domingo, janeiro 26, 2014

A palavra aos Leitores de Um Jeito Manso: um desabafo que contém um vídeo de Medina Carreira que, na linha da sua habitual filosofia de cassandra, arrasa o Cartão de Cidadão, o Magalhães, e tudo o que mexia no tempo de Sócrates


E agora, depois dos dois posts que poderão ver mais abaixo, um sobre o charme suave de Julie quase a chegar ao Palácio e outro sobre um dos horrendos temas que a realidade vem pondo a nu, o das praxes que mais parecem exercícios de tortura, cedo o espaço aos Leitores. 

Num comentário mais abaixo, o Leitor 'Cavaco Cavaquices' deixou o que a seguir transcrevo. Tem razão o Leitor. Há velhos do Restelo, cassandras profissionais, cuja única actividade parece ser destruir tudo o que se faça mesmo quando se estão a dar passos disruptivos no sentido da simplificação da máquina de Estado e/ou do desenvolvimento. Medina Carreira, tal como tantos outros, tinha um ódio visceral a Sócrates e, revelando uma notória falta de inteligência, apoiou a sua substituição por essa sinistra criatura que dá pelo nome de Passos Coelho que, em menos de 3 anos já destruíu parte significativa do que vinha sendo construído ao longo de anos.

(Que o terreno esteja aberto para que alguns palermas de serviço até já defendam o recuo nos anos de escolaridade, demonstra bem o ponto a que o retrocesso está a chegar).

Mas agora calo-me eu e passo a palavra ao Leitor.

(...)

Deixo (...) um video do Medina Carreira do tempo da outra senhora. Não é muito picante, é certo, mas é bom recordar o que diziam estes comentadores que tudo sabem, mas que quando lá estiveram, nada fizeram.





Ele é o Magalhães, ele é o cartão do cidadão, ele é o simplex, ele é tudo o que pode significar um empurrãozinho ao desenvolvimento cultural e social do país e um desemperrar da burocratização da Administração! Viva o bota-abaixismo! A autora do blog não imagina (ou talvez imagine e tenha conhecimento de causa, não sei) as pragas que me rogariam na FDL por utilizar esta expressão, verdadeiro grito de guerra contra o inconformismo, perante o o qual os portugueses preferiram tapar os ouvidos.

Pergunto à autora do blog: acha que se viesse o rei salomão dizer que nos vinha governar, nós não dávamos cabo dele, como quem dá cabo de um Sócrates cheio de ideias - que ofensa à moral neo-liberal anti-progressista - a Guterres bem intencionado, mas demasiado bonzinho - ele está bem a cuidar dos refugiados - a um Santana Lopes amalucado, mas que ainda assim, não tem comparação com a perfeita nulidade do Passos Coelho?


Resposta da Autora do Blog: 

Talvez déssemos cabo do Rei Salomão, sim. As televisões e os jornais contratam os mesmos de sempre, um grupo que papagueia teorias velhas e relhas, roga pragas, faz e de desfaz reputações. E a opinião pública, os que votam, forma-se muito em volta do que a comunicação social difunde. Um karma. Parece que a populaça só se compraz quando se vê governada por gente que está ao nível dos habitantes da Casa dos Segredos.

Sai Valérie. Deve estar para entrar Julie. Provavelmente até que uma mais jovem e mais gira entre em cena. Hollande é um garanhão (na sua vida pessoal). Pena é que, como político e estadista, não passe de um frangote. [Post actualizado com uma surpreendente fotografia]


No post abaixo estive a falar de um assunto que me deixa muito preocupada. Quanto mais sei, mais apreensiva fico. Parece um pesadelo. 

Preciso de me descontrair, aquilo deixa-me nervosa.

*




Falemos então de um garanhão por quem todas as beldades que dele se acercam rasgam as vestes. Nunca se quis casar, não gosta de se sentir preso, atrai as mais belas mulheres, deixa-as loucas, e parece insaciável.

Pequenino, fisicamente sem nada de especial, tem um je ne sais quoi que as deixa de cabeça perdida.


Consta que gosta de contar anedotas, que tem uma para cada ocasião - e é capaz de ser isso, sempre ouvi dizer que o humor é um infalível afrodisíaco.

A verdade é que os factos falam por si: François Hollande vai trocando as companheiras por outras mais novas e mais bonitas, portando-se como um adolescente apaixonado.

Depois de todo o escândalo das escapadinhas estampado nas capas de jornais e revistas, a bela e tempestuosa Valérie - furiosa por toda a França ficar a saber que afinal havia outra e que ela, de Primeira-Dama, tinha passado a Primeira-Cornuda - num ataque de fúria, partiu literalmente a louça e destruíu a mobília no Palácio Presidencial. 



(Como Hollande é um afortunado e um bailarino, conseguiu escapar ileso - e não apareceu com uma ferida na testa para toda a gente se ficar a rir ainda mais).


Depois a quase-ex-Primeira-Dama (que pouco tempo antes tinha contribuido para que Ségolène tivesse ido de vela) foi mediaticamente internada para recuperar de um fanico severo, e agora, end of story, foi oficialmente posta fora de cena.

Ou seja, Hollande comunicou aquilo que toda a gente esperava: Dou assim a saber que pus fim à vida comum que partilhava com Valérie Trierweiler. O garanhão soma e segue.





A rainha morreu. Viva a rainha!



Aquele Eliseu é palco de todas as histórias, intrigas, loucuras, traições, arrebatamentos. Resta agora saber quando Julie vai tomar posse.

Depois de Carla Bruni, com Valérie de permeio, o Eliseu voltará a testemunhar a glória do glamour e do sex-appeal com a tentadora Julie Gayet a circular no palácio. 


A imprensa rejubila, as revistas cor de rosa sentem a caixa registadora a tilintar.

Enquanto isto, a França e toda a Europa tentam digerir a guinada à direita do pequeno Hollande.

O touro, fora dos braços das beldades, não passa afinal de pobre frangote.

Temos pena - e desta vez temos mesmo pena. A sério. (Refiro-me, claro, à questão política porque a questão amorosa é lá com eles).


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Sobre as praxes e, em especial, se quiserem ver o vídeo com uma boa reportagem sobre o assunto, desçam, por favor, até ao post seguinte.

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Hoje tinha tantas coisas para falar mas andei no folguedo até às tantas, cheguei a casa tarde, depois pus-me a ver as maravilhosas séries 'O Fim de uma Época' e 'Downton Abbey' e ainda a ver se conseguia espreitar o Expresso e agora já passa das 3 da manhã e já não consigo escrever mais nada (...nem comentar e agradecer os comentários...)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo. 

Quem conhecia a selvajaria, a estupidez, a aberração, o despropósito, a bestial violência das praxes académicas (da Lusófona e de todas as outras universidades) porque se calou? Porque as tolerou? Porque as sancionou? - Depois de ter visto a reportagem da RTP e de ver o vídeo que aqui mostro, da TVI, confesso que estou muito chocada. Que jovens são estes? O que têm na cabeça, senhores?!


