segunda-feira, agosto 26, 2013

Face à briga literária, com o Expresso transformado em cenário de guerra, entre Arnaldo Saraiva e Filipe Delfim Santos a propósito de um livro sobre a correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões o que eu tenho a perguntar é o seguinte: esta gente das literaturas, críticos e editores literários, é tudo gente cheia de birras, ódios de estimação, pancada da grossa ou quê...? É que mais parecem umas vizinhas a dizerem mal uns dos outros, credo. Neste meiozinho literário há alguém que goste de alguém ou vivem todos à beira de se esganarem uns aos outros? [Vidé também o António Guerreiro e a Ana Cristina Leonardo em relação ao Eduardo Pitta]


Em tempos foi o António Guerreiro, no Expresso, a atirar-se à bruta ao Eduardo Pitta, a atirar-se à bruta e a gozar descaradamente, uma coisa excessiva. Parecia um ajuste de contas em público, uma coisa feia de se ver. 


Já a Ana Cristina Leonardo não perde oportunidade de fazer o mesmo, dar tareia a sério no mesmo Pitta lá no seu Meditação na Pastelaria, blogue que sigo aqui na minha galeria de 'Amigos e Ilustres Desconhecidos', baptizado como 'Rebelde com causas'. Acho graça à Ana Cristina Leonardo, tão emotiva, tão impulsiva, mas há que reconhecer que, em relação ao Eduardo Pitta, há ali um odiozinho de estimação que chega a fazer impressão (independentemente de eu lhe poder dar alguma razão aqui ou ali).


Jorge de Sena e João Gaspar Simões -
- nem eles sonhavam o bate-boca a que a sua correspondência viria a dar lugar

Agora no outro dia foi o Arnaldo Saraiva que escreveu um texto longo no caderno Actual do Expresso a dissertar e rebater e a dizer que não disse e que o que a senhora disse, que ela não o deveria ter dito, ou que não foi bem isso que ele disse, e que os outros disseram o que não deviam ter dito, e parece que a coisa azedou por causa de umas alusões homossexuais lá na tropa e mais não sei o quê e que ele até desmentiu, e que o editor não sei que mais, e que a a senhora é isto e aquilo e mais um par de botas e por ali anda o Jorge de Sena e a Srª D. Mécia e o João Gaspar Simões e mais o editor e o escambau no meio daquele azedume todo.


A gente chegava ao fim daquele texto e pensava, ó c'um catano, qu'esta gente parece qu'anda uma vida inteira a coligir raivinhas e azedumes para, anos depois, os vir bolsar em público...

Pois bem, este sábado eis que a coisa se estragou de vez. Outra vez artigo de duas páginas, desta vez saindo à liça o dito editor literário Filipe Delfim Santos a dizer das boas ao Arnaldo Saraiva. E lá aparecem outra vez que este disse, que o outro respondeu, e que isto, aquilo e o outro, e mais farpas, alfinetadas, e ainda uns gaspões, umas dedicácias, e ainda uns cauteleiros fardados, e que as frustrações de um e outro que queriam ser o que não são e que os académicos andam afastados da realidade e mais um palavreado que não acaba.


A gente lê estes desfiares de raivinhas, fúrias descabeladas, rangeres de dentes, e imagina-os a escreverem, pulsação acelerada, doidos da vida a não se quererem ficar atrás, enrubescidos, furibundos, orgulhozinhos feridos, a ajustarem contas como se disto dependesse a sua vida. E a gente lê e pensa: mas está tudo doido?!

E pergunto eu na minha santa ignorância: será que não poderiam limitar-se a fazerem duelos aí numa qualquer viela? Ou a escreverem cartas ofensivas uns aos outros? Coisas assim civilizadas em vez destas peixeiradas em público? Em vez desta barrela de roupa suja que parece que nunca mais acaba?

Ó senhores que ninguém me poupa...!


Este é o amor das palavras demoradas - e como não me demorar quando falo dos meus amores?


Hoje estou com vontade de falar também sobre outra coisa mas não vou fazê-lo. Não quero misturar situações ou sentimentos. Talvez amanhã. Hoje quero falar de vida, de alegria, de leveza, de felicidade.

No post abaixo respondi à Leitora Ana, descrevendo como fiz a minha receita arraçada de strogonoff e acrescentei mais duas receitas pois são simples e versáteis. Gosto de cozinhar. Não sou certinha (em nada da vida mas agora estou a falar de culinária) pelo que não sigo receitas e provavelmente cometo erros. É tudo a olho, pura intuição. O certo é que gosto de servir comida feita por mim, gosto de ver que repetem, que gostam, que querem levar o que sobra.

Mas isso é no post abaixo.

*

Aqui dou-vos conta de que hoje, in heaven, continuou a azáfama, a labuta, desde o início da manhã até ao cair da noite.

Os meninos gostam de trabalhar. Claro que gostam de brincar, de correr, de se esconder, de pintar, de andar com carrinhos, eles, de brincar com bonecas, ela, de se montarem no carrinho de mão e irem de viagem. Claro. Mas o que eles também gostam de trabalhar... De regar, sempre. Mas a coisa acaba sempre transformada em ataques laser, e toda a gente molhada, e os dois pimentinhas de mangueira na mão a atacarem-se uns aos outros com os inerentes danos colaterais.

Mas outra coisa que os torna responsáveis, ali andam cheios de brio, a ver quem trabalha mais que o outro, é apanhar a caruma seca.




Ou com vassoura ou com o ancinho, apanham a caruma como gente grande. Claro que ando sempre um bocado com o credo na boca, não vão magoar-se nos garfos do ancinho. Mas eles já manobram aquilo com perícia e a coisa tem corrido bem.

O bebé, claro, dos quatro é o único que ainda não colabora. Mas entretém-se imenso. Estendi uma coberta no chão para ele andar por ali e é nessa coberta, bem como em esteiras, que toda a gente se senta ou a apanhar sol ou a lanchar ou a brincar.

Mas ele que veja uns garrafões vazios de água... sai da coberta a grande velocidade para ir ter com os garrafões e por ali fica entretido durante não sei quanto tempo.




Este bebé vive entre abraços e beijos dos outros pimentinhas. A irmã, volta e meia, interrompe o que está a fazer para lhe ir fazer miminhos. Ele às vezes puxa-lhe o cabelo, morde-a ou dá-lhe palmadas mas ela é uma fofinha, percebe que ele é pequenino, perdoa-lhe, e continua a apaparicá-lo com ternura.




Na fotografia acima eu estava na cozinha, nas minhas lides. E então reparo que a princesinha mais linda se tinha, uma vez mais, ido abraçar ao mano. À pressa, larguei o que estava a fazer para os fotografar. O primo, o ex-bebé, também queria fazer a mesma coisa mas não é tão efusivo nas suas manifestações, ficou ali a fazer festinhas ao de leve, sem saber bem onde mexer. 

O bebé, habituado que está a isto, interrompeu por uns instantes a sua brincadeira e depois, quando a mana e o primo se afastaram, prosseguiu como se nada se tivesse passado.

Mas o ex-bebé adora o primo, está sempre a querer brincar com ele, quer pegá-lo ao colo. Demos com ele, abraçado ao primo, sentado por trás, a dizer que estava com o 'bebé ao côho'. De facto, parecia era que estava a fazer uma gravata ao primo. Toda a gente lhe dizia para não apertar tanto mas ele estava feliz, a achar-se grandão por já ser capaz de estar com o bebé ao colo. O bebé, como sempre, ria e palrava (cada vez com voz mais grossa), muito expansivo e bem disposto, indiferente a tanto mimo que toda a gente lhe faz.




Na brincadeira digo à minha filha que o ex-bebé está mesmo com vontade de ter um maninho bebé, quiçá uma maninha para fazer a vontade à mãe que gostava de ter uma filha. Mas ela diz para eu esquecer, só se eu quiser ser barriga de aluguer e criá-la até aos 3 anos. Está escaldada com o ex-bebé - que é um amor, um brincalhão, mas que, desde que nasceu, tem sido um castigo para dormir, deixando-a de gatas, sempre com défice de sono. 

