Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, abril 24, 2017

Conversas em família
[Uma forma, como qualquer outra, de festejar a vida
(com a vantagem de quer a autora quer o marido... estarem ambos acordados)]

-- E uma ou outra reflexão --





Não é que a vida seja um mar de rosas. Se pensarmos nela como um organismo complexo que é, visto de maneira diferente consoante o ângulo ou a profundidade com que o observemos, perceberemos que não é possível descrevê-la com simplicidade.

Poderia falar do meu dia de domingo, do passeio que dei, do que fiz aqui em casa, das pessoas com quem falei e, de cada uma dessas vertentes, transmitiria uma ideia diversa.

Poderia falar de arrumações, de pôr a máquina a lavar, de um spray mágico para tirar nódoas ou sujidades maiores e que se aplica antes de pôr a roupa na máquina, poderia falar do livro que li, do que almocei ou jantei.


Ou poderia falar da beira rio, do coelho de chapéu e óculos de sol que vi à sombra de um pinheiro, da rapariga com flores no cabelo, ou poderia falar das mil vozes que se ouvem, línguas diferentes, casais apaixonados ao sol ou amizades antigas, conversadas à sombra, ou falar dos pescadores e dos ciclistas, e da equipa de filmagens e das meninas vestidas como bailarinas, ou podia falar dos barcos, tantos.


Ou poderia falar dos meus pais, preocupações permanentes, estados de saúde que oscilam, fragilidades e surpreendentes resistências, angústias e alegrias, o tempo a andar ao ritmo que a vida permite.

Ou poderia falar da descendência, filhos e netos, sempre todos tão cheios de vida e de feitos e de por fazer. Ou poderia, aqui, fazer um zoom sobre o mais novo membro da família e falar do bebé e do bom que é ter uma criança assim ao colo, adormecê-lo enquanto entoo o meu menino é de oiro, é de oiro fino, não façam caso que é pequenino, de José Afonso, e do bom, bom, que é ele sorrir para mim,

Ou poderia falar das rasteiras que a vida prega a quem menos espera, mostrando que, sobre todas as vontades, impera o imponderável, o inexorável poder das células que habitam o nosso corpo e que, de um momento para o outro, podem mostrar que, afinal não se está tão bem quanto se pensa e que, pelo contrário, se está é a braços com desafios de vida ou de morte, tendo que encontrar forças e coragens que não se supunha ter.

Ou poderia ainda falar das lutas profissionais, lutas, lutas, uma luta constante.

Ou poderia falar de tantas outras coisas.

Sobre cada uma dessas vertentes eu poderia falar, aprofundar, esquecer as demais. E talvez, consoante a perspectiva ou o tom, pudesse transmitir a ideia de que apenas essa vertente era relevante.


Mas prefiro nunca me esquecer que há esta multiplicidade -- que por cada mau momento numa das vertentes, vários bons momentos estão a acontecer nas outras, e que por cada susto que atravessa o nosso caminho, vários sorrisos nos espreitam nos caminhos que estão por vir, e por cada árvore que tomba, várias outras despontam, e que por cada uma que se mostra tortuosa, muitas outras têm uma coluna vertebral bem vertical, e que por cada íngreme vereda que temos pela frente, suaves planícies nos esperam. 

É certo que sou uma optimista e isso é coisa que nasce connosco. Li que as pessoas criativas são mais felizes e se calhar é isso que acontece comigo. Mas, enfim, sou como sou e não tenho que me desculpar por isso. Mas que não se pense que a minha vida, lá por eu a encarar assim, é feita a feitio para mim ou que tem apenas o lado solar. Não, tem também o lado lunar. Mas, sou assim: amando de tal forma a luz, o sol, a beira de água, amo igualmente a noite, o silêncio e quietude da casa adormecida. E se caio, levanto-me, e se me molho, seco-me. E etc.


E devia era estar a falar do 25 de Abril que aí vem e estou nisto, a deitar conversa fora. Moleza de noite de domingo.

Gosto de estar assim, tranquila, a televisão a passar um programa qualquer onde ouço falar em francês de La Fontaine, de Molière, de Fouquet, e não sei a que propósito falaram também poeta Adonis, e, ao mesmo tempo, a ouvir Yiruma e a escolher fotografias para aqui colocar, e a fazer o carregamento de um dos vídeos que fiz no sábado à tarde.
Ganhei-lhe o gosto... 
Não estranhem a voz ainda mais apanhada do que o costume. Estava deitada de barriga para baixo e a voz, volta e meia, ressente-se dos movimentos. Como verão, não consigo, mas não consigo mesmo, manter-me com voz bem comportada. Ao pensar que estava a gravar, poderia dar-me para estar concentrada e atilada mas, qual quê?, dá-me é para rir. Claro que o interlocutor também não ajuda. Bem que lhe peço para me fazer perguntas sérias mas é mais forte que ele. Aliás, comecei por querer fazer-lhe eu perguntas mas tive que desistir: a nenhuma pergunta encontrou qualidade suficiente para se dar ao trabalho de responder.

Aconteceu também outra coisa que não ajudou: estava sem espaço no telemóvel e os vídeos eram automaticamente cortados por insuficiência de espaço. Portanto, este que aqui poderão ouvir interrompe-se abruptamente. Depois deste, gravei mais uns três mas cada um a interromper-se antes de atingir 1 minuto. Uma coisa completamente anti-profissional, uma vergonha. Se tiver paciência, apanhã passo-os para o youtube. Mas, se não, como verão, também não se perde nada.

Agora uma coisa vos confesso: ao ouvir-me, reparo nos disparates que digo, palavras mal usadas, parece que começo a pensar dizer uma coisa e que depois, por algum estranho motivo, há uma inflexão que me leva a dizer outra coisa que deixa a frase mal alinhada. Vou passar a estar mais atenta enquanto falo. E aquilo do Camões até me deixa doente. Pensei que, mais do que dos Lusíadas, preferia outros poemas dele, estava a lembrar-me de alguns, mas fiz para ali um short cut e saíu um nonsense que eu deveria era nem publicar isto. Credo. Será que dá para apagar e fazer uma montagem?