Fotografia obtida AQUI,
junto a um texto bastante interessante.
Apesar de tudo
há jovens que revelam ter dois dedos de testa
Já no outro dia aqui falei. 

Com a morte horrível de seis estudantes no Meco, que ainda não se sabe como aconteceu (pelo que não é sobre caso em particular que aqui falo), começou a vir à superfície uma realidade brutal, selvagem, jovens a humilharem jovens, comportamentos de seitas, hierarquias, controlo de uns por outros, castigos. Uma realidade que destrói a ideia que gostamos de formar sobre os jovens. 


Pensamos que neles reside o futuro, que quererão mais liberdade, mais justiça, mais generosidade. Pensamos que lutarão pela melhoria das condições de vida de todos, que prezarão os afectos, o respeito, a dignidade.

E depois somos confrontados com o horror de os ver a torturarem outros, a infligirem sofrimento, medo, e o que se vê ali é desumanidade, é desprezo pela condição humana dos outros. E é uma linguagem ordinária, rasteira, indecente, alarvemente homofóbica. Uma vergonha. De jovens assim pode vir a nascer uma sociedade mais livre, mais feliz?

Os jovens que organizam estas praxes hediondas e os que não as denunciam na polícia envergonham a sociedade (e envergonham a família e, certamente, envergonhar-se-ão a si próprios mais tarde se um dia crescerem e se tornarem adultos decentes).

Para os que não viram, aqui deixo o link para uma reportagem muito elucidativa. É da TVI e é divulgada pelo Público.

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Nota: Sobre este assunto de que já tinha falado antes (conforme link acima), volto a falar aqui.


sábado, janeiro 25, 2014

Cenas





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Batalhar, eu batalho. Mas não ganho nada com isso, senhor doutor.
- Ó menina, mas está a tratar-me por senhor doutor porquê?
Não sei, parece que me dá mais jeito falar consigo se o tratar por doutor.
- Hom’essa. Não sei porquê.
Porque se você for doutor, fica obrigado ao segredo e assim eu posso falar mais à vontade.
- Essa é boa. Vá lá que não lhe dá para me tratar por senhor padre.
Padre não, que o senhor não tem cara de santo.
- Ai e os padres são santos? Ai são, são.
Pois, bem sei que não, mas com padres eu não me entendo. E, com os meus males, não é um padre que me vai valer.
- Ai não? Não são males da alma, então?
Se calhar até são, senhor doutor. Até porque dizem que estas coisas são cosas mentales.
- Cosas mentales?! Isso que língua é que é?
Sei lá. Italiano, para aí. Ou espanhol. Ou latim. O que é que isso interessa?
- Pois, nada. Continue lá, então.
Continuar, eu continuava. Mas não sei bem como. Não me dá jeito. 
 - Não lhe dá jeito? Mas isso é coisa que precise de jeito?
Não será jeito. À vontade. Falta-me à vontade.
  - Mas é assim uma coisa tão estranha?
Estranha se calhar não é. Eu é que não estou habituada a falar nisto. Faltam-me as palavras.
- Não seria então de procurar um filologista?
Mas eu, ao dirigir-me a si como senhor doutor, não disse que era médico, até pode ser um doutor em filologia.
- Ah, bom. Temos pois um problema de língua.
Bem, na língua propriamente dita também não será.
- Na faringe, então?
O senhor doutor está a querer levar a conversa para a malandrice?
- Ó menina, que ideia. Claro que não.
É que isto é um caso sério. Não se ria.
- Pronto. Já estou sério. Quase a chorar. 
Não está. Está a gozar. Olhe lá para fora para eu não me atrapalhar.
- Faço melhor. Vou-me embora.
Não!
- Não?
Não, quero-o aqui, senhor doutor. Preciso que trate de mim.
- Hom’essa. Mas então o que quer que eu faça?
Querer, querer eu não sei bem.
- Mau. Olhe. Daqui a nada puxo-lhe a saia para cima e dou-lhe umas palmadas nesse rabo a ver se atina.
Atinar eu até queria.
- Então vamos lá.
Mas será que resulta, doutor?
- Resultar eu não sei se resulta.
Mas então o que fazemos, senhor doutor, se não sabe?
- Olhe, mal não faz. Vamos experimentar.
Bom, doutor, se é só para experimentar, eu experimento.



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A música lá em cima é Ne Me Quitte Pas - Maria Gadu

As fotografias mostram:

  •  Scarlett Johansson por Paolo Roversi para a Vogue Italia Otubro 2013 
  • e John  Malkovich (fotógrafo não identificado) 


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Caso queiram saber da minha soirée e do belo filme que fui ver, desçam por favor mais um pouco.

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E são duas e tal da manhã, estou mesmo a precisar de dormir, e daqui a nada quero ir fazer a minha caminhada antes de começar o programa de fim de semana pelo que, pedindo mil desculpas, não vou poder responder aos comentários que, não obstante, aqui agradeço.


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um fim de semana muito agradável.

A Golpada Americana (American Hustle no original), definitivamente a não perder. Jennifer Lawrence, Amy Adams, Christian Bale, Bradley Cooper, Jeremy Renner e Robert De Niro - num cinema perto de si.


Passa da 1 da manhã e só agora estou a ligar o computador porque só há pouco cheguei a casa. Não costumo andar a dar conta de todos os meus passos mas hoje vou contar. Passo por cima do belo jantar e vou direita ao cinema.


Uma sala enorme completamente cheia. E um filme daqueles que enche as medidas (pelo menos a pessoas de gostos simples como eu). Grandes interpretações, uma tramóia ágil, um ritmo focado na atenção do espectador, humor, charme, a simpatia pelos bons malandros, a grande malandragem, a inesperada golpada final, a sedução, o amor, os equívocos, tudo. Mas, sobretudo, as interpretações.

Leio no DN que 'American Hustle', realizado por David O. Russel, foi eleito pelo Círculo de Críticos de Cinema de Nova Iorque como o melhor filme deste ano.



O filme ganhou mais dois prémios: de melhor argumento, assinado por David O. Russel e Eric Singer, e de melhor atriz secundária, Jennifer Lawrence.

E leio na wikipedia que o filme recebeu elogios da crítica quase universal e, entre outros, foi nomeado para sete Globos de Ouro, vencendo 3 prémios. Além disso, foi indicado a 10 Oscares , incluindo "Melhor Filme", "Melhor Director" e as quatro categorias relacionadas a actuação: "Melhor Actor" (Bale), "Melhor Atriz (Adams), "Melhor Ator Secundário" (Cooper) e "Melhor Atriz Secundário" (Lawrence).


Let's look at the trailer




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sexta-feira, janeiro 24, 2014

As fantasias sexuais de uma mulher casada


Esta gente cansa-me. Exaspera-me. Repugna-me. Se não vão rapidamente para longe da minha vista terei que equacionar seriamente devotar-me à reclusão. Não consigo ouvi-los. Juro: repugna-me ouvir tanta patranha, assistir a tanta manipulação.

