Questões técnicas, ainda não ultrapassadas, tomaram parte do meu dia. E depois sabem como é: parece que quando uma coisa se avaria logo outras se lhes juntam. Custa a acreditar mas é verdade.
Os transtornos foram assinaláveis e, por isso, ainda estou a tentar ultrapassar os constrangimentos que daí resultaram.
É certo que todos os males do mundo fossem desta natureza. Mas nós não lidamos com o mundo, lidamos com as pequenas coisas que compõem o nosso dia. E, por isso, coisas que para os outros são nada para nós podem ser muito.
Por essa razão, não levem a mal mas hoje fico-me por aqui.
Espero amanhã já estar mais disponível e com as minhas coisas mais estabilizadas.
Seja como for, obviamente desejo-vos um belo dia de domingo. Saúde e tudo de bom. E paz, esse bem tão, tão escasso.
Escolhi o meu pão, um baguette rústica, um pão de centeio com nozes.
Quando estava a colocar as embalagens no carrinho um homem que ia dizer que era meio velho mas que talvez não fosse muito mais velho que eu. Contudo, se não era velho, parecia. O pão está em cacifos de vidro e há uma pinça para os retirar através de uma abertura.
Pois o estupor do velho meteu a mão (sem luva) pela abertura e pôs-se a apalpar os pães, um a um, acabando por tirar o que lhe pareceu melhor. Várias pessoas assistiram incrédulas àquilo, fazendo esgares umas para as outras. Mas eu não me contive. 'O que é que o senhor está a fazer? A apalpar o pão?'. Pois o estúpido virou-se para mim: 'Que mal é que tem?' Perguntei-lhe se não sabia. Desafiadoramente disse-me que não. Expliquei-lhe que as outras pessoas não têm que levar pão já apalpado por ele. E ele: 'E que mal tem isso?'. E eu: 'Não sabe? Acha higiénico?'. O velho furioso: 'Apalpei sim, senhor. E não vejo mal nenhum nisso'.
Pensei que todos os Boaventuras desta vida devem dizer o mesmo.
Olhei em volta a ver se via alguém da Segurança para me queixar mas não vi. E toda a gente que ali estava a assistir, visivelmente incomodada, ficou calada. É o costume. Nas redes sociais toda a gente manda bocas. Ao vivo, de frente para os parvos, a malta prefere ficar calada.
Resumindo: fiquei furiosa.
A seguir, na caixa, estava na ponta a enfiar no carrinho as coisas que o rapaz da caixa ia passando. Nem levantava a cabeça, ia jogando a mão e enfiando no saco que estava no carrinho. Às tantas pareceu-me que já tinha guardado o saco das maçãs mas pensei que estava equivocada. Depois laranjas. Pensei o mesmo mas, como era tanta coisa e tudo tão rápido, julguei que o meu cérebro estava a brincar comigo. A seguir veio um saco de salada mas como tinha comprado dois pensei que se calhar aquele era o segundo. Mas quando apareceu um saco de agriões, uma embalagem de legumes para a sopa, um detergente multiusos amarelo aí percebi que alguma coisa não estava certa. Dei o alerta: 'Estão a passar coisas que não são minhas' e já lá estavam mais umas poucas já passadas pela caixa. O rapaz parou. Apontou para o que estava antes da caixa. Disse-lhe que não, não eram coisas minhas. O rapaz disse que não havia separador, que as coisas do cliente seguinte tinham sido postas encostadas às minhas..
Aí o homem que estava atrás de mim acordou e ficou em transe, como se eu estivesse a arrumar coisas que não eram minhas. Furioso: 'O que é isso? Isso é meu!'. Respondi: 'Bem sei. O senhor não pôs o separador'. E ele, furioso por eu estar a pôr em causa a sua eficiência: 'Ora essa, não pus? Pus, sim senhora. Então não está ali?' E apontou o separador a seguir às suas coisas. Eu disse: 'Sim. Mas não pôs entre as minhas coisas e as suas'. E ele, verdadeiramente furioso: 'Então não está ali?' E voltou a apontar para o separador no fim das suas coisas. E ameaçador: 'E faz favor de não ficar com as minhas coisas'. O rapaz da caixa atrapalhado, tendo que chamar o supervisor, e explicando: 'Um cliente não colocou o separador, registei as coisas como se fossem da cliente da frente'. E o cliente: 'É mentira, pus, está à vista de toda a gente'.
Quando, no parque, estava a contar ao meu marido que um velho atrás de mim tinha armado uma confusão, vi-o a vir com o carrinho dele. E disse: 'Olha, lá vem ele'. E o meu marido disse: 'E achas que é velho? Se calhar não tem uma idade muito diferente da nossa'.
Fiquei a pensar.
Fiquei também a pensar que o velho do pão deve ter chegado a casa a dizer que uma dondoca se tinha metido com ele por ele estar a apalpar o pão e que o velho da caixa deve ter contado à mulher que uma dondoca qualquer quis ficar com as compras dele e depois ainda se desculpou por ele não ter posto o separador quando toda a gente viu que tinha posto, sim senhor.
Tudo relativo. E tudo muito doido.
Tirando isso.
Esteve frio de tarde. Tive que voltar a usar uma capa de lã.
Agora estou aqui a escrever isto, o cão dorme aqui, deitado ao lado da porta de vidro. Deve estar cansado, tanto que correu de um lado para o outro. Cão de guarda a sério.
A robínia aqui à porta está florida com os seus delicados cachos de florzinhas brancas. Se não fosse tão tarde, ia agora lá fora fotografá-las porque à noite ficam lindas.
Ao jantar, como sobremesa, comi nêsperas que colhi pouco antes. Tínhamos uma nespereira que já cá existia, pelo menos trinta anos. Agora já existem mais quatro e estão todas carregadas. A natureza é mãe.
Depois de jantar estivemos a ver mais um episódio de Sommerdahl, uma série fantástica que passa às 10 na RTP2, uma das poucas coisas que se conseguem ver na televisão e, cá em casa, quase a única que agrada simultaneamente aos dois.
Posso ainda contar que, de tarde, estive a escrever. O meu marido perguntou o que é que eu estava a escrever. Disse-lhe que um conto, para um livro de contos. O meu marido perguntou: 'Vê lá se não é nada que vá envergonhar o teu filho'. Estava a gozar porque lhe contei que, quando contei ao nosso filho que tinha escrito um livro e que ia concorrer a um prémio, ele me perguntou se era alguma coisa da qual ele se envergonhasse. Nesse caso, disse-lhe que não, era inócuo. Mas neste caso, dos contos, tive que responder ao meu marido que temo bem que ele vá envergonhar-se, sim (isto admitindo que o livro um dia será publicado, claro). O meu marido encolheu os ombros.
