ano novo 2014

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sexta-feira, Abril 25, 2014

25 de Abril de 2014 - quarenta anos depois da madrugada que tanto esperámos, aquele dia inicial inteiro e limpo onde emergimos da noite e do silêncio. Agora que, livres, habitamos a substância do tempo, não deixemos que noite escura e fria nos volte a enterrar em vida.


Já aqui contei sobre o meu tio-avô que vivia na clandestinidade e que aparecia e desaparecia misteriosamente e que, para desgosto da minha avó, sua irmã, não teve a felicidade de ver chegar a madrugada limpa pela qual tantos tanto esperaram. 

Quem vive como vivemos agora, em liberdade, dificilmente imagina o que eram os tempos sombrios antes do 25 de Abril de 1974. Os jovens que hoje não se interessam pela política não sabem da espada sobre o pescoço que era a guerra ultramarina para a qual eram mobilizados a não ser que fugissem do país e vivessem exilados. Tive colegas que, por defenderem a melhoria das condições de ensino, o direito à liberdade de expressão e o fim da guerra, foram expulsos da universidade.

E queria-se livros e não os havia, pois a censura impedia a sua distribuição, ou queria ver-se alguns filmes de que se ouvia falar e cuja divulgação em Portugal era proibida, e, se a vontade de os ver era muita, ia-se a Badajoz.

Coisas cuja importância é relativizada por quem não sentiu na pele ou não conheceu pessoas que relatem na primeira pessoa esses tempos que não devem ser esquecidos para que não deixemos que regressem. Coisas de somenos. Ou talvez não. 

Os meus filhos são relativamente politizados mas a minha filha disse-me ontem uma coisa que me deixou tão surpreendida que nem reagi. Dizia-lhe eu que tencionava ir para a rua, para o Largo do Carmo, e responde-me ela que, se não fossem os miúdos, ia também porque deve ser giro, uma cena revivalista.

Ou seja, mesmo para uma pessoa informada e que cresceu a ouvir falar de política, andar na rua no 25 de Abril, o Movimento dos Capitães, o Largo do Carmo, tudo isso é visto como uma cena revivalista, uma coisa gira, retro.


Mas não interessa: que seja por convicção, que seja por reinvenção da forma de valorizar a liberdade e o direito à igualdade de oportunidades, que seja por que for, seria bom que os jovens não tomassem a democracia como um bem adquirido mas, sim, como algo de precioso pelo qual vale a pena lutar, estar atento para que não aconteçam retrocessos. E seria bom que reconhecessem a rua como o lugar de cidadania no qual todas as vontades devem ser manifestadas.

A vida de um País é naturalmente cheia de períodos bons e de outros para esquecer. O período que estamos a atravessar é destes últimos: para esquecer. Um período negro, em que os actuais governantes, parecem possuídos por uma doentia sanha destruidora relativamente a tudo o que o Abril de há 40 anos nos trouxe. Sem dó nem piedade esta gente ataca o ensino público, a saúde pública, o direito à dignidade, o respeito pelos direitos acordados com as pessoas, destrói o caminho do desenvolvimento e do conhecimento, afasta os jovens e afronta os velhos.

Fogo de Artifício às 0 horas do dia 25 de Abril de 2014

Os portugueses são naturalmente dóceis (naturalmente ou fruto do jugo férreo do tempo do salazarismo que os habituou a não protestar, a tudo aceitar com humildade, com mansidão) e, por isso, este bando de amadores (rodeados de uma garotagem arrogante, insuportável, em grande parte igualmente néscia, que os assessora) tem conseguido tão facilmente arrasar o País e dar cabo da vida dos portugueses.

Mas há-de haver o dia em que os portugueses vão acordar, pôr-se de pé e lutar pelo direito a um futuro construído sobre um terreno de esperança.

Abril é um bom mês para renascer. 

Que a esperança renasça, que a vontade de lutar renasça, que a força renasça - até porque nossos são todos os caminhos.


Grande painel com o rosto de Salgueiro Maia sob o Arco da Rua Augusta


Bravos homens estes que se puseram a caminho desde Santarém para virem resgatar a capital
de um regime opressivo, atrasado, provinciano
Bravo homem este com um rosto doce que revela simplicidade, generosidade

Nunca lhes agradecermos o suficiente
por virem de madrugada devolver-nos a inteireza pela qual tanto esperámos.

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Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo.

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Corveta no Tejo (em frente a Sta Apolónia) e a caminho do Terreiro de Paço em Abril de 2014

(tal como na manhã de 1974 quando se preparava para interceptar as forças revoltosas mas, felizmente, não o fazendo e permitindo uma entrada 'limpa' dos tanques e chaimites no terreiro do Paço)

NB: Chamei-lhe corveta porque é o nome que tenho de cabeça. Amanhã logo confirmo com o meu marido


Enviaram-me o link para um artigo do Público que fiquei com vontade de transcrever, da autoria de Tiago Matos Silva que é antropólogo, doutorando e investigador. Penso que traduz bem o que tentei dizer acima. Ilustro com fotografias da exposição alusiva ao 40º Aniversário da Revolução que está patente no Terreiro do Paço.



25 de Abril: o meu é, obviamente, o próximo


O meu 25 de Abril é um problema. É um problema porque eu nasci dois anos depois da revolução dos cravos e o meu 25 de Abril é feito de imagens de arquivo, cortejos apaziguados Avenida da Liberdade abaixo e histórias fragmentadas de família.

O 25 de Abril é dos meus pais como o fascismo foi dos meus avós: Salazar não me sugere nem rigor financeiro duma casa bem gerida nem cultura de excelência no ensino; Salazar para mim é a sardinha dividida por seis irmãos da minha avó Adília, é o meu avô Artur em Jacarepaguá durante 20 anos, é a escrita insólita de quem nunca foi à escola da minha avó Belandina, é a cama sempre quente que o meu avô Diamantino partilhava com outros trolhas beirões num quarto em Lisboa, é o meu tio António João em Angola a defender um Portugal de Minho a Timor (de que não conhecia o Minho, quanto mais Timor), é a rede que separava rapazes e raparigas no liceu da minha mãe, é o meu pai a comprar livros e discos proibidos por debaixo da bandeja e a descer aos saltos as Escadinhas do Duque para fugir à polícia que reprimia um 1º de Maio ainda ilegal.

Salgueiro Maia comovido,
mordendo o lábio para não chorar,
depois de ver que podia avançar com as tropas sobre o Terreiro do Paço

Maia Loureiro fazendo o sinal de vitória

(fotografia de Eduardo Gageiro)

Mesmo o 25 de Abril e o PREC, se extirpado da história que li, desagua no meu pai a tentar ver-se na multidão a preto e branco das imagens do Carmo, no meu avô a explicar ao piquete que vai caçar e não apoiar o Spínola no 28 de Setembro, na minha mãe à varanda a ver passar os caças do 11 de Março; são entusiasmos e aflições deles, foi e é a vida deles: dos que estiveram no Carmo e no primeiro 1º de Maio, dos que foram à Fonte Luminosa “defender a democracia”, passando pelos que tentaram “educar a classe operária” e se viram ultrapassados pelo 25 de Novembro.










