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sábado, julho 25, 2026

Bilionários, Musk e o fim do dinheiro: uma profecia por medida

 

Li esta semana a newsletter do Robert Guest, director-adjunto da Economist, a propósito da entrevista de Zanny Minton Beddoes a Elon Musk. O texto é curto, mas junta num único parágrafo três ideias que merecem ser separadas antes de serem discutidas: a defesa da fortuna dos bilionários, a profecia de Musk sobre o fim do dinheiro e o aviso, vindo do próprio Musk, de que a IA poderá deixar de nos obedecer.

Imagem gerada pelo Chat GPT

Começo pela primeira. O Economist argumenta que a maior parte da riqueza dos bilionários actuais não vem de heranças nem de cunhas, mas de indústrias competitivas, e que isso beneficia o público. É uma tese defensável, e Guest tem a honestidade de admitir a sua própria ironia biográfica: foi bilionário durante uma noite, em Angola, na era da hiperinflação, o que reduz o conceito ao absurdo antes mesmo de o discutir a sério. Mas a tese generaliza um argumento sectorial (tecnologia, sobretudo) para uma classe inteira de fortunas que inclui petróleo, imobiliário e finanças, sectores onde a relação entre riqueza e benefício público é muito menos evidente. Defender os bilionários em bloco porque alguns deles inovaram é o mesmo erro, ao contrário, de condená-los em bloco porque alguns herdaram ou exploraram posições dominantes.

A segunda ideia é a mais reveladora. Musk prevê que, dentro de poucos anos, o dinheiro deixará de ter importância, incluindo a sua própria fortuna de 750 mil milhões de dólares, porque a IA criará uma abundância tal que acumular moeda deixará de fazer sentido. É uma promessa antiga com roupagem nova: sempre que uma tecnologia promete acabar com a escassez, promete também acabar com o poder que a escassez sustenta. Ora quem faz esta previsão é, precisamente, quem mais beneficia de adiar a redistribuição desse poder até esse dia hipotético chegar. Enquanto a abundância não chega, a fortuna, o controlo das empresas e a influência política continuam concentrados nas mesmas mãos que prometem dissolvê-los amanhã. É uma escatologia conveniente: pede-se fé no fim dos tempos a quem já detém o presente.

A terceira ideia é a que devia preocupar mais gente e preocupa menos. Musk admite, na mesma entrevista, que a IA poderá vir a ser tão mais inteligente do que os humanos que a nossa relação com ela se pareça com a relação entre um chimpanzé e um humano. A proposta de segurança que oferece, os próprios pioneiros da IA vigiarem-se uns aos outros, com o governo como rede de protecção, é notavelmente fraca para o tamanho do risco descrito. Confiar a auto-regulação a um punhado de empresas em competição directa entre si, cada uma com incentivos financeiros para acelerar em vez de travar, não é uma política de segurança, é uma declaração de intenções. O próprio artigo lembra a fuga recente de um modelo de uma jaula supostamente segura, o que só sublinha a distância entre o discurso tranquilizador e os factos já disponíveis.

Vale a pena juntar a isto a crítica de Tim O'Reilly, citada no mesmo texto: Musk estaria a construir uma forma de capitalismo sem os controlos que os accionistas normalmente exercem sobre os gestores. Esta observação liga as três ideias anteriores. Um homem que concentra poder sobre empresas sem supervisão efectiva dos accionistas, que promete uma abundância que ainda não chegou, e que ao mesmo tempo admite não ter a certeza de conseguir controlar a tecnologia que está a construir, não está a oferecer garantias, está a pedir confiança antecipada. E a história do luddismo, também referida na mesma edição, devia servir de aviso: não é que os luditas estivessem errados sobre o impacto da mecanização nas suas vidas, estavam errados sobre a possibilidade de a travar. A pergunta que interessa hoje não é se a IA vai mudar tudo, é quem decide os termos dessa mudança enquanto ela acontece, e não depois, quando já não houver nada a negociar.

Este texto parte do editorial de Robert Guest na newsletter da Economist de 24 de Julho de 2026, a propósito da entrevista de Zanny Minton Beddoes a Elon Musk.

quinta-feira, julho 23, 2026

Da próxima vez

 

No acelerar dos dias, entre toda a espuma da infinita torrente informativa que nos submerge, grande parte do que é importante passa desapercebido. Por experiência própria, agora que tenho conta de instagram, sei que se queremos acompanhar tudo o que o algoritmo tem para nos mostrar, não paramos de escorregar o dedo pelo ecran para ver a notícia seguinte e a outra e a outra e a outra. E tantas vezes, aquilo que não compreendemos bem acaba por se esvair entre tudo o que é sugado pela máquina trituradora do que já foi visto.

No outro dia li uma notícia. E como me tem acontecido com alguma frequência, sempre que é uma aberração, a minha reacção é a de pensar que talvez não seja credível. Faço mal. O inteligente seria ir investigar. Mas continuo a deslizar, penso que depois logo vejo se é mesmo verdade, e o que acontece é que nunca mais me lembro.

E, tal como tem acontecido com todas as aberrações, venho a verificar, depois, que, afinal, era mesmo verdade.

Quando um assunto é nebuloso, fora do nosso controlo, coisa complexa, há quem tenda a não querer saber. Uma reacção do tipo 'entrega para deus'. Só que, neste caso, não é bem a deus que se entrega. É à Open Ai, à Anthropic, à Gemini, sabe-se lá a quem.

Transcrevo: "Modelo de IA da OpenAI age por conta própria e lança ciberataque durante testes de segurança"

"(...) A OpenAI afirmou que o que aconteceu foi um incidente "sem precedentes" e está a conduzir uma investigação em conjunto com a Hugging Face, cujo diretor, Clement Delangue, afirmou numa publicação no X que é "impressionante que tudo isto aconteceu de forma autónoma".

Só que não é apenas impressionante: é a prova provada dos reais riscos que todos corremos com a corrida desenfreada nos domínios da Inteligência Artificial. O mercado bolsista pressiona mais e mais ganhos e as empresas são pressionadas a entregar mais e mais, a chegar mais e mais longe. 

Enquanto houver quem descubra o que vai acontecendo ou enquanto houver quem vá denunciado as linhas vermelhas que, aos poucos, vão sendo pisadas, talvez os riscos vão sendo amortecidos. Mas pode acontecer que um dia algo de muito mau aconteça sem que ninguém vá a tempo de travar.

Não é alarmismo. É a realidade. Os riscos começam a apertar o cerco. Como será da próxima vez?

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Ao acordar e ao dar uma vista de olhos pelas notícias vi o que também não queria ver: Luís Represas saiu de cena. Não devia. A sua voz parecia eterna. A sua voz mobilizava e emocionava multidões. Ficam os vídeos, os discos. É certo. E é também certo que ninguém cá fica. Mas ele foi cedo demais.

Como sempre acontece, quando sei destas notícias, tento compreender. Tento ver nas imagens que agora nos vão aparecendo se já havia indícios. Em Março esteve no concerto e, que se tivesse percebido, parecia bem, não parecia debilitado, cantava, não arfava nem tossia. 

Dois familiares muito próximos morreram com cancro no pulmão. Foram anos de sofrimento com tratamentos horríveis. E tinham tosse, falta de ar, custava-lhes a respirar, tudo lhes doía. Um calvário. Mas, no caso da minha mãe, não foi assim. Não soubémos de nada até que já estava às portas da morte. Será que com o Luís Represas foi também assim? Saberia ele, no concerto de Março, que estava a escassos três ou quatro meses de se despedir deste mundo? Faz-me isso muita impressão. Ao ver agora as suas imagens, penso que estava mal encarado. Aliás, já o tinha achado envelhecido, enrugado. Na altura pensava apenas que a idade não perdoa, que era normal que, quase aos 70, não tivesse a mesma carinha de menino que sempre teve. Mas, agora que sei, penso que, se calhar, era já a morte, inclemente, a galope dentro dele. Se calhar é mórbido eu querer perceber o que talvez não tenha nada que perceber. Mas faz-me isto muita impressão. Ele e o João Gil e os outros ali em palco, todos reunidos. Saberiam que o fim dele estava para breve? Fico triste. Nem todas as perdas são assim, mas esta é. A morte não deveria ter levado já o Luís Represas. 

