Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca
Mostrar mensagens com a etiqueta Rubens. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rubens. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, novembro 04, 2019

Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade
que nunca me soubeste?




Não há mulheres, no plural. Há uma e outra e outra e outra. Todas diferentes. Nada que as iguale. Nada.

Posso falar do que conheço de outras mulheres mas não falo por elas. Cada uma tem a sua própria voz.
Conheço-as submissas. Conheço-as desconfiadas. Conheço-as abnegadas. Conheço-as lutadoras. Conheço-as sofredoras. Conheço-as arrogantes. Conheço-as inseguras. Conheço-as ingratas. Conheço-as com os pés e as mãos na terra. Conheço-as com a cabeça na lua. Conheço-as destroçadas. Conheço-as frágeis. Conheço-as guerreiras.  
Conheço tantas mulheres. 
Posso falar delas. Mas, se não falo de alguma em particular, se falo de mulheres, falo da que desconheço melhor: de mim.

Que as mulheres que me lêem não sintam estranheza por não se reconhecerem porque, se falo de mulheres, em abstracto, é de mim que falo, uso a minha própria voz que é a única que, em toda a verdade, sou capaz de usar.


Dos homens não sei. Há homens que eu acho que não têm qualquer interesse. E, no entanto, há sempre alguém que se interessa por eles. Por isso, sobre homens, também apenas posso falar por mim. E, se falar do que como um homem deve ser para ser interessante, é em mim que penso, no que a mim me parece interessante num homem. Mas também não sei dizer muito porque, se falasse,  estaria a falar de um ser abstracto e, a mim, o que me interessa são os homens concretos, de carne e osso, de verdade. 

Portanto, se eu me pusesse aqui a falar de homens, sobre homens em abstracto, tudo não passaria de teoria, conversa vaga, coisa de nulo interesse. Não o farei.

E um disclaimer que, se calhar, nem vem a propósito: há homens e mulheres que podem ser muito próximos, muito amigos. A grande amizade entre um homem e uma mulher é possível. Os meus melhores amigos sempre foram homens. Mas o mais interessante, o mais raro, o que dá sentido e fulgor à vida, o que cintila no escuro e no coração é a paixão. E, a seguir à paixão, um grande amor, um grande amor entre um homem e uma mulher. 

E, claro, estou a falar da condição que é a minha, a heterossexual. Mas talvez tudo possa extrapolado.


Contudo, justamente, porque quero ser precisa, não posso dizer muita coisa. Não saberia o que dizer.

Sei que teria ainda muito para descobrir sobre mim mas não tenho interesse nisso. Gosto de ser surpreendida e isso aplica-se também a mim. E gosto de ser desafiada pois isso leva-me a aventurar-me por caminhos que desconheço e, mais do que conhecer-me a mim, interessa-me conhecer os caminhos por onde a minha curiosidade me pode ainda levar.

E, tirando isso, nada. Não sei o que dizer.

Dou, pois, a palavra a outras mulheres. Este é um post sobre o que pensam as mulheres. Sobre o que sentem as mulheres. Melhor: sobre o que pensam as mulheres quando pensam em homens. Em certos homens. Naqueles que trazem sal, pimenta e beleza à vida, naqueles que fazem com que tudo cintile.



Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma actriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se me dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperar que ganhem indecisão. E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.


Mas se o corpo é escrita no leito do papel
onde a mão o deita, desnuda e o invade
lhe acaricia os ombros e em seguida

o possui de bruços e mesmo assim não sabe
saciar o corpo no corpo do delírio
com a avidez de uma emoção rapace

Réstia de sol na sombra do calor
fuso do corpo
tecendo o seu orgasmo
....



Penso em ti com apreensivo carinho. Realmente, entre a dor e o sonho, até quando conseguirei manter esta obsessão prática, este quase incesto? O verdadeiro amor é um acto indisponível.



Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.


___________________________________________________


Primeiro poema - de Adélia Prado in 'Bagagem'

Segundo poema - excerto de 'O esplendor do Corpo' de Maria Teresa Horta in 'Eu sou a minha poesia'

Tisana 285 - de Ana Hatherley in '351 tisanas'

Último poema e poema do título - de Hilda Hilst in 'De amor tenho vivido'

Pinturas respectivamente de Frank Dicksee, Solomon Joseph Solomon, Picasso, Solomon Joseph Solomon, Red Cloth, John William Waterhouse, Rubens e Charles Joseph Frederic

Tudo na companhia de Melody Gardot com Our love is easy 

____________________________________________________________

E uma semana feliz a todos, a começar já por esta segunda-feira

segunda-feira, julho 17, 2017

A homossexualidade é uma anomalia?
"Anomalia: O que se desvia da norma, da generalidade." (Priberam)
Portanto, sim, a homossexualidade é uma anomalia.


Da mesma forma que considero que aceitar um convite por parte do patrocinador de um espectáculo está longe, longíssimo, de ser corrupção, sendo antes um acto mais do que normal (leia-se: "Normal: Usual" in Priberam) e que um sponsor oferecer bilhetes para o espectáculo que patrocinou é o b-a-ba do marketing e da comunicação no mundo das empresas -- e não haveria prisões à superfície da terra que chegassem se oferecer ou aceitar bilhetes fosse corrupção ("Corrupção: Comportamento desonesto, fraudulento ou ilegal que implica a troca de dinheiro, valores ou serviços em proveito próprio" in Priberam) -- também me incomoda o coro de virgens ofendidas que saltou para a praça pública exigindo a decapitação do velho médico que se pronunciou a propósito da homossexualidade como sendo uma anomalia.




A maioria da população é heterossexual e felizmente que o é, a bem da propagação da espécie. Claro que a ciência, entretanto, já arranjou maneira de ultrapassar a necessidade da cópula como acto essencial para a fecundação. Mas a espécie não teria chegado até aqui se cada humano, desde a sua origem, fosse avesso ao sexo oposto.

Ora sendo a maioria hetero, por definição, os homo são uma minoria e, portanto, fora da norma.