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Vivo uma vida simples e os avanços tecnológicos incomodam-se não pelos seus inquestionáveis benefícios mas pelos riscos que comportam, em especial quando não há regulação, não há consciência colectiva dos reais perigos, não há tempo para pensar e avaliar bem no que estamos a meter-nos.
A tecnologia é cada vez mais acessível, mais ubíqua, mais aberta. E a tecnologia anda por uma estrada e a ética anda por outra, paralela. E, para os distraídos, relembro que as paralelas nunca se encontram.
Os dois vídeos abaixo mostram temas distintos. Mas são faces de um futuro, nuns casos um futuro mais próximo, noutros um futuro um pouco incerto.
Já nem falo no ChatGPT, uma coisa fabulosa e diabólica (já proibida em algumas instâncias, mas que, mesmo proibida, há-de reencarnar noutros produtos). Mas falo em veículos sem condutores ou, ainda mais preocupante, em mecanismos para reverter o processo de envelhecimento.
Os vídeos não estão ainda traduzidos mas aqui os deixo. A quem possa interessar.
Putting an autonomous vehicle to the test in downtown London
I recently had the opportunity to ride in a car made by the British company Wayve, which has a fairly novel approach to self-driving vehicles. While a lot of AVs can only navigate on streets that have been loaded into their system, the Wayve vehicle operates more like a person
David Sinclair is a man who claims his ‘biological age’ is 10 years less than his actual age of 53. The Harvard Geneticist is a leader in longevity science. Watch him in a riveting conversation with Kalli Purie, Vice Chairperson, India Today Group at the #IndiaTodayConclave. The two discuss the formula to look younger, how healthy sugar is for you, whether fruits are a good substitute for sugar, the newly-researched stress-busting food, the benefits of red wine and the magic of metformin.
As imagens, uma vez mais, não têm nada de nadica a ver com nada. Mostram a arte de Marianne Evennou, uma decoradora que faz maravilhas com pouco, inclusivamente decorando com arte e engenho pequenos espaços. Apeteceu-me partilhar convosco, só isso.
Metade do dia foi passado numa sala cheia de doentes com enfermeiros e médicos pelo meio, tudo ao molho e fé em deus.
Nada de mais, apenas uma consulta de seguimento depois do internamento. Ela, noventa frescos anos, a mais jovem e a mais em forma daquela malta toda. A enfermeira chefe dizendo às outras: tenho cá de sessenta em pior estado que ela. E quando o médico chegou e olhou em volta, certamente sem perceber qual seria ela, a enfermeira: não vai acreditar mas é aquela ali, a que está com a filha de pé, ao lado.
Penso sempre que seria bom que pudesse filmar. Há apontamentos que de tão trágicos chegam a ser cómicos, há personagens bizarras, outras tristes e outras que desbobinariam a vida inteira assim a gente lhes dissesse que falassem à vontade.
Claro que penso sempre no que toda a malta penou com o RGPD e, afinal, ali é tudo à vista e ao ouvido de toda a gente: nome e idade, onde dói, o que toma, como faz, etc e tal. Tudo se pergunta, a tudo se responde, todos à frente de todos.
Poderia sair dali a escrever uma novela. Não há cá privacidades para ninguém, isso é coisa de gente folgada, com saúde.
Na outra metade do dia, porque me levantei antes do sol raiar e me tinha deitado quando a noite ia bem alta, estive a escrever uma coisa à qual ainda vou ter que retomar pois, ao escrever, estava prestes a ser devorada pelo sono.
Na metade seguinte, andei a passear na praia, que nada como o ar do mar para uma pessoa ficar ainda mais ko quando de lá vem.
Um sol tímido e um ar fresco, nada a condizer com as férias que me apeteciam. Mas montes de gente. Penso que é por ser período de férias. Para além disso muitos erasmus. E, cá para mim, também muito nómada digital. Digital e não só. (Sei lá).
E agora estou aqui a ver se perdi alguma coisa durante o dia. E acho que nada.
Só uma little coisinha. Quero dizer que acho o máximo o puto que alegadamente sacou informação ao Pentágono, Jack Teixeira de seu nome, ser neto de portugueses. Acho tudo o máximo, isso e que, aparentemente passando ao lado de mil sistemas de controlo, chegue um puto (neto de portugueses!) e faça uma destas. Gramava saber por que porta é que ele entrou ou com que chave ele abriu a porta por onde se esgueirou. Ou não foi preciso nada disso? Nem arte nem engenho? Será que estava tudo à disposição? Seria, por exemplo, simplesmente um funcionário do departamento de Gestão e Classificação de informação com que ninguém se preocupava?
Million dollar doubt, claro.
[NB: Acho o máximo é como quem diz: é crime condenável, claro, e sobre isso não há duas leituras. É crime e ponto final. Mas a perna às costas com que o puto deu a volta a sistemas milionaríssimos operados por mega experts da coisa deveria dar que pensar a todos quantos se julgam o máximo na cibersegurança e na segurança em geral]
E, aqui chegados, talvez estejam a fazer contas de cabeça, conjecturanto sobre o fenómeno matemático que é 1 dia (ou, quem diz um dia diz qualquer outra coisa) ter várias metades -- mas é o que é. No mundo topológico que habito as coisas não têm forma ou contornos definidos e uma coisa tanto é a coisa em si como também as coisas adjacentes que com ela coabitam. Numa versão menos analítica e mais literária houve quem o dissesse dizendo que o homem é o homem e as suas circunstâncias.
Seja como for.
O que interessa é comprámos sushi e, enquanto o meu marido vê o Sporting, eu estou aqui no bem bom, sem jantar para fazer, podendo estar neste preguiçoso parlapiê que não aquece nem arrefece.
Tirando isso, é sempre de gosto que vejo os Botões Dourados. Claro que haverá quem ache isso uma futilidade mas eu, que não sou de me calar, direi que antes derreter-me com botões do que com vistos. E se esta Geneviève é do caraças... Há quem fuja ao banal e arrisque na diferença. Eu, que sou uma bem intencionada, diria que deles é o reino dos céus. Mas já sabemos que deus parece preferir os quadradinhos pelo que esta malta geralmente tem que penar.
Não aqui. Aqui, no Um Jeito Manso, as portas estão sempre abertas para o que é diferente (e bom).
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Como é bom de ver as fotografias que usei para ilustrar o texto não eram para aqui chamadas. Mas vieram e quem sou eu para as pôr a andar? São obra da Inteligência Artificial a mando de Gokul Pillai que resolveu ver como ficariam os muito ricos se fossem muito pobres. E cá estão eles.
Em minha defesa tenho a dizer que foi outro dia produtivo.
Tenho trabalhado no duro.
Tenho o meu espaço lá em cima, o espaço iluminado e tranquilo com que sonhei durante anos. A mesa ampla que imaginava é afinal a grande secretária que era da minha filha no seu quarto de adolescente. Enquadra-se lindamente e permite-me a largueza de que, sei lá porquê, preciso.
