Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca
Mostrar mensagens com a etiqueta Ryuichi Sakamoto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ryuichi Sakamoto. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

Eu e a minha vulva.
[Ou deveria dizer: eu e a minha vagina?]




coisas de que uma pessoa bem comportada supostamente não deve falar em sociedade. Nem sequer as donas dessas coisas. Faz de conta que têm em casa um bicho mal comportado, um bicho que lá foi parar nem se sabe como. Não se fala nele não vá os outros acharem mal. 

Coisas. Digo eu. Coisas. Não sei como melhor dizer. Bicho, bicho não será. Flor acho que também não é. Apesar de haver flores que se lhe aparentam, pelo menos algumas flores inventadas por pintores. Mas flor não e bicho, se calhar, também não. Coisa, pois. Coisinha, para uns. Coisona para outros; ou às vezes. Não, coisona não, não me soa bem. As coisas têm que soar bem. Em especial, coisas assim, que foram feitas para o carinho.

Já uma vez aqui falei dela: yoni, a peónia desabrochada, o portão celestial, a origem do mundo. Já falei outras vezes, em especial do miraculoso botãoO meu é maior que o teu...?


Mas não sei muito dela. 

Costumo dizer que quem vê caras, vê pilas. Isto nos homens, bem entendido. Não há duas iguais, digo eu. Basta ver a cara dos donos, digo eu. Melhor: intuo. Sou amiga do rigor científico: para fazer uma afirmação com rigor devo tê-la previamente submetido a experimentação para me certificar da sua veracidade. Ora não costumo mandar despir os cavalheiros com que me cruzo para me certificar da boa qualidade da minha teoria.

Mas isto sobre pilas.

Porque das coisas que aqui falo não tenho teoria, não tenho intuição. Nunca tinha, sequer, pensado no tema. 

Afinal fico agora a saber que é a mesma coisa: não haverá duas iguais. E, na volta, olha-se para a pinta da dona e adivinha-se a pinta da bicha.

Li o artigo no Guardian. Fiquei espantada com a variedade. Maior do que com as rosas. Rosa chá, rosa púrpura, rosa dobrada, rosa singela, rosa brava, rosa branca, rosa perfumada, rosa carnuda. 

Laura Dodsworth fotografou e entrevistou 100 vulvas e respectivas donas. Isto depois de se ter desforrado com 100 pénis e seus dôninhos. Pénis de novinhos, pénis de velhinhos, de robustos, de franzinos, de saudáveis, de doentes, pénis magrinhos, pénis reboludinhos, branquelas, pretões. De tudo. A normalidade é a diversidade. Nada de mais. Novidade mesmo é ser assim também com as vulvinhas. De novinhas, de velhinhas, de branquinhas, de pretinhas, de pétalas perfeitas, desfolhadas, fechadinhas, desenhadinhas, descaradas. De tudo.


Mostrando que ninguém deve esconder com vergonha de ser feio, a autora explica que normal é tudo. Não há feio nem bonito. Há diferente. Diferente uns dos outros, umas das outras. Uma das fotografias é a da autora mas não faz diferença. É de uma mulher que é mulher como todas as mulheres.


Tem razão a Isabel: não se deve generalizar. As mulheres não são todas iguais e ser diferente não é ser bom ou ser mau: é, apenas, ser o que é. Ponto.

As vulvas também não. E contam histórias. Embora geralmente sejam silenciosas, misteriosas, não gostam que se saiba dos seus segredos.


Mas eis senão quando o The Guardian volta à carga com: Why it matters to call external female genitalia ‘vulva’ not ‘vagina’

É que parece que um qualquer veio chamar a atenção para que não se deve dizer vulva mas, sim, vagina. Ora toda a gente lhe caíu em cima e bem: vagina é a interioridade, o canal que vai do exterior ao interior, ao passo que vulva é o rosto da dita boca do corpo, incluindo lábios, botão de rosa e as aberturas propriamente ditas.

Portanto, é de vulvas que a autora do livro de Laura trata. Tal como é de vulvas que Hilde Atalanta também se ocupa, pintando-as sem parar. Ou seja, não faz pinturas em cima de vulvas de verdade. Quero eu dizer que faz desenhos delas, pintando-as como se de florzinhas se tratassem. Uma graça.

........................................................................................................................................


------------------------------------------------------------------------

E, apesar de pouco ter dito, por hoje pouco mais tenho a dizer a não ser que quero acabar este post com o vídeo de uma exibição de uma ginasta excepcional a todos os níveis: não é levezinha, não é magrinha, não tem o típico corpo das atletas. Mas, apesar disso, é única. Já aqui falei dela: foi das melhores, foi-se abaixo, e, quando menos se podia esperar, ressurgiu.

Por estes dias voltou a arrancar um 10. Voa, salta, dança, ri. Um corpo elástico e jubiloso.

Dedico estas imagens de graça, energia e superação a algumas das minhas Leitoras ou autoras de blogs que sigo: à JV, à Gina, à Isabel, à Bea, à Leonor, à Célia, à Isabel, à Ms Tree Lover, à Ana Vasconcelos, à Luísa B, à ~CC~, à Lucília, à Alice, à Teresa, à Olinda, à Penélope, à Yvette, à Helena, à Anabela, à Luísa, à Elvira, à Ana, à Graça, à Maria, à Eugénia, à Maria Sofia, à Mãe Preocupada, à Miss Smile, à Matéria dos Livros, à Flor, à Estela, à Ana de Amsterdão que espero que esteja bem, e a todas as outras de que, por sono, imperdoavelmente agora me esqueci.

Dedico também a todos os Leitores homens que gostam de mulheres. Os que gostam de homens ficam para outro dia que isto aqui hoje é mesmo na base do gineceu e dos que gostam de dele se acercar.

Katelyn Ohashi (UCLA) 2019 Floor vs Washington 10.0



......................

Um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

segunda-feira, março 21, 2016

O Tejo, a Vasco da Gama e o céu, blu de Sakamoto e uma receita de sopa de feijão verde e outra de bifes de peru com pevides de abóbora




Olho a janela. Podia ser uma aguarela: há um rio, há o casario, há um horizonte debruado, há montes, há nuvens que parecem abstrações doces. Abro o vidro para que o ar fresco acrescente uma nova dimensão à pintura. 

Encanto-me com as tonalidades do rio e do céu. Se passou um barco, fica um rasto branco de espuma. Ou, então, são as correntes que toldam as águas que ficam mais escuras ou o sol que abre clareiras de luz. O dorso da ponte acompanha as funduras, e toda ela, branca, elegante, emoldura a vastidão da paisagem.

Já consigo andar, devagar mas ando. Continuo com o anti-inflamatório e com o gelo mas, de tarde, não me aguentei em casa. Fui passear. Ando sem dobrar o pé, coxeio mas já não muito, consigo disfarçar. Esta segunda-feira conto já estar fina.

Já vos mostro, a seguir, por onde andei.

Depois, ao chegar a casa, antes de pôr a roupa a lavar, fazer sopa e fazer bifes de peru* no forno, fui à janela e não resisti a uma vez mais fotografar o rio. Tão bonito, este rio que aqui vem espreitar à minha janela.


Estas visões, fazem-me sempre lembrar as linhas de água do Cesariny. 


