Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, agosto 10, 2020

O que as fotografias não dizem





Nestas arrumações aparecem coisas surpreendentes. Espantoso como a vida dá mil voltas, como nós nos encontramos e desencontramos e, ao fim de muitos anos, quando já nem nos lembrávamos da sua existência, eis que, do nada, há coisas que reaparecem.

Para o fim, estão a ficar aquelas coisas que, para mim, são como galpões. Sinto terror do que para lá esteja, coisas inesgotáveis, pesadelos. Armazéns nem sei de quê. Ao longo de anos, a gente vai lá metendo coisas. Às tantas a gente já perdeu o tino ao que para ali está. Acredito que alguns dos meus Leitores não percebam isto. Mas a minha casa é grande, tem muito movimento, muita vida se tem vivido por aqui. Sei lá.

Eu estava a esvaziar uma grande secretária que está no quarto que era da minha filha. A secretária mede um metro e setenta de comprimento e é muito funda. O que de lá saíu... Ao meu lado tenho daqueles sacos grandes para o lixo e vou enchendo. Mas o mais surpreendente foi que descobri lá, numa das portas de baixo, os sapatos que usei no casamento dela. Uns sapatos lindos. De tecido cor de pérola, de cetim, bordados, com brilhozinhos, fechados à frente, abertos atrás, só com um fiozinho a prender no calcanhar. Um tacão fininho. Lindos, lindos. Estão envoltos em papel de seda, numa caixa. E a bolsa que usei também nesse dia. No mesmo tom, igualmente bordada a brilhozinhos no mesmo tom. Obras de arte. Guardei-as tão bem que nunca mais me lembrei. Também nunca mais calhou vestir um vestido como o que vesti naquele dia, naqueles tons. No casamento do meu filho o vestido era um misto de azul turquesa e verde esmeralda, todo brilhante. Não podia levá-los, o tom não calhava de todo. Depois disso, também não calhou. Ou, se calhar, até calhou mas não me lembrei. Ou, na volta, é a vontade de os preservar. Parecem uma relíquia. Um dia ainda os ponho em exposição numa vitrine.


O meu marido estava a esvaziar o móvel grande desta sala, o móvel às ondas. Por cima tem portas de vidro e tem livros mas, em baixo, as portas são de madeira e, como é muito largo na parte em que a onda se chega à frente, cabe lá tudo. Volta e meia ouvia-o a praguejar. 'Mas o que é isto?!?' Também deitou muita coisa fora.´É lá que estão as fotografias. Sempre fui viciada em fazer fotografias. Dantes imprimiam-se e eu, quando eram as fotografias dos miúdos, arrumava-as em álbuns. Só que volta e meia alguém vai ver os álbuns, tira uma ou outra fotografia para mostrar a alguém e depois já não sabe de onde tirou e fica de fora. Depois havia os negativos. Envelopes e envelopes de negativos. E, a partir de certa altura, deixei de arranjar aqueles álbuns pequeninos e passaram a ficar em envelopes. Centenas e centenas deles. Depois as avulsas, as que alguém nos deu, as de casamentos, em eventos, sei lá. Ele com um conhecido ex-ministro, por exemplo. Coisas assim.

Uma fez-me ficar cheia de pena. Uma pessoa do meu emprego casou a filha. Convidou todos os do seu grupo. Um grupo de homens e as respectivas mulheres. E, como sempre, eu e o meu marido. Uma, casada com um grande amigo e também, ela, minha amiga, tão alegre, uma bem disposta que fazia rir toda a gente à sua volta, um poço de anedotas e de histórias, médica num grande hospital, tão saudável e bem encarada. Foi-se há um ano e picos, um desgosto grande que senti, uma coisa tão estranha. Por meias palavras, penso que aludi a isso aqui. O marido ligou-me a seguir ao natal, estava com ela ao lado, estavam bem dispostos, combinámos encontrar-nos no início do ano. Tranquilo. Poucos dias depois, talvez menos de uma semana, ligou-me, ela estava muito mal. Nem acreditei no que ele dizia. Nem ele acreditava. No dia seguinte, ligou-me: ela já se tinha ido. Escondeu dele que estava tão mal. Sendo médica, deve ter-se medicado para não ter dores e para ele não perceber. Estava cansada, notava ele, mas era o período das festas, da compra de presentes, de ter gente em casa, essas coisas. Afinal, veio a descobrir-se: não estava cansada, estava era por um fio. Os colegas dela do hospital sabiam que a doença estava a progredir rapidamente mas não sabiam tudo, ela encobriu de toda a gente. Quis viver a pleno até ao fim. Não quis causar preocupação a ninguém. Acho isto de um estoicismo incrível. Quando se pensa que a morte é uma disrupção absoluta, pensa-se mal. A morte, quando não acontece por um abrupto acidente, pode ser um apenas o fim de um caminho progressivo. A cabeça pode estar bem e tudo parece estar bem e, no entanto, por dentro, a morte está a fazer o seu caminho. E um dia leva a melhor e a máquina pára. 