Se para outra coisa não servirem estes vídeos, para além de nos divertirmos a fazê-los, servirão, talvez, para me ajudar a falar melhor, a pensar mais antes de falar. Minha mãe santíssima...!

E já agora: aquele livro da Maria Teresa Horta a que me referi como 'A mon seul désir' chama-se, afinal, 'A Dama e o Unicórnio'. Compreende-se a confusão: as palavras são praticamente as mesmas.

A referência ao facto de festejarmos a vida enquanto estamos os dois acordados tem a ver com um comentário muito divertido que há dias recebi.

Conversas em Família -- a UJM e o marido conversam sobre o que calha


Vídeo nº 1


Não se aprende nada com estes vídeos, essa é que é essa.

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Sobre as eleições em França, caso estejam para aí virados, podem descer até ao post seguinte.

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domingo, abril 23, 2017

Emmanuel e Marine


Marine le Pen (21.7%) e Emmanuel Macron (23,9%), agora é com eles.
 2ª volta das eleições em França



Não tenho muito a dizer sobre o resultado das eleições em França. Apenas um breve apontamento e só para aqui deixar o registo do momento. Pouco sei sobre o tema que me leve a achar que devo aqui botar faladura.

Sei apenas que compreendo a grande percentagem de votos em Marine le Pen.

Hollande foi uma lástima, um frangote que não consegiu afirmar o orgulho francês, a quem não se conhecem ideias que fiquem para a história, que deixou que a França andasse a reboque das vontades de Merkel. Com ele, o PS esvaziou-se. A falta de liderança dá nisto, desgasta as forças dos que os circundam. Uma abulia que alastra.


Do lado conservador, depois do carisma de Sarkozy que se foi diluindo entre o charme da mulher e as acusações em que anda envolvido, nada sobreveio. Fillon foi um tiro de pólvora seca que, ainda por cima, se viu desgastado com as situações de favor à família.

Depois Mélenchon. Pouco sei dele. À esquerda dos socialistas, foi uma surpresa. Fui sabendo das sondagens mas, mea culpa, não tive vontade de saber mais. Qualquer coisa nele me pareceu torná-lo pouco credível para a função. 

Para além de outros não relevantes em termos de expressão, fica Emmanuel Macron e Marine le Pen.

Quando as pessoas vão votar em alturas de perturbação social, insegurança e medos querem natural mente alguém que lhes inspire confiança. 

E, do pouco que conheço, estes dois eram os que inspiravam mais confiança.


Para as comunidades rurais ou mal informadas, Marine é a maman, a mãezinha que afirma querer restabelecer o orgulho francês, repôr as fronteiras, abolir a baderna europeia, lutar contra imigrantes e terroristas. Marine é a figura que se apresenta firme, peito feito, sorriso protector. E, para além da imagem de lutadora destemida, adoça o conjunto, mostrando-se em fotografias em casa, num ambiente simples e acolhedor, com gatos passeando na secretária onde escreve ou com ternurentos gatinhos ao colo, Para quem vota escolhendo quem se lhe afigura mais capaz de domar os medos e ser a maezinha protectora, Marine aparece como a escolha certa.



Depois há Macron.


Para quem quer mudar mas mantendo os valores europeus da liberdade, do humanismo inclusivo e de uma certa acalmia social, Macron aparece como uma escolha sensata. Acresce o lado romântico que, diz-me a minha intuição, influenciará o eleitorado feminino. O facto de Emmanuel, aos 15 anos, ter caído de amores por Brigitte, uma professora de 40, casada, com 3 filhos, e de ambos terem escondido o amor até ele ter 18, e o facto de ela se ter divorciado para se casar, anos depois, com o seu ex-aluno, sendo um casal inseparável, orgulhoso e elegante, de certeza toca, digo eu, o coração de muita gente.



Portanto, para resumir. Os partidos, essa massa amorfa que se mantém unida à custa de interesses tantas vezes desarticulados e egoístas, deveriam ter a inteligência de saber repensar-se, reorientar-se, aproximar-se e perceber os anseios populares. Da forma como estão, máquinas anquilosadas, os partidos mantêm-se a marcar passo sem sair do mesmo lugar enquanto o eleitorado evolui ao sabor das crises económicas, das ameaças externas, das preocupações pessoais e sociais. E, assim sendo, a condução dos países vai caindo, cada vez mais, nas mãos daqueles que, de uma forma ou de outra, conseguem perceber a linguagem que diz alguma coisa aos eleitores. Terreno fértil, pois, para a demagogia. Com alguma sorte, aparecerá alguém minimamente equilibrado que não dê cabo do país. Parece que, pelo menos por agora, França conseguirá livrar da populista chauvinista Le Pen. Mas, enfim, reconheçamos que o consolo não é extraordinário.

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E, enquanto Juncker e Merkel desejam "boa sorte" a Macron, os media começam a debruçar-se sobre o estilo da sorridente e elegante Brigitte Trogneux, a mais do que provável Primeira Dama francesa.


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E, sobre galos, queiram descer até ao post seguinte.
Não é do coq gaulois mas de galos jeitosos que ali se trata mas saibam que é com garbo que eles se apresentam.

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Galos e Galinhas







Sou muito sensível à forma como as casas estão arranjadas. Custa-me muito -- e digo que me custa porque é uma rejeição quase física -- estar em casas que, segundo o meu gosto, são umas tumbas, inóspitas, escuras, atrofiantes. E note-se que isto não tem a ver com o dinheiro que se tem para se morar numa casa ampla e luminosa ou para ter boas mobílias. Custa o mesmo dinheiro comprar sofás escuros ou comprá-los claros ou alegres, ou ter móveis pretos ou castanhos ou brancos. Pendurar quadros pequenos, isolados, bem acima da linha dos olhos custa o mesmo dinheiro que pendurá-los mais abaixo e num canto em que não fiquem perdidos e tristes.

