quarta-feira, março 16, 2011

Que se aquietem os demónios à solta no Japão e que a vida renasça rapidamente dos destroços

Não parece possível que tenha acontecido tamanha destruição, não parece possível que os abalos sísmicos não parem, não parece possível que uma tragédia nuclear ainda possa estar para acontecer.

E, no entanto, salvo algumas imagens desesperadas, as imagens mostram-nos pessoas que não se atiram para o chão, que não se deixam morrer de desespero, que, frequentemente, apenas com um pequeno saco na mão onde guardam alguns pertences, sorriem, dizendo que haverão de se reerguer.

Pelo grande infortúnio que atravessam, pela coragem extraordinária, por tudo, daqui lhes envio de novo uma flor que renasce, descobrindo uma vida nova.

Pelo Japão

勇気を持って幸せしてください。ここから私はあなたに連帯を送ってください。

(I hope this makes sense to you, brave people)

Hugo Matias e Daniel Day-Lewis separados à nascença?

Hugo Matias, o repórter da TVI na Líbia, envia um abraço ao mano gémeo Daniel

Daniel Day-Lewis, de quem tanto gosto, preocupado com as andanças do mano Hugo lá por Tripoli

terça-feira, março 15, 2011

Dois seres incomuns, Natascha Kampusch e Wolfgang Priklopil - ou a extraordinária diversidade da natureza humana

Um rapaz, um dia, tem uma ideia peregrina.

É um rapaz normal, apenas um pouco tímido, introvertido.

Sabe que essa sua ideia não merecerá a aprovação dos outros e, então, começa a prepará-la em segredo.

A ideia aparentemente é simples: quer ter um animalzinho só seu, tratar dele, torná-lo dependente de si. Mas que ninguém saiba, para não o dividir com ninguém. É habilidoso: às escondidas, constrói uma casota num local recôndito da cave, esconde a entrada, engendra uma forma de o ar lá chegar. Como gosta de estar sozinho, ninguém estranha o tempo que leva nessas tarefas.

Durante algum tempo anda absorvido a arquitectar a forma de arranjar o seu bicharoco até que pensa que o melhor é descobrir um na rua, roubá-lo, levá-lo à socapa para casa, escondê-lo.

E assim faz: arranja um ainda pequenino, cria-o, faz-lhe às vezes a vontade, castiga-o outras vezes, molda-o.

Durante anos consegue que ninguém descubra. Duas vezes por dia, isola-se e desce ao abrigo para o alimentar.

O bicho cresce, domado, habituado ao isolamento, conhecendo-o só a ele - e ele, dono e senhor, começa, aos poucos, a conceder pequenas liberdades mas sempre com exigências (e torna-se violento umas vezes, dependente, outras). Tem ali a sua companhia, a sua cria, o seu vício.

Mais coisa, menos coisa foi isto que Wolfgang Priklopil fez, quando em 1998 raptou uma menina de 10 anos, Natascha Kampusch, e a manteve em cativeiro durante 8 anos.

A história, contada na primeira pessoa por Natascha, é surpreendente. Escrito de forma escorreita, coerente, revelando uma personalidade muito forte, o relato permite-nos conhecer a mente de um ser perturbado - que se suicida quando um dia Natascha arranja coragem para fugir -  que, ao longo de 8 anos, conseguiu fazer uma vida normal, nunca levantando desconfianças, tendo dentro de casa uma menina que, nesse período, cresceu e se fez mulher, sem que alguém, alguma vez, suspeitasse do que quer que fosse. Nos últimos tempos já a levava à rua, às compras, até a levou a esquiar, na tentativa de, com ela, formar uma família normal.

A natureza humana por vezes assume formas estranhas e nem sempre evidentes.

Wolfgang que, na sua vida privada, era por vezes brutal, violento, agredindo Natascha ou privando-a de luz e de comida, outras, amarrava-se a ela para que nela se pudesse aninhar.

E nunca ninguém percebeu o que se passava naquela casa, nem a sua mãe que lá passava o fim de semana, nem familiares que viviam na casa contígua.

Tão surpreendente como isso é a tremenda força anímica, o feroz instinto de sobrevivência, a inteligência fantástica de uma criança que, isolada, maltratada, consegue manter a sua fibra, manter a sua vontade, por vezes até manipulando o seu raptor (por quem, por vezes sente piedade e preocupação).

Dá também que pensar nos erros da investigação: a casa em que o raptor vivia com a sua cria era perto da casa da menina, era perto de tudo. A carrinha que usou para o rapto e que foi referida por uma testemunha estava à vista de toda a gente. Não levaram a séro alguns indícios, desistiram facilmente.

Outro aspecto que Natascha refere é a reacção de todos perante a sua evasão, perante a sua firmeza na condução da sua vida. Ela tem sentido hostilidade e esta sua nova vida também não tem sido fácil. Mas aqui está o seu livro.

Pode parecer uma heresia mas eu acho que não é. Não sabemos o que vai ser a vida de Natascha mas, como pessoa, Clarice Lispector também foi uma criatura diferente, fantástica.

Chama-se 3096 dias saíu em edição portuguesa em Janeiro deste ano e revela a extraordinária raça de Natascha Kampusch.

segunda-feira, março 14, 2011

Flores, poesia, livros - les beaux esprits se rencontrent

Há livros que são também belos objectos, que nos dão prazer só de os olhar. No outro dia já falei no Ginjal e Lisboa do último livro de José Tolentino Mendonça, que reune a sua poesia, que é um livro muito bonito, com formato e cores de missal.

Hoje falo de outro, Flores de António Oliveira (texto) e Emerenciano (que aqui não escreve: é responsável pela ilustração) da Editora Letras e Coisas - Livros, Arte e Design. Muito bonito.

A noite abre os meus olhos, Flores, Bailias, Sob os teus pés a terra - juntos

Reproduzo dois dos poemas-flores e, por razões de ordem prática, permito-me juntar fotografias minhas em vez das que ilustram, no livro, os pequenos poemas.

Papoila
Uma boneca de trapos
em tons quentes de aguarela
Semeia beijos ao vento
que só quer casar com ela!


Flor de eucalipto
Que frescura tão solúvel
arde nos gumes da noite
ou poros acidulados
da flor do eucalipto.

domingo, março 13, 2011

Aníbal Cavaco Silva e o Facebook - com acompanhamento musical a cargo de José Malhoa (e o Sócrates a pisar o risco)

O nosso Presidente, Cavaco Silva, comunica com os seus 'amigos' através do facebook.

Se virmos o que lá escreveu na passada 5ª feira pela fresquinha da manhã, saberemos que nos aconselha a reler o discurso na íntegra (e, se formos obedientes e estivermos de boa fé, fá-lo-emos no site da Presidência da República) pois, pelos vistos, arrependeu-se e agora diz que afinal o que disse no discurso só abusiva ou distorcidamente pode parecer que era o que a todos pareceu.