Em casa houve de tudo

Carro de combate e militares aguardando no Terreiro do Paço

(fotografia de Alfredo Cunha)

Lá em casa houve de tudo: democratas e saudosistas do salazarismo, católicos progressistas e crentes na “primavera” marcelista, retornados e marxistas-leninistas; e às vezes a mesma tia foi à vez, em momentos diferentes, coisas que nos parecem inconciliáveis. E se isto é História tal como o saudoso Le Goff a definia: “Lá onde está a carne humana é onde está a nossa caça”, não deixa de ser um longínquo país estrangeiro para a minha geração, alimentada a música pop e aspirações europeístas, que cresceu sem perceber muito bem as diatribes raivosas que despertavam Soares ou Rosa Coutinho, a confundir o Salgueiro Maia com o Otelo, sem perceber exactamente quem era o Barreto da Reforma Agrária dos murais descascados, perdida entre vinte cincos de Novembro, onzes de Março, vinte e oitos de Setembro e vinte e oitos de Maio.

E no entanto, quanto mais se explora este passado exótico, mais próximo ele nos aparece do nosso presente; numa oposição paralela da mensagem dos espelhos dos carros: em vez do “objects in mirror are closer than they appear” o que aprendemos é que os objectos estão bem mais próximos do que parecem.

E estão mais próximos não só porque é a vida dos nossos pais e dos nossos avós, não só porque “Abril não se cumpriu” ou porque as continuidades com o antigo regime às vezes assustam, ou porque os portugueses, novamente aflitos, recomeçam a cantar a “Grândola”. 

Estão mais próximos porque a tensão basilar que animava os resistentes de ontem: a tensão entre os que vêem no "status quo" o melhor dos mundos possíveis e os que acreditam na humanidade como algo para além da soma do medo e da ganância dos humanos, se mantém. 


Estrelas luminosas num céu ao rubro
Cravos para Abril


E é por tudo isto que o meu 25 de Abril é, obviamente, o próximo.


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Venham e tragam outro amigo também


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Os Filhos da Madrugada e Traz outro amigo também são da autoria e interpretados pelo Zeca Afonso.

O poema (em itálico) é de Sophia de Mello Breyner Andresen

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um excelente dia 25 de Abril.

quinta-feira, Abril 24, 2014

É hoje, é hoje! Arte xávega e, a acompanhar, música da boa que recebi num ovo da Páscoa. Ulf Wakenius & Vincent Peirani & Lars Danielsson na Costa da Caparica. Ó vizinha, há peixe fresco da Costa! Peixe fresquinho do mar!


No post abaixo falei da mulher mais bela do mundo em 2014. Uma escolha atípica, surpreendente mas, ó céus, que justa. E não é apenas bela, é talentosa, orgulhosa, luminosa. No final deste, não deixem, pois, de descer até ao post seguinte para a verem fotografada e em acção.

Mas aqui, agora, vou cumprir uma pendência.


Encore




Já há dias que andava aqui a dizer que tinha tirado umas fotografias à recolha das redes e da pescaria na arte xávega e queria mostrar-vos algumas; mas foi-se metendo isto e aquilo e a coisa foi ficando para trás. 

Mas é hoje. 
Já estive aqui a ver se virava o Um Jeito Manso de pernas para o ar, queria pô-lo cheio de cravos mas não encontro nem fundos nem fotografias que se conjuguem. Resultado: perdi um tempão e não fiz nada.
Por isso, vamos lá, então, à arte xávega. 

Já em tempos aqui falei nela e mostrei fotografias (os meus pimentinhas eram, então, tão pequeninos... e ainda nem havia o bebé... Jesus, que o tempo passa de uma maneira...). 
Nessa altura, teria umas duzentas ou trezentas visitas por dia aqui no UJM e agora, geralmente, passam as mil pelo que deve haver Leitores que não saibam do que estou a falar e, por isso, permito-me repetir o tema.


Em terra, o barco saído da água, com a ajuda de um tractor, vai recolhendo as redes. Na água, os pescadores, de forma coordenada, vão puxando e ajeitando as redes para as unir em cima, retendo assim, no fundo, o produto da pesca.








Gritam uns com os outros, dão vozes, para agirem à uma.

Se repararem na fotografia da direita, no fundo da rede, aqui já a sair da água, poderão ver alguns peixes.

Depois, os pescadores naqueles seus fatos coloridos, estendem oleados e, em cima, as redes e logo, tudo a grande velocidade, começam a enfileirar alguidares. Uns têm água do mar, outros nada.

Se repararem na fotografia aqui à direita, ao fundo poderão ver a parte de cima do tractor que ajuda nesta lida.

Todo o ambiente é ruidoso, palavrão que até ferve, olh'ó peixe!, agarra lá este, ó cab..., não 'tás a ouvir? F... eu aqui de braço esticado com o peixe na mão, ó pá!

As pessoas que por ali estão, começam a rodear os caixotes e a perguntar o nome dos peixes e a conversar entre si e, portanto, no meio de toda aquela algazarra, já mal se ouve o que um e outro diz.

Rapidamente entram as mulheres em acção, começando a separar os peixes que os pescadores vão retirando das redes e lhes vão entregando.

Quando olhámos para a pescaria na rede, nem parecia muito mas aquilo parecia o milagre da multiplicação dos peixes. Eram chocos, lulas, robalos, sargos, massacotes, sardinhas grandes e gordas. Num instante os caixotes iam ficando cheios.

Claro que, pelo meio, há as perguntas do pimentinha mais crescido: porque é que aquele ali está só aos saltos...? Vai morrer? E depois como é que sabemos que já está morto?, perguntas às quais tentamos dar respostas não muito deprimentes. 

A minha filha tenta a abordagem menos cruel: sabes? estes são peixes que existem mesmo só para a gente os comer... - a ver se a coisa não parece pouco amiga da natureza, talvez. Ou então está a acautelar pensamentos perigosos em relação aos peixinhos do aquário Vasco da Gama ou ao Oceanário. Não sei.

Os outros mais pequenos acham tudo normal, olham com muita atenção, seguem aquela movimentação efervescente. Depois dá-se aquele episódio do esguicho de tinta que deixa toda a gente salpicada de preto (falei nisso na sexta feira passada ou no sábado).

Entretanto, desencadeia-se um acelerado mercado. Quanto custa? Quanto é o caixote de sardinha? A quanto vende cada robalo?

E as mulheres que, nitidamente, ali são as comerciantes começam a fazer os preços e a despachar mercadoria.

O meu filho começa a querer trazer peixe, fresco, fresco, e as sardinhas, que boas assadas, gordas, e uns daqueles robalos. 

Mas não vou na conversa. 

O tempo está quente, ainda acabámos de chegar à praia, quando dali saíssemos já o peixe estaria cozido. 

Mas toda a gente fica com pena, eu também.

O meu marido sugere que vamos ao restaurante da praia pedir para o guardarem no frigorífico enquanto estivermos na praia.