Não haverá próxima vez.


Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, junho 24, 2026

E a biologia, senhores, o que vai ser dela...?

 

Como sempre, dia sem horários. O meu marido passa-se um bocado pois gosta de estruturar o dia, fazer planos. Eu não, eu é naquela base, à hora que for. Ele lá vai conseguindo encaixar-se. E eu, de certa forma, lá vou cedendo a ser minimamente domesticada.

Dia de praia e de gaivotas. Não estava um sol ardente, e ainda bem, mas estava-se bem. 

A praia para nós não é espetarmos o chapéu de sol, abrirmos as cadeiras ou estendermos as toalhas no chão e ficarmos ali. Nada disso. Não há pachorra para esse imobilismo. Para nós, praia é para bater perna. Caminhámos, pois, à beirinha de água e, como é costume, não consegui resistir à tentação das conchinhas. O meu marido bem tenta demover-me mas já apenas balbucia, já sabe que é uma causa perdida. Gosto de conchinhas e quanto mais translúcidas ou mais nacaradas ou com quanto mais imperfeições, melhor. Claro que depois fico sem saber o que fazer com elas, mas isso já são outros quinhentos. Para já, tenho posto numa mesinha, no terraço, onde estão uns vasos. 

E vou fotografando, adoro ver o mundo através de uma lente, mas na praia, confesso, é um bocado mau pois, com o sol, não vejo bem o que o telemóvel está a ver. Mas é o que é, e contento-me com isso. 

Não tomei banho a sério, mas avancei um pouco pelo mar. É certo que tinha os chinelos e o vestido na mão pelo que não pude mergulhar, mas senti o fresquinho bem batido das ondas. E, se não acreditam, podem ir ao meu instagram conferir (na story, a entrada nas águas, e no feed o agrupamento de gaivotas).

De regresso, fomos comprar sushi e caracóis para comermos em casa. Se é para parecer que estamos de férias, e estamos e são das grandes, das boas, então que venham os petiscos. Mas estamos comodistas: os tempos de espera nos restaurantes já nos impacientam. Preferimos chegar a casa, tomar banho, e, com calma e à fresquinha, refeiçoarmos ao nosso ritmo.

Além disso, também estive a ler --  embora me esteja outra vez a empastelar toda nas Crónicas da Lídia Jorge. Não sei. Há na escrita dela qualquer coisa que, a meus olhos, não flui. Ou, pelo menos, não fui com espontaneidade, com graciosidade. É certo que tem umas bem achadas mas umas ideias bem apresentadas (com as quais geralmente concordo bastante) ou umas imagens bem conseguidas não fazem dela uma escritora que me convença. Lamento dizê-lo. Ela é uma pessoa que me é simpática e, além disso, reconheço que o problema deve ser meu pois tem recebido tantos prémios que um mérito superior lhe reconhecem, disso não há dúvida, e não é a mim, uma iletrada qualquer, que valha a pena prestar atenção. Era o que faltava.

Portanto, siga o baile.

Não vi o jogo no qual a goleada encheu uma mão. Tenho para mim que o primeiro milho é para os pardais. No futebol e em tudo. Não é voluntário, é mesmo uma coisa que me transcende: não consigo interessar-me quando a coisa ainda está na fase de a ver no que dá. Quando estiverem nos quartos ou nas meias ou, porque não, na final, aí sim, aí estarei a torcer como uma maluca.

Portanto, enquanto dava o jogo, estive entretida cá nas minhas coisas. Sou fácil de me entreter. Ando com uma cena que tem prazos e objectivos e, portanto, ando nas minhas sete quintas.

E agora, aqui sossegada, ponho-me a par do que rola no mundo. E se rola, o sacana do mundo, anda imparável: os disparates e as baboseiras sucedem-se, os crimes ainda mais, mas, no meio da desgraça, também há muita coisa a acontecer. Para começar, há a natureza a acontecer em todo o lado e a toda a  hora e isso é uma maravilha. E há os avanços da ciência, uma coisa que pode vir a ser ainda mais espectacular.

Partilho um vídeo que gostei de ver. 

Nada de frases feitas, nada de aparatos, nada de 'conteúdos'. Há até uma certa humildade. E há a esperança. Mais que isso, a certeza. No fundo, apenas as coisas como elas são e como vão ser. 

É bom que a gente saiba o que por aí vai. Na ciência, por exemplo na biologia, por exemplo nas neurociências mas não só, a velocidade das descobertas e da aprendizagem é estonteante. Podemos estar no limiar de transpor várias barreiras do conhecimento. A Inteligência Artificial exponencia a velocidade de aquisição, de assimilação, de estabelecimento de correlações e de extração de consequências dos novos conhecimentos.

Há um lado bom nisto... caraças, se há. Há mesmo. Assim haja quem impeça que se pisem ou transponham as malditas linhas vermelhas.

(Nota: Podem colocar legendas. De vez em quando há pessoas que me chamam a atenção para que escolho vídeos em inglês quando muita gente não consegue seguir. Por isso, vou sempre dizendo: podem colocar a legendagem automática e escolher o português, já agora o de Portugal (caso estejam cá), mas, como tenho muitas visitas do Brasil, digo: se escolherem apenas o Português, terão as legendas com mais açúcar e a graça e o requebro brasileira).

Uma análise honesta da IA ​​na biologia feita por um laureado com o Prémio Nobel

O neurocientista e professor da Universidade de Stanford, Thomas Südhof, conversa com o escritor sénior Richard Nieva sobre a interseção entre a biologia e a tecnologia.

00:00 De músico a Prémio Nobel
02:35 Como comunica o cérebro
09:12 A verdade sobre como a ciência e a descoberta realmente funcionam
12:44 O sonho americano
17:18 A revolução tecnológica e a "lavagem com IA"
25:57 Conselhos para os mais novos 

Desejo-vos uma feliz quarta-feira

segunda-feira, junho 22, 2026

Dario Amodei e o seu cavalo feliz

 

Personagem fascinante. Ouço-o sempre com muito interesse. Parece ser de uma inocência desconcertante. Parece haver ali uma sinceridade que, na posição dele, se torna bizarra. Mas é daquelas sinceridades que, de tão francas, deixam no ar alguma perplexidade. Parece um puro. Num meio tão competitivo, tão exponencialmente criativo, em que tanto dinheiro rola de forma quase diluviana, Dario Amodei parece saído de um outro mundo.

É o génio da companhia, o que impulsiona o desbravar, o derrubar de muros. Mas, ao mesmo tempo, o que, tendo definido as linhas vermelhas, firmememente se recusa a pisá-las. E é de uma inteligência que perturba. 

Uma inteligência assim, aliada à sua sinceridade e ao que parece uma cândida inocência tornam-no merecedor de atenção. Ouço-o sempre com interesse. Penso que os políticos do mundo o deveriam ouvir com cuidado e talvez adaptar algumas políticas para preparar o que aí vem e para prevenir o que não se quer que aí venha.

Daniela, a irmã, é a pragmática, a gestora, a que dá cobertura às ideias do irmão, mas com as rédeas da equipa e da empresa bem agarradas. Ele voa, ela garante a saúde das raízes. Ambos parecem fortemente empenhados em manter a sua visão utópica de um mundo melhor, avançando de forma responsável.

Mas certamente não serão perfeitos e, portanto, sobre tudo o que se pense e diga nestas matérias há que ter os dois pés no chão e a capacidade para, a todo o momento, dar um passo atrás. E, ao mesmo tempo, a capacidade de subir uns degraus, até à galeria, e olhar a realidade a partir de uma grande angular.

A Inteligência Artificial é imparável e, neste momento, duvido que seja regulável. A regulação, perante um conjunto de rios descomandados depois de tempestades e chuvas torrenciais, é impossível. Teria sido antes de virem as chuvas: reforçar margens e diques, fazer desvios, são trabalhos que se conseguem fazer antes dos rios engrossarem e ganharem uma velocidade que pode ser destrutiva.

É certo que talvez haja a possibilidade das tais linhas vermelhas. Só que depois há a venalidade ou a ambição dos que querem estar no pódio ou a ductibilidade dos que dobram a espinha sem qualquer consciência para agradar aos ditadores, aos imperadores, aos psicopatas -- e aí não há como garantir coisa nenhuma.

