sexta-feira, outubro 22, 2021

Um dia quase igual aos dias do 'velho normal'

 



Levantei-me mais cedo do que o costume. Tinha pensado vestir uma coisa mas, à última hora, apeteceu-me experimentar outra. Não gostei. Experimentei outra. Também não gostei. Pensei antes numa camisa de seda com riscas verticais em tons de verde seco e branco. Experimentei. Pensei que, se calhar, não. O tempo a passar. Antes da reunião queria ainda ir visitar umas pessoas. Pensei que o melhor era voltar ao que tinha pensado de véspera. Experimentei. Talvez. Mas tive que vestir um top por baixo, o decote estava profundo demais. Fui procurar um no tom da blusa. Vesti. Resolvi que podia ser.

Escolhi os brincos. Pérolas pequeninas. Colar. De pérolas, também. Comprido. 

Depois fiquei na dúvida. Que sapatos? Fui ver quais. Fiquei na dúvida. Pensei nuns mas não ficariam bem com a roupa que tinha vestida. Pensei que o melhor seria mudar de roupa. Mas o tempo estava cada vez mais apertado. 

Pensei então nuns sapatos em tons neutros. Não fiquei muito convencida mas era uma solução de compromisso.

Vestida e calçada voltei ainda ao closet. Perfume. Bergamota como nota principal. 

Pensei ainda em ir buscar a aliança e o relógio. Mas já era tarde. Fui com mãos e braços nus.

Antes de chegar, pensei que esperava que a reunião não fosse lá em cima, numa daquelas salas que tão bem conheço, isoladas, secretas. Quando me fiz anunciar, sem grande surpresa disseram-me que subisse ao último piso. Quando cheguei a sala ainda estava vazia. Pensei: de novo, uma emboscada. Desloquei-me até à janela de vidro de onde se tem uma das melhores vistas do rio. Por baixo um jardim. O sol tornando as águas um espelho luminoso. Pensei: o que será desta vez?

Depois, ele entrou. Conversámos. O meu cão, o cão dele. A minha casa, a casa dele. Depois, contou-me. Disse que, por uma questão de lealdade, tinha que me dizer aquilo e que não são coisas que de que se fale por telefone. Talvez. Depois continuámos a conversa, o que faremos, o que teremos que manter em segredo, o que poderemos dizer. E combinámos nova conversa.

A seguir, dirigi-me ao outro local para fazer a visita que tinha pensado fazer antes. 

Ao ir para o elevador, saiu de lá uma jovem que me cumprimentou pelo meu nome e sorriu, voltando-se para trás, a sorrir: 'não sabia que vinha...'. Puxei pela cabeça. Juraria que nunca a vi mais gorda.

Ao entrar, muitos cumprimentos e, entre as pessoas conhecidas, uma outra jovem com uma blusa sensual e o cabelo apanhado de um dos lados. Cumprimentou-me efusivamente. Pensei: isto será para os apanhados? Que gente é esta e de onde me conhecem? Mas depois assumi que para os apanhados não seria certamente pelo que deve ser gente que tem entrado e que me conhece não sei como ou de onde. Pensei que tinha que tentar perceber. Mas toda a gente tinha muita coisa para dizer e acabou por me passar o esclarecimento do mistério. 

Saí de lá já tarde. Há sempre muitos assuntos. Saio mas poderia ficar lá até à noite a ouvir toda a espécie de histórias, de queixas, de desabafos, de alertas, de conselhos, de sugestões.

Uma vez mais não usei os parques dos edifícios. Preferi, de novo, deixar o carro num parque público para poder andar a pé nas ruas de Lisboa. 

Já estou um bocado desabituada de andar na calçada lisboeta com saltos altos mas é como andar de bicicleta: ao princípio parece que a elegância não está lá mas a verdade é que, logo depois, se percebe que a gente não esquece.

Andei sem máscara e gostei muito. Uma sensação de liberdade muito boa: andar na rua, ao sol, sozinha, sem máscara.

Na rua, muitos estudantes, turistas, gente que passeia, outros que devem andar que nem eu, a curtir o ar iluminado da bela cidade. Ao meu lado, duas mulheres muito elegantes, com pastas, saltos ainda mais altos que os meus, perfeitamente maquilhadas e penteadas. Pensei: advogadas. O semáforo estava vermelho para peões. Elas ao meu lado, ouvi-as a delinearem a estratégia. Eram advogadas.

Quando cheguei a casa, o pequeno urso, ao constatar que eu estava de volta, fez aquela festa que me enche de alegria e afecto. Quanta ternura, quanta alegria a dele. Abracei-o e ele a mim, os dois felizes da vida, ele a dar freneticamente ao rabinho, eu a fazer-lhes festinhas, eu a chamar-lhe 'meu menino lindo, minha coisinha mais fofa', ele a tentar mordiscar-me. 

No resto da tarde, tive mais uma reunião. Foi daquelas de arrebimba. Disse o que tinha a dizer sem dosear na franqueza. Há pessoas que não entendem a subtileza, só entendem se lhes falarmos com todas as letras. Como sempre, apesar de saber que ele me apoia, confirmo que fica sem saber como acompanhar a minha assertividade. Quando fala, reforça o que eu disse mas sinto que tenta amenizar um pouco. Obviamente tínhamo-nos combinado, antes. Mas ele, pela sua natureza, não consegue dar murros na mesa nem ser totalmente taxativo. Eu consigo. Claro que o murro que dou é metafórico. Do outro lado, a terceira pessoa protesta, diz coisas mas, tudo espremido, nada. Fala, fala, fala. Deixamo-la falar. É importante que possa esvaziar. Ficamos a saber tudo o que pensa. Quanto mais fala mais se esvazia a ela própria. Acaba a dar o dito por não dito. No fim, já mal sabe explicar porque quis a reunião. 

Uma canseira. As pessoas que se movem por estados de alma, cansam-se a elas próprias e cansam os outros. É aquilo da estupidez. Nada a fazer. É genético. 

Ao fim do dia, já os dois, voltámos à cidade. Tínhamos coisas para tratar. 

Regressámos a casa um bocado tarde. Ainda quis ir fazer uma caminhada mas já escurecia e estava frio. E eu não tinha qualquer agasalho. Portanto, desisti. 

Ao entrarmos em casa, de novo, o nosso ursinho de peluche voltou a fazer aquela festa. Corre, salta, rebola-se, ri, dá latidos, atira-se-nos às pernas. Uma festa. Um afecto incondicional, espontâneo, genuíno. Um aconchego emocional. Uma ternura.

Fui fazer o jantar. E voltei a trabalhar. 

Já tarde, ainda pensei ver uma série mas adormeci. Penso que a sesta não deve ter durado mais que dez minutos mas foi profunda. 

Estou com muito sono. Esta semana tem sido puxada. E custa-me cada vez mais ter que me levantar muito cedo. E há muito trânsito em Lisboa. Não sei o que se passa. Há trânsito por todo o lado. Perde-se muito tempo no trânsito. Anos de vida. 

Bem. Adiante.