Bizarro. E, como reconhecimento pela bizarria da situação, aqui lhe deixo este hino ao facebook que, certamente, apreciará.



PS: Mas não se pense com isto que acho que  uma coisa justifica a outra. O que Sócrates fez - anunciar na UE o 4º PEC sem o negociar ou, sequer, dar conhecimento a quem de direito - não é aceitável. Não é mesmo. É injustificável, incompreensível. Não gostei mas nem um bocadinho. A coisa está a ficar muito feia.

As avenidas da Liberdade e dos Aliados transformadas em sambódromo: o enredo de ontem foi 'Estamos à Rasca' e 'Volta PREC, estás perdoado!'

Dia de paródia e festa: para estes meninos, qual o significado da palavra escravatura?

Na televisão vejo novas imagens das manifestações de ontem. As avenidas parecem um sambódromo em que as escolas de samba apresentam enredos que têm o PREC como tema.

Os novos revolucionários

Tudo canta, toca e dança, uns mascarados, outros simplesmente fantasiados, outros com cartazes e todos a rir, felizes. Novos e velhos tudo desfila em festa. Até a Rita Ferro me pareceu lá ver. Não sei se Ani Avoila também lá andou, mas é provável, talvez fantasiado de Mariazinha.

Carnaval a 12 de Março

Na reportagem mostram uma mulher jovem a pintar um cartaz, parece que com o filho. Escreve ‘abaixo o TGV’ e depois falta-lhe a imaginação e então, divertida, pede ajuda ‘abaixo o tgv e mais o quê? Escrevo mais o quê?’ e repete a ver se alguém descobre o que rima com tgv: ‘abaixo o tgv…e mais o quê?’. Finalmente o que talvez seja o marido, sem jeito nenhum para slogans, diz-lhe ‘não há dinheiro’ e ela, feliz com a invenção, ‘boa! não há dinheiro, boa!’. E atira-se à obra, toda contente.

Deprimente. Ideias: zero.

Vejo também um senhor de meia idade, ar de bem instalado na vida, com um adereço que não percebi bem, talvez um capacete com uma lanterna, com outro adereço tipo computador e diz ‘eu estou reformado desde os 47 anos e ainda tenho rendimento’ e eu, com isto, fico perplexa. Manifesta-se porquê? Mas então este senhor ainda não percebeu que é por causa de coisas destas - pessoas que trabalharam apenas durante apenas cerca de 20 ou 25% da sua vida, vivendo o resto da vida com subsídios, pensões, etc – que o estado social está em risco?

Poderia ser mais explícito? É possível o quê?

Vejo pessoas com ar muito pouco gauche, para não dizer que alguns mesmo com arzinho de direita, que querem derrubar Sócrates, pessoas de esquerda estalinista, de esquerda caviar e do mais que houver mas que também querem derrubar Sócrates, de pensionistas precoces que têm receio que o filet mignon se acabe, jovens bolseiros, jovens estagiários e todo um conjunto de jovens - que gostariam de, aos 20 e tal anos, já terem casa própria, carro próprio e dinheiro para a folia - e claro, no meio, também pessoas com legítimas razões para se queixar (porque as há, claro que há).

Com tanto apelo ao sobressalto a malta até já se afoita a confessar instintos assassinos

E, no meio de todo este albergue espanhol em festa, em que grande parte não está de todo à rasca, lá andam os baladeiros de há 30 anos, com slogans pós 25 de Abril, mais os brincalhões mascarados de ’conta-me como foi’. E toda a gente canta e dança, e de dedos em V, 'o povo unido jamais será vencido'. Lindo.

Pedro Barroso não poderia faltar, anti-fascismo é com ele

Um país, falho de ideias e sem noção da realidade. Será que, ao menos, se interrogam: hoje, depois de toda esta folia, o que conseguiram melhorar?


PS: Enquanto escrevo isto tenho a televisão ligada e, depois de ter ouvido que os camionistas se preparam para chantagear o governo e paralisar de novo o País, causando-nos novo sobressalto (Cavaco Silva está, certamente, ao lado deles), vejo uma coisa inacreditável que talvez ilustre o ridículo dos tempos que correm. Uma mocinha irritante e convencida, Carolina Patrocínio (a filha de seu bem colocado pai) - numa rubrica chamada ‘o mundo de carolina’ de um programa totalmente estúpido, o Fama Show - a ser filmada enquanto leva o cão ao veterinário. Este país, para além de falido e deprimente, está a ficar parvo, parvalhão.

Carolina Patrocínio: uma mulher famosa neste país.  Estará também à rasca?



Portugal, com isto tudo, ainda tem futuro? Começo a temer o pior.

sábado, março 12, 2011

No dia da manifestação inorgânica, Jel, Falâncio e Amigos da Luta, professores e Mário Nogueira e Pedro Barroso, a Tourada e a Geração à Rasca - e eu in heaven a desejar que o Japão recupere do tsunami de tragédia em que mergulhou

Jel, Falâncio e demais Amigos da Luta, directamente do PREC para animar a Geração à Rasca

Liguei a televisão e ouvi 'O povo unido jamais será vencido!', depois o Fernando Tordo a cantar a Tourada, depois vi o Pedro Barroso, inflamado, a clamar pela democracia, tenho ideia de que vi também umas pessoas a cantarem uma cantiga da Tonicha, avenida abaixo lá ia a manif, 'o povo unido jamais será vencido!' e parece que estava a ver imagens do tempo do PREC.

Alguma coisa não bate certo nisto. Que saudosismo é este? Esta gente toda que se manifesta, quer o quê? Querem voltar atrás no tempo? Em vez de quererem fazer um tempo novo, diferente, querem voltar para trás? Mas que coisa é esta? Não viram que o resultado não foi grande coisa....?!

Vi entrevistas a jovens e não há uma ideia nova, não há uma proposta, uma solução, só há reclamações. Os organizadores - que, com as formações académicas extraordinárias que têm não se percebe como é que ninguém lhes dá emprego... 'estudos da paz'... francamente, com a saída profissional que isso tem é mesmo má vontade dos empresários e do Sócrates - não são capazes de referir uma única ideia de futuro.

E, claro, lá andaram o Jel e o Falâncio a animar a malta e já nem percebo se são os personagens que sairam do Prec ou se são eles próprios que não passam daquilo. Mas também não interessa.

O triste disto tudo é que as pessoas andam descontentes e preocupadas e com razão mas mobilizam-se em torno de coisa nenhuma.

A seguir vi a reportagem do encontro de professores - que já nem se sabe o que querem agora - com o insuportável, maçador, demagogo, fala-barato Mário Nogueira. Que mau serviço esta criatura presta ao ensino e ao País!

