segunda-feira, dezembro 04, 2017

J’ai l’honneur de ne pas te demander






Não me peças, não. Nem me perguntes. Sou um fruto estranho. Acredita. Tenho uma boca que sabe a fruta macia, a dióspiros carnudos e doces, mas também a sorrisos cuja insolência disfarço. Sou insolente, acredita. Nem sabes quanto. Uma vergonha de insolência. 

E, olha, a minha pele é branca e uns dias cheira a violetas e a cedro, outros a deslumbrantes magnólias, mas também a terra molhada, a segredos nacarados. Nem imaginas. A minha pele tão secreta, um perfume tão indecente. Nem imaginas.

Nem queiras saber. Não me peças, pois. 

Não peças a minha mão. A minha mão é pequenina. É a mão de uma menina. A menina anda de balouço, asas de anjinho, de anjinho de procissão, e com as suas mãos pequeninas agarra as cordas. Balouça, balouça, balouça. Peço-te, 'balouça-me, balouça-me'. E subo e subo e subo.

Na garupa do cavalo eu iria. Crinas ao vento, estrelas na mão. Iria, iria, sim. Mas não me peças. Não me peças que vá na tua garupa. E nada me perguntes.

Sou um fruto estranho.

Ofereces-me estrelas e, dentro das estrelas, mundos puros e silenciosos onde os pássaros cantam músicas que nunca ninguém ouviu, acordes que soam como ondas longínquas vindas de intangíveis infinitos. E eu, estranho fruto, sedutora caprichosa, não aceito as estrelas que tens para me dar.


Ofereces-me, então, amoras. Dizes: 'Amoras para ti, para me amares'. Ousadia a tua. Muita ousadia. Bem te aviso. Bem te aviso. Sou perigosa. 'Afasta-te de mim', digo-te, 'sou fruto estranho como a noite de todos os feitiços'.

Penso: vais pagar tanta ousadia, vais experimentar o meu feitiço, vais, vais pagar.

Olho-te, então, desafio-te: 'Esmaga-as. Esmaga-as com a tua língua. Aquece-as com o calor da tua boca. Depois, com elas, pinta os meus lábios. Deixa-os bem tingidos, cor de sangue. Depois lambe-os, lambe o fruto esmagado a saber à tua e à minha saliva.'

Hesitas. Tens medo. Sou fruto estranho, sim. Não sabes mas alimento-me de bagas, de flores, deito-me na terra, na curva dos troncos, procuro a companhia dos bichos, falo uma língua que mais ninguém entende senão eles, os bichos. Nas longas noites de mistério, os deuses escutam os cúmplices sussurros que da terra se levantam, e pasmam com as palavras que se elevam por entre os troncos azuis das árvores nuas.


Olhas-me, não sabes como chegar até mim: 'És um fruto estranho, mulher' e eu confirmo: 'Nada me peças, homem, que eu sou um fruto estranho; vê como nascem folhas de mim, folhas espessas, e flores hão-de nascer, flores carnais, flores inconfessáveis. Espreita os fósforos que ardem no fundo do meu olhar, olha as cores exóticas das minhas asas, olha as transparências coloridas dos cristais que se depõem na minha cabeça, nas minhas patas. Sou fruto estranho'

Olhas-me. Sou um fruto estranho, amor meu. Voo por entre a fantasia e o sonho, construo mundos azuis, florestas elegantes, filamentos dourados, desenho luas que afago com as minhas mãos pequeninas, mãos de flor inventada. Tenho coração de bicho, olhos de amante, e digo palavras vindas de outros mundos.


Deitas-te a meus pés, puxas-me, queres que me deite, queres devorar-me para que o meu corpo se funda com o teu. Sinto-o. Sinto-te. 

Mas, no último instante, recolhes-te e, para meu supremo desgosto, desistes. E ouço a tua voz a murmurar: 'J’ai l’honneur de ne pas te demander'.
Fazes mal, ah tão mal. Ah... que me despedaças. Ah... que tanto te quero, tanto, tanto, tanto. Como vai agora desistir de mim? Ah...! Bicho pequeno e infame, fraco, cobarde. Bicho desprezível, potro amansado, insignificante escaravelho. Ah... que te odeio tanto. Como vais agora desistir de mim? Porque não lutas, porque não te arrastas implorando a minha mão, implorando um instante da minha atenção? Não sabes que me destróis com a tua derrota? Luta, luta, luta por mim. Luta. Luta, que quero render-me. Não percebes isso?
Mas não te digo nada. 
Sou um fruto estranho, já o disse, e orgulhoso. Tão desgraçadamente orgulhoso.

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As colagens surrealistas são da autoria de Gaëlle Cueff. O título deste post é, justamente, o nome da primeira das obras que aqui mostro.

Nina Simone interpreta 'Strange Fruit'

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Descendo, poderão ver uma lua só minha.

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