Não quero com isto dizer que são uma aberração ou candidatos à proscrição -- apenas que não são conformes à maioria. 

Portanto, fazer um caso de histeria por uma pessoa dizer verdades de La Palice parece-me um absurdo.


O que já me parece preocupante é quando Gentil Martins diz que não aceita promover uma pessoa por ser homossexual. Isso aí já me parece grave. Uma orientação sexual não define aptidões para o trabalho e, se ele seguiu essa regra, o que espero é que ele estivesse em minoria ou seja, que as suas opções, nos lugares onde trabalhou, não fossem as normais, isto é, não fossem seguidas pela maioria dos decisores.
No entanto, a posição de Gentil Martins já eu a encontrei em ambiente profissional e já aqui a referi. Uma pessoa com quem trabalhei, inteligente, liberal nos costumes e no pensamento, um dia disse que não queria um homossexual a trabalhar com ele. Chocada, manifestei o meu desagrado. Explicou-me que, em geral, os homossexuais dissimulam a sua orientação sexual e, tanto o fazem, que se tornam dissimulados. E mais: que sempre no receio de serem confrontados com algum facto comprometedor, costumam coleccionar factos que podem comprometer outros, apenas para um just in case. E que, portanto, não são, em regra, as pessoas despreocupadas, frontais e francas que ele prefere ter nas suas equipas.
E se isso foi há uns anos, ainda há dias, numa reunião em que participei, seríamos cerca de dez pessoas, antes da ordem dos trabalhos, naquele período em que nos cumprimentamos e uns contam larachas, dizem piadas, etc, assisti a uma galhofa que nem sei como começou sobre os que não saem do armário, e quando é que alguns que todos nós muito bem sabemos quem são saem do armário e etc, etc, -- tudo na parvoíce. E até admito que estavam a falar de um colega que, por acaso (e felizmente), não estava ali. Portanto, o preconceito ainda impera mesmo nos meios supostamente mais evoluídos. Imagine-se nos meios mais fechados.

Ou seja, apesar de Gentil Martins ter demonstrado ser conservador e retrógrado, não é diferente da grande maioria das pessoas e, naquilo da anomalia, não disse nada de mais.


Quanto ao que ele disse do Cristiano Ronaldo e à sua opção de recorrer a barrigas de aluguer para ter filhos também não fico chocada já que, como aqui já o referi, também eu acho isso uma opção estranhíssima, uma coisa contranatura. Dá ideia que se as crianças pudessem ser feitas numa impressora 3D era o que ele preferia. Mas é opção lá dele e só me pronuncio a esse propósito por, sendo ele um ídolo para a miudagem, recear o mau exemplo que, com isso, esteja a dar.


Contudo, nisto das afirmações de Gentil Martins, podendo concordar numas coisas, ficar indiferente ou discordar de outras, o meu estado emocional não se altera nem me passa pela cabeça fazer precipitados julgamentos de carácter ou exigir punição para Gentil Martins. O senhor disse o que pensava e era o que faltava se o não pudesse fazer.


O que se passa neste país é que, por cada pessoa que abre a boca para exprimir a sua opinião, parece haver sempre um coro de virgens, um duplo coro de viúvas perpétuas, um triplo coro de beatas e um quadrúplo coro de mariazinhas de ambos os sexos que, se pudessem, degolavam na hora aqueles que ousam abrir a boca e dizer coisas fora do politicamente correcto. 

E eu, que também me estou nas tintas para alinhar com a carneirada, que não gosto de falar em coro ou rezar por cartilha alheia, acho que este país precisa é de uma boa polémica, de opiniões fortes, de saudáveis discussões, de uma boa agitação das acomodadas consciências. Disso e de falar e/ou fazer amor em vez de não fazer outra coisa senão julgamentos e declarações de guerra a torto e a direito.



____________

terça-feira, novembro 22, 2016

Não recua nem cede
não aceita o interdito

ela fala daquilo
que não pode ser dito




Pensar em ti enlouquece-me. Talvez o teu olhar, talvez as tuas mãos. Mesmo que os não veja, mesmo que os não sinta. O teu olhar desnuda-me mesmo que não esteja pousado em mim. As tuas mãos, mesmo que ausentes, percorrem o meu corpo. As tuas palavras. O presságio que elas transportam.

Que coisa é esta que me tolda a razão, que eu não sei?

Quero-te, quero os teus olhos mergulhados nos meus, quero as tuas mãos deslizando sobre a minha pele. Quero-te tanto, tanto.

Onde estás agora que não te tenho aqui para me abraçares? Porque não atravessas o mundo inteiro para vires repousar o teu cansaço no meu regaço? Não saberás que te espero, que te espero ansiosamente? Vem.

Apenas a memória da música me traz o teu nome. Ou talvez a lua que agora já é só metade, já só meia luz, meia esperança.

Ouves o meu lamento? Ao menos ouves como chamo por ti?

- És o emissário 
dos astros
ou só o reflexo?

O corpo em contraluz
ou a imperfeição do excesso?

Tens asas
ou és o brilho
das estrelas no seu reverso?


Chamo as aias, os pequenos deuses, os anjos famintos - que segurem o espelho, que deixem que eu veja se aquele que o meu coração secretamente ama vai achar que as minhas carnes são à medida das suas mãos. Serão?

Peço-lhes que cubram a minha pele de óleos perfumados, e toda me entrego ao deleite das mãos que me cegam -- que mil mãos preencham cada recanto do meu corpo do mais perfumado óleo, que toda eu fique macia e tentadora, que a luz desenhe em mim a sombra do meu corpo que ondula.

Depois vejo o meu rosto no espelho.

Olhando-me, achará ele que sou a sua mulher? Quererá segurar o meu rosto entre as suas mãos, olhar os meus olhos e beijar a minha boca?

Olho-me no espelho que o anjo tentador segura. Depois fecho os olhos. Quero ver-me com os olhos daquele por quem o meu coração chama, não com os meus.

Mas não consigo.

Olho a ausência
da minha
imagem no espelho

no seu abismo perverso

O nada absoluto
onde a luz é o excesso.