Por isso, tenho muita pena, mas Mário Nogueira, Pedro Barroso, o povo unido jamais será vencido, Tourada e cantigas da Tonicha tudo junto no mesmo dia é xaropada a mais. Decididamente não é disto que Portugal precisa. 

Por isso, assim como assim, fico-me here in heaven:

O céu esteve assim, quase irreal.


Os ramos da figueira ainda nus mas tão bonitos


A madressilva começa a florir e tanto que eu gosto tanto dela


E a beleza elegante da flor do pessegueiro?

Tem uma harmonia que me faz lembrar as composições florais japonesas e por isso, como um tributo solidário pela tragédia sem tamanho que aconteceu no Japão, aqui a deixo.

(São malfadados os dias 11, twin towers, atocha, isto).

Há coisas de uma dimensão excessiva e, perante o que aconteceu, dificilmente poderemos dizer que foi um Act of God (expressão que, nos clausulados contratuais, se utiliza para designar os casos de force majeure em que não se cumprem as obrigações contratualizadas por sucederem fenómenos da natureza que impossibilitem o seu cumprimento). Deus, se existe, não determinaria um desastre daquela magnitude.

sexta-feira, março 11, 2011

Recomendação ao Ricardo Costa relativa à Atual do Expresso. E, por falar em Anna Nicole: John Galliano e Kate Moss duas outra criaturas excessivas de quem muito se tem agora falado. E as irritantes bichas de rabiar.

1. Não sei quem é que coordena o suplemento Atual, se é o Ricardo Costa ou não. Mas, seja quem for, aqui deixo uma recomendação. Deverá haver uma coordenação mínima entre quem lá escreve para evitar o que aconteceu na edição do último sábado em que, em três artigos, se lia a mesma coisa: como é que Vickie Lynn Hogan com um peito mínimo passou por várias identidades até chegar à malograda Anna Nicola Smith, com um peito que lhe deveria dar cabo das costas, como casou com um velhinho mais para lá do que para cá, como ficou sem nada, morrendo-lhe o filho, antes de morrer ela própria.

Escreveu Pedro Mexia, escreveu Jorge Calado por duas vezes.

Independentemente da qualidade da escrita e do interesse dos textos, à terceira vez a gente já acha maçador.

Anna Nicole: a figura excessiva e a vida excessiva foram-lhe de facto um fraco consolo

2. Por figuras excessivas, há um outro caso patético que atravessa os tempos presentes. John Galliano, filho de pai gibraltino e mãe espanhola, mudou-se aos 6 anos para Inglaterra onde completou o curso de Arte e Design com a melhor média, aluno que dava nas vistas de tão especial que era.

De uma criatividade exuberante, foi ascendendo no mundo da moda até ficar à frente da Givenchy e, depois, ser convidado a recuperar o prestígio da Dior. Os seus modelos sempre foram obras de arte, os seus desfiles memoráveis. As fotografias de moda, em que frequentemente participava - tal como participava nos desfiles - são fantásticas, inquestionável arte. Os desfiles art in motion.


Inovador, de uma imaginação desbragada, relançou a Dior (mantendo, no entanto, a sua própria griffe).

A exigência, a competitividade, o pisar do risco, a exposição permanente, foram-no, contudo, levando para o lado negro da existência.

Álcool, uma vida solitária e triste, jantares sozinho no Marais, noites de inquietação, e aí temos mais uma vítima do cruel mundo da moda. O resto é o que se sabe. Insultos anti-semitas, provocações verbais, ébrio, decadente. Acusado. A humilhação do vídeo a correr mundo, o despedimento. As imagens mostram-no agora trôpego, figura clownesca, desfigurado, sem glamour, triste. Triste, muito triste.

Tomara que a fénix renasça porque não há muitos mais que festejem a mulher como ele, com exuberância, uma feminilidade audaz, provocante, no limite. A moda com Galliano é uma invenção, uma arte excessiva e bela, muito bela. Convido-vos a verem o vídeo que coloquei abaixo. Não há mulher que não se imagine assim, cortesã, coquette, sedutora, tresloucada, transbordante de charme, de mistério, elegante, sofisticada, única, mulher absoluta, une femme absolument feminine.

3. Outra figura que se movimenta in the border line, Kate Moss (que, talvez não por acaso, vai ter o seu vestido de casamento desenhado por Galliano), deu também que falar por estes dias.

Desfilou para Louis Vuitton, encantando com aquele seu ar que é também um misto de decadência, provocação e sensualidade - mas a fumar. Escândalo.

Nesta era ecológica e anti-tabagista, eis que Kate Moss, com o seu andar de gata se apresenta, in the runway, de cigarro na mão, aspirando o fumo, expelindo-o despudoradamente.


Kate Moss não é definitivamente uma mulher mainstream. Drogas, desintoxicações e muitos amores. Uma mulher em erupção, flamejante, fumegante. Tomara se aguente.

4. Perceberão certamente porque me fico por estes temas: é que são muito mais interessantes do que a moção de ternura (como o jornalista dos grandes títulos do Independente, Paulo Portas, chamou à absurda moção de censura que os inteligentes do Bloco de Esquerda apresentaram).

Aqui na piolheira, em que há uma malta que não se governa, nem se deixa governar, os juros da dívida soberana sobem a níveis que não se conseguirão suportar, o desemprego assusta, a economia está exangue - e a classe dirigente brinca às partidinhas de carnaval, moçõezinhas parvalhonas, discursinhos irritantezinhos proferidos por meninos birrentos, histerias colectivas e aparvalhadas.

Ainda há uma coisa que havia dantes, bichas de rabiar? Assim parece esta gente.

John Galliano: Paris Spring 2011 RTW

Vejam por favor. Galliano, fantastique.

quinta-feira, março 10, 2011

O discurso do presidente, os homens da luta, os auto-proclamados parvos, enrascados e deolindos - e uma coisa muito diferente: a indispensável reviravolta disruptiva

Seria natural que falasse hoje do discurso de tomada de posse de Cavaco Silva mas não consigo.

A sua hipocrisia política vai para além do que consigo processar. Ao ouvi-lo apelar ao sobressalto cívico, quem não saiba, não supõe que estamos perante o responsável pela governação do País durante vários anos e Presidente da República nos últimos cinco.

A ideia que dá é que, com o espírito vingativo cuja fama chegou até aos EUA, não descansará enquanto não der cabo de Sócrates nem que, para isso, tenha que incendiar o País.

Pode ter razão em muito do que diz - e tem - mas é estranho ver um presidente a assobiar para o lado, a fazer de conta que se esqueceu de que muito do que acontece agora decorre de decisões suas enquanto governante, enquanto figura de topo da hierarquia de Estado.