Interrompo para ir caminhar ou cozinhar ou, de vez em quando, se estiver calor e sol, para me sentar um pouco no terraço que agora está uma graça, com as buganvílias gloriosamente floridas.
Tirando isso, estou focada, entregue àquilo que agora me mobiliza.
Estou agora prestes a entrar na parte mais dura que é a de descobrir como entrar na selva editorial. Veremos.
Nos dias de hidroginástica, necessidade de compras, de acompanhamento da minha mãe ou outros compromissos tenho que me ajustar, claro.
Tento não ficar em carência pois sei que nos outros dias compensarei.
Há ainda a boa notícia de que as nêsperas estão a ficar doces.
E estou com imensa vontade de me pôr também a pintar e, quem sabe, de tentar também ver se o que pinto é vendável.
Como disse há algum tempo, tenho é que me organizar, gerir prioridades, ver se não fico como antes, sem tempo para nada...
É que, se bem começo a perceber, é uma maravilha não ter horários, não ter compromissos, não ter que prestar contas, não ter que resolver mil problemas por dia.
Vi há pouco o vídeo abaixo e achei o máximo. Quanta paz e alegria.
Revejo-me muito no estilo de vida de Haidee Becker (cujas pinturas ilustram este post), de gostar das coisas simples, de gostar de ter tempo para descansar, para ler, para brincar com o cão. E também gosta de coisas velhas, coisas já usadas por outras pessoas.
Eu nunca me interessei por casas acabadas de fazer. Gosto de casas que conheceram outras vidas, com história.
Mas não só as casas. Também os objectos.
Por exemplo, quando os anteriores proprietários estavam com dificuldade em arranjar quem lhes removesse os candeeiros e, não vendo como usá-los na casa nova, disse-lhes que, por mim, não tinha problema. Utilizei-os quase todos. Gosto tanto ou mais deles do que se tivessem sido comprados por mim.
Até parte dos cortinados aproveitei. Eu não teria escolhido melhor. Ou alguns vasos com plantas enormes e lindas. Pensar que têm dezenas de anos, que já conheceram outra família, uma família grande com muitos jovens, muitas crianças, vários cães, e que agora vivem connosco, enternece-me.
Artista Haidee Becker pinta uma imagem da boa vida no seu estúdio caseiro no norte de Londres
Embora a pintora possa ter deixado a Itália há cerca de 50 anos, o espírito de 'la dolce vita' continua a ser a luz que a guia. Nascida na Califórnia, Haidee mudou-se para Roma ainda criança, onde viveu até ao final da adolescência. Aqueles anos na Cidade Eterna teriam um efeito duradouro nas naturezas-mortas de Haidee que faz a partir de coisas quotidianas, observadas com um sentimento palpável de admiração. Quando visitámos a sua casa e estúdio, uma casa vitoriana em Newington Green que ela divide com o seu cachorro, Heidi também nos falou sobre como a comida – seja um delicioso chocolate ou saladas verdes frescas – é parte integrante da arte de viver bem.
Dia tranquilo e produtivo. Começo a pôr em marcha o que espero que venha a ser, em parte, a minha segunda vida. Estas fases em que começo a pôr-me em campo, a aquecer os motores e a estudar as pistas são muito motivantes para ti. Vibro agora como vibrava aos dez, aos vinte, aos trinta anos. Ainda sou aquela que gosta de avançar destemidamente em territórios desconhecidos.
Outro momento especial aconteceu quando, a meio do dia, calhou estar com uma pessoa que esteve a contar-me a sua vida. Aquele fenómeno que tanto me acontece, de uma pessoa que não me conhece e que chega ao pé de mim e começa a contar-me a sua vida -- os momentos mais marcantes, a descida aos labirintos mais profundos do desgosto e do medo --, voltou a acontecer. Fico sempre muito impressionada. E fiquei também muito impressionada com a capacidade de superação e com a forma inteligente e positiva como encara a vida.
Do que se tem passado por cá, no burgo, na política nacional, lamento dizer: nada me inspira.
Vi há pouco um pobre homem a ser interrogado há mais de cinco ou seis horas numa comissão de inquérito. E parece que ainda dura. Uma aberração.
O meu marido contou que viu a Mortágua a inquirir o senhor em moldes que lhe pareceram pidescos (com quem ele falou, o que disseram, etc), irrelevâncias que não se percebe em que contribuem para alguma coisa.
Eu já não consigo.
Aliás já nem percebo o que é que andam para ali a fazer, a fazer perder tempo a uns e outros. Alguma vez são precisos estes show-offs para se perceber que o Pedro Nuno Santos levava aquilo tudo pela rama, whatsapp e o escambau, delegando coisas importantes num esdrúxulo como o Huguinho? Precisa-se disto para se saber que na TAP sempre se viveu à tripa-forra, à grande e à francesa? Acho que não. Mesmo com a malta a ter que lá meter carcanhol para a empresa se aguentar, continuaram a tratar-se como nababos (grandes ordenados, grandes prémios, grandes indemnizações, grandes compras). Qual a novidade disto? Com verdinhos que têm como experiência profissional serem gente aparelhística ou académicos ingénuos, como querem que os que têm rabo pelado mudem um milímetro nas suas práticas? Como querem que estes verdinhos tenham competência para enquadrar gente experiente ou sabida ou para tratarem de assuntos complexos?
Impossível.
Por isso, que carnaval é este destas comissões de inquérito? Serve para quê? Só se for para épater les bourgeois ou, mais portuguesmente falando, para entreter o pagode.
Não tenho pachorra.
Só me apetece é deslocar-me para a minha nova actividade que tanto anda a absorver-me e que tanto prazer me dá.
Isso e, ao fim da tarde, ir regar. O urso cabeludo arrancou (e escavou em volta) vários aspersores da rega automática. Por isso, pego na mangueira e rego eu as zonas que não levam água da rega. Adoro andar ali, quase ao pôr do sol, a regar, a ouvir e a ver os pássaros.
A pessoa de quem acima falei esteve a contar-me sobre as suas múltiplas actividades e sobre os seus passeios. Um dia destes vai para Barcelona para assistir a um evento e, quando se aproximar o verão, larga amarras e vai fazer praia para a beira do Mediterrâneo ao longo de um ou dois meses. Sente que está na hora de gozar a vida, livre de peias e obrigações. Contei-lhe que, desde que deixei de trabalhar, tive um joelho inflamado, covid, a minha mãe internada, e que, agora, tenho que acompanhá-la em médicos e exames. Por isso, a única coisa que me apetece é estar sossegada, desfrutar a casa, os momentos de quietude, de tranquilidade, coisas simples. Lá virá o tempo em que voltarei a ter vontade de sair por aí, de viagem. Agora fico feliz com o que houver de mais simples.