Tenho mails por responder, não conheço as notícias do dia mas hoje já não dá. Tenho que me ir deitar. Por hoje acho que já chega.

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Há bocado, o meu filho perguntou quando é que poderíamos voltar à nossa casa in heaven. Dizia ele que era pena agora não podermos ir. A quem ele o diz... Tenho tantas saudades. Não sei se poderemos ir quando o little baby bear levar a 2ª toma da vacina. Espero que seja, que não seja só na 3ª. 

Não sei se já estaremos na época dos cogumelos. Adoro andar por lá a descobrir cogumelos. Há lá sempre tantos, tão diferentes, tão bonitos. Aqui já vi dois minúsculos, branquinhos, quase transparentes. Fiquei em pânico não fosse a omnívora criatura lhes deitar o dente. Sei lá se são pacíficos... Vim logo a correr buscar uma pequena pá de jardim para os arrancar e deitar fora para longe. Mas eram tão lindos, etéreos, quase virtuais.

E, já agora, permitam que partilhe:

Fantastic Fungi | Moving Art by Louie Schwartzberg


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Desejo-vos uma happy friday

Tudo na boa

quinta-feira, outubro 21, 2021

Sobre a estupidez

 


Não sei o que vocês acham mas tenho para mim que o pior do pior da espécie são os estúpidos. Não é coisa irrelevante, não é perigo menor, não. A estupidez é coisa para se levar a sério.

Uma pessoa quando se vê confrontada com um estúpido sente-se perdida: para começar, um estúpido não percebe que é estúpido. A conversa fica desigual. Ficamos em desvantagem. Nós temos pruridos, eles não. Um estúpido acha-se sempre o maior. Pode estar a dizer as maiores cavalices que avança sem vacilar. Não se inibe, não hesita, não se intimida. Nada. 

Um estúpido invariavelmente acha que os outros é que não estão a ver bem ou que, intencionalmente, estão a querer deixá-lo ficar mal. Não vale a pena tentar provar a um estúpido que o que diz revela ignorância, deficiente raciocínio ou deficiente interpretação dos factos. Não vale a pena. Um estúpido jamais vai reconhecer que os outros podem ter razão. Para um estúpido os outros têm sempre uma visão distorcida e só eles, os estúpidos, captam a verdade. Os estúpidos quando confrontados com a sua estupidez não se detêm nem por um instante para tentar perceber se os outros têm razão. Não. Para eles os outros nunca têm razão. Pelo contrário, ou se vitimizam, achando-se injustiçados, ou partem para o ataque, ofendendo e destratando quem tenta chamá-los à razão.

É um erro subestimar os estúpidos, achando que um dia vão perceber a estupidez dos seus pensamentos ou actos ou achando que são inofensivos. Nem uma coisa nem outra. Jamais percebem as suas limitações nem como são afoitos exibindo a sua ignorância como se fosse sapiência. E não são inofensivos pois têm a esperteza suficiente para manipular os mais fracos ou menos informados. Há sempre uma legião de inocentes e/ou de broncos dispostos a darem-lhes razão.

Um estúpido atrai sempre outro estúpido. É, pois, frequente encontrar estúpidos aos pares. 

O dicionário da Priberan define estupidez como falta de inteligência e de delicadeza de sentimentos. Há também a definição da wikipedia, em inglês: Stupidity is a lack of intelligence, understanding, reason, or wit

Nos últimos tempos tenho tido algumas cenas para esquecer, tudo por conta de gente estúpida. A gente diz tomato eles percebem potato, a gente diz que não, que dissemos tomato e eles que não, que têm provas de que dissemos potato. E a gente tenta explicar que nada a ver, que a conversa é sobre tomato e vamos falar sobre tomato e eles, cheios de teorias e teimosias, que a gente falou foi em potato. E invocam um historial ficcionado de não-eventos que, segundo eles, comprovam as suas inenarráveis teorias de cão de caça. Não se cansam. Convictamente apresentam argumento, citam artigo, dizem toda a espécie de disparate, envolvem a conversa em testemunho que toda a gente percebe que é inexistente ou deturpado... e prosseguem, resolutos, perante a estupefacção de quem assiste. 

O melhor, nestes casos, é a gente deixar para lá, deixá-los a falar sozinhos, deixar que aos poucos vão ficando isolados. Mas, por vezes é mais forte que nós, queremos demonstrar que estão errados, queremos que vejam o que toda a gente informada vê. No fundo, genuinamente queremos ajudá-los. Mas é tempo perdido. Deturpam o que dizemos, inventam, caluniam, ofendem, não conhecem limites. E não saem da deles, mesmo que em prejuízo próprio. Há qualquer coisa de grande burrice nos muito estúpidos.


Em síntese: de gente estúpida o melhor é guardar distância.

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E, no meio destes meus pensamentos, eis que o meu amigo algoritmo adivinha as agruras pelas quais tenho passado às mãos de um ou outro exemplar do género e, sem que eu tenha feito qualquer pesquisa nos motores de busca que o leve a extrapolar e a sugerir-me 'literatura' sobre o tema, me aparece com isto que aqui, agora, convosco partilho.

John Cleese on Stupidity

Cleese explains why extremely stupid people do not have the capability to realize how stupid they are.

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Bonhoeffer‘s Theory of Stupidity
Dietrich Bonhoeffer's argues that stupid people are more dangerous than evil ones. This is because while we can protest against or fight evil people, against stupid ones we are defenseless — reasons fall on death ears. Bonhoeffer's famous text, which we slightly edited for this video, serves any free society as a warning of what can happen when certain people gain too much power.

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E a ver se esta quinta-feira tomo uma decisão acertada e espero que definitiva em relação a um caso de estupidez aguda com o qual tenho estado a ser confrontada. Não vai ser fácil. Por isso, a mim própria desejo boa sorte.

E, para vocês aí desse lado, um belo dia.
Saúde. Bom senso. Humildade. Boa disposição.

quarta-feira, outubro 20, 2021

Crises camilianas, cães com nome de pessoas, pica-paus engalanados, abóboras japonesas e coisas assim

 



Ontem o dia esteve recheado de crises, uma maior que as outras. Aliás, uma substancialmente mais aguda do ponto de vista pessoal do que qualquer outra vivida este ano. Ligaram-me logo a avisar. Aliás, quando atendi, dispararam à queima roupa: 'Já soube?' Mas dramas daqueles já me maçam. Contaram-me: discussão, choro. Daquelas coisas. Relatam-me os factos e ficam à espera que eu faça alguma coisa. Pouco depois, ligaram-me a saber se houve evolução, se fiz alguma coisa. Não. Desviei a conversa, falei de outra coisa. Por dentro pensei que o melhor era ficar quieta, deixar que as cabeças esfriassem, não me meter, esperar que o drama saísse do ar, que a coisa ficasse por ali. Pensei que meter-me seria empolar. Portanto, deixei-me estar na minha.

