Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, maio 26, 2017

O que fazer quando tudo arde?
- Talvez tocar violino --



Já o contei: nem sei onde morreu o meu bisavô, pai do meu avô paterno. Penso que na Venezuela, mas não estou certa. Pode ter sido na Argentina. A ver se não me esqueço de perguntar à minha mãe.

Ninguém na família quis saber dele. Perdeu casas, 'propriedades', cavalos e gado, dinheiro. Era um jogador, é a ideia que tenho do pouco que diziam. Desfez o morgadio e fugiu, deixando para trás, e no desamparo, mulher e três filhos. De uma 'casa' abastada passaram para uma situação complicada. Sobraram ainda alguns terrenos e a casa onde viviam. Mais tarde, o meu avô, já adolescente, espírito aventureiro, pôs-se a caminho, andou por Espanha e por França antes de, com vinte e poucos anos, conhecer uma rapariga sete mais jovem e com ela se casar. Quando sobre mim diziam que era muito nova para me casar, a minha avó uma dessas pessoas, o meu avô disse de forma a que ela o ouvisse, 'Não ligues. Com dezoito anos teve ela o teu pai'.

Mas, então, o meu bisavô era visto pela família como um cobarde. A minha mãe, tenho ideia que achava que não era isso, que era um aventureiro. Do meu pai nunca ouvi uma palavra sobre o avô. Do meu avô também nunca ouvi uma palavra sobre o pai.


Nunca mais ele quis saber da mulher e dos filhos, e eles pagaram-lhe da mesma moeda: caíu sobre ele um desinteresse total. Pelo menos em público era isso que manifestavam.

A minha mãe contou, creio que depois dos meus avós terem morrido, que achava que ele quis reaproximar-se ou regressar e que de cá teve apenas silêncio e desprezo. Tenho ideia que a minha mãe viu uma carta dele, escondida.

Talvez, por lá, por onde andou, tenha tido outra família, mais filhos, talvez por lá andem agora outros bisnetos. Não faço ideia. Nunca ninguém quis saber. Por vezes penso e nisso e faz-me impressão. Talvez devesse ter tentado esclarecer algumas coisas. Contudo, creio que já é tarde para isso. O meu avô está morto e o meu pai já vive num outro comprimento de onda. O meu tio, irmão do meu pai, está bem mas também nunca manifestou qualquer interesse no assunto. Também já o contei: ainda há um terreno no Algarve, um terreno bom, num sítio bom. Calhou, em partilhas, ao meu avô. Provavelmente já alguém lhe chamou um figo. Ninguém, da família, mexeu, até hoje, uma palha para o passar para o nosso nome (presumo que esteja ainda em nome desse desconhecido bisavô).

Mas não é por isso, até porque não estou certa do destino que, há talvez cem anos, esse desconhecido tomou -- mas a Venezuela para mim é um país longínquo, geografica e emocionalmente.

Politicamente também. Nem o Chávez me entusiasmava: tudo distante, tudo a milhas da minha lógica, dos meus afectos, dos meus gostos.

Este agora que por lá anda parece que não sabe (nem nunca soube) o que é ser presidente de um país. Nada contra os motoristas de autocarro, nem contra os motoristas que se fazem sindicalistas. Mas faz-me alguma espécie que daí se passe a ministro e, daí, a presidente de um país. Nicolás Maduro desagrada-me como presidente. Não sei se é populista, se excessivamente nacionalista, se é apenas impreparado para a função.

O que se passa agora na Venezuela é outra desgraça. Maduro mantém-se em funções com a rua descontrolada, com as lojas vazias, as fábricas paradas, a loucura à solta.


No entanto, eis que no meio da maior tensão e violência, entre gente que se apedreja, caminha um jovem tocando violino.

Se no post abaixo mostro como a palavra se elevou para aglutinar as emoções e as catapultar sob a forma de coragem contra o terror anónimo, aqui, agora, é a música.

Chama-se Wuilly Arteaga, tem 23 anos, gosta de se vestir com as cores do país e tem uma coragem que impressiona. Para ele, a música simboliza a paz e a coragem e, por isso, como que protegido por um invisível escudo, ele caminha pela rua, tocando violino.



Infelizmente, a sorte abandonou-o: esta quarta-feira, a polícia motorizada avançou sobre ele, magoou-o e partiu-lhe o violino. É em lágrimas que ele nos aparece, com o violino -- que ele diz ser a sua ferramente a favor da paz -- sem cordas.

Entretanto, já há um grupo a mobilizar-se para arranjar dinheiro para lhe comprarem outro violino.

O vídeo abaixo, publicado esta quinta-feira, mostra-o nas ruas, antes disso, tocando.

E eu vendo isto, volto a uma pergunta semelhante à que, no post abaixo, formulei: para que serve a música? Para que serve a arte?
Pode a arte ser uma arma mais poderosa do que as armas tradicionais?
Quem dela se mune para a luta não tem mais coragem do que os que se escondem atrás de escudos para agredir sem ser agredido?
Não sei responder com certezas absolutas mas admito que sim.

E admito também que a vida, tal como a vamos aceitand.o merece alguma reflexão. Por exemplo: quem são os verdadeiros novos heróis deste estúpido mundo?



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Face ao terror que derruba inocentes eis que se levanta o poder da palavra


A poesia serve para quê?

Um poeta é útil para quê?

As palavras valem o quê perante a força destrutiva de uma bomba que explode no meio de um grupo de jovens?

Perante a comoção, o desgosto e o medo da população de que serve um homem levantar-se e dizer um poema?

Nada?

Ou tudo?

Que outra força pode transformar a emoção em força? Que outra força senão a da palavra? Que outra força transforma o espanto e o terror em coragem? Que outra força transforma o emudecimento em palavras senão a da poesia?

Tony Walsh, conhecido por Longfella (por ser muito alto) leu um poema seu na vigília pelas vítimas em Manchester e emocionou a multidão.



Independentemente da qualidade do poema, do que vi nos vídeos, o que ali se passou foi extraordinário.

Vejam, por favor.