Depois apareceu o Agapito.




O Agapito é o gafanhoto assim baptizado, sem uma patinha traseira, que anda a custo, e que lá apareceu para surpresa e alegria dos meninos.

Como poderão ver pelos dedos da bonequinha mais linda, entretanto, já tinha havido pinturas. O mais crescido fez uma pintura que representava os jogadores do sporting e do benfica. Um desenho a encarnado e verde, claro. Ela fez um desenho com muitas cores para dar aos avós paternos, dizendo que eles iam gostar muito. Afinal, com a barafunda que são sempre as manobras de retirada, com mil coisas espalhadas por todo o lado, o quadro acabou por não vir.

De tarde, houve mais uma tentativa de os pôr a dormir. O bebé lá ficou mas por pouco tempo, acordou com o barulho dos outros e sentou-se logo, a rir. O ex-bebé também dormiu durante duas horas já que, de noite, com a excitação, tinha adormecido tardíssimo. Os outros dois nem pouco mais ou menos. E tanto barulho fizeram que não deixaram mais ninguém dormir.

A minha filha, que se tinha deitado ao lado do ex-bebé, a ver se conseguia dormir, dizia que, como se não bastasse a conversa permanente daqueles dois, às tantas só ouvia uma batucada. 

Eu, que estava ao pé deles a responder a mails de serviço e a tentar ler o Expresso/Economia, nem dei pelo início mas, quando olhei para o que os dois primos estavam a fazer na maior animação, fiquei sem dizer nada, sem saber o que dizer. Por um lado pensei: 'os vidros vão ficar num lindo estado...' mas depois, pensando melhor, rectifiquei: 'em lindo estado já eles estavam antes disto, portanto, deixá-los'. E, vendo bem, achei giro, parecia que o vidro estava cheio de flores.




Andavam os dois a colar bocados de plasticina no vidro. Ele punha bocadões azuis, verdes e cor de laranja e dava murros para os fixar. Ela, mais delicada, punha bolinhas cor de rosa e lilases e fixava-as com a pontinha dos dedos. A batucada era essencialmente dele, dos murros que dava na plasticina, muito aplicado para que a aderência fosse perfeita.

Mas o efeito era engraçado.

De resto comeram que se fartaram, a gente vai carregando cada vez com mais comida e parece que nunca é bem à conta. Estamos com o carrinho do supermercado a transbordar, a pensar que vai sobrar uma montanha de comida mas que não faz mal, divide-se entre eles, dá-lhes sempre jeito. E afinal pouco sobra. Ainda levaram umas caixitas mas pouca coisa. Mas os iogurtes foram todos e mais houvesse. Achei que dezasseis iogurtes seriam suficientes para eles mas... qual quê?

E pão? Eu praticamente não como pão pelo que esse é pelouro do meu marido. Vi-o carregar com sacos e sacos e, no fim, ainda voltar atrás para trazer mais dois sacos. Censurei-o, 'estás descontrolado com o pão... que exagero é este...?'. Respondeu-me que eles levavam o que sobrasse ou ficávamos nós, que o prazo de validade aguentava. Era pão saloio dos grandes, fatiados, bolinhas, pão de azeitonas, tomate e orégãos, pão de sementes, sei lá, sacos e sacos de pão. Pois só tenho a dizer-vos que foi todo. Comem pão como se não houvesse amanhã. Pão ao natural, pão em torradas, pão em sandes, pão à refeição, ao lanche, a toda a hora. Pão, leite (nem sei bem quantos litros terão sido), iogurtes, sumos. Já sei que no próximo fim de semana em que lá estejam todos vamos lembrar-nos disto e vamos reforçar a dose mas já sei que corremos sérios riscos de voltar a acontecer a mesma coisa. A questão é que cada vez comem mais. É uma realidade em progressão crescente. Ao princípio contava com a comida para os adultos e a comida para as crianças era um acrescento; mas essa realidade muda todos os dias pois as crianças já comem quase tanto como um adulto (ou mais, se contarmos com as papas, o leite, os iogurtes). Até o bebé come como um homem.

Bom, no fim é com tristeza que se despedem. Os dois pimentinhas rapazes queriam ficar, gostam muito de lá estar, o ex-bebé estava em lágrimas e o mano velho disse-me, 'sabes, Tá, eu estou como o meu mano: também estou muito triste porque também não me queria ir embora'.




Pudera, é brincadeira permanente, alegria e descoberta, e tudo envolto em muito carinho. O tio, então, desafia-os, brinca, arrelia-os, provoca-os - e eles adoram-no.

E o lugar presta-se a esta ideia de que se está de férias, longe da normalidade do dia a dia. E é aquilo com que sempre sonhei. Campo, árvores (plantadas por nós), caminhos 'de bosque', recantos, sítios para brincarem às escondidas, tocas de coelhos, canto dos pássaros, o sol a pôr-se atrás dos montes.

À tarde, quando o bebé já tinha acordado e o ex-bebé estava a dormir, e o mais crescido e a prima estavam na sala a pintar, ele, todo feliz, regressou de uma ida lá fora e disse, todo contente, com a maior das naturalidades, que tinha ido pôr as tintas a secar, que já estava tudo seco e que até tinha visto um auto-tanque dos bombeiros. Assim, tal e qual, como se fosse a coisa mais normal do mundo haver auto-tanques a passarem por ali. Eu acho que tudo ali, para eles, é tão especial que até haver auto-tanques a passar à porta de casa é natural. Claro que demos um salto e fomos a correr para ver o que se passava. De facto, momentos antes tínhamos ouvido o helicóptero mas isso ali é normal, os bombeiros às fezes acho que fazem uma patrulha. 

Mas logo a seguir passou outro e outro auto-tanque e o helicóptero ali andava por cima. Fomos ver mais à frente e vi um fumo espesso logo ali mais abaixo. O meu filho foi pela estrada e o fogo era lá perto mas o vento estava em sentido contrário (por isso não nos tinha chegado o cheiro) e a pronta actuação dos bombeiros resolveu rapidamente a situação. Para mim isto é um susto mas, para a criançada, isto é outra aventura. Fomos todos ver se víamos o fogo e o helicóptero e os auto-tanques. Depois estivemos sentados à sombra de uma figueira e de um pinheiro, num sítio onde a sombra é fresca e perfumada.

Penso muitas vezes assim: era um terreno cheio de mato e agora é um lugar especial, cheio de árvores, onde as crianças adoram estar. E eu era eu, e depois já éramos dois e agora já somos dez. E todos gostamos de estar neste lugar onde as árvores vão nascendo e crescendo para fazer sombra às crianças que vão nascendo e crescendo.

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E por aqui me fico. Para as receitas de alguns dos acepipes deste fim de semana é seguirem, por favor, até ao post a seguir.

NB: Estou cansada a sério. Por isso, e porque já são quase 2 da manhã e tenho que me levantar cedo, não vou nem reler. Por isso, já sabem: vírgulas, letras, acentos fora do sítio... por favor relevem, está bem?

Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma semana muito boa a começar já por esta segunda feira!

Receitas fáceis e saborosas: Uma espécie de strogonoff de carne, lulas e tomate; salada fria de massa, peixes, queijos, ovos e figos; frango assado com bacon sobre cama de legumes


A. Strogonoff de carne, lulas e tomate



Então, Ana, a receita de strogonoff de carne e lulas foi assim (e digo que foi porque da próxima vez que a faça é bem capaz de ser feita de maneira diferente; vou inventando à medida que faço; não consigo seguir receitas, muito menos as minhas):


1. Numa caçarola fiz um refogado ligeiro com azeite, um montão de cebola ao qual juntei louro e salsa. Juntei os bifinhos cortados miudamente e um pouco de sal. Juntei uma pinga de vinho, pouca (o álcool evapora pelo que não tem problema para as crianças). Ficou tapado, em lume brando, até que a carne ficasse bem macia. A cebola acaba por se desfazer.