Qual quê? Hoje um big mail reportando-me a situação em discurso directo mas em extensão, exponenciado, coisa quase camiliana, drama, tragédia, choro, mentiras e difamações. Olhei para aquela peça literária e voltou a ocorrer-me aquela da marquesa, mãe do meu amigo: não tenho idade nem posição social para isto.

Mas condescendi, fiz alguma coisa: escrevi um mail para o outro destinatário daquela piece of art a dizer que, por mim, punha já o autor com dono. Acrescentei: não há pachorra.

E, para ter a certeza que estava a ter a interpretação correcta, fiz dois telefonemas. Consolidei a minha opinião. O pior é que, face às proporções que a coisa assumiu, alguma coisa deverá ser feita. E o que for causará, forçosamente, mossa. E mossa na pessoa que, justamente, se está a apresentar como vítima.

Há pessoas que parece que não percebem o seu real valor aos olhos dos outros. Há cartadas que só se jogam quando se tem o domínio do jogo. Caso contrário, quem não tem unhas nem dentes não deverá pôr-se a jeito, convencido que pode arranhar ou morder. É que, fazendo-o, corre sério risco de ser posto para correr por quem efectivamente tem unhas e dentes.

O que me valeu foi a caminhada à hora de almoço. Desligo de qualquer maçada. Saio do jardim e já estou noutra. Chatices para trás das costas. 

Nunca fazemos o mesmo percurso. Todos os dias reparo no que antes não tinha reparado. Os jardins vão mudando. Onde havia flores agora vêem-se as cores outonais, há árvores que já estão nuas, há robots a apararem sozinhos a relva. As casas são silenciosas e quase parece que não está ninguém. Mas depois reparamos que há uma mulher a sachar um canteiro, um homem a aparar uma sebe, há cães que se chegam à vedação, alguém que estende roupa, hoje um homem comia qualquer coisa e ao mesmo tempo ia dando a comer a um enorme pastor alemão. Há muitas casas a serem arranjadas: ou é o telhado a ser limpo ou a casa a ser pintada ou o caminho até à porta de casa a ser calcetado. E há sempre alguém que passa a correr, alguém que passa de bicicleta. Ao cumprimentarem-nos percebemos que muitos não são portugueses.

De vez em quando sabemos de uma moradia à venda mas pouco depois já não está. Ao nosso lado também houve uma mudança. A vizinha silenciosa foi substituída por um ruidoso casal com os seus filhos e os seus cães que têm nome de pessoas. Pensávamos que teriam dois filhos e duas filhas mas afinal não são filhas, são cadelas. Chamam pelos quatro da mesma maneira e, aparentemente, portam-se todos mal pois parece que estão sempre zangados. 

Prezo muito o silêncio e as vozes faladas em harmonia. Contudo agora também eu falo a zangar-me quando ando no jardim. O meu pequeno urso só quer andar agarrado a mim, brinca, não me larga. Como nunca mais aprende a dar beijinhos, mordisca. Zango-me e ele pára mas, mal paro de me zangar, logo ele vem agarrar-se a mim. Agora, para evitar andar toda arranhada nos pés, tornozelos, mãos e braços, ando com uma vassoura na mão. Quando ele vem agarrar-se a mim, coloco a vassoura de permeio ou tento assustá-la. Ele baixa-se e ladra como que a desafiá-la. Farto-me de rir. E encho-me de ternura. Hoje deixou que o tivesse ao meu colo enquanto o escovava. Ficou macio como lã de seda. Muitas vezes, quando me vê fica num contentamento exuberante, dá ao rabinho e deita-se para eu lhe fazer festas. Olho-o e parece mesmo que está a sorrir, todo feliz. E isso deixa-me feliz.

Coisas simples.

No fim de semana o meu marido chamou-me, que fosse depressa. Tem o péssimo hábito de me chamar sem me dizer o que é. Quando lhe perguntei, insistiu: 'vem depressa'. Fui. Estava a olhar para o jardim a partir de uma das janelas da sala. Era um pássaro espantoso. Uma curiosa crista encarnada, plumagem às riscas castanhas e brancas em ton sur ton e havia ainda apontamentos em cor de laranja. Uma coisa extraordinária. O meu marido disse: são três. E ainda vi dois voando e o último voando a seguir. Fiquei maravilhada. O meu marido disse que achava que eram pica-paus pois tinha visto um ao alto como que a picar no tronco. Googlei e eram mesmo. Isto enche-me verdadeiramente de alegria. 

As romãs estão tão sumarentas, tão doces, que não se aguentam encapotadas. A casca estalada, escorrendo um sumo rubro. Acho que a natureza é um milagre permanente. 

De longe chegam-me ecos de negociações para o orçamento. Longínquos. Pouca televisão vejo, já nem consigo ouvir aquelas vozes que encenam e provocam crises, todos os anos a mesma coisa, a mesma conversa, as mesmas ameaças. Gente que nasceu velha. Muito menos consigo ouvir os comentadores televisivos, esses ruminantes avençados que mastigam a comida já mastigada pelos outros. Talvez um dia também pegue nela e a ofereça a um grupo de teatro para a espatifarem em palco, em grande estilo. 

Tirando isso, agora não sei mais o quê. 

Só se for que tenho muitos pinhões. Enquanto ando no jardim, vou apanhando. Mas, por pouca sorte, não caem dos pinheiros já descascados. E parti-los é o cabo dos trabalhos. Não sei que lhes fazer. No outro dia tentei mas fartei-me de dar marteladas nos dedos. Além do mais, de cada vez que era bem sucedida, comia-os. Portanto, fiquei sem nenhum para depois. Não sei se haverá algum utensílio para os partir, como o quebra-nozes. Ou uma maquininha de dar à manivela que a gente ponha lá os pinhões dentro e a casca salte deles como por magia. Era bom que houvesse, senão como descalço a bota? Na volta é pela complexidade do descasque que o miolo de pinhão é tão caro.

Posso ainda acrescentar que o meu filho e a minha nora nos trouxeram, no fim de semana, uma abóbora japonesa. Pus uma parte, aos cubos, na sopa, com casca e tudo. Uma inesperada delícia. Depois cortei outra parte às fatias e assei-as no forno temperadas com azeite, orégãos, sal e mel. Também com casca. Outra delícia. Desconhecia esta variedade de abóbora e desconhecia que a casca das abóboras fosse comestível. Sempre a aprender e descobrir, sempre a surpreender-me e agradar-me.

Na volta, ainda pode acontecer que a vida acabe mesmo por ser uma agradável caminhada. 

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Fotografias do Tales of Beatrix Potter pelo Royal Ballet dançado na Royal Opera House ao som do mesmo

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Desejo-vos uma radiosa quarta-feira

Saúde e boa disposição que o resto virá por acréscimo

terça-feira, outubro 19, 2021

Oito filmes razoavelmente eróticos

 



Segunda-feira nunca é um bom dia. É daqueles axiomas que é bom que ninguém ouse questionar. Segunda-feira é o início do que pode vir a ser uma sucessão de dias carregados de chatices. Numa segunda-feira as tréguas do fim de semana ainda estão longínquas. 

