro Paixão fala com Nuno Markl

.....

2. Miguel

Amores e saudades de um português arreliado


Miguel Esteves Cardoso fala com José Adelino Faria

.....

3. Manuel João

New in Town


Manuel João Vieira e uma entrevista de vida


4. Mário

Um pouco mais de sol


Mário Cesariny diz um poema
...

5. Luiz

O Libertino


Luiz Pacheco, um querido muito cá de casa

....

6. João Vuvu

Vai e vem
(lição com bolinha vermelha)


João Vuvu esclarece a uma amiga de longa data, em detalhe, como se pratica o Broche Chinês e, de seguida, contextualiza politicamente esta "tecnologia de ponta".

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(a continuar)
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Dado o adiantado da hora e o meu estado de sono absoluto, vou retirar-me. Queiram, por favor, continuar a descer que há não apenas se fala da pesca a amejua na tia doalvor como de outras aparições.

pesca a amejua na tia doalvor


De vez em quando pasmo. Chega uma pessoa a casa, tarde e más horas, a pensar que já viu e ouviu de tudo, e depois é isto.

Liga-se a televisão e lá aparece aquela assombração. A gente a pensar que a indigência intelectual já é coisa do passado e não: ali está ele, orando. Pareceu-me que a falar do Marcelo. Perante a visão da avantesma, logo se levantou um sururu aqui em casa: 'Aquele gajo...! Mas o gajo ainda não percebeu...? Tira-me esse gajo da frente!' e eu com o comando na mão sem saber se havia de me fustigar um pouco mais ou deixar para lá.

Para não alimentar desencontros conjugais e, sobretudo, para não aumentar o risco de ainda apanhar alguma neurose, desliguei. Que se lixe. Não faço ideia de que estava o passado Passos a a dizer sobre o célebre catavento mas também não interessa -- dali nunca vi uma que se aproveitasse, não havia de ser hoje.

A seguir, vou dar uma volta pela net e apercebo-me que, oh caraças, caraças, então hoje era dia das mentiras e nem dei por isso? 

Pausa. Reflexão.

Tive duas conversas tão inacreditáveis, diria que à beira da surrealidade e, agora, perante a evidência dos factos, interrogo-me: mas será possível que aquilo fosse tudo mentira...? Cada uma delas durou para cima de uma hora das bem aviadas e eu ainda estou para perceber o que é que aconteceu para uma coisa daquelas ter acontecido e afinal ... dia das mentiras...? Rebobino e penso, caraças, não pode ter sido mentira. O que foi, foi uma grande reviravolta .

Aliás, não foram duas, foram mas foi três que, estava eu ainda a digerir a primeira das conversas, toca-me o telefone e aparece-me uma pessoa também com uma conversa nunca antes ouvida, uma coisa que fiquei a pensar, What the hell....? O que é que foi isto...? A outra conversa presencial veio depois. Por isso, foram três conversas que ontem juraria que não poderiam existir, em tempo algum. E, afinal, ocorreram.

Ah, esperem. Não três: quatro. É que junto à hora do almoço, uma outra chamada em que alguém me descreveu uma cena inimaginável, uma cena de filme. Rimos os dois à gargalhada apesar de ser uma coisa péssima. Ele até me disse: 'Quando lhe apetecer rir à gargalhada, ligue-me que tenho sempre coisas destas para contar'.

Mas essa não pode ter sido mentira pois há bocado, vinha eu no carro, recebi uma chamada a saber se já estava ao corrente do que se tinha passado. Aliás, nenhuma das conversas pode ter sido mentira. Mas o que foi não sei.

Já sei, deve é ter sido o dia dos prodígios.  

Mas, então, dizia eu, cheguei à net e dou com isto de ser dia das mentiras. Uma das coisas foi esta da fotografia aqui abaixo. Uma malandra, fez-se fotografar agarrada ao carro do namorado. Depois imprimiu a fotografia e colou-a no espelho lateral do dito carro. Quando ele arrancou e olhou para o espelho, apanhou um susto daqueles pensando que era ela de verdade. Imagino.


Pois. Mas não acabou aqui.

É que, para me distrair, vou ver as estatísticas do blog, naquela parte de ver as palavras que as pessoas escrevem no google e que, depois, clicando nos sites que a google apresenta, entram no Um Jeito Manso... e não é que me aparece aquilo que está no título deste post?

pesca a amejua na tia doalvor

E não é que o engraçadinho do algoritmo da google me manda a pessoa para cá...? Ora, vocês que aqui me acompanham, digam lá se alguma vez falei da pesca à amejua da tia doalvor (Amejua da tia?). Ora vejam bem.