Por exemplo, o meu filho tem na sala da televisão um sofá de canto em tecido preto e, no entanto, a sala não podia estar mais alegre já que em cima dele (dele sofá, note-se) tem mantinhas coloridas, almofadas igualmente às cores, os móveis que tem são brancos e o que tem nos móveis, desde livros a revistas, passando por brinquedos, caixas de lápis de cor e sei lá que mais, introduz uma animação que o preto apenas realça.

Na sala, a minha filha tem também uma chaise-longue em pele preta mas está ao pé de um sofá bege sobre o qual pairam almofadas completamente coloridas, nas paredes tem quadros que transbordam de azul e toda a sala tem um ar alegre e luminoso. 

Na minha casa, tenho a sorte de ter janelas largas por onde a luz entra generosamente e só isso lhe traz imensa alegria. Mas tenho também toda a espécie de objectos que me alegram e, acho eu, fazem com que quem aqui está se sinta bem. 

Não há cá preocupações com estilo nem, confesso, com grandes arrumações. 

Há objectos antigos misturados com objectos de agora, coisas com algum valor misturadas com fancaria. O critério que preside é unicamente o gosto pessoal. 

Felizmente os gostos, por cá, são razoavelmente afins pelo que não há divergências de monta. Há, isso sim, uma questão de fundo e relativamente à qual a minha vontade, desde o início, prevaleceu. Contudo, volta e meia, dá-me vontade de reverter a minha posição e converter-me ao gosto dele. Explico: ele tem uma certa tendência para o minimalismo. O sonho dele seria viver numa casa ampla e quase vazia, uma coisa de tipo loft, quase sem paredes, quase sem mobílias, quase sem adereços. Ora, a nossa casa, sobretudo a da cidade, tem muita tralha, muito livro, muita bugiganga. Felizmente as divisões são amplas e dá para dispor os móveis de modo a que o espaço de circulação seja folgado (e felizmente também tive a esperteza de ter optado por móveis maioritariamente fechados com portas de vidro pelo que a limpeza de pó não é uma operação dramática). Contudo, a ideia do despojamento é-me, cada vez mais, atraente.

Mas, independentemente disso, uma coisa existe em profusão nas minhas casas: a cor. E uma outra também: uma certa dose de maluquice. Na nossa casa no campo, tenho uma coisa a que acho imensa graça: galos, galinhas.
Poderia tê-los ao vivo mas capoeiras não dá, morreriam à fome durante a semana, e acho que não se dão à solta (e provavelmente o gato branco far-lhes-ia a folha) pelo que tenho-os na versão que podem ver.
Há galos e galinhas por toda a parte: em cima da chaminé da sala, em cima da chaminé da cozinha, no aparador da sala de jantar e numa mesinha ao lado (de que falei a semana passada), no chão da sala, num prato na parede da cozinha, num quadro que pintei e sei lá mais.


Não é pancada -- acho eu. É apenas uma opção estética. Acho-os uns bichos coloridos, orgulhosos, elegantes. Isto os galos, bem entendido. E as galinhas, não tão cinéfilas, também têm a sua graça e, sobretudo, põem ovos e os ovos são bons para a gente comer.


Enfim, assim é a minha casa. Felizmente, sendo coloridos e alegres, há uma particularidade feliz nisto: permanecerão coloridos e alegres forever. E, além disso, não cantam. E eu, que quando aqui estou gosto de dormir até a manhã ir alta, dou graças por isso. Imagine-se se um dia ganham vida e desatam, às seis da manhã, a cantar. Acho que me transformava em gato branco.

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E queiram descer e juntar a vossa voz ao vasto clamor que já se ouve da onda de fundo que o Expresso se prepara para fomentar:

Queremos o Relvas!
Queremos o Relvas!
Queremos o Relvas!
Queremos o Relvas!
Queremos o Relvas!



Ele é o inteligente, o presciente, 
Ele é o bom cantor, o ex-doutor, 
Ele é o ladino, o bom latino, 
Ele é o sedutor, o trepador, 
Ele é o topa a tudo, o vale tudo, 
Ele é o ex-futuro banqueiro, o lampeiro, o aventaleiro,
Ele é o paridor do láparo, o educador do láparo, o candidato a enterrador do láparo
 ... ele é... 
... ele é... 
... ele é o Relvas!

Relvas!
Relvas!
Relvas!



Miguel Relvas regressa e desafia Passos com primárias no PSD


E regressa faceiro, descarado, igual ao que sempre foi. Doutor da mula ruça e do rabo pelado, a ele não há quem lhe faça o ninho atrás da orelha: diz o que lhe parece que o ar do tempo pede, mesmo que isso não tenha nada a ver com a verdade. Ele está por trás do pano, a mexer as marionetas e a dizer-lhes as falas. Teatrinho ou palhaçada da grossa, tanto faz para o grande artista da televisão e das cassetes piratas. Feito santinho, apaga a história do partido e dele próprio, e qual aparição -- sorry: 'visão imaginativa'! -- ei-lo que regressa pela mão do Expresso, conforme anuncia o DN:
"Está na hora do meu partido, que nunca foi um partido instalado nem com dirigentes dependentes da vida política para viver, encarar este debate sobre as primárias". A frase é de Miguel Relvas, o ex-braço direito de Passos Coelho que assume o regresso à vida política com um desafio ao PSD: "está na hora" de discutir primárias no partido. 

Ao Expresso, o antigo ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares de Passos Coelho - que foi fundamental para a eleição do líder do PSD em 2010 - disse que o debate das primárias tem de ser feito o mais rapidamente possível, apesar de saber que o líder do partido não tem a questão como prioritária.

Esta semana, Miguel Relvas surgiu ao lado de Luís Montenegro, tendo elogiado o líder parlamentar dos sociais-democratas como "um dos rostos do futuro" do partido. (...)


À semelhança do que fez com o ressabiado láparo, estará Relvas a preparar-se para ser a mão atrás do arbusto de onde emanará, vitorioso, o joker e irmão Montenegro?

Ah, a falta que o Relvas me faz.. Farta, farta, fartinha da sensaborice deste PSD do láparo e da pinókia, gente façanhuda e ressabiada, sem graça. 