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Lá em cima, Maxwell Thorpes tem uma incrível actuação no Britain's Got Talent
As pinturas são, respectivamente, de Anna Ancher, Sunlight in the blue room,Summer evening at Skagen de Peder Severin Krøyer e Waterlilies Morning with Weeping Willows de Claude Monet
Vê-se e não se acredita. O que é isto? A degradação moral absoluta? Dizem que é ele que é ingénuo. Mas, caraças, não poderia dar-lhe para uma ingenuidade menos promíscua, menos a parecer-se com ímpetos pedófilos...?
Parte da família está de férias fora do país pelo que este domingo tivemos brunch em casa de outra das partes, parte essa que, de seguida, também foi para uma escapadinha relaxante fora de Lisboa.
Nós dois fomos primeiro buscar a minha mãe e, depois do brunch e do convívio, fomos com ela passear à beira Tejo. Calor, tempo de verão, imensa gente. Tempo de férias. Céu azul, rio quase azul, pessoas na relva, pessoas sentadas na muralha, outras de bicicleta, muitas a pé, a conversar, muitas sorrindo enquanto caminhavam, muitas em esplanadas.
Depois, já aqui em casa, deu-me aquele sono que não admite um não. Só que na casa ao lado, aquela para a qual dão as janelas da sala em que eu estava a adormecer, andava o vizinho a regar o jardim. Não percebi o que lhe deu pois o jardim tem rega automática. Só se está avariada... A verdade é que andava a regar e, nitidamente, estava com todo o tempo do mundo pois regava com vagar, muito tempo em cada centímetro quadrado. Ora isso e os cães dele desestabilizaram completamente o cãobeludo. Saltava e ladrava como um possuído, jogando-se contra as janelas. E eu perdida de sono, tentando abstrair-me do chinfrim. Não consegui. Não adormeci.
Pouco depois fomos fazer a nossa caminhada do fim da tarde. Entretanto iam chegando fotografias, uns na piscina exterior, depois no jacuzzi, depois na interior, e paisagens, e outros que já tinham aterrado. E a noite caindo cada vez mais tarde, um passeiozinho gostoso. Mas os dois cheios de sono.
O que sei é que não dormi de tarde, dormi agora. Acordei há pouco. Na RTP 'O amor move montanhas' e a Emily Blunt a cantar Wild Mountain Thyme.
E com isto o Natal já lá vai, pelo Carnaval nem demos por ele, a Páscoa já está. Daqui a nada será o 25 de Abril com uns a desentenderem-se com outros e os comentadores a comentarem as irrelevâncias de uns e outros (e do 25 de Abril em si se calhar pouco se falará) e logo, logo, virá o 1º de Maio com os sindicatos conservadores e ultrapassados da CGTP, mais os inúteis da UGT e provavelmente com o STOP e outros sindicatos populistas à mistura e com os Raimundos e Catarinas e outras fracas figuras a porem-se à boleia de uma gente que já não representa ninguém.
E quando dermos por ela estaremos nos santos. E eu, no meio disto, só espero é que, para não ser tudo mais do mesmo, pelo meio alguém apeie o Putin e que a Ucrânia volte a ser um país livre de guerra. Tenho esperança. E, na minha esperança, espero que a paz na Ucrânia ressuscite. Acredito nisso. Claro que gostaria que não apenas na Ucrânia mas em todo o mundo. Só que não sou tão optimista ou aluada quanto isso.
Tirando isso, só se for para dizer que os dois vídeos que abaixo partilho agradam-me muito. Não tenho amêndoas ou ovos da páscoa mas tenho vídeos para vos oferecer. Espero que vos saibam bem.
O poético apartamento de Suzi de Givenchy em Paris | Uma jovem, um estilo | Vogue Paris
Nascida em Hong Kong, Suzi de Givenchy morou nos Estados Unidos antes de se estabelecer em Paris. Companheira do sobrinho do famoso costureiro Hubert de Givenchy e mãe de 3 filhos, ela convida-nos para o seu apartamento, um espaço heterogéneo onde convivem objetos de design, vintage e memórias de uma vida itinerante. Uma alma criativa, apaixonada por desenhar e escrever, mas também por moda. Uma moda com elegância atemporal, que ela afirma usar em primeiro lugar para agradar a si mesma. É também com vontade de transgredir os códigos que ela conduz a carreira de modelo aos 50 anos e tal, desfilando em especial para a Off-White. Vogue Paris foi ao seu encontro para a rubrica Une fille, un style.
Visitando os encantadores jardins italianos de Paolo Pejrone | Visitors’ Book
The World of Interiors apresenta o Livro de Visitas com Paolo Pejrone. Um mestre no seu ofício como paisagista, Paolo Pejrone recebe-nos nos seus jardins isolados aninhados nas colinas do Piemonte, na Itália.
À medida que percorremos o paraíso botânico de Paolo, desenvolvemos uma compreensão profunda do seu retiro bucólico: “Com o passar do tempo, ano após ano, tornou-se uma espécie de berçário no qual experimento muitas plantas”.
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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Hoje estou outra vez um bocado cansada mas, desta vez, acho que tenho justificação. Varri a casa toda por dentro, lavei uma colcha, lavei um tapete, estendi-os ao sol, varri cá fora, reguei, apanhei ervas. Há bocado, quando me levantei, estava toda dorida. Notoriamente falta de hábito. Face a toda as circunstâncias, há já algum tempo que não metia mãos à obra para uma faxina a preceito. O meu marido bem me avisou que amanhã, dia de páscoa, não me conseguiria mexer. Mas o tempo estava bom, a casa precisada e eu com vontade de trabalhos físicos que me pusessem o corpo a mexer.
Também fiz uma caminhada enquanto exercitava os braços (e a mente).
E falo na mente porque, enquanto andava ia a pensar que o corpo é mesmo um animal amestrado que, quando deixa de ser exercitado, se esquece das habilidades que antes fazia com uma perna às costas.
No outro dia, cá em casa, quis mostrar à minha neta as dificuldades que tenho quando, na hidroginástica, tenho que fazer uns movimentos com as pernas e outros, não equivalentes, com os braços. Quis mostrar-lhe a concentração que é precisa. Mas, ao querer mostrar-lhe, parece que o meu corpo não queria elevar-se no ar. Saltar à tesoura para os lados ou com uma perna para a frente e outra para trás, só por si, é coisa que faço nas calmas dentro de água. Elevo-me bastante bem, obrigada. Mas fora de água...?
E o que eu saltava, senhores. Gostava de saltar em comprimento e em altura, gostava de trepar, de correr. Em miúda, quer as minhas avós, em casa de quem eu ficava por vezes, moravam num sítio muito mais elevado em relação à escola, quer a minha casa era numa zona alta, bem mais do que o liceu. E o que eu adorava, mas adorava mesmo, largar a correr, correr tão velozmente como se voasse. Ganhava embalagem nas descidas e quase parecia que não conseguia parar.