Ah, a minha nudez. Quererá ele saber-me assim? Nua, sem defesas?

Cubro-me de mantos de veludo, que não me tome ele, o meu amor querido, por impúdica, eu que tanto gosto que me seduzam, que me conquistem, que sofram, que mostrem o sangue escorrendo do coração sedento, que esfreguem sal nas feridas, que caminhem sobre pedras.
Cubro-me, amor, cubro-me para que lutes por me descobrir. Para que me dispas, me descubras devagar ou me adivinhes com sofreguidão, para que faças de mim um segredo desvendado.
E entranço o cabelo e adorno-o com pérolas, ponho brincos, pulseiras, tudo para que percebas como te quero, amor, para que percebas como te desejo, tanto, tanto, amor, para que me olhes com olhos de guerreiro, doido por conquistar a sua secreta amante. Eu e tu unidos pelo mais íntimo prazer de dar prazer -- assim me quero, assim te quero. Amor. Amor meu.
Em surdina, as aias e os maliciosos pequenos anjos vozes segredam censuras no fundo do quarto:

Recato?

Dúvida
a apunhalar-lhe
o coração estilhaçado

Cimitarra e desacato


Pois que seja desacato, que seja, pois que me caiam as vestes e os mantos, que o meu corpo não se fez mesmo para silentes esperas e tímidas ocultações. Pois que me veja ele desnudada, livre, disponível, pois que rasgue as nuvens e suba dos mares ou desça dos montes, que rompa as portadas e me veja assim, toda eu desejo, desafio, desaforo. Pois que veja como o meu corpo se alonga para que melhor perceba que é por ele que o meu corpo espera e que não conheço medos, frios, ou tropeços. O meu peito arde e o meu ventre ainda mais e nele se esconde a rosa mais perversa. Não sei se é carmim e cheira a sangue e mel ou se é azul e inventada, a minha rosa secreta, nem sei se nas horas mais escuras da noite sou tigre, leoa, cavalo azul ou concha, novelo, ninho de amor. Nem sei se, nas horas mais negras da noite, digo palavras de paixão ou se o meu silêncio tem asas e as minhas pernas abraços. Não sei. Isso terá ele, o meu amor, que desvendar, beijo a beijo, palavra a palavra.
Isso terás tu, amor meu, que descobrir. 
Tantos riscos já corri, tantos, tantos, que já perdi todos os receios.
Voei à tua volta
tantas as luas

Dancei na via láctea
do desejo

Procurei em ti
as rosas rubras

Ignorei presságios
expiações

ameaças, abismos 
e anseios


O pequeno anjo ri, menino inocente e malicioso, e que me ria eu com ele, pede. Sorrio mas por breves instantes. E logo mergulho o meu rosto impaciente na lava negra que aguarda o fogo de dois corpos que tanto se querem.
Não lutes mais, peço-te. Nem tentes esquecer-me, nem tentes negar a tua paixão.  
Não tentes, não tentes. Amor, amor meu. Não tentes. Peço-te.
Anda, amor meu, vem acolher-te no meu corpo que tão ternamente te aguarda.
Não ouves como te chamo? Não ouves? Não...?


- Vem outra vez!

Chamo-te num grito
quando a saudade desata

e o corpo se precipita
até à fenda da farpa

onde apenas sei
do espírito
esse tudo e esse nada

_______________________________________________


Poemas de Anunciações de Maria Teresa Horta


Hope I don't fall in love with you, interpretado por Tom Waits

Vénus ao Espelho por Tintoretto, Rubens, Ticiano, Mestre da Escola Fontainebleau e Velázquez

_________________________________________________

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

______

sexta-feira, agosto 26, 2016

O Prof. Marcelo já se pronunciou sobre aquilo do burkíni? Alguém sabe?
É importante sabê-lo.
Não vá o Costa querer emparelhar-se com o Hollande, era bom sabermos antes o que acha o nosso omnipresente, omnisciente e omnipotente Marcelo sobre tão relevante assunto.


Pronto. Não falo mais de cenas que mostrem que estou deserta para ir e férias. Falo só de uma questão que tem a ver com aquilo de que agora se fala muito: o burquíni.




Confesso que me distraí. Devia ter começado a minha dieta há mais tempo. Assim, como foi só há dias e já houve uma festa de anos pelo meio, tenho cá para mim que a coisa ainda não surtiu grande efeito. Claro que podia pesar-me. Mas poupo-me a desgostos.

Almas caridosas instalaram-me no telemóvel uma app para registar as calorias do que como e uma comparação face ao que devia para atingir um determinado objectivo. Nunca me lembro de registar. Não sou uma boa pupila para o que quer que seja.

Mas, calma aí, ando com cuidado e acho que estou a conseguir reduzir as calorias que ingiro. Contudo, sou honesta: sei que o resultado não é nada de espectacular. Se perguntar ao meu marido se já estou escultural tenho a certeza que ele vai desatar a rir-se. Por isso, também não pergunto.

Uma coisa é certa: os tais 3 ou 4 quilos, tenho a certeza que ainda não perdi. As calças já as sinto mais folgadas mas, se me vejo ao espelho, ainda me acho a atirar para aquelas lá do Rubens.


Bem, também não. Fui confirmar e também não tanto. Naquela altura é que gordura era mesmo formosura.

Mas também hoje a Marilyn pareceria anafadinha e, na altura, ninguém olharia depreciativamente para as suas formas generosas.


Não interessa. É comigo mesma que me comparo. E não vou conseguir pôr-me como eu queria antes de ir de férias. E essa é que é essa e o resto é conversa.


Por isso, pensei que, para a praia, uma solução para ocultar a minha carnadura seria o burkíni. Eu, que sou do mais encalorado que há e que só me sinto bem à fresca, até estava numa de me sacrificar e apertar-me dentro de um modelito preto porque com um modelito preto eu nunca me comprometo.