E o Relvas surgiu perto do 25 de Abril... Isto promete. Tê-lo-emos a cantar a Grândola Vila Morena...? Tomara que sim. Ah, o que eu gostava de o ver outra vez a exibir os seus fantásticos dotes vocais.


Relvas: canta! canta! canta! canta!


Ah, que contente estou com o regresso do nosso fofo Vai-Estudar-ó-Relvas!


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Como é bom de ver, as imagens provêm da inesgotável arca do extraordinário We Have Kaos in the Garden

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Um bom dia de domingo a todos!

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sábado, abril 22, 2017

Pecar contra os deuses
[Gonçalo M. Tavares e António Lobo Antunes]




Para se ver como tudo é tão relativo. E, atenção, nisto que vou dizer não há ponta de certezas absolutas. Aliás, se eu tivesse levado a catequese a sério, a esta hora era muito bem capaz de estar para aqui arrependida... e ainda nem pequei. Que isto que estou a pensar deve mesmo ser pecado. E, se não é, para lá deve caminhar. Só pode.

Estou com paninhos quentes. Em vez de ir ao assunto, estou para aqui com rapapés. Já devem ter reparado.

A questão é que quero primeiro pôr-me no ponto para não irritar as leitoras catequistas que preferiam ver-me aqui a carpir, a contar do desgosto que me dá a minha celulite
(mas, azarinho, não a tenho) 
ou a chorar a minha neura e insegurança,
(azarinho, também não sinto tal -- e já bati, outra vez, três vezes na madeira não vá alguma leitora diabólica tecê-las), 
em vez de me verem a opinar toda sentenciosa. 

Por isso estou aqui nas boxes a ver se perco gás antes de começar a escrever. Mas isto custa.

Não quero irritá-las mas também não posso ficar o resto da noite para aqui a bater mea culpas no peito. Que maçadoras que são as catequistas moralistas. 


Quando agora forem ensinar o milagre da Nossa Senhora a aparecer aos pastorinhos, devem ficar a fazer figas para os meninos não andarem a ler os jornais porque isto de os padres e bispos andarem para aí a dizer que claro que Nossa Senhora não apareceu em Fátima (ia lá a Senhora vir por aí abaixo, a descer dos céus, para se ir pôr a atazanar o juízo a três pobres pastorinhos?) e que a palavra correcta não é aparição mas visão imaginativa, deve deixar sem chão muita catequista penitente.

Mas então onde é que eu ia?

Ah, sim. Não ia em lado nenhum.
Andei a passear à beira rio e depois fui jantar à praia e fiz cinquenta mil fotografias... e devem estar tão lindas... e eu sem energia para ir buscá-las à máquina. Tenho que me encher de coragem e ir porque, se não, que imagens vou eu usar aqui? 
Só coisas que me ralem.


Bem. Mas o tema hoje era para ser a subjectividade. Ou melhor: a subjectividade dos leitores ao apreciarem a qualidade da escrita. Podia ser doutra coisa qualquer mas hoje era sobre a escrita.

A questão é que não pode ser o mundo quase inteiro a estar errado e eu certa. Pois se há estudos, cátedras, adaptações a peças de teatro, prémios, traduções all over, a culpa só pode mesmo ser minha. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

E ainda não saí do ponto de partida. E isto tudo para não confundir a inteligência das minhas catequistas de estimação. Imagino as pragas que elas, a esta hora, já me estão a rogar.

Mas vá. Já chega de atirar bolas para o pinhal. Está mais do que na hora de chutar à baliza.

Pronto. Lá vai.



Gonçalo M. Tavares. Primeiro chuto.

António Lobo Antunes. Segundo chuto.

(Sei que nenhum dos chutos foi à baliza mas aí, lá está, já seria esperar de mais.)

Qualquer destes escritores dedica a vida à escrita, qualquer deles escreve que se farta, qualquer deles é incensado aqui e além mar, qualquer deles pode ser considerado um escritor de culto. E, no entanto, eu acho que o que eles escrevem é ilegível, ilegível no sentido de ser uma coisa maçadora, páginas e páginas de falta de assunto, páginas e páginas de uma escrita ora redonda, ora vazia, ora redundante, ora destituída nem sei bem dizer de quê.
Não se assemelham entre si, um inventa maluqueiras desprovidas de sentido e avança sem nada dizer, personagens com nome e histórias de vida desinteressantes, e uma escrita que se nos varre da ideia à primeira aragem. O outro fala, fala, intercala falas, rodopia, volta atrás, intercala pensamentos, anda para o lado, intercala falas alheias, deita-se de costas, deita-se de frente -- e não passa disso.
Em qualquer dos casos, no meio daquilo, podem aparecer coisas bem apanhadas. Também, em tantas centenas e centenas de páginas, era melhor que fosse tudo esfumável no instante seguinte. Não. Mas, no cômputo geral, vou ali e já venho.


Porém, se me ativer ao êxito alcançado ou ao interesse que uma certa intelectualidade lhes dedica, sou levada a acreditar que me falta o neurónio descodificador daquilo. Quiçá, se eu fosse dada a tomar, cheirar, inalar ou injectar, pudesse olhar aquelas páginas e ver rios de talento, luz a irradiar das frases, pepitas a brilhar ao sol por entre os calhaus. Mas não sou dada a isso. O que a mnha mente capta é, tão só, o que os meus olhos lhe levam. O mal, cá para mim, não deve estar no que eles escrevem mas em mim que não li a Odisseia de cabo a raso, o Ulisses do Joyce, os vários tomos de Proust, a meia dúzia de livros da Ferrante, a Bíblia grega e as outras -- e, confesso, até o Rogeiro eu costumo evitar ouvir, desinteressada que sou de me instruir.

Portanto, atalhando razões: isto é tudo relativo e nunca se sabe se a culpa é do pecador, se é da catequista, se é do próprio pecado.

Ámen.


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Lá acabei por ir buscar as fotografias à máquina. Mas com que esforço...