Agora quis saltar, elevar-me no ar enquanto abria e a fechava as pernas, e tive que me concentrar e convencer-me que era capaz. Caraças.
Tenho que me mexer, exercitar, voltar a ter domínio sobre o meu corpo.
Esta pasmaceira e espapaçamento em que tenho estado desde que tive covid faz com que até varrer, limpar a casa ou arrancar ervas me custe como se tivesse estado a cavar batatas de sol a sol. Não pode ser.
Por isso, ver estes fantásticos vídeos aqui abaixo soube-me como uma bênção. E não é apenas pela dança alegre, é também pela voz capaz de cantar. Há tanto tempo que não canto que, se quiser cantar, acho que não me sai nada. Caraças. A gente enferruja se não praticar. Não pode ser.
Não sei se será a coisa mais apropriada para aqui ter na Páscoa mas fruir o corpo é uma coisa boa para todos os dias, Natal, Páscoa, 25 de Abril ou 1º de Maio.
Veja o que acontece quando um dançarinos de Boogie Woogie e um de West Coast Swing improvisam Sondre Olsen-Bye e Ardena Gojani dançam pela primeira vez
O contratenor e dançarino de break Jakub Józef Orliński | Retrato do multi-talentoso cantor de ópera
Ele parece um anjo e pode cantar também como um. O contratenor Jakub Józef Orliński encanta o público com sua voz aguda e simultaneamente sonora. Mas Orliński não se destaca apenas no palco da ópera. Para contrabalançar o seu trabalho operático, faz breakdance a um nível que também vale a pena ver. No caso de Orliński, a alta cultura encontra o estilo de rua. Acrescente-se a isso sua aparência extraordinária e charme incrível, e não é de admirar que o jovem polaco pareça não ter problemas para atrair até mesmo um público jovem para a ópera. Antes de uma apresentação no Théâtre des Champs-Élysées em Paris no outono de 2022, Orliński falou sobre os vários aspectos de sua vida. O resultado é o retrato de um jovem cantor excepcionalmente talentoso que olha para o futuro com curiosidade.
Estava a passear ao fim da tarde, passarinhos cantando de dar gosto, olhando e fotografando flores e florzinhas, só eu e o meu urso cabeludo, quando o vejo dar um salto e largar em louca correria. No mesmo instante, vejo um coelho aos saltos, correndo e saltando. Por pouco não fiz o mesmo.
Em vez disso desatei aos gritos, gritando pelo nome do urso perseguidor. Poderão achar que é exagero meu mas juro que estava arrepiada. Nos momentos em que um crime pode estar em perspectiva todo o meu corpo fica em transe. Finalmente vi o urso deter-se num zona de moita mais compacta e desatar aos saltos, com latidos curtos e bem sonoros. E eu gritar por ele. Temi até ao último instante que me aparecesse com o inocente coelhinho nos dentes.
Mas o coelho, veloz, deve ter-se enfiado nalguma lura.
Pois eis que o urso veio a correr, aos saltos, a dar ao rabo, pondo-se de pé, todo ele sorrisos e felicidade. Pela reacção percebi que achou que fez o que achou que tinha que ser feito: rechaçou o inimigo.
O meu marido chegou entretanto e ele fez a mesma festa. Nitidamente estava a dar conta, também ao dono, de que tinha feito uma boa acção.
Depois foi pegar-se com os enormes lobos da quinta lá de baixo. Os três bisontes ferozes encostados à vedação do lado de lá e o urso do lado de cá, uma peleja que só visto. Dos três do lado de lá, há um que é imponente. Quando me aproximo, cala-se e fica a olhar para mim. É um animal fascinante.
Como continuei a minha caminhada não vi o vizinho, apenas ouvi vozes. O meu marido contou-me que o vizinho estava a chegar e, ouvindo tamanho ruidoso concerto, foi ver o que se passava e aproveitou para desejar boa páscoa. Simpático.
Entretanto, andei a apanhar nêsperas e, pelo sim, pelo não, a comê-las. E fiz também os meus telefonemas. E etc.
Já quase noitinha, o meu marido sugeriu que era melhor virmos para dentro e eu concordei porque a friagem começava a descer. Ele foi chamar o cão de guarda que andava desaparecido. Aqui é que o dog anda nas suas sete quintas.
A fotografia está assim pois foi feita muito de longe, um zoom bem longínquo
Chamou, chamou. Por fim já chamava à bruta, na base da ordem de ou vens ou vais pagá-las. Fui também chamar. E também assobiei (que I know how to whistle).
Nada de fera.
Passado um bocado apareceu, lampeiro, com as barbas meio molhadas e todo ele se lambendo. Feliz da vida.
Passado um bocado, já aqui na sala, veio pôr ao pé de mim uma corda de brincar. Peguei e ele agarrou com os dentes para eu puxar e ele fazer o mesmo em sentido contrário. E então senti-lhe um cheiro que não identifiquei, um cheiro orgânico, a coisa viva, uma coisa muito disturbing. O meu marido disse: por isso não veio quando chamei por ele. Nem quero pensar no que pode ter sido.
Para além de coelhos há de certeza vários esquilos.
Debaixo dos pinheiros do costume há um mar de pinhas roídas. Quantos esquilos serão necessários para darem conta de tamanho ror de pinhas...?
Mas lá em baixo, ao fundo, também já vi vestígios deles.
E sabe-se lá o que mais há de bicharada. Já para não falar nos pássaros. Um chilreio que derrete qualquer coração. Aliás, tudo aqui derrete, afaga e conforta o meu coração.
Tirando isso, fui ao supermercado e fiquei outra vez estarrecida com o que gastei. No fim, olhei para o talão tentando perceber como foi tal possível. As coisas a um preço estúpido. No fim, como que para gozar com a minha cara, aparecia escrito que tinha poupado 19€. Se tivesse apanhado a patroa do supermercado à minha frente capaz de fazer uma bolinha com o talão e, pedindo-lhe licença, fazer-lhe pontaria à cara de pau com que se apresenta a dizer que, nisto tudo, a distribuição está a fazer grandes sacrifícios.
Mas, pronto, já fiz as compras todas para o fim de semana. Dessa já estou despachada.
Só ainda não contei que depois da visita familiar, da ida ao supermercado e do almoço, viemos os dois até ao sofá, carregámos no botão para o transformarmos em quase cama e, não sei como, quando demos por nós, eram seis e meia da tarde. Não sei quando é que este peso de sono nos vai sair de cima. Imagina se isto nos dava quando ainda estávamos no activo. Havia de ser bonito. Ou então isto não tem a ver com a covid mas com cansaço acumulado durante décadas. Não sabemos.