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quinta-feira, maio 25, 2017

O elogio, pela boca de Schäuble, de que Centeno é o Cristiano Ronaldo do Eurofin é a pimenta que faltava no cu de Passos Coelho


Não posso aqui desfiar tudo o que me tem ocorrido desde que li que Schäuble disse que Centeno é “o Ronaldo do Ecofin”. 


A minha veia metafórica borbulha com verdadeiras epifanias em torno do tema. 
Vejo o Schäuble a seviciar, com esgares de sadismo, a sua dilecta pupila Pinókia Albuquerca, vejo o Schäuble a obrigar o servil Gaspar a praticar actos impuros (e abstenho-me de usar a partícula reflexa para não dizerem que estou a pisar a linha encarnada), vejo o Láparo pelas ruas da amargura, a correr com o rabo em chamas ou então a ganir de rua em rua e o mastim alemão a acelerar na cadeira de rodas atrás dele, a rosnar-lhe, de dente afiado... vejo coisas assim -- mas tudo em brejeiro, tudo recorrendo a um vocabulário vernacular, impróprio para consumo.
Ajoelhou... tem que rezar!

[Ai não, não era isso, desculpem: era 'tem que pagar']

Ora, atendendo a que este é um salão onde se usa apenas o mais fino léxico e a mais requintada semântica e que eu própria cubro o meu púdico rosto quando alguma ideia menos piedosa se me ocorre, coibo-me de aqui verbalizar os meus pensamentos.


Limito-me a, caridosamente, recomendar ao nosso Láparo de estimação que, depois desta do Schäuble a comparar o Centeno ao CR7 

  -- e do Marcelo, esse ubíquo e fofo catavento, vir dizer que por uma vez o sinistro Rottweiler não tinha pensado mal -- 

tente ele (ele, Láparo) acalmar o ânus com água de malvas, quiçá aplicar também unguento para assaduras (vaselina não, que isso poderia dar más ideias a algum malandreco que tenha contas a ajustar). Ou, não tendo nada disso em casa, pois que encha o bidé de água, coloque lá uns cubos de gelo, e ponha o rabo de molho. Há-de passar. O tempo tudo cura.


Ok, ok, já sei que tenho um coração de manteiga, sempre com pena dos desvalidos. Mas, fazer o quê?, estou com uma peninha dele... cada vez numa saia mais justa, sem chão onde pôr o pé... Só falta mesmo a Teodora oferecer flores ao Costa e fazer um striptease para agradar ao Centeno. Sim, já só falta isso.
Portanto, com vossa licença não falo mais no assunto. Pena, pena do pobre coitado. Apenas transcrevo mais uma coisitinha que li:

“Há doze meses, era tudo tão diferente. Portugal estava à beira das sanções económicas da União Europeia e o sucesso do seu novo Governo de coligação de esquerda estava longe de ser assegurado. Hoje, já não viola as regras orçamentais da UE e espera entregar antecipadamente 10 mil milhões de euros ao FMI”, lê-se na newsletter do “Politico” (que acompanha as políticas e personalidades da União Europeia).

Ui... Coitado do láparo.

[E mais não digo. Não quero que pensem que gosto de pisar em quem já está mais do que no chão, e ainda por cima, agora, o pobre com o rabiosque a arder daquela boa maneira. Ainda vinham dizer que eu sou insensível ao sofrimento do coitado do láparo ou dizer-me que estou assim porque não é comigo, que pimenta no cu dos outros é refresco. Não, não. Calo-me já.]


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Mas, já agora, permitam que partilhe convosco a lembrancinha que o ex-amigo do coração, Schäuble de sua graça, (ex-amigo do láparo, atenção! -- não meu), lhe deixou aqui para o poor, poor coitado, ir ouvindo enquanto estiver a tentar apaziguar os calores da assadura anal.

[And pardon my french]



Uuuuhhh...

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As imagens que usei para enfeitar o misericordioso texto provêm da infindável arca do saudoso blog We Have Kaos in the Garden

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E, depois desta cena triste e meio escatológica, caso queiram purificar-se, desçam por favor para irem ao encontro do Pato Donald, da viúva em vida Perpétua Melania e de sua filha igualmente viúva, a Barbie Ivanka, e mais uns quantos deslassados que foram de visita ao Vaticano, moer a paciência ao pobre Francisco.

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As viúvas beatas foram ao beija-mão mas, cá para mim, o Papa só não lhes deu um chega-para-lá porque é bem educado.
[O Pato Donald Trump, a desinfeliz Melania armada em jararaca, a menina Ivanka feita Neuzinha piedosa e mais uns quantos saídos de um filme cómico iam tirando o Papa Francisco do sério]



O semblante de Jorge Bergoglio ao receber aquela tropa fandanga não engana. Homem-humano como é, deveria era estar com vontade de dar uma valente rabecada naquele que é uma das grandes ameaças para os Estados Unidos (e para o mundo), o estupor que brinca às guerras, que despede a eito quem não lhe faz todas as vontades, o atrasado mental que teme refugiados e tem raiva a imigrantes em geral, que troça de quem se preocupa com o ambiente, que quer lá ele saber dos mais pobres que não conseguem pagar os cuidados de saúde, que vai ao Museu do Holocausto em Israel e escreve que é amazing estar lá com os amigos.


A inconcebível mensagem de Trump no Museu do Holocausto.

'So amazing' - imagine-se o despropósito


(A letra e a assinatura dizem bem o que Donald Trump é)


Na fotografia lá de cima e nesta aqui abaixo (esta já com um dos muitos comentários jocosos que já percorrem a net), Trump faz aquele sorriso próprio dos narcisistas que não percebem o contexto e apenas se preocupam em ficar bem na fotografia. A Melania e a Ivanka parecem fantasiadas de viúvas beatas e todo o quadro é hilariante. No meio deles, Francisco, aparece trombudo, notoriamente enfadado com tamanha cara-de-pauzice por parte de gente tão estúpida e frívola.


Não podendo dar-lhe um sopapo a sério, Francisco usou luva branca para uma bofetada psicológica: ofereceu a Trump uma medalha com a forma de oliveira como o símbolo da Paz (e o Pato Donald respondeu 'We can use peace') e ofereceu-lhe a sua encíclica alertando para a poluição, a favor do ambiente e da ciência (e a loura-burra, de seu nome Trump, respondeu: 'Well, I’ll be reading them').