Ah, é verdade, já apareceu a Agustina. Ontem, enquanto fazia o jantar, os meninos estiveram a usar o sofá como baliza e parece que os livros os distraíam porque pegaram neles e os puseram num outro sofá mas o da Agustina, por algum motivo, escapou-se para debaixo dele. Hoje, desvendado o mistério, o meu marido já o resgatou e já voltei a deliciar-me com aquelas palavras rubras, refulgentes.
____

* Passemos, então, à cozinha

O meu marido foi de manhã ao supermercado e trouxe bifes de peru. Não é coisa que se aprecie muito cá em casa. Como cada vez comemos menos carne e, em especial, carnes vermelhas, às tantas já não sabemos o que fazer.

Então, quando ele me disse o que tinha trazido, resolvi disfarçá-los e disse ao meu marido que lhes ia pôr pevides em cima. Ele desatou-se a rir: 'Só tu te lembrarias de tal maluquice... Mas espera lá, estás a falar a sério...?!'. Claro que estava.

Conto-vos como fiz os ditos bifes de peru.

Aqueci previamente o forno no máximo. Entretanto, preparei um tabuleiro de pirex da seguinte forma:
Um fio de azeite para cobrir ao de leve o findo. Depois, dois tomates bem maduros, cortados, e uma pedacito de abóbora cortado aos cubinhos pequenos. Por cima coloquei os bifes de peru abertos. Coloquei umas pedras de sal e esfarelei uma haste de alecrim por cima deles. Por cima, coloquei, na zona central, outro tomate cortado aos pedaços e, à volta, cobri os bifes por lascas finas de abóbora. Por cima das lascas coloquei pevides de abóbora que tinha secas. Reguei tudo com azeite e foi ao forno que reduzi para 150º. Ficou ali nesta temperatura baixa talvez uma hora e meia, não sei bem.
Já agora digo também como fiz a sopa, embora seja banal:
Numa panela com água juntei duas cebolas grandes, duas courgettes gigantonas, um pedaço de abóbora, um chuchu e quatro dentões de alho. Pus ao lume com um pouco de sal. A um outro tachinho, para o qual passei um pouco da água da panela onde coziam os outros legumes, juntei uma boa quantidade de feijão-verde laminado e abóbora aos cubinhos pequeninos.
Quando os legumes estavam cozinhados, juntei azeite à panela grande e, com a varinha, desfiz tudo até ficar um creme macio e espesso. Juntei-lhe então o conteúdo do outro tachinho. Fica a base cremosa e aqueles legumes inteiros. 
Quando estava a acabar a lida na cozinha e me preparava para regressar ao sofá, ligou a minha filha a perguntar se podia vir com os meninos. Felizmente havia toda esta janta, foi só fazer arroz. Comeram que se fartaram. O menu foi aprovado. Claro que, para os meninos, tirei as pevides (que estavam sequinhas e estaladiças) porque estavam intrigados e, sem provarem, disseram que achavam que não iam gostar e, portanto, para evitar teimosias, isso nem foi para o prato.

___

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

..

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Poderia pintar os anjos brilhando


Onde está a parte dos outros que é nossa quando eles estão longe e nós os sentimos tão misteriosamente próximos?

Por que lugar do imenso espaço circulam as palavras, as saudades, os sorrisos daqueles que se querem e que nem sempre podem ver o brilho do olhar e sentir na pele a doçura da voz do outro? Em que infinito lugar gravita, pois, a memória dos que não estão junto a nós mas habitam o nosso coração? 

E qual o céu para onde vamos quando entramos no atraente corredor de luz que nos espera? E em que nos transformamos quando deixamos de ser aquilo que hoje somos? Em pó? Em matéria escura? Numa desconhecida matéria feita de coisa nenhuma, talvez apenas feita de tracejados movimentos, de aparentes aproximações? Ou de ínfimos, muito ínfimos, pontos de luz amorosamente enlaçados? 

E em que outros mundos nos encontrámos, nós os que nos conhecemos desde sempre, talvez de outras vidas? Num mundo rarefeito em que nem o tempo existia? 
E os que assim se conheceram, viverão juntos por toda a eternidade? Mesmo que invisíveis, intangíveis, habitando um misterioso halo de luz, para sempre estarão unidos por um amor inexplicavelmente real?
(Eu acho que acredito que sim. Ou melhor: eu gostava de acreditar que sim).

Energy flow



À volta de cada uma das galáxias, os astrónomos observam o efeito de um grande halo de matéria que revela a sua existência através da força gravitacional com que atrai estrelas e desvia a luz. Mas esse grande halo, do qual observamos os efeitos gravitacionais, não conseguimos vê-lo directamente e não sabemos de que será feito. Foram estudadas muitas hipóteses, mas nenhuma parece funcionar. Que haverá ali qualquer coisa parece já evidente, o que será, não sabemos. Chamemos-lhe hoje "matéria escura". Parece de facto tratar-se de qualquer coisa que não é descrita pelo modelo padrão. Caso contrário, vê-la-íamos. Algo que não é nem átomos nem neutrinos nem fotões...

Não é de surpreender que existam mais coisas no céu e na Terra, caro leitor, do que sonha a nossa filosofia; e a nossa física. No fundo, até há poucos anos nem sequer suspeitávamos da existência das ondas de rádio ou dos neutrinos, que, no entanto, preenchem o universo. 
(...) 
Por ora, é isto que sabemos da matéria. Um punhado de tipos de partículas elementares, que vibram e flutuam continuamente entre o existir e o não existir, que pululam no espaço mesmo quando parece não estar lá nada, que se combinam até ao infinito como as vinte letras de um alfabeto cósmico para narrar a imensa história das galáxias, das estrelas inumeráveis, dos raios cósmicos, da luz do Sol, das montanhas, dos bosques, dos campos de cereais, dos sorrisos dos rapazes nas festas e do céu negro e estrelado de noite.


_______________

O título do post pertence a um poema de Herberto Helder. A primeira e a última fotografias foram feitas este domingo in heaven. A música é de Ryuichi Sakamoto - Energy Flow.O texto em itálico pertence ao livro 'Sete breves lições de física', capítulo "Partículas" de Carlo Rovelli.
_______________________________________________

Muito gostaria ainda que descessem até ao post seguinte para ler um texto sobre os quanta e sobre as descontinuidades que existem em nós.

Ainda mais abaixo continuo com Herberto Helder, desta vez no último vídeo do Cine Povero.

__

terça-feira, janeiro 12, 2016

O mar selvagem e belo do meu país






Ao mar manso, plano, suave, eu prefiro o mar selvagem, indómito, poderoso. Nunca fui para nenhum daqueles destinos turísticos onde o mar é chão, transparente, morno. Ouço falar em Caraíbas, Seychelles, e nada disso me seduz. Deve ser bom estar dentro daquela água límpida e tépida mas, para isso, deixo-me estar na minha banheira. Pelo contrário, atraem-me os mares frios, revoltosos, aquela cor sublime, espumando em branco e leveza a sua fúria.

Reparem, por favor, no pequeno barco de pesca que, à esquerda, se faz ao mar: quanta, quanta coragem!

Junto ao mar bravio da costa ocidental estive hoje. O mar grande e louco exerce um fascínio tremendo em mim. Penso no que será cair num mar assim, deve ser um choque avassalador, uma queda imediata no mais fundo e tormentoso abismo, deve ser como se a implacável mão de deus de súbito arrebatasse aquele que um dia ousa entrar no fundo mais fundo dos tempos.