[Os Leitores reformados, ao lerem isto, esfregam as mãos de contentes: para eles todos os dias são fim de semana. Bem sei. São uns sortudos. Mas lá chegaremos, nós os pobres coitados que por aqui ainda andamos a trabucar.]

Enquanto não, tenta levar-se o melhor possível embora haja quem não se aguente sem moer a paciência aos outros. Para mim o pior é quando olho para a agenda e penso que tenho ali um buraquinho que virá mesmo a calhar para repousar a minha beleza e, acto contínuo, logo recebo uma chamada a pedir que arranje um bocadinho para uma reunião urgente. E uma pessoa tenta que não mas, às tantas, não tem como não e lá se vai o buraquinho à vida. 

[A língua portuguesa é traiçoeira, também sei]

Agora tenho aqui uma coisa a chamar por mim. Ainda antes de ir para a cama terei que ver e despachar esse assunto. Não me apetece nem um pouco pois estive a trabalhar até há pouco, estou mais do que saturada. Mas, quando o dever me chama, parece que não consigo entregar-me ao desfrute da escrita mesmo se de uma colecção de frioleiras postas em palavras se tratar.  Podia saltar por cima disto, do blog. Pois podia. Mas, enfim, ficar sem escrever também não consigo. Addicted to writing.

E, então, pensei escrever sobre uma coisa que li na Vogue francesa: as cenas mais eróticas do cinema. Fui conferir, curiosa. Como é costume nestas coisas, parece que quem escolhe os melhores livros, os melhores filmes, as melhores cenas faz de propósito para deixar os outros a sentirem-se ignorantes. Dos oito filmes, apenas conheço três. E das cenas que consegui ver, talvez por descontextualizadas, não achei grandes espingardas. Além disso, agora acontece uma coisa que me encanita solenemente: ao seleccionar um vídeo que contenha alguma ceninha mais encaloradita, o Youcoiso pede que comprove que sou adulta. Não estou para isso, era o que me faltava. Portanto, como não estou para fornecer comprovativos, marimbo-me para as ditas cenas. 

A beatice vai alastrando. Claro que há que acautelar que as coisas não sejam vistas por crianças. Mas, caneco, parece que preferia as salas de cinema em que a barragem era feita à porta. Agora aqui...? Não basta a publicidade em cima de tudo senão ainda isto...? Que seca, caraças.

Por isso, com tanto entrave e chachada, desisto das listas alheias. Acontece que, para listas próprias, tenho um problema do escambau: não as tenho anotadas, não as tenho de cabeça e, pior ainda, a cabeça não está formatada para fazê-las.

Posso aqui enunciar algumas cenas ou alguns filmes que tenho a certeza que amanhã me ocorrerão outros, provavelmente mil vezes melhores. E não estou certa de que o algoritmo que é mais lápis azul e beato que fedorentozinho de antanho me deixe abrir o vídeo para conferir. Vou tentar mas, acreditem, não garanto que seja muito para levar a sério. E são oito apenas porque não posso ficar aqui a noite toda a puxar pela cabeça ou a tentar encontrar vídeos que expliquem o critério. 

.  1  .

Lady Chatterly, na versão de Pascale Ferran, com Marina Hands e Jean-Louis Coulloc'h um filme belo demais. Mas, mais do que caliente, é belo, belo demais. As cenas mais eróticas apenas são disponibilizadas a quem provar que é adulto. Portanto, vai o trailer.


.  2  .

Dangerous Liaisons de Stephen Frears com Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer, um filme sensual da cabeça aos pés, passando pela insolente língua de Malkovich (e isto já para não falar do olhar, da voz, das mãos, do andar dele, o descaradão e perverso do Visconde de Valmont)


.  3  .

The Horse Whisperer de Robert Redford com ele e com Meryl Streep, envolvente demais


.  4  .

Damage de Louis Malle com Juliete Binoche e Jeremy Irons. Tem a chatice de não acabar bem mas, antes de acabar, é bom até dizer chea, a começar e a acabar na voz do Jeremy Irons


.  5  .

The Unbearable Lightness of Being de Philip Kaufman com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, um filme para sempre, com cenas inesquecíveis (a Lena Olin ficará para sempre na minha memória com aquele seu chapéu)


.  6  .

Closer de Mike Nichols com Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen
[Larry : You like him coming in your face?; Anna : Yes!  Larry : What does it taste like?; Anna : It tastes like you but sweeter!]



.  7  .

La vie d'Adèle de Abdellatif Kechiche com Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos
O azul definitivamente a cor mais quente


. 8  . 

The French Lieutenant's Woman de Karel Reisz com Meryl Streep e Jeremy Irons. 
Intemporal, belo.


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Desejo-vos uma boa terça-feira
Saúde. Alegria. Boa sorte.

segunda-feira, outubro 18, 2021

Longe das crises do orçamento e do petróleo.
Em família, entre insectos azuis, rolas no acasalanço e com um pequeno urso que não dá tréguas aos meninos (nem vice-versa...)

 


O fim de semana passou, tranquilo e outonal. Bom.

No sábado de tarde fomos a casa da minha mãe. Derrete-se com o ursinho mas acabou com dois pequenos ferimentos nas mãos. A brincadeira dele passa por mordiscar. Põe-se de pé para brincar mas ainda não aprendeu a dar beijinhos. Mordisca. E com aqueles dentinhos afiados faz das suas.

Por mais coisas que lhe arranjemos para ele mordiscar, passado algum tempo desinteressa-se: é connosco que quer brincar. Não sei se são reminiscências genéticas de quando os seus antecessores guardam rebanhos, se andam sempre encostados a eles e os levam ao seu destino a toque de dentadinhas. A verdade é que anda enleado às nossas pernas, mordiscando-nos os pés, as pernas. Se nos sentamos, põe-se de pé e mordisca o que apanha de nós: roupa, braços, mãos.

Ossinhos de roer, objectos de borracha, um ténis velho, um koala de peluche, uma corda de puxar e morder, uma bolinha. Tudo coisas de que gosta mas que passam para segundo plano quando tem alguém de carne e osso por perto.

No sábado ao fim da tarde vieram os três manos. Dormiram cá. Teste covid feito, tudo nos conformes. Felizes da vida. Já de si gostam de cá pernoitar. Fará, então, agora com um pequeno urso para poderem brincar. E o pequeno urso não lhes deu tréguas. Nem eles ao pequeno urso. Perseguiam-se mutuamente pela casa toda, uns a gritarem, outro a dar pequenos latidos. 

Quando a pequena fera finalmente sossegava, percebia-se que tinha ido roubar um ténis ou uma meia aos meninos e estava a roê-las algures na sala.

Outras vezes desaprecia mesmo, nada dele, tudo à procura. Íamos dar com o little baby, exausto, estendido a dormir num qualquer lugar recôndito da casa. 

Com a brincadeira pouco comeu.