Uma palhaçada. Ao que o mundo chegou para um animal daqueles ainda ser presidente dos Estados Unidos. Custa a acreditar. Mas, caraças, é mesmo verdade.


E claro está a paródia a tão desconcertante quadro não se tem feito esperar.


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Vontade de se disfarçar de Padre Mariano e desatar a chispar com a Perpétua e com as outras falsas beatas não deve ter faltado a Jorge Bergoglio.

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Um dia feliz a todos.

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quarta-feira, maio 24, 2017

Só lhe queria dizer que comigo, o que me salvou foi o amor, o dos outros por mim e o meu pelos outros, e não conheço muitas mais curas.
-- Escreveu uma Leitora num mail que li com emoção.





Foi levar-me documentos para eu aprovar e, como muitas vezes acontece, ficou à conversa. Gosto de conversar com ela. Deve ser mais ou menos da minha idade, talvez uns dois ou três anos mais nova que eu. Trabalha numa outra área da empresa. É uma pessoa genuína. A única coisa que, por vezes, me perturba na conversa é ter uma certa tendência para pôr as palavras no diminutivo. Mas faço por superar. Gosta também de descrever as conversas que tem, relatando-as em discurso directo. Quando tenho pouco tempo, aflijo-me por dentro -- porque não a quero interromper -- pois o detalhe faz com o tema se espraie e eu, nas minhas pressas, não vejo fim à conversa.

Mas o que diz interessa-me sempre.

Ao fim de semana ela e o marido vão amanhar a terra. Percebo  que é um bocado de terreno relativamente perto da casa, num dos subúrbios da grande cidade. Desta vez foram apanhar batatinhas pequeninas. Depois assou-as no forno, com frango. Batatinhas pequeninas, das novas, diz-me ela. E, então, estavam lá na apanha, o marido diz-lhe: 'Olha, vai espreitar lá ao fundo' e, pela cara dele, ela percebeu logo que ele lhe reservava uma surpresa. E, conta-me ela, foi andando até que, ao fundo, viu uns arbustos, quase uma trepadeira. Faz uma pausa e pergunta-me: 'Está a ver as moitas de silvas que dão amoras...? A diferença é que as framboesas são maiorzinhas, mais encarnadas. Plantou, deixou que crescessem, tudo para me fazer surpresa. De longe gritou para eu ver se estavam boas. Oh se estavam. Comi as mais pintadinhas. As outras tapei-as com folhas a ver se os pássaros não dão por elas, a ver se ainda há algumas no fim de semana'.

E ouço-a e quase parece que me ouço a mim.

A conversa corre neste comprimento de onda. Pelo meio, enuncia-me receitas, desta vez eram os legumes num tabuleiro debaixo do frango, um limão e uns dentes de alho dentro do frango, o frango lavado com azeite, sal e louro. Explica tudo muito bem.


Conheço-a há quase vinte anos. Nunca a ouvi dizer mal de ninguém. Enquanto fala sorri. O seu trabalho por vezes é rotineiro e frequentemente intenso. Não se queixa. 

No outro dia calhou ficarmos as duas numa sala, a participarmos numa sessão por videoconferência. Criaram uma amostragem e estão a testar uma iniciativa, ouvindo antes a reacção de um grupo de pessoas. Do nosso local de trabalho, saíu a rifa a nós duas, eu na qualidade de dirigente, ela na qualidade de pessoa sem cargos de chefia. Entrosámo-nos muito bem e as nossas opiniões tiveram, como sempre, grandes afinidades. A forma como ela compreende as dificuldades de quem manda mas que está também sujeito a regras e condicionamentos quase me comove. 

É daquelas pessoas que tem uma energia positiva que faz bem a quem a rodeia. De vez em quando tem problemas de saúde mas ultrapassa-os com uma leveza que surpreende. O responsável pela área na qual trabalha, por vezes comenta isso comigo: 'Qualquer outra no lugar dela... e no entanto aí anda, sempre sorridente'. 


Uma vez estava muito preocupada com a mãe. Magra, cada vez mais magra, sem apetite, parecia que tinha uma coisa ali atravessada -- contou-me ela no meu gabinete, numa tarde. Quando a conseguiu convencer a ir ao médico, já era tarde demais. Um médico dizia que era de operar, um outro que era melhor não mexer. Ela aflita. O que fazer perante duas opiniões contrárias? Que se conhecesse alguém de confiança... Disse-lhe, então, que uma pessoa próxima é dessa especialidade, que podia ligar a ver se a podia receber. Liguei. Que ela fosse com a mãe ao hospital e que levasse os últimos exames. Foi. A mãe ficou logo lá. Pediu sinceridade total e teve-a: pouco tempo de vida, nada a fazer, apenas atenuar o sofrimento. Ela prostrada, num desgosto. A mãe ficou lá até ao fim. Fui levá-la algumas vezes ao hospital, outras buscar. Um dia ligou-me, era dia de Páscoa: o que se esperava tnha acontecido, a mãe tinha morrido. Dias depois ligou-me de novo: gostava de oferecer uma coisa ao dito médico, queria agradecer o carinho e cuidado dele com a mãe, desde o primeiro ao último dia. Disse-lhe que não, que não era pessoa que esperasse isso. Mas ela insistiu, que não imaginaria o sofrimento ainda maior da mãe se não tivesse estado tão bem acompanhada.

Por indicação médica, por prevenção, foi fazer ela um exame. Uma coisinha, contou-me ela. Biópsia. Positiva. Teve que tirar. Dias depois, já a trabalhar, animada, que felizmente tinha dado com aquilo a tempo. Depois tratamentos e ela sempre serena: tive sorte, grave é quando não se detecta a tempo.

Contudo, aqueles dois meses da mãe arrasaram-na. Diz que só se lembrava da mãe a definhar, já sem força para andar, sem conseguir comer nem reter comida no estômago. Custava-lhe aceitar como, antes de se ter descoberto, nunca lhe tinha passado pela cabeça uma coisa destas. Diz que há que tempos que a mãe se queixava que parecia que andava sempre cheia, que parecia que andava enfartada, sem fome nem vontade para nada. E nem a mãe, nem o pai nem ela atribuíram importância a isso. Pensava que, se tivesse percebido antes, talvez a mãe tivesse salvação. Com estas ideias a corroerem-lhe a mente, arranjou uma depressão. Reconheceu que não estava bem, tratou-se, esteve um mês de baixa. Veio outra vez igual, bem disposta. 