De cima, este mar imenso é uma massa imensa de força sobrenatural, uma sucessão impetuosa e infinita de movimento e energia, matéria azul e verde feita de transparências e nuvens, um ruído incessante, nunca igual, que vem de dentro dos mistérios e se eleva até às asas dos pássaros, até ao refúgio mais secreto do sonhos dos amantes. E as ondas desenham-se, encurvam-se, dominadoras, tentadoras, enormes, enormes, indescritíveis. A frescura das ondas chega até mim, tenho vontade de a sentir de perto.

Tentação magnífica e perigosa, afasta-te de mim.


Ando por ali, rondo o bailado sumptuoso e esplendoroso, fecho os olhos, a beleza é excessiva. E logo uma onda sobre o mar, sobre o imenso manto de águas, sobe, arrojada, trepidante, recurva-se e enrola-se, o mundo inteiro ali feito onda e mar e coragem. Não é possível esquecer uma beleza assim, olho, olho, quero guardar em mim este desenho brutal, estas esculturas em movimento, divinas, divinas, tão acima da natureza humana, tão demais para a minha insignificante escala, para a minha limitada compreensão.


E aqui, mesmo aos meus pés, rebenta, com fúria selvagem, uma onda que se elevou pelos céus, que se veio desfazer em brancura e luz, trazendo-me a maresia, suavidade, frescura. E eu, sinto-me agradecida, tão emocionadamente agradecida, e toco com as mãos abertas a felicidade, assim, invisível e palpável.

...

As fotografias foram feitas no Sítio, junto ao Farol e por ali, por onde andei, vendo de perto as grandes ondas onde os surfistas gostam de deslizar sentindo a força do canhão da Nazaré


.....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.
Desejo-vos que se sintam felizes.

...

segunda-feira, setembro 28, 2015

Acasos, casualties, estilos






O ponto de viragem na vida do professor de filosofia Abe Lucas, o homem irracional, dá-se quando, acidentalmente, num restaurante, ouve uma conversa entre pessoas que se sentavam noutra mesa. A partir daí ocorreu-lhe intervir na situação ali falada, imaginando que não correria quaisquer riscos já que nada o ligava àquelas pessoas.

Hoje almocei num restaurante no Chiado, um belo almoço à base de mexilhões e com fresquíssimas ostras como entrada. Noutra mesa estava uma conhecida figura pública que encabeça uma lista de um certo partido. Imaginando que estaria a falar da situação política, tive vontade de ouvir a sua conversa mas, sendo eu bem educada, obviamente não o fiz.

Depois de termos flanado, a seguir, por aquele que é um dos meus locais de eleição em Lisboa, fomos buscar a minha mãe e juntámo-nos a parte da família na Gulbenkian (belíssima exposição de Charrua - a ver se ainda falo dela). Para rematar, fomos lanchar ao self do CAM. Eu estava ainda cheia do almoço, pelo que me limitei a beber aquele delicioso cup de frutas que é um dos seus ex libris. Contudo, mal o bebi, senti que me tinha caído mal. Daí a sentir-me mesmo mal foram minutos. Não tenho ideia de uma cena daquelas. Mal, mal, inclusivamente à beira de desmaiar, transpirando em bica, mal me podendo mexer. Imaginei que o sumo frio me tinha parado a digestão e, apesar do estado em que me encontrava, não valorizei. Queria chegar a casa, deitar-me de pernas para o ar a ver se a tensão me subia, esperar que o estômago atinasse ou pelo menos que se esvaziasse de vez. O diabo foi o facto de a minha mãe assistir ao filme. E aí foi o drama: que uma vizinha morreu por causa de mexilhões com umas bactérias, que se tinha também sentido mal e que foi um ar que lhe deu. E ai, ai... olha como tu estás, ai... ai... A minha filha, por outro lado, tinha dito antes que, nuns almoços lá nuns eventos em que se juntavam vários médicos, a única coisa que não comiam era ostras porque se comem praticamente cruas e, se têm uma tal bactéria, é trigo limpo farinha amparo. E a minha mãe num desatino, eu é que estava mal e ela é que gemia. E eu, de facto quase a perder os sentidos, mais para lá do que para cá, ouvia a conversa delas e percebia que já me viam morta e enterrada. E que eu fosse ao hospital e que tinha que ir e que o meu marido me levasse, quisesse eu ou não. Eu, mal falava, piorava de novo, mal mexia a cabeça ficava a transpirar em bica e a ver tudo sem cor, pelo que bem tentei oferecer resistência mas, qual quê, não consegui evitar. Lá me levaram para o hospital, numa viagem surreal tal o estado em que eu estava. Aí a chatice do costume: análises e logo posta a soro, um garrafão que nunca mais acabava, e antes, na veia, um protector para o estômago e um outro para parar as náuseas. Para cima de duas horas nisto, nas urgências. 

Mas uma coisa destas não teria história nenhuma não fosse dar-se o caso de, na cadeira ao meu lado, nas urgências, estar uma outra doente, toda boas famílias, a telefonar, para familiares e amigos a dar a notícia que o Manel tinha acabado de morrer e que não sabia ainda se a vida tinha terminado para ele ou se ele lhe tinha posto termo, que, para ela, seria a segunda hipótese, que seria o mesmo que da outra vez, mas que não dizia nada, não queria alimentar especulações. A questão é que ela não dizia apenas Manel, dizia também o apelido. Quando pronunciava o nome, baixava o tom de voz. Mas eu estava apenas a soro, não estava inconsciente: ouvia tudo. E, mais tarde, dizia também onde seria o velório e o dia do enterro. Ora a ser quem eu penso, será pessoa muito conhecida e, a ter sido a causa da morte a que ela dava a entender, será coisa com uma carga dramática considerável (aliás, carga dramática tem sempre uma morte provocada só que, neste caso, a ser quem me pareceu que fosse, terá uma dimensão pública considerável).

Entretanto, chegou o marido, preocupado com o estado de saúde dela, mas ela deu-lhe logo a notícia e ficaram a conversar, em voz baixa mas, para mim, audível, que a última vez que tinham estado juntos, eles e o falecido, tinha sido na festa de anos de fulano de tal, e que quem, há minutos, lhe tinha pedido para ser ela a dar a notícia tinha sido beltrana, e que não podia ser beltrana a avisar os amigos porque tinha sido namorada dele e o marido é um ciumento que não se pode, e ficaria furioso se soubesse que ela estava a informar amigos, etc, que o outro tinha morrido e que, coitada, senão, ela é que ainda acabava a pagar as favas. E, uma vez mais, disse o nome da dita namorada e eu, uma vez mais, reconheci o apelido.

Enquanto ali estava naquele aparato, a soro, feita inválida - mas já bem disposta (aquele chuto na veia tirou-me mesmo as náuseas e as dores no estômago) -  peguei no telemóvel e googlei a ver se já havia notícia. Não havia. 

Mas fiquei a pensar: acidentalmente podem gerar-se situações complicadas que, potenciadas por estas tecnologias ubíquas, se podem transformar em bolas de neve difíceis de parar. 

Imagine-se que eu era pessoa sem escrúpulos e, tendo ouvido toda aquela conversa, enviava logo dali informação para algum jornal online ou a publicava eu aqui no Um Jeito Manso ou a enviava para alguém com facebook badalado. Às tantas, poderia estar montes de gente a saber de uma situação dramática que a família deve querer gerir com pinças, sem que ninguém soubesse como é que, na hora, a notícia tinha extravasado. Ou imagine-se que há mais pessoas com aquele nome e que ainda punha um boato sinistro a circular, dando por morto alguém cheio de vida.