(A primeira fotografia não foi feita ao cair do dia: foi feita de manhã, quando fui ver como estava o tempo.)

E eu estou a dedilhar no teclado e a dormir... e não faço ideia de que é que estou a escrever pelo que se a escrita estiver ainda mais ensarilhada do que a dos dois génios acima referidos, queiram sentir compaixão por esta vossa pecadora encartada.

Three Little Birds encontra-se aqui integrada no projecto Playing For Change

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NB: Nada contra as catequistas em geral. Acredito que haja muitas que o são por devoção e generosidade. Aqui refiro-me àquelas que o são porque não podem ser da polícia dos costumes, aquelas que se pudessem instituiam a lei do pensamento único e do sofrimento colectivo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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sexta-feira, abril 21, 2017

O cheiro dos livros e etc.
[E resposta a um comentário]




Posso ter uma maneira de me exprimir muito assertiva. Aliás, sei que tenho. Se acredito numa coisa, não me parece necessário mostrar-me mosca morta, passiva, ou dar voltas ao bilhar grande, sendo manipuladora, ou exaltar-me, sendo agressiva. De facto, creio que já o contei, nos testes de personalidade que, de quando em quando, fazemos em contexto profissional, apareço, entre outras coisas, caracterizada através disto mesmo: praticamente 100% assertiva.

No entanto, que não se pense que tenha certezas absolutas sobre tudo. Não tenho. Mas se a minha opinião é uma, então explano-a com convicção apesar de admitir que seja falível. Li agora mesmo um comentário de alguém que me questiona sobre o que eu escrevi dizendo: 'mas quem é você para dizer que (patati-patatá)?'. Leio e fico estupefacta.
Quem sou eu para exprimir a minha opinião? 
Ora essa. 
A resposta é simples: sou uma pessoa como outra qualquer que, vivendo num país livre, diz o que pensa. Então, em vez de exprimir a minha opinião, deveria fazer de conta e exprimir, como minhas, opiniões alheias, só para agradar aos donos dessas opiniões ou a quem me lê? Essa é boa.
Há pessoas que parece que têm tiques ditatoriais. Parece que não admitem que alguém pense de maneira diferente da sua. Parece que não gostam de ver os outros a exprimir-se livremente.

Para mim seria impensável escrever um comentário assim. Mas, enfim, o mundo é diverso e há que receber toda a gente com boa cara mesmo os que não a sabem mostrar aos outros.


Gosto de ler, como é sabido, e leio tudo. Livros, blogs, jornais, capas de revistas nas estações de serviço, revistas com mais de um ano nas salas de espera dos médicos, mails, comentários, o que calhar.

Gosto de ler a escrita de quem não pensa como eu, gosto de ser surpreendida com maneiras de pensar antagónicas em relação à minha, gosto de ler sobre temas que desconheço, gosto de ser confrontada com argumentos que desmontam os meus. Mas em tudo o que gosto de ler tenho que encontrar elegância, inteligência e tolerância.
E, já agora, para a coisa se aproximar da perfeição, ainda alguma musicalidade -- mas isso já é pedir demais.
Ia começar a escrever sobre o perfume dos livros quando li aquele comentário que, por não me soar bem, me desviou. Depois desse, chegou outro do mesmo calibre ao qual já lá respondi. Ele há com cada uma...

Mas não me detenho mais sobre os azedumes que volta e meia por aqui vêm aterrar e retomo o meu tema.


Até há algum tempo, achava-me uma amante de livros cheia de inconfessáveis particularidades. Pensava eu que uma amante de livros a sério tinha forçosamente a capacidade de ter a biblioteca bem organizada e arrumada e, para conseguir lá chegar, tentava arrumar cada livro no lugar certo mal chegava com ele a casa. Pensava também eu que teria que ler todos os livros em que pegasse até ao fim e impunha-me essa disciplina mesmo quando me arrastava de página em página. Pensava, sobretudo, que teria que ser alheia em relação a tudo o que pudesse ser considerado fútil e, portanto, tentava omitir aspectos que, para mim, eram (e são) vitais: o grafismo da capa, o tipo de letra, a paginação. E pensava ainda que jamais um amante de livros seria sensível ao seu cheiro e, por isso, apesar de ter um prazer apreciável em abrir uma estante e sentir o perfume dos livros, nunca me referia a tal.

Sei agora que estava enganada. Não há regras -- mas não há num nem noutro sentido.

Agora que o mundo inteiro está disponível para ser visto, é frequente verem-se bibliófilos rodeados de pilhas de livros, caoticamente dispersos pela casa, tal como é de pasmar verem-se paredes revestidas a estantes imaculadas e ordeiras.

Sobre já não me dar ao trabalho de me forçar a ler aquilo que não aprecio, tive o consolo de saber que Borges poucos livros leu por completo.

E, sobre o cheiro dos livros, tive o agrado de saber que é gosto partilhado por muita gente e que há. até, investigações sobre o tema.


A que cheira um livro antigo? A que cheira um livro novo?

Varia, claro, mas não há livro em que eu pegue que não aspire o odor que dele se desprende. Leio que podem ser identificadas notas de baunilha, sândalo, café. Não sei. Para mim cheira a memória de bibliotecas, cheira a casas de infância e refúgios secretos, cheira à casa da Mariazinha que tinha longe o marido, médico, e em cuja sala pouca luz entrava, uma sala com sofás de pele já gasta e cheia de estantes com os livros dele, dos quais retirava os livros do Fernando Namora que me ia emprestando. Cheira às minhas longas noites de leitura, noite adentro, cheira ao prazer de ler as palavras que outros, um dia, escreveram. Cheira a livrarias infinitas, a labirintos, a galerias imensas, cheira a cera de abelhas, cheira a um mundo desconhecido, cheira a mãos que acarinham as folhas que lêem, cheira a um mundo que contraria a efemeridade de quem os escreve, cheira a um mundo fora do mundo.

de Bois de Jasmim:
What Does The Scent of Books Reveal?
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Já agora,

O império da palavra - O futuro da leitura
Alberto Manguel



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E queiram deslizar até ao post seguinte caso queiram ler sobre uma Separação escrita por quem a sabe sentir.