Depois os problemas com o pai. Viúvo. Ficou maluco, diz ela. Anda com mulheres, gasta dinheiro, deixa-se enganar, não aceita conselhos, não ouve ninguém. E ela sempre com tranquilidade: 'Deixa-o, é a vida dele, também não estou a fazer conta com o dinheiro dele'. Um dia o pai ligou-lhe, que tinha ido ao supermercado com a romena que estava de mulher-a-dias (mulher-a-dias e não só, comentava ela) e, quando chegara a casa, não tinha janelas, tinham-lhe roubado as janelas e as portadas de alumínio. Quando me contou, dizia ela: 'É bem feita para aprender a não meter qualquer uma dentro de casa. Ninguém me tira da cabeça que foi armação dos romenos, tanto mais que a romena nunca mais lá pôs os pés. Mas vá lá meter-lhe isso na cabeça...' 

Pelo natal faz filhoses, umas com recheio, outras simples, e sonhos. Faz sempre a mais para nos levar. Deixa na copa uma caixa para nos banquetearmos. Espreita no meu gabinete e diz . 'Há-de passar pela copa'. E eu passo.

E eu também lhe conto dos meus pais, da minha lida no campo, das receitas que invento, dos miúdos. E falamos de como por vezes, parece que é quando o tempo muda, temos dores nas articulações e ela conta-me do que lhe faz bem e tem sempre mezinhas que me parecem fundamentadas e que, por vezes, sigo. E coisas assim.

Em tantos anos, nunca falámos de política, de literatura, de economia. Nem de comentadores de televisão. Nem de tantas coisas que aparentemente me são caras. E, no entanto, gosto tanto de falar com ela. Nas nossas conversas parece que só falamos da vida, da vida sem filtros, sem intermediação.


E isto que estou a escrever também não tem nada que se lhe diga e, mais que certo, espremido vale zero -- mas eu tenho esperança que, por vezes, estas minhas conversas à toa digam qualquer coisa a algumas pessoas que me lêem.

Ontem escrevi aquilo de alguns distúrbios mentais não serem visíveis a olho nu e hoje recebi um mail que me tocou: uma pessoa dizia que reconhecia a doença da prima do meu amigo, que ela também a tinha tido mas que acreditava que a tinha superado, e contava como o amor de quem a apoiou foi relevante na sua cura. E terminou o mail agradecendo-me: 'por ir chamando a atenção dos leitores do seu blog para estas questões que fazem parte da vida de todos'. E eu, lendo este mail, fiquei comovida e a pensar que vale a pena estar aqui a escrever -- frequentemente cansada, o corpo a pedir-me descanso -- se, por vezes, as minhas palavras confortam alguém ou chamam a atenção para os problemas invisíveis para quem não os consegue sentir (ou pressentir) mas que podem machucar a vida de quem os vive ou que com eles convivem de perto.


E eu sinto-me agradecida perante quem me lê e me diz que gostou de ler.

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[Se eu pudesse trincar a terra toda]


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[E peço mil desculpas por andar sem conseguir responder a mails e comentários. Ando com muito sono e escrever um post a dormir ainda vá que não vá. Mas já uma resposta requer cuidado para não parecer desmazelo se a resposta me sair com letras trocadas ou palavras a menos]

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As fotografias foram feitas no fim de semana, in heaven.

De Hahn, "L'heure exquise" numa interpretação de Philippe Jaroussky

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Talvez até já

(Ou até amanhã -- se fizer caso do que hoje me recomendaram: que durma mais, que me deite mais cedo a ver se deixo a  melatonina trabalhar à vontade)

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terça-feira, maio 23, 2017

Estou aqui para dar razão ao nosso Marcelo, o ubíquo ser que enche de afecto os nossos corações.
É verdade, sim senhor:
Passos Coelho e o seu magnífico Governo são, em parte, responsáveis pelo sucesso que Costa e a Geringonça têm alcançado.


Enquanto vejo na televisão imagens de um novo problema num concerto, desta vez em Manchester no final de um concerto de Ariana Grande -- mas ainda não se sabe bem o que aconteceu, falando-se em explosão, mortos e feridos, e vendo-se carros de bombeiros e ambulâncias a chegar -- forço-me a deslocar-me para outro assunto. Entretanto, ao telefone já se encontra Nuno Rogeiro que, espantosamente, está a transmitir informações de números de telefone, uns para denunciar suspeitos, outros para encontrar crianças que estavam no concerto. E diz que pode estar a falar-se em cerca de vinte mortos e dezenas de feridos. 


Mundo cão. Melhor fariam as televisões se não transmitissem tantos pormenores, se não fizessem tanta propaganda a tudo o que seja acto tresloucado.

Com vossa licença, irei, então, andando para outro assunto. 

Ah pois é. Se não fosse ele e ao pó que os portugueses lhe têm, jamais teríamos o governo de antónio Costa apoiado pela Geringonça

Soube que num dia relevante para o País, o da saída do grupo dos relapsos, dos de más contas e défices excessivos, Marcelo veio caridosamente dar uma palmadinha verbal nas costas de Passos Coelho, dizendo que o mérito também é dele. Não apenas do Governo de Costa mas, também, do Governo de Passos -- sentiu-se ele na obrigação de dizer.


Logo se elevou um coro de ciosos: que não, qual quê, alguma vez o Láparo pode ter contribuído para o sucesso alcançado quando notoriamente o que está a correr bem são as acertadas medidas de Costa e Centeno? E quando estes a primeira coisa que fizeram foi mudar de página e inverter as poíticas de Passos Coelho...?

Contudo, eu, se me permitem, vou dar razão ao Marcelo e contrariar os bem falantes de esquerda que andam todos contentes e se esquecem de agradecr àquele a quem tanto devemos.