Entretanto, estava eu ali sossegada, preferindo não estar a ouvir toda aquela conversa, quando chegaram os resultados das minhas análises: so far, so good. Se havia bactéria, tal não se via no sangue. Portanto, deve mesmo ter sido uma paragem de digestão. Vim para casa com uma receita para começar a tomar ainda hoje e durante três dias. Mas tão saturada saí de lá que me marimbei para ainda ir à farmácia.

Não jantei nem tenho fome mas sinto-me como se nada me tivesse acontecido.

E, entretanto, já me ocupei das minhas tarefas de dona de casa: já fiz uma panela de sopa para os estes próximos dias, já fiz umas costeletas grelhadas para que amanhã o jantar já esteja pronto, já fiz uma máquina de roupa e já a estendi, já fiz arrumações, etc. 

Agora é quase uma da manhã, estou com sono - mas para aqui estou ainda a pensar nisto de uma pessoa sem querer ouvir uma conversa alheia que, aparentemente, nos revela uma situação horrível. Pelo que percebi, esta irá deixar consternada toda a gente que conhecia o dito Manel (talvez devesse dizer malogrado Manel). Não tivesse eu educação, sensibilidade e bom senso, poderia agora estar aqui a divulgar tudo o que ouvi e vocês todos, meus Caros Leitores, a tomarem conhecimento. Há um lado perverso nisto das novas tecnologias: sem querer, as palavras podem chegar até nós e nós, sem pensarmos bem, poderemos mesmo deixar que elas nos fujam das mãos, escapem ao nosso controlo, a qualquer controlo.

Deveria mesmo haver um livro de estilo para isto tudo.



...

As pinturas são, uma vez mais de Juan Lecuona. Ryuichi Sakamoto interpreta Aqua

...

Hoje não vou escrever mais nada. Tinha fotografias de umas peças de artesanato que gostava de vos mostrar (um galinho e um crucifixo), fotografias do Chiado e fotografias da exposição do Charrua no CAM. Mas, dado o adiantado da hora e o sono que tenho, não vai poder ser. Outro dia, talvez.

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
Saúde, alegria e beleza em vossa volta é o que vos desejo.

..

quinta-feira, setembro 17, 2015

Um tigre na biblioteca


Quem não goste de bibliotecas, solitudes ou conversas perdidas fica desde já avisado que pode saltar daqui para o lirismo-maior que é o programa do PCP ou para a epístola do láparo ao Sócrates ou, vá lá, para a Catarina Martins ainda melhor comediante que o RAP (e é como um elogio sincero que o digo).

É que aqui, agora, a conversa é quase barroca e circula por entre os encantamentos da Klementinum.







Um dia pensei: se eu não visse, como poderia encontrar um livro na minha estante? Ou, se eu não visse, e entrasse numa biblioteca infinita, como poderia descobrir os caminhos até aos livros que as minhas mãos procurassem? Ou, se eu não visse, como poderia ver o olhar daquele cujos braços me abraçassem?

E, então, imaginei: de olhos fechados, eu sentiria a minha respiração, esperaria que o meu coração reconhecesse os sinais vitais do que eu procurava e, assim, me guiasse. Talvez ouvisse os sons que se evolam das páginas dos livros; talvez, não vendo, eu percebesse os murmúrios transparentes, silenciosos, que as palavras guardaram de quem as escreveu. Talvez aquele que me teria nos braços, quando me olhasse, respirasse de uma maneira que eu percebesse a ternura do seu olhar.




E depois pensei: talvez, então, eu não tivesse que andar, às cegas, perdida entre corredores infinitos, talvez aquele que me conhece como se navegasse dentro de mim me levasse pela mão e, amorosamente, fosse dizendo escuta, aqui está Rimbaud que um dia disse que, por delicadeza, morreu, e olha, agora aqui está aquele que um dia falou das flores do mal e de um pássaro com asas grandes demais para andar em terra e que me fez pensar que era de mim que falava, e, escuta, aqui está aquele que um dia me fez oferecer-te uma rosa inventada.

E eu, a alma acariciada pela cumplicidade daquela voz, sorriria e perguntaria, Por onde me levais, senhor? Andais por labirintos, galerias infinitas?

E ele responderia que Sim, senhora, que infinitas são as palavras que se guardam nos labirintos das nossas memórias. E eu sentiria no cabelo o afago que as suas mãos sempre guardam para mim e depois sentiria, nas minhas mãos, o calor das suas e, no coração, a ternura do seu olhar.

E assim andaríamos, ele falando-me de livros, de quem os escreveu, recordando-me frases, versos e eu feliz como uma menina descobrindo o mundo.

Até que qualquer coisa me faria parar. Inquieta, eu.

E, com a voz trémula, diria: Falas-me de labirintos, galerias infinitas, rosas de paracelso e escondes-me os perigos que se escondem junto a nós?

E ele diria: Tu não vês mas eu vejo. E não vejo perigos. Descansa.

E eu pararia, ouviria com atenção. E diria: Escuta. Sinto o calor de uma respiração, sinto o hálito doce de uma fera.

E ele tentaria serenar-me: Não. Aqui só estamos nós. Nós e vinte mil livros. E os espíritos de quem os escreveu. 

E eu diria: Vê como a minha pele se arrepiou. Sente, toca a minha pele. E vê como os meus olhos têm lágrimas. Põe a tua mão no meu coração, sente como bate descompassadamente. Acredita. Sinto que um olhar me trespassa, sinto que há um cheiro a sangue, um cheiro quente, sinto que um outro coração se apressa. Abraça-me, oh, abraça-me, protege-me.

E ele diria, alarmado: Tu não vês mas eu vejo e agora vejo que os livros tremem. O que é isto? O que se passa?

E eu diria: Disse-te. É que há medo no ar.

E, então, eu abraçada por ele, tremendo, diria: Fecha os olhos e ouve. Escuta como um grande animal corre por entre os corredores infinitos, escuta, escuta como o bafo quente dele se aproxima.

E ele diria: Vamos sair daqui. Vamos. Depressa.

Mas eu não me mexeria. Paralisada. Depois sentiria os passos a aproximar-se, a respiração ofegante de um grande bicho. E ele estremeceria, eu sentiria que também tremia e, quase em surdina, dir-me-ia: Vamos, dá-me a mão, corre.

E eu sem me mexer. Mas agora serena. E diria: Já não é preciso. Ele já se foi. 

E ele perguntaria: Quem?

E eu mostraria o meu braço molhado, coberto de uma baba quente e diria: O tigre azul já se foi. Parou aqui, olhou em volta como se procurasse qualquer coisa, como se tentasse localizar um livro, depois olhou-me e eu olhei para ele. Antes de se ir embora, lambeu-me o braço. Não duvides: vi-o distintamente.

E ele, surpreendido, olharia o meu braço e veria, com espanto, que estava molhado, que um líquido cor de sangue escorria, a minha mão escorrendo aquele líquido morno e espesso, pingando sobre uma rosa que estava tombada a meus pés - uma rosa azul, de um azul escuro, tão escuro como o tigre, um azul profundo, macio.