2. Num tacho grande voltei a refogar muito ao de leve (com azeite, sempre com azeite) um bocado de cebola picada fina, juntei 3 tomates bem maduros (embora no fim junte molho de tomate, coloquei já aqui estes para as lulas abrirem o seu sabor em conjunto com o sabor do tomate) e salsa. Juntei as lulas já descongeladas (pois eram das congeladas já limpas, pequenas) e, depois de levantar fervura, baixei a temperatura e tapei o tacho. Não é preciso estarem muito tempo pois, caso contrário, acabam por enrijar. Provei ao fim talvez de uns 20 minutos e já estavam boas. Não coloquei sal. Acho que as lulas e o choco enrijam se forem cozinhadas com sal. Se fossem para comer assim, seria no fim que juntaria o sal. Não foi o caso, não juntei.

3. Numa caçarola funda, fiz novo refogado ligeiro (sempre em azeite) com bastante cebola (gosto de usar cebolas novas, daquelas brancas, saborosas e adocicadas), um montão de tomates bem maduros, um pouco de salsa e um pouco de sal. Ficou a estufar, até que o tomate quase se desfizesse. Então, com a varinha mágica, desfiz tudo muito bem até que ficasse com aspecto super cremoso. Faço sempre o molho de tomate à parte (por exemplo para a bolonhesa ou o que for que precise de um molho de tomate).

4. Juntei então no tachão das lulas, os quadradinhos de carne e o molho de tomate e envolvi tudo. Liguei o fogão só por uns instantes para os sabores se fundirem. Juntei então os coentros frescos migadinhos.

5. Acompanhei com arroz branco.



O almoço de hoje também foi bom. Porque são receitas simples, adaptáveis e saborosas aqui vos deixo também.


B. Salada de massa com várias coisas (a atirar para o peixe)


(Não digo as quantidades pois vocês adaptarão à medida dos comensais)



1. Cozi massa daquela larga enrolada em ninhos. Depois de escorrer, foi colocada na travessa para arrefecer.

2. Cozi ovos. Depois arrefeci-os em água fria (o que facilita o acto de descascar - e além disso precisava deles frios)

3. Tinha do jantar de sexta feita alguns lombos de atum fresco que tinha sido frito em (pouco) azeite com alho e louro e que tinham sobrado (o atum fresco - ou seja, sem ser de conserva - é óptimo, para além de saudável). Costumo comprar fresco mas na sexta feira não encontrei fresco, apenas congelado, e ficou também bastante bom.

4. Cortei (ou melhor, o meu filho cortou) tomate maduro, salmão fumado, os ditos lombos de atum, os ovos cozidos, queijo mozzarella (não apenas do que é em bola grande, cortada aos bocados, mas também do que vem em bolinhas pequenas e que fazem a delícia das crianças).

5. O meu filho fez um molho numa tigela com azeite, ketchup, orégãos, vinagre balsâmico. Bateu com um garfo para formar emulsão. 

6. No fim misturaram-se os ingredientes todos e envolveu-se tudo com o molho. Enfeitou-se a travessa com rodelas de figos fresquinhos, que comidos com aquela salada de massa ficam muito bem.



Cá está ela, a massa deliciosa



C. Frango no forno sobre cama de legumes

(É muito fácil de fazer e é muito saboroso)


Tinha um frango ao qual tinha tirado uns bocados de peito para a sopa do bebé e que, portanto, tinha ainda muito que comer. Usei-o para fazer o prato quente. 

1. Numa travessa funda de ir ao forno cobri o fundo com rodelas de cebola, depois cortei batata doce às rodelas, a seguir um pedaço de abobóra aos bocados, uma courgette às rodelas, salsa e mais umas rodelas de cebola. Coloquei umas pedras de sal.

2. Coloquei por cima o frango, lavado, aberto como se fosse para churrasco. Coloquei também umas pedritas de sal, alho lascado, folhas de louro. Depois cortei tiras de bacon e cobri completamente o frango. passei um fio de azeite ao longo do tabuleiro (não é preciso muito).

3. Levei ao forno a 130º durante cerca de 1 hora para os sabores não se adulterarem e para a carne ficar macia. Depois aumentei a temperatura para 180º e deixei ficar até ficar um bocado dourado, levemente tostado. Os sabores misturam-se pois o molho do frango assado e do bacon desce para os legumes que ficam muito saborosos.


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Bom apetite!

(A ver se ainda cá volto hoje)

domingo, agosto 25, 2013

Diário de um dia in heaven com o quartel repleto e um animado programa de festas (que incluiu 5 cortes de cabelo, repastos e cantorias)


O mais crescido que acabou de fazer 5 anos já é pro no Youtube. Os outros dois, a prima que fez agora 3 anos e o irmão que ainda não tem dois anos e meio, vão escolhendo o que querem ver e ele vai operando. E dançam e cantam e fazem as coreografias e o quarto elemento, o bebé, que fez 1 ano, bate palmas e ri.

Mas a pen, a internet móvel, é uma tentação. Uma coisinha saída do computador e com uma luzinha a piscar, ui, ui. Por isso, volta e meia, no meio da excitex, lá sai a pen do sítio. Drama...! Pára o filme, pára a música. Os outros recriminam o mal comportado e ele (ou ela) apressam-se a voltar a enfiá-la rapidamente no orifício. Como não estou propriamente sempre parada ao lado deles sem nada que fazer para os poder controlar ao segundo, e os pais aproveitam o facto deles estarem entretidos para lerem o jornal ou conversarem ou encostarem-se a qualquer sítio de olhos fechados, esta peripécia aconteceu várias vezes. 

Resultado, agora que me sentei aqui vi-me aflita para esta coisa arrancar, dizia que não reconhecia o dispositivo. Já se foi abaixo várias vezes e sempre isto. Depois lá lhe dou uns toques, lá esta geringonça arranca, e assim sucessivamente. Estas coisas não se podem retirar assim à papo-seco. Enfim.

Mas estão lindos, todos de cabelinhos cortados.

O meu filho até pôs música cubana enquanto eu estava em serviço, diz que eu lhe faço lembrar os barbeiros de Cuba que cortam os cabelos numa cadeira à porta de casa ou em barbearias que parecem tudo menos uma barbearia. Cada um dos quatro, à vez, numa cadeira, em frente do espelho grande da sala, a porta de vidro aberta, mais parecia, de facto, que estávamos na rua. O bebé cortou pela primeira vez o cabelo, estava com uns caracolinhos que pediam já uma aparadela, agora já parece um rapazinho, todo betinho. 

O ex-bebé é o melhor cliente. Tem uns caracóis espessos, um cabelo forte que só visto mas, como adora que lhe mexam na cabeça, ali está muito compenetrado, costas direitas, imóvel. E quer que eu lhe vá molhando o cabelo e penteando, tudo para fazer render. Posso estar ali meia hora a cortar-lhe o cabelo que ele nem se mexe, de gosto, quase em transe. O mano mais crescido, que tem uma espessa cabeleira, já é mais impaciente. Está sempre a perguntar se está quase. A prima gosta mas só até certo ponto. Como, enquanto está naquilo, está a ver os primos nas deles, e como gosta de andar sempre a participar nas brincadeiras deles, às tantas já quer é sair dali. 

O meu filho também queria que eu me ocupasse dele mas agora não temos cá a máquina e eu a ele não me arrisco a cortar-lhe o cabelo à tesoura, tem um cabelo forte, espesso, e com alguns remoinhos, não é fácil ficar uniforme, cortando-o à tesoura. A minha filha, como lho cortei há pouco tempo, diz que agora só em Outubro. O meu marido também precisa mas foi a mesma questão, a falta da máquina e também não dá para cortar à tesoura. Logo trato disso. Mas, para além do bebé que foi a primeira vez, ganhei uma outra cliente: a minha nora. Cortei um pouco em altura e escadeei-o, ficou giro, com movimento. O meu filho ficou a ver e acho que fotografou, disse que nunca tinha visto ninguém a cortar o cabelo à mulher e percebi que estava a gostar de ver.