Conhecem-me bem os que por aqui vão passando: não morro de amores pelo Láparo, pelo Portas, pela Marilú. Mas, se me conhecem mesmo, saberão que tento ser imparcial.

Estou a sê-lo neste momento.

Uma palavra de agradecimento é devida à seita pafiana. E ela aqui está: Obrigada.  

E não me rifem, os mais fundamentalistas. Não estou a portar-me como uma traidora. Sou franca em qualquer circunstância. As verdades são para serem ditas.

Mas antes de me julgarem, ouçam-me, por favor. Deixem que me explique.

Se o Passos, o Gaspar, a Mª Luís Albuquerque, o Portas, o Relvas, o Crato, a Teixeira da Cruz e todos os outros não tivessem sido tão maus, tão, mas tão maus, tão desgraçadamente maus, tão incompetentes, tão broncos, tao destituídos, tão insensíveis, tão impreparados, tão pouco amigos do País e dos portugueses, se não tivessem afrontado tão vilmente os mais pobres, os mais velhos, os mais jovens, se não tivessem espantilhado tão grosseiramente as empresas, vendendo as maiores ao estrangeiro, se não tivessem ajudado a rebentar com vários bancos, destroçando o sector bancário e fazendo toda a espécie de burrices sem perceberem que, fazendo tudo mal, dificilmente chegariam a bom porto -- talvez os portugueses não lhes ganhassem tanta aversão.

Assim, ganharam. Aversão. Profunda.

Fartos do Láparo e da sua trupe até à raiz dos cabelos, até à medula, até às unhas dos pés, os portugueses puseram-se nas mãos dos partidos da oposição e puseram para trás das costas os ancestrais medos dos comunistas, extremistas e o escambau. Tudo seria melhor do que a peste laparónica.

Ou seja, doidos para se verem livres de tal tropa fandanga, os portugueses estavam verdadeiramente por tudo: PS+BE+PCP e Verdes, tudo a apoiar o Governo do Costa.

Os mais timoratos de entre os apoiantes do PS ainda vacilaram mas os portugueses disseram que, perante a possibilidade de os pafs se manterem no poder, não haveria volta a dar. Que viesse a Geringonça que seria bem vinda. E veio. Para ficar.

Portanto, razão tem Marcelo: há que não negar o mérito do valor do governo do láparo. A ele lhe devemos não o podermos ver nem pintado, a ele devemos o apoio que os portugueses tão afavelmente dedicam ao Governo de Costa e à Geringonça, permitindo-lhe governar à vontade Jamais teríamos o governo de Costa apoiado pela esquerda em peso se não fosse o Passos Coelho. Portanto, obrigadinha ó Láparo. 



E obrigadinha, Professor Marcelo por, uma vez mais, nos dar a ver a luz da verdade.

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E agora, num registo muito diferente, queiram, por favor, descer até ao post seguinte onde falo de um tema muito tristemente actual:
o dos distúrbios mentais, invisíveis, arrasadores. E conto um caso verídico.

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A invisibilidade de alguns distúrbios mentais




O meu amigo não tem irmãos, apenas primas. Ainda assim não estou certa de que sejam primas em primeiro grau. De vez em quando, quando estamos juntos, toca-lhe o telefone e ele diz, tirando o som: ‘agora não, não tenho paciência para a aturar’. E não a atende.

No entanto, já aconteceu irmos de carro, tocar o telefone do carro, ele não conhecer o número, atender e sair-lhe ela. Então, não tem como não dizer nada e eu, em silêncio, vou de gosto a ouvir a conversa.

Tem uma voz bonita. Dir-se-ia que é a voz de uma mulher bem jovem. Contudo, deve andar pelos cinquenta. Tem uma conversa escorreita, elegante e, com frequência, utiliza palavras ou expressões com um certo grau de sofisticação.

Na última vez foi como vou tentar descrever.

Começa por perguntar ao primo: 'Olha lá, tu ligaste-me, não foi?', dando a entender, pela entoação, que está a responder a uma chamada dele. Ele diz que não. Ela reconfirma, como se duvidasse da resposta dele. Ele volta a confirmar: não lhe ligou. Então, ela passa à frente e começa a contar-lhe peripécias. 

‘Então não queres tu lá saber o que me aconteceu com a Lita...?' Ele permanece em silêncio. Ela retoma: 'Imagina tu que, no outro dia, me apareceu lá em casa a querer que…’ e relata coisas que a mim me parecem normais mas que ela conta como se de coisas improváveis se tratassem. No fim o primo, diz: ‘E então…?’.

Ela mostra-se escandalizada: ‘E então…? Mas então tu não estás a ver onde é que ela queria chegar…’?’. O meu amigo responde secamente ‘Não’. Ela então começa a contar, em tom de denúncia, uma série de tentativas que a Lita já fez. E eu, ouvindo-a, não consigo perceber se a Lita, que depois do telefonema venho a  saber que é outra prima, anda a pretender extorquir-lhe informações, favores, dinheiro ou outra coisa. 

No fim remata: ‘Já pensei apresentar queixa na polícia’. O primo abana a cabeça, ar de quem já estava mesmo à espera desse desfecho. Depois diz-lhe: ‘Acho que não é caso para isso’. A prima escandaliza-se: ‘Não?! Não?! Depois não venham dizer que não avisei’ O primo fica calado. Ela continua: ‘Mais. Não sei se cheguei a contar. No outro dia, tocou o telefone já passava das dez da noite. Vi logo. Perguntaram por outro nome. Disse que ali não morava ninguém com esse nome. Disseram que era engano. Sim, sim. É para me intimidar. Percebo-a bem. Mas a mim não me engana ela. A vocês engana mas a mim não.’ O meu amigo encolhe os ombros. Depois encerra a conversa: ‘Pronto. Então tudo bem. Vai dando notícias’. Pelo tom, vê-se que ela percebe que ele está a despachá-la. Responde com ar contrariado ‘Quando quiseres, liga’.