Ao jantar sucedeu uma coisa. De repente, a minha meninininha mais linda disse: 'Tenho um dente preso por um fio'. Olhei e não queria acreditar. Parecia o dente da minha filha, uns anos antes. Eu incapaz de puxar. O dente ali pendurado. Um horror. Disse-lhe: 'Puxa-o...' e ela, atrapalhada, com a mão, com a língua a ver se ele caía. 'Não sai, está preso...'. O irmão do meio, todo decidido, dizia: 'Deixa que eu puxo'. E ela, assustada, 'Não puxas nada'. O irmão dizia: 'Roda o dente e puxa'. E ela já com lágrimas nos olhos: 'Não...' Depois ele fez questão de ligar aos pais. Ela não queria, eu não queria. Mas ele tanto insistiu que lá ligou. Queria permissão para ser ele a arrancar o dente á irmão. Os pais, naturalmente, não o deixaram. 

Resumindo: a pobrezinha não conseguiu jantar. Fiz-lhe um batido. Depois fomos para a sala. Ela mal conseguia falar, com o estupor do dente todo pendurado, literalmente suspenso por um fio de carne. Nestas situações não consigo ajudar, tenho medo de magoar. O irmão dizia: 'Aposto que vai cair quando estiveres a dormir'. Ela, inquieta: 'Cala-te!'. E ele: 'Não faz mal. Engoles.' E ela outra vez com lágrimas nos olhos, a perguntar-me: 'O que é que acontece se cair quando estou a dormir...?'. E eu, preocupada mas a disfarçar, 'Se calhar cai antes.... roda um bocadinho...'. 

O meu marido não se mete, não diz nada, só dizia para o mano do meio parar de chatear a irmã. Mas ele dizia que não era chatear, era querer resolver. O meu marido, nestas coisas, acha que as coisas se resolvem por si. O mais novo também não liga muito. Deve achar tudo natural.

Depois penteei-a, fiz massagens aos três, eles pentearam-me. Até que ela anunciou: 'Caiu'. E apanhou o dente da boca. Um alívio. Odeio estas cenas. Falta-me a coragem para resolver coisas assim, tenho medo de magoá-los. 

À hora de irem para a cama, ela foi buscar os pijamas dos irmãos. É ela que arranja as malas de cada um, que lhes escolhe a roupa. É ela que os manda lavar os dentes.

Às dez e tal da noite, fui contar uma história. Como sempre quiseram um episódio da Princesa Margaret. O mais pequeno deu o mote: 'A Princesa Margaret está doente e foi para hospital'. Lá inventei a história que, como sempre, tem o seu ponto alto quando se descobre que o seu cão aparece onde não deve, terrível, imprevisível, mas tudo só porque não quer separar-se da sua amiga Margaret. Também estava doentinho mas não quis deixar a sua amiguinha sozinha no hospital. À medida que vou contando, eles vão sugerindo o que vai acontecer, fazem perguntas. Tenho que lhes dosear a curiosidade. O mais pequeno, então, vibra. 

História acabada, beijinhos e até amanhã, uma noite descansada. Os dois rapazes adormeceram instantaneamente. Ela, sozinha noutro quarto, quis ainda ler um pouco. Mas devem ter sido uns cinco minutos. Apagou a luz e adormeceu.

O little baby bear dormiu ferrado até de manhã. 

O meu marido é que o foi acordar para ir ao jardim fazer as necessidades. Depois voltou a dormir (refiro-me ao cachorro, ao peludinho).

Acordei cedo e sentir uma presença perto de mim. Era a minha menina mais linda. Veio meter-se na cama comigo, a contar-me coisas. O mais novo estava a dormir, o do meio a ver futebol na televisão.

Quando fui tomar banho, ela disse-me que ia organizar a minha roupa e que depois íamos escolher brincos e outros adereços. Disse-lhe que em casa, quanto muito uns brincos. Quando acabei de tomar banho disse-me que tinha arrumado a minha roupa e a do avô e feito a nossa cama. É super despachada e super decididida.

Depois foram eles vestir-se. Apareceu-me furiosa a dizer que o mano do meio não queria vestir roupa lavada. Fui impor-me. Estava furioso a mostrar-me as cuecas que a irmã lhe tinha trazido. ' Olha para isto' e exibia, na mão, ao alto, as cuecas. Pareceram-me umas cuecas normais. Diz ele: 'Fez de propósito. Sabe que só uso boxers!'. Ela fez um sorriso sacaninha. Ele bateu-lhe com as cuecas e chamou-lhe estúpida. Ela sorriu discretamente mas com ar  vitorioso. Enquanto isso, ia vestindo o mais novo.  Depois pediu-me para eu a pentear.

Enquanto isso, o avô estava a preparar o pequeno almoço. E, pelo meio, o pequeno urso fugia com umas cuecas, uma meia, perseguia-os, causava baderna, confusão e correria.

Depois do pequeno almoço, para evitar as permanentes perseguições, fomos para o piso de cima. Uma vez mais quiseram brincar às empresas. 

Entretanto, chegaram os pais e, como sempre, ela e o mano do meio desataram a discutir um com o outro. Mas nada de mais. Ela estava a fazer um desenho e o irmão queria tirar-lhe o caderno. 

O pequeno urso, delira com estas movimentações. Ou corre e faz disparates ou deita-se de barriga para cima para receber festas na barria. Ou anda ao colo a receber mimo, como um bonequinho de peluche, embora colo seja coisa já só quase para eleitos e enlevo de pouca duração.

Depois de terem ido, a pequena fera KO, a dormir a sono solto, fomos nós dois fazer uma caminhada. Depois resolvemos ir comprar petiscos para o almoço. 

Como sabíamos que a receber mais pessoalzinho seria mais para o meio da tarde, depois de almoço deixámo-nos cair a dormir, nós e o pequeno urso.

Afinal o outro pessoalzinho não se despachou a tempo de vir. Por isso, de tarde, depois da sesta,  preguiçámos, vimos séries, estivemos no jardim a curtir o outono e a fugir à pequena fera ou a ameaçá-lo, coisa que o deixa deveras sentido.

E é isto.

Quando liguei o computador vinha para falar num casal de rolas que vi no maior arrulhanço, acasalando no maior descaramento. 

Também vimos um grande insecto azul que fotografei sem saber que bicho curioso era aquele. E pensei que a natureza avança ao seu ritmo, indiferente à crise do aprova ou não aprova o orçamento com ou sem acordo escrito, ou à crise do petróleo ou à da escassez de componentes para automóveis ou computadores ou a toda a espécie de crises que por aí se vão sucedendo e que parecem frívolas quando vistas pela perspectiva de quem como eu, durante todo este santo fim de semana, me estive nas tintas para os grandes acontecimentos do país e do mundo (como diz o outro).

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Calma. Esperança. Ânimo.

domingo, outubro 17, 2021

Isto é uma mama

 



Quando estive grávida as roupas eram largas, as então chamadas 'roupas à mamã'. Por minha conta e risco ousei uma coisa na época infrequente: uma adaptação das calças normais, abrindo-as do lado e unindo as partes com um elástico largo que ia sendo ajustado. E depois usava uma espécie de camisas quase normais mas em largo, umas camisas com motivos florais. Mas, na maioria, os vestidos eram daqueles que desciam largos a partir do peito. Para a praia também havia os fatos de banho à mamã. Desses nunca tive nenhum. Pedi à minha mãe que prendesse uma espécie de cortina na parte da frente do soutien do biquini, em tecido parecido com o do biquini. Na altura, era impensável usar o biquini normal com o barrrigão à vista. 