Tirando isso, fiz para o almoço um estufado strogonoff de carne e lulas (acho que as lulas conjugam muito bem com a carne; e o sabor do molho tomate, que faço à parte e junto depois, e dos coentros que junto no fim, dão ao molho e ao conjunto um sabor bem apaladado) que acompanhou com arroz. Depois comemos pão-de-ló daquele que tem ovos moles no meio, e melão.


Como durante a semana tinha havido mais um aniversário, aproveitámos para cantar outra vez os parabéns a você.

Mal me despachei da arrumação da cozinha a seguir ao almoço, pus logo o jantar a andar: cachaço de porco à italiana (à italiana, é como quem diz, pois improvisei um bocado). No próprio tabuleiro do forno - porque eram três peças grandes e só ali é que cabiam, pus um fio de azeite, lâminas de alho, folhas de louro fresco e umas pedras de sal. Assentei as três peças de cachaço e pus mais lâminas de alho, louro e pedras de sal. Reguei com um pouco de vinho e com mais um fio de azeite. Salpiquei com orégãos e coloquei umas pontas de alecrim.


Coloquei o tabuleiro no forno a 80º e assim esteve durante 5 horas. No fim virei e subi a temperatura para 180º e esteve talvez mais uma meia hora (ou um pouco menos, não sei) para ficar crocante por fora.

À parte, o meu filho depois fez um refogadinho de alho e cebola, com pequenos cubos de bacon, ao qual juntou feijão preto. 

Comemos a carne, que estava macia e muito saborosa, com arroz branco e com o feijão que estava delicioso. Havia também uma salada de tomate. Para fruta tive melão e figos e, para doce, tarte de maçã de Alcobaça. E voltámos a cantar a plenos pulmões os parabéns a você.

O bebé ainda apenas petisca as coisas mais simples, arroz, por exemplo. Tirando isso, comeu uma sopa de legumes com frango e papa de fruta (tirando, ao lanche a papa de iogurte, fruta e bolachas, essas coisas). Come como um leão e, depois de comer como se não houvesse amanhã, atira-se com gosto a brutas fatias de pão que despacha enquanto o diabo esfrega um olho.

Para o lanche, o meu filho fez umas deliciosas panquecas de aveia (uma mistura de aveia, farinha, leite, ovos, que faz numa pequena frigideira própria para panquecas) que foram comidas ou com banana e mel, ou com doce de frutos vermelhos e queijo que acompanhámos com sumo de manga. O bebé também provou as panquecas e gostou e também comeu queijo e também gostou. As crianças, para além das panquecas, comeram também iogurte.


Tirei muitas fotografias ao longo do dia mas não tenho energia para as passar para o computador.

Com o entusiasmo que sempre têm quando cá estão todos para um fim de semana completo, nem dormiram a sesta pelo que também não conseguimos parar um bocadinho.

Há bocado, quando se retiraram para os seus aposentos (não percebo que pilhas são as deles, que brincam, saltam, correm, e não se cansam até às tantas da noite), e depois de ter ido despejar o lixo, o meu marido sentou-se aqui no sofá a pagou instantaneamente. Eu tentei ler o Expresso e ainda consegui ver em diagonal algumas coisas mas, volta e meia, adormecia. Depois ele arrastou-se, a dormir, para a cama e eu vim conversar aqui um pouco convosco.

E agora, que esta coisa da internet móvel, finalmente parece que estabilizou, vou acabar pois tenho que ir descansar que amanhã a alvorada é cedo e já são quase 2 da manhã.

Este texto está extenso e sem fotografias, deve ser uma seca de todo o tamanho mas não consigo mesmo estar a ocupar-me agora das fotografias, estou a cair de sono.

Desejo-vos, meus Caros leitores, uma belo domingo!!!!!!


sábado, agosto 24, 2013

Não acontece sempre. Mas, quando "les beaux esprits se rencontrent", é caso para não o deixarmos cair no esquecimento. Lady Chatterley: D. H. Lawrence, Marina Hands, Jean-Louis Coullo'ch, Pascale Ferran. Ou A Amante do Tenente Francês: John Fowles, Harold Pinter, Meryl Streep, Jeremy Irons, Karel Reisz. Dois de vários momentos felizes no cinema (e se já falei nestes filmes aqui no Um Jeito manso, as minhas desculpas).


Não sou muito de ver mais do que uma vez os filmes mas há alguns que verei sempre com prazer.

Um deles é Lady Chatterley, uma belíssima adaptação de O amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence um escritor que devorei no fim da minha adolescência e que, em conjunto com outros, talvez me tenha ajudado a entrar melhor na idade adulta, e talvez tenha também contribuído para ser como sou. 


Aos que ainda não tenham visto este filme, se me permitem, recomendo a aquisição do DVD.





Para quem não se ajeita bem com grandes textos em inglês, aqui deixo o link da wikipedia para um texto breve em português sobre a obra que esteve na origem do filme.

A adaptação a cinema é perfeita, e os actores são fantásticos, todos eles mas, claro, em especial o casal principal. Ele, Jean-Louis Coullo'ch, então, é um modelo de contenção e sensibilidade.




O filme tem cenas memoráveis. A emoção é vivida de forma intensa e parece que passa para o lado de cá. Uma das muitas cenas que marcam (pela beleza, sobretudo) é aquela em que Constance e Mellors correm e brincam nus no campo, à chuva, junto à cabana onde se encontravam.

O amor é uma festa quando a descoberta, a ternura e a inocência andam a par e passo. A transgressão, neste contexto, por vezes é um tempero atraente, outras é um factor de instabilidade que resulta bem na ficção mas pode ser um caso sério na vida real. Em Lady Chatterley foi ambas as coisas e daí a intensidade emocional do enredo.




Não encontrei nenhuma versão do trailer no youtube com legendas em português mas, mesmo para quem não perceba, as imagens valem por si.




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Um outro que será sempre um dos filmes aos quais não me importarei de regressar é o The French Lieutenant's Woman, A Amante do Tenente Francês. Uma história de amor dentro de outra história de amor: os actores a viverem uma história de amor enquanto representam uma outra. 





Jeremy Irons e Meryl Streep, dois grandes, grandes. E é a história que é envolvente, é o ambiente, e são também as vozes deles, que vozes lindas eles têm.





Também aqui não encontrei o trailer legendado mas, uma vez mais, mesmo que não consigam perceber, não faz mal. Vê-los e ouvi-los já é prazer suficiente.



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Uma bela história, uma boa adaptação, uma boa realização, grandes actores (e fotografia, e banda sonora, e figurinos, e..., e...) é uma conjugação que se vai rarefazendo nos tempos que correm. Salas e salas de cinema e quase todas com filmes da treta. São raras as adaptações de grandes obras, filmes de fôlego, actores que se entregam inteiros.

Felizmente vão-se encontrando DVD's praticamente de tudo e, embora não seja a mesma coisa que ver numa sala de cinema, também não é mau de todo vê-las em casa. Pelo menos não há aquele cheiro enjoativo das pipocas e barulho de gente a trincá-las.

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Fico-me por aqui. Este fim de semana é, para mim, mais um dos que é feito de dias grandes e cheios de animação. Esta noite já fomos fazer as compras para abastecer o quartel. Toneladas de mantimentos, o frigorífico a transbordar de carne, peixe, legumes, iogurtes, queijos, etc, etc, e, cá fora, bolachas, bolos, sumos, sacos e sacos de pão, doce, aveia (o chef de serviço vai fazer panquecas de aveia), fruta, massa, feijão, café, arroz, leite, cerelac, etc, etc, etc. Tal como vos disse ontem, não sei se no sábado à noite a estalajadeira estará capaz de escrever. Mas um dia de cada vez. Também pensava que hoje talvez não conseguisse e, afinal, aqui estou (às 2 e meia da manhã, é certo, mas isso já é costume).