Furioso, comenta: ‘Já trocou outra vez de telemóvel. Agora dá-lhe para isto’. Eu digo: ‘Tem uma voz bonita e parece normal’. Ele diz: ‘Sim, sim... normalíssima… Mas tem razão: quem a vê não a leva presa, e é bonita, faz lembrar aquela da Anatomy de Grey. Quer saber a última? No outro dia, de madrugada, ligam-me da polícia. Apanhei um susto, pensei logo no meu filho. Não, tinham-na levado para a esquadra. Então o que era? Tinha ido outra vez à casa onde morava com os pais, na Ajuda. Uma casa que parece um museu, não imagina, óleos enormes, valiosos, móveis antigos, uma biblioteca extraordinária. Tudo fechado, sem ser limpo há meses. Volta e meia vai lá. Quando lhe sugeri que não fosse lá durante uns tempos, que eu ia, que mandava limpar a casa, respondeu-me ‘Nem penses. O que tu queres sei eu.’. Nunca mais lhe disse nada. Quer ir, vá. Mas então que vê bichos, que a atacam, que ouve barulhos, que há gente lá dentro. E, vai daí, vai buscar uma vassoura e anda à vassourada nas coisas, a gritar, a bater nas paredes com a vassoura, a atirar coisas. Faço ideia o chinfrim às tantas da noite. Os vizinhos começaram por tocar à campainha e, como ninguém lhes abriu a porta e o barulho continuou, acabaram por chamar a polícia. A muito custo lá abriu a porta aos polícias que também não perceberam o que se passava. E foi ela que lhes disse que o melhor era chamarem-me que eu explicaria tudo e que o melhor era ir com eles e a explicação ser dada na polícia. Chego lá, estava ela na conversa com os polícias, uma conversa muito articulada, a contar a história da vida do pai, pessoa ilustre e conhecida, e dos problemas que tem tido, toda a gente a querer espoliá-la, ela coitada a ser vítima de toda a espécie de intimidações, de chantagens, e ela sozinha na vida a ter que resistir a tanta malfeitoria. Os polícias já condoídos e a olharem-me de lado, como se eu fosse um dos suspeitos. Levanto-me de madrugada para me ver no meio duma esquadra, quase a insinuarem que eu é que teria andado lá por casa a assustá-la ou como se tivesse pago a alguém para a apavorar. Como se fosse eu que andasse a tramar aquilo para lhe ficar com a casa. Imagine. Uma situação, digo-lhe. No fim, os polícias perguntam-lhe se tem para onde ir e ela, ar de vítima, dá a entender que deveria ir comigo mas que a minha mulher é que não a aceita. Com certeza que não a aceita, mas nem ela nem eu. Só que a questão não é essa. A questão é que ela é maluca e tem é que ser internada e não andar por aí a arranjar problemas. Agora se ela não acha que está doente e não vai ao médico, como é que a gente lida com isto…? Faz ideia? Eu não faço...’

E eu, ouvindo o seu monólogo e vendo o seu desagrado e a sua inquietação com a situação, fiquei também ser saber como se age numa situação destas.

Perguntei: ‘E não tem mais família, alguém que a ajude?’. 

Ele esclareceu que não. Filha única, estava agora sozinha. De família, tinha apenas aquela outra prima e ele. É ainda professora mas arranja problemas constantes na escola secundária onde lecciona. Diz ele: 'Imagino o que é aquilo a dar aulas ou a lidar com as regras da escola, imagino.'. No entanto, ela não reconhece que tem problemas. Não pensa em reformar-se e, se calhar, mesmo que pensasse não o conseguiria. Pelo que a outra prima lhe conta -- porque essa tenta, apesar de tudo, não a deixar desamparada -- o meu amigo diz que ela não limpa a casa, não se alimenta convenientemente, não se percebe se trata das contas bancárias ou do que quer que seja e reage pessimamente se alguém tenta ajudá-la pois pensa que o fazem interesseiramente. No entanto, diz ele, é bonita, parece muito mais jovem e, por incrível que possa parecer, diz ele, mantém o ar de mulher tratada e elegante. Pior, acrescenta ele: disfarça muito bem. Perante outras pessoas, mais depressa as convence que alguns outros andam com depressões ou são psicopatas do que deixa transparecer o que ali vai. E, no entanto, é uma desgraça que ali está. E conclui: ‘Não vai acabar bem…’

E eu fico sem saber o que dizer.

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segunda-feira, maio 22, 2017

Porque é que os homens deveriam manter um diário?
Abaixo poderão conhecer a razão
Mas eu, por via das dúvidas, descrevo aqui o meu dia
porque se faz bem aos homens não há-de fazer mal às mulheres.





Hoje trabalhei muito. Estou fisicamente cansada. Ou melhor, talvez não cansada mas com sono como se fosse um dia de semana e me tivesse levantado muito cedo. A questão é que, de facto, me levantei cedo e quase não parei. As azinheiras levaram um desbaste que apenas não foi assustador porque fui acompanhando a par e passo cada decisão. No final as árvores parecem ainda maiores e o que eu receava, que, no final, ficássemos sem sombra, não acontece pois as ramagens lá de cima alargam generosamente a sua sombra até aos humildes seres que andam cá em baixo. Agora já não há um ramo grande junto à chaminé nem outro enorme tombando até ao chão. Era deste grande ramo, um autêntido tronco, que eu menos me queria separar. Formava uma abóbada e eu gostava de estar lá debaixo. Mas na verdade estava a tapar (e a atrofiar) o diospireiro e, de facto, já quase não se podia andar ali. E, para além disso, o chão estava permanentemente coberto das suas folhinhas e, nesta altura, da sua baba. Chamo baba às flores amarelas que formam um pó porque é assim que lhe chama o senhor que foi cortar a árvore. Tem uma serra eléctrica eficientíssima que deixa os grandes ramos transformados em bocados de lenha.

No fim, andei a apanhar os maiores e coloquei-os sobre o murete que delimita aquela zona e para o qual está virado o meu jardim zen. Pesados. Madeira compacta. Fazer musculação para quê, a levantar pesos pesados destes?


Entre ramagens, folhas secas, terras que se juntam sob a folhagem caída, nem sei quantos carrinhos de mão enchi e transportei para um local que precisa de terra.


O meu marido pintou as zonas mais extensas ou mais difíceis e eu limitei-me aos retoques mas, ainda assim, foi mais uma coisa a fazer. 