Dias dos prodígios - eu bem vos digo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um sábado muito feliz.

sexta-feira, abril 01, 2016

O imediato perde história e nome






Isto podia ser a história da minha vida.
O que digo eu? Podia ser? Podia ser, não: é
Passa, e passa bem, da meia noite e agora é que cheguei ao pé do computador. 
Está bem que hoje tive desculpa. Trabalhei até tarde, depois festa de anos, uma alegria, mas daqui a nada tenho que estar a pé que o dia começa como eu não gosto nada que comece: mal ponha o pé no escritório já tenho que ir a correr para uma reunião. Os dias inteiros nisto, sem um tempo para respirar. E se há épocas que me desagradam são destas. Altura de avaliações. Odeio. Eu não devia dizer isto que supostamente não há empresa evoluída que não adopte estas métricas, KPI's (Key Performance Indicators) e o escambau. Dir-me-ão que só existe o que pode ser medido e que a gestão deve ser top down e os objectivos das empresas devem desdobrar-se em cascata até ao nível mais baixo. Tretas. Para mim isto é a maneira de entregar a gestão efectiva, a liderança. o acompanhamento efectivo a uma ferramenta de avaliação. Uma coisa é monitorizar, através de métricas, a evolução da empresa a todos os níveis, que isso é indispensável, e outra, bem diferente, é avaliar o desempenho de cada pessoa segundo metodologias todas xpto, como se fossem a última coca-cola do deserto. Claro que há funções em que as métricas são importantes mas, mesmo para essas e para todas as outras, a avaliação de verdade é sempre subjectiva e vale o que vale. Mas, enfim, é matéria em que estou em minoria e, portanto, não apenas sou avaliada como tenho que avaliar segundo o que está instituído. Da parte que me toca, ao avaliar, nem consigo disfarçar que acho aquilo uma brincadeira de crianças e, portanto, aligeiro o processo. Todos sabem o que penso de cada um pois vou dizendo ao longo do ano, tudo aquilo é, pois, apenas um pró-forma maçador que cumpro porque tenho que cumprir. Tabelas para preencher, objectivos, competências comportamentais, e sei lá que mais (até versejei). Depois comunicar um a um, uma trabalheira. E, se quase todos alinham pela minha bitola, há sempre quem queira levar a coisa a sério ou se sinta injustiçado. Isso é o pior. Não tenho paciência para aquilo, quanto mais para justificar porque é que acho que não são tão proactivos quanto deviam ou que comunicam deficientemente ou outra coisa qualquer.


Enfim. Para quem está desempregado, uma coisa destas é frescura pois tomara passarem por estas chatices mas terem trabalho. E terão razão. 

Mas a questão é que, ainda por cima, esta pincelada das avaliações calha a meio um conjunto de cenas, uma conjugação de complicações, e reuniões e imprevistos e maçadas. Penso (e digo) por vezes, a lastimar-me: andou a minha mãezinha a criar-me para isto. Mas não posso dizer ao pé dela, que ela bem me avisou que eu deveria era ser professora. Se bem que, com o que se tem passado ultimamente, não sei se ainda mantém essa opinião. Provavelmente chegam ao fim do dia com a cabeça mais feita em água do que eu. Também não lhes gabo a sorte.


Pronto, já carpi. E sinto que estou a carpir de barriga cheia pelo que isto é mesmo apenas um desabafo lançado para o espaço.

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E agora, falo de quê? Ando a milhas disto. Nem sei bem o que se anda a passar. Ouvi, ao vir para cá uma coisa chata mas nem quero falar disso. Tenho medo. Tenho medo até de falar. Cruzes, canhoto. 


Vi também no online qualquer que o Rangelinho, o Três Pelos, que coitadito parece um enfezado desde que fez dieta, ainda mais incredível ficou, sempre armado em maria-amélia cheia de chiliques, agora deu para se armar em machão, a querer que o PSD faça mais sangue, parece que acha que o Láparo anda feito mariazinha, que isto não é oposição que se faça. 


Pobrezito. Alguém lhe devia dizer para ensaiar aquela conversa em frente ao espelho para perceber que, coitado, não é possível que alguém o tome a sério. Não é que eu tenha alguma coisa contra os rangelitos deste mundo mas este, em particular, tem falta de qualquer coisa, um je ne sais quoi que lhe falta e sem o qual nunca poderá ser nada a sério nesta vida. Até como deputado europeu já levou um raspanete dos valentes por ir para lá fazer queixinhas, armado em puto mal educado, sobrinho de tia velha, daqueles sobrinhos que, quando resolvem soltar a franga, só fazem disparates -- como se em pequeninos tivessem vivido aperreados e, quando chegam a adultos, desatam a ser uns putos apalermados, sem tino, desorbitados.