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo fim de semana!!!

sexta-feira, agosto 23, 2013

Call me Chelsea, disse Bradley, aka Breanna Manning. O heróico soldado americano que forneceu à Wikileaks milhares de documentos secretos, tendo sido condenado a 35 anos de prisão, diz agora que vai satisfazer o sonho de uma vida: fazer um tratamento hormonal e virar mulher. Isto na mesma altura em que o valentão de Prison Break, o actor Wentworth Miller, assumiu que é gay. Isto é uma coisa...! Os paradigmas a caírem todos, uns atrás dos outros. E cá em Portugal não há nenhum a sair do armário?


No post abaixo falo de outras tantas novidades nesta minha amada Lisboa: um autocarro que navega no Tejo a fingir que é um barco, um veleiro deslizando atrás de uma cerca a fazer de conta que é um brinquedo, a montra da loja da Vista Alegre decorada com paletes de madeira para se fazer passar por louça para o povo. Só visto. Já nada é o que parece ser, é o que vos digo. (De passagem digo-vos onde podem comprar peças da Vista Alegre a bons preços.)

Mas isso é a seguir. Agora, aqui, a conversa é outra: o que é, continua a não ser o que parece mas o contexto é outro. 

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Música, por favor



Oh, Billy Brown had lived an ordinary life
Two kids, a dog and the precautionary wife
While it was all going accordingly to plan
Then Billy Brown fell in love with another man

He met his lover almost every single day
Making excuses through his dodgy holiday
Unto religion that he said he newly found
They didn't know that his faith was earthly bound


(Parte da letra da canção Billy Brown do Mika)


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Bradley Manning, Wentworth Miller: duas revelações surpreendentes quase em simultâneo. 


Nada a ver, cada um é como é. A questão é que, com isto, a gente confirma que grande parte das vezes as coisas não são o que parecem. 

Temos que admitir que nisto da sexualidade não é preciso os homens serem umas bichas histéricas, tal como as mulheres não têm que parecer umas sapatonas, para que sejam, de facto, homossexuais.

Quando faço as minhas longas caminhadas na praia, para não andarmos no meio da multidão, costumamos andar em direcção aos locais com pouca gente, onde a praia é mais selvagem.

Aí vamos passando da zona da multidão, para a zona em que as pessoas estão mais espaçadas, depois para a zona dos casais hetero nudistas, depois para a dos casais homo nudistas, depois para a do engate gay nas dunas até que nos começamos a aproximar de outra praia e a coisa segue o percurso inverso. Nessa zona intermédia a gente pode constatar que, se há os gays abichanados, autênticas malucas uns, autênticas prostitutas outros (vêm das dunas para se porem de cócoras à beira de água, a lavar o rabo no maior dos à-vontades, uma coisa que me faz um bocado de impressão, acho vagamente deprimente), há os que são discretos, homens machos, de aspecto tão viril como o mais hétero dos meus leitores. E, no entanto, é vê-los in love uns com os outros.

Claro que, no dia a dia, longe do recato de praias quase desertas, há aqueles que, sendo homossexuais, o disfarçam. Um amigo meu conhece muito bem e jura a pés juntos - e sabe porque sabe - que um conhecido machão da nossa praça, um dos actores mais requisitados para galã nas telenovelas, é gay todos os dias. E, no entanto, ninguém o tomará por tal e até aparece nas capas de revistas sempre com namoradinhas. A ser verdade, e admito que o seja, vá lá saber-se porque não se assume. Se há coisa que custa a entender é porque é que uma pessoa opta por viver uma vida de mentira em vez de aceitar as consequências. Até porque, de facto, quais são as consequências? Censura? Ora... Quando alguém assume com orgulho a sua condição, toda a gente respeita.

Claro que ser homossexual não é a mesma coisa que querer ser de outro sexo mas, ainda assim, fiquei surpreendida nos dois casos.



Denunciou abusos, entregou documentos incómodos, não receou as consequências:
eis o valente soldado Manning



Vejamos o que disse Bradley, isto é, Chelsea (anteriormente, usava o nickname Breanna), que surpreendeu tudo e todos quando o advogado leu uma declaração sua. Passo a transcrever do Expresso:

No comunicado, intitulado "a próxima etapa da minha vida",  Manning começa por agradecer todo o apoio recebido nos últimos três anos, depois de ter fornecido milhares de documentos top secret à Wikileaks em fevereiro de 2010, traição pela qual foi julgado e considerado culpado.



A surpresa ficou reservada para o segundo parágrafo da missiva. "Enquanto faço a transição para esta nova fase da minha vida, quero que todos conheçam o meu verdadeiro eu. Eu sou Chelsea Manning. Eu sou uma mulher", diz o soldado de 25 anos.


"Dada a maneira como me sinto, que sempre senti desde a infância, quero começar uma terapia de hormonas o mais cedo possível. Espero que me apoiem nesta transição. Peço também que, a partir de hoje, se refiram a mim pelo meu novo nome e usem o pronome feminino (excepto em correio oficial para o estabelecimento prisional). Estou ansioso por receber cartas de apoiantes e ter a oportunidade de escrever de volta", explicou, assinando a carta como "Chelsea E. Manning".


Leio isto e fico perplexa. Mas depois penso: perplexa porquê? Porque um rapaz de 25 anos, numa situação destas, sob pressão, condenado a 35 anos de prisão, resolve viver a sua vida tal como a sua própria natureza o exige? Se é o que ele sente, então é natural que o faça e só temos que aceitar sem perplexidades.

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Por seu lado, o actor e guionista Wentworth Miller, um dos protagonistas da série norte-americana Prison Break, assumiu ser gay numa carta na qual se recusou a participar no Festival Internacional de Cinema de São Petersburgo, na Rússia, onde foi recentemente aprovada uma lei que é vista como atentatória à liberdade dos homossexuais. 




Wentworth Miller com uma das suas várias pretensas namoradas


Passo também a transcrever excertos do artigo do Expresso:

Primeiro saiu da prisão, depois saiu do armário. O ator norte-americano Wentworth Miller, mais conhecido como 'Michael Scofield', a personagem principal da série 'Prison Break', assumiu-se hoje como homossexual, em resposta a uma lei russa que está a criar polémica mundial por limitar os direitos dos gays.



O anúncio de Wentworth Miller surgiu em forma de carta, divulgada pela GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, organização de defesa dos direitos dos homossexuais). 


"Agradeço o convite amável. Como alguém que já visitou a Rússia no passado e que tem história familiar relacionada com o país, ficaria muito feliz por aceitá-lo. Contudo, como homem gay, tenho de recusá-lo", escreveu o ator.

"Estou profundamente perturbado pela atitude e pelo tratamento que o Governo russo tem dado aos homens e mulheres homossexuais", explicou. "A situação não é aceitável de forma alguma e não posso, em consciência, participar num evento de celebração organizado por um país onde pessoas como eu vêem limitado o seu direito básico de viver e amar livremente".


Depois de andar anos a aparecer nos media com supostas namoradas, eis que o jovem bonitão, de aspecto viril, discreto, sóbrio, nos vem também surpreender. E fê-lo com coragem e dignidade. 

Pode ser que sirva de exemplo para os homens portugueses que, sendo também homossexuais, não ganham coragem para sair do armário, preferindo viver uma vida de faz de conta. Opções.


***   ***   ***

Relembro o post a seguir a este com outros desafios às convenções (o Hippo, um veleiro, a loja Vista Alegre armada em loja de pobrezinhos.... - estou a brincar!) e com uma dica amiga para boas compras a melhores preços.

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E por hoje, por aqui me fico. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira. 