O discurso revela algo de feio e de preocupante para Portugal.

Tanto que até me aborrece falar disto.

Vou antes falar outra vez dos jovens a quem Cavaco Silva, com a sua costela avoila, também se colou, instigando-os à luta. Claro que, dada a tenra idade, estes jovens não têm memória dos tempos em que Cavaco foi 1º ministro, traçando muito do rumo político que hoje se trilha. E até já li que alguns destes jovens ficaram sensibilizados com o apoio de Cavaco.

De uma mediocridade tenebrosa, isto.

Vou, portanto, falar de novo sobre os jovens da Geração à Rasca (como eu abomino esta expressão...)

Não há nada mais útil a uma causa do que heróis vitimizados. A turba une-se naturalmente em sua volta para os vingar, para os honrar. Se antes a causa era difusa, a partir de aí ganha rostos. Seja o professor que fura um cordão policial e é empurrado, imediatamente se transformando num novo Che Guevara, seja agora o grupinho de penetras que, de cartaz em punho, invade um recinto em que vai decorrer um encontro partidário, tendo sido empurrado de lá para fora (já que, por convite, não saíam) transformando-se, de imediato, em heróis.

João, Paula e Alexandre, três dos organizadores da manifestação de 12 de março


Com este episódio banal que nem digno de registo seria, os iletrados da política agora histericamente já clamam: ‘fascismo!’ ou ‘é o fim da democracia!’.

Felizmente para eles e para todos nós, estão enganados. Regimes não democráticos ou fascistas são coisas muito diferentes do regime em que vivemos.

Heróis? Vítimas de um regime não democrático? Claro que não.

O que se passa é que  a algumas pessoas corre nas veias o gosto pela luta (seja ela qual for). Cheira-lhes a confusão e aí vão eles.

Independentemente do sexo ou condição social, há os góticos, há os rappers, há os intelectuais, os metrossexuais, os ecológicos, os tecnológicos, os gestores, os desportistas, os balofos, os meninos da mamã, os escuteiros, etc e tal, e mais os carneiros, os surfistas e os amigos da luta, ou lato sensu, homens da luta (agora parodiados pelos manos Jel e Falâncio).

Os Homens da Luta - Nuno,Vasco Duarte & Amigos - sempre prontos para um bom caldinho 


Com as devidas adaptações cronológicas, sempre assim foi desde o princípio dos tempos.

Geralmente os carneiros e os surfistas acompanham os homens da luta. Estes últimos provocam, desafiam, andam à cacetada, e atrás, a bramar, a balir, vai a carneirada e, por cima, aproveitando a onda, seguem os surfistas. Nada de novo, aqui e em todo o lado, com as devidas adaptações culturais.

Por vezes os amigos da luta interpretam bem o sentir de um povo e, justamente, desencadeiam movimentos válidos, libertadores. São os que ficam para a história porque mudam o seu rumo.

Mas nem sempre há causas históricas e os homens da luta não podem esperar, o gostinho pela confusão está-lhes na massa do sangue. Então tudo serve.

É o caso dos auto-proclamados parvos ou enrascados deolindos.

Ouvimos o que dizem e que nos fica é que parece que não estão preparados para esta vida que não é fácil, que querem bolsa ou subsídio que dê para o carro e para o estacionamento que está tão caro, para o clube ferroviário e para o lx factory, para a Zambujeira e o Rock in Lisbon, para o iPad e PS2, para as bejecas, shots e circuito das tasquinhas.

E logo se lhes juntam as avoilas e os picanços, a menina Rato, os BEzinhos enfáticos e empinocados (ainda agora vi a Joana Amaral Dias, hirta e convencida, armada em sexy, dissertando do alto da sua cátedra revolucionária), os juízes e quejandos, promoção na carreira e casa à borla.

E vai daí arranjam uma arruaçazeca onde consigam levar um empurrão (ou mesmo um estaladão – que isso, sim, seria a coroa de glória) certos de que logo aparecerão os abutres da comunicação social a dar-lhes tempo de antena para que possam gritar ‘Fascismo!’ e que, acto contínuo, aparecerão os arautos de megafone em punho a conduzir a carneirada, sempre pronta para fazer grupo, mais os surfistas do costume a compor o ramalhete.

É ver o PCP inquieto a colar-se de qualquer maneira (porque a rua, com os diabos!, a rua é dos comunistas), é o Bloco de Esquerda todo nervoso (a manif é minha! a manif é minha!!!), é o PSD (têm razão, têm razão e já agora ajudem a derrubar o governo que nós estamos com a goela aberta à espera de ir matar a sede ao pote - PPC dixit), é agora esta adesão de luxo, o próprio Cavaco Silva.

Um albergue espanhol: uns a dizerem banalidades, outros de megafone em punho, outros a cavalgar a onda.

A falta de ideias (e até o mau domínio da língua portuguesa) não auguram nada de bom

Esclarecimento: não quero com isto dizer que acho que os tempos estejam fáceis. Acho o contrário.

Lamento que os jovens não consigam trabalhos dignos, que a economia esteja uma lástima. Lamento que o futuro, para muitos jovens, seja uma miragem. Lamento que tanta gente de meia idade vá para o desemprego. Lamento que a vida esteja tão difícil. Lamento que os juros estejam a subir para níveis insustentáveis. Lamento quue o País esteja falido.

Mas a primeira coisa a fazer para sairmos deste marasmo (que por analogia é como as águas de Redondo Beach, L.A. Califórnia, que estão pejadas de milhões de sardinhas mortas, um caldo pesado, anaeróbico, onde qualquer forma de vida parece impossível) é afastarmos a maltosa desqualificada que tem invadido os partidos e que, a partir daí, ocupa o lugar de legisladores e governantes.

Em Los Angeles, águas carregadas de sardinhas mortas, milhões de sardinhas mortas, águas sem oxigénio

De forma geral, grande parte da classe política actual quase parece a tropa fandanga da Quinta dos Animais – ou o Triunfo dos Porcos – de George Orwell (cuja leitura muito vivamente recomendo).

"Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais"

Parecem homens, portam-se como homens, andam de fato e em cima de apenas duas patas mas olhemo-los bem… Que conhecimentos, que cultura, que experiência de vida, que desprendimento, que arcaboiço, que visão estratégica lhes vemos para que os possamos considerar dignos dos lugares que ocupam?