Mas há-de passar.
O que sabemos é que há por aqui muito que fazer, muito mato para cortar, muita árvore para podar. Temos que vir com mais tempo.
E só de pensar nisto me encho de felicidade.
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E, já agora, dois vídeos cheios de muita beleza e que também me trazem felicidade
Julie Gautier. Musica de Carlos Hof do album ADORE.
Continuo muito afastada da televisão. Ou estou noutra ou estou off. Nos intervalos vou apanhando salpicos do que estará por aí a passar-se. E os salpicos ora me mostram a dita Alexandra, com voz melíflua, meio-sorrisinho, óculos de fino recorte, deixando escapar uma bicada aqui, uma bicada acolá, mas parecendo sempre confortável nos seus saltos, ora mostram Ourmières-Widener, a CEO do fantástico nome, boquinha de rosa, mostrando que não está nem aí para tamanho carnaval e, igualmente, seguramente instalada nos seus saltos.
Não sabendo que partes significtivas do enredo perdi, ouvi há pouco falar num motorista que parece que não estava vacinado contra o corona e, a seguir, já parecia que o problema não era bem esse mas, se calhar, um outro mais escuso e interessante.
Desde que me conheço, em todas as cegadas bem apimentadas aparece sempre um motorista. Pode não ter nada a ver com a história mas por qualquer desvio estrutural que parece habitar a mente da malta, é como se o interesse acabasse sempre atraído pelo motorista. Só foi pena a Alex não ter feito biquinho, não ter revirado o olhinho e, em vez de motorista, ter dito chauffeur.
E, pelo meio, também não sei bem a que propósito, apareceu o Marcelo, o nosso ubíquo Marcelo (que, na realidade, não precisa de pretexto para aparecer seja onde for), que, se bem percebi, nem tem nada a ver com a história. Mas eis que vejo um mail ou uma mensagem do bacano Hugo Mendes (tem sempre que haver um Huguinho totó em qualquer história divertida) em que não se acredita. A realidade teima, cada vez mais, em ultrapassar a toda a brida a ficção. Só faltou que em vez do emoji fofinho dos dois pontinhos e parêntesis, um smilezinho muito déjá-vu, aparecesse um atrevido com óculos escuros e língua de fora.
Daria uma boa banda desenhada, este Huguinho. Aliás, qualquer dos personagens daria uns cartoons do caneco. Melhor: todo o enredo daria uma bonecada do caraças.
E, apesar do frisson destas cenas, não posso esquecer-me de que o Huguinho dependia do Pedro Nuno que despachava, en passant, por whatsapp. E não posso esquecer-me que a TAP e a CEO e tudo o que se relacionou com a TAP, nomeadamente a sabida e consabida felga que por lá parece que imperava dependiam do dito Pedro Nuno. Portanto, na banda desenhada não poderia faltar o boneco do Pê-Nu, esse ganda maluco de quem alguns ainda mais malucos que ele diziam ser o sucessor do Costa. Só que não, o Pê ia Nu.
Pelo meio de tudo tenho apanhado os comentadores a opinarem sobre tudo isto, nomeadamente sobre reuniões e sobre outros ministros que vão sendo chamuscados na primeira e na segunda e na terceira derivada pela inflamável Alexandra. Mas aos comentadores, então, é que já não consigo mesmo prestar atenção, são outros dos temíveis efeitos colaterais do tufão Alex.
António Costa deve estar com a cabeça feita em água. Como não? Tendo um governo com artistas como o ex Pedro Nuno ou a jovem e irreflectida Marina e com Secretários de Estado como o ex Huguinho e outra miudagem ou bacanos que fazem ou fizeram parte da equipa governativa, ele bem pode acender velas para pedir paz a todos os santinhos.
Uma pena.
Compare-se a qualidade de ministros e secretários de estado dos primeiros governos após o 25 de Abril com estes de agora. Estes de agora fazem-me lembrar o que o meu pai dizia de ir à praça perto da hora em que deixavam de vender peixe, quando as bancas de pedra já só tinham o peixe que tinha sobrado, peixe espatifado, pouco fresco, coisa que já nem para os gatos prestava, só para quem anda à babugem.
E isto nem ter a ver com o PS que, mal ou bem, ainda é capaz de ser do melhorzinho que por aí se arranja. Acho que isto é mesmo uma questão de regime. A influência nefasta da comunicação social cada vez mais sensacionalista e o poder triturante das redes sociais fazem com que o populismo ganhe terreno e, numa tríade fatal, provoquem o afastamento de gente de qualidade. Fica só isto, os inexperientes, os fala barato, os que vivem do show off, os verdinhos, os totós, os restos.
O Presidente da República bem poderia ter aqui um papel construtivo, convocando um conjunto de 'sábios' ou de gente isenta para se estudar uma forma de assegurar que a democracia consegue sobreviver, atraindo e retendo governantes e gestores públicos de qualidade, evitando que sejam destruídos na praça pública para satisfazer shares ou para gáudio da turbamulta.
Tirando isso, que agora me lembre, nada. Só se for que, com este calor, de dia só me apetece ser sereia.
Já o confessei: parece que ando meio aluada. Muita mudança em simultâneo, alguma perturbação na rotina, algumas preocupações, alguma falta de energia. Tudo junto dá este cocktail em que parece que não ando completamente com os pés na terra. E é que, em simultâneo com isto, tenho sempre muita coisa para tratar -- as que andaram a acumular-se durante tanto tempo à espera destes dias mais as que, de repente, me caíram em cima.
Levanto-me (e, por incrível que possa parecer, sempre cheia de sono e a sentir-me a modos que meio desorientada), tentando organizar-me face ao programa de festas do dia e do que lá terei que encaixar.
Claro que, depois das abluções matinais e antes do pequeno almoço, costumo vestir-me normalmente.
E, nos dias em que tenho a hidroginástica, logicamente antes de ir, visto o fato de banho e preparo o saco, guardando a roupa interior, a toalha, a touca, os chinelos, a bolsa onde guardo o telemóvel e as chaves.
Pois bem.
Neste último dia, vendo que estava bom tempo resolvi vestir logo o fato de banho e ir assim tomar o pequeno almoço lá fora, ao sol. E não é pelo bronze, é mais pela vitamina D.
E até aqui, tudo tranquilo.
Antes de ir para a piscina, arrumei o saco, verifiquei se tinha o cartão de acesso. Menina organizada.
Lá chegada, despi a roupa de fora, calças brancas e túnica fininha, guardei tudo no cacifo, coloquei a touca, calcei as chinelitas e ala moça, piscina com ela. Tudo jóia.