Também está nessa fotografia um outro que, na altura, se destacava sobretudo pela muito alta estatura. Destacava-se naturalmente. O pai, não sabendo que ele ia ficar tão alto, deu-lhe um nome que também o faria destacar-se onde quer que se apresentasse. Vigoroso, altivo, apoiado pelo pai que, desde cedo, o preparou para ser o maior, o melhor, em todo o lado ele dava voz de comando. Mais temido do que amado, fiquei surpreendida por conhecer a sua mulher. O oposto dele. Ele um prepotente, ela uma inocente palradora. Pouco tempo depois dessa tarde em que ali nos juntámos para a fotografia, ele foi vítima de um episódio nunca bem explicado. O assunto veio nos jornais, apareceu na televisão, reportagem no local. No dia seguinte, ligou-me um desse nosso grupo. Tinha eu ouvido as notícias? Sim, claro. E não sabia quem tinha sido? Não. Credo, não me diga que alguém conhecido... Pois. Ele, o arrogante gigante. Estava em coma, em risco de vida, poucas probabilidades de sobreviver. Eu não queria acreditar no que ouvia. Meses internado, perdeu o andar, a fala, tudo. Desfigurado. Sobreviveu, pois, mas com severas limitações. Mas naquele dia, sorrindo, o cabelo brilhando ao sol, estava longe de saber o que lhe haveria de acontecer.

Um outro, o melhor de todos nós, uma pessoa recta, vertical, de uma dedicação e lealdade extremas, exigente para com todos mas, sobretudo, para com ele próprio, austero, era visto por muitos como uma pessoa difícil. Eu nunca o vi assim. Sempre me dei lindamente com ele. Daquelas pessoas que mais depressa quebra do que torce. Travou lutas sem quartel, sempre em nome de uma exigência total. Pessoas assim são frequentemente mal compreendidas. Por isso, foi prematuramente afastado. Tive imensa pena. Foi despedir-se de mim, ao meu gabinete, no seu último dia. Estava muito triste. 


Sempre soube que um dos filhos era algo problemático, fraco interesse pela escola. Falava com preocupação do filho mas falava pouco. Era reservado. Tempo depois de ter saído, ligou-me. Estava seriamente preocupado. Queria saber se haveria maneira de recebermos o filho como estagiário, apenas para o rapaz estar ocupado, nada mais pedia para ele. Conseguiu-se. Poucos meses depois acompanhei o que é o drama de ter um filho com problemas mas com inteligência para os encobrir. Durante meses o rapaz iludiu o pai dizendo que todos gostavam dele, que lhe davam trabalho cada vez mais exigente, estava a gostar, tomara que o passassem ao quadro. O pai falava comigo agradecido, contente, via o filho animado, motivado, finalmente parecia que estava a ganhar juízo. Até ao dia que um outro colega me ligou a dizer que ia dizer-me uma coisa difícil e que fosse eu a contactar o nosso ex-colega: o filho dele há meses que não aparecia no trabalho, não dizia nada, não respondia a telefonemas, tinha que se rescindir o contrato de estágio. Fiquei tão dorida como se fosse comigo. Enchi-me de coragem e liguei ao meu amigo. Uma pessoa sempre tão exigente e recta e, afinal, com um filho assim, aparentemente irresponsável e complicado. Ficou em sangue, pelo filho, pelo medo do que se estaria a passar com ele, pela surpresa, tão bem que parecia estar, e, também, por nos ter pedido isto, tão contrário aos seus hábitos, e por o filho o ter deixado ficar mal. O que se passou nesse dia, em que ele se meteu no carro e foi surpreender o filho, até ao que se tem passado a seguir é tema que não poderei abordar aqui. Posso apenas dizer que o problema era grave e que o mais estranho é o facto de uma pessoa conseguir urdir uma tal teia de mentiras e enganos, tudo tão consistente e aparentemente tão sincero e genuíno, que os pais nunca suspeitaram de nada. De nada. 

Mas, naquele dia da fotografia, ele e a mulher sorriam, bem dispostos -- estávamos todos bem dispostos -- sem saberem o pesadelo pelo qual iriam passar.

E estava também nessa fotografia um outro, o pai da noiva, dono da enorme e belíssima quinta onde decorreu o copo de água. Era um homem muito rico. Várias casas, qual delas melhor que a outra. Grandes carros. Despertava inveja por aparecer em carros de luxo, com motorista próprio. Sempre gostei muito dele apesar de ser pessoa que despertava ódios mortais. Era destemido, orgulhoso, provocador. Meteu-se com quem não devia, um dos poderosos deste país, um ser desprezível que por aí anda. Não soube parar. Tantas vezes o aconselhei. Estava varado de fúria pela injustiça de que era objecto. Tinha razão. Mas há um ponto em que tem que se perceber que há poderes que podem muito. Perdeu quase tudo, incluindo aquela bela quinta.


O meu marido perguntou: onde é que guardo esta fotografia? Respondi: recordações. Mas fiquei a pensar que deveríamos ter uma caixa com uma etiqueta a dizer: 'o que as fotografias não dizem'.

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Pinturas de Loïs Mailou Jones a acompanhar Mark Knopfler & Emmylou Harris em If this is goodbye

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Desejo-vos uma boa semana.
Saúde. Ânimo.

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