Penso que nisto reside a grande diferença entre a esquerda e a direita. As pessoas de esquerda ou centro-esquerda ou adeptas da social-democracia decente tendem a ser intelectualmente honestas, a ter um mínimo de decoro, se são nabas são-no com alguma ingenuidade, se são aproveitadoras, são canhestra e quase inocentemente aproveitadoras; mas, de forma geral, é gente bem intencionada, é gente minimamente normal. Agora esta gente de direita é ignorante, intelectualmente desonesta, perigosos, aldrabões sem um mínimo de ética, sem moral, é gente que quer voltar aos primórdios da espécie, são absurdos de tão estúpidos mas, como não são bem gente, são perigosos.

No post abaixo já me enervei só de escrever aquilo que não me canso de desmascarar: o logro com que esta gentalha quer lavar o cérebro à população depois de a roubar. E não falei de outra coisa que me revolve as entranhas: a preguiça dos jornalistas que se limitam a papaguear os press realeases que as agências de comunicação do governo despejam para as redacção. Céus. Que indigência. 

Mas, enfim, das patranhas oficiais falo no post abaixo. Noutro, mais abaixo, falo de Teresa Leal Coelho de quem disse cobras e lagartos e depois fiz o mea culpa e depois li uma coisa que me deixou sem saber o que dizer. E, não sabendo, não digo mais nada. 

Agora aqui, cansada que estou de tanto lixo, parto para outra.


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Querem que vos conte uma história para ver se nos distraímos? Está bem, eu conto.

*


Fernanda, em família chamada de Fernandita ou, mais intimamente, Dita, estava em casa, maçada. As notícias entediavam-na. Desligou televisão, rádio, computador, tudo. Já chega. O tempo cinzento, a vida cinzenta, sem frisson, a casa a precisar de reforma mas onde o ânimo para o fazer? e o dinheiro com mais urgentes destinos, só agora é que o marido começou a ganhar bem e ela, professora, a torto e a direito roubada pelo chefe do marido. E as longas tardes silenciosas, o tempo parado. Um vazio, um desespero. 

O marido é uma seca, bonitão mas apenas um naco de carne sem nervo, e carne sem nervo é seca, sem graça. Em tempo a coisa foi bem diferente. Fogoso, danado para a brincadeira, uma farra permanente. Agora não, agora é estar na sala, são tardes infindáveis a ver televisão, matinées com os pais, uns horrorosos que o tratam como se ele fosse um menino.

Dita olha pela janela. Tanta vida dentro dela e ausência de tudo à sua volta. Ah, que pouca sorte. A filha ainda é uma miúda, não poderá por enquanto compreendê-la. Talvez mais tarde.

Dita sente-se sozinha. Frustrada. Tantos sonhos, tanta vontade de ser feliz, de sentir prazer, de se sentir mulher.

E tantas ideias que ela tem na cabeça. Ah, pudesse ela e tanto que se divertiria. Fecha os olhos. Homens nus. 

Homens nus, corpos nus, pele contra pele, uma dança dos sentidos, uma febre. Muitos. Homens nus, afagos, a respiração forte, sussurros, palavras de desejo segredadas.

Dita senta-se na cama. Sabe-se bela, imagina-se desejável, uma lingerie de fazer perder a cabeça, soutien balcony, corpete de tipo espartilho, cinto de ligas, meias de costura. Ah, como que ela faria perder a cabeça a um homem a sério.

A um não. A dois.

Os dois sentados em frente a ela. Vendados. Sentidos apurados. Sem a verem, apenas a imaginarem. E ela a vê-los impacientes, a quererem aproximar-se, animais com cio, eles. E ela.

E ela a despir-se, alça a alça, a saia, as meias. As meias não. Só no fim. Descarada, indecente. O roçar da roupa para que eles ouçam a pele contra a seda, a seda, a sede.

Aproximam-se. Dita deixa que se aproximem.

Para estar certa de que o que está a fazer é mais do que legítimo pensa nos sogros, ah gentinha mais horrorosa, no marido a ver televisão, a rir-se, nem a vê, o estúpido, a filha coitadinha não conta para aqui, e a roupa para engomar, e a comida para fazer, e depois os dois à mesa e o marido sempre calado, não tem conversa, não tem graça, não a faz rir, um palerma, um assessor de um ministro de passos coelho (pode lá haver coisa pior?). Vai trai-lo e vai traí-lo sem sentimentos de culpa, porque haveria de ter?, já o devia ter feito era há mais tempo, vai traí-lo e vai vai fazê-lo em grande estilo.

E, portanto, deixa que os dois homens se aproximem.

Tão macia que é a sua pele, tão a precisar de carícias, de beijos, de mãos carentes.

Que venham, que façam o que quiserem. Quem é ela para os impedir? Beijam-na, tocam-na, apalpam-na com amabilidade. E ela corresponde, abandona-se.

Fecha os olhos. Sonha.

Os corpos nus de há pouco, os que se tocam com vagar e graça, doidos de sensualidade, agitam-se agora, querem mais, não querem ficar apenas dentro da sua cabeça.


Sente que está a ser penetrada, e deixa, e gosta. Uma ménage a trois bem sucedida, uma farra.

Os homens nus saem da sua cabeça e rodeiam-na, juntam-se aos outros dois. Perdida por cem, perdida por mil.

Aparecem vestidos, estão na sua cama, uma dança de desejo e sexo, um festim sem fronteiras.

Ela bela e desejável, desejada, apetecida, desfrutável, oferecida. Sem pudor, sem remorso.

Depois, mais tarde, ocultará a tarde de sexo louco e sentar-se-á à mesa com o marido, imóvel como sempre. Ele calado, ar convencido, senhor de si, a tola arrogância dos ignorantes.

Dita sabe que, quando se sentiu penetrada, foi apenas um moscardo que o marido, esse ser ignorante, matará com indiferença. Deixá-lo.

Outras tardes virão.

Agora sabe que trair é fácil e o parvalhão do marido estava mesmo a pedi-las.

E homens há muitos.


*

E agora, depois da história, o filme dos acontecimentos.




Monarchy - Disintegration por Dita Von Teese, a magnífica rainha do burlesco



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E depois deste inocente conto inventado à pressão para ver se me alieno da treta passista, resta-me aconselhar que, caso desçam até aos posts seguintes, voltem de novo a este para que não fiquem com saber a coelho na boca.

Com tanto que escrevo, deixo que o tempo corra e, quando dou por mim, já não falta muito para estar a pé de novo e começar mais uma jornada de trabalho na vida real. Por isso, peço de novo desculpa mas já não consigo responder aos vossos comentários, estou perdida, perdida de sono (o costume, aliás, vocês já sabem do que a casa gasta).