O mundo está em convulsão e tudo aquilo em que assentou nos últimos anos vem sucessivamente a colapsar. A alavancagem financeira, o crédito fácil e barato, a alimentação abundante e a baixo preço, o petróleo a la volonté, uns países com elevados recursos mas uma população miserável para onde escoar excedentes e com uma liquidez muito conveniente, e por aí fora… tudo a ruir. Em contrapartida a Ásia paulatinamente vai conquistando poder. Uma economia em crescimento consistente e continuado, com excedentes de liquidez, que vem comprando a dívida de tudo o que é mundo ocidental. Grande parte da economia americana e europeia está nas mãos dos países do oriente, em especial da China. O impacto geopolítico deste facto ainda está por se manifestar mas será, certamente, um outro sobressalto.

Seria preciso que, do lado de cá, surgisse uma nova geração política com capacidade de reinventar uma ambiciosa visão de futuro. E era nesse sentido que a juventude descontente deveria concentrar esforços em vez de andarem domesticamente a varrer o chão do insignificante lixo orgânico da politicazinha nacional.

quarta-feira, março 09, 2011

Dia da mulher, carnaval, biblioteca reestruturada

Hoje desde meio da tarde e até há pouco concluí - finalmente! - a reorganização das estantes. Estou cansada demais para poder pronunciar-me sobre o dia da mulher, sobre o que quer que seja.

Por isso, hoje apenas deixo alguns testemunhos fotográficos do dia de hoje. Convido-vos também a espreitarem o Street Photo & Co.: ainda lá vou colocar umas duas ou três fotografias carnavalescas.

Como tributo às mulheres mães trabalhadoras, esta fotografia de uma mulher a vender balões nesta terça-feira de carnaval que, mesmo no meio da azáfama de atender clientes, esteve sempre atenta às filhas irrequietas.

Mulher a trabalhar e a tomar conta das filhas no Dia da Mulher

Depois de andar ao frio e à chuva no meio das pessoas, atirei-me então com afinco à missão de acabar com o caos que tem reinado cá em casa.


Hoje já era mesmo só 'esfolar o rabo' pois o principal já estava no seu devido sítio. 

Agora está tudo devidamente separado: literatura asiática, de língua espanhola, dos palops, brasileira, etc, etc, e em cada estante, tudo por ordem alfabética de autores e tudo à larga para acomodar os vindouros sem que haja homeless books nos próximos tempos.


E até a estante ondulante, a minha preferida, que antes estava periclitante de tão carregadinha que se encontrava, agora está folgada e nem os bibelots tapam a vista.



E, para terminar, uma fotografia em que vê alguns dos livros em que tenho andado a 'mexer' nos últimos dias mas com uma particularidade.

Por ser dia da mulher, hoje na rua ofereceram-me uma flor. Coloquei-a junto desses livros e tirei uma foto.


E assim termino por hoje: com flores, com poesia, orgulhosa por ser mulher [por ser capaz de conciliar uma vida profissional exigente (no meio de homens!), uma vida familiar preenchida e feliz, interesses vários e motivantes - sem me sentir lesada, sem acusar os homens, sem ter que abdicar nem um bocadinho da minha feminilidade]

PS: Está a aparecer com letra mais pequena do que devia e não consigo ajustar as margens... mas já não tenho paciência para tratar disso. Sorry.

terça-feira, março 08, 2011

Luz sobre um teatro às escuras de Pedro Tamen - e também sobre Paula Rego e sobre Miró e sobre todos os outros que festejam a arte

Uma vez, numa entrevista em frente a um quadro, perguntaram a Paula Rego (uma fantástica encenadora)porque é que ela tinha pintado dois tomates ao pé de uma cama. Ela, com aquela ligeireza que se lhe conhece, riu e disse: “Sei lá…Não faço ideia de como foram ali parar.”

Num livro que já aqui referi e que me deu muito prazer ler, ‘Miró – Esta é a cor dos meus sonhos’, ele explica que muitas vezes ao sacudir a tinta dos pincéis, saltavam salpicos para a tela e que, a partir dali, ele compunha o resto; que, depois, os críticos e entendidos inventavam histórias para explicar a obra. Mas, a ele, era-lhe indiferente o que dissessem.

Há tempos, em casa de um pintor, vi alguém que lhe dizia que gostava muito de um quadro em particular e perguntava-lhe se aqueles pontos luminosos, na noite, eram olhos de gatos. O pintor sorriu e disse que podia ser, faria sentido se fosse mas que não tinha pensado nisso quando pintou.

Na altura apetece-lhes fazer uma coisa e, se lhes apetece, quem os impede?

O que significa? Podia contar-vos mil histórias diferentes.
Mas que interessa aquilo em que o pintor ou escritor estavam a pensar? Nada, acho eu.

O bom destas coisas é que há alguém que se exprime como na altura lhe ocorre – sem razão, sem intenção, apenas porque foi o que calhou naquele momento – e a seguir outras pessoas fazem daquilo o espelho da sua própria imaginação.

É nesse jogo de falsos e múltiplos espelhos que reside o mistério e o fascínio da arte.

Pedro Tamen publicou mais um livro de poesia, Um teatro às escuras, e é difícil ficar-se-lhe indiferente.

Não são poemas avulsos mas sim uma história em poema. Aparentemente descreve o que se passa no decurso da representação de uma peça de teatro, envolvendo, na descrção, toda a equipa que leva à cena a dita peça, desde os actores, ao encenador e à equipa mais técnica. É uma ideia aparentemente simples mas, de acto, com um fantástico potencial de exploração.

Tal como sobre uma pintura, podemos fazer várias leituras e, provavelmente, com elas surpreender o autor.

Tenho lido fascinada este livro.

Aliás, toda a poesia de Pedro Tamen me fascina. É uma poesia organizada, inteligente, lógica – mas imaginativa, musical, envolvendo, com grande equilíbrio, o saber, a experiência e o sentimento (e a emoção, que é a forma imediata e aguda do sentimento). É uma poesia empática (pelo menos em relação a mim é-o).

Neste Teatro às escuras podemos ver o desalento de um amor que caminha para o fim porque os seus intérpretes caminham para o inexorável fim (ashes to ashes), ou podemos ver ali a descrição de amores clandestinos, vividos em segredo, à distância, tão imateriais que quase parece nem existirem, ou podemos ver a celebração do amor luminoso, podemos ver a encenação circunstancial que a vida pública de um relacionamento sempre é, ou podemos ver os comentários de quem assiste de fora a uma realidade que apenas faz sentido para o próprio casal, etc, etc. São múltiplas as leituras consoante a idade, o mundo, os genes de quem o lê – e ainda bem que assim é.

A leitura de Pedro Mexia no Expresso de dia 5 deste mês é uma leitura possível, lúcida e esclarecida como seria de esperar. A quem não leu, recomendo a sua leitura. E recomendo, sobretudo, a leitura de Um teatro às escuras. Abençoadas as pessoas que têm este dom de nos maravilhar com as palavras.