O meu lado optimista leva-me a querer que, não obstante as vítimas que inevitavelmente vão ficar pelo caminho, ultrapassadas e pisadas pelos avanços da IA e pela sua utilização desbragada, no cômputo global, num horizonte temporal alargado, os humanos serão capazes de incorporar ferramentas que aumentam fenomenalmente a inteligência e a produtividade de uma forma que seja benéfica. 

Mas o meu lado mais realista preocupa-se não apenas com as vítimas como com os riscos que são enormes, quiçá existenciais. Se os decisores fossem gente com cabeça, talvez pudéssemos estar descansados, mas estamos a ver o que a Administração Trump está a fazer, tratando como perigosos adversários empresas como a Anthropic que querem manter um uso prudencial dos seus modelos de Inteligência Artificial.

Sou utilizafora amadora e muito limitada do Claude mas, como já aqui o referi, pasmo -- e deveria talvez escrever a palavra pasmo em maiúsculas ou a bold -- com as suas extraordinárias capacidades. É-me fácil imaginar o que se podem fazer com agentes Claude 'treinados' para agir de per se num qualquer domínio (na Saúde em diversas vertentes, na Segurança, na Ciência, na Gestão, na Economia e nas Finanças, na Engenharia, na Arquitectura, nas Artes e no Espectáculo, na realidade Fabril, no Ensino, na Justiça, etc). 

Os empregos em risco face à IA

Consigo perceber como, num futuro próximo, estaremos num outro mundo. E é claro para mim que quem não for capaz de se adaptar ficará para trás, soçobrará.

Aconselho vivamente o vídeo que aqui partilho. Está legendado. Diria que deveria ser visto do princípio ao fim (nem que seja para se perceber porque é que, no título, faço referência a um cavalo feliz). Mas todo o vídeo e interessante, diria que demasiado interessante para que se passe ao lado.

Por dentro da Anthropic, a gigante de IA de 965 mil milhões de dólares

Emily Chang reúne-se com os cofundadores da Anthropic, Dario e Daniela Amodei, para uma rara e aprofundada conversa sobre a história da startup, as suas batalhas com o Pentágono e como a empresa afirma que pretende priorizar a segurança na corrida de alto risco pela IA.

Aqui na versão reduzida 


Aqui abaixo na versão completa



Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

sexta-feira, junho 05, 2026

Dia bom, com ida à Feira do Livro (um gelado, vários livros).
E, para acabar, um vídeo todo fake.

 

Pode ser que amanhã mostre os livros que trouxe. Hoje não. Só faço bocejar. Estou com uma soneira tal que nem dá para imaginar. Acordei mais cedo do que devia e, em vez de voltar a adormecer, fiquei acordada a tentar descobrir se estava sozinha em casa ou se estavam apenas silenciosos. Depois ouvi o portão e percebi que estavam a chegar. Tentei perceber se já seriam horas de acordar ou se ainda era muito cedo. Claro que poderia ter-me levantado e ir ver as horas, mas tive receio de espertar. Já houve tempos em que tinha, na mesa de cabeceira, um relógio despertador. Agora, tudo isso caiu em desuso. Quando quero saber as horas, vejo no telemóvel. Mas geralmente não o tenho ao pé de mim.  Com isto, não voltei a adormecer e fiquei com um défice de horas dormidas.

Depois fui à Feira com a minha filha. Ela ainda se lembra das horas abaixo e acima quando ela e o irmão eram pequenos. Também me lembro. Íamos pelo menos duas vezes em cada feira, mas geralmente mais. Por vezes, no fim do dia de trabalho, ia lá numa corrida. Era muito viciada em livros. E lembro-me ainda antes, quando a Feira ainda era na Avenida da Liberdade e eu, sozinha, ainda miúda, por ali andava nas minhas sete quintas. Também me lembro de ir com os meus pais, sempre era uma maior capacidade de investimento do que quando ia sozinha e esticava a mesada para dar para alguns livros.

Agora a Feira está enorme, mas dá ideia que mais de metade dos livros são treta, tanga, muita cor e fantasia, mas conteúdo nulo. Mesmo alguns dos livros mais afamados, supostamente comercializados por editoras 'sérias', abrem-se e o que se vê são redacções básicas, conversa para encher chouriços, palavras desprovidas de vida. No meio daquela barafunda, desfoco-me, desconcentro-me, até porque se me focasse precisaria de muito mais tempo. Mas sobretudo, a falta de sobriedade das capas, o ruído de 'mercado', de feira popular, a confusão, tudo isso me causa algum agastamento. Também me dá um bocado de pena os escritores que ali se põem à espera que lá vão ter com eles. Nunca percebi qual a lógica ou a vantagem. Parece-me uma exposição um bocado artificial, senão mesmo humilhante. E depois há longas filas para pessoas que não se sabe quem são mas que, pelos vistos, vendem livros. Enfim, aquela já não é bem a minha praia. Ainda assim, trouxe sete livros. A ver se amanhã os mostro.

E jantámos em casa da minha filha, naquela sua ampla, bem temperada e luminosa casa. Os rapazes cada vez maiores, já só a quererem laré, cada um com as suas combinações. Ainda não há muito, era a mãe e o tio deles também sempre a saírem com os amigos. É bom que sejam sociáveis, que arejem as cabeças, que pratiquem desporto, que tenham amigos, que gostem de conviver.

Entretanto, íamos recebendo mensagens: o outro futebolista, o mais novo dos três guarda-redes (só o mais novo não saiu guarda-redes, e a menina é do vólei), estava num torneio de dia inteiro, a família foi torcer, e o pai ia dando notícias. Depois um vídeo, ele a defender um penálti, o pessoal a gritar pelo nome dele. Ao fim da tarde, tinha passado e ia para mais um jogo a ver se ficavam por ali ou se iam à final. Foram à final. E, por fim, já bem de noite, a vitória: venceram o torneio. E, para rematar, ele, todo feliz, com a taça na mão. Campeão. mais lindo

Entretanto, nós dois, quando regressámos à noite, ainda fomos passear com o cão mais fofo.

Com isto, só chegámos à sala tarde e más horas. O meu marido ligou a televisão, estava a dar o Eixo do Mal. Fiquei um bocado surpreendida, não sei porquê parecia-me sábado. Depois caí na real, qual sábado?, era quinta-feira. Seja como for, fiz um esforço para não dormir mas a impressão que tive é que não estive sempre acordada pois estou com dificuldade em lembrar-me do que disseram.

Agora liguei o computador e, ao abrir o youtube, apareceu-me um vídeo extraordinário. Às primeiras, vamos na inocência, uma pessoa até fica na dúvida se é verdade. Mas, quando se pára para pensar, percebe-se que é invenção, fake do mais fake que pode haver. Já há algum tempo me tinha parecido no Instagram mas aparece tanta coisa feita por IA que, mal me parece tanga, sigo adiante. Neste caso, fiquei a olhar e a tentar perceber, sob o ponto de vista de programação ou da física, se seria possível e a minha opinião foi que nem pensar. Por exemplo, fazer implantes capilares em segundos? No way. Mas, por via das dúvidas, perguntei às IA's. Embora me digam que já há robots que cortam e  lavam cabelos e massajam cabeças, ainda não fazem tranças nem fazem nascer cabelo. Claro.

Mas a verdade é que se, para já, não existem tais máquinas, a IA já consegue forjar uma realidade em que isso é possível. E, cada vez mais, vai sendo mais difícil perceber com exactidão onde está a fronteira entre o que é verdade, embora extraordinário ou extra-futurista, e o que é forjado.

De qualquer maneira, aqui fica desde já o meu veredicto. Caso haja por aí quem esteja mesmo a pensar fazer máquinas destas: a mim é que não me apanham a enfiar a cabeça numa coisa destas ou a deixar que uma cena daquelas me aspirasse o cabelo sabe-se lá para fazer o quê. Olha se o cabelo se ensarilhava lá para dentro e não conseguia tirar a cabeça a menos que lá deixasse ficar o cabelo todo... Ou se a máquina se engana e me pinta o cabelo de roxo e faz mil trancinhas, impossíveis de desfazer... Ná, not me.