Não quero. Se alguma vez as pessoas teriam o frigorífico vazio à nossa espera... E iam lá ficar com o frigorífico a cheirar a peixe, que ideia.

Mas os outros veraneantes não têm desses pruridos, o peixe, os chocos e as lulas desandam num ápice. 
A ver se lá vamos um dia de propósito para isso, levamos sacos, uma geleira com termo-acumuladores e voltamos para casa, não ficamos ali na praia.
Mal despacham a pescaria, os pescadores enrolam a rede que ainda está por terra, o tractor leva de novo o barco para a água, os pescadores saltam lá para dentro e, num abrir e fechar de olhos, aí estão eles, de novo, a fazerem-se ao mar.

Enquanto os miúdos brincam à beira de água ou enquanto os homens da família jogam à bola e as mulheres conversam ou a princesinha brinca às cabeleireiras com a tia, o barco vai-se afastando. Quando o olhamos já lá ele vai ao longe, num mar salpicado de luz. Pequeno e frágil, o barquito. Por isso é que, nos dias de mar grande, tantas vezes a desgraça acontece.




Desta vez não apareceram as gaivotas. No verão, elas esvoaçam por cima dos pescadores e, mal as redes são levantadas deixando restos de peixe ou moluscos na areia, elas pousam e vêm banquetear-se, indiferentes às pessoas que por ali andam.

O nosso país tem tantas coisas tão bonitas. E é tão bom estar junto à natureza, ver estas actividades tradicionais, conviver ao ar livre, partilhar afectos e desfrutar a beleza dos lugares e das pessoas. Eu, pelo menos, não me canso disto. 

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A música lá em cima, linda, foi-me enviada pela Páscoa pela Leitora GG a quem muito agradeço. 
  • É Encore numa interpretação de Ulf Wakenius & Vincent Peirani & Lars Danielsson. 
  • As fotografias do vídeo são de António Leão. 

O texto que acompanha o vídeo tem a explicação desta arte:

A xávega é uma arte de pesca por cerco, na qual uma extremidade da rede fica em terra, enquanto o resto da rede é colocada a bordo de uma embarcação que sai para o mar, libertando a rede. Terminada a largada, a outra extremidade é levada para terra, e puxada; antigamente com a ajuda de juntas de bois e força braçal, e actualmente recorrendo a meios mecânicos.

A palavra xávega provém do étimo árabe "xabaca", que significa rede. A denominação "xávega" era usada pelos pescadores do sul de Portugal.

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Relembro: caso queiram ver uma mulher muito bela, muito jovem mas muito bela, a mais bela em 2014 segundo a Revista People, desçam, por favor, até ao post seguinte.

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(...)

Tinha começado um outro post sobre o Dia do Livro e sobre um em particular, o Dom Quixote, mas agora já estou com tanto sono que já não consigo acabá-lo. Por isso, voltei aqui para me despedir.

Não sei se amanhã consigo fazer alguma coisa. Quero festejar. Pode ser que um bocado depois da meia noite volte até porque no 25 quero também ir para a rua, em princípio para o sítio onde o 25 de Abril tem um significado especial e, por isso, não posso deitar-me muito tarde. A ver vamos.

Entretanto, desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom 24.
Que seja bom porque (para os que não carregam tristezas grandes demais e que, portanto, não têm ânimo para festas) é dia de sacudir más recordações e maus momentos e de nos prepararmos para uma vida nova.

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quarta-feira, Abril 23, 2014

Lupita Nyong'o, a mulher mais bela do mundo em 2014 segundo a revista People. Ela representa a essência da beleza negra. Salvé Lupita!


Música para the most Pretty Woman





Pode uma pessoa que ninguém conhecia arrebatar no período de um ano prémio após prémio? Pode. 

Até um Óscar...?! Sim!


Pode uma pessoa que não é loura, de olhos azuis, cabelos lisos, mas sim negra retinta - e que se orgulha da sua negritude - ser considerada a mulher mais bela do mundo, sucedendo a Gwyneth Paltrow, Julia Roberts, Jodie Foster, Michelle Pfeiffer, Meg Ryan e tantas outras? Pode, então não pode?!


Chama-se Lupita Nyong'o, fez há pouco tempo 31 anos, é mexicana naturalizada queniana e é uma mulher e tanto. Black power é com ela. Black beauty é com ela. Dela parece emanar aquela luz que as estrelas irradiam. Ou será como os suaves planetas que reflectem a luz de uma maneira especial?


Diz que a mãe sempre lhe disse que ela era bonita e que, a partir de certa altura, começou a acreditar.

Diz ela sobre a beleza: What is fundamentally beautiful is compassion for yourself and for those around you. That kind of beauty enflames the heart and enchants the soul...

A Lancôme já a contratou como embaixadora da marca e os prémios parecem chover-lhe em cima. 

Agora foi a revista People que lhe atribuíu o prémio da mais bela mulher em 2014.


E todos os grandes magazines se fazem eco disso, desde a Vanity Fair à Time. De 12 years slave a ícone da moda e da beleza feminina, Lupita começa a percorrer os caminhos da fama com frescura, passos seguros e um olhar puro e luminoso.

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Estudou representação durante anos mas não é só técnica, é também arte.


Patsey (Lupita Nyong'O) enfrentando Master Epps (Michael Fassbender) com a ajuda de Solomon (Chiwetel Ejiofor) no filme 12 Anos Escravo de Steve McQueen's





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A vencedora do Oscar Lupita Nyong'o discursando ao ganhar o prémio

Essence Magazine Black Women In Hollywood Breakthrough Performance Award






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Que a carreira lhe seja longa e bem sucedida e a vida lhe seja feliz, beautiful Lupita.

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A música lá em cima é: Oh, Pretty Woman por Roy Orbison

Pretty woman, walkin' down the street 
Pretty woman the kind I like to meet 
Pretty woman I don't believe you, you're not the truth 
No one could look as good as you, mercy 

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Ora aqui está uma solução para a minha proverbial falta de tempo: um implante cerebral, um additional brain power. A chatice é que, se ponho isso, não apenas fico a ser capaz de trabalhar mais e melhor, como fico com as sobrancelhas muito juntas e com os órgãos sexuais mais pequenos. Por exemplo, se quero pôr um ovo colorido, sou capaz de já não ser capaz (só se for do tamanho de um ovo de codorniz). E, já que o assunto vem à baila, mostro um filme que ilustra que, afinal, o tamanho é mesmo capaz de importar...


A quem aqui chegou agora e, não percebendo aquela de pôr ovos coloridos, ficou intrigado, recomendo que, mais abaixo, desça até ao post seguinte onde falo de Miro Moiré, a performer suiça que pinta pondo ovos cheios de tinta, ou seja, projectando ovos que lhe saem disparados pela vagina. Falo... e mostro porque é coisa que mesmo só vista. Uma coisa do além, melhor dizendo.

Mas aqui, agora, a conversa é outra.


Guy What Takes His Time



I can spot an amateur, appreciate a connaisseur

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Li que os futurólogos andam a congeminar uma ideia que também é do além.