Um teatro às escuras - se mais te aproximares toda tu serás luz


Hoje no Ginjal - mulher entra para um palco em que um homem a espera

Do já algumas vezes referido - no Ginjal e Lisboa, a love affair - recente e belíssimo 'Um Teatro às Escuras' de Pedro Tamen:

Se mais te aproximares
toda tu serás luz.
E mesmo em escuridão
toda tu serás luz.
Este chão que pisamos
fará de nós a luz
que um dia será dia
e te fará magia
à ceia, em Emaús.


Ele e Ela e a encenadora

Apaga-se a luz.
O Teatro escurece.
No palco encontra-se um jovem casal.

A peça vai começar.

segunda-feira, março 07, 2011

Não me parece nada bem que aceitem ser a geração à rasca, ou os parvos, ou que se vejam como pobrezinhos: não são. São apenas pessoas em início de vida profissional.

Recebi um comentário ao meu anterior post sobre a Geração à Rasca bastante pertinente e que, por me parecer ilustrativo do espírito dos que se propõem participar na manifestação de dia 12 de Março, não apenas o publiquei como me merece aqui um esclarecimento destacado.



O que o J. ali refere é a situação típica dos adultos em início de vida profissional. É assim agora e sempre assim foi.

Claro que deveremos exceptuar as situações de favor (começar a trabalhar logo num emprego brilhantemente remunerado, numa empresa ou instituição pública porque se é do partido ou amigo de alguém), de família (começar a trabalhar logo como chefe de alguém porque se é filho ou sobrinho ou primo do patrão) ou as situações absurdas de há una anos atrás (quando mal se acabava um curso e já se era consultor com bom ordenado e carro). Estas situações são excepções mesmo que em determinado período sejam quase a regra.

De resto, desde o princípio destes tempos mais recentes, o que descreve é o normal: acabar o curso, sofrer um bocado até que se arranje trabalho, entrando pelo baixo da escala remuneratória, muitas vezes um trabalho precário, mal tendo dinheiro para se autonomizar; alugar uma pequena casa, após algum tempo comprar um carro em 2ª mão, sacrifícios, supressão de idas frequentes ao cinema, a restaurantes, andar de transportes públicos na maior parte do tempo, fazer as contas ao cêntimo para ver se é possível assumir novas responsabilidades.

O caminho faz-se caminhando e é com a experiência que as pessoas adquirem o conhecimento prático que lhes permitirá ascender a funções de maior responsabilidade, melhor remuneradas.

O que se passa é que os jovens de hoje são filhos de uma geração que usou e abusou das facilidades do crédito abundante e barato, em que viagens, boas casas, bons e caros colégios, um carro para cada pessoa do agregado familia, tudo era possível e fácil.

Agora os juros estão altos e viver com recurso ao crédito é uma dor de cabeça e, pior, os bancos têm pouco dinheiro para emprestar.

E o que acontece com as famílias, acontece com as empresas. As empresas investiram à vontade, o crédito era um recurso totalmente acessível, barato. Agora não é. As empresas estão a sufocar com os encargos financeiros e estão aflitas para arranjar mais empréstimos. Como os clientes são menos e mais exigentes, querendo preços mais baixos, as empresas estão aflitas, a lutar para sobreviver. Têm que reduzir custos, não há volta a dar. Por isso, aumentar os postos de trabalho, nesta altura, só em casos muito pontuais.

A geração mais nova pode também ser levada a pensar que a culpa é dos mais velhos, que ocupam os lugares em vez de darem lugar aos mais novos. Mas vejamos. Mandar uma pessoa embora não é coisa fácil para uma empresa. Porque e como o faria? A lei protege os direitos dos trabalhadores. Só em casos complicados é que é possível, mas (claro!) indemnizando. Ora os que têm muitos anos de serviço, têm direito a indemnizações elevadas - e as empresas não têm dinheiro para isso. Além disso, para o País também não é bom, pois são pessoas com direito a subsídio de desemprego mais alto. Quer dizer, a solução também não passa por aqui.

Ou seja, a solução em tempos difíceis de retracção económica, não passa por decretar que se admitam jovens onde eles não fazem falta ou que se aumentem ordenados onde as empresas ou organismos de estado que mal podem cumprir com os compromissos que já existem.


A solução também não passa por cantarem o 'Parva que sou', de braço no ar (quiçá até de isqueiro aceso), ou manifestarem-se ou coisa do género. Muito menos passa pela instrumentalização que já está posta em marcha em que tudo o que é oportunite partidária: desde a JCP mais o Jerónimo de Sousa, aos demagogos air gauche e look fashion do Bloco de Esquerda, até ao descaramento mais inacreditável do PSD, tudo se cola aos deolindos Alexandre de Sousa Carvalho, António Frazão, Paula Gil e demais fb-mobilizadores. Puro acto de parasitismo oportunista, os populistas demagogos do costume sempre prontos para cavalgarem a onda do descontentamento, seja ele qual for.

A solução passa, em meu entender, por perceberem que não há facilidade nesta vida, nunca houve e agora ainda menos, com esta crise generalizada, com o mundo em sobressalto, com o petróleo a disparar, com os alimentos a preço de ouro. Este é um tempo de puxar pela cabeça, descobrir novos trabalhos, novas maneiras de viver, de abdicar do consumo fácil e desnecessário.

Cabe aos jovens perceber que, de cada crise, nascem oportunidades e que lhes cabe detectar oportunidades de negócio nestes tempos conturbados. Não podem exercer aquilo para que se prepararam (seja engenharia do ambiente, antropologia, jornalismo, terapia da fala, relações internacionais, seja o que for). Inventem produtos, inventem serviços, abdiquem de carro, de concertos, de jeans de marca, de restaurantes. A vida real é assim mesmo. Sacrifício, esforço, subir a vida a pulso. Não é de agora, sempre foi (tirando estes últimos e insanos tempos)

quinta-feira, março 03, 2011

A beleza da desobediência


A copa do meu pinheiro ao cair da noite
Regresso quando tudo é mais exacto.
O recorte da serra, o tijolo do muro,
a sombra do teu corpo.

A noite um puro arbítrio.


A amendoeira começa a florir

Queria que ficasses
naquele olhar
a caminho da curva
do meu ombro


A vinha virgem agarra-se à parede, aparentemente trémula mas, de facto, bem forte

As pedras perseguem-nos
e, com elas, melancolias e mitos.

Vestígios de um tempo inscrito
nas vozes solitárias.



Instante muito breve
entre o espelho
e o azulejo.

O tempo branco
de fugires da tela.


[Poemas do recente livro Desobediência - Poemas Escolhidos de Eduardo Pitta]

quarta-feira, março 02, 2011

A beleza

Recolhidamente. Silenciosamente. Humildemente.

Religiosamente venero a beleza.