«««««»»»»»


E, assim sendo, desejando-vos, meus Caros Leitores, um belo dia, despeço-me por agora.


quinta-feira, janeiro 23, 2014

A falta de vergonha




Para conseguirem sacar o dinheiro para pagar aos credores internacionais e pagar juros agiotas, têm andado a:

  • roubar a população em geral (exceptuam-se os happy few que, no meio do descalabro, têm visto a sua fortuna aumentar), 
  • têm andado e a destruir a economia e 
  • a atirar para o desemprego centenas de milhares de pessoas, alguns para sempre,
  • a expulsar os mais válidos, empobrecendo intelectualmente o País e a desgraçar ainda mais a demografia
  • a causar desumana inquietação em novos e velhos, 

e, pelo meio, não resolveram nenhum problema estrutural (as gorduras aumentaram - a começar nos parasitas que pululam pelos gabinetes ministeriais!)

e, ainda por cima,
  • aumentaram desastrosamente a dívida e
  • não conseguiram baixar o défice para os níveis que teoricamente estiveram na base de toda esta purga

e, agora, fruto do roubo persistente e desumano que têm levado a cabo, têm - como eu ontem previ - a lata, a falta de vergonha, a desonestidade intelectual de andar a cantar vitória, dizendo que ficaram abaixo do défice contratado (contratado quando!? Há uns meses, certo? Depois de verem que não conseguem cumprir os anteriormente estabelecidos, vão sucessivamente revendo objectivos).


Gente sem escrúpulos, sem um mínimo de decência.

Defendo eu com isto que se tivesse tido mais défice?

Não. Defendo que se tivesse parado com a sangrenta purga que está a ser levada a cabo no País e que não dá resultados nenhuns, muito pelo contrário (para além de levar o dinheiro roubado para fora do País, para os ditos 'credores', para os agiotas que andam a sacar daqui juros que não encontram em quase nenhum outro lugar).


Além do mais há que perceber que as contas estão beneficiadas por receitas extraordinárias como uma decorrente da ANA e outra do perdão fiscal, verbas que, no seu conjunto, correspondem, mais coisa menos coisa, à melhoria propalada.

Mas sobretudo, isto resulta do roubo que foi perpetrado sobre a população. 

Se eu assaltar a vossa casa, meus Caros Leitores, e vos limpar as gavetas e todo o dinheiro que por lá encontrar, de certeza que vou ficar com as minhas finanças em melhor estado do que estava antes de vos assaltar. 

E o que diriam vocês, meus Caros, se, sabendo que eu vos tinha roubado, viesse depois, descaradamente, gabar-me de estar mais rica?

Pois.

Mas podem estar descansados, se alguém vos roubou não fui eu. Nunca o faria. Não sou uma pulha sem vergonha.


*

No post abaixo poderão ver o mea culpa acerca da atitude de Teresa leal Coelho neste processo do referendo da coadopção. No entanto, depois e o ter escrito, dei com um texto que me deixou de cara ao lado. Olhem, já nem sei o que diga. 


Teresa Leal Coelho demitiu-se de vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, saíu do hemiciclo e faltou à votação sobre o referendo relativo à coadopção - e portanto, neste ponto, tenho que a elogiar e aqui estou a reparar um erro que involuntariamente cometi.


No outro dia manifestei aqui a minha profunda indignação pela falta de respeito que os deputados do PSD e do CDS tinham mostrado pela Casa onde exercem as suas funções, pelos eleitores que os elegeram e, sobretudo, pela sua consciência.

Dizia eu que tão miserável era o acto de engendrar a esperteza saloia de travar a lei através de um acto oportunista, insensível e descabido, como era miserável os que, não concordando, votaram favoravelmente ou abstiveram-se, tentando depois limpar a sua imagem através de pífias e, de facto, inúteis declarações de voto.

Erradamente incluí nesse grupo Teresa Leal Coelho pois, das notícias, tinha percebido que se tinha demitido depois de ter votado favoravelmente.

Ouvi hoje que não foi assim.

Deixo aqui o link para a entrevista que Teresa Leal Coelho concedeu a Paulo Magalhães na TVI 24 onde explicou que foi ao contrário (demitiu-se primeiro e ausentou-se da sala para não votar) e, portanto, honra lhe seja feita, portou-se bem e dignificou a sua função. Claro que teria sido preferível que tivesse levado mais longe a afirmação da sua vontade, votando contra, mas, enfim, compreendo que isso, nas actuais circunstâncias, seria um gesto corajoso (e coragem é algo que anda arredado dos actuais agentes políticos)


Tenho-a criticado muitas vezes e mantenho todas as críticas que lhe tenho feito - mas retiro completamente as que lhe dirigi neste caso e que resultaram do erro que involuntariamente cometi. Ou seja, peço desculpa pelas críticas indevidas.

Agiu bem e está a agir bem ao manter as suas críticas em público como foi o caso da entrevista acima referida. Assim passe a agir daqui para a frente. 


A estupidez das praxes académicas violentas, humilhantes, arriscadas; a estupidez dos veteranos que as impõem aos caloiros; a estupidez dos caloiros que se sujeitam: a estupidez das escolas que as permitem; a estupidez da sociedade que as toleram. Isto a propósito do drama do Meco que vitimou seis elementos do Conselho Oficial da Praxe Académica da Lusófona e do qual o respectivo Dux saíu fisicamente ileso (mas, com certeza, psicologicamente marcado para o resto da vida). E nem quero pensar na dor das famílias. Tudo muito horroroso.


  • No post já aqui abaixo poderão ler um artigo brilhante escrito por uma mulher, Concha Caballera, um artigo que parece premonitório e que, lendo-o, percebemos como tem sido fácil a um punhado de humanóides (como lhes chama Hélia Correia), auxiliados por um bando de homens de mão, destruir uma construção laboriosamente concebida e alimentada ao longo de 30 anos. Não deixem de o ler, é o que vos peço.
  • Depois desse, tenho ainda um texto em que mostro como não é feito nenhum o défice de 2013 ficar abaixo de 5.5%. Todos os crimes que têm estado a ser cometidos contra nós eram em nome de um défice de 3% (e mostro-vos qual era o primeiro objectivo do acordo com a Troika). Será que não vai sendo tempo de nos rirmos na cara destes embusteiros? De os impedirmos de nos continuarem a intrujar?

Mas isso é depois deste texto aqui.

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Há assuntos sobre os quais falo com muitas reservas. Sempre que os assuntos envolvem mortes, doenças, sofrimento, em especial de jovens ou crianças, eu resguardo-me. No princípio do mês já toquei ao de leve nisto mas num acto de esforço imenso. Há uma dor que merece respeito e em que qualquer palavra em vão pode ser sal em cima de uma ferida aberta. Depois são momentos, acho eu, em que o silêncio é essencial. E eu temo não encontrar as palavras certas para revestir de silêncio aquilo que penso.

Na véspera de Natal, estávamos a jantar quando, sendo assunto recente, o drama do Meco veio à baila.

Um dos presentes disse: coisas de praxes, ritos iniciáticos, porcarias dessas, e correu mal. Na altura não se falava nisso e, achei que sendo estudantes, e indo calmos conforme os viram, ou seja, não aos tombos de alguma bebedeira maluca, não fazia sentido irem para a beira de água numa de praxes e só sete, as praxes costumam envolver mais gente e exposição pública, não uma coisa no Meco com aquelas ondas enormes, um sítio em que a areia afunda junto à linha de rebentação e, ainda por cima, perto da uma da manhã.