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Separação




Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles. 

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação. 

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce. 



Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas. 

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...


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O texto 'Separação' é de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor"

Nina Simone interpreta 'Iy you knew'

As imagens mostram obras menos conhecidas de Edvard Munch

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Até já.

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quinta-feira, abril 20, 2017

O amor e o desejo são inconciliáveis?


Depois de ter desabafado sobre o triste estado em que fiquei depois de ver o brilhante João Pereira Coutinho transformado em comentadeiro avençado na Correio da Manhã TV, a falar de vácinas, caí num profundo estado de estupor do qual só agora acordei.

Antes do entorpecimento ter galgado por mim acima, estava eu a pensar escrever sobre o cheiro dos livros. Piedosos intentos os meus -- tão frequentemente gorados. Ao despertar, não que tenha tido algum sonho impróprio para consumo enquanto dormia mas porque num rápido voo planado sobre os onlines vi referência ao tema que se segue, agora estou mais inclinada para falar de amor e desejo.




Poderia dar aqui uma lição, quiçá organizar um workshop com aulas teóricas e aulas práticas, mas não posso esquecer-me que marido e filhos são leitores diários e, portanto, manda a mais elementar prudência que não me atire para fora de pé.

Não tarda, faço anos de casamento e tantos são que me tinha até esquecido da vindoura efeméride. Vou bater três vezes na madeira para dizer isto: nunca passei por nenhuma crise conjugal. Presumo que por uma razão simples: não tenho paciência para crises. Não faço ideia se tive razões para as ter mas, se tive, não me lembro. A verdade é que também não as procuro.

Ao longo da minha vida tenho conhecido de perto casos de pessoas cujos casamentos acabaram e que, enquanto duraram, eu me interrogava: como é que uma vida assim se aguenta? No outro dia falei de uma amiga minha, ciumenta e possessiva, e isto para não dizer aquilo que o meu marido diz dela: maluca. Em tempos também já falei de uma prima. Relembro. Éramos chegadíssimos. Ela loura, olhos azuis, muito bonita, executiva numa grande empresa. Ele com peso a mais, badocha, truculento. Os ciúmes que ela tinha dele não dão para acreditar. Ele era um sedutor incontinente. Não era capaz de ter uma mulher pela frente, conhecida ou não, que, com malícia e graça, não dissesse qualquer coisa que, invariavelmente, deixava a mulher doente. Desde que me lembro deles, sempre lhe soube, a ele, de casos. Ele não os escondia de nós, apenas escondia dela. Contudo, gostava imenso da mulher e era amicíssimo dela, um companheirão. Mas ela queria domesticá-lo, queria tratar dele, não queria que ele apanhasse sol e ia buscar-lhe um chapéu, não queria que ele fizesse aquilo que sempre fazia depois de uma almoçarada: um mergulho na piscina e andava à volta a zangar-se com ele, não queria que ele apanhasse frio e ia buscar-lhe um casaco, e queria ter a certeza que ele chegava bem ao trabalho e contava o tempo até lhe ligar, e queria que ele lhe ligasse antes de sair do trabalho -- e ele a tudo acedia para a ver feliz (ou para não a ouvir...). Eu dizia-lhe a ela: ''mas que melga, deixa-o em paz', ou, 'deixa-o ser como ele é'. Mas era mais forte que ela. Apesar de ser muita mais bonita como mulher do que ele como homem, nunca soube de algum interesse dela por qualquer outro homem nem de qualquer outro homem por ela. Vivia atormentada, querendo prender o marido. E ele fingia que se deixava prender mas, mal ela virava costas, dava largas à sua irreverência, ao seu gosto pela adrenalina, à sua atracção pelo clandestino, pelo interdito.

As passagens de ano cá em casa eram uma tourada: ele, às escondidas, a ir telefonar à outra à meia-noite, ela pela casa fora a ver se o descobria e nós todos a ver se ela não o achava para não começarmos o ano debaixo de uma tempestade.

E o que ela fazia para conhecer a colega A, B ou C dele pois desconfiava que ele tinha casos com elas...


Nunca nada disto se passou comigo. Não telefono ao meu marido a saber se chegou bem ao trabalho, não o persigo para tomar conta dele porque mãe sou dos meus filhos e não dele, não tenho qualquer curiosidade em conhecer as colegas dele e quando ele me diz que alguma das colegas é velha e gorda e eu as vejo acidentalmente, novas e jeitosas e a cumprimentarem-no com piscar de olho, confirmo que ele é um sonso mas, olha, que se lixe. E se ele é um homem bonito e, apesar de sóbrio e até levemente recatado, naturalmente charmoso... Mas não consigo mesmo desperdiçar o meu tempo com ciumeiras e macacadas.

Ou seja, na verdade não quero saber e muito menos aprofundo não vá dar-se o caso de alguma coisa que descobrisse me maçar.

Ele, pelo contrário, inicialmente era ciumento. Sabia do que eu era capaz já que tinha começado a andar comigo enquanto namorava outro, namoro de aliancinha no dedo e tudo. Mas os ciúmes dele incomodavam-me. Não suporto ciúmes ou controlos. Portanto, embora ainda o seja, também já percebeu que preciso de espaço e que abomino gastar tempo com parvoíces e, portanto, já aprendeu a controlar os ciúmes ou, se não aprendeu, disfarça.

Outra coisa: aquela cena de ter que conversar sobre tudo, até à exaustão, uma verdadeira esfoliação verbal aos pensamentos, de moer a paciência um ao outro a discutir os assuntos até ao tutano, também não é connosco. Se há alguma coisa para falar, fala-se e está falado. Bola para a frente.


Dito isto. 

Haja alegria, surpresa, malandrice, companheirismo, liberdade de movimentos, compreensão, confiança, generosidade, descontração, bom perder, bom ganhar, gosto pela vida, disponibilidade para o inesperado. 

Alguns destes ingredientes cimentam o amor. Outros alimentam o desejo.