Prevêem eles que dentro de algum tempo, para aí uns 30 anitos, algumas pessoas implantarão um zingarelho no cérebro que as levará a trabalharem, na boa, para cima de 50 horas por semana. Com este additional brain power, trabalhar mais de dez horas por dia, todos os dias, será uma brincadeirinha de crianças, esforço nenhum. 


Claro que estes serão os campeões, os novos yuppies. Nem será preciso coca para que esta gente implantada dê o litro com uma perna às costas, sempre animados, sempre prontos para produzirem mais e mais. 

Então, serão estes os verdadeiros filhos do FMI? 

Ná...

É que os futurológos (diz-se futurólogos ou futurologistas...? Ai que falta me faz saber um bocado mais da língua portuguesa, caraças) antecipam que esta gente quitada, com um processador a mais, vai também ganhar mais do que os outros, os normais. 

Mas isto, meus Caros, é mais do que sabido, nunca são só boas notícias (tais como trabalhar como se não houvesse amanhã, como nem o Passos nos seus sonhos mais molhados ousa imaginar para o seu povo, auferir chorudos ordenados, etc) : lamento desapontá-los mas não há bela sem senão. 

Ou seja, se, daqui por 30 anos, em vez de pôr uns implantes para arredondar as nádegas ou para arrebitar as beiças, me dá para implantar o dito chip junto aos neurónios, ficarei com as sobrancelhas como as da Frida Kahlo (e será uma sorte de não me nascer bigode) e, pior que isso, ficarei com os órgãos sexuais pequeninos, pequeniiinos, pequeniiiiiiiinos


Mas, enfim, esta dos órgãos sexuais pequeninos daqui por 30 anos é capaz de já não ser dramático, aliás é até bem capaz de ser um atractivo suplementar. 

Mas com as sobrancelhas unidas...? Ná, não vou nessa.

Também os meus Leitores homens devem avaliar bem. Eu sei que tamanho não é competência mas sabe-se lá até quanto é que a coisa mirra. 




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Bom, já que eu hoje estou que não me recomendo, acabo o dia em beleza.

Afinal: o tamanho importa ou não?


Vejamos como reagem as mulheres aqui abaixo no restaurante quando os empregados desfiam o que há no menu mas - como hei-de dizer? - em que as calças deixam antever o conteúdo (ou o equipamento, como uma delas diz).


Does size matters? ... Well...


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A música lá em cima era Guy What Takes His Time interpretada por Christina Aguilera, um número de burlesco, género que, volta e meia, é por aqui assaz apreciado.

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Relembro: descendo um pouco mais, poderão continuar no mesmo comprimento de onda e ver em acção uma artista plástica que usa uma certa parte do corpo para pintar. Inovadora, ela.

E já nem falo nos meus bons propósitos (que os tenho, podem acreditar) para aqui mostrar a arte xávega ou quão bela Lisboa é ou, mesmo, falar da revista Estante. A ver se amanhã estou bem comportada e mostro isso ou falo de coisas importantes. 

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E, assim sendo, antes que continue a fazer estragos, vou-me já embora mas não, sem antes, vos desejar, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira.

terça-feira, Abril 22, 2014

Eu gostava era de ver o Cabrita Reis ou o Julião Sarmento a fazerem o mesmo que a Milo Moiré que pinta expelindo ovos com tinta pela vagina, numa the PlopEgg. Eu queria era ver se disso eles eram capazes... É o és! O costume: só garganta. [Não sei se devo alertar que este post contém um vídeo com imagens que podem influenciar os mais afoitos ou os macaquinhos de imitação...]


A suiça Milo Moiré não faz por menos. 

Se toda ela é arte, então a coisa é literal: toda ela é arte, toda ela é agente e suporte da sua peculiar arte.

Corpo incluido. 




Ora escreve na pele e vai para a rua, ora enfia ovos com tinta e os expele pela vagina, num parto artístico como não há memória. 

Escreve ela sobre a sua performance na entrada da feira de arte Art Colónia, na Alemanha, durante a qual põe ovos coloridos, qual galinha de ovos da Páscoa que, ao rebentarem, vão colorindo a tela :


What the spectators are about to expect, is the compressed birth of a piece of art. 

Slowly the egg leaves the natal canal of the artist and smashes on the canvas, red colour flows out. 


The next egg contains another colour and so bit by bit, accompanied only by loud "Plops", an abstract art work originates -- archaically, uncontrollably and intuitively. At the end of this almost meditative art birth performance the stained canvas is folded up, smoothed and unfolded to a symmetrically reflected picture, astonishingly coloured and full of strong because universal symbolism.

The "PlopEgg Painting" itself releases a loose chain of thoughts -- about the creation fear, the symbolic strength of the casual and the creative power of the femininity. 

A comparison to wild associations arises and by the intensity of the seen and experienced, one becomes clear: the art needs like so often the corporeity to be able to manifest itself. 


"The PlopEgg Painting Performance # 1 - A Birth Of A Picture"

A Milo Moiré Performance @ The Opening of Art Cologne




(O vídeo sem censura poderá ser visto no site da artista mas, enfim, pouco acrescenta ao insólito).

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Vejo isto e fico sem grande reacção. A pensar em alguma coisa seria qualquer coisa como: há com cada maluco...

Mas a verdade é que esta ideia da Milo Moiré é mesmo extraordinária. Nem se poderá aplicar a célebre expressão: uma ideia do c... mas, sim, e acho que deve passar a ser uma expressão tão corrente quanto a correspondente masculina: uma ideia da vagina...!

Uma obra de arte a ser dada à luz e pelas vias naturais: qual cesariana, qual carapuça. 

Tal como referi em epígrafe: o Julião Sarmento, o Cabrita Reis, o Calapez e esses que acham que são muito moderninhos a ver se têm destas ideias. É o tens. 

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Judite de Sousa já mal consegue aguentar estar de Olhos nos Olhos com o chato do Medina Carreira. Hoje a coisa esteve quase a pegar fogo, com Carlos Fiolhais a agudizar o mau feitio do 'Ó-doutor-medina...' /// [E queria falar da Revista Estante, a nova revista sobre livros, uma edição da FNAC - mas apenas falo um pouco até porque, a abri-la, dei logo com o Valtinho]


No post abaixo já aqui deixei uma pergunta ao nosso irrevogável-vice-primeiro-ministro e, antevendo que ele não se dará ao trabalho de me responder, respondi eu, aproveitando para aqui lhe deixar um sincero conselho. É que, se ele não o seguir, temo bem que o vejamos a chegar ao último dia do Governo de Passos Coelho aparentando ter mais idade que o Mestre Manoel de Oliveira.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Aqui falo do que vi enquanto jantava.


Fado Cravo



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Jantei tardíssimo. Estava cheia de fome e, para variar, também já com sono. Devo ter começado a jantar já muito perto das 10 da noite (e, portanto, estava há cerca de 9 horas sem comer) e, como podem imaginar, a minha disposição não estava famosa.

Judite de Sousa está não apenas mais bonita
mas, também, mais simpática, mais empática
e melhor moderadora e entrevistadora

Mas eis senão quando, ao ligarmos a televisão da copa, demos com os Olhos nos Olhos e com o insuportável Medina Carreira todo enxofrado com o impagável Dr. Carlos Fiolhais, pessoa por quem nutro admiração, e com a bela Judite de Sousa em palpos de aranha para pôr alguma ordem naquela mesa.