À luz do olhar de hoje tudo isto é absurdo. Que pudor haveria em mostrar um ventre dilatado, com uma criança dentro?

Hoje exibem-se orgulhosas barrigas e ainda bem que assim é.

Tenho ideia que foi com a fotografia da Vanity Fair de uma Demi Moore gravidíssima que Annie Leibovitz ajudou a acabar de vez com o estúpido tabu.

Agora é com naturalidade e, diria eu, ternura que se olha o belo corpo de uma mulher grávida. Vejam-se estas duas que encontrei aqui: Féminin pluriel : la mode célèbre toutes les silhouettes:




Acho uma maravilha. Só tenho pena de não ter fotografias minhas assim. As fotografias que tenho quando estava grávida são sempre completamente vestida. O que a vida era antes, na maior parte dos aspectos, era um atraso de vida. Não se celebrava a vida. Pelo menos, não em festa, não com orgulho.

Com a amamentação era outra tourada. 

Amamentei a minha filha até quase aos treze meses. Andava, falava, levantava-se sozinha de um lado do colo quando esvaziava um peito e mudava de mama por sua alta recreação dizendo: 'a outa'. O meu filho acabou mais cedo. Apenas mamou até mais ou menos aos quatro meses e depois, por insistência minha, talvez até aos seis ou sete, nem sei bem. Era um desatino, era muito sôfrego, engasgava-se, depois incomodava-se, não queria. Cedo começou a querer comida normal, odiando leite, papas e tudo o que fosse apropriado para bebé. Para conseguir que bebesse leite tinha que o apanhar bem ferrado para lhe dar um biberon sem ele dar por isso. Senão, mal lhe enfiava a tetina na boca, desatava aos vómitos.

Na altura, eu usava soutiens de amamentação, uns soutiens em que a parte da frente se prendia por um colchete, descendo quando era a hora. Usava camisas que pudesse desabotoar, depois abria a parte da frente de cada lado do soutien e, com a criança a mamar, punha uma fralda (que, na altura, eram de pano branco) que descia do ombro e cobria a criança. Desta forma encobria a mama. Até aqui tudo bem. O pior era quando o meu filho se engasgava e era preciso pô-la rapidamente ao alto, soprando-lhe e tentando que se desengasgasse. A manobra tinha que ser tão rápida que não dava tempo a encobrir a mama. Pior ainda: eu sempre tive mais leite que uma vaca leiteira. Como ele mamava com sofreguidão, ainda mais estimulava a produção do leite. Então, quando interrompia por estar engasgado, a mama continuava a esguichar. Mas esguichava com força, muitas vezes molhando-o todo, deitando-lhe leite para os olhos o que o fazia chorar com toda a força. 

Agora imagine-se quando isto se passava fora de casa. Tinha que procurar um lugar escuso, tinha que me isolar. Não podia correr o risco de ficar de mama de fora e, ainda por cima, a jorrar leite como um fontanário.

Hoje, felizmente, tudo isto é uma coisa mais natural. Uma mãe que amamenta não tem que se esconder ou ficar num stress com medo de expor o seio nu.

Para além da questão da amamentação, já fiz muito topless embora, confesso, sempre me sentisse mais à vontade em praias pouco frequentadas. Acho que há qualquer coisa de íntimo na exposição dos seios pelo que nunca achei muita graça à banalização de andar de mamas ao léu no meio de multidões. Mas a verdade é que não era pelo topless que procurava praias pouco populadas, era mesmo porque, para mim, estar na praia tem que ser um contacto muito livre com a natureza e isso não é compaginável com estar numa toalha e com pessoas desconhecidas a cercarem-me, toalha com toalha, a ouvir-lhes as conversas, a respirar o seu cheiro. Isso para mim é a antíteses do que é bom na praia.

Vem isto a propósito do que li no Madame le Figaro. Parece que uma fotografia de uma marca francesa de artigos para mães e filhos foi censurada pelo Instagram por, justamente, aparecer uma mama com uma gota de leite (a primeira fotografia deste post).

Des tétons et des femmes allaitantes affichés dans Paris pour contrer une censure d'Instagram

Tajinebanane - Manifesto

Num movimento de protesto, em várias ruas de Paris apareceram cartazes com essa fotografia juntamente com mães a amamentar.

E eu que sou a favor da amamentação, a favor do corpo da mulher, a favor do direito a fazer com ele o que se quiser, que abomino os enredos que envolvem os conceitos de pecado e de culpa associados ao corpo da mulher, daqui deste meu insignificante poiso, junto a minha voz a todas as mulheres que, em qualquer parte do mundo, lutam pela dignidade do seu corpo e pela liberdade de o afirmarem.

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[E estou a ilustrar com fotografias com mulheres grávidas ou a amamentar mas o direito ao respeito pelo corpo e o direito a fazer com ele o que se queira (desde que não se esteja a fazer mal a outrem) podem apresentar-se de muitas outras formas. E não há que querer escondê-lo como se fosse um gerador de pecado. Pelo contrário, o nosso corpo é das poucas coisas nesta vida que temos como verdadeiramente nossa. Não teremos nunca razão para escondê-lo ou sentir vergonha dele. Seja uma mama a pingar leite, seja um ventre rasgado por cicatrizes, um seio amputado, seja o que for]

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O José Afonso está aqui a cantar o 'Menino d'Oiro' pois foi certamente a canção de ninar que mais entoei para os meus filhos. 

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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, outubro 16, 2021

Os broches estão outra vez na moda?
O Rangel é o homem de que Portugal precisa?
Porque é que tantas pessoas têm empregos da treta?

 


Começo a escrever quando ainda é sexta-feira. Ora as sextas-feiras produzem um certo efeito em mim. Não é tanto o espírito desorbitado das black fridays mas mais o desenfreado de thank's god it's friday

Dantes, às sextas à noite, ia às vezes dançar até às quinhentas ou, mais recentemente, jantar e passear na praia. 

Agora, apesar de ter mudado substancialmente os meus hábitos, chego ao fim do meu dia de trabalho à sexta feira e apetece-me chutar a bola para bem longe, para o alto, desatar a correr, atirar-me de mergulho, furar as ondas, voar -- coisas assim.

Claro que agora só o faço com palavras e, portanto, onde vos parece uma sucessão de palavras iguais a tantas outras usadas ao longo da semana peço a vossa generosidade para acreditar que, sob elas, se esconde a minha vontade de sacudir a plumagem, de uivar na noite, de rastejar como um tigre azul, de açoitar a monotonia dos dias e saudar a noite que chega.