Mas vejam lá o despautério (e não se deixem ir em cantigas, é tudo aldrabice):

Testaram estas máquinas de cabelo do futuro… Ninguém esperava por isto.

As máquinas de cabelo do futuro estão a começar a mudar a forma como o cabelo é penteado. Nesta compilação, são testadas diversas tecnologias capilares avançadas em demonstrações reais.

Desde sistemas automatizados de tranças a máquinas de styling futuristas, estes dispositivos de última geração podem transformar o cabelo em segundos.

Veja o vídeo completo e veja como funcionam estas máquinas de cabelo do futuro na prática.


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

quinta-feira, junho 04, 2026

NotebookLM

 

Estava a falar com o meu filho sobre as minhas experimentações em volta das diferentes ferramentas de Inteligência Artificial e ele falou-me no Notebook LM, uma ferramenta google que cria bases de conhecimentos privadas, analisando a informação que lá metemos, permitindo associar-lhe notas ou o que quisermos.

Fiquei logo altamente curiosa. No outro dia tinha feito uma experiência com o Claude, enfiando-lhe uma série de exames médicos relacionados com um episódio cardíaco e fiquei espantada com os resultados.

Hoje, mal me apanhei aqui no sofá, fui experimentar este NotebookLM. 

O meu ponto fraco, a nível físico, são as articulações, em especial os joelhos. Penso que seja um misto de genética, de anos de vida sedentária, intercalados por grandes esforços físicos. In heaven acartei com toneladas de pedras. A minha mãe ficava aterrada quando me via, dizia que o meu corpo iria dar de si. E, uma vez, falaram-me que não havia nada melhor para o chão de madeira do que a vaselina líquida. Claro que fui experimentar. Estava a aplicá-la, quando desataram a tocar à campainha. Aquilo era para dar e depois secar, pois, quando se dava ficava manteiga, deslizava como sei lá o quê. Mas, para ir ver quem era, levantei-me à pressa e, esquecida de ter cuidado, levantei voo, e de que maneira, e aterrei aparatosamente de joelhos. Tive uma dor monumental e pensei que tinha esfanicado os joelhos, partido todas as pecinhas que os compõem. Mas não, ficaram só muito doridos. Durante bastante tempo, andei aflita. Mas nem me ocorreu ir ao médico, limitei-me a esperar que passasse. E passou. Mas, seja porque é de família (o lado paterno padeceu de dores), ou dos maus tratos, a verdade é que volta e meia tenho alguma inflamação articular ou alguma dor muscular. Como durante anos frequentei o mesmo local de saúde, tenho praticamente todo o meu historial médico lá guardado. Então, agora estive a dar-me ao trabalho de entrar no portal, ver exame a exame, e, se tivesse a ver com o tema ou com análises feitas numa dessas alturas, descarreguei. 

Com tudo descarregadinho, abri o dito NotebookLM e criei o meu primeiro notebook privado. Meti lá para dentro 20 relatórios médicos (incluindo algumas imagens). E pedi uma cronologia e uma análise.

E a vantagem é que agora fica ali tudo guardadinho naquele notebook, não apenas os exames, como as análises 'dele' e, ainda, toda a conversa subsequente -- porque, claro está, desatei a fazer perguntas. E aquilo vai mais longe: sugere perguntas, e algumas pertinentes e de que eu nem me lembraria. Tudo guardado.

E o que 'ele' concluiu, mais uma vez, deixa-me a modos que siderada. E deixa-me assim porque constato que só uma máquina, uma máquina super aditivada, consegue, num abrir e piscar de olhos, ler todos os relatórios, analisar evoluções ao longo de anos, cruzar informação. Claro que ninguém vai para o médico de família carregado de relatórios desde antes de cristo até agora. Não há tempo ou capacidade de análise imediata de tanta informação. Impossível. Só tirando apontamentos e mais apontamentos -- mas quem é que teria tempo para fazer isso?

Perante o que vi, não tenho dúvidas que, para cada utente do SNS, deveria haver uma base de dados que juntasse todo o seu historial clínico, proveniente de onde fosse, incluindo de hospitais privados. E, de cada vez que qualquer médico, estivesse onde estivesse, deveria aceder a esse historial, tendo-lhe a Inteligência Artificial preparado um relatório de síntese, alertando para os pontos críticos, sugerindo questões ou novos exames.

No meu caso concreto, não vou estar agora aqui a entrar em detalhes que só me interessam a mim mas, por exemplo, 'ele' (ele, o notebookLM), assinalou como causa provável para as minhas crises algo de que nunca nenhum médico me falou, provavelmente porque não repararam e porque isso ficou perdido num relatório que nunca mais ninguém viu:  Constatou, num rx de 2016, o seguinte ->  Desequilíbrio Mecânico da Bacia, concretamente um supradesnivelamento de 8 mm à direita. E sugere que este desnivelamento pode ser a causa de grande parte dos problemas. Se for, resolve-se com palmilha. Imagine-se. Se ele, ele com aspas, tiver razão, os problemas que eu poderia ter evitado... Mas é a primeira vez que estou a saber disto.

Depois detectou, ao longo dos anos, uma tendência relativa ao funcionamento da tiroide. Nas últimas análises em que isso aparecia, e já lá vão uns 4 anos, ainda não era crítico mas a tender para o sub-clínico. No entanto, nunca mais ninguém pediu essa análise. Se já estiver mais elevado, também explicaria muita coisa.

A Inteligência Artificial é uma coisa tão extraordinária que, nas mãos erradas, representa riscos existenciais. E disso eu não tenho dúvidas. Mas, bem usada, traz vantagens se calhar também existenciais. Quando se diz que dentro de pouco tempo terá sido descoberta a cura para todas as doenças, isso tem tanto de magnífico como se terrífico. 

Agora, pensando apenas em usos benéficos, há que considerar o tempo de aprendizagem, a adaptação de todos, da sociedade no seu conjunto. Em vez de se andar a querer impingir leis laborais ou a discutir tretas, não seria mais ajuizado se a sociedade se mobilizasse para ver como lidar com a Inteligência Artificial? Como assegurar o seu bom uso? Como potenciar os seus benefícios? E, ao mesmo tempo, como impor linhas vermelhas?

Por exemplo: tendo eu esta informação clínica a meu respeito, compilada, analisada, interpretada, posso eu fazer alguma coisa com isso? Duvido. Para começar tenho que pensar como é que, com muito jeitinho, posso transmitir alguma coisa ao meu médico de família sem que ele fique furioso, a achar que quero saber mais que ele.

É um tema, este. E coloca-se em todas as profissões, ou quase todas.

Neste caso da saúde, se eu estivesse no Ministério da Saúde, encomendava já o projecto de que acima falei: criar um modelo de IA para concentrar toda a informação clínica de todos os utentes num único sistema, criando 'notebooks' para cada um, e gerando os relatórios, alertas e sugestões para que cada médico, ao receber cada doente, tivesse essa informação. 

Enfim. Não tenhamos dúvidas: estamos a entrar num mundo novo que era bom que fosse admirável (no bom sentido).

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Desejo-vos um bom feriado

sexta-feira, maio 29, 2026

Claude meu, Claude meu, diz-me: há alguém com melhor coração do que eu?

 

A minha maneira de ser leva-me a querer perceber as coisas, a investigar o quanto posso. Mas, se as áreas não são as minhas, tenho dificuldade em descobrir quais as bases de informação que devo consultar ou que elementos devem ser cruzados e analisados em conjunto.

A Inteligência Artificial veio ajudar nisto, embora, no actual estado da arte, o prudente ainda seja validar, cruzar com outras plataformas, tentar saber quais as fontes e ir lá. 

Vem isto a propósito de uma coisa que se passou comigo está prestes a fazer cinco anos, um evento que, na altura, os médicos não conseguiram explicar bem. Pelo menos, nunca me senti bem elucidada. Davam-me hipóteses e diziam que o mais provável é que fosse isto ou aquilo ou, até, um mero acaso.