E ele veria, incrédulo, que os meus olhos abertos, cobertos de lágrimas, já o viam - frágil e humano, desconhecedor dos mistérios que o meu coração guarda e que, por vezes, de lá se soltam como pássaros loucos ou como tigres perigosos como eu.



....

As fotografias mostram aquela que foi considerada pelos leitores do Bored Panda como a mais bela biblioteca do mundo: Klementinum (em checo) ou Clementinum em Praga.

Esta biblioteca figura n' O Milagre Secreto de Jorge Luis Borges:
(...) Hacia el alba, soñó que se había ocultado en una de las naves de la biblioteca del Clementinum. Un bibliotecario de gafas negras le preguntó: ¿Qué busca? Hladík le replicó: Busco a Dios. El bibliotecario le dijo: Dios está en una de las letras de una de las páginas de uno de los cuatrocientos mil tomos del Clementinum. Mis padres y los padres de mis padres han buscado esa letra; yo me he quedado ciego, buscándola. (...)

Solitude é interpretado por Ryuichi Sakamoto

----

Caso vos apeteça ler a minha opinião sobre a forma como Ana Lourenço tentou hipnotizar o Jerónimo de Sousa e o António Costa e, por consequência, também a nós, e sobre mais umas quantas minudências, queiram, por favor, descer até ao post já a seguir.

----

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.
Felicidades a todos.


António Costa, Jerónimo de Sousa e Ana Lourenço na SIC N: dá ideia que foram os três dormir a sesta para o estúdio. [Falo disso e de mais umas coisecas e, para ver se isto anima um bocado, mostro uns cavaleiros que ora andam ao banho ora não]






António Costa e Jerónimo de Sousa falaram bem mas devagar, devagarinho, parece que estavam devastadoramente cansados.

Começaram parecendo muito alinhados mas, apesar do registo de slow motion, acabaram por evidenciar as profundas divergências.

António Costa, com a sua segurança habitual, ao seu bom estilo bulldozer, leu o surpreendente programa do PCP, uma coisa do além, que só pode existir para auto-prazer dos seus membros e para mais nada já que nada daquilo será, alguma vez, minimamente exequível.  Jerónimo de Sousa é bom a criticar, a identificar o que está mal, e é empático, a gente concorda com as críticas. Mas, ó caraças, estampa-se clamorosamente quando apresenta qual a alternativa do PCP. Uma coisa que só seria possível se a fada-madrinha nos tirasse da UE e das suas regras, nos tirasse do euro, eliminasse as consequências que daí adviessem, se levasse Portugal para uma ilha maravilhosa onde qualquer coisa fosse possível. Perlimpimpim. Uma utopia desfasada da realidade. Pim.

Ou seja, quanto ao PCP, lamento: nada daquilo bate certo e, além do mais, há neles uma atitude anti-moderna - e eu sou virada para a modernidade (e nem vou falar no que se passou no Avante porque tudo me custa a crer já que do que tenho lido, a ser verdade, seria uma agonia). Por isso, adiante.

Muito bem António Costa a falar do desastre do Novo Banco, um desastre total. A falta de credibilidade do Carlos Costa, essa nódoa que não sai do Banco de Portugal e a descredibilidade de Passos Coelho são quase extravagantes, tal o desastre que foi todo este processo e do qual estamos longe de conhecer o buraco que por lá alastra.


Mas todo este debate foi muito tranquilo. Acho que o problema esteve mesmo na moderadora. Ana Lourenço deu-lhe para o registo intimista a ver se os embalava e se nos punha a todos a dormir. Parecia o momento Vitinho da campanha eleitoral. Parecia que estava na hora de irmos para a caminha - se calhar, foi essa a ideia dela.
....

De resto, hoje na televisão, na TVI,  gostei de ver a Catarina Martins com o Ricardo Araújo Pereira: a moça tem pedalada, sentido de humor, é inteligente. Gostava de a ver num governo, já o disse. É mal empregada se ninguém lhe deitar a mão para a pôr, de facto, com um cargo executivo na governação.

...

Quanto à cena da carta do Passos Coelho ao Sócrates a dizer que apoiava a vinda da troika, pode ser que toda a gente se entusiasme muito com isso - mas, a mim, zero. Sou pessoa do futuro, não do passado. Já formei a minha opinião sobre aquela situação. Há mais de 4 anos.


O que está em causa agora não é o que se passou em 2011 mas sim durante a desastrosa e anti-patriótica governação Passos-Portas. Face ao conhecemos daqueles dois tratantes e face ao que se propõem continuar a fazer e face ao que o PS se propõe fazer, é ao PS que vou entregar o meu voto (como sempre, naquela velha lógica O'Neilliana: não me apetece mas voto PS).

Que eu gostaria que o PS se regenerasse de forma mais profunda, que se modernizasse, que a lógica aparelhística, conservadora e com tiques de antanho levasse uma volta, claro que sim. Hoje um colega meu dizia-me que o PS deveria levar um abanão a ver se se modernizava e se largava os vícios de partido do regime. Pois. Mas, face ao risco de o abanão fazer voltar a ter Passos e Portas por mais 4 anos, voto no que, apesar de tudo, me oferece maiores garantias de haver respeito pelas pessoas e defesas dos interesses dos portugueses.

Quanto ao resto, isso das cartas tal como antes das pizzas, tretas e mais tretas - lamento mas estou-me nas tintas.

Tirando isso, vou mas é ver se me ocorre algum assunto mais animado para ver se o dia hoje por aqui não fica uma maçadoria.
...


...

As esculturas são da autoria de Jason DeCaires Taylor e podem ser vistas em Londres, no Tamisa, ora dentro ora fora de água.

Ryuichi Sakamoto toca Energy Flow

..

segunda-feira, agosto 10, 2015

Ar condicionado, livros, arrumações [e, em PS, uma palavra para António Costa, agora que Ascenso Simões vai pregar para outra freguesia e Duarte Cordeiro entra em cena]




Durante anos suportámos aqui as inclemências do calor. A casa é quente, fica no último andar e, além disso, a sala em que estou, a maior da casa, é envidraçada a toda a volta. O construtor pensou, e bem, em janelas contínuas para se ter máxima visibilidade sobre o rio, mas a verdade é que o vidro concentra muito o calor.

Eu era a única que não queria ar condicionado, achava que esteticamente ia prejudicar o aspecto da sala. Um aparelho na parede e outro do lado de fora, na varanda, parecia-me um atentado. Foram anos de luta. 

Mas este ano rendi-me, o calor era quase insuportável. Há alturas em que uma pessoa tem que ceder aos argumentos e deixar-se de frescuras.

E tenho que reconhecer que o sítio em que foi colocado o aparelho interior não fere muito a vista. Aliás, acho que, quem não andar à procura dele, se calhar nem o verá.

Mas houve efeitos colaterais.

Para que os homens pudessem trabalhar, foi preciso afastar esta mesa e a mesa estava pejada de livros, foi preciso afastar as cadeiras e as cadeiras estavam pejadas de livros e foi preciso tirar os livros da estante sobre a qual, quase junto ao tecto, se iria colocar o aparelho.

Quem ficou em casa no dia da instalação foi o meu marido que, em três tempos, pegou nos livros e os colocou sobre um dos sofás, sobre uma estante mais distante da obra ou em montes num canto do chão onde não estorvavam.