Discutia-se, penso eu, o orçamento relativo ao ensino (como apanhei o programa perto do fim, não sei bem se terá sido apenas sobre o ensino superior).

O chato - e um verdadeiro cata-vento - Medina Carreira dizia que, sendo o País um país de pelintras, não há dinheiro para pagar cursos que não servem para nada.

Vistas curtas, verbo afiado, Medina Carreira é um daqueles que, com poder na mão, também daria cabo do País em três tempos.

Simpático e com uma notável bonomia,
Carlos Fiolhais não é, no entanto, uma mosca morta.
 Pelo contrário é bem um homem do seu tempo.

Carlos Fiolhais explicou-lhe - com a graça, bonomia e brilho que se lhe conhecem - que os pelintras podem não ter dinheiro mas, se tiverem conhecimentos, podem vir a criar muita riqueza. Deu o seu próprio exemplo que é Físico e que tem ajudado a formar Físicos e deu outros exemplos notáveis: foi pedagógico, paciente e convincente. Explicou que as invenções surgem no decurso de experimentações, tantas vezes acidentalmente e, para as quais, apenas anos depois se descobre a utilização. É apenas um dos casos que deu. Acabe-se com os cursos de Física, que não servem para nada?, perguntava ele a Medina.

Servem para formar cientistas que depois se vão encaixotar e que o País não pode pagar!!!, retruca-truca o exaltado Medina, o olhar cada vez mais de viés.

No entanto, antes do desnorte no final em que já nem conseguia disfarçar a raiva de que foi tomado, de cada vez que Carlos Fiolhais dizia uma coisa lógica e irrebatível, o intragável Dr. Medina, para ver se passava, dizia que estavam a dizer a mesma coisa. Mas a bela da Judite (que, de facto, está bem mais bonita) não estava para dar mole e, portanto, não perdoava, 'não estão nada a dizer a mesma coisa, ó Dr. Medina, estão é em rota de colisão' e o Medina, fulo, fulo da vida, espingardava com ela, com o outro, mostrando que é mesmo uma daquelas criaturas com um mau feitio que não se aguenta.

Vejam bem o arzinho de fúria da criatura

Carlos Fiolhais não perdeu a tramontana mas não deixou uma por dizer. Deu uma lição de cultura, de civismo e de cidadania, mostrando como o caminho que está a ser seguido é o oposto do que devia ser. E a Judite de Sousa lá foi dizendo que o Dr. Medina diz mal de tudo e, apesar de ir sorrindo, não lhas perdoou.


Via-se que, perante o ar furibundo do Medina Carreira que por vezes quase roçava a má criação, ela estava desertinha por acabar o programa e, quando isso aconteceu, talvez nem se lembrando que continuava a ser filmada, agarrou o cabelo, estendeu-se na cadeira, esticou-se e, devo dizer, que acho que muito pouco fez ela. Não me admiraria nada se a ouvisse dizer 'fónix! que estava a ver que não aguentava isto até ao fim...'


Judite de Sousa relaxa depois de tentar moderar os ímpetos furiosos do Dr. Medina

Se fosse eu, não sei se me aguentava sem virar uma garrafa de água na cabeça daquela criatura maledicente e intratável que parece que destila ódio e que para ali ainda ficou a pregar enquanto o pacholas do Fiolhais, sorridente, tentava acalmar aquele bicho horroroso.

Não sei se a Judite tem pachorra para aguentar por muito mais tempo aquele sujeito. Nem sei se os telespectadores o aguentam.

Um programa deste género é útil e interessante mas com uma outra pessoa. Aquele Medina é uma autêntica megera.


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O fado lá em cima é o Fado Cravo interpretado por Alfredo Marceneiro. 

Vá lá explicar isto, quando pensei numa música para acompanhar o derrotismo, o pessimismo doentio do Medina, lembrei-me logo de um daqueles fados desgraçados do Marceneiro (de raiva desfiz o cravo).

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Já agora, caso queiram ver o Professor Fiolhais a falar de ciência, deixo-vos aqui um vídeo.
É sempre um gosto ver e ouvir uma pessoa inteligente e com sentido de humor.

Pipocas com Telemóvel e outras histórias de falsa ciência

de Carlos Fiolhais e David Marçal





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E assim, uma vez mais, deixo para trás aquilo de que vinha com vontade de falar. Comecei aqui tarde demais e já cansada e, em vez de ir direitinha ao ponto, cedi ao impulso e desatei a falar do que tinha acabado de ver. Quando começo, penso sempre que vou despachar-me e que, em três tempos, estarei pronta para o que quero. Mas qual quê? Ponho-me à procura de músicas, no caso deste post tirei fotografias à televisão, depois passei-as para o computador, depois converti-as para não ficarem pesadas, e depois gosto de compor minimamente o visual da coisa e assim sucessivamente. Ou seja, o tempo vai passando e as minhas anteriores intenções vão sendo postergados. Qualquer dia ainda arranjo um ghost writer para me ajudar: é que não consigo dar vazão a tantas coisas que aqui quero trazer.


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Entrevista a José Tolentino Mendonça
no Número 1 da Revista Estante

Também queria falar da nova revista literária, a Estante, uma edição da FNAC. De tarde já um Leitor me tinha enviado um excerto da entrevista do Pde Tolentino Mendonça e, quando abri a caixa de correio (física), lá tinha a revista. O primeiro número foi oferta mas, a partir daí custará 1,5€, ou seja, um preço imbatível. 


A nível gráfico é agradável, o papel é simpático, deve ser reciclado, mas tem partes significativas escritas com uma letra miseravelmente pequena. Eu, que não uso óculos para ler, vi-me grega para ler aquilo. Um disparate, quase que só com lupa. Depois é quase mais um catálogo do que uma revista literária. Mas, em contrapartida, tem alguns aspectos úteis.

A ver se amanhã falo dela com mais vagar pois, para já, preciso de pegar nela com, justamente, mais vagar. Uma coisa me deixou logo de pé atrás. Ou melhor, com os dois pés atrás: o Editorial foi escrito pelo Valter Hugo Mãe, o bom do Valtinho. Se isto é para valer ou se foi só este 1º número, uma experiência a ver como é que ele se porta, não sei. O que sei é que o naco de prosa não engana: é mesmo coisa do Valtinho, credo.

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Para verem o desgaste que este governo está a ser para todas a gente, incluindo para aquele que tanto parece ambicionar lá estar, Paulo Portas, é descer, por favor, até ao post já a seguir.

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E, por hoje, fico por aqui. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça feira.


Sr. Vice-Primeiro-Ministro Paulo Portas, valeu a pena? Está a valer a pena? Permita-me uma sugestão: olhe-se ao espelho e seja honesto consigo próprio.





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São onze da noite, cheguei há escassos minutos ao computador, dei uma circulada pelas notícias e fui parar a uma que mostra um desencontro de calendário entre Paulo Portas, Passos Coelho e a Troika. O primeiro diz que a saída dos ocupantes é para o mês que vem, os outros dizem que será mais tarde - a pedido do segundo.