A aula voltou a ser puxada. Ora trabalham os abdominais, ora os ombros, ora se fortalecem os braços, ora as pernas ou, o pior de tudo, a coordenação e a concentração. A última que me deixa de cabeça à nora é saltar a abrir e fechar as pernas em tesoura, para o lado e juntar, abre para o lado, fecha e junta, e, ao mesmo tempo, os braços, não a acompanharem esse movimento mas, para a frente e para trás, desencontrados. Uma coisa terrível. E se estão para aí a rir, experimentem. Vão ver como é difícil... Mal dou por mim, estou com os braços a fazer o mesmo que com as pernas. E quando finalmente consigo atinar, lá vem o 'E troca!', ou seja, os braços a abrir e fechar ao lado do corpo e as pernas uma para a frente e outra para trás, e salta e salta e salta. E troca. Caraças.
Bem.
No fim, para fazer o gostinho ao meu lado nadador, fui dar umas braçadas. Já aguento um pouco mais.
Portanto, quando saí da piscina já os meus companheiros e companheiras estavam nos respectivos balneários.
Quando lá cheguei para o meu duche só de água com o fato de banho vestido, já as minhas parceiras estavam quase no fim do seu duche, naked way, com gel e shampoo ou, outras, a vestirem-se. Cada um é como cada qual e eu sou pudica. Fazer o quê?
Dirigi-me, então, para a zona dos cacifos para me vestir.
Tirei o saco, a roupa, coloquei tudo no banco. Retirei a touca, abanei a cabeça para soltar bem o cabelo, e, com a toalha pelas costas, discreta e pudica, retirei o fato de banho. Só que, quando fui à procura do saco de plástico que costumo levar para pôr o fato de banho encharcado, a touca e os chinelos, onde estava ele...? Vi que me tinha esquecido. Portanto, tudo encharcado para dentro do saco.
Mas o pior... muito pior... estava para vir.
Quando fui à procura das cuecas e do soutien... que é deles...? Espreitei. Nada.
Por um instante, nua debaixo da toalha, fiquei paralisada. Percebi que me tinha esquecido.
O que fazer?
Para vestir, só as calças brancas, por sinal com o fecho meio estragado. Fecho-o mas, ao mínimo movimento, abre-se. Com uma blusa mais comprida ou uma túnica, não há problema, não se vê.
Mas sem cuecas...? Ui...
E por vezes não visto soutien mas, nesse caso, visto um top para evitar o efeito das transparências das blusas. Mas que é também do top...?
Sem soutien e só uma túnica fininha...?
Palavra...
Ainda hesitei, seria de voltar a vestir o fato de banho encharcado...?
Não. Não ia passar pelo incompreensível vexame de voltar a vestir um fato de banho ensopado. E não me ia vestir por cima de um fato de banho carregado de água.
Então, foi o que teve que ser.
Ali, ao pé das minhas parceiras desinibidas, eu, a pudica da turma, vesti as calças sem cuecas por baixo, e a túnica também sem soutien por baixo.
Calcei os ténis, desejei boa páscoa e zarpei a todo o gás dali para fora. Na volta ficaram a comentar que, no fim de contas, o que sou é um espírito livre, nem cuecas uso...
Quando cheguei ao pé do meu marido vinha a rir à gargalhada. Quando lhe contei, ele nem queria acreditar. 'Ao fim de duas semanas de piscina já de lá vens sem cuecas...'
Expliquei-me: foi aquilo de ter vestido logo o fato de banho. Nos outros dias, quando visto o fato de banho, dispo as cuecas e o top e guardo-os. Assim... varreu-se-me... Ele, gozão: 'Sim, sim. Desculpa-te.'
E note-se que o digo sem qualquer conotação, preconceito ou segundas intenções.
Almocei depois das duas e meia e lembrei-me de ligar a televisão. Deparei-me com uma cena engraçada. Moedas portava a chave de Lisboa que entregaria a Vitali Klitschko, o calmeirão que preside ao burgo de Kiev e, excitadíssimo (o Coins), naquela sua vozinha fofa, afirmava que estava na Ucrânia e que é ucraniano. Parecia empolgado. Parecia, até, querer convencer Vitali que assim era. Só faltou confessar-se irmão gémeo de Vitali.
Ele falava, certamente, em sentido figurado mas eu, ao reportar o sucedido, estou a ser literal.
E só me ocorreu que ainda bem que o ucraniano Moedas é bem comportado pois, senão, ainda correria o risco de rodopiar na ponta da mão do lisboeta Vitali.
Hoje, depois dos compromissos, fomos fazer turismo para um dos sítios mais bonitos e turísticos de Lisboa (e do país). Já há algum tempo que não passeávamos por ali. À Champalimaud temos ido, gostamos daquele espaço. Mas da Torre de Belém ou do Padrão das Descobertas temos estado mais distanciados, tememos as multidões. Mas hoje fomos. Estava com saudades.
Muita gente, como seria de esperar, e agora também, em frente ao Museu de Arte Popular, com barraquinhas turísticas, barraquinhas de recuerdos insignificantes e banais, barraquinhas de comes, música. Não é nada de mais, não se pode dizer que seja uma tragédia. Em qualquer lugar turístico isto é normal. Dito isto, não quer dizer que goste. Não gosto. Mas compreendo que, havendo procura, é natural que surja a oferta.
Tirando isso, é aquilo de sempre: muitas pessoas, muitas nacionalidades, muitas línguas, diferentes idades. Heterogeneidade a todos os níveis. Disso eu gosto muito. Gosto de andar no meio da diferença, no meio de desconhecidos. Aliás é onde me sinto melhor, no meio de gente que não conheço e que transporta em si outras culturas, outros hábitos.
Fiz fotografias (e a ver se arranjo disposição para as passar para o computador), comi um gelado, senti-me livre, descontraída, turista.
E gosto imenso da Torre de Belém, acho uma obra de arquitectura fantástica e com um sentido histórico de que me orgulho. E, ao contrário de muita gente, também gosto do Padrão das Descobertas.
Todo aquele espaço, em cima do rio que se faz ao mar, é uma maravilha.
Claro que, mal o carro arrancou, qual bebé, comecei logo a pegar no sono. Micro-instantes de sono intercalados com o receio que o meu marido também adormecesse. Vim nessa luta até chegarmos ao supermercado onde fui comprar ervilhas, entrecosto e bacon para fazer tudo isso guisado com ovos. Afinal esqueci-me do bacon. Mas, não desfazendo, ficou bom na mesma.
Entretanto, há pouco caiu-me a ficha: recebi uma mensagem com as alterações no funcionamento da piscina nestes dias de páscoa. Com estes problemas todos, covides, doença da minha mãe, hospitais e quejandos, parece que ando meio desfasada do calendário. É certo que tenho conversado sobre as férias dos miúdos, sobre as suas notas, etc. Mas não estava a relacionar que, no fim desta semana, vai estar a páscoa à nossa espera.