Desde essa altura para cá, sou monitorizada e as conclusões nunca são óbvias. E eu vejo que os médicos não as explicam, pelo menos com o grau de profundidade que me satisfaça. Usam o truque de parecer que o tema é técnico demais para entrarem em pormenores ou dão a entender que na medicina nem sempre a ciência é exacta. 

Sendo eu uma pessoa das ciências, lido mal com isso.

Esta quinta-feira fui fazer mais um exame e, felizmente, estava tudo bem, e a semana passada outro e, felizmente, também estava tudo bem. Ou seja, aparentemente a situação que estava a ser monitorizada desapareceu (ou, se não desapareceu, está muito intermitente, a ponto de não ter sido detectada nestes exames). Mistério.

Gosto de mistérios na ficção mas, quando o tema é o funcionamento do meu corpo, já não lhes acho muita graça.

Agora dei-me ao trabalho de ir buscar todos os exames desde o fatídico dia em que, tendo levado de manhã a vacina da Janssen para a Covid, por mero acaso nessa tarde fui fazer o ECG que integrava a inspecção de trabalho e no qual detectaram um comportamento tão atípico que me despacharam, numa ambulância do INEM, para o hospital, com a indicação de que estava a ter um ataque agudo de miocárdio. Passei lá a noite e a manhã seguinte, uma experiência do pior que há, num espaço sobrelotado, as macas encostadas umas às outras, uns a gemerem, outros a gritarem, outros a vomitarem, muitos a tossir, a escarrar, outros a ameaçarem que partiam aquilo tudo, outros a chorar, ouros doidos a falar sem parar. Tudo sem máscara, numa altura em que a Covid ainda era um pesadelo. Felizmente, a meio do dia tive alta, saindo com a indicação de que no dia seguinte deveria apresentar-me em cardiologia.

Seguiram-se exames e mais exames, a revelação de que havia uma patologia, e que doravante deveria ser medicada e monitorizada. E assim tem sido.

Contudo, os exames nunca me pareceram muito concludentes ou, pelo menos, muito consistentes com o discurso oficial sobre o meu estado clínico, e, mais recentemente, o médico de família que passei a consultar e que não acompanhou todas as peripécias dessa altura, nunca ficou convencido com a medicação prescrita pelo cardiologista.

Hoje, com os exames todos (o que me deu uma trabalheira... encontrá-los todos, descarregá-los todos, dar-lhes nomes facilmente identificáveis, foi obra), desde esse fatídico ECG, à nota do hospital, os exames todos desde então para cá, enfiei tudo para dentro do Claude. E, em menos de um minuto, tinha um descritivo cronológico e interpretado das ocorrências. E o resultado pareceu-me lógico, perceptível, coerente. E, segundo ele (ele, Claude), a chave de tudo estava numa frase do relatório de um exame feito nesses dias, frase essa a que nenhum médico ligou.

E a leitura sequencial dos exames, a análise que faz, é deveras completa e interessante. Refere estudos que têm sido feitos, evidências científicas. Já cruzei informação com o Gemini e com o ChatGPT e fiz outras pesquisas ad hoc, e o que vejo parece-me plausível. Claro que o passo seguinte será tentar validar com os médicos, quer o de família quer o cardiologista. 

Contudo, sei bem que se me vou pôr a dar palpites sobre a análise temporal, sequencial, e interpretada que foi feita, irão aos arames. Tenho que estudar bem a abordagem. Mas, para a prova dos nove, seria interessante fazer mais dois exames e eu não os posso prescrever a mim mesma. 

Os médicos ainda não aprenderam a conviver com a realidade da Inteligência Artificial. 

Imagem gerada pelo ChatGPT

Acredito que para eles não seja fácil, mas o caminho vai, inexoravelmente, passar por aí. Eles próprios deveriam munir-se destas ferramentas. Um médico, numa consulta, ver ECGs, Holters, Dopplers, Eco às carótidas, Cintigrafias, RX ao tórax e sei lá mais o quê de vários anos é tarefa impossível para a duração de uma consulta. Mas, para cada doente, ter os exames todos lá armazenados, e, antes da pessoa entrar na consulta, pedir à IA um resumo, uma lista de pontos críticos e uma sugestão de aspectos a aferir, não apenas reduziria tempos como margem de erro e, de certeza, melhoraria a saúde de toda a gente.

E agora vou dormir. Com tudo isto, já são três da manhã. 

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Desejo-vos uma feliz sexta-feira!

quinta-feira, maio 28, 2026

Klee
-- Por todas as razões e por mais uma: para fugir dos deslaçamentos verbais do Láparo. Chiça! --

 

Nunca devo ter sido muito normal. Por exemplo, lembro-me de ser ainda pequena quando vi pela primeira vez a imagem de uma pintura de Paul Klee. Nunca tinha visto nada assim. As pinturas que conhecia eram figurativas, quando muito impressionistas. Por cima do sofá da nossa sala havia uma pintura de razoáveis dimensões com uns barcos. As cores, os traços, a mancha, tudo puxava mais para o impressionista, e eu gostava muito mais do que das pinturas de flores ou afins que havia noutras paredes. Havia também umas gravuras antigas, bonitas, tenho ideia que de casas antigas, bairros, não sei, desfoca-se-me a memória, mas sei que eram absolutamente fiéis aos objectos retratados.

Imagem gerada pelo ChatGPT para responder ao meu pedido:
uma pintura que evoque o Senecio de Paul Klee

Por isso, quando vi Senecio, a tal pintura de Paul Klee, fiquei fascinada. E não larguei a minha mãe, queria ter uma reprodução, poderia ser um poster, poderia ser um cartão, qualquer coisa. Não sei o que é que os meus pais acharam dessa minha pancada. Provavelmente pensaram que não faziam a mínima ideia onde arranjar tal coisa* e que eu acabaria por me esquecer. Mas não me esqueci. Parecia-me que não conseguiria viver longe daquela imagem. E, não sei como, mas a verdade é que alguém arranjou a imagem. E a meu pedido a minha mãe emoldurou-a. Existiu lá em casa quase desde que tenho memória.

Não sei se alguma vez alguém me perguntou o que é que eu via ali. O que sei é que, se o tivessem feito, não saberia explicar. Sei hoje que é a cabeça de um homem senil. Mas o nome da pintura não muda nada. Poderia chamar-se Retrato de um Jovem Perplexo. Tanto faria. O que sei é que me identifico com aquela imagem, com aquele olhar, com aquelas cores, com a inexplicação daquele rosto.

Muitos anos depois, mantendo-me fiel a esse amor, não descansei enquanto não encomendei numa cerâmica um pequeno painel de azulejos com a reprodução daquela pintura para a ter in heaven. 

Como sempre na arte, posso olhar para uma coisa muito bonita, muito perfeita, e seguir adiante. Nada me diz. E posso ver uns 'rabiscos', uma sobreposição de cores, e ficar fascinada, agarrada. Para mim a arte não é, não pode ser, a reprodução da realidade. Tem que ser a invenção da realidade ou uma outra visão da realidade. E tem que me emocionar, tenho que querer ficar a olhar, de preferência sem ser capaz de dizer o que estou a ver.

No entanto, apesar de nada do que eu saiba da vida de Paul Klee ou das suas obras me fará gostar mais ou menos da sua pintura, a verdade é que fiquei curiosa quando vi o vídeo que abaixo partilho.

A Vida e a Arte de Paul Klee: História da Arte Explicada

Paul Klee passou os primeiros trinta anos da sua vida convencido de que não tinha aptidão para as cores, ou mesmo para a vida de artista.

Nascido perto de Berna, numa família de músicos, estudou em Munique, no seio do modernismo alemão, e encontrou o seu caminho no círculo de Wassily Kandinsky, Franz Marc e Der Blaue Reiter — um dos movimentos artísticos mais influentes da sua época. No entanto, apesar de toda esta companhia estimulante, mantinha-se inseguro quanto à sua própria voz. Depois, em 1914, uma viagem ao Norte de África mudou tudo.

Foram precisas décadas, mas a partir desse momento a visão singular de Klee floresceu com uma intensidade notável. Violinista talentoso, para além de pintor, trouxe a sensibilidade de um músico para o ritmo e a composição para a sua arte, produzindo obras que resistem à categorização fácil, inspirando-se em elementos do Expressionismo, Surrealismo, Cubismo e abstração, mas permanecendo inteiramente originais.