Mas, depois de ouvir o Valls e o totó do Hollande e de ver polícias pela praia à cata de mulheres que não estejam descascadas, já vacilo. É certo que cá ainda não há cá disso, cá é mais à cata de facturas de bolas de berlim que eles andam. Mas sei lá.


Em França obrigam-nas mesmo a descascar-se, deixando à mostra pneus e papos - uma indecência...!

De qualquer maneira, era importante que a TVI se pusesse em campo e soubesse o que tem o nosso afectuoso presidente-comentador a dizer sobre o assunto. Ele que a toda a hora nos aparece casa adentro a falar de tudo, a opinar, a comentar, a abraçar-se e a beijar novas e velhas, casadas, solteiras, divorciadas e viúvas, enquanto manda recados, ralhetes, elogios e incentivos -- já deve ter trocado uns leros sobre o assunto com a sua Rita-Casa-não-Casa e eu cá, para me afoitar a ir de burkíni para a praia, sentir-me-ia mais confortável se soubesse que o nosso fresco e fofo Marcelo não é contra.


marcelo casa ou não casa com a namorada rita?
O nosso presidente e a sua eterna namorada, ambos em fato de banho numa praia portuguesa
(casalinho a quem os tablóides e revistas do coração não conseguem empurrar para o casório)
_____

E pronto. Não deixei transparecer que não penso noutra coisa senão em férias, pois não?

_____

E queiram, então, aller en promenade avec moi até Paris. 


sexta-feira, março 25, 2016

Leda
- e, com vossa licença, à laia de ovinhos da Páscoa, um link para a verdadeira história da Leda e do cisne e outro para uma derivação



Podem não acreditar mas cheguei a casa, depois de um dia tramado e, em especial, depois de uma tarde do mais arreliador que há, com aquela sensação que volta e meia tenho às sextas-feiras à noite, de só me apetecer desopilar. Terão percebido isso pelos posts que se seguem. 

Depois interrompi e preparei-me para começar um livro. O primeiro capítulo, 'A origem da obra de arte', começa assim:
'Origem' significa aqui aquilo a partir do qual e pelo qual algo é aquilo que é e como é. Àquilo que algo é, [sendo] como é, chamamos a sua essência. A origem de algo é a proveniência da sua essência.
Pensei: 'Mau'. De facto, para o meu gosto, a coisa não está a começar bem.


E lembrei-me de um colega que tive que punha toda a gente doida. Se uma pessoa simplesmente lhe pedia para mudar a posição da cadeira, era capaz de começar por nos pedir que definíssemos cadeira, depois que lhe explicássemos o objectivo da coisa e, a seguir, que lhe definíssemos prioridades. Preferíamos, claro, fazer nós a ter que o aturar com tanto preciosismo. Uma vez, estando o presidente da empresa a pedir-lhe que fizesse uma coisa qualquer, simples, o fulano virou-se para ele e disse que o pedido estava mal formulado e que o mal de tudo era não haver procedimentos actualizados e mais não sei o quê, deixando o presidente à beira de um ataque de nervos. Confessou-me ele, depois, que ficava nervoso de cada vez que falava com o tal pica-miolos, achava que o fulano era maluco e não estava certo de que não fosse dos perigosos. 

Adiante.

O facto é que, estando eu nestes pensamentos e a ganhar balanço para ultrapassar a minha resistência àquele tipo de proseado, tentando convencer-me de que, se conseguir superar a prova e ler ao menos o primeiro capítulo, me tornarei uma pessoa intelectualmente mais apta a enfrentar os desafios da vida, não é que me lembrei que, afinal, não apenas não era sexta-feira como, ainda por cima estamos em período pascal, período dado ao recolhimento e não à desbunda...?


À hora a que lerem isto já será efectivamente sexta-feira mas não é uma sexta-feira qualquer, é sexta-feira santa -- e, portanto, tenho que me esforçar por ter aqui alguma coisa mais apropriada.

Já pensei pôr aquele coro de que tanto gosto, dos crucificados dos Monty Phyton a cantarem o The Bright Side of Life, mas é muito déjà vu. Depois hesitei a propósito de um outro deles, uma caçada ao coelho, que isto da Páscoa puxa ao coelho. Mas, bolas, era um coelho maligno, assustador e, para isso, já temos a avantesma do post mais abaixo. Ocorreu-me, então, um número de burlesco a propósito de coelhinhos da páscoa. Mas, valham-me todas as santinhas, o que me apareceu foi de tal forma de bradar aos céus que, de imediato, bani a ideia.

Colocar imagens de Cristos mal encarados ou pensamentos profundos seria mais condicente com o momento mas, a sério, é coisa de que hoje não sou capaz. Já penei demais durante o dia para ter apetite para mais uma dose de sofrimento.


Por isso, fiquei aqui a patinar. E o que me ocorreu talvez o Freud ou alguma dessa rapaziada dada às correlações possa explicar. Eu não consigo. Presumo que, na realidade, não tenha mesmo nada a ver com nada. Lembrei-me, simplesmente, de um bailado em que Leda se soergue como se ressuscitasse, ou ela ou o cisne, tinha ideia de ter visto e ter achado que parecia que alguém se levantava da pedra, revivendo. Uma coisa nessa base. E encontrei o que procurava.

Numa coreografia de Kim Brandstrup, dançado por Zenaida Yanowsky e Tommy Franzen sobre o poema de Yeats lido por Fiona Shaw: Leda e o Cisne.

Só depois fui buscar imagens para 'enfeitar' o texto e que me perdoem os puristas pelas minhas heresias que eu própria reconheço que tempero fraca comida com raros condimentos. Mas se me apetece e não tenho aqui ninguém para mo proibir, porque não haveria de fazê-lo? 
Perdoem-me, pois, os que acham que intercalar pinturas destas com um texto tão desasado é de loucos. Receptiva à vossa sensibilidade, prometo voltar a fazê-lo.
Portanto, resumindo e concluindo, o bailado que aqui vos trago é muito bonito e gostava mesmo que vissem.

____

Quem queira ler a verdadeira história da Leda e do seu cisne de estimação, queira, por favor, clicar aqui.