Nota: 

Vou ter outro fim de semana dos antigos, com confusão e animação qb chez moi. Por isso, não estou certa de que consiga ter tempo ou cabeça para escrever aqui alguma coisa. Tentarei, vocês sabem que sim, mas não posso prometer nada.

quinta-feira, agosto 22, 2013

Lisboa, uma cidade onde (às vezes) a tradição já não é o que era: um autocarro que navega no Tejo, o HIPPO, um veleiro que desliza como se estivesse atrás da cerca de jardim, e a montra da Vista Alegre decorada com paletes de madeira. [E a propósito da Vista Alegre: conhecem a loja da Fábrica em Ílhavo? Se não, recomendo-a: belas peças a bons preços]


Depois de ontem vos ter dado conta de mais um passeio meu por Lisboa, a Bela, agora animadíssima, as ruas cheias, muitas línguas faladas em tom solto e alegre, as noites em festa, mostro-vos hoje como, para além disso, as coisas já não são o que costumavam ser.

Começo pelo HIPPO. Disseram-me que as HIPPOtrips estão esgotadas até não sei quando, que está a ser um sucesso. Não é barato: 25 euros por pessoa para um passeio de hora e meia. Mas, vendo-o, acredito que deve ser uma experiência engraçada. 





O HIPPO navegando no Tejo, depois de ter andado na estrada



É uma visão bizarra. Habituada que estou a ver navios (em sentido literal e não em figurado), é com alguma estranheza que vejo um autocarro a percorrer as águas do Tejo. Mas a gente habitua-se a tudo pelo que, se amanhã lá vir também uma bicicleta, provavelmente achá-la-ei normal.

Os autocarros normais de turismo, abertos, com lugares em cima, também andam cheios, mas acredito que um autocarro que, às tantas, desce uma rampa e entra no rio, deve ser uma emoção.



Montra de uma loja perto da Bertrand do Chiado.
Mostro-a aqui por causa do autocarro de turismo de que falei
e que aqui se vende em miniatura
(é o terceiro em baixo a contar da direita)



Mas, enquanto o HIPPO atravessava o rio, um belo veleiro deslizava, tradicional e tranquilo. Só que vendo-o do ângulo em que o vi, dir-se-ia que havia uma cerca em volta de um tanque e que ali ia um barquinho de brincar. E as pessoas pareciam, vistas assim, umas figurinhas de brincar, meros figurantes num cenário lindo e que parece alheio à crise, à erosão do tempo, a tudo o que fere a beleza da paisagem.



O Tejo e os seus habitantes. Um rio que vai ter ao mar. Uma beleza ímpar.


Regresso ao Chiado. Está muito agradável - a quem tenha oportunidade para tal, aconselho-o vivamente por estes dias. Pode comer-se comida agradável e a preços mais aceitáveis do que o tradicional nos restaurantes mais na moda cujas ementas normais são um bocado carotas. Uma boa alternativa pode ser, por exemplo, uns pregos fantásticos (bife de atum em pão de alfarroba, lombo em pão de caco, etc) com uma cerveja bem gelada. Mas, enfim, há de tudo: lugares onde parar para comer ou petiscar é o que não falta por ali.

Também me disseram que o passeio entre o Cais das Colunas e o Cais Sodré está identicamente muito bom e que, por lá também há uns petiscos 'à maneira', choco frito e mais não sei o quê.  Será um dos próximos passeios.


Mas ontem falei-vos na Vista Alegre e hoje não quero deixar de vos mostrar como estão agora as montras da loja do Chiado (loja esta que é um duplo ex libris, da marca e desta zona). Acho estas montras o máximo - tão diferentes do classicismo de outros tempos. Agora a Vista Alegre modernizou-se - mas sem perder 'a pinta': peças que se vê que mantêm a qualidade de sempre, a elegância, mas que agora brilham de outra forma, iluminadas pelo ar do tempo.




A terrina é linda.
Se eu estivesse casadoira ou a precisar de alguma louça, arranjava maneira de a ter.

E aquele peixe?
Um salmonete talvez, lindo, brilhante, com umas cores maravilhosas



Há uma loja da Vista Alegre onde eu gosto imenso de ir. Durante muito tempo ia lá uma vez por ano. Agora já não vou pois já não preciso de mais nada e os meus filhos também não e não quero vir de lá frustrada. É a loja da fábrica em Ílhavo. 


A louça que trago a uso foi lá comprada. É louça que sobrou de colecções ou que sobrou de lotes de exportação e que não pode ser vendida no circuito comercial ou alguma louça com pequenos defeitos, alguns que não se notam mas que, de acordo com o apertado controlo de qualidade, foram rejeitadas (por vezes pode ser o carimbo que está por baixo estar um pouco desfocado ou irrelevâncias do género que ninguém vê). A diferença é que os preços não têm nada a ver. E quem diz louça diz também vidros ou cristais pois a Atlantis pertence também ao grupo Vista Alegre. Eu sou um bocado doida por copos, tenho-os de vários feitios, lindos. Acho que uma mesa posta com copos diferentes mas em que há alguma coerência estética fica giríssima.

Ou uso pratos brancos lisos, grandes, ou, se me apetece uma mesa mais alegre, geralmente quando cá tenho a tropa, então uso uns que fui agora fotografar para vos mostrar. 

Quando comprei, escolhi propositadamente pratos diferentes mas que fazem um conjunto engraçado. O grande, que é mesmo grande, é o prato principal: o mais pequeno é o das entradas ou da sobremesa (tanto uso para uma coisa como para outra) e o da sopa é uma taça amarela, que conjuga lindamente com qualquer dos outros. O que vêem por baixo são uns individuais plásticos que, nestas circunstâncias, muitas vezes uso.



Pratos da Vista Alegre adquiridos na Loja da fábrica


[Para circunstâncias mais formais, então uso o serviço clássico, também da Vista Alegre, que tenho desde o enxoval, daqueles que têm cem mil peças e que enche quase um móvel inteiro (não apenas é o serviço de jantar completo mas também o de chá e o de café)]. 

Por isso, já sabem: se estiverem com vontade de passear e não souberem onde, ou se estiverem a precisar de louça (de uso doméstico ou, também, peças decorativas, que não há muitas mas sempre aparecem algumas) sugiro que vão até Ílhavo, visitem o Museu e vão até à loja (que é ao lado do Museu). E depois também podem ir dar uma esticada até Aveiro que está muito bem arranjado ou até Ílhavo que tem umas casas muito bonitas.

Tenho uma colega que, antes do Natal, vai sempre até lá. Depois corre os amigos a balões de cristal Atlantis, as amigas a conjuntinhos de chávenas de café, a pratinhos de parede com a Nossa Senhora, a irmã e as cunhadas com travessas de ir ao forno e coisas assim. Não sei se lhes diz onde comprou...


Nota: Não sou accionista nem conheço ninguém que trabalhe na Vista Alegre/Atlantis. Mas acho que é das boas marcas nacionais pelo que faço gosto em falar nisto.

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Em princípio ainda cá volto hoje.

Lisboa by night com a autora do blogue Um Jeito Manso a ter o seu momento Marilyn. Ah pois é. Depois de um delicioso carpaccio de abacaxi com gelado de alfazema e gengibre, rebentos de coentros e mais não sei o quê, tive, em pleno Largo Camões, o meu momento Marilyn Monroe. Completamente. Desprevenida, de saia branca esvoaçando pelos ares. Isto numa bela noite de verão, numa Lisboa cheia de movimento, muitos turistas, muita animação e um Tejo lindo de morrer.


Depois de vieiras salteadas sobre tártaro de manga e flor de sal, charutos de choco em tempura preta sobre folha de sishô, sashimi kisetsu e mais uns sushis de salmão e ovas e ervilhas não sei das quantas crocantes, eis que resolvemos arriscar e, para além dos convencionais chocolates em três texturas com amêndoa torrada, morango e isto, aquilo e o outro, resolvemos provar o carpaccio de abacaxi com gelado de gengibre e alfazema com sementes de qualquer coisa, rebentos de coentros e outra coisa qualquer.