Para hoje não tenho, pois, tema arrumado. Trago antes três perguntas, qual delas a mais profunda. Nada têm umas a ver com outras e haverá até quem não ache de bom gosto misturar no mesmo post o Rangel, broches e ocupações da treta. Mas numa sexta a derrapar para sábado poderá exigir-se mais a uma pobre de espírito como eu?

Primeira pergunta: 

É verdade que os broches estão outra vez na moda?

Eu diria que nunca de lá saíram mas, já se sabe, cada um é como cada qual e, além do mais, gostos não se discutem. 

Uma vez, ia num autocarro apinhado a caminho da escola onde dava aulas. Ia com a minha amiga Fátima, também professora e alentejana dos quatro costados, voz desempoeirada e bem colocada. Íamos na conversa, daquelas conversas que não se recomendam muito menos a duas professoras rodeadas de testemunhas. E, então, sai-se ela com esta: 'É como os broches. Nunca ninguém os faz mas a verdade é que eles aparecem feitos'. Até hoje não me esqueço. Desatei a rir e tenho a certeza que todos os que nos rodeavam fizeram o mesmo. Ou, então, não. Se calhar ficaram escandalizados perante tal declaração. Devo ainda ter dito para ela falar mais baixo, coisa que nela não deve ter produzido efeito algum. 

Eu sempre gostei deles, dos broches. Houve alturas em que preferia os bem aparatosos. Ultimamente já mais comedida, ia na coisa em clássico. Também já estive virada para as obras de autor, coisa artística mesmo.

Mas depois a simplificação nos hábitos levaram-me a optar pela discrição, coisa que mal se desse por ela.

Pois bem. Qual o meu espanto quando agora leio que os broches voltaram a estar na moda. E já não se fala em broches mas em neobroches. Gosto. Neobroches parece-me daquelas de que não apenas podemos encher a boca (a falar deles) como os poderemos ostentar orgulhosamente (na lapela). Sou dada a novidades e quanto mais inesperadas melhor. Versatiles, ces néobroches viennent corser les blazers féminins et masculins. É que nisto, como em tudo o mais nesta vida, há que não haver discriminação de género. Broches são broches são broches, seja para homem seja para mulher. 

(Artigo completo para poder conferirLa broche de grand-mère fait-elle son grand retour mode ?)

Segunda pergunta: 

Rangel está a chegar-se à frente no PSD porque acha que o país pode vir a querê-lo como Primeiro-Ministro?

Eu diria que só se os portugueses estivessem todos com os copos quando fossem votar nas legislativas. Ora não acredito. Impossível que uns quantos milhões de portugueses se apresentassem a votar com uma valente piela. 

Claro que há os burros de nascença que não se importam de votar na primeira galinha que lhes apareça à frente. Depois há os que já estão bem aviados de demência e não sabem a quantas andam, botando a cruz onde calha (e algumas lá lhe calhariam). E há, claro, concedo, os que votam depois de almoço e vão para a mesa de voto sem se lembrarem bem do que querem nesta vida nem conseguirem ver bem o que corresponde a cada quadrado. Portanto, alguns votos o Rangel talvez conseguisse ter se algum dia se apresentasse a votos nas legislativas. Mas mesmo levado ao colo pelo Expresso e demais comunicação social, com o Relvas a mudar-lhe as fraldas, com o láparo (agora em versão neo-taliban) a dar-lhe o comer à boca, com a múmia paralítica a sair da tumba para o benzer, e mesmo somando os burros, os dementes e os embriagados, ainda assim acho que o Rangel não conseguiria ter mais votos dos que o meu neto que é sub-delegado de turma teve. Até porque uma coisa é certa. Se há coisa de que o país não precisa é de um vulgar trauliteiro, de um histérico encartado, de um totó armado em fracturante, de uma irrelevante figura que melhor estaria num livro do Eça do que na vida política real.

Terceira pergunta: 

Porque é que tantas pessoas têm trabalhos da treta?

O tema agora apenas é apropriado a uma sexta-feira pois o que aqui se defende é coisa das boas. Mas é coisa séria e para levar a sério. Trabalhar apenas no que se gosta e apenas o estritamente necessário -- é o tema. Por exemplo, nos serviços, reduzir o horário semanal a um máximo de vinte horas (acho que esta não é aqui dita no vídeo, esta sou eu a dizer). Anular as tretas, as tarefas inúteis. Organizarmo-nos para que sobre sempre tempo para a vida pessoal, para o lazer. Não é possível em todas as áreas. Sempre que é necessária mão de obra especializada e escassa, não é possível. Mas então que esses sejam bem pagos por terem que trabalhar o dobro dos outros.

Claro que não é tão simples assim e claro que, para lá se chegar, há muito a planear, muito a ajustar. Mas, quando se quer uma coisa, geralmente basta trabalhar para isso.

Mas o melhor é ver  vídeo. Para quem prefere ler, transcrevo:

Our society is fixated on working. Some of us work 80 hours per week at jobs that don’t fulfill us simply for work's sake. Expert anthropologists, such as James Suzman, even go as far as to say that many of the jobs we work could be considered "bullshit jobs" - a complex job that is not entirely needed in the workforce. These jobs are created and executed because our culture, and lifestyle, are organized around the 8-hour workday. 

So why do we work "bullshit jobs?" Many economists would say it is to fix the problem of scarcity. But what many do not know is that in our society, we passed the scarcity threshold in 1980, and most everyone has their basic needs met. So much so that more food goes into our landfills than goes into our stomachs. If scarcity is no longer an issue, why are we still working over 40 hours per week? It's because people have a humane instinct to work and be productive. 

If the 40-hour workweek is no longer serving our society, could we be approaching a new economic utopia? Suzman thinks so. In the present day, especially since the COVID-19 pandemic, many workers are turning away from unfulfilling jobs and diving headfirst into their hobbies - cooking, writing, painting, and creating. If we keep on this path, our entire economic system is bound to change, making for a richer world where everyone does the work they want to be doing. 


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Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, outubro 15, 2021

A moda dos Retiros

 


Alguém me falou numa reportagem que, no outro dia, passou na televisão sobre retiros. Fui à procura, pus a antar para trás e vi uns bocados, o suficiente para achar que por cada boa ideia que aparece há sempre quem logo a transforme em treta.

Quando era pequena, ouvia os meus pais falarem de alguns colegas que iam para retiros, coisa da igreja. Falavam disto como se fosse clube de uns quantos e como se de coisa esotérica se tratasse. Se calhar, a minha mãe, havendo lá conhecidos e amigos, se sentisse tentada a ir, creio que mais pelo convívio do que pela espiritualidade. Mas o meu pai era visceralmente avesso a essas coisas e não havia atenuante ou aliciante que o fizesse ultrapassar a brotoeja que essas coisas lhe causavam.