Quem queira ver umas derivações da dita que, inclusivamente, metem galinhas chocas, cliquem, então, por favor, aqui.

E volto a penitenciar-me: os puristas que, por favor, não me fustiguem. E não é por nada, é só porque não vale a pena. Reincido sempre.
_______

E relembro: os posts que se seguem não têm nada a ver com o espírito da época. São até muito inapropriados. Por isso, alertados que estão, não venham depois queixar-se de que foram ao engano.


...

sábado, junho 20, 2015

Shakespeare para apaixonados


My love is a fever




Se não se lembra do menor sinal de loucura que cometeu por amor, não amou.

É melhor ser rei do seu silêncio do que escravo de suas palavras.

Guardar algo que me ajude a lembrar de si seria admitir que posso esquecê-lo.

Na amizade e no amor é-se mais feliz com a ignorância do que com o saber.




Tão impossível é avivar o lume com neve quanto apagar o fogo do amor com palavras.

Duvides de que as estrelas sejam fogo, duvides de que o Sol se mova, duvides de que a verdade seja mentira, mas não duvides jamais de que te amo.

Oh, amor poderoso, que às vezes faz da besta um homem, e outras, de um homem, uma besta!




Um homem que não se alimenta dos seus sonhos envelhece cedo.




Mostre-me um homem que não seja escravo das suas paixões.

É um amor bem pobre aquele que se pode medir.

Para celebrar os ritos amorosos, aos amantes basta a luz de sua própria beleza, e, como o amor é cego, o que lhes cai melhor é a noite.




O curso do amor verdadeiro nunca fluiu suavemente.

Quando não houver nada a perder, arrisque tudo.

Deixe-me confessar que somos dois, embora o nosso amor seja indivisível.




A ti vigio, enquanto ao longe despertas, tão distante de mim e de outros, tão perto.

Preciso saber de ti a cada dia e a cada hora!

Não me atrevo a oferecer o que desejo dar, tampouco a tomar o que me fará morrer, mas quanto mais procuro encobrir meu sentir, maior meu amor se mostra.



__

Shakespeare in love




William Shakespeare  (1564 - 1616)

- Biografia




Considerado maior escritor de língua inglesa e o mais influente dramaturgo da história, William Shakespeare nasceu em 23 de abril de 1564, na pequena cidade inglesa de Stratford-Avon. Terceiro filho de um rico comerciante, pouco se sabe de sua infância e juventude, mas especula-se que tenha frequentado a escola primária Rei Edward VI, na qual teria aprendido literatura e latim.
Em 1582, aos 18 anos, casou-se com Anne Hathaway. O casal teve uma filha, Susanna, e dois anos depois, os gêmeos Hamnet e Judith. Não se sabe ao certo quando Shakespeare começou a escrever, mas alusões contemporâneas e registros de performances mostram que várias de suas peças foram representadas em Londres a partir de 1952.
Suas obras conhecidas totalizam 38 peças, 154 sonetos, dois longos poemas narrativos, e uma centena de poemas curtos, embora biógrafos sugiram que o número exato ainda é desconhecido. É o autor mais traduzido da história e suas obras são encenadas mais do que as de qualquer outro dramaturgo. “Destacam-se pela grandeza poética da linguagem, pela profundidade filosófica e pela complexa caracterização dos personagens.” Muitos de seus textos e temas, especialmente os do teatro, permanecem vivos mais de quatro séculos depois, sendo revisitados com frequência pelo teatro, televisão, cinema e literatura. Entre suas obras mais conhecidas estão “Romeu e Julieta”, “Júlio César”, “Macbeth”, “Rei Lear”, “Otelo, o Mouro de Veneza”, “Sonho de uma Noite de Verão”, “A Megera Domada” e Hamlet, que possui uma das frases mais conhecidas da língua inglesa: To be or not to be: that’s the question (Ser ou não ser, eis a questão). Shakespeare morreu em Stratford em 23 de abril de 1616.
____

  • Para este post, escolhi alguns dos 72 compilados por Allan Percy no livro “Shakespeare Para Apaixonados” 
  • Lá em cima era "Sonnet 147 - My love is as a fever.." de William Shakespeare (lido por Tom O'Bedlam)
  • Nesse vídeo:
"The Infidelity Discovered ", Augustus Leopold Egg 1858
"Joseph and Potiphars Wife", Jean-Baptiste Nattier (1678-1726, French)
"The Sacrifice of Flowers", Mihály Munkácsy (1844 - 1900, Hungarian)
  • As pinturas que escolhi para acompanhar as palavras de Shakeaspeare são de Sir Peter Paul Rubens (1577 – 1640)
___

E, se permitem a sugestão, desçam, por favor, até ao novo diário de Rita Ferro

___

E, agora, por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado. 
O tempo está de ananases mas há muita água no mar para os pôr de molho.

...

domingo, dezembro 21, 2014

A beleza das curvas no feminino. 'Curves' por Victoria Janashvili: duas gordas, Denise Bidot e Marina Bulatkina, puseram-se nuas e uma fotógrafa captou a beleza e sensualidade delas. Chegou a hora das gordas saírem do armário?


A minha mãe contava que, uma vez, uma conhecida sua, falando de uma outra, lamentava que essa tal tivesse emagrecido pois, dizia, estava muito 'lisa' e 'uma barriguinha dá tanta graça'. A minha mãe achou piada a isso numa altura em que todas as mulheres lutam para se verem livres da incómoda 'barriguinha'. Barriga, pneu, bundona, coxa grossa, mamonas - tudo um desconforto quando a gente se quer enfiar dentro de calça justa, blusinha cintada ou camisa com alguma transparência.

Contudo, se pensarmos em Marilyn, essa mulher revestida a erotismo de alto quilate, vemos como tinha formas generosas, curvas acentuadas. E, se formos de marcha atrás por esses tempos fora, esse é o padrão de mulher apetecível. Por exemplo, se recuarmos umas centenas de anos, podemos ver as mulheres saudáveis de Rubens, bem nutridas, refegos lustrosos, faces coradas.