Pois o que vos digo é que é do mais delicioso que já provei. Bom, bom, bom. A cor do gelado é lilás, lilás intenso, e sabe a alfazema, mesmo, mesmo a alfazema. Mas, oh céus, é tão bom, mas tão bom. E enrolando o gelado numa lâmina de abacaxi, com um rebento de coentro, oh senhores, que coisa tão boa. Só de me estar a lembrar já estou com vontade de lá voltar amanhã. Ai meu deus.



À socapa tirei esta fotografia com o telemóvel para vos mostrar.

(Não sei se a receita é exclusiva daqui mas estas iguarias foram papadas no SeaMe)


Antes tínhamos feito a nossa caminhada à beira Tejo (Descobertas, Torre de Belém) que por estes dias anda repleta, repleta de turistas (acho que não me lembro de ver tanto turista em Lisboa, especialmente nestas zonas mais turísticas). Tanta gente. Contudo, conhecedores que somos destes meandros, fugimos da multidão e, um pouco mais à frente, encontramos o sossego, o silêncio, a paz suave do entardecer. 


À frente da Fundação Champalimaud quase não há ninguém, apenas uns dois ou três pescadores, dois ou três casais de namorados, um ou outro turista com ar curioso. Claro que a esplanada está cheia. Lá podem ver-se os apreciadores da natureza e da verdadeira qualidade de vida - mas a esplanada está num nível mais elevado. Quem lá está, está como se estivesse no convés de um paquete, lendo, contemplando, rezando talvez. De lá não vem um som.


Cá em baixo, rente ao rio, a serenidade é total.




Caminhar por aqui, em silêncio, ver um ou outro veleiro que desliza suavemente, ver uma ou outra gaivota que por aqui voa, bailarina cintilante que se move em toda a sua leveza, traz-me uma paz total. A maresia suave, a quietude, a beleza, são-me muito necessárias.

E andar até que a noite comece a cair - que bom que é. Depois de um dia de trabalho, nada como isto para descansar a cabeça, para fazer reset, para deixar o espírito leve, apaziguado. 

Os dias ainda estão grandes. Daqui por pouco, caminharei até que a noite invada o rio. Mas hoje, quando nos viemos embora, ainda era apenas lusco-fusco. 

A lua brilhava sobre os veleiros da marina. A luz a esta hora é muito bela, muito suave, dourada. E a temperatura a esta hora é agradável, temperada, a aragem que sobe do rio é muito fresca, perfumada.





Depois, de novo com outros sapatos (que a toilette é a mesma ao longo dia, o que mudam são os sapatos e os adereços), fomos até um dos bairros de Lisboa de que mais gostamos: o Chiado. Cheio. Turistas, turistas, turistas. Os restaurantes cheios. Dá ideia que, quem costumava ir para outras paragens (Egipto, Turquia, sítios assim), se desviou para Lisboa. Dá gosto a cidade assim, cheia de vida e alegria.





Um grupo dançava ao som de uma música animada, uma roda de gente à volta aplaudia. Ao pé da estátua do Chiado há sempre festa.


A Brasileira, a Bénard, cheias. Não há vez que lá passe que não esteja alguém a ser fotografado ao lado de Fernando Pessoa. Nunca ele teve tanta companhia.


O homem estátua que levita também lá estava, está sempre, começo a duvidar que seja sempre o mesmo.  A fotografia deve ter sido tirada às dez e tal da noite mas se lá passar ao sábado à tarde ou, tenho a sensação de que a qualquer outra hora, lá está ele, naquele equilíbrio instável e imóvel.





Passear em Lisboa é sempre uma maravilha e é pena que os lisboetas (e portugueses em geral) não se habituem a vir passear, desfrutar a beleza da cidade, descobrir os seus recantos, as suas lojas. No entanto, progressivamente vou vendo mais gente (autóctone) na rua: é uma tendência que se vem notando.

E há cada vez mais lojas novas, diferentes. Continuam a resistir as clássicas (como, por exemplo, a Paris em Lisboa ou a Vista Alegre) mas, aparecem agora, lojas de design, ou temáticas, ou vintage. Toda essa mistura dá vida à cidade.





E foi então, ao regressarmos, dirigindo-nos para o parque de estacionamento, ao atravessar ali no início da rua da Misericórdia, do Chiado para o Camões, que, em vez de ir pela passagem de peões, para me desviar da multidão, fui um bocado ao lado - eu de salto alto, blusinha fresca, sem mangas, saia de tecido leve, pregueada, branca, colar e brinquinhos de pérolas, que é como quem diz a modos que light urban chic





E, então, sem me aperceber, fui por cima de uma grelha que estava na estrada, e nisto, sem ter tempo de me prevenir, fiquei com a saia pelos ares, esvoaçando quase à altura da cintura. Soltei um pequeno grito e tentei com as mãos agarrar a saia mas só quando saí de cima da grelha é que consegui controlar a situação. Foram apenas segundos, ah pois foram, mas, deus meu, foi o suficiente para ficar todinha exposta, o underware todo à vista. Ao chegar ao lado de lá, no Largo Camões, uma jovem sentada num banco riu-se. Pois não, um espectáculo daqueles. Depois avancei de olhos baixos para não ver mais ninguém com ar de riso.


Era talvez a grelha de ventilação do metro, não sei. O que sei é era um vento quente que soprava lá de baixo com força, mas ó que força. A Marilyn já sabia o que lhe ia acontecer, agarrou a saia. Eu nem isso. Além disso, a minha saia é mais curta e de um tecido mais leve que a dela. Deve ter sido lindo.

(É que se o ventinho ainda fosse fresco...)



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E agora: Lisboa de Fernando Pessoa
um vídeo divulgado no YouTube por Margarida Correia 
com o Fado Pessoano interpretado por Ana Moura



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Tinha pensado escrever sobre a nova lei orgânica do governo que parece que deixa Paulo Portas pendurado (mas alguém está à espera que Passos Coelho se torne naquilo que não é?) ou sobre as apostas a dinheiro sobre se o namoro da Marisa Cruz com o hoquista Pedro Moreira chega ou não ao fim do verão (assunto de supimpa importância, como é óbvio)


Mas, afinal, pus-me a escrever sobre a minha amada Lisboa e marimbei-me para aquelas silly coisas. Pode ser que amanhã me apeteça falar nisso. Logo se vê. Como devem andar a reparar, estou sem um mínimo de pachorra para o Passos Coelho e adjacências mas, enfim, algum dia tenho que me dispor a sujar as mãos escrevendo sobre ele. E sobre apostas a dinheiro em relação a namoros do jet setinho, então, nem sei bem o que dizer mas talvez, se puxar bem pela cabeça, me ocorra alguma coisa.

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Hoje fico-me por aqui.

Cheguei a casa tarde e más horas e, com isto, passagem de fotografias para o computador, redução da definição de algumas para não sobrecarregarem muito, senão tenho a impressão que o UJM levava muito tempo a abrir, escrever e tal e coisa, já são 2 da manhã e estou cheia de sono (eu sei que isto do sono é um déjà vu, peço-vos desculpa).

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira. Bons passeios. 

(E para os que são bons a fazer doces, aqui deixo um desafio: e que tal descobrir como se faz o gelado de alfazema e gengibre?)

quarta-feira, agosto 21, 2013

Amanheci com um alpinista à janela e anoiteci com um fauno perdido no bosque. E agora estou a entrar na madrugada com uma lua branca, esplendorosa, reflectindo-se no rio que corre aqui aos meus pés. Com tudo isto, como poderia eu queixar-me destes dias calientes de Agosto?







Hoje, quando estava no meu gabinete, apercebi-me de um vago ruído vindo do exterior. Cordas na janela. Instantes depois, suspenso, um homem jovem de pele cor de chocolate e corpo elástico sorria-me do lado de fora. Pela segunda vez este jovem com um cabelo entrelaçado em rasta, espalhado pelas costas, me aparece à janela.