Achei mais que tivesse sido coisa de jovens que gostam de conversar até tarde, depois ir passear pela praia, peace and love, sem se darem conta do mau tempo e dos avisos, aquela coisa de são jovens, não pensam, qualquer coisa do género. Mas ele persistiu, Podem crer, foi isso, não são inéditos esses ritos iniciáticos a meio da noite na praia e as praxes têm porcarias dessas.

Achei aquilo tão improvável que pensei que ele estava a ficcionar e continuei na minha, a achar que tinha sido um acidente em que não havia ninguém a culpar e em que o sobrevivente, para sua infelicidade, iria carregar toda a vida a memória da noite horrível em que tinha perdido seis amigos.

Mas eis que aos poucos as notícias vão deixando saber pormenores: que sim, que era um fim de semana em que a comissão de praxes ia organizar as praxes para o próximo ano, que o sobrevivente era o chamado Dux (e eu nunca tinha ouvido a expressão, não fazia ideia de que toda uma estranha organização rodeia essa estupidez das praxes) e, que quando os familiares chegaram a casa que os jovens tinham alugado, já estava tudo arrumado e as coisas de cada um estavam guardadas nos respectivos sacos que tinham o nome de cada um, que os jovens todos - excepto o sobrevivente - tinham deixado o telemóvel em casa como se tivessem a intenção de ir à água, que uns dias depois alguém ligou para a senhora que se ocupa da limpeza da casa a perguntar por uma colher de pau em tamanho gigante que tinha ficado esquecida atrás da porta e com a qual tinham sido vistos a dançar no dia do acidente – pormenores que não parecem fazer grande sentido.

Ouvi agora que o assunto passou a estar em segredo de justiça e vai ser investigado pela Judiciária.

E depois, claro, com a imprensa toda em cima do assunto, já é difícil saber o que é mesmo verdade ou um diz-que-diz-que, mas leio que haverá um pacto de silêncio entre os estudantes porque há mesmo qualquer coisa de ritualizado e há também uma hierarquia nisto das praxes e eu fico perplexa, perturbada. Tantos mundos paralelos e estranhos que eu desconheço. 

Todos os anos me cruzo amiúde por altura do início do ano lectivo com grupos de estudantes, elas com as caras pintadas, penteados divertidos, eles também pintalgados, todos sorridentes e bem dispostos, em grupos ruidosos. Andam pelas ruas, invadem os centros comerciais.

É coisa que no meu tempo não havia e, se houvesse, teria sido coisa à qual me teria furtado. Tudo o que sejam estes movimentos de grupo, de comportamentos homogéneos e expectáveis, uma coisa de tipo rebanho, me causa repulsa. Já o disse aqui mil vezes: sinto-me intrinsecamente livre pelo que nunca fui e acho que nunca serei  filiada em coisa nenhuma, nem participo em cenas em que tenha que alinhar ordeiramente com outras pessoas (missas, comícios, jantares de curso, etc).

Por isso, voltando ao tema, não me imaginaria nunca a participar em peripécias nem como praxada nem como praxadora. Por natureza, isso causa-me um incómodo visceral e, por princípio, outro tanto incómodo me causa.





Felizmente, quando chegou a vez dos meus filhos, ela viu-se envolvida numa coisa como a que descrevi e lembro-me que apareceu em casa toda animada com totós, rosetas coradas, sardenta, toda ela relatando cenas engraçadas. E acho que tinham andado a passear assim e, do que me lembro, umas brincadeiras quaisquer num jardim e pouco mais. Sempre gostou de festas e divertimentos com amigos pelo que encarei como uma coisa natural. Do meu filho não tenho ideia de nada disso, é rapaz para se ter posto completamente à margem. E nenhum deles teve essa treta do traje académico até porque, felizmente, nenhum deles é dado a fardamentos (ele, então,  nem na escola infantil aceitou vestir bibe, tamanha era a rejeição que tiveram que abrir uma excepção para ele).

No entanto, se com os meus se passou o que vos contei, para minha estranheza, é cada vez mais frequente encontrar jovens de capa e batina ao longo de todo o ano por todo o lado, ou seja, já não é coisa que se circunscreva ao início do ano lectivo. 

Não é também raro, desde há alguns anos, ouvir-se falar de excessos absurdos ligados a praxes. Sabe-se, de vez em quando, de praxes que envolvem humilhações, maus tratos. Quando isso se sabe, alguém manda instaurar um processo e a coisa fica por aí.

O que intriga nisto é o que será que vai na cabeça destes jovens que aceitam ser humilhados e fisicamente mal tratados? E que estupidez e deformação mental é a dos jovens que se armam em chefes dessas tretas e, de forma organizada, se sentem com poder para poder sacrificar outros?

E, sendo isso assim mesmo, não deveriam os órgãos directivos das escolas onde isso se passa proibir e punir os jovens envolvidos em práticas que vão para além do mero divertimento?

É que uma coisa é organizar brincadeiras, festas, convívios, onde os mais jovens sejam integrados numa nova comunidade e outra, muito diferente, é, de forma pensada e, até, ensaiada, conceberem práticas arriscadas, punitivas, que envolvem dor, medo, vergonha por parte dos que deveriam ser integrados em festa?

Devo dizer que a actual mentalidade de parte dos jovens é algo que escapa à minha compreensão.

Conheço muitos que nem se recensearam pois acham que a política, em geral, é uma porcaria com a qual não querem ter nada a ver. Não querem mudar o que acham ser o status quo: querem, simplesmente, permanecer fora dele.

Como referi num dia em que estava no Porto, no fim de Outubro, em dia de manifestação, o passeio junto e em frente e a entrada do Coliseu estavam apinhados com jovens de capa e batina e, na manifestação, praticamente nenhum jovem (e seguramente nenhum de capa e batina). Não querem saber.

De forma geral, são desinteressados em relação ao que se passa, acham que é sempre mais do mesmo, jogadas espúrias, coisas a que se sentem alheios. Preocupam-se com arranjar trabalho, sabem que grande parte dos amigos e colegas foram para fora ou estão a pensar ir, sabem que os que cá estão ou não têm trabalho ou têm trabalho precário, mal pago, e que outros andam sempre ganzados ou cocaínados. E gostam sobretudo de conviver, de estar uns com os outros, conversar, estarem juntos. E isto é do que eu ouço à minha volta. E depois há os que andam pelos bares e discotecas até caírem para o lado. E já para não falar num outro vasto grupo que são os intelectualmente indigentes, que não estudam nem nunca estudaram, que não sabem nada de nada, que mal sabem falar e em que a maior ambição que têm é fazer presenças ou participar nas casas dos segredos.

Francamente, o que eu às vezes também sinto é que é melhor nem pensar nisto para não ficar ainda mais preocupada. É que não sei qual o futuro de um país em que o panorama com a juventude é o que descrevi e em que o governo faz de tudo para incentivar ainda mais estas práticas e estas mentalidades.