No outro dia, a obra concluída, apesar de eu lhe ter pedodo que não se pusesse a arrumá-los, quando cheguei a casa tinha ele começado, por sua alta recriação, a fazer montes em cima das estantes tentando discipliná-los. Claro que a lógica dele não é a mesma que a minha e livros, cá em casa, é pelouro meu pelo que prevalecem os meus critérios, sendo ou não os melhores. Felizmente, tinha chegado pouco tempo antes de mim e, portanto, mal tinha começado as arrumações pelo que os estragos não foram dramáticos.

Com a vida que tenho tido, só hoje ao fim do dia, depois dos afazeres e prazeres familiares, pude entregar-me a essa empreitada. Acontece que, cansada como tenho andado, quando cheguei a casa, senti uma vontade inadiável de me deitar e adormeci de imediato, umas duas horas de sono profundo. Ou seja, só já de noite, consegui finalmente atirar-me a esta faxina.

A questão é que, tirando os livros que estavam dentro da pequena estante sob o aparelho de ar condicionado, todos os outros são os que estavam por aqui e por ali ainda não foram registados na base de dados. Ou seja, ainda não podem ir para as estantes temáticas definitivas senão serão devorados pelos que lá estão e nunca mais lhes encontro o rasto.

Por isso, o que estava em questão era, tão só, fazer montes temáticos, para colocar em cima de duas pequenas estantes baixas e reocupar a que tinha sido esvaziada.

Como sempre, comecei por espalhá-los no chão a ver como haveria de os agrupar.

Levei umas duas ou três horas nisto e ainda não acabei mas, os que já estão devidamente amontoados, agora já estão 'encontráveis'. A ver se amanhã consigo completar a faena.

Vejo-me sempre aflita com os que têm formatos complicados ou com os que não são apenas nem uma coisa nem outra como, por exemplo, livros de pinturas sobre poemas ou vice-versa. Acabei por colocá-los num espaço próprio mas já sei que daqui por algum tempo vou querer encontrar algum deles e não me vou lembrar que está ali.

Mas, enfim, para já, até que alguma alma generosa se disponha a inseri-los na base de dados, ficarão assim. E já tenho esta mesa desafogada e as cadeiras até já podem servir de cadeiras.

E, no meio disto, ainda não referi talvez o principal: está aqui um fresquinho de dar gosto...
Que estupidez a minha ter empatado, durante tantos anos, tão óbvia decisão. Antes escrevia-vos sob os efeitos da canícula e nem a janela aberta me trazia os frescores do rio lá em baixo. Agora escrevo-vos de um ambiente climatizado, agradável. A ver é se as ideias passam a vir também mais acertadas.

Mostro-vos o making of desde a fase da bagunça total até à fase actual.

Antes:






E, agora:






(na direita lateral e na baixa são visíveis conjuntos que ainda carecem de 'arrumação')
....

Tinha deixado aqui na mesa o Caderno de Leituras com textos da Maria Gabriela Llansol e a Obscénica da Hilda Hilst com ilustração de André da Loba, justamente dois dos que têm formatos de difícil arrumação e que tenho que ver onde os vou colocar pois são maiores ainda que os outros incomuns, e também o Água Viva de Clarice Lispector e tinha pensado escolher alguns pequenos excertos para os partilhar convosco mas a verdade é que já é bastante tarde e não quero começar a semana com uma fraca noite de sono (embora não saiba se, com o que dormi há bocado, vou agora dormir de noite).

Portanto, fico-me por aqui.
......

PS: Ouvi de tarde, no rádio do carro, que se demitiu Ascenso Simões, o senhor que andava a dirigir a campanha socialista. Fez bem em demitir-se, claro. Não conheço Duarte Cordeiro mas acredito que vai fazer melhor do que quem lá esteve até agora já que dificilmente alguém conseguiria fazer pior. Só espero é que o PS tenha aprendido alguma coisa com o desastre. 

A responsabilidade de uma campanha publicitária nunca é apenas do director de comunicação, dos publicitários e dos técnicos que lhe dão corpo: a responsabilidade é sempre, sobretudo, de quem tem a última palavra e a última palavra é sempre de quem manda. 
Portanto, daqui lanço mais um apelo a António Costa: a ver se, a partir de agora, atina e as coisas entram nos eixos. A exigência começa nas pessoas que se escolhem para a equipa e só espero que as próximas escolhas sejam de qualidade, que as equipas estejam bem coordenadas e que os resultados comecem a aparecer. Já tarda.
....

A música é Amore -- Ryuichi Sakamoto

.....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

Boa sorte e muita saúde e muita esperança e alegria a todos.

...

quinta-feira, abril 09, 2015

A cabana de Heidegger


Ora bem. No post abaixo há uma história com uma moral muito útil e, de bónus, uma prova científica de que afinal os homens conseguem pensar em duas coisas ao mesmo tempo.

Mais abaixo ainda há uma 'cena' que é uma maravilha e uma maluquice e que, de forma alguma, deve ser reproduzida pelos meus Leitores, especialmente pelos que têm amor à vida.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é completamente outra.





Ryuichi Sakamoto 'The Sheltering Sky'



Quando penso em ter tempo livre para mim, por exemplo um dia que me reforme e que possa dispor livremente do meu tempo, penso em dedicar parte dele a escrever. Nada a sério, que para isso não me parece que tenha suficiente competência, mas para estar entretida ou para me descobrir melhor. 

No entanto, quase tão importante como ter tempo suficiente para poder escrever coisas com princípio, meio e fim, é pensar onde. Aliás, se penso em escrever, quase que a primeira coisa em que dou por mim a pensar é nos aspectos logísticos. E, confesso, a coisa não é pacífica. Não quero estar isolada mas também não quero estar distraída. Não quero estar fechada mas também não quero dar por mim a olhar pela janela, não quero estar confinada ao espaço estrito do computador mas sei que, mal dou por mim, estou cercada de livros. 

Imagino-me numa mesa grande de madeira. Nas pontas alguns livros mas, no sítio onde escreveria, um espaço aberto. Talvez com uma jarra com flores. Flores frescas, perfumadas. 

Quando estou in heaven já experimentei escrever na mesa da sala de jantar mas não me agrada muito, parece que estou desacompanhada.

Mas se me ponho a escrever na escrivaninha da sala de televisão, parece que não tenho o distanciamento suficiente.

Se vou para a rua, para a mesa que está debaixo do telheiro, ou há luz demais ou calor ou frio ou vento ou reparo que devia varrer ou que devia regar.


E depois há os aspectos prosaicos: uma pessoa tem vontade de escrever mas não deixa de ter a sua vida normal e ora é preciso ir ao supermercado, ora é hora de fazer o almoço, ora é hora de ligar à mãe e aos filhos, ora é preciso arrumar a casa, ora tudo isso.

Não sei como fazem os escritores de verdade. Volta e meia leio que pegam na trouxa e vão para um hotel. Mas eu isso acho que não, acho que me parecia impessoal, impróprio para uma pessoa mergulhar dentro de si. Mas depois penso que talvez num hotel ao pé do mar fosse possível e, imagine-se, dou por mim a pensar em Saint-Malo. Não sei porquê mas acho que em Saint-Malo poderia escrever muitas páginas.

Agora estou aqui na sala, sozinha, a mesa pejada de livros, um candeeiro de pé iluminando o computador, a televisão ligada.  Talvez conseguisse escrever aqui mas só de noite. Parece que aqui só de noite quando a cidade dorme e a chuva cai sozinha na rua, escorre aqui na janela, uma solidão boa.

