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domingo, outubro 22, 2017

Hoje já vi marcas do Outono in heaven





Note-se. Quando cheguei estava como estava, de manhã cedo, na cidade: sol, temperatura amena, sol azul.

Logo à entrada, a glicínia -- enleada no portão -- já alourada como sempre acontece no Outono. Todas as estações do ano têm os seus encantos mas é por estas alturas que a doçura melhor se materializa, seja nas cores, seja na temperatura, seja nos cheiros. Seja também nos sabores.


Voltei a parar na senhora que, à beira da estrada, vende fruta. Trouxe um saco cheio: dióspiros, uvas, ameixas escuras, maçãs bravas de esmolfe, e, claro!, aquelas romãs rubras, dulcíssimas. O carro ficou perfumado com os cheiros da fruta madura. Tão bom.

Mas, se estava um solinho bom, à sombra ou se a suave brisa se avantajava para aragem, sentia-se já o fresco. E se me soube bem este frescor. E, aqui e ali, água. Pouca. Uma ou outra pocinha. Mas que alegria ver que choveu, que a chuva deve ter sido recente. Que visão boa.


No prato fundo que costumo deixar para os gatinhos e que, quando lá chego, está sempre seco, desta vez havia água. 

E se me soube bem o perfume que se desprendia da terra húmida, da folhagem pesada, embebida numa chuva que já não vi mas de que sinto vestígios por todo o lado. Não sei descrever este cheiro de que tanto gosto: é um cheiro orgânico, como se fervilhasse de uma vida invisível, como se a terra fosse o ventre de onde tudo brota, onde a vida se gera. Já o disse antes: um cheiro íntimo, feminino. 


Passo por baixo dos pinheiros, dos cedros, das aroeiras, dos eucaliptos, das azinheiras, piso a caruma rubra e molhada, e aspiro este cheiro tão bom, tão acolhedor. E as cores, tão bonitas. E a forma como o tempo que circula por entre a vegetação vai tingindo de luz a folhagem, os frutos, tão bonita, tão suave.


Sinto que este lugar me acolhe. Longe do mar e dos rios junto aos quais nasci, cresci e sempre vivi, é neste bocado de terra que sinto que estou verdadeiramente em casa.

Passo as mãos pelas folhinhas, vejo como, aos poucos, se vão tisnando, sinto a sua textura, aspiro o perfume. Ouço os pássaros. Estão felizes os pássaros.


De tarde estive a ler 'Da pintura' de Eduardo Lourenço. Uma felicidade. Leio com embevecimento palavras que há tempos não ouvia. O vocabulário corrente tem vindo a estreitar-se. As pessoas falam muito, falam a toda a hora, e, no entanto, as palavras escasseiam, esvaziam-se. Eduardo Lourenço usa um vocabulário rico. Mas usa-o com uma sabedoria elegante. Há beleza e uma sagesse muito consolidada nas imagens que constrói, nos raciocínios que vai desenrolando.


Eu que tanto gosto de ler sobre pintura e pintores, deleito-me com este rio de palavras que corre brandamente enquanto, deitada no sofá, vou olhando o tempo que delicadamente vai passando do lado de fora. Fico com vontade de fazer cópias destas páginas, quase como se, transcrevendo os seus textos, as minhas mãos pudessem aprender o caminho para o refúgio das palavras esquecidas.

Mas não o faço. Há coisas que não se aprendem assim. Então limito-me a deixar-me encantar, enquanto me encanto também com as cores que vejo estampadas no vidro, no qual se misturam os reflexos de dentro com a visão do exterior.


Estamos finalmente no Outono, o tempo da serenidade

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