Outros tempos.

O meu marido diz que a moda das mulheres magérrimas - bem visíveis nos desfiles em que as modelos parecem anorécticas e em que só as muito altas e muito escanzeladas parecem ter roupa que lhes assente bem - acontece porque os estilistas e demais fauna que circula no mundo da moda são todos umas bichas. Claro que ele não dia bicha mas não reproduzo a palavra que ele usa não vá parecer que ele é homofóbico, e não é. Diz aquilo como uma constatação. Em tempos lidou profissionalmente com um colega que tinha trabalhado na gestão de empresas ligadas à moda e ele confirmava o que se sabe do que se vê, e contava episódios divertidos desses seus tempos. Mas, portanto, diz o meu marido que só tipos que não gostam de mulheres (no sentido em que homens heterossexuais gostam) é que não gostam de mulheres com curvas generosas e boa carnadura.

Contudo, felizmente, aos poucos vêm surgindo modelos L ou XL, aos poucos os fotógrafos começam a captar a sua graça e sensualidade e a carga cómica que as gordas transportavam começa a cair em desuso.

Desta fez foi a fotógrafa de moda Victoria Janashvili que, depois de anos a fotografar top models altas, esguias, sem ancas, sem peito, resolveu pôr de lado os actuais estereótipos de beleza feminina e fotografar mulheres normais, fortes, como, por exemplo, Denise Bidot e Marina Bulatkina, duas mulheres que são o oposto de tudo aquilo.

Para que a nudez não se tornasse demasiado explícita, as mulheres foram pinceladas a branco, aparecendo quase imaculadas na generosidade das suas formas.






Victoria ainda anda a tentar reunir fundos que lhe permitam lançar-se na produção do livro Curves mas, se tudo correr bem, o livro sairá em 2015 e será, certamente, um sucesso.


Curves - o making of pela fotógrafa Victoria Janashvili




___

Já agora, duas das gordas acima referidas e uma outra.


Venus ao espelho (1615) - Rubens


Marilyn Monroe (1926-1962)


Já para não falar nas famosas e simpáticas gordas do Botero (nascido em 1932)
...

E há as que brincam, riem de si próprias e se divertem à brava. Gordura é formosura e a leveza do corpo advém da leveza da mente, como abaixo se comprova.


Russian Dance troupe the Big Ballet



----

Termino com uma outra ilustre formosa, uma que resplandece segurança e graça na sua carne perfeita, toda ela sentimento e talento: 


Anna Netrebko: O mio babbino caro (Puccini - Gianni Schicchi )




____


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo
(e nada de virar a cara aos petiscos natalícios...).

...

segunda-feira, novembro 11, 2013

Avaliação a 360º e 'assessment' - o que somos com pormenor e (suposto) rigor. A nossa descrição sem apelo nem agravo. Nós ao espelho - e não é por narcisismo.


No post abaixo falo sobre as diferenças entre homens e mulheres face a situações difíceis ou arriscadas. Vou já adiantando: as mulheres são tendencialmente destemidas. Quanto aos homens... (é melhor descerem até lá para saberem o que acho)

Agora, aqui, falo de uma coisa que não tem nada a ver com isso: vermo-nos ao espelho não por narcisismo nem por vontade própria mas porque a isso não podemos fugir.



Vénus ao espelho -  Diego Velázquez (1599-1660)






Começou por vir a moda da gestão por objectivos e a respectiva avaliação. Pretendia analisar-se se os objectivos traçados a nível de gestão eram atingidos e, se o não estivessem a ser, queria saber-se o que se deveria corrigir ou, então, perceber se os objectivos ainda faziam sentido. Daí passou-se para a avaliação de desempenho das pessoas. Tenho que confessar que, embora ache que a gestão deve ser muito articulada e seguir uma estratégia, sou um bocado avessa a traçar, de forma burocrática, objectivos individuais e sinto-me sempre a fazer um jogo onde não encaixo bem, quer quando sou avaliada quer quando sou avaliadora. Faço a coisa um bocado a despachar e, felizmente, quem me avalia segue o mesmo são preceito.

Mas nisto a coisa está sempre em evolução e, infelizmente, nem sempre no bom sentido. 

Da avaliação de desempenho por parte das chefias, passou-se para a avaliação a 360º. Uma pessoa é avaliada pelos superiores hierárquicos, pelos colegas e pelos subordinados. Acho isto não apenas um pincel como um risco.


Um colega meu, este ano, recebeu uma avaliação miserável, uma coisa que o posicionou abaixo de cão, e toda a gente acha que aquilo foi vingança de alguém que não gosta dele nem com molho de tomate.

As avaliações são anónimas por forma a garantir que toda a gente se exprime em total liberdade. As vertentes de avaliação por parte das chefias e dos chefiados é obrigatória. A avaliação lateral é facultativa embora tenha que haver pelo menos três colegas que o façam.

Eu nunca avalio colegas e apenas avalio subordinados e a pessoa de quem dependo por obrigação. Não avalio os meus colegas para que, caso surjam actos de traição, toda a gente saiba que não fui eu. Apresentei desde o início uma espécie de objecção de consciência.

Depois recebemos um relatório com o que os outros pensam de nós. Olhamo-nos a nós próprios pelos olhos dos outros. Tenho a sorte de, até aqui, ter recebido avaliações razoáveis mas tenho que confessar que é sempre com algum desconforto que recebo o dossier. Imagino o que aquele meu colega sentiu quando se viu avaliado pelos colegas como uma nódoa.


Vénus ao espelho - Peter Paul Rubens

Há também uma outra moda. De vez em quando, para verem a nossa adequabilidade às funções, ou no âmbito de planos de sucessão ou de reestruturação, somos submetidos a assessments (avaliações psicológicas, testes de personalidade, coisas assim). Aparecem uns psicólogos que nos entrevistam e que nos fazem responder a vastos questionários. Depois de tudo aquilo processado recebemos a informação sobre nós próprios. Geralmente há uma reunião individual e ali informam-nos sobre o que somos. A nossa descrição pura e dura. Você é assim, assado e cozido. A nossa imagem em palavras.