Parece também que o Rui Rio voltou àquela de agarrem-me senão eu avanço. Mas ninguém o agarra pelo que ele não consegue avançar.

Mas é uma questão de tempo. Ou o Rio ou outro qualquer haverá de fazer a caridade de tirar o Láparo de cena já que ele não tem capacidades cognitivas para perceber que ninguém o quer em lado nenhum.

Tirando isso, apercebi-me, ao ouvir a rádio enquanto conduzia à hora de almoço, que decorre a comissão de inquérito parlamentar à barracada do Banif. 


Juro que continuo sem perceber para que é que aquilo serve. Parece um confessionário a céu aberto. Dali, que eu perceba, não sai nada que se aproveite. Satisfaz a curiosidade da populaça, obriga uns e outros a humilharem-se ou a inventarem desculpas para nada, as televisões apontadas às cabeças. E os deputados, depois de horas nisto, fazem um relatório -- e está feito. Pedra em cima.

Que eu saiba, no BES, isto não substituiu a investigação judicial nem coisa nenhuma. Ainda se víssemos que, na sequência destes interrogatórios, faziam legislação para evitar mais gaitas destas ou arranjavam mecanismos para controlar incompetências e bagunçadas deste lindo calibre ainda eu acharia que aquilo serve para alguma coisa. Agora assim, abóbora. Voyeurismo, exibicionismo e humilhação gratuita e pouco mais. Ou, então, sou eu que ando por fora e do que me chega só vejo isto.

De resto, uma coisa me deixou assim: Ah..... Com pena, quase sem acreditar.

Zaha Hadid morreu e esta é daquelas perdas que me deixam mesmo prostrada. Já aqui falei dela antes. A sua obra é daquelas que me deixa com a certeza que há pessoas que têm dentro de si sementes divinas. 


Há qualquer coisa nela que é maior do que o normal, uma escala sobre-humana, um arrojo desmedido, uma ausência de medo que é incomum. As suas construções são extraordinárias, mesmo a que não chegaram a ser concretizadas. As linhas que ela desenhava erguem-se aos céus ou deslizam ao longo de terras e mares, como se não houvesse limites a uma imaginação desbragada, como se a desmesura tivesse conquistado o direito a existir mas num estado de absoluta transcendência.

Zaha começou por ser matemática e da geometria espacial transitou para a geometria material, desafiando, aí, todas as convenções.

A gente mediana que gosta de ver nos outros uma humildadezinha barata, incomodava-se com a sua assertividade, a sua segurança, a sua autoconfiança.  Falavam no seu mau feitio mas, do que li, nunca achei que fosse mau feitio mas, sim, falta de paciência para perder tempo a aturar gente parva.

São de trabalhos da intensa Zaha Hadid as fotografias que aqui coloquei ao longo deste post.

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Apetece-me ouvir um poema de Cora Coralina

Saber viver - dito por Juca Oliveira

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Gosto de ouvir dizer poesia, como já vocês sabem, mas, para além disso, tenho sempre que ler um poema. Ao menos um poema. Como habitualmente, deito a mão a um dos livros que paira aqui ao meu lado, abro ao acaso. Foi o que fiz. Partilho convosco:

Nas terras que estremecem com o ardor estival,
O dia é invisível, puro e branco. O dia
é uma estria pungente numa gelosia,
uma febre no plaino, um fulgor litoral.

Porém, a antiga noite é funda como um jarro
de água côncava, aberta a infinitos sinais,
e em canoas, perante as estrelas fatais,
o homem mede o vago tempo com um cigarro.

Com o fumo desvanecem-se as constelações
remotas. O imediato perde história e nome.
O mundo é umas quantas vãs imprecisões.
O rio, primeiro rio. O homem, primeiro homem.


[Manuscrito Achado Num Livro de Joseph Conrad, de Jorge Luis Borges, traduzido por Fernando Pinto do Amaral.]

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Sobre Zaha Hadid


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Quando aqui me sentei, apeteceu-me ouvir a Gisela João a cantar 'O meu amigo está longe', como se estivesse com saudades -- mas sem saber bem de quê ou de quem. Como não tenho tempo nem discernimento para averiguar a razão de ser disto, deixo para os descendentes de Freud a explicação.
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Tal como no outro dia, não consigo reler o que escrevi. Por isso, vai assim, completamente em bruto, escrito à pressa. Relevem as imperfeições, por favor.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira.

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