Que intervenção cívica ou que atitude crítica é de esperar de jovens que humilham outros ou que, passivamente, se deixam seviciar, que desconhecem o que se passa na sociedade, que se encontram totalmente alheados da política, que não lêem, que não se interessam por outra coisa que não a sua própria vida ou, na melhor das hipóteses, o convívio com amigos?

Raios partam isto. Como foi que deixámos que isto chegasse a este ponto?


NB: Para ler mais sobre este assunto e ver um vídeo sobre o assunto, por favor clique aqui.
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A primeira e a última fotografia provêm daqui. Em relação às outras não descobri a proveniência.

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Relembro: a seguir há mais dois posts, o primeiro com um texto fantástico de Concha Caballero que acho que não devem perder e, mais abaixo, um que mostra mais um dos embustes em curso. Somos dóceis e fáceis de enganar é o que é.

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Já estou com muito sono, mal me aguento. Não vou reler o que escrevi pelo que vos peço que me perdoem se o texto estiver cheio de gralhas.


Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira!


O DIA EM QUE ACABOU A CRISE por Concha Caballero - um outro grande artigo que merece uma leitura atenta e cujo subtítulo é "Quando terminar a recessão teremos perdido 30 anos de direitos e salários". Ah pois é...!


No post abaixo alerto para as encenações levadas a cabo por gente sem escrúpulos que é acobertada por uma comunicação social sempre pronta a papaguear o que lhes é dito para dizerem e por uma oposição dormente, sem acção. Em causa o défice de 2013. Mostro o que estava escrito no Memorando da Troika para se perceber como para aqui andamos a ser usados e abusados por gente que não nos respeita como pessoas pelo que, naturalmente, muito menos respeita a nossa inteligência.

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, transcrevo um artigo escrito no início de 2013 no El Pais Andalucia e que pode também ser visto no blogue da própria Concha Caballero. 

É um artigo extraordinário. Ajusta-se como uma luva de pelica à realidade portuguesa tal como, certamente se ajustará à grega, à irlandesa, à italiana. Há um padrão. A receita é a mesma, os beneficiados os mesmos, as vítimas também as mesmas. Este embuste de que somos vítimas percorreu como uma epidemia os países mais frágeis, com regimes políticos mais permissivos.

Transcrevo a tradução do referido artigo que um Leitor, a quem muito agradeço, me enviou. Trata-se de um texto não inédito na blogosfera mas, pela sua pertinência e pela justeza da sua análise, é com todo o gosto que aqui o publico.




O DIA EM QUE ACABOU A CRISE


Quando terminar a recessão teremos perdido 30 anos de direitos e salários



Um dia no ano 2014 vamos acordar e vão anunciar-nos que a crise terminou. Correrão rios de tinta escrita com as nossas dores, celebrarão o fim do pesadelo, vão fazer-nos crer que o perigo passou embora nos advirtam que continua a haver sintomas de debilidade e que é necessário ser muito prudente para evitar recaídas. Conseguirão que respiremos aliviados, que celebremos o acontecimento, que dispamos a atitude critica contra os poderes e prometerão que, pouco a pouco, a tranquilidade voltará à nossas vidas.

Um dia no ano 2014, a crise terminará oficialmente e ficaremos com cara de tolos agradecidos, darão por boas as politicas de ajuste e voltarão a dar corda ao carrocel da economia. Obviamente a crise ecológica, a crise da distribuição desigual, a crise da impossibilidade de crescimento infinito permanecerá intacta mas essa ameaça nunca foi publicada nem difundida e os que de verdade dominam o mundo terão posto um ponto final a esta crise fraudulenta (metade realidade, metade ficção), cuja origem é difícil de decifrar mas cujos objectivos foram claros e contundentes: fazer-nos retroceder 30 anos em direitos e em salários.

Um dia no ano 2014, quando os salários tiverem descido a níveis terceiro-mundistas; quando o trabalho for tão barato que deixe de ser o factor determinante do produto; quando tiverem feito ajoelhar todas as profissões para que os seus saberes caibam numa folha de pagamento miserável; quando tiverem amestrado a juventude na arte de trabalhar quase de graça; quando dispuserem de uma reserva de uns milhões de pessoas desempregadas dispostas a ser polivalentes, descartáveis e maleáveis para fugir ao inferno do desespero, então a crise terá terminado.

Um dia do ano 2014, quando os alunos chegarem às aulas e se tenha conseguido expulsar do sistema educativo 30% dos estudantes sem deixar rastro visível da façanha; quando a saúde se compre e não se ofereça; quando o estado da nossa saúde se pareça com o da nossa conta bancária; quando nos cobrarem por cada serviço, por cada direito, por cada benefício; quando as pensões forem tardias e raquíticas; quando nos convençam que necessitamos de seguros privados para garantir as nossas vidas, então terá acabado a crise.

Um dia do ano 2014, quando tiverem conseguido nivelar por baixo todos e toda a estrutura social (excepto a cúpula posta cuidadosamente a salvo em cada sector), pisemos os charcos da escassez ou sintamos o respirar do medo nas nossas costas; quando nos tivermos cansado de nos confrontarmos uns aos outros e se tenham destruído todas as pontes de solidariedade, então anunciarão que a crise terminou.

Nunca em tão pouco tempo se conseguiu tanto. Somente cinco anos bastaram para reduzir a cinzas direitos que demoraram séculos a ser conquistados e a estenderem-se. Uma devastação tão brutal da paisagem social só se tinha conseguido na Europa através da guerra.

Ainda que, pensando bem, também neste caso foi o inimigo que ditou as regras, a duração dos combates, a estratégia a seguir e as condições do armistício.

Por isso, não só me preocupa quando sairemos da crise, mas como sairemos dela. O seu grande triunfo será não só fazer-nos mais pobres e desiguais, mas também mais cobardes e resignados já que sem estes últimos ingredientes o terreno que tão facilmente ganharam entraria novamente em disputa.

Neste momento puseram o relógio da história a andar para trás e ganharam 30 anos para os seus interesses. Agora faltam os últimos retoques ao novo marco social: Um pouco mais de privatizações por aqui, um pouco menos de gasto público por ali e voilà”: a sua obra estará concluída.

Quando o calendário marque um qualquer dia do ano 2014, mas as nossas vidas tiverem retrocedido até finais dos anos setenta, decretarão o fim da crise e escutaremos na rádio as condições da nossa rendição.




* * *

  • A primeira fotografia é a que Concha Caballero escolheu para acompanhar este texto no seu blogue, e é uma fotografia de um editorial Givenchy. 
As outras três escolhi-as eu.
  • A segunda é um editorial para a Louis Vuitton
  • A terceira é para a Givenchy e é dos fotógrafos Keith Au And Desmond Cheung
  • A última é da autoria da dupla de fotógrafos Mert and Marcus para o perfume Dahlia Noir


***

Sobre uma das várias formas como o embuste vai tendo lugar, desçam por favor até ao post abaixo. Em Portugal, como em Espanha e em todos os países em que a devastação está a ter lugar, as mentiras são muitas e permanentes. Mostro o primeiro ponto do Memorando assinado com a Troika para que se veja em nome de quê tudo isto tem estado a acontecer - e como esse objectivo falhou. Esse e todos os outros. E falharam esses objectivos porque esses eram a capa, o engodo para que caíssemos no embuste, não os verdadeiros objectivos. 


quarta-feira, janeiro 22, 2014

Quanto foi o défice em 2013? Se foi superior a 3%, então todo o empobrecimento a que temos sido sujeitos e todas as afrontas que temos sofrido, terão sido em vão. Confiram, por favor, qual o objectivo Nº1 do memorando de Entendimento assinado com a Troika.