Mesmo que a gente não se queira ver ao espelho, não há volta a dar. Vermo-nos descritos, ali, não é um exercício de narcisismo: é uma coisa a que somos submetidos - e paciência, há que encarar com estoicismo. Dali podem surgir consequências para a vida profissional das pessoas pelo que nunca ninguém é leviano a ponto de levar isto na desportiva. Ouço sempre coisas muito curiosas nas quais, em regra, me revejo mas tenho, às vezes, algumas surpresas e para as quais solicito explicação. 

Quem não está habituado a estas andanças, pode pensar que  uma pessoa ver-se descrita é aquilo de que toda a gente gostaria, uma coisa narcísica, abrir um livro e ver um personagem inspirado em si. Mas para quem está habituado a ver-se olhado a 360º e ver descrito, por escrito e verbalmente, cara a cara, como é a sua personalidade e a sua atitude perante a vida e os outros, isto é apenas um episódio inevitável e que, tomáramos nós, não tenha consequências negativas na nossa vida.

*

O vídeo lá em cima mostra Alela Diane interpretando Hazel Street.

*

Permito-me ainda convidar-vos a visitarem o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras por lá não me saíram especialmente animadas mas, enfim, tenho dias. O poema é de Maria Andresen e a música que se lhe segue é de Waldemar Bastos.

*

Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma semana muito boa, a começar já por esta segunda feira.


sábado, março 30, 2013

Maria Madalena




Maria Madalena é descrita no Novo Testamento como uma das discípulas mais dedicadas de Jesus Cristo. 

A Igreja romana, seguindo São Gregório Magno, além de a identificar com a "pecadora", também a confunde frequentemente com Maria de Betânia, irmã de Lázaro, e celebra as três Marias com uma única festa. 




Ela acreditava que Jesus Cristo realmente era o Messias. (Lucas 8:2; 11:26; Marcos 16:9). Madalena esteve presente na crucificação e no funeral de Cristo, juntamente com Maria de Nazaré e outras mulheres. (Mateus 27:56; Marcos 15:40; Lucas 23:49; João 19.25) (Mateus 27:61; Marcos 15.47; Lucas 23:55). 




No sábado após a crucificação, saiu do Calvário rumo a Jerusalém com outros crentes para poder comprar certos perfumes, a fim de preparar o corpo de Cristo da forma como era de costume funerário. 




Permaneceu na cidade durante todo o sábado, e no dia seguinte, de manhã muito cedo, "quando ainda estava escuro", foi ao sepulcro, achou-o vazio, e recebeu de um anjo a notícia de que Cristo havia ressuscitado e foi-lhe dito que devia informar tal fato aos apóstolos. (Mateus 28:1-10; Marcos 16:1-5,10,11; Lucas 24:1-10; João 20:1,2; compare com João 20:11-18). Nada mais se sabe sobre ela a partir da leitura dos Evangelhos Canónicos.




Em Lucas 8:2, faz-se menção, pela primeira vez, de "Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demónios". Não há qualquer fundamento bíblico para considerá-la como a prostituta arrependida dos pecados que pediu perdão a Cristo; também não há nenhuma menção de que tenha sido prostituta.Este episódio é frequentemente identificado com o relato de Lucas 7:36-50, ainda que não seja referido o nome da mulher em causa.


(in Wikipedia)




Perante toda a gente, no salão
sob os pés de Jesus
os cabelos no chão serão tapete e toalha.
Do Gólgota no cúmulo,
os cabelos no chão, aos pés da Cruz,
sonharão ser mortalha.
Maria! - diz Jesus
levantado do túmulo.
(Maria, que te diz o coração?)
E os cabelos no chão
são oiro, mirra e incenso em poalha...


['O Pólo Sumo - Em louvor de Santa Maria Madalena' de José Régio in Filho do Homem]


^^^^


Antonio Vivaldi  - Stabat mater


1. Stabat Mater
2. Cuius animam
3. O quam tristis
4. Quis est homo
5. Quis non posset
6. Pro peccatis
7. Eja Mater
8. Fac ut ardeat
9. Amen

Sytse Buwalda, alto
Netherlands Bach Collegium
Pieter van Leusink, conductor

^^^^

As obras apresentadas representam Maria Madalena e os seus autores são, respectivamente, Gheorghe Tattarescu, Guido Reni, Giovanni Bellini, Pietro Perugino, Peter Paul Rubens, Gregor Erhart.


^^^^

Muito gostaria também de vos ver no meu Ginjal e Lisboa. Hoje, por lá, continuo com a poesia dita, textos ditos. Eunice Muñoz diz Guerra Junqueiro e Marco D'Almeida diz o Cântico Negro, também de José Régio. Depois Divino Sospiro interpreta Madalena aos pés de Cristo.


^^^^


E, por  hoje, apenas isto. Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado.

(E espero bem que o que se está a passar entre as Coreias lhes passe e que não venha por aí mais fogo para incendiar este mundo já tão castigado. Tanto que precisamos de paz...!)


sábado, junho 16, 2012

Vénus ao espelho - e algumas palavras soltas sobre a beleza, o amor, a sedução, a sensualidade no feminino


Música, por favor

Melody Gardot - Love me like a river does

*


Olho-me ao espelho com atenção. Esta sou eu. Olho-me nos olhos. Tento captar o meu olhar mas não consigo, o meu olhar parece não querer deter-se nos olhos que me olham. Quase sinto em mim alguma timidez.



Vénus ao espelho - Ticiano Vecellio (1473/1490 - 1576)


O espelho devolve-me a imagem de uma mulher bonita, de uma beleza franca. Penso: sou desejável. Mas, depois, um súbito pudor faz-me cobrir os seios. Olho de novo. Subo um pouco a mão que descobre um dos seios. São pequenos, macios. Olho o espelho e quase sorrio. O meu cabelo já está entretecido, pronto para me apresentar ao meu amor. 

