Já aqui o tenho referido: sou céptica por formação académica e talvez, até, por deformação profissional. Para mim, nada pode ser dado como certo até que possa ser objectivamente verificado. Só falo numa coisa se antes me tiver certificado que sei do que estou a falar.
Agora que passamos o dia juntos, o meu marido refere muitas vezes que quando me interesso por uma coisa, me torno obsessiva. Mas não é obsessão e o que for não é de agora, é desde sempre.
Por isso, se vejo uma notícia, tento cruzá-la através de outras fontes. E, nas redes sociais, se vejo qualquer coisa que não tenho como validar, por mais extraordinária que seja e por mais que me impressione, não falo nela.
Por exemplo, nesta hecatombe que são os ficheiros Epstein (os que foram divulgados, apesar de, em significativa parte, conterem muitas componentes ocultadas) não me faço eco de coisas bárbaras e difíceis de aceitar como verdadeiras enquanto não as vejo referidas por diversas fontes que me parecem credíveis. De tudo o que circula sobre rituais satânicos, sacrifícios de crianças e coisas piores (se é que pode haver uma escala de horror em matérias tão devastadoramente cruéis) não falarei enquanto não tiver a certeza de que há veracidade nos testemunhos e nos documentos divulgados. E, mesmo nessa altura, terei que me encher de coragem pois a minha mente parece que se recusa a deter-se em horrores para além do que humanamente suportável. Mas há outros aspectos talvez até acessórios, pelo menos muito menos dolorosos, que me agrediram e que achei por bem não falar no assunto por achar que talvez fosse alguma coisa por validar. Parecia-me inacreditável. Isto é: não dava para acreditar. Aliás, tudo ali é assim: não dá para acreditar. Mas dizerem-me que o Noam Chomsky também era amigo de Epstein parecia-me até ridículo.
Mas, infelizmente, também é verdade. Os mails que escreveu ao amigo Epstein aí estão para o comprovar. Aconselhava Epstein. E, ao contrário de alguns que dizem que se relacionavam com ele antes de ele ter sido preso a primeira vez e, portanto, não sabiam do seu historial de pedofilia, aqui o que há são mails recentes e referem-se mesmo a como Epstein poderia reagir à censura social de que se sentia vítima.
E se isto pode parecer inócuo face à miséria e à desgraça moral de todos quantos frequentavam as casas (e o rancho e a ilha e os aviões privados) de Epstein, a verdade é que me parece o cúmulo da degradação moral de uma certa elite (elite a nível económico ou financeiro, a nível académico, a nível político, a nível empresarial e, até, a nível intelectual) ter o Chomsky a ser amigo de Epstein.
Muitas vezes referido como um exemplo de clarividência democrática, Noam Chomsky, para mim, reunia três características raras quando em simultâneo: lucidez crítica, coerência ética e compromisso permanente com o cidadão comum — mesmo quando isso o tornava profundamente incómodo. Sempre apreciei a forma como incansavelmente fez a apologia de que os cidadãos devem compreender os sistemas que os governam e sempre alertou para o facto de que a apatia política é cultivada deliberadamente, sendo que o poder sempre mostrou preferir populações desmobilizadas. Mas apreciava também a sua coerência: Chomsky sempre criticou todos os poderes, não apenas os adversários ideológicos, criticou os EUA quando era impopular fazê-lo e criticou regimes autoritários, mesmo quando isso desagradava à esquerda, e, além disso, recusou privilégios e cargos que lhe dessem conforto institucional.
E agora... afinal... era amigo de Epstein? Como...? Porquê...? Alguém me explica...?
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O e-mail de Noam Chomsky para Jeffrey Epstein vai deixá-lo doente
Noam Chomsky tranquilizou Jeffrey Epstein quando este enfrentava acusações de abuso e tráfico humano
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