* Ao escrever aquilo lá em cima, de que imagino que os meus pais tenham ficado sem saber onde arranjar uma reprodução daquela pintura, em específico, do Paul Klee, penso que isto deve ser difícil de entender por quem é de uma outra geração. Agora arranja-se tudo. Ainda no outro dia andávamos a pensar onde arranjar um candeeiro que nos agradasse, vi na Amazon e havia vários, encomendei, perfeito. E o meu marido queria uma máquina para o jardim -- mais uma! --, procurámos na Worten, encomendámos ao fim do dia e, na manhã seguinte, estavam a entregar. Sabe-se tudo, descobre-se tudo, arranja-se tudo nem que seja do outro lado do mundo. Agora... há mil anos... sem marketplaces, sem internetes, está bem, está. Havia livrarias, isso sim. Que me lembro eram as únicas janelas abertas para o mundo. Isso e, de certa forma, também as lojas que vendiam discos. Por isso, na volta, a minha mãe comprou algum livro de arte e arrancou a página que continha a imagem do Senecio. Mas agora que falo nisto, tenho ideia que na livraria onde mais íamos, também vendiam algumas reproduções, gravuras, coisas assim. Mas posso estar enganada. Sei é que arranjaram. E foi bom pois, desde cedo, tive a companhia de imagens que ajudaram a desconstruir o que a sociedade tentava construir dentro da minha cabeça.

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Nota: Ando mais para este género de temas do que para sujar as mãos a escrever sobre os deslaçamentos verbais do Láparo. Bem pode ele chamar prostituto ao Montenegro, ainda por cima, prostituto sem carácter, que isso, a mim, não me inspira. Bem podem todas as comentadeiras do burgo saltar, assanhadas, para os balcões em que se serve comentário a copo, que eu me mantenho na minha. Estão os três bem uns para os outros. Melhor, os quatro. Portanto, se a conversa desceu ao nível do bordel, pois que lhes faça muito bom proveito. (Ah... não sabeis quem é o quarto? E refiro-me não ao quarto de dormir mas ao quarto personagem... Ora pensai. Láparo, Ventura, Mentenegro e... Hugo Soares. Uma quadrilha do caneco. Quadrilha no sentido de serem quatro, claro. Se calhar, mais vale dizer quarteto. É isso, um quarteto do caraças, benza-os o belzebu).

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Desejo-vos um dia feliz

domingo, maio 17, 2026

À atenção da Ministra Palma Ramalho
-- Terceira Idade: "Recomendações de Política Pública para Portugal" -

 

Ora bem. Em dia de constipação ou gripe ou whatever, volto à cold cow e termino o que no outro dia comecei: "BASE PARA REFLEXÃO -- Cuidados e Apoio à Terceira Idade em Portugal", um conjunto de apontamentos coligidos e organizados com recurso ao Claude, essa fantástica ferramenta de Inteligência Artificial da Anthropic 

(e, um à parte: porque diabo não há nenhuma empresa europeia entre as majors que estão a dar cartas nestes domínios? Isso parece-me estrategicamente gravíssimo e é tema que, só por si, deveria merecer ampla discussão. Aliás, todo o tema da IA deveria fazer com que todos, todos, em todo o mundo, fizéssemos uma pausa para pensar: no que se está a fazer, para onde vamos, com que objectivos, com que consequências, com que medidas para fazer face às consequências. Mas, enfim, é o que é: a malta prefere ocupar-se com porcariazecas que enxameiam as redes sociais e que, de tão parvas, viralizam, e ignorar o que realmente importa).

Se no outro dia essencialmente divulguei diagnósticos e comparações entre o que se passa em Portugal e noutros países de referência, hoje avanço para o que poderia ser o caminho para nos posicionarmos de forma digna, para que todos saibamos com o que poderemos contar, para que tenhamos a certeza de que a nossa identidade, autonomia e liberdade de decisão (mesmo que reduzidas) sejam respeitadas, para que a velhice não seja um pesadelo mas uma etapa tranquila.

Fiz questão de que, entre as medidas a tomar, figurasse aquilo que sempre quis nos processos transformacionais que conduzi: os chamados quick wins (termo anglicanês que, na gíria de gestão. se usa para designar as medidas imediatas, relativamente simples de implementar e que produzem resultados imediatos, ou seja, em que não é preciso esperar por projectos estruturais e demorados para ver resultados).

O que aqui apresento parece-me lógico, razoável, benéfico. Pode ser que haja melhores alternativas -- óptimo, venham elas. Mas o que é preciso é meter pernas a caminho. Assim como estamos é que não pode ser. 

Notas: Como já alertei antes, não validei todas as fontes mas elas estão listadas no post anterior. Podem ser validadas. E volto a pedir: se detectarem erros ou disparates, muito agradeceria que mo dissessem para eu poder validar e/ou corrigir. 

Alguns textos, nas caixas (coloridas), estão com má formatação, o texto muda de linha sem que seja caso disso. Mas esse é o tipo de coisas para as quais não tenho grande paciência. Já no outro dia estava assim e acabei por deixar passar. Não fica bem, eu sei, mas já não me apetece andar às cabeçadas a ver se o texto me obedece...

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6. Recomendações de Política Pública para Portugal

Este capítulo apresenta um plano de acção estruturado e internamente coerente com o benchmarking que o antecede. Não é uma lista de boas intenções: é uma arquitectura com eixo central, repartição clara de responsabilidades, estimativa de recursos humanos necessários, modelo de financiamento e sequência de implementação — com resultados visíveis a curto prazo enquanto as reformas estruturais estão em curso. 

PRINCÍPIO ORIENTADOR INEGOCIÁVEL:

O domicílio e a comunidade são o eixo central. O lar é o último recurso.

Todas as medidas aqui propostas decorrem deste princípio — e são incompatíveis com a lógica

inversa que tem dominado a política portuguesa: construir mais lares como resposta por defeito.

Um documento que diagnostica o problema não pode propor a sua perpetuação.

 

6.1 O Eixo Central: Envelhecer em Casa e na Comunidade

A reforma do sistema de cuidados a idosos em Portugal deve partir de uma declaração política clara, traduzida em legislação e orçamento: o objectivo do Estado é que cada pessoa possa envelhecer no seu domicílio ou numa habitação privada de sua escolha, pelo máximo de tempo possível, com acesso a cuidados adequados independentemente dos seus rendimentos.

Este princípio implica uma inversão: em vez de o idoso se deslocar até aos cuidados — indo para um lar —, os cuidados deslocam-se até ao idoso. O Estado paga os cuidados. O idoso paga a habitação onde já vive. Esta separação, adoptada pela Dinamarca em 1988 e pelos Países Baixos com o modelo Buurtzorg, é o fundamento de todos os sistemas com melhores resultados documentados. 

Os lares continuam a ter lugar neste modelo — mas como rede de último recurso para situações de dependência grave sem alternativa domiciliária viável. Não como resposta por defeito. Esta reorientação não é ideológica: é económica, social e demograficamente racional. Cada idoso que permanece em casa com apoio domiciliário custa ao Estado menos do que numa cama de lar ou hospitalar. E é mais feliz. 

6.2 Arquitectura de Responsabilidades

Um dos problemas estruturais da política portuguesa é a indefinição de responsabilidades: o Estado central legisla sem financiar, os municípios executam sem recursos, as IPSS prestam serviços sem comparticipação adequada. A reforma exige uma divisão clara e vinculativa.

 

Nível

Responsabilidades

O que muda face ao actual

Estado Central

Legislação, padrões de qualidade nacionais, financiamento base, regulação, carreira de cuidador, fiscalização nacional

Passa a financiar cuidados domiciliários como direito universal, não como benefício discricionário

Municípios

Avaliação de necessidade, coordenação local, gestão de equipas domiciliárias, centros comunitários, transporte social, cohousing

Tornam-se o pivot do sistema — o gestor de caso de cada idoso no seu território

IPSS e Misericórdias

Prestação de serviços domiciliários e residenciais com financiamento público adequado e auditoria de qualidade

Deixam de ser subfinanciadas — comparticipação passa a cobrir custo real

Setor Privado

Prestação de serviços num mercado regulado com padrões mínimos exigíveis e rating público de qualidade

Opera com regras claras — não num vácuo regulatório

Famílias

Apoio emocional e relacional — não substituição do sistema formal

Libertadas do papel de cuidadoras a tempo inteiro por esgotamento

 

6.3 Recursos Humanos: Quantos Profissionais, de Que Tipo

A maior lacuna do sistema português não é de edifícios nem de regulação — é de pessoas qualificadas. Sem uma massa crítica de profissionais formados, estáveis e bem remunerados, nenhum modelo funciona. Este é o investimento mais urgente e mais negligenciado.