E junte-se-lhe ainda humor, entreajuda, olhares cúmplices, pele contra pele, passeios a dois, solidariedade, aqui e ali uma irresistível provocação, e mais o que nesta base possa acontecer -- e o tempo irá passando prazerosamente.

O tempo não erode nem o amor nem o desejo. O que os corrói é a falta de amor pela vida. 

Tenho um mail para responder no qual me perguntam como é que pareço tão jovem tendo já netos. Como é muito tarde não vou responder lá mas respondo aqui: não sei se pareço jovem. Sei que me sinto jovem. Não me lembro dos anos terem passado por mim. A minha filha disse no que escreveu sobre mim que não tenho idade. Talvez seja isso. Não tenho idade. Não sinto a idade. Talvez por isso sinta hoje o amor, a paixão e o desejo da mesma forma que sempre os senti: com intensidade. Como se não houvesse amanhã. Como se tivesse que os descobrir e conquistar todos os dias. Como se tivesse vontade de os festejar todos os dias.


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E isto a propósito do que li e que tem a ver com o que a psicoterapeuta Esther Perel concluíu de um estudo que fez ao longo de anos em mais de vinte países. Mostro aqui o vídeo em que ela fala disso. Já há tempos o partilhei mas acho que o tema merece uma revisita. Tem legendas em português. As traduções nunca são famosas mas, para quem não esteja muito à vontade com outras línguas, acho que é melhor que nada.


Esther Perel: O segredo do desejo num relacionamento duradouro 




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Relembro: desçam, por favor, para perceberem porque é que não deverão ver  a Correio da Manhã TV -- e isto se não querem ter um baque como eu tive.

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João Pereira Coutinho é todo a favor das vácinas,
conforme dissertou ao balcão da Correio da Manhã TV


Fui agora espreitar as estatísticas do blog. Dizem-me que 'agora' estão 83 pessoas a ler o Um Jeito Manso. Mas estão aí desse lado e eu dava-me jeito é que estivessem aqui. Aqui. A beliscar-me. Todos, ao mesmo tempo, a beliscar-me.

Explico porquê e vocês já vão dar-me razão.

Antes de jantar, enquanto decorriam os preparativos, liguei a televisão e fui fazendo zapping. Estava a caminho da Sic Radical para ver se hoje havia o Colbert. Mas, a meio da operação, passei por um canal onde acho que até hoje nunca parei. Até hoje - leram bem. Vi e não acreditei. Parei para confirmar. Podia ser uma visão. Infelizmente não, vi que era real. O João Pereira Coutinho, ele mesmo, o grande intelectual, essa direitola figurética da luso-piolheira, comentando o caso da jovem que morreu com sarampo. Na CMTV.


O grande mestre da teoria política, ex-guru da blogosfera, agora transformado em vulgar profissional da crónica azeiteiro-social. Com uma fita rolante a passar-lhe em cima da cabeça com dizeres relativos ao Ronaldo, ali estava ele, populista, populista, demagogo, demagogo, a dar na cabeça dos pais da jovem. A mim que, claro está, nem me passaria pela cabeça não vacinar os meus filhos, sem conhecer os factos relativos a este caso não vou falar sobre eles, muito menos aos balcões do infecto-contagioso Correio da Manhã. Já li que a miúda tinha tido um episódio grave de alergia a uma vacina e que, por precaução, os pais resolveram não reincidir. Não sei. Não me pronuncio. Dor maior já os pais devem estar a sofrer, escusamos de deitar mais sal por sobre cicatrizes que, certamente, estarão em carne viva.
É certo que é uma boa oportunidade para apelar à racionalidade dos pais que se encontram nalguma deriva metafísica, pondo em risco a vida dos filhos, mas que o seja com contenção e, sobretudo, não ao balcão de uma coisa como a CMTV, no meio de uma conversa desenvolvida em tom fútil e demagógico.

E se eu visse um daqueles comentadores que tanto falam de Passos Coelho, como de uma jogada mal apitada pelo árbitro, como de uma camioneta que tombou na estrada despejando ruidosos bácoros, ainda vá que não vá -- uma pessoa, vai-se habituando a que baixem os padrõezinhos*. Mas, com o caneco... o João Pereira Coutinho...? Já desceu a esse ponto? Comentadeiro no Correio da Manhã...?!?! 


É onde se acolitam agora os ressabiados, os desaguados da democracia, os de má bílis, os moralistas do regime, os enfatuadinhos, os pintarolas encartados? No Correio da Manhã...? Muito me contam.

Mas a minha surpresa não se extinge aí. É que a criatura dizia vá-cinas. O entrevistador perguntava-lhe o que achava de não vacinar crianças e ele, cinquenta mil vezes, vácinas: vácinas para aqui, vácinas para acolá.

Totó como sou, ainda pensei: querem lá ver que eu é que ando com o passo trocado? Então fui validar e o totó é ele. Diz-se vacina com os dois a's fechados pois vacina é, obviamente, uma palavra grave.

Agora, vocês que aí estão sossegados e nem se dão ao trabalho de aqui me vir beliscar para eu ter a certeza que não eu estar a delirar, digam-me: como é que um intelectual destes, com esta carinha de menino inteligente, professorzinho da Católica e tudo, não sabe disto e diz vássinas**...? 
** Que, da maneira como ele diz, acho que até deve escrever escrever vássinas, senão mesmo váccinas como se ainda vivessemos no tempo das bexigas das vacas...
Minha mãe santíssima.

Estou banza, é o que é. Não estava psicologicamente preparada para ver uma coisa daquelas.

Quando a intelectualidade de pacotilha vira comentadeira do Correio da Manhã... o que se vai seguir...? Um dia ainda vou ver ali o Pedro Mexia, a pronunciar-se sobre o roubo por esticão ou sobre a namorada do CR7? E, ainda por cima, a dizer 'námora-da' ou Márcelo? Ou o cardeal Clemente comentador nos programas da Cristina Ferreira a falar do maestro gay que foi corrido pelo pároco de Castanheira de Pêra? A procuradora Mana do Vidal como avençada no programa da Júlia Pinheiro a comentar as aparições da pequena Maddie? O António Lobo Antunes a dar troco ao cacarejante Rangel? What...?