Ouvi uns zunzuns de que há por aí uns palermas (daqueles que gostam de tomar os outros por parvos) a prepararem-se para cantar de galo com uma grande vitória, um valor para o défice de 2013 que é melhor do que estava previsto, qualquer coisa à volta de 5 ou abaixo de 5.5%, nem sei bem.

Pois bem, para os esquecidos, repesco o primeiro objectivo estabelecido no Acordo com a Troika. 

Tudo isto se destinava a equilibrar as contas públicas, de modo a que se chegasse a 3% em 2013.


Para tanto, o Governo teria que fazer resmas de coisas tendo o cuidado de o fazer minimizando o  impacto da  consolidação orçamental nos grupos  vulneráveis. 

Quase a terminar o prazo de intervenção, onde estamos?

As principais medidas não foram tomadas
(reformar o Estado e acabar com disparidades e ineficiências, etc, etc), 
outras foram feitas para além da dose
(sempre que foi para carregar em cima dos indefesos, esbulhar os trabalhadores, fustigar os reformados e pensionistas), 
os devedores externos já vieram cá 'sacar' e com altos juros quase toda a dívida
(e daí os ratings estarem a melhorar pois, para esses credores, já quase não há risco em Portugal). 


Grande parte da dívida que, entretanto, subiu e bem
(porque o défice se manteve alto, porque foram tantos os desequilíbrios gerados com as políticas criminosas, porque tão elevados foram os juros), 
foi tomada por entidades nacionais
(de modo que, se isto der para o outro, já não são os bancos e fundos estrangeiros que se 'lixam' mas sim os credores nacionais, nomeadamente aforradores, fundos de pensões, etc).


E portanto 

- com a dívida maior do que antes deste pesadelo começar (e classificada como lixo), com mais centenas de milhares de desempregados do que antes, com a saúde pública quase em ruptura, o ensino, os professores, a ciência e a investigação a serem acossados como se de inimigos se tratassem, com a grande maioria da população mais pobre, com os reformados, pensionistas, viúvos a serem tratados como objectos descartáveis, com cerca de duas centenas de milhares de pessoas já fora do país, entre elas os jovens mais qualificados - 

o que temos é um défice não de 3% mas a um nível que demonstra o falhanço e o logro de tudo isto.


Uma farsa tudo isto. Uma farsa ignóbil.


Transcrevo o princípio do memorando assinado em 2011 com a troika:


1. Política Orçamental

Objectivos: 


Reduzir o défice das Administrações Públicas para menos de 10.068 milhões de euros (equivalente a 5,9% o PIB baseado nas projecções actuais) em 2011, para 7.645 milhões de euros (4,5% do PIB) em 2012  e para 5.224 milhões de  euros (3,0% do PIB)  em 2013, através de medidas estruturais de elevada qualidade e minimizando o  impacto da  consolidação orçamental nos grupos  vulneráveis; trazer  o rácio dívida  pública/PIB  para  uma trajectória descendente  a  partir  de  2013; manter  a consolidação orçamental a médio prazo até se obter uma posição de equilíbrio orçamental, nomeadamente através da contenção do crescimento da despesa; apoiar a competitividade através de um ajustamento da estrutura de impostos que seja neutral do ponto de vista orçamental. 

*

O que me admira é porque é que a Oposição, nomeadamente o Toto-zé (=Tó-zero), não esfregam isto na cara da pinókia, do vice-irrevogável e do láparo mentiroso. Isto deveria estar estampado em todos os cartazes, em todas as paredes, por todo o lado.


(PS: jrd, gostei desta do láparo, vou passar a usá-la de vez em quando).

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A imagem do porco da troika provém do blogue We Have Kaos in the Garden. As outras foram obtidas na net sem que eu tivesse conseguido perceber qual a sua proveniência original

"Com respeito às palavras" de Hélia Correia no Público: um grande, grande, grande artigo! Grande, belo, acutilante, lúcido - o que quiserem. É imperdível, digo-vos eu.


No post a seguir falo sobre a sexualidade de um certo deputado do PSD e, mais abaixo, mostro o resultado da minha ida aos saldos. Conversetas. Coisas menores. Ligeirezas.

Mas agora, aqui, é coisa bem diferente. A vossa atenção, por favor.

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Silêncio por favor que é tempo de um certo Redondo Vocábulo





Agora abro alas para falar de um texto do mais maravilhoso que há. Gostava de o transcrever todo. Gostava de o saber de cor. Gostava de o ter escrito. Gostava que toda a gente o lesse. Gostava que toda a gente gostasse tanto da Hélia Correia como eu gosto. Gostava que Portugal inteiro a pusesse num pedestal e a ouvisse e que as suas palavras ecoassem por essa Europa fora.

Como é que esta mulher que parece viver entre fadas e duendes, acariciando gatos e outros seres misteriosos, aparentemente perdida entre sótãos, florestas, poesias, ficções e devaneios de toda a ordem tem depois esta lucidez tão vibrante, esta precisão de atiradora profissional? Pasmo. Sempre pasmei. Mas hoje mais do que nunca.

Peço-vos, mas peço-vos encarecidamente que, no fim, abram o link para o artigo completo e, palavra a palavra, tomem o texto de Hélia Correia nas vossas mãos, pensem nele, levantem-se com as palavras dela como bandeira.


Transcrevo um pouco, apenas um pouco (destaques meus). E vou ilustrar com os graffitis de outro grande, Banksy, ao som de um outro espírito brilhante, José Afonso.



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No rigor do latim, “indignado” é o que é tornado indigno. E eis, porém, que a palavra não se aceita a ela própria, empreende uma singular rebelião. Nega a humilhação que cai sobre ela. Vejam o quanto esta palavra é poderosa. Como deitou ao chão a sua origem. Como tomou nas mãos a sua vida


I

Não tenho competência para escrever sobre os eventos da realidade. Começa a falha pelo léxico: nem sei se o termo “evento” pode usar-se aqui. Não aprendi o bom vocabulário. E quanto à organização para o discurso, saber onde ele começa e como acaba, mais o que pelo meio se vai pondo, tão pouco faço a mais pequena ideia. 

(...)

Parece, às vezes, que o cenário da ficção científica assentou no planeta actual: que criaturas mais ou menos humanóides nos conquistaram pelo interior e desapoderaram-nos de tudo, esperança, dignidade e alegria. Vimos tanto clamor nas praças gregas, cólera e fogo com nenhuma consequência. É como se entre os protestantes e o poder não houvesse trajecto, não houvesse natureza contínua. Duvido até que conseguissem procriar se a carne de uns e de outros se encontrasse. Respiram ares diferentes e não faz sentido algum que certa retórica da esquerda os desafie a que experimentem a pobreza, a que tentem viver com o salário que destinaram para os indefesos. Provavelmente viveriam bem porque não se alimentam como nós. Nem dormem como nós. Talvez nem morram. A verdade é que pouco pensamento nós conseguimos produzir sobre eles. A desumanidade é um mistério.