Estimativa de Necessidades

Portugal tem aproximadamente 2,6 milhões de pessoas com 65 ou mais anos. Estimando que 30% necessitam de alguma forma de apoio domiciliário regular, isso representa cerca de 780.000 utentes. Com uma ratio de 1 cuidador por 8 a 10 utentes (padrão Buurtzorg), seriam necessários entre 78.000 e 98.000 cuidadores domiciliários a tempo inteiro — para além dos já existentes no sector.

 

Categoria Profissional

Função

Formação Mínima

Postos a Criar

Cuidador domiciliário certificado

Apoio nas actividades da vida diária, companhia, monitorização

Curso profissional de 1 ano (novo)

40.000 – 60.000

Enfermeiro comunitário

Cuidados de saúde no domicílio, prescrição de equipamentos assistivos

Licenciatura + especialização

8.000 – 12.000

Assistente social de gestão de caso

Avaliação de necessidade, plano individualizado, coordenação

Licenciatura em Serviço Social

3.000 – 5.000

Técnico de centro comunitário sénior

Animação, actividades culturais e físicas, voluntariado

Curso profissional de animação

3.000 – 4.000

Técnico de teleassistência

Instalação, monitorização e resposta a alertas domiciliários

Formação técnica específica (novo)

1.500 – 2.500

 

A Carreira de Cuidador: Criá-la do Zero

Em Portugal, o cuidador de idosos não tem carreira definida, tabela salarial própria, progressão remuneratória nem reconhecimento formal. Trabalha frequentemente sem contrato, sem formação e sem perspectiva. O resultado é rotatividade elevada, qualidade baixa e dependência de mão de obra imigrante sem qualquer preparação para este trabalho específico.

A criação de uma Carreira Nacional de Cuidador de Idosos exige: currículo formativo nacional de 12 meses com componentes de cuidados físicos, primeiros socorros, gestão de demências, comunicação e ética do cuidado; certificação obrigatória; tabela salarial própria com progressão; e reconhecimento legal equivalente ao de outras profissões da saúde. Esta medida é a pré-condição de tudo o resto.

 

6.4 Modelo de Financiamento

Uma reforma desta dimensão custa dinheiro. Mas o custo de não agir — em despesa hospitalar, em produtividade perdida pelas famílias que cuidam, em pobreza sénior, em lares clandestinos — é substancialmente maior.

 

Fonte de Financiamento

Mecanismo

Precedente Internacional

Transferências do OE para municípios

Verba dedicada a cuidados domiciliários, fora do envelope geral

Finlândia, Suécia — subsídio estatal específico para cuidados locais

Aumento da comparticipação às IPSS

Passa dos actuais 523€ para valor que cubra custo real (est. 900–1.100€)

Necessário para eliminar o deficit estrutural das IPSS

Poupança em internamentos hospitalares sociais

Redução das 2.342 camas sociais liberta ~85M€/ano

Argumento de eficiência: cama hospitalar vs. apoio domiciliário

Fundos Europeus Portugal 2030

Co-financiamento da transição, formação profissional, piloto Buurtzorg

Janela de oportunidade aberta agora

Seguro de Cuidados de Longa Duração

Contribuição de 0,5–1% do salário a partir dos 40 anos, fundo autónomo

Japão (2000), Alemanha (1995), Coreia do Sul (2008)


 

6.5 Quick Wins: Resultados Visíveis em 12 Meses

Para criar confiança pública e construir apoio político para as medidas mais exigentes, é indispensável um conjunto de acções com impacto visível e rápido. Estas medidas não substituem a reforma — criam as condições para ela ser aceite e sustentada.

Quick Win 1 — Rating Público de Lares (mês 3)

Criar e publicar online um sistema de avaliação pública de todos os lares licenciados, com classificação de 1 a 5 estrelas baseada em inspecções regulares. Modelo: Care Quality Commission do Reino Unido. Custo: baixo. Impacto: imediato — famílias podem escolher com informação, lares com má classificação têm incentivo a melhorar. A transparência é o regulador mais eficaz e mais barato.

Quick Win 2 — Teleassistência Universal para Maiores de 80 (mês 6)

Programa nacional de instalação gratuita de dispositivo de teleassistência (botão de pânico com resposta 24h) para todos os cidadãos com 80 ou mais anos que vivam sozinhos. Estimativa: 180.000 a 220.000 beneficiários. Custo: 40 a 65 milhões de euros anuais — menos do que o custo anual de 500 camas hospitalares sociais. Impacto: redução imediata do medo das famílias, prevenção de internamentos por quedas não assistidas, sinal político fortíssimo.

Quick Win 3 — Programa Piloto Buurtzorg em 5 Municípios (mês 9)

Lançar apoio domiciliário com equipas estáveis em 5 municípios de dimensão média, um por região. Cada equipa de 10 cuidadores certificados cobre 80 a 100 utentes. Co-financiamento Estado/município. Avaliação independente ao fim de 12 meses com publicação de resultados. O piloto cria o modelo, demonstra a viabilidade e prepara a escala nacional.

Quick Win 4 — Linha Nacional Sénior (mês 3)

Criar uma linha telefónica e digital de orientação para idosos e famílias: que apoios existem na área, como aceder, o que custa, a que se tem direito. Hoje esta informação é inacessível para a maioria. Custo: mínimo. Impacto: imediato — resolve o problema da invisibilidade do sistema.

Quick Win 5 — Curso de Cuidador: Primeiras 5.000 Vagas (mês 6)

Lançar, em parceria com centros de formação profissional, o primeiro curso nacional certificado de Cuidador de Idosos, com 5.000 vagas no primeiro ano. Prioridade a desempregados, imigrantes já residentes e familiares que prestam cuidados informais. Financiamento: fundos europeus Portugal 2030.

 

6.6 Reformas Estruturais (2 a 10 anos)

A — Lei do Envelhecimento no Domicílio (ano 1–2)

Legislação que consagra o direito de cada cidadão a envelhecer no seu domicílio com apoio do Estado, e que obriga os municípios a disponibilizar avaliação de necessidade, plano individual de cuidados e serviços domiciliários dentro de prazo definido. Sem esta lei, tudo o resto é voluntário e reversível.

B — Programa Nacional de Habitação Sénior (ano 2–5)

Legislação que exige espaço privado completo em toda a nova habitação de apoio a idosos com financiamento público. Incentivos fiscais para cooperativas que desenvolvam cohousing sénior e habitação assistida acessível. Meta: 50 projectos de cohousing nos primeiros 5 anos, com prioridade aos municípios mais envelhecidos.

C — Escala Nacional do Modelo Domiciliário (ano 3–7)

Expansão do modelo-piloto a todos os municípios, com meta de cobertura de 60% dos idosos com necessidade de apoio domiciliário até ao ano 7. Cada município coordena; a prestação é mista — pública, social ou privada regulada. O financiamento é do Estado central.

D — Reforço da RNCCI e Eliminação das Listas de Espera (ano 2–4)

As mais de 10.000 pessoas em lista de espera na Rede Nacional de Cuidados Continuados representam um fracasso humano e económico mensurável. Meta: eliminação da lista de espera até ao ano 4, com reforço de camas e de equipas multidisciplinares.

E — Seguro de Cuidados de Longa Duração (ano 5–10)

Contribuição obrigatória de 0,5 a 1% do salário a partir dos 40 anos, gerida por fundo autónomo com governação independente. Financia cuidados por critério de necessidade — não de rendimento. Garante previsibilidade orçamental a longo prazo, desligada dos ciclos políticos.