Contudo, aqui, assim, acho que só me dá para escrever coisas à toa.

Mas estou com esta conversa porque tenho aqui comigo um livrinho que me está a agradar muito. Leio aos bocados, não tenho tempo para mais, mas estou a gostar mesmo. Chama-se 'La cabaña de Heidegger - un espacio para pensar' de Adam Sharr. 




Desde el verano de 1922, el filósofo Martin Heidegger (1889-1976) comenzó a habitar una pequeña cabaña  en las montañas de la Selva Negra, al sur de Alemania. A lo largo de los años, Heidegger trabajó desde esa cabaña en muchos de sus más famosos escritos, desde sus primeras conferencias hasta sus últimos y enigmáticos textos.


Leemos en su introducción “Este libro trata de una intensa  relación entre el lugar y la persona. En el verano de 1922, Martin Heidegger (1889-1976) se mudó  a una pequeña cabaña construida para él en las montañas de la Selva Negra en el sur de Alemania.  Heidegger llamó a este edificio, de aproximadamente 6×7 metros en planta “die Hütte (la cabaña). En ella trabajó en muchos de sus más famosos escritos, desde sus primeras conferencias, que cautivaron a los estudiantes, y sus primeros apuntes del libro “Ser y Tiempo”, hasta sus últimos y tal vez más enigmáticos textos. 

Heidegger pensó y escribió en la cabaña a lo largo de cinco décadas, a menudo solo, reclamando una intimidad emocional e intelectual con el edificio, sus alrededores y el paso de las estaciones.

Para Heidegger, Todtnauberg fue mucho más que un emplazamiento físico. En 1934 hablaba  de entender su obra filosófica como parte de las montañas y de que el trabajo le encontraba a él junto con el paisaje. 



Se concebía a sí mismo como un escritor sensible, sugiriendo que la filosofía transmutaba el paisaje en palabras a través de él, casi sin intermediarios. 

El filósofo aseguraba que había un sustento conmovedor en el clima cambiante de la localidad, el sentido de interioridad del edificio, la lejana vista a los Alpes y la primavera. Atribuía una “ley oculta” a la filosofía de las montañas. 


Mientras que algunos han encontrado un valor en el provincialismo de Heidegger, otros encuentran penosa su abdicación de la acción y su tendencia al romanticismo, dado su destacado compromiso con el régimen nazi en la Alemania de la década de 1930. 

Al abordar los escritos de Heidegger - en especial a los que se refieren al “habitar” y al “lugar”, que han interesado a los arquitectos - es importante considerar las circunstancias en las que el filosofo se sintió “transportado” dentro del “propio ritmo” de las obras .


____



Poema de Heidegger recitado por Abujamra

 ____


As fotografias mostram a cabana de Heidegger

____

Relembro que, por aí abaixo há mais dois posts, um de humor e outro de natureza, desporto e loucura.

____

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta-feira do melhor que há.

.....

terça-feira, março 17, 2015

'Uma menina prendada'




Hoje recebi um presente daqueles que me enche de prazer e que chegou num dia mesmo bom para o poder desfrutar. Falava e mostrava vários Métiers d'Art. Toda a revista, que aqui não tenho como mostrar (quanto muito o site), é um luxo, um deleite. Não há métier d'art que me seja indiferente e não há laborioso e amoroso trabalho feito à mão que a mim me não encante. 

No mail que o acompanhava, o Leitor - a quem já agradeci mas a quem aqui agradeço de novo - falava dos tapetes de Arraiolos que uma sua familiar fazia. 

Também eu os fiz e deles já aqui falei muitas vezes. Tive o privilégio de conhecer uma Mestre com quem estabeleci amizade e que tinha (e tem) o desenho original de tapetes originais que se encontram em Museus e Fundações. E, então, sem antes ter tido aulas ou ensinamentos, um dia pedi-lhe um desenho, juta e lãs para um determinado tapete de corredor. Ela assim o fez e, no dia em que lá fui buscar, pedi-lhe que fizesse meia dúzia de pontos para eu aprender. Quase deu um salto, escandalizada: 'Mas ainda não sabe fazer?!'. Quando lhe disse que não mas que, se ela fizesse uns pontos eu fixava, achou que eu só podia estar a gozar. Toda se zangou, que nem pensar, que havia cursos, que isso não era assim. Pedi-lhe que me dissesse as regras básicas, que me mostrasse o ponto em linha e como se mudava de linha e como se faziam as diagonais. Quase ofendida disse-me que eu tinha que ir aprender e depois, então, que fosse lá buscar o desenho e o material. Quase nos zangámos. Por fim, depois de eu explicar que não tinha tempo para cursos, toda contrariada, lá me fez uma meia dúzia de pontos. Pedi-lhe que me deixasse a agulha posta na posição de continuar para me ser mais fácil prosseguir.

Quando nessa noite peguei naquilo, queria continuar e nada me batia certo. Na posição em que a agulha estava eu não conseguiria retomar o ponto tal como me parecera ter percebido. Estava mesmo infeliz, já a ver-me a ir lá de corda ao pescoço dar-lhe razão. Às tantas verbalizei a minha dificuldade, 'Não consigo retomar o ponto a partir da posição em que está a agulha...'. Aí a minha filha, com a maior descontração confessou: 'Ah... a posição da agulha era importante...? É que estive a mexer nisso, tirei a agulha e depois voltei a pôr mas não faço ideia da posição em que a pus.'.

Ora bem. Peguei então naquilo, reorganizei-me mentalmente e, durante anos, à noite, nunca mais parei.

Fiz tapetes e carpetes de vários tamanhos, cores e feitios. Tenho esta casa cheia e a casa in heaven também. Duas dessas carpetes, já aqui as mostrei, estão agora em casa do meu filho.

Primeiro, a partir do desenho em papel quadriculado, eu bordava os contornos dos desenhos, tendo em atenção as cores. Essa é a parte complicada pois o desenho só contempla um quarto do tapete já que o tapete é composto por quatro partes simétricas. E, portanto, estamos a ver o desenho no papel e, em cada dois quartos, a ter que bordar ao contrário. Por exemplo, olhava para o desenho e fixava: três pontos para a direita, um em diagonal para cima, dois verticais e depois quatro horizontais para a esquerda. E, ao bordar tinha que, de cabeça, onde era direita, fazer esquerda e vice-versa. Portanto, estava a ver televisão mas absorta, só concentrada nesta mecânica. E, claro, sempre com atenção às cores pois um tapete destes leva vinte e tal ou trinta cores diferentes, algumas de tons muito parecidos. Depois do desenho todo feito, começava a fase de enchimento dos desenhos. E todos os dias, ao começar, eu pensava, por exemplo, hoje vou encher o tigre e a árvore e, enquanto o não fizesse, não me ia deitar. Depois, entrava no enchimento do fundo e aí era uma luta contra o tempo, eu a querer acabar para aplicar depois a franja e poder tê-lo pronto e, enquanto não via o fim, não descansava.

Antes disso tinha passado pelo tricot e, depois ou ao mesmo tempo, pelo crochet. 

No crochet, toalhas, colchas de renda, sei lá. 