Mas este é um trabalho que faço com gosto. Faz-se e há sempre mais para fazer, arbustos para conter - e agora estou a pensar num loendro que abriu os braços e já comeu quase metade de um caminho -- árvores para serem podadas, ramos secos para serem cortados, folhas e flores mortas para limpar.

Hoje, debaixo dos ramos de baixo de um arbusto, descobri uma enorme pele de cobra ainda fresca e maleável. Estive a ver o que sobrava das escamas esverdeadas, muito bonitas.


Andava cá fora, nestas labutas e o almoço ao lume. Estar a trabalhar, sentindo os odores perfumados que da cozinha me chegavam, abre-me o apetite cá de uma maneira...

Para o almoço fiz um cozido simplificado.
Num tacho coloquei um pouco de água, uma cebola fresca muito grande, um bocado de entrecosto, umas pernas de frango do campo e um pouco de sal. Deixei cozer em lume baixo (ie, depois de ter fervido, baixei). Quando vi que já estava quase, juntei feijão verde abundante, repolho, cenouras e batata doce e, por cima, uma farinheira. Depois de ferver, baixei e ficou em lume muito brando. Depois de cozinhar, ficou a descansar durante um bocado. 
Modéstia à parte, estava bem bom. Como estou a fazer dieta, não comi batata doce e mal provei a farinheira. 

Mas, dizia eu, que andava lá fora e a sentir o cheirinho bom que saía pela chaminé. Quando penso in heaven, há várias ideias boas que tenho cravadas em mim e uma delas é esta: estar na rua a varrer, a lavar tapetes ou a estender roupa e sentir o cheirinho apetitoso que sai pela chaminé.

Há uma outra: estar no quarto ou na sala e estar a ouvir os pássaros. Gosto tanto. Traz-me uma sensação de paz duradoura, daquela que ninguém no mundo poderá subverter.


Depois de almoço deixei-me estar, durante um bocado, a descansar na sala. Estive a ler sobre a heteronímia e fiquei com a dúvida que já tinha: é uma personalidade mais rica por se desdobrar em várias ou é o eu que é mais pobre porque nunca é completamente inteiro, uno? Claro que o texto girava em torno de Pessoa mas Pessoa não será o único exemplo.
Pensei em mim. UJM é um heterónimo? Acho que não. Acho que é apenas um facilitador. É que, apesar de não usar o meu nome, sou, na mesma, eu, eu igual a mim, múltipla mas una. Não sou poética sob uma persona autónoma, maluca com outro nome, terra a terra com outro, etc. Não. Acho que talvez seja isso tudo mas sendo eu e não um múltiplo ou parte de mim. Mas adiante que eu também não sou para aqui chamada.
Mas, portanto, estava na sala, a janela aberta, e os pássaros num concerto. Tantos pássaros que ali vêm cantar. Dá felicidade ouvir pássaros a cantarem ao desafio, tranquilos, apenas sendo pássaros. 


Quando saímos de lá, já eram sete da tarde e ainda tínhamos que ir a casa dos meus pais e isto sabendo que, quando chegássemos à nossa, ainda haveria sopa para fazer e uma máquina de roupa para despachar. E já com fome. Portanto, parámos na tasquinha ao pé da bomba de gasolina e fomos petiscar. Belos petisquinhos entre gente da terra que via, animadamente, o futebol.

Com tudo isto, chegámos a casa tarde e só muito mais tarde consegui aterrar aqui.

Para combater o sono, pus-me a ver outros blogues ou jornais online.

E, no The Guardian, li que faz bem à saúde física e mental ter um diário. Ajuda a estruturar ideias, a desabafar (a quem disso sente falta) e até reforça o sistema imunitário. Em particular, parece que previne ou ajuda a ultrapassar a depressão.


Transcrevo uma parte (e desculpem por não traduzir mas, a esta hora e no estado que estou, adormeceria de imediato se me pusesse com traduções):

Professor James Pennebaker, who specialises in social psychology at the University of Texas, has spent many years looking at how writing down our feelings may boost immune functioning. In Opening Up by Writing it Down, which he co-authored with Joshua Smyth, Pennebaker says expressive writing improves health and eases emotional pain. He includes findings from hundreds of studies showing the health benefits of expressing emotions, particularly after trauma.

Pennebaker explains: “By writing, you put some structure and organisation to those anxious feelings. It helps you to get past them.”Pennebaker has also found that suppressing negative thoughts, rather than talking about them, can compromise immune functioning.
This is why the effect of writing journals can be so powerful for men. The single biggest killer of men between 20 and 49 is suicide. Part of the problem is that when men become depressed, they conceal their feelings and prefer not to seek help. While 67% of women will tell someone if they feel depressed, only 55% of men will confide in someone. This is slowly changing and men are speaking out – from Rio Ferdinand to Professor Green and Prince Harry.
While this work is hugely important, there are still plenty of other men out there who may not feel quite ready to talk and prefer to keep things private. This is where the power of keeping a journal can be so helpful. It’s the next step, without feeling too exposing, where men can communicate in private the highs, lows and all their emotions in between. Journals are a safe space to offload, without fear of being judged.

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Ah, é verdade, o mais importante: falei com a convalescente que já estava a pé, a voz animada e à espera de ir para casa. E eu fico muito contente por ela e por todos, porque quando um de nós tem um problema somos todos que o temos. Mas o pior já passou e bola para a frente porque para a frente é que é caminho. 

E a vida é uma coisa extraordinária, um milagre permanente e eu fico em estado de encantamento com o que me é dado presenciar e viver. 
[... E eu já escrevi que me fartei. Tenho que ter atenção. Se escrever um diário é uma terapia, então convém não abusar senão torna-se uma overdose. Cerrto?]
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Fotografias feitas in heaven, dentro e fora de casa

A música é um cover de The sounds of Silence numa interpretação de Nouela

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, maio 21, 2017

Machines
Imagens brutais (e comoventes) do que é o trabalho na Índia, numa indústria altamente competitiva


A indústria têxtil é daquelas indústrias globais em que qualquer hipotética regulação bateria de frente com os diferentes níveis económicos ou culturais ou as diferentes formas de interpretar conceitos como consciência ambiental ou protecção social.

Não há comparação possível nem qualquer hipótese de nivelamento.