Não sei mas, depois do que presenciei, acho que temos que estar preparados para o pior.

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Fiz as fotografias à televisão e, depois, na segunda apeteceu-me pôr o comentador João pereira Coutinho ainda mais cor-de-rosa, com uma boquinha ainda mais mimosa. A ver se a imagem fica mais consentânea com o absurdo da coisa.

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E, a propósito de não baixar os padrõezinhos, aqui vos deixo o Lopes da Silva, o homem com demasiadas características.




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Um dia feliz a todos.

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quarta-feira, abril 19, 2017

O amor como um rio
[Um rio noturno, interminável e tardio]





Este infinito amor de um ano faz 
Que é maior do que o tempo e do que tudo 
Este amor que é real, e que, contudo 
Eu já não cria que existisse mais. 

Este amor que surgiu insuspeitado 
E que dentro do drama fez-se em paz 
Este amor que é o túmulo onde jaz 
Meu corpo para sempre sepultado. 

Este amor meu é como um rio; um rio 
Noturno interminável e tardio 
A deslizar macio pelo ermo 

E que em seu curso sideral me leva 
Iluminado de paixão na treva 
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.



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Soneto do amor como um rio de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor'

Imagens de pinturas de Marc Chagall, alguém que pintou a inocência dos grandes amores e os rodeou do azul mais luminoso e secreto

Melody Gardot interpreta Love me like a river does

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E queiram continuar a descer para ficarem a saber que eles eram mais antigos que o silêncio e, ainda mais abaixo, para tomarem conhecimento de conselhos da maior utiliddde em Os elementos do estilo

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Eles eram mais antigos que o silêncio




Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens - a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie - tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas no magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio...


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O poema é 'Namorados no Mirante' de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor'

Nina Simone interpreta 'He needs me', uma canção de que gosto muito

As imagens mostram: 'After Sex Without Love' de Arsen Levonee e 'Tenderness' de 
Maria Zagorskaya

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'Os elementos do estilo' podem ser consultados já a seguir.

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Os elementos do estilo


No vasto mundo sideral, flutuam palavras que ligam, entre si, desconhecidos que têm em comum o gosto pela leitura e/ou pela escrita.

Para ajudar aqueles que gostam de escrever, aqui deixo alguns conselhos. E são dos bons. Não quer dizer que se sigam mas, ainda assim, nada como a gente saber o que é que devia fazer.



(...)

"A prosa vigorosa é concisa. Uma frase não deve conter palavras desnecessárias, nem um parágrafo frases desnecessárias, pela mesma razão que um desenho não deve ter linhas desnecessárias, nem uma máquina partes desnecessárias. Isto não quer dizer que um escritor faça breves todas as suas frases, nem que evite todo detalhe, nem que trate seus temas apenas na superfície; apenas que cada palavra conta". 

Para Strunk (...), os preceitos de um bom estilo podem resumir-se no seguinte: 


1. Use uma linguagem positiva: em vez de "habitualmente não chegava à hora", diga "habitualmente chegava tarde"; em lugar de "não recordou" diga "esqueceu" - e isso porque, consciente ou inconscientemente, o leitor prefere que se diga o que é a o que não é. 

2. Seja concreto: "Sobreveio um período de tempo desfavorável" constitui uma vagueza. "Choveu diariamente uma semana" seria a boa fórmula. 

3. Abrevie o mais que puder: escrever "atos de natureza hostil" é alongar de dois centímetros "atos hostis". 

4. Não qualifique: sempre que não se tratar de estabelecer uma opinião, a qualificação prévia é desnecessária. Dizer que é "interessante" o fato que se vai narrar, é pichar o leitor de inimaginativo. 

5. Não use adornos: o estilo não é um molho para temperar uma salada; o estilo deve estar na própria salada. 

6. Coloque-se atrás do que escreve: escreva de tal forma que a atenção do leitor seja despertada sobretudo pelo sentido e pela substância do que está dito, e não pelo temperamento e pelos modismos do autor. O primeiro conselho a dar ao escritor que começa seria, pois: para chegar a um estilo, comece por não ter nenhum. 

7. Use substantivos e verbos: evite o mais possível adjetivos e advérbios. Não há adjetivo no mundo que possa estimular um substantivo exangue ou inadequado; isto sem subestimar adjetivos e advérbios, quando corretamente empregados. Mas a verdade é que são os nomes e os verbos que dão sal e cor ao estilo. 

8. Não superescreva (significando aqui, don't overwrite): a prosa excessivamente rica, adornada ou gorda torna-se mais facilmente nauseante. 

9. Não exagere e seja claro: primeiramente, porque o exagero pode tornar o leitor suspicaz; e a clareza, é lógico, facilita a comunicação. Mais vale recomeçar uma frase longa com que se está brigando, que persistir na briga. Freqüentemente uma frase longa nada mais é que duas curtas. 

10. Não opine sem razão: ter por hábito ventilar opiniões próprias é prejulgar que o leitor as esteja pedindo, o que constitui um sinal de vaidade. 


É isto em resumo. Há mais. Mas não espaço. 

E depois, é como diz o outro: se todos fossem da mesma opinião, o que seria da cor amarela? (Sendo que, neste caso, até que eu "entrava bem", pois trata-se da minha cor preferida ... ). Mas pobre Proust, pobre Dickens, pobre Balzac, pobre Melville, pobre Otávio de Faria...


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Excerto de Os Elementos do Estilo de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor'

As pinturas têm em comum conterem gatos e, obviamente, não têm nada a ver com o texto. Ou talvez tenham. Se calhar é que, para se fazer retratar com um gato, é preciso ter-se um certo estilo.

Lá em cima Para viver um grande amor, interpretado por Vinicius e Toquinho, é também, como disse, o nome deste gostoso livro que tenho aqui ao meu lado.

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Até já.

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