Depois outra notícia refere a questão do ordenado mínimo, com Paulo Portas a querer subi-lo quando a Troika virar as costas e a Troika e os seus apaniguados a dizerem que é melhor nem tão cedo se pensar nisso.

Depois é o sal e pimenta do hamburguer, das batatas fritas, do chouriço e do polvo salgado das feiras: o primeiro e o seu dilecto discípulo chutam para canto, que nunca existiu tal ficção e etc e tal; o segundo e a sua mestra e mais o da Saúde dizem que precisam de dinheiro e taxarão tudo o que aparecer na rede, quiçá até o bacalhau antes de demolhado.

E as notícias são ilustradas com fotografias de Paulo Portas: custa a ver.

Uma pálida sombra do que era antes de se ligar a este Governo. Ainda não percebi se, perante aquilo a que assiste e que não deve ser coisa bonita de se ver, ele se mantém porque:
  • a vã ambição do poder vale mais para ele do que a sua inteligência, resiliência e dignidade
  • a pandilha do PSD o tem preso por algumas pontas do passado
  • ele se tornou igual a Passos Coelho, Marco António Costa e outros que tais
  • há um outro motivo que não descortino.

Tenho-o por inteligente. Uma pessoa inteligente já teria percebido que este Governo é um desgoverno formado por gente amadora, impreparada, mal formada, mesquinha, incompetente, perigosa. Já teria percebido que este desgoverno está a dar cabo da vida de muita gente, nomeadamente daquelas pessoas que ele jurava defender. 

Já teria também percebido que está a destruir o CDS. As pessoas com moral e ética do CDS não suportam a colagem a um PSD vil e devastador.

Então, porque recuou quando parecia que tinha ganho coragem para se libertar? Porque recuou sabendo que esse passo em falso daria irrevogavelmente cabo da sua imagem já tão debilitada?

Vejo as suas fotografias: envelheceu de uma forma alarmante, parece que a pele perdeu viço, há rugas, manchas da idade, parece que perdeu a alegria. 

Quando o vejo, tentando aparentar a vivacidade que se lhe conhecia, mais parece uma imitação do que foi. Tenta parecer histriónico mas parece apenas artificial.


Fiz uma pergunta no título desta mensagem mas, porque presumo que ele não me vá responder, respondo eu por ele: não vale a pena, Paulo Portas, não vale a pena. Está a desgastar-se para nada, por nada. O País vai associá-lo ao período mais negro da democracia portuguesa e ele sabe - sabe porque é inteligente (eu, pelo menos, antes achava que ele era inteligente) - que os Portugueses e a História terão razão nesse juízo de valor.

Então porque não põe um travão nisto? Porque não se afasta - do governo, do partido? Porque não pára para pensar na sua vida? (E, já agora, também  na vida daqueles de quem diz gostar)


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segunda-feira, Abril 21, 2014

Se a maioria dos portugueses é benfiquista, então já percebo porque é que o Passos Coelho e o Paulo Portas ganharam, em conjunto, as últimas eleições. [PS: E os benfiquistas inteligentes e racionais, essa escassa minoria que talvez exista, que me perdoem mas isto é o meu desabafo perante a maluquice que reina nas televisões. Benfica, Benfica, Benfica: um exagero que não se aguenta!)


Depois de abaixo ter relatado o making of do meu período pascal, venho agora aqui para protestar: mas que raio de país é este ou que raio de televisões é que temos, para serem directos e mais directos e haver uma festa nas ruas como se estivessem a chover barras de ouro? O Benfica ganhou o campeonato, é certo. Mas... e daí? 


E o que é que eu tenho a ver com isso? Em que é que tal feito contribui para a minha felicidade, alguém me explica? E que raio é isso do 33 que vejo por todo o lado? Foi a 33ª vez que o Benfica ganhou? É que nem explicam, só gritam 33. E isso é bom? Nunca nenhum clube à superfície da terra ganhou tantas vezes? Não faço ideia nem considero relevante. Fogo...! 


Como vos conto no final do post a seguir a este, hoje de tarde, antes de nos irmos dedicar à terceira idade e levar-lhes os deliciosos Pães de Deus da Padaria Portuguesa (aquele José Diogo Quintela está mesmo a sair-se bem com isto: que belos produtos, que belas lojas!), fomos dar um passeio a pé pela Baixa.


Pois não vos digo nem vos conto. Benfiquistas e mais benfiquistas, aquela raça de gente que anda de blusão encarnado, cachecol encarnado, que falam muito alto, que gritam e cantam, e outros em motos à abrir e a gritar, cachecol ao vento, palavrão de criar bicho, uma euforia tresloucada. E isto ainda antes do jogo começar.

Agora na televisão outra maluquice: entrevistam o zé dos anzóis, o zé maria pincel, o zé da gatinha, e o primo, o tio, o cunhado, o vizinho, e os apresentadores e comentadores como se fosse tivesse vindo aí o fim do mundo e uns quantos tivessem sobrevivido, uns eleitos, uns heróicos protagonistas de uma fantástica epopeia. Poupem-me.

E, em Lisboa, no Marquês de Pombal, são homens, mulheres, novos e velhos, tudo aos gritos, aos saltos, uma multidão ululante, um mar de gente de braços levantados, a saltar, a cantar, ou melhor, a berrar. 


E por ali andam os repórteres feitos baratas tontas, e toda a gente parece ter alguma coisa importante a dizer e, quando abrem a boca, ou sai parvoíce da grossa ou gritos roucos, um comportamento quase selvático, tudo numa bebedeira emocional que só visto.

E há assombrosas vistas aéreas, dá ideia que foram mobilizados todos os meios aéreos para confirmar que parece que Lisboa parece ter sido tomada de assalto, não por verdadeiros heróis mas por figurantes de um filme de gente doida em que a doidice lhes dá para se vestirem todos de encarnado, andarem aos saltos e aos berros.

Será isto normal? Num país de milhões de desempregados, em que uma quantidade enorme da população vive sem rendimentos, em que grande parte dos jovens qualificados do País emigrou ou está em vias disso, em que os pensionistas nem sabem quanto recebem ao fim do mês tantos os cortes e ameaças de cortes que recebem, em que uma população inteira viu o seu rendimento cortado por via de um brutal aumento de impostos para serem canalizados para o pagamento de juros agiotas... há um clube que vence o campeonato (como todos os anos há) e parece que todos os males desapareceram e que o que há é todas as razões possíveis e imaginárias para uma colossal alegria, para uma festa de arromba, para um espectáculo de euforia colectiva. Fico banzada com isto, palavra que fico.

Claro que aqui em casa o ambiente era negro (e ponho no passado porque agora só eu é que estou acordada e, portanto, o negrume já aliviou). O meu marido, sportinguista de nascença, nem queria a televisão ligada, que era o que lhe faltava era correr o risco de ainda ter que gramar com o Jorge Jesus (e claro que precedia o nome da figura por adjectivos que aqui não poderei reproduzir) e com todos esses gajos que nem falar sabem

Mas nem é preciso ser-se sportinguista de gema para desaderir desta alucinação colectiva. Acho que basta uma pessoa não ser completamente passada da cabeça. 