F — Os Lares: Regulação, Não Expansão (contínuo)

Os lares existentes são regulados com rigor, inspeccionados sistematicamente e avaliados publicamente. Os clandestinos são encerrados ou integrados na rede legal com prazo definido. Não se constroem novos lares tradicionais com financiamento público — o investimento vai para domicílio, comunidade e habitação assistida. Quando o lar for inevitável, obedece ao padrão dinamarquês: quarto, sala, cozinha e casa de banho individuais. Nunca quartos partilhados.

 

6.7 Trazer o Tema para a Agenda: O Argumento Económico, Social e Político

Uma reforma desta dimensão precisa de agenda política, de opinião pública mobilizada e de um argumento que vá além da compaixão — embora a compaixão seja, em si mesma, um argumento poderoso. Velhos serão todos os que tiverem a sorte de não morrer novos. Esta frase não é retórica: é a mais eficaz das convocatórias políticas, porque torna o problema de todos.

O Argumento Económico

       Uma cama hospitalar ocupada por situação social custa 800€ a 1.200€ por dia. Apoio domiciliário de qualidade custa 30€ a 80€ por dia. A matemática é inequívoca;

       As 2.342 camas hospitalares permanentemente ocupadas por situações sociais representam um desperdício de 680 a 1.000 milhões de euros por ano;

       O custo de um cuidador informal que sai do mercado de trabalho para cuidar de um familiar é estimado em 15.000 a 25.000€ anuais em PIB perdido — à escala nacional, vários milhares de milhões;

       Cada euro investido em prevenção e apoio domiciliário evita 3 a 5 euros em cuidados agudos hospitalares — ratio documentado em estudos do Buurtzorg e de programas finlandeses.

O Argumento Social

       Portugal tem uma taxa de pobreza sénior de 21,1% — acima da média europeia. Uma parte significativa resulta de reformas baixas confrontadas com custos de cuidados incomportáveis;

       O cuidado informal não remunerado recai esmagadoramente sobre mulheres. É uma questão de igualdade de género tanto quanto de política social;

       O isolamento social dos idosos tem custos mensuráveis: maior consumo de urgências, maior prevalência de depressão e demência, maior mortalidade precoce.

O Argumento Político

       Em 2030, mais de um quarto da população portuguesa terá 65 ou mais anos — e vota. Este grupo eleitoral é o de maior participação nas eleições;

       O tema é transversal — não é de esquerda nem de direita. Os países mais conservadores e os mais progressistas convergem nos modelos de referência quando os dados estão em cima da mesa;

       Portugal tem fundos europeus disponíveis — Portugal 2030 — que podem co-financiar a transição. A janela de oportunidade é agora.

 

A MENSAGEM POLÍTICA CENTRAL:

Não estamos a propor gastar mais dinheiro em idosos.

Estamos a propor gastar melhor o dinheiro que já está a ser desperdiçado —

em internamentos sociais, em lares clandestinos, em famílias exaustas.

E a fazê-lo antes que a demografia torne a escolha impossível.

 

7. O Fator Humano: Cultura, Afeto e Dignidade

Nenhum modelo técnico ou político resolve o problema sem atender à sua dimensão mais profunda: o que significa envelhecer com dignidade, e o que os idosos realmente querem.

7.1 O Apego à Casa

Em Portugal, como noutros países mediterrânicos, o apego ao lar é especialmente intenso. A casa não é apenas um espaço físico — é memória, identidade, autonomia. A pesquisa internacional confirma que este apego é universal: os idosos que permanecem em ambientes familiares têm melhor saúde mental, menor declínio cognitivo e maior longevidade.

Este não é um capricho cultural que deve ser gerido ou superado. É uma necessidade humana fundamental que a política pública deve respeitar e incorporar. Os melhores sistemas — dinamarquês, holandês, finlandês — foram construídos exatamente sobre este princípio: o idoso tem o direito de ficar onde quer estar, e o sistema vai até lá.

7.2 O Sentimento de 'Fim de Linha'

Em Portugal, a ida para um lar é frequentemente vivida como uma derrota — pelo idoso e pela família. Esta perceção não é irracional: em muitos casos, a qualidade de vida deteriora-se significativamente. O isolamento social aumenta; a autonomia diminui; a vida passa a ser organizada por horários institucionais.

O antídoto não é negar que o lar pode ser necessário — é transformar o que o lar significa. Nos melhores exemplos internacionais, quando alguém precisa de cuidados residenciais, vai para um espaço que tem a sua cozinha, a sua sala, os seus móveis, e onde decide com quem come, quando acorda e o que faz. O lar deixa de ser uma instituição e torna-se uma comunidade habitada.

7.3 O Cuidador como Parceiro, Não como Serviço

Um dos maiores medos expressos pelos idosos portugueses é 'meter desconhecidos em casa'. Esta resistência é compreensível e deve ser levada a sério. A solução não é ignorá-la — é criar condições para que os cuidadores deixem de ser desconhecidos.

Isso exige continuidade (a mesma pessoa), formação (competência e empatia), e regulação (garantias legais e reputacionais). O modelo Buurtzorg mostra que é possível: a relação de confiança entre cuidador e utente é explicitamente cultivada e é considerada um indicador de qualidade do serviço.

7.4 O Papel das Famílias

Em Portugal, a família continua a ser o principal prestador de cuidados informais a idosos — frequentemente mulheres, frequentemente em sacrifício da sua vida profissional e pessoal. Esta realidade não pode ser romantizada: é, em muitos casos, uma situação de esgotamento silencioso.

O objetivo da política pública não é substituir as famílias, mas apoiá-las. A experiência dinamarquesa mostra que os idosos que recebem apoio domiciliário público continuam a ver os filhos com a mesma ou maior frequência. O cuidado formal liberta o afeto familiar de ser trabalho.

 

8. Síntese e Visão para Portugal

8.1 A Visão

Um Portugal onde envelhecer não é sinónimo de perda — de casa, de autonomia, de identidade. Onde cada pessoa pode escolher, de acordo com as suas necessidades e preferências, como quer viver a última etapa da vida, com acesso a apoio adequado independentemente dos seus rendimentos.

 

A PROPOSTA CENTRAL DESTE DOCUMENTO:

Construir o espaço intermédio que falta em Portugal —

entre 'ficar em casa sem apoio' e 'ir para um lar sem alternativa'.

Esse espaço é feito de:

→ Apoio domiciliário de qualidade, com continuidade e confiança;

→ Centros de dia integrados na comunidade;

→ Cohousing sénior com habitação privada e vida comunitária;

→ Habitação assistida acessível;

→ Cuidadores profissionais, regulados e reconhecidos;

→ Lares residenciais de qualidade quando inevitáveis —

   mas com quarto, sala e cozinha individuais.

 

8.2 O Papel do Estado, dos Municípios e da Sociedade Civil

A experiência internacional é clara sobre a distribuição de responsabilidades:

       O Estado central define o enquadramento legal, os padrões de qualidade, o financiamento base e a regulação;

       Os municípios implementam, adaptam ao território e fazem o acompanhamento de proximidade — são o nível mais eficaz para responder à diversidade de situações locais;

       As entidades sociais (Misericórdias, IPSS, cooperativas) prestam serviços com financiamento público adequado e controlo de qualidade;

       O setor privado opera num mercado regulado, com padrões mínimos exigíveis e informação pública sobre qualidade;

       A sociedade civil — vizinhos, voluntários, grupos comunitários — complementa o que os sistemas formais não conseguem: presença humana, convívio e pertença.

8.3 O Custo de Não Agir

Não reformar o sistema tem custo elevado — e crescente. O envelhecimento da população é inevitável: em 2050, Portugal terá cerca de 35% da população acima dos 65 anos. Cada ano sem reforma significa mais lares clandestinos, mais idosos isolados, mais camas hospitalares ocupadas por situações sociais, mais famílias exaustas e mais despesa pública ineficiente.

Os países que fizeram esta transição mais cedo — Dinamarca, Finlândia, Países Baixos — fizeram-na com investimento público inicial significativo, mas geraram poupanças a médio prazo e, sobretudo, geraram bem-estar humano mensurável. O retorno não é apenas financeiro: é social, cultural e ético.

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Desejo-vos um bom domingo