Visitei há uns anos uma fábrica têxtil em Espanha, fábrica essa creio que entretanto fechada, O caldo que corria no chão da fábrica era horrível. A espuma que fazia era nojenta. Aquilo a que chamavam bacias de retenção eram uns tanques com ar tenebroso. Dá ideia de que se alguém lá caísse de lá não sairia com vida. E isto foi há talvez uns quinze anos, não há oitenta, e em Espanha, com trabalhadores reivindicativos, sindicalizados, numa altura em que o ambiente e a saúde no trabalho eram já dados adquiridos. Imagine-se o que será nos confins da Índia.

Os belos tecidos indianos que nos chegam a tão bons preços como serão eles produzidos?

É isso que Rahul Jain nos mostra num documentário de que apenas vi o trailer mas que deve ser um violento murro no estômago para todos quantos assistam ao que lá se passa.



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Eu é mais chapéus


Para ajudar à festa, a coisa da televisão digital deve estar passada pois não fixa a imagem. Bem, não sei de que é. Antes esse aparelhómetro do que a televisão. Por isso, nem o telejornal vi. Por mim podia ficar ali assim mas o meu marido desligou, diz que não é maluco.

Estive a espreitar as notícias nos jornais e também não descortinei coisa que me apetecesse comentar. Muita banalidade ou déjá-vu. Ou se não é já visto é expectável. Coisa de uma pessoa ficar de boca aberta não me lembro de ter visto.

Portanto, com vossa licença, voltarei aos meus assuntos domésticos.


Não havia na vila, tivemos que ir mesmo à cidade. E na cidade também não foi à primeira. No supermercado só baldalhões. Ia sobrar muita, acaba por se estragar. Vimos um armazém que, ao contrário de alguns em Lisboa que inventam nomes poéticos ou pseudo-americanos para disfarçarem a origem, este não, este fazia-se mesmo anunciar como grande armazém do amigo chinês. Pensámos: tem tintas, de certeza. Pois não tinha. Pronto. Fomos à cidade. 

No fim, estava a apetecer-me ir comer uns petiscos mas fui interceptada nos meus intentos: que não, o meu parceiro queria ainda ir dar uma demão para amanhã dar a segunda e fazer mais não sei o quê. 

Já o fez e já vi que o degrau de entrada da cozinha está todo pintalgado. Não pôs plástico. Diz que é tinta de água, que sai bem. E, se lhe digo muito mais, ainda afina. Portanto espero para ver. No fim, ainda acabo eu a raspar aquilo. Faz tudo a despachar, sem cuidado, mas acha que eu é que gosto de embirrar. A minha esperança é que se encha de brios e deixe tudo limpo. Um muro que pintou  de verde, hoje de tarde, está toda manchado. Já me ofereci para ir lá fazer pinturas, para disfarçar, mas disse-me para eu me deixar de ideias. Enfim. O costume.

Portanto, com isto tudo acabámos de jantar já perto das dez. Também o normal. 

Da cidade chegam boas notícias e isso é que é preciso. Os que estão de boa saúde, aproveitam o bom tempo, os convalescentes convalescem em sossego. Não tarda já está tudo junto e na boa, chatices e sustos para trás, no passado.

E, assim sendo, já que amanhã de manhã tenho cá o homem da serra eléctrica que vem ver comigo afinal por onde é que se corta a azinheira (os cedros e pinheiros do outro lado já foram levemente aparados), não posso deixar-me estar para aqui nisto, senão daqui a nada é madrugada e acabo por nem ao fim-de-semana dormir de jeito.

De tarde, depois de vos ter contado as agruras azuis-alentejo, ainda conseguir ler um bocado. Sobre arquivos de escritores. O de Carlos Oliveira. O de Pessoa. Li trechos sobre os quais pensei que deveria transcrever algumas partes para aqui ficar com elas e para vos mostrar. Mas agora estou com preguiça. Só se for mais daqui a nada.

Pensei que, se eu um dia der em escritora (e não vale a pena rirem porque nunca se sabe, há talentos que apenas se descobrem perto do ocaso da vida; porque não eu, um dia que tenha tempo para me pôr a escrevinhar com tino...?), não vou ter arquivos nenhuns em papel. Não escrevo em papel, parece que não desenvolve tão bem como aqui. Os meus arquivos serão estas coisadas que para aqui vou alinhavando todas as noites. Não há arcas nem baús nem tesouros escondidos. Paperless. Desmaterializada. Tudo a céu aberto.

Agora vou é dizer-vos uma outra cosa: estive a ver as fotografias do casamento de Pippa Middleton, a mana da Kate. Claro está que o tema me deixa indiferente pois não sou dada a seguir os royals, quanto mais as irmãs das royals. Mas há um tema ao qual não sou indiferente: os chapéus. Love, love hats.


Assim de repente não estou a ver, nas minhas redondezas, alguém que esteja para se casar para eu ter pretexto para. Mas lá que bem que me apetecia ter motivo para usar um chapéu do género destes aqui, lá isso gostava. Um dia destes começo a usá-los para ir para o trabalho. Que frustração esta. Tanto que eu sou dada a usar chapéu e cá não há maneira de pegar a moda.

Aquele último, ali acima, com uma flor exuberantemente aberta ao mundo, é espectacular. Já estou a ver-me com ele. Mas onde, senhores, onde...? Terei que me recasar para organizar uma festa à maneira onde faça sentido usar uma obra de arte na cabeça...?

Bem. Adiante que se faz tarde.

Tirando isso, sobre o casamento da mana Pippa que casou com um milionário -- another one, lots of milionários lá por terras de Sua Majestade -- gostei também de ver os royalitos Charlotte e George, ambos umas fofuras de principezinhos.


Quanto ao Prince Harry, não apareceu com Meghan, a sua namorada plebeia e mestiça, e isso certamente desapontou muito boa gente. A mim nem por isso. Estou é mais ralada com a cena da árvore porque já sei que vai ser uma luta.


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Bem, para não dizerem que vieram aqui para nada, deixo-vos com um padre inexperiente a fazer o seu primeiro casamento.


E um casamento a sério


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E talvez até já com coisa que se apresente.

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