Ainda agora, arredada que tenho andado das notícias, passei pelos canais das notícias para ver se descubro se o Paulo Portas já apresentou o Guião da Reforma de Estado, se afinal a Poiazita Madura já orquestrou os ministros sobre o que hão-de dizer quando lhes perguntarem acerca do putativo imposto sobre o sal das batatas fritas, para ver se já há alguma pista que leve a perceber se a saída do protectorado (assim lhe chamou o irrevogável vice) vai ser limpa ou suja, se houve mais algum avistamento da pequena Maddie, se o Passos Coelho já inventou mais alguma expressão para a novilíngua que tem vindo a criar, se a tal senhora de quem o Henrique Neto diz que não é lá muito sã da cabeça teve mais algum descabelamento frustracional, ou para ver, ao menos isso, se a Judite de Sousa hoje, ao entrevistar o Professor Marcelo terá aparecido de mini-saia e com a sua bela perna ao léu ou se veio de capuchinho e de botas de D'Artacão.

Pois bem: inconsegui. Como disse, os canais de notícias só com multidões vermelhas, encarnadas, rubras, fumegantes. Não sei de onde veio toda aquela gente e que rifa lhes saíu na sorte para tanta esfuziante alegria. Milhares de pessoas, milhares. Nem nas maiores manifestações contra o desemprego, a fome, os roubos de todas as formas e feitios, se consegue um fenómeno destes. E, portanto, todos os canais, todos, mobilizados para cobrir o tsunami vermelho que varreu as ruas. Um exagero, um exagero.

E eu eu interrogo-me: mas que gente é esta, senhores? O que é que têm na cabeça? Alguém me explica? Há por aí algum benfiquista que seja normal e saiba explicar-me por a mais b como é possível uma coisa destas?

Seriam capazes de vir assim para a rua defender Portugal se este estivesse a ser espoliado por um bando perigoso? Sim...? Então porque é que nunca os vimos? Ou são assim só quando a luta é de brincadeirinha, coisa de meninos que andam a correr atrás de uma bolazita e o adversário é outro grupo que também não faz mais do que isso?

Não percebo a natureza humana, é o que é. Deve ser por isso que gosto tanto de pássaros, de flores, de pedras. 

Enfim. Bolas para isto. Vou-me deitar que é o que faço de melhor.

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E estou a escrever e a ver as minhas mãozitas com uma série de pequenos arranhões. Tantas reuniões que vou ter esta semana e com as mãos neste estado. Se me habituasse a fazer a lida doméstica de luvas... Mas não consigo. Só que desta vez até tenho vergonha. Enfim, dona de casa é assim. Mas, sobre isso, falo no post a seguir.

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A estas lindas horas e traumatizada com o que vejo em todas as televisões, claro que já não tenho tempo nem para a reportagem fotográfica da arte xávega nem do passeio por Lisboa. A ver se consigo amanhã. 

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar por esta segunda feira. 
E, por favor, não se esqueçam: é Abril, tempo de renascer.

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O meu período pascal - making of


Como já várias vezes aqui o disse, os meus filhos não são baptizados nem andaram na catequese, apesar de terem andado num colégio diocesano. Logicamente, também não se casaram pela igreja nem vão à missa e, portanto, ainda são mais alheios aos rituais católicos do que eu. Por isso, nem eu nem eles ligamos muito a isto de ser Páscoa. Mas, para além de não ligar muito ao lado religioso da data, devo confessar que, além do mais, sou distraída. Há coisas que se me varrem, nada a fazer.

No entanto, por várias vezes, durante estes dias, pensei que, às tantas, toda a gente liga mais do que parece.

Eu conto.

Para a sexta feira anunciei antecipadamente que não queria madrugar e que queria ir dar uma caminhada matinal, pelo que o almoço seria composto por frangos assados comprados numa churrasqueira - e todos me responderam que franguinho assado era mais do que bom. 

Mas, quando eu penso que a coisa tem tudo para correr bem e para eu poder andar sem stresses, geralmente há uma reviravolta inesperada e tudo se complica. Na quinta à noite, o meu filho manda-me um sms: 'acho que devia ser peixe porque na sexta feira santa não se deve comer carne'. Fiquei parada a olhar para aquilo. Imaginei que só podia ser piada.

No entanto, para minha contrariedade, o meu marido disse, 'acho que o puto tem razão, faz antes bacalhau'. Achei uma bizarria sem tamanho. Aqui já eu estava a ver a minha manhã a complicar-se. Na dita sexta feira de manhã liguei à minha filha: 'olha lá, o teu irmão diz que eu não devia fazer carne...' E logo ela: 'acho bem, sabia bem um peixinho. Mas porque é que ele disse isso...?'. Expliquei-lhe, 'Por ser sexta feira santa'. Deu uma gargalhada 'Ah! Só pode estar a gozar...! Mas eu alinho, se calhar aquela pescada grandalhona do Chile.'. Protestei: 'mas está tudo doido?! Agora, num dia feriado, onde é que vou arranjar peixe fresco? E como é que tenho tempo de ter almoço pronto a tempo e horas...? Gaita'.

Claro que me podia marimbar, mas a verdade é que tenho dificuldade em não atender às vontades deles. Resultado: lá fui para o supermercado, uma fila do catano para o peixe amanhado. Pescada gigante havia, mas havia também umas vinte pessoas à minha frente. Vai daí, trouxe-a por amanhar. Trouxe-a, não: trouxe-as. É que pensei que o meu filho ia querer a cabeça e se há coisa que eu adoro nos peixes é a cabeça, andar a escarafunchar, aproveitar os bocadinhos todos, esmiuçar as espinhas, as cartilagens, não deixar nada. Além disso, uma pescada, apesar de grande, podia não era suficiente. Então trouxe duas pescadonas. E batatas, cenouras, brócolos, grão, ovos. Pescada com todos. E eu quase a correr dentro de um supermercado cheio.

Depois em casa é que foram elas. Vi-me aflita para amanhar os bichos. Não cabiam no lava-louça. Eu cheia de pressa, as tropas quase a invadirem o quartel e eu naquilo: escamar, tirar as guelras, meter-lhes as mãos pelas goelas para puxar as tripas. Agora tenho as mãos meio arranhadas. Olhava para elas sem perceber o que tinha acontecido até que me lembrei: foi de as enfiar nas cabeçorras das pescadas, imagine-se.

Mas, enfim, valeu o esforço. À hora devida, o almoço estava servido. Mas, mal entrou em casa, o meu filho protestou: 'cheira a peixe cozido! mas porque é que todas as parvoíces que eu digo são levadas a sério...? Alguma vez eu ligo a isso de sexta feira santa...? Não dava para perceber que era no gozo...?''. Mas, concluiu, 'mas ainda bem, uma pescada fresca é boa ideia' e, claro, lambões, batemo-nos os dois com uma cabeça cada um. 