Quando, sem o saber, vivi numa casa de raparigas da Opus Dei, apercebi-me que faziam muitos retiros. Convidavam-me, por vezes de forma algo insistente, para os frequentar. Eram umas raparigas cinzentas, com saias pelo joelho, camisas abotoadas até ao pescoço. Eram todas boas alunas, beatas, sonsas. Cercavam-me para que participasse nas actividades da Casa -- o jantar com o Prior, o debate sobre o aborto, o Retiro, etc Claro que nunca participei em nada e até hoje ainda estou para perceber porque quiseram lá ter-me. Pensaram que me convertiam? Mas porque estariam interessadas nisso? Não percebi e não percebo. De vez em quando, à sexta-feira, lá iam todas para só regressarem no domingo à noite. Iam para o retiro. Antes preparavam farnel. Era o tipo de coisas que a animava. Vinham de lá em êxtase.

Quando comecei a trabalhar, o meu primeiro chefe, pessoa simpática e muito dada à igreja, organizava formação a casais e dinamizava retiros. Muitas vezes tentou aliciar-me. Dizia que, se eu vencesse as minhas barreiras, ia gostar. Nunca quis vencê-las pelo que, obviamente, nunca pus os pés em tal coisa. Quando lhe perguntava em que exactamente consistiam esses retiros, ele sorria, dizia que conversavam, que trocavam experiências. Se eu contava ao meu marido, ele gozava, sorria com malícia: 'Ui... cenas de grupo...', como se a cena religiosa fosse, afinal, para esconder cenas de sexo em grupo, orgias desenfreadas. Por isso, quando o meu chefinho tentava aliciar-me, eu tinha que me esforçar para não me rir, imaginando-o em animadas cenas de sexo em grupo.

Mais recentemente, uma colega que pratica ioga começou a ir, pelo menos uma vez por ano, para um retiro na serra, num mosteiro. Deixava o telemóvel à porta, não podia levar computador nem falar com ninguém enquanto lá estivesse. Ela gostava, dizia que era uma tranquilidade imensa. De vez em quando vai para Barcelona, também para retiros destes.

Conheço uma pessoa que, há uns três anos, foi para um retiro na Índia. Não gostou. Diz que era mercantilismo puro, um retiro turístico, mais fancaria do que espiritualidade. No fim, apresentou reclamações e jurou para nunca mais.

Conheço um outro, rapaz dado a desportos radicais e com uma profissão paga a peso de ouro, que foi fazer um mês de retiro na Tailândia, longe de tecnologias, longe da civilização.

Muitas vezes já aqui o referi: o isolamento num mosteiro ou seja onde for a mim não me choca. Acho que até me atrai.

Poder não me preocupar com nada, poder estar em paz, em silêncio, jardinar, regar, ouvir os passarinhos, não ter que me preocupar com o que fazer para o almoço ou para o jantar ou, em alternativa, estar na cozinha a cozinhar para uma dúzia ou uma vintena de pessoas, estar longe de notícias ou intrigas, ter tempo para ler ou para, simplesmente, estar ao sol -- tudo isso me agrada.

Mas não me imagino posta em círculo, de vestido até aos pés e todas a outras também de vestido até aos pés, não me imagino a fazer ou a ouvir rezas, não me imagino a ouvir alguém com conversas da treta como se fosse coisa das profundidades, não me imagino organizada em grupinhos e tarefinhas como se tivéssemos regredido ao tempo da escola infantil. Não me imagino. 

No documentário, um marmanjão armado em monge dizia as maiores banalidades com a cabeça rapada e o traje de alguém acabado de chegar do Tibete mas cujo sotaque rasteiro revelava que não fazia a mínima ideia de onde fica esse tal de Tibete. Depois apareceu outro falando de energias e de outros conceitos que, no contexto, são, no mínimo, etéreos e infantis. E depois uma outra falava de coisas também naquela base da maluqueira fofinha envolta em cenas zen. 

Não é a minha praia.

Primeiro, tinha que ser misto. Retiro só de mulher para mim não teria graça. Nem percebo que cena é essa de estarem só mulheres, todas um ar vagamente retrohippie, certamente todas vegetarianas ou vegans, todas parecendo levitar na maionese. Não percebo qual a graça. Deve ser uma seca mas uma seca das valentes. 

Para além disso, retiro para ser bom de verdade, teria que ter massagem. Se penso em estar num retiro, penso logo nisso: massagem, de preferência ao ar livre, ao sol. De preferência perto de laranjeiras em flor. Música de fundo, sim. Podia ser canto gregoriano, sim, que é sexy para valer. Mas podia também ser blues ou jazz. 

Obviamente, nem pensar em camaratas só de mulheres ou quartinhos individuais tipo cela. Isso também não estaria com nada. Até poderiam ser quartinhos individuais mas só se noutro quartinho individual estivesse alguém que eu pudesse visitar a meio da noite. Não está no espírito da coisa? Temos pena.

Ao ver o documentário e ao ver a procura danada que têm ocorreu-me que ora aí está um belo nicho de mercado para quem queira investir: um Retiro

      • sem conotações de espécie alguma 
      • onde ninguém se saia com teorias de cão de caça 
      • onde seja proibido as pessoas porem-se em círculo, de mãos dadas. 
Ou seja,

      • um lugar tranquilo, 
      • com actividades para quem queira 
      • ou lugares para descanso ou passeio para quem esteja afim é de mandar as actividades para o espaço, 
      • com liberdade total para cada um (desde que não colida com a liberdade dos outros)
      • em contacto com a natureza

Escrevo isto e penso nas Termas de Entre-os-Rios para onde fomos durante uns anos quando os miúdos eram pequenos e tinham alergias respiratórias. Eles iam fazer aqueles tratamentos e eu andava com eles. Ou iam para o parque infantil e nós íamos tomar conta deles. Na verdade, pouco tempo de descanso eu tinha. Mas gostava. Gostava daquela comida com sabor a campo e a norte, gostava daquela paisagem verde e linda, gostava dos rios, gostava de tudo ali. Volta a meia penso que gostava de lá voltar, a passar férias. Tenho ideia que tinham tratamentos para outras coisas, jactos de água, quiçá banhos de imersão. Tudo isso me parece bom. 

Deve haver outros sítios assim, mas mais cosmopolitas, melhor apetrechados. Mas era o lado nada cosmopolita de Entre-os-Rios que me agradava. Ao fim de semana, chegavam ao parque das Termas vendedores ambulantes que traziam toalhas bordadas, bolos regionais. E eu gostava de andar por ali. 

De vez em quando, os miúdos estavam saturados dos tratamentos e, então, baldávamo-nos e íamos passear a Amarante ou á Quinta da Aveleda ou por aí. Depois regressávamos e havia aquelas refeições saborosíssimas.

Um retiro deve ser assim. 

Um lugar simples, agradável, tranquilo, sem ninguém a maçar-nos ou a querer entreter-nos.

E que tenha jardins, recantos, zonas de sol mas também de penumbras e sombras, lagos, caminhos bons para passear, perfumes, silêncios, pássaros, regatos, segredos inconfessáveis, pecados sem arrependimento. E em que se possa dormir até à hora que se quiser. E boa comida. 

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As fotografias foram obtidas na net e mostram sítios onde se deve estar bem. 

Arvo Pärt - Solitudine - stato d'animo

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Desejo-vos um dia feliz

Saúde. Boas notícias. Esperança. Tranquilidade.