A nudez branca parece-me impúdica, assim ao espelho. Cubro-me, ao de leve, com a capa macia, o veludo é tão macio e a orla bordada, tão bonita. Coloco as pulseiras. São fundamentais, quando me despir não parecerei tão nua.

Nesta cama, sobre esta capa macia, gozarei mais logo com o meu amor. Quero ver-me como ele me verá.



Vénus ao espelho - Peter Paul Rubens (1577 - 1640)


Nasci talvez de uma concha, sou feita talvez de espuma, não sei. Os meus cabelos são louros, longos, leves, perfumados, e eu deixo-os cair sobre os ombros. O meu corpo é farto, rijo, feito para ser acariciado, carnes macias que devem estar entre mãos. Desperto amor em quem me vê. O meu rosto tem as cores de quem tem saúde e o meu olhar olha-me, quase a desafiar-me. Mulher fêmea, sem dúvida. Mulher de carnes férteis, seara fértil, macia. 

Cubro-me com este fino cendal, branco, macio. Ignoro o olhar de quem me quer vestir, agora sou apenas eu aqui, eu e eu. Quero ver-me, quero ver o que os olhos do meu amor vão ver. Quero ver-me para perceber como será o meu olhar quando o olhar do meu amor estiver preso ao meu.



Vénus ao espelho - Diego Velásquez (1599 - 1660)


Deito-me agora sobre a chaise longue que, antes cobri com sedas naturais, marfim, antracite, deito-me e eu sou agora uma outra maja desnuda. Pensativa, olho-me no espelho. Esta sou eu. A minha anca eleva-se, e eu sei que sou desejável, farta, macia, uma mulher livre dentro de um corpo livre. Afasto de mim os véus, as capas, as vestes. Esta sou eu, nua, descoberta, eu. Olho-me tranquila. A mulher no espelho olha para mim. Entendemo-nos. Sem censuras, sem pudores, ela, a mulher nua no espelho e eu que olho a mulher que os homens desejam. 

Poderia dizer que os homens que me amaram, amaram sempre demais. Mas não digo. Eu é que sempre fiz com que me amassem demais. Eu a mulher amante, amada.



After Velásquez in my Apartment - Helmut Newton (1920 - 2004)


A cama em que agora me deito é outra, pele acolchoada e negra, armação metálica, linhas direitas, quase austera mas larga, confortável. O leito está no meio de uma sala vazia e as janelas estão abertas ao exterior. Por estas janelas abertas entra a luz do dia. Talvez quem, dos outros prédios, se chegue à janela, me consiga ver. Não faz mal. 

Olho-me ao espelho. Esta sou eu. Sensual. Não disfarço. Para quê disfarçar?, esta sou eu. Os meus lábios quase se abrem num breve sorriso. Este é o esboço de sorriso que deixa doidos aqueles que gostam de ser seduzidos. Este é o assomo de malícia que se disfarça de inocência para melhor iludir, para melhor seduzir.

Penso no que Leanor, formosa e segura, disse. Num tempo de cansaço e de tecnologias, num tempo em que todos sabem tudo de todos, mas num tempo em que as pessoas mal se vêem, mal se tocam, vital a linguagem do corpo, a linguagem da sensualidade que brota dos corpos cingidos na relva, à luz e ao calor do sol: transfiguração do medo, na esperança deste tempo.

Assim é. Cingidos umas vezes na relva, outras cingidos numa cama que, aqui no meio desta sala vazia, será um altar, o altar do amor, do desejo, dos prazeres do amor, transfiguremos o medo na esperança destes tempos.

Daqui a pouco vou cobrir-me, vou cobrir-me para que o meu amor me descubra, quero ocultar-me para o ofuscar, como Natália me ensinou num Outubro, quero enleá-lo para melhor o deslumbrar. Jogos de sedução, jogos de amor, premissas de um desejo que se quer demorado, com um final longo como se diz dos vinhos encorpados, sábios.

Junto a mim, outra mulher segura o espelho e poderia, alguém que a visse, inventar histórias. Mas não me importo. Que seja o meu inocente filho, a minha criada de vestir, uma amiga, uma deusa, um ser imaginário que me impele ao sexo e ao amor, tanto faz. Alguém tinha que segurar no espelho. Agora estou apenas a preparar-me, a conhecer-me, a reconhecer-me, enquanto espero. Daqui a pouco, por esta porta entrará o meu amor e eles sairão. Ficarei só eu e ele. Agora estou à sua espera e eu estou calma, descansada, liberta, uma mulher livre que nasceu para viver o amor.

*

Notas 

* Designei as pinturas como 'Vénus ao espelho' mas encontrei também referências com os nomes 'Vénus e o espelho' ou 'Vénus e Cupido' ou outras. 

* A frase 'os homens que me amaram, amaram sempre demais' pertence a um poema de Alice Vieira.

* A Leanor a que me refiro no texto é a Leitora 'Leanor, formosa e segura' que escreve de uma forma que me agrada imenso e que, no outro dia, num comentário no meu Ginjal e Lisboa escreveu aquela frase, tendo-me autorizar a usá-la aqui. A ela os meus muito sinceros agradecimentos.

* A Natália a que me refiro é, obviamente Natália Correia no seu poema 'De amor nada mais me resta que um Outubro'.

* Aos puristas de tudo o que mexe e que apenas conseguem fazer leituras literais, faço um alerta que me pareceria escusado mas que, just in case, aqui fica: o que acima escrevi é ficção e não um registo autobiográfico (não costumo ter ninguém a segurar-me no espelho), ou alguma recensão, apontamento histórico ou o que quer que seja que pretenda ter rigor de qualquer espécie. No entanto, as legendas apresentam o nome correcto dos autores das pinturas e da fotografia e as datas correctas em que viveram (pelo menos assim o espero) - ... e aqui, com vossa licença, para que confirmem que, de facto, me estou a rir, vou ter que incluir um smile (um smile no feminino, é claro). 



Tenham, meus Caros leitores, um belo sábado. Sorriam à vida para que a vida vos sorria a vós.