Um alpinista imprevisto, talvez vindo directamente do céu, lavando a parede do grande edifício, que é toda de vidro. Fiz um leve aceno com a cabeça e continuei a trabalhar. Eu disse janela mas não é janela: o edifício não tem janelas. É todo envidraçado mas não há uma só janela que se possa abrir. E é um vidro duplo insonorizadao. Mesmo que eu quisesse dizer-lhe bom dia, ele não me ouviria. E então ali esteve ele, a escassos centímetros de mim, t-shirt de alças, calções acima do joelho, com uma escova fina rodopiando pelo vidro. Depois prendeu-se melhor, desta vez foi ele que fez um breve aceno com a cabeça, deu um salto no vazio e presumo que tenha descido até ao andar de baixo.

Quando à tarde cheguei a casa, vesti uma roupa adequada e fui caminhar.




Hoje não fui acompanhada nem fui para a beira do rio, hoje apetecia-me sentir o calor húmido que vem da terra nos dias quentes como o de hoje, num certo lugar onde as árvores formam recantos de sombra e intimidade.

Tão grande o prazer que perdi a noção das horas. Já não é a primeira vez que me distraio, que perco a noção do tempo, mas hoje foi pior.

Vinha eu pela beira do bosque já no caminho de regresso quando uns passos se começaram a ouvir vindos do lugar onde há uma inesperada clareira. Acelerei o passo tanto quanto o coração se acelerou. Tombava a noite e nunca se sabe que faunos se esquivam pelos vazios do mundo quando a luz mal penetra por entre a folhagem. Tinha-me atrasado e já sabia o sermão que me esperava em casa, já que tão avisada estou para não andar por aqui até tão tarde.

O homem tinha-se despido, tinha-se deitado nu sobre o chão macio, tinha sentido o sol suave sobre a sua pele tão pouco habituada a coisas concretas. Depois tinha adormecido. Quando acordou já a luz se escondia e a grande lua branca de Agosto pairava sobre si. Olhou à sua volta tentando situar-se. Não viu a sua roupa. Não se lembrava se a roupa tinha ficado mesmo ao seu lado ou ali por perto mas, com a noite a cair, já mal se via. De repente sentiu-se assustado. Nu, sem que a escassa luz lhe permitisse perceber como sair dali, começou a andar tentando descobrir a roupa.

Instintivamente joguei a mão ao bolso onde guardava o telemóvel. Não o senti. Pensei que talvez tivesse caído quando me tinha sentado num tronco a descansar da caminhada. Pensei, isto é o pior que me podia acontecer. Continuei a andar, quase a correr. Mas sentia que outros passos vinham na mesma direcção. Tinha vontade de olhar para trás mas tanto era o medo que não o fazia. Depois tive a sensação que não estava a andar pelo caminho do costume. Algures devo ter-me desviado. Mais ainda o medo, medo de me perder, medo de não ter como avisar, medo de ser atacada. Acabei por conseguir coragem para, enquanto continuava a andar apressadamente, me voltar para trás.




Pareceu-me ver um homem nu entre as árvores e gritei. Desatei a correr, aflita. Mas tanta a atrapalhação e o medo que caí e, tomada pelo pavor, não tive força, ânimo, para me levantar.

O homem correu na minha direcção. Pareceu-me mesmo que vinha nu. Aproximou-se. Mal o conseguia ver, a noite quase nos cobria, apenas o luar branco permitia que se visse alguma coisa. Fechei os olhos, senti-me desfalecer. Medo, medo, medo. O coração perdido no meio do peito.

O homem baixou-se. No meu peito, um grito queria soltar-se mas a garganta estava estrangulada. Era como se gritasse mas o som não se ouvia. Não sei se estava desmaiada ou se estava lúcida. Pensava que ia ser esfacelada por dentro, depois morrer.

O homem perguntou, magoou-se? Não respondi, tinha perdido a voz. O homem tocou-me, está bem? E eu não reagi, talvez estivesse já morta.

O homem apalpou-me o pulso, encostou o ouvido ao meu rosto ou deitou a cabeça no meu peito, não sei. Depois disse, está viva, o seu coração bate descompassado. Então sentou-se ao meu lado. Não me mexi, cheia de medo, sem acção, imobilizada, olhos fechados. O homem, então, deu-me a mão. 

Sem querer, comecei a chorar ao de leve, talvez fosse ainda medo, talvez fosse alguma descompressão, não sei. Abri os olhos, era de noite, mal via, sentia um corpo ao meu lado, alguém que me dava a mão.

O homem perguntou, está a chorar? Mas eu nada disse. O homem disse, não chore, não tenha medo, não lhe faço mal. Apenas corri para vir ter consigo porque a vi cair. Não fui capaz de dizer nada. E, então, ficámos ali em silêncio. Comecei a sentir frio.

Sentei-me. Abri os olhos. Os olhos do homem brilhavam na escuridão. Assustei-me de novo. Pareceu-me que tinha barbas. Podia ser um lobo. E estava mesmo nu. 




O homem disse, perdi-me, e, pior que isso, perdi a roupa. 

Fiquei calada, não percebi.

O homem continuou, saí do trabalho, estava cansado, precisava de me descontrair, as coisas não estão fáceis, sabe, resolvi vir andar aqui, depois cheguei a uma clareira, um silêncio muito puro, habitado apenas pelos sons da floresta, pássaros, insectos, aragem, um restolhar ao de leve. Apeteceu-me sentir o sol no corpo, sentir o chão na pele. Dito assim parece ridículo, eu não sou nada dado a isto, bucólico. Mas foi o que foi. Só que adormeci. Acordei há pouco, não vi a roupa, já mal se via. Agora não sei o que fazer, sem luz não sei o que fazer.

Tive vontade de rir.

O homem continuou, eu podia ir andando mas sei lá onde vou dar; e vou aparecer nu aí na estrada?

Ri.

Reparei, então, que fez um gesto com a mão, percebi que estava como que a prender o cabelo: para além das barbas tinha um cabelo comprido. Um lobo. Um lobisomem. Um fauno assustador com olhos que brilhavam no escuro.




Ele riu também, ah agora já se ri…? É do género de se rir com a desgraça alheia?

Estávamos agora sentados ao lado um do outro. Ele disse, e a noite está a arrefecer, estou a ficar cheio de frio.




Ainda me sentia vagamente assustada. Pensei, que situação mais absurda.

E, então, desatei-me a rir, mas a rir a sério, ah o que eu me ri. E ele também. Às tantas, de tal forma nos ríamos, atirámo-nos para trás, ficámos deitados ao lado um do outro a rir.

Até que parámos de rir.

A lua vista do chão, numa noite quente de verão, é imensa, luminosa, mágica. Vem dela uma suavidade envolvente, muito envolvente.





Agora já aqui estou na minha sala, de onde vejo a mesma lua. Olho-a neste momento: parece-me longínqua e reflecte-se no rio como se derramasse beleza, emoção, saudade.




[E façam a gentileza de não me perguntar o que aconteceu durante todo o tempo em que estive desaparecida, nem como vim parar a casa, nem porque sou tão imprudente que, em vez de me ter enfiado sorrateiramente na cama, me pus aqui a escrever isto. Não me perguntem nada, por favor]


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  • A música é He fades away de June Tabor, a mulher que canta os sons da terra. 

  • As fotografias mostram Kate Moss e Patrick Petitjean (o lobo) por Patrick Demarchelier. A primeira fotografia, a do rapaz das rastas, não sei de quem é.
  • As fotografias da lua foram feitas há pouco.

  • Convido-vos ainda a descerem até ao post seguinte onde respondo a uma pergunta de um Leitor (Se o expressionista Munch a tivesse conhecido, que quadro pintaria?). É certo que não deve ser a resposta de que ele estaria à espera mas, enfim, é a resposta possível.

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E por hoje é apenas isto. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira! 

Bons sonhos (especialmente os acordados)!