Ainda estive para ir fotografar a colcha branca mas é pesada, não me apeteceu estar a abri-la. Por isso, fui a uma das gavetas da casa de jantar e tirei uma toalha redonda que fiz para uma camilha que tinha numa altura em que a casa estava mais para o convencional. Mas não gostava, ter toalhas com toalhas de renda por cima, parecia-me mais a casa da minha mãe ou das tias do que a minha e, portanto, a toalha para ali está guardada.

Houve uma outra época em que fazia individuais para mim e para oferecer pelo Natal. Usava linha grossa, rústica, e fazia-os de toda a espécie e feitio. Inventava pontos, modelos, era o que me vinha à cabeça. A linha rendia e despachava individuais a grande velocidade.

Quando os oferecia, quem os recebia olhava para mim com espanto: 'ai, que menina prendada...'. Não parecia bater certo que eu fosse dada a tais habilidades.

Com o tempo, acabei por me deixar disso.

A verdade é que, cá em casa, raramente os uso. Para, no dia a dia, pôr na mesa prefiro individuais laváveis, bem mais práticos. Estes, de linha, têm que ser lavados de cada vez que são usados à mesa. Estou a ver a fotografia e parecem-me um bocado manchados, não sei se é da fotografia ou se estão a amarelecer de estarem sem uso.

Mas, enfim, foi uma época.

Não mostro os quadrinhos que bordei sobre cetim branco ou seda preta, com linhas de seda coloridas. Montava o tecido num bastidor e, quem me visse, poderia tomar-me por uma donzela de há séculos atrás. Comecei com motivos florais mas foi sol de pouca dura, logo derivei para desenhos futuristas. Mas não os posso mostrar porque os tenho in heaven.

Tendo sido nados e criados a visitar museus e exposições de toda a espécie e feitio, coisa que, de resto, os deixava frequentemente à beira da rebelião, os meus filhos sempre souberam da minha devoção por pintura.

Então, um dia, para minha surpresa, o meu filho ofereceu-me um cavalete, tintas, pincéis. Pensei que ele estava doido. Muitas vezes eu pensava que gostava de experimentar mas quem gosta muito de uma coisa sabe bem a distância que vai entre gostar e ser capaz de fazer o mesmo.

A medo, com pena de desperdiçar os materiais, lá me fui, a pouco e pouco, afoitando. Até que lhe ganhei o gosto. Que liberdade, que alegria. Uma vez mais, era de noite que eu gostava de pintar. Especialmente ao fim de semana, ficava até às duas ou três ou mais a pintar. A pintar nada em particular. era o prazer infantil de pintar. E misturava materiais com tintas, e pintava, pintava noite fora.

Os quadros que tenho aqui nesta casa e que já tinha antes desta aventura, comprados portanto, eram geralmente em tons claros, muitos quase minimalistas, algumas aguarelas, tons suaves. E, no entanto, sendo esse o género que mais me agrada, quando pinto é uma torrente de cor, um disparate, as cores jorram, um excesso. Isto que aqui vêem ao lado é o canto de uma tela grande que está nesta sala. Nada tem a ver com nada. Por baixo do corpo da mulher escrevi woman in love e há mais coisas escritas mas não faço ideia porquê. Apeteceu-me, e uma pessoa poder fazer o que lhe apetece sem ter que dar satisfações a ninguém é uma sensação muito boa. Nunca me passou pela cabeça pensar se estava a pintar bem ou mal. Estava simplesmente a pintar para meu próprio e intenso prazer.

Mas também fiz pinturinhas mais normais. 

Em casa da minha mãe há várias pinturas minhas mais comuns, flores sobretudo, grandes ramos de flores campestres, e acho que até não estão mal de todo. 

Querendo, sou capaz de fazer coisas que parecem ser qualquer coisa. 

Por exemplo, logo muito ao princípio, quis fazer um quadrinho para colocar numa parede estreita que separa o hall da sala de jantar e esforcei-me por que saísse alguma coisa que não intrigasse toda a gente (porque o que mais arrelia é uma pessoa fazer uma coisa pelo prazer de a fazer e depois virem perguntar o que é). 

Fiz então umas florzitas vagamente inspiradas nos jarros do Mapplethorpe. Tinha lá in heaven uns jarros no canteiro junto à cozinha e então coloquei-os nesta posição e pintei à vista.

Mas depois já não tinha onde pôr tanto quadro, distribuí-os, dei-os, e ainda tenho por lá montes deles. Mas volta e meia bate uma saudade...!

Virei-me então para tarefa mais simples: fazer colares e pulseiras. Outro entretenimento. 

No verão, quando estou lá de férias, quando vou sair (o que é raro pois não há nada que me apeteça mais do que lá estar posta em sossego, ao sol ou à sombra, a ler ou a varrer), se, por exemplo, visto um vestido preto com flores encarnadas, logo penso, ora bolas, agora não tenho aqui uma bijuteriazinha a condizer. e, então, monto a minha banquinha e faço, num instante, um colar e uns brincos que façam pendant. Outras vezes faço coisas mais elaboradas, com pedrinhas pequenas, mais difíceis de enfiar e ali estou entretida. Por vezes, quando acabo vejo que onde tinha colocado uma pedra num certo tom azul não usei o tom certo e, para minha arrelia, tenho que desmanchar quase tudo e começar de novo. Mas faço-o de gosto.

Para vos mostrar fui ali buscar uns mas meteu-se outra coisa pelo meio e, para despachar, peguei apenas em dois e, por sinal, pouco significativos. Não faz mal, também não os estou a pôr à venda. Uma vez mostrei aqui um colar e uns brincos e, no dia seguinte, recebi um mail de uma pessoa do Brasil a perguntar quanto é que custava o conjunto. Achei imensa graça.

E assim me tenho vindo a entreter, ao longo dos anos. Pelo meio a leitura, sempre. E a fotografia. Milhares de fotografias. Quando começo com qualquer coisa sou imoderada, a minha produção parece que ganha vida própria, uma coisa estranha.

E vocês, Caros Leitores, têm a prova disso aqui. Agora o meu passatempo nocturno é escrever para vocês. E o que eu escrevo, senhores. Leio outros blogues e fico encantada com a sua contenção, poucas palavras, um look despojado, cores claras. Mas chego aqui e é isto, um exagero total. A sorte é que não tenho a limitação de espaço que tinha com as outras coisas. Mas tenho sempre a sensação que um dia me irei virar para outro lado. Escrever um livro, por exemplo. Ou simplesmente responder aos mails, estar mais próxima das pessoas, não sei. Ou, então, deixar-me estar sossegada a ler.

Mas agora nem vale a pena pensar nisso. É aqui que estou à noite e é aqui que a 'menina prendada' agora se sente bem.

......

PS: Sei que ando um bocado arredada dos temas da política nacional mas a verdade é que acho que é a política que anda arredada de Portugal. Há um vazio quase tenebroso. Este malfadado governo deu cabo de quase tudo no país e as possíveis alternativas ainda estão na fase dos baby steps, nada de entusiasmante acontece. Por isso, não tendo paciência para andar a bater sempre no ceguinho que já está mais do que moribundo, apetece-me espairecer e falar de assuntos mais tranquilos.

.....

A música lá em cima era Ryuichi Sakamoto interpretando a música que serve de banda sonora a 'The Sheltering Sky', um filme que acho que um dia destes hei-de rever.

.......

No post seguinte temos humor: o nosso querido Lombinha no seu melhor, a explicação da diferença entre sexo e amor e, para terminar um marido desaparecido na Porta dos Fundos.

....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira, vivida em tranquilidade.

...