Dos momentos, das palavras, das coisas, das pessoas, das cores, da música, das pedras, das flores, dos sorrisos, dos sentimentos, das ideias. Do sorriso absolutamente inocente e sincero das crianças.

A beleza.

Da luz que ilumina os olhares, da luz que vibra sobre os campos, da luz que doura as cidades, da luz que nasce, da luz que é penumbra, da luz crua, da luz inflamada.

Da luz, portanto. Fatalmente, venero a luz.

A beleza da luz.

A beleza.

a place in heaven

e a luz que entra para abençoar os momentos perfeitos

terça-feira, março 01, 2011

Oremos irmãos: que a Senhora Angela Merkel nos ajude (amanhã em Berlim)

Esperemos que Angela Merkel não dê ouvidos aos 198 economistas que hoje publicaram um artigo pedindo a extinção do fundo europeu de estabilidade, substituindo-o por um mecanismo que regule de forma controlada a bancarrota nos países sobreendividados (such as Portugal). Esperemos.


Seja como for, mesmo que não ceda às pressões a que tem vindo a estar sujeita, algo ela exigirá e terá toda a legitimidade para o fazer. Não será de graça que estenderá a sua mão; certamente exigirá suor e sangue.


E Sócrates - que deve ir low profile (Teixeira dos Santos estará ao lado dele para o impedir de anunciar foguetórios), a bater a bolinha muito baixinho, com uma lagriminha no canto do olho por ter que assumir que aqui na piolheira nada resulta, que depois de muito extorquir dinheirinho aos contribuintes, não consegue concretizar a redução da despesa que se impõe - certamente vai acatar, de cabecinha baixa e rabinho entre as pernas, as exigências da Fraülein Merkel.

Vamos ver o que aí vem. Oremos.

(Começo a ver isto muito mal parado...). Oremos irmãos.

Cavaco Silva, com um grande sapo entalado na garganta: ok, mudem lá se sexo à vontade!

Pois que remédio, o diploma lá foi promulgado. Transgéneros, transexuais: agora já é mais fácil mudar de género ou de nome. Mas tenham cuidado... segundo o Senhor Presidente esta lei não acautela os direitos dos próprios pois expõe-os 'ao erro de diagnóstico'.

Não sou conhecedora do assunto pelo que talvez esteja a perceber mal... mas Cavaco Silva teme que uma pessoa sinta que nasceu com o sexo errado, queira mudar de sexo, lute por isso e que, quando finalmente o consegue, perceba que ...upssss... afinal se enganou?

Não sei. Pressinto aqui um excessozinho de zelo. Cá para mim, a ele (e à senhora dele, àquela que ele tem que sustentar) faz-lhes um bocadinho de confusão este soluço da natureza [no outro dia parece que o ouviram a pedir 'Oh Maria, explica-me lá outra vez a diferença entre transgénero e transgénico. Um dia destes, quando tiver que falar em público, ainda me troco todo.']

 

Os jovens da Geração à Rasca estão dispostos a quê? A ir à luta, arriscando e abrindo o seu próprio negócio... ou apenas a beber menos 3 shots por noite e a só ir a 7 concertos por ano?

Tenho que começar por fazer uma declaração de interesses: abomino a expressão 'à rasca'. Logo, fico de pé atrás quando meninos com ar de betinhos dizem, com ar pretensamente revolucionário, 'à rasca'. Não bate certo.

Li no Expresso um artigo sobre um dos promotores da dita manifestação de 12 de Março, a manif contra a precariedade que está a ser promovida através das redes sociais: Alexandre de Sousa Carvalho.

Alexandre na entrevista ao Expresso, edição 2000

Alexandre de Sousa Carvalho, tem 25 anos  e tem como formação académica uma licenciatura e um mestrado numa área em que há uma falta de mão de obra que ninguém queira saber: é licenciado em Relações Internacionais, com mestrado em ‘estudos sobre paz e conflitos em África’.

Questionado pelo jornalista, 'se tivesse poder o que mudaria?', diz que como não se considera um iluminado, explicando que não diz nada porque as coisas não se devem fazer segundo ‘caprichos individuais’.  À pergunta ‘que medida gostaria de ver aplicada?’ também não responde porque ’como organizador, não lhe vou indicar qualquer medida’. Habilidades linguísticas, com laivos de baixa política, que escondem um aparente vazio de ideias. Parece um 'macaco velho' (como se costuma dizer dos velhos políticos) a falar, atacado de partidarite, e afinal é um jovem de 25 anos.

Tenho o maio apreço pelos jovens, gosto de trabalhar com jovens, adoro conversar e conviver com jovens, são o futuro - mas, please, jovens com ideias jovens, instruídos, trabalhadores, com boa cabeça (e que o revelam, nomeadamente quando escolhem a formação), que sabem ir à luta, que percebem que o futuro de cada um é cada um que o constrói. Que percebem que não é ficando, até terem 30 anos ou mais, no bem-bom, em casa dos pais, a tirar mestrados ou doutoramentos que não interessam para coisíssima nenhuma e a lamuriarem-se, que irão encontrar alternativas úteis para eles e para o País.

Pegue-se no caso do Alexandre ou de muitos outros Alexandres e Alexandras que se queixam que não arranjam trabalho compatível com a formação académica e que, contra isso, se vão manifestar. Provavelmente gostavam de obrigar o Governo a obrigar as empresas a contratá-los. Imaginarão que com especializações engraçadas como as que têm as empresas poderão colocá-los a fazer o quê?

Pontualmente pode acontecer que uma empresa que queira abrir uma sucursal num país africano recorra a um especialista em conflitos africanos mas será a um e não aos milhares de jovens que tiraram cursos sem saída no mercado de trabalho.

E depois uma perguntinha que se calhar não tem nada a ver com isto.

Quando o concerto da Kate Perry esgotou, quando todos os outros concertos esgotam, cheios a abarrotar com jovens felizes e cantarolantes, quando as ruas e os bares do Bairro Alto estão cheios de jovens que bebem festivamente até de madrugada, quem são esses jovens? Não são os que têm que trabalhar no da seguinte, digo eu.

E quando qualquer jovem que tenha 18 anos já anda montado no seu próprio carro, quem são esses jovens?

E quando tudo o que é telemóvel ou jogo ou gadget se vende que nem ginjas, quem são os jovens que os compram?

Serão os jovens 'à rasca'?

[Note-se: Claro que lamento que a nossa economia esteja como está, claro que lamento que nas últimas dezenas de anos o País não tenha sabido tornar-se sustentável, claro que lamento que com uma geografia e um clima e um povo como os portugueses, não tenhamos sido capazes de deixar de ser um país inerte e pouco produtivo, que compra quase tudo o que consome e que pouco produz para vender - mas isso conseguir-se-á se os jovens se tornarem cidadãos de pleno direito, generosos, empreendedores, se os jovens se tornarem lutadores e dinâmicos em vez de palavrosos, em vez de maçadores verborreicos, em vez de papagaios que outra coisa não fazem do que papaguear conversas velhas de Jerónimos ou Louçãs ou Portas ou PPC's ou até Sócrates].