II


Por que aceitamos que se fale, por exemplo, nas “gorduras do Estado”? O Estado não tem metabolismo. Tem excesso de despesas, muitas delas em mordomias e em disparates.Um Estado não “emagrece”: corta nos gastos, e a escolha para os cortes tem critérios, e os critérios não se aplicam ao acaso. Aquilo que se chama ideologia, a moldura mental com que um comum destino se interpreta e planeia, decide a escolha. E escolhe-se cortar naquilo que é empecilho ao projecto, no que se quer extinguir ou, pelo menos, fazer partir para onde não se torne visível. Com a metáfora sobre o corpo obeso dá-se a volta ao assunto, transformando-o em algo humanizado e censurável. Fica fora do alcance da razão — nos labirintos do imaginário, naquilo que culturalmente assimilámos a ponto de esquecer — a simpatia pela causa. Dentro de nós, a ideia do descuido, da glutonice, da preguiça, enfim, do Sul, facilmente coabita com a ideia de punição e de dieta rigorosa. Tomar medidas para emagrecer é justo e bom. Se implica sacrifícios, são sacrifícios de ginásio, desses que conferem certa estética ao suor. Só um bulímico se recusa a entender e a estimar um regime que assegura saúde e elegância a quem o siga. Alcança longe, a manha da metáfora. 

(...)

Se hoje as pessoas continuam a marchar é porque, à força de repetição, os sapatos estão enfeitiçados. Não é de dança, mas de espasmo, o movimento. O grito que invectiva já não faz estremecer o seu destinatário. O seu destinatário olha para “aquilo”, chama-lhe “aquilo”, e vai à sua vida. Mostra um grande talento para apoucar. Nós que talento revelamos? O da fé? O da brava teimosia? Repetimos os nossos argumentos… “até à náusea”: assim acaba a frase que herdámos da retórica latina. Não é possível refazer a língua? É, sim.

III
(...)

Por que usam a palavra “austeridade”? Porque há nela uma certa ressonância de coisa justa, de atitude respeitável. Alexandre Herculano foi austero. Sóbrio, frugal, um tanto seco na expressão, honesto, incorruptível — isso mesmo. A austeridade é um estádio a que se chega num percurso moral muito esforçado. É um modo de vida, uma atitude pela qual alguém opta, numa escolha inteiramente pessoal, quando recusa render-se ao luxuoso e ao supérfluo. Classificar alguém de “austero” significa que lhe atribuímos qualidades pouco usuais no cidadão vulgar. Ouvimos a palavra e logo o nosso dicionário subconsciente nos assinala que é para respeitar, acatar e temer. Se há uma “austeridade” que castiga é porque andámos na dissipação. Pressupõe-se que nós baixemos a cabeça sob o pecado que a palavra implica. 

Na verdade, não há “austeridade” aqui. Há alguém empurrado para a miséria. É um processo involuntário, imposto por uma força superior, neste sentido de que não pode desobedecer-se. E imposto, no sentido, também, da inocência. Estamos a pagar o quê, porquê? Em que momento é que prevaricámos? Foi a comprar mais um televisor, foi a escolhermos uma sala com lareira? Nós aprendemos, no devido tempo, que não podemos alegar ignorância da lei se a violámos, mas havia uma lei contra o conforto? Havia alguma lei que proibisse os filhos de viverem como tinham vivido os patrões dos seus pais? Devo dizer aqui que o consumismo me desperta uma viva repugnância, que admiro e sigo, porque quero, a vida “austera”. Mas, porque eu ando de transportes públicos, entenderei que a compra de um automóvel deve entregar o cidadão ao agiota? Estou a falar de pequeninas coisas, de minúsculas coisas que não chegam para lançar uma pessoa no inferno. O grande gasto, o gasto vil, onde se oculta? 

Não, não nos pedem a “austeridade”. Eles exigem a pobreza e as suas consequências. Não, não fizemos mal. O que fizemos foi por fraqueza de desprevenidos ante a perversidade dos banqueiros. Não nos aliciavam com empréstimos? A bruxa má não estava a oferecer maçãs? Ficaremos agora deitados no caixão, narcolépticos, à espera de algum príncipe? 


Vamos de história em história, adormentados.

Uma palavra envenenada estraga o mundo. Basta atentarmos em “democracia”, palavra vinda de tão longe, trabalhada, moldada, experimentada tanta vez. Parece ter sofrido uma anquilose, uma patologia da velhice que a transformou numa entidade rígida. E o conceito que lhe corresponde imobiliza, prende, como num propósito de teia. Diz-se: o eleitor votou em liberdade. E essa liberdade manietou-o. Mais não pode fazer do que esperar pelo próximo processo eleitoral. E censuramos os abstinentes que nos respondem que “não vale a pena” — quando os factos lhes dão toda a razão. Porque a democracia está disforme, ainda que insistamos em louvá-la.

Se olharmos sem a ilusão veremos quão irreconhecível se tornou. Veremos como finda o seu processo ali onde devia ter início. Melhor dizendo: finda o que, em rigor, é perene. A palavra “escrutínio” significa, para nós, simplesmente, a contagem dos votos. Mas escrutínio não é apenas isso: é vigilância. É observação continuada, é um exame de comportamentos. Por alguma razão os ingleses, experientes neste assunto, ainda aplicam a expressão under scrutiny aos governantes. O sustentáculo da democracia está na possibilidade e na probabilidade de cada cidadão vir a ser eleito e, uma vez eleito, prestar contas. Essa é a superioridade da República e a sua beleza. O voto é só um expediente técnico que o espaçamento temporal vicia. 

Como se leva isso à prática não sei. Mas sei como se leva ao pensamento. E sei que o pensamento é o que faz levantar a cabeça. Estamos num tempo novo, rodeados por luz e escuridão para as quais não temos nem mapa nem farol. Temos modelos tão inspiradores como remotos. Certo é que a palavra é a obra do humano e a palavra não cessa de existir. Com palavras se fazem os fascismos, e Magnas Cartas e as Constituições. Cultivá-las, estudá-las, não nos salva talvez. Mas dignifica-nos. E se podemos aprender algo com o passado, antes de o perdermos completamente de vista, é que a dignidade se conquista e que a indignação a isso ajuda.


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Relembro: não deixem, por favor, de ler o texto na sua versão integral.

Relembro também:  se quiserem saber das minhas compras nos saldos ou se aquele tal deputado do PSD é gay, então vão de encontro ao meu lado 'pipoca mais doce' e desçam, por favor, até aos dois posts seguintes.

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E, assim sendo, por agora fico-me por aqui. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira.
E que as sábias e belas palavras de Hélia Correia vos acompanhem.