A outra distração minha tem a ver com ovos da Páscoa. Sabendo que não é suposto que as crianças comam muitas guloseimas, nem me ocorreu que um dia não são dias e que, portanto, deveria ter aberto uma excepção para os célebres ovos da Páscoa. Nem me lembrei. 

Mas a minha filha tem destas coisas: trouxe amêndoas da Páscoa e ovinhos de chocolate. Com ar censor, de cabeça de lado, sentenciou, 'ainda há quem se lembre, não é....?'. Pois. Ainda bem.

Ela sempre gostou de organizar caças ao tesouro e os miúdos adoram.

Portanto escondeu os ovinhos por aqui e por ali e foi deixando pistas. Claro que o mais crescido é que comandava os descobridores, avançando à aventura, tentando decifrar as pistas. Mas, para todos, foi uma festa. 

E, no fim, andava toda a gente a comer ovinhos de chocolate. Até o bebé me apareceu de boa cheia e logo toda a gente com medo que tivesse metido a prata na boca. Mas não: tendo ganho também uns quantos e querendo comê-los, a mãe tirou a prata de um para ele provar. Chamou-lhe um figo. 

Aqui ainda estava com
os seus fortes cacóis. 
Pelo meio, e apesar de nada ter a ver com o período pascal, ainda houve tempo para o habitual hair-cut. Não me refiro ao hair-cut da dívida pelo que o apresentador-amestrado Gomes Ferreira pode ficar tranquilo. Refiro-me, sim, ao cabelo dos dois rapazinhos mais novos. Estavam mesmo a precisar, como se pode comprovar pelas fotografias tiradas antes.

Sentam-se numa cadeira, de toalha pelos ombros, e vou humedecendo o cabelo, penteando e cortando à tesoura. Pareço uma barbeira de província. Como sempre, correu muito bem. Em particular, o ex-bebé adora, nem se mexe, eu podia estar ali uma tarde inteira a mexer-lhe na cabeça, a pentear, a massajar, que ele nem ai, nem ui.

E pronto, as minhas férias estão acabadas (que isto de haver um feriado encostado a um fim de semana para mim é uma festa, verdadeiras férias grandes). 

Este domingo, antes de ir para a visita semanal aos meus pais, ainda fomos, agora já só o casal (embora num estado um bocado depauperado), dar um passeio; e a ver se vos mostro a reportagem fotográfica porque Lisboa é uma maravilha. A questão é que vou acumulando assuntos e o tempo escasseia-me. A ver vamos.

domingo, Abril 20, 2014

In heaven com o meu amor, os meus amores, os meus amorzinhos e muitas flores. Ressurgir em Abril. O maravilhoso perfume de esperança.






Sento-me à noite no sofá em frente da televisão e o corpo apaga-se. Podem ser cinco minutos mas são o suficiente. Depois desperto e já estou quase acordada. Ainda consegui ver o Downton Abbey, que bom.

No cavalinho de madeira que era do pai e da tia

Estes dias cansam o corpo: muito oxigénio, ar muito puro, muito afecto, uma ternura muito palpável, muita animação em volta da mesa - e, de pouco em pouco tempo, já está toda a gente de novo em volta da mesa - e há muito apetite e muita alegria, e, quando chega a noite, o corpo requer descanso. Mas o coração está repleto, a cabeça limpa de tudo o que o polui ao longo dos dias de chumbo.

E tudo isto vale mais, mas muito, muito mais do que milhões de outras coisas.

Pode não ser nada de mais: não estou a falar de viagens à volta do mundo, de idas a espectáculos a Londres ou à Broadway, não estou a falar de carteiras Hermès ou sapatos Louboutin, não estou a falar de jóias raras ou êxtases perante tiradas literárias de cortar a respiração - não, nada de coisas próprias de gente exigente. A mim são as coisas simples que mais me satisfazem.

Pode não ser muito mas, para mim, é tudo.


Os brinquedos que há tão pouco tempo eram os de uns, encantam agora os de uma nova geração.

Transportando folhas e ramos para servirem de ninhos

As árvores que antes eram pequenas, que se perdiam no meio das ervas, agora são abrigo de pássaros e um desafio para meninos que, nessa altura, não há muito, nem se sabia que viriam a existir.

Temia-se o mau tempo mas afinal foi outro dia ameno, a temperatura suave, o sol macio e velado. E as crianças não se cansam, brincam, correm, saltam, empoleiram-se, conversam. E dão-nos abraços e beijinhos de contentes que andam. Andam felizes a a felicidade das crianças contagia os adultos.

Se será isto o paraíso eu não sei, nem devo ter possibilidade de o vir a comprovar. Tantos têm sido os meus pecados que palpita-me que não devo vir a lá pôr os pés. Mas não me importo porque muitas vezes já tenho vivido a paz e a felicidade que os bem-aventurados que vivem depois da morte certamente experimentam quando os portões do paraíso lhes são abertos.

E, a bem dizer, nem penso em tal - os meus pensamentos também nisso são muito simples. A minha vida é esta, agora. Não me prendo ao passado nem fico à espera do que o futuro me há-de trazer e, muito menos, da maravilha que será depois de ir desta para melhor.

A minha vida é esta e é tão imensa que não me deixa espaço para desânimos. À minha volta a vida renasce todos os dias e, quando se fala de Páscoa, é de renascimento que se fala.

Mas, para mim, parece que é em Abril que a primavera avança em todo o seu fulgor e que as vidas adormecidas ganham nova força para ressurgir. Que a Páscoa se esteja a festejar agora, a poucos dias de festejarmos outro renascimento, é um bom prenúncio.

Os cachos de flores brancas da Robínia.
Atrás, uma azinheira também em plena floração

Quando Abril é chegado, parece que sinto uma esperança mais forte no ar.

E sinto-o dentro de mim, por mim e pelo meu amor, e pelos meus, pelos mais velhos que tomara que me acompanhem ainda durante muito tempo, e pelos mais novos a quem desejo que lutem sempre pela sua felicidade, que se ergam de todas as batalhas, que procurem a sua realização, que construam o seu futuro com toda a energia do mundo e que nunca se esqueçam de ser solidários e generosos, e por todos os outros, pelos que estão tristes e com saudades, pelos que estão sozinhos e sem forças, pelos que estão cansados e sem esperança, pelos que estão doentes e em dor, pelos que estão sem trabalho, pelos que se sentem indignados e sem perspectivas, pelos que têm medo, pelos que vivem entre sombras.

Por todos, eu sinto que Abril traz um perfume de mudança, de alegria, de esperança.

Não deixem, por favor, que Abril vos passe ao lado. Agarrem-no, agarrem a esperança, agarrem a vossa vida.



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A música lá em cima é Derrière L'arc-En-Ciel _ Over the Rainbow interpretado por Eddy Mitchell, Melody Gardot.

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Desejo-vos a todos, meus Caros Leitores, um bom domingo de Páscoa.

Acreditem em tempos melhores. Lutem por eles. 
E agarrem a felicidade, mesmo a dos pequenos momentos.

(Nota: isto claro que não é uma ordem, é um desejo, um sincero desejo)

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