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

The Horse Whisperer

Robert Redford, Kristin Scott Thomas, Sam Neill e Scarlett Johansson (ainda menina) no Encantador de Cavalos, um filme que não me importo de rever de vez em quando (ao contrário do que acontece com grande parte dos filmes). Talvez não seja extraordinário, não sei se é ou não, não sou expert, mas há um equilíbrio, uma graciosidade, uma largueza de espaços, uma beleza, um desprendimento na representação -  não sei explicar bem - que torna este filme, aos meus olhos, um filme harmonioso, que me tranquiliza, que apela por mim.

(Tal como acontece com outros tais como, por exemplo, As pontes de Madison County ou o Lady Chaterly de Pascale Ferran ou até mesmo o Dangerous Liaisons de Stephen Frears).




Estava aqui a pensar a propósito de quê me tinha lembrado hoje disto mas acho que já sei: deve ter sido por ter estado ao pé daqueles cavalinhos ternurentos (vidé post de ontem sobre a primavera ou o das Historinhas da Tá)

Edição 2000 do Expresso - breves sobre a forma e sobre o conteúdo

Estava expectante, depois de tanta publicidade. Edição 2000. De facto é um número importante, merecia bem ser festejado. Sobre as contratações e descontratações já me pronunciei aqui. Sobre a campanha também.

Os números falarão por si ('pelos frutos os conhecemos', não é?), o que interessa às empresas é, sobretudo, o volume de vendas. A opinião individual e subjectiva de pouco vale. Mas transmiti-la-ei, focando, brevemente, a forma e o conteúdo.

Sobre a revista especial sobre a edição 2000 gostaria de saber por que iluminada cabeça passou fazê-la com aquele formato. Por ser um marco, era uma coisa interessante de se guardar. Mas como? Onde se arruma uma coisa assim, daquele tamanho disparatado, e fininha? Não teria sido preferível fazê-la em tamanho standard, talvez com formato de livro, que se pudesse arrumar numa estante?

Depois, a primeira página. Uma profusão de coisas, muito ruído, palavras às cores, de vários tamanhos. A metade de cima, então, é uma confusão.

Edição 2.000 do Expresso: primeira página

Para a 1ª página foi puxado um tema que me incomoda e que, por uma questão de princípio, não leio: segredos roubados. Não leio, tal como não leio escutas. O que sei foi o que ouvi pelas televisões antes de fazer zapping: opiniões e informações que, uma vez divulgadas, se transformam em intriguices, coscuvilhices.

Não me interessa o que funcionários americanos dizem. Cada um terá as suas motivações e tirar as coisas do contexto é um perigo. Não me agrada.

Depois, várias páginas estavam escritas para serem lidas em 3D mas esqueceram-se de nos oferecer os óculos. Mal se lia. O que aconteceu? E logo na edição 2.000?!

Edição 2.000 do Expresso: página interior, desfocada e com aspecto desarrumado


E do caderno principal, agora que o não tenho aqui ao pé de mim, de pouco mais me lembro e mesmo o artigo de Miguel Sousa Tavares me pareceu requentado.

Mas retive que várias páginas estavam uma confusão desagradável, em que até o lettering mudava e, noutras, a organização era tal que até dava a ideia de que o espaçamento das margens era variável.


Do caderno de Economia, ressalvo que João Duque não saíu - o que parece confirmar que a onda levou essencialmente quem escrevia com o coração à esquerda.
Sobre o concurso de ideias que tem o Expresso como sponsor e, portanto, amplamente divulgado, reinventar Portugal, ideias novas, projectos interessantes, a ideia parece louvável - e presumo que tenham acautelado a questão da propriedade intelectual. Mas vamos ver no que dá.

A revista versou uma ideia interessante, qualquer coisa como Jacques Atalli há tempos escreveu: uma antevisão do futuro. Mas algo pobrezinha do ponto de vista gráfico. Não vamos reter porque o tom geral e o aspecto resultou vulgar, sem sal.

E agora a Actual.  Deprimente. Parece que, ao contrário do concurso patrocinado pelo próprio jornal, aqui não se quer nada com novas ideias, quem com a reinvenção de uma vida nova. Não, aqui parece que se combinaram todos para construir um cenário macabro.

Pedro Mexia deu ao seu espaço o estimulante nome de Fraco Consolo, vejam bem. Alimenta com desvelo o seu  próprio pessimismo.

Na sua primeira crónica, bem escrita, escreve sobre Karl Kraus, sem dúvida um sujeito interessante, mas consegue chegar ao fim deste que é o seu texto de estreia, referindo um aforismo que exprime o pouco que a vida vale a trabalheira que dá, participando-nos que essa seria a sua escolha para o próprio epitáfio. Nem dá para acreditar. Até irrita. Começar uma vida nova (afinal começou a escrever num jornal que é de referência em Portugal) a desmerecer a benção que a vida é e a pensar na própria morte... Isto faz algum sentido?! Seja do ponto de vista emocional, filosófico, seja do que for.

Depois, um longo artigo sobre 'Fotografia e o Mal' de Paulo Nazolino, um talentoso fotógrafo, isso não está em discussão, mas, sendo uma pessoa mortificada, as fotografias que constam da exposição e do artigo, são sombrias, e mostram moribundos, mortos e cadáveres mumificados. Mais tétrico era impossível. Estimulante também...

Como se não bastasse, outra das novas estrelas contratadas, Manuel S. Fonseca, começa a crónica dizendo ‘quem me dera que Michelle Pfeiffer estivesse morta’ e ao longo de todo o texto, fazendo a elegia dos actores mortos, fundamenta circunstaciadamente porque deseja que Michelle morra o mais depressa possível. Assustador. Claro que percebo a mórbida ideia dele (quer recordá-la sempre bela) mas, que diabo, que se feche ele numa casa sem televisão nem jornais. Aliás, perigoso como parece ser, melhor que nem saia à rua.

Podia falar de outros, como do jovem Henrique Raposo promovido também a super-estrela que relata também qualquer coisa como afastamento da realidade e suicídio - mas já não tenho paciência.

O que se passou?

Foi apenas uma coisinha má que lhes deu a todos? (Por acaso logo na edição 2.000)... mas vai passar-lhes? Ou vão ficar nisto?

É que eu não tenho paciência para bisbilhotices, desolações, auto-flagelações, cenas sinistras, macabras...

Nem tenho também muita paciência para incompetências como as relatadas acima (páginas inteiras desfocadas, etc).