Nunca foi data a que eu ligasse. Lembro-me de um colega muito dado a práticas religiosas que, escandalizado, me dizia que a páscoa é 'só' a data mais importante para os católicos.
Sempre me senti distante das práticas católicas e à páscoa, então, nunca liguei mesmo nada. Se puxar pela cabeça e quiser invocar uma lembrança familiar relacionada com a páscoa, a única coisa de que me lembro é do ninho de páscoa ou do bolo em forma de ouriço que a minha tia fazia, óptimo, uma massa de chocolate e bolacha, com lascas de amêndoas ou pinhões espetados, ambos com uma palha de ovos que ela também fazia, húmida, deliciosa.
O meu marido há bocado perguntou-me: então e como vai ser a páscoa?
Respondi: sei lá. E ia acrescentar: até lá não me doa a mim a cabeça. E então lembrei-me da mensagem da piscina e de que já nem meia dúzia de dias falta. Ou seja, já não tenho muito tempo para me organizar.
Quanto a práticas religiosas penso que, neste período pascal, seria uma boa atitude por parte dos católicos que, como forma de se distanciarem das práticas pedófilas dos padres e do encobrimento por parte dos bispos e demais hierarquia, não pusessem os pés nas igrejas. Isso é que era ser um bom cristão.
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O céu é dos ateus
(petisco apetitoso servido pela Porta dos Fundos)
Você acreditou nos sete princípios herméticos quânticos, na Bíblia dos espíritos, no Seicho-no-ie do pentateuco, no papa babalorixá, no rabino com bota de couro de python, na umbandista coach, na bruxa Wicca da Shopee, no Xamã de Sepetiba. Botou ayahuasca na hóstia ao som de atabaque em plena mesquita. Bom, ao menos você se divertiu?
Há bocado o meu filho perguntou se tínhamos ido passar o dia ao campo. Só então me lembrei dessa nossa intenção. Éramos para ter ido, de facto. Acontece que nos esquecemos. Não dá para acreditar mas juro que é verdade. Esquecemo-nos.
No sábado à noite estava tão cansada e fiz um esforço tão grande para não adormecer na sala não fosse depois faltar-me o sono na cama que, afinal, espertei tão radicalmente que voltei a ter uma insónia das brabas. Só adormeci de manhã, provavelmente perto das seis. Horrível. Por isso depois dormi até às onze.
E, de tarde, depois do almoço, fui até ao cadeirão e adormeci. Devo ter dormido, no mínimo, mais de uma hora. E o meu marido, ainda que em ciclos distintos, também esteve hoje fora de combate.
Pode parecer estranho mas é verdade. A minha filha já sugeriu que fizéssemos umas análises se isto continuar assim. Se calhar. Se nos mantivermos assim na volta teremos mesmo que investigar o que se passa, se isto é normal, esta falta de energia.
Felizmente não precisei de cozinhar. Hoje, quer ao almoço quer ao jantar, comemos restos. Por exemplo, ao jantar e tudo em frio, a minha refeição foi: um bocadinho de arroz, meio hambúrguer (de carne de vaca e porco), meio queijo fresco de cabra (usando o líquido para temperar), uns quantos bagos de uva, uma maçã pequena cortada aos cubinhos, alface, um bocado de paté de frango (1) e o que sobrou da emulsão de tomate (2). Temperei com azeite e orégãos.
Soube-me lindamente. Cada vez gosto mais de comidas assim, frias, simples, feitas na hora. Misturadas variadas.
(1) Paté de frango, feito para barrar fatias de pão torrado no forno:
Cozi peito de franco com um cebola grande e meio alho francês. Escorri o caldo. Depois moí tudo (carne, cebola, alho francês e salsa) com varinha mágica e fui juntando o caldo qb (que foi quase todo pois cozi com pouca água). Juntei sumo de limão, cebolinho fresco, um pouco de ketchup, azeite. Moí bem até ficar uma pasta cremosa.
(2) Emulsão de tomate, idem para as tostas em cima da qual coloquei salmão fumado:
Num copo misturador, coloquei três tomates bem maduros e moí bem. Depois juntei um pouco de sal, um pouco de coentros frescos e orégão e fui juntando, devagar, um fio de azeite enquanto continuo a bater com a varinha.
Fizemos duas caminhadas, uma antes de almoço pelo campo aqui perto, outra, ao fim do dia, aqui pelo meio das casas, passeio que adoro fazer.
Pelo meio só me sobrou tempo para fazer umas pesquisas para me ajudar na mais ingrata das tarefas: a escolha do nome do livro e do pseudónimo. Ontem testei os que tinha escolhido e não fui muito bem sucedida.
No que respeita ao título, eu também não estava muito convencida. Hoje tive um vaipe. Já está.
No que se refere ao pseudónimo é que é do caraças. Claro que o meu marido, em vez de ajudar, só desajuda. Goza, desconstrói, parodia e depois, se quero que leve a sério, já o apanho com a paciência esgotada. A Fátima, estimada Leitora, deu-me boas sugestões mas como agora meti na cabeça que quero um pseudónimo que, eventualmente, venha a vingar doravante, a coisa fia mais fino.
Cada vez a televisão ocupa um espaço mais diminuto nas nossas vidas. Só à noite a ligamos. Eu vou espreitando enquanto brinco com o computador, o meu marido usa-a para refilar, fazer zapping ou adormecer. Mas há bocado estive a ver, em gravação, a entrevista da Rita Ferro, na sua casa em Salvaterra, com o Goucha. Gostei de ver. É ela.
O meu marido no fim disse: 'Não acredito em nada do que ela disse'. Fiquei admirada. Eu acreditei em tudo. Ele não. Diz que acha que ela diz o que, no momento, lhe apetece dizer ou que acha que vai produzir mais efeito.
Fiquei a pensar que isto de existir é uma coisa ingrata: haverá sempre quem não acredite no que dizemos ou que distorça ou desvalorize o que dizemos. Pensamos que estamos a ser genuínos, a falar com o coração nas mãos, e depois alguém diz: 'nada daquilo é sincero'. Ou o contrário: quantas vezes as pessoas encenam uma pose, exibem um personagem, tudo teatro. E, no fim, algumas pessoas concluirão: 'Pessoa franca, exemplo a seguir'.
Os hábitos e os alimentos mais saudáveis que estão presentes na vida de pessoas com mais de 100 anos
Como se vive nas Blue Zones?
Have you ever wondered how people in certain parts of the world live well into their 100s with remarkable health and vitality? These people live in the so-called "blue zones" and they have several things in common, one of which is their diet. In this video, we'll be exploring the specific foods that are commonly consumed by centenarians in blue zones and have been linked to longevity.
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Os cães foram pintados por Franz Marc
E, na partida de Ryuichi Sakamoto, Forbidden Colours