ano novo 2014

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sábado, Julho 26, 2014

Por falar de amor, em especial amor às palavras e às imagens. Words and Pictures. Clive Owen e Juliette Binoche, um casal apaixonado, dois grandes professores, dois grandes actores. Um belo filme rigorosamente a não perder.


No post abaixo falei de agramática, de limpamentos de receios e de outros maravilhamentos. Manoel de Barros pela mão do Cine Pover é um acontecimento que não deve ser perdido.

E hoje é dia de palavras e maravilhamentos.

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Sexta feira à noite é dada a farrinha, passeios, namoro, e, por vezes e quando a coisa promete, cineminha.


Words and Pictures - Clive Owen and Juliette binoche


O par prometia, gosto imenso do Clive Owen, é um actor muito genuíno, com uma presença física forte, uma voz bonita, uma espontaneidade magnética (estar ao pé dele deve ser um perigo) e gosto também muito de Juliette Binoche, cujos desempenhos são sempre tocantes. O título original do filme, Words and Pictures, também despertou a minha atenção e o trailer também não desincentivou. (Em português ficou Por falar de amor, o que diminui o filme).


O cinema também me atraíu. É perto do restaurante onde fomos jantar e não seria de certeza um local para onde as pessoas vão mastigar pipocas que transportam em baldes. Aliás, distracção minha, nem sabia que o Alvalade ainda estava aberto. Agora é City Alvalade e a grande sala está dividida em 4. É um pequeno cinema de bairro, com um café simpático, pouca gente, sítio para estacionar. O ideal.

Pois bem. Há muito tempo que não via um filme tão bom. Tão bom. Geralmente quando tenho deslumbramentos destes por filmes, o meu marido acha que é longo ou chato demais e, para o fim, já se mexe e remexe, vê as horas, boceja. Aconteceu com Lady Chatterley, por exemplo, um filme que eu adorei e que ele acha que seria bom se tivesse meia hora a menos. Pois, se querem que vos diga, com este filme, nem uma só vez bocejou, nem sequer se mexeu na cadeira. 

Quando o filme acabou não consegui levantar-me. Estranhamente o meu marido também ficou um pouco (e logo ele que, mal lhe cheira a fim, já está a querer ir-se embora). Mas olhou para mim admirado: Estás a chorar? e eu disse que sim. Ele perguntou porquê. E eu expliquei que estava a chorar por pura emoção perante a beleza. Não por tristeza. Várias vezes fiquei em lágrimas apenas pela beleza das palavras, das imagens.


Todos os professores deveriam ver este filme. Todos os professores de língua portuguesa, de literatura, e de artes, ainda mais. Ensinar pode ser um encantamento. A literatura amada e partilhada é magia, encantamento, viagem. As imagens, quando expressão de uma força genuína que sai do corpo, que tem alma, luz, movimento ou sombra, negrume, são também uma prece, um arrebatamento.


Não devia estar a usar palavras pois corro o risco de banalizar o que, no filme, é tão especial.

Sobre a maravilha que são as aulas e o acto de ensinar, em si, há ainda o combate entre a dupla amorosa e há os diálogos e as interpretações.

O filme é belo, mágico, apetece a gente meter-se dentro dele, apetece que não acabe. E não é pesado, negro, não nos atormenta, não nos assusta ou deprime.


Que bom pode ser, ser professor!



Mas Juliette Binoche que, no filme, é pintora e professora de artes, na vida real também pinta e as obras que se vêem no filme são, de facto, suas.

Infelizmente o filme está apenas em 2 salas em Lisboa e 2 no Porto mas talvez não tarde a existir também em DVD.

Deixo o trailer traduzido e, porque tem mais imagens, também o trailer oficial em versão mais longa.




Por falar de amor


Não sei porque deram em português um nome de comédia romântica de Verão mas, enfim, devem ter achado que 'vendia' melhor





WORDS AND PICTURES





Gostaria de ter aqui Clive Owen dizendo excertos de poemas ou outros textos tal como o faz no filme mas não encontrei. Então, porque de Shakespeare também lá se fala, coloco  um actor que tem uma voz espantosa, Benedict Cumberbatch a dizer The Seven Ages of Man



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É muito tarde, já são 3 da manhã e eu estou cansada. A semana não foi fácil e, para acabar em beleza, a sexta feira foi de estrondo. Felizmente, eu tenho um lado de guerreira, as batalhas dão-me pica. Acho que tenho aquilo a que se dá um nome muito feio - que se ouço noutros me dá vontade de rir mas, de facto, os outros detectam em mim isso e eu também - killing instinct. O meu grande amigo sempre o disse: como adversária ela é temível. Pois. Reconheço. Temos pena.

Mas até as guerreiras precisam de dormir, especialmente esta que é uma guerreira boazinha.

A ver se amanhã consigo tempo para responder aos comentários pois, em especial a alguns, quero dizer umas palavrinhas. Também não tenho conseguido receber aos mails - falta de tempo e cansaço, é o que é. As minhas desculpas.


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Relembro, em especial aos que amam as palavras: abaixo encontrarão mais um belo vídeo do Cine Povero.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

Agramática. Manoel de Barros pela mão de CINE POVERO. O amor das palavras. O maravilhamento pela beleza das frases.


Quando há vídeo novo no Cine Povero, o Um Jeito Manso começa a correr, não quer perder o lugar, quer chegar a tempo de apanhar um bom lugar. Não há palavra, acorde, imagem que se possam perder. No Cine Povero os espíritos do bem encontram-se e os espectadores, no fim, rogam por mais.


Manoel de Barros por ele próprio: Agramática


Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
(...)
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.





  • Voz de Manoel de Barros em «Manoel de Barros», Audio-Livro, Ed. Cidade da Luz (Coleção Poesia Falada), São Paulo, 2001
  • Música: Virgina Astley, “With my eyes wide open I'm dreaming” in «From Gardens Where We Feel Secure», 1983
  • Filmado no Parque Nacional Plitvice Jezera e na ilha de Dugi (Croácia).

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sexta-feira, Julho 25, 2014

Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo sugere que Ricardo Salgado, o ex-DDT, ao cair, faça cair meio mundo. E sugeriu que fale dos submarinos, do financiamento de partidos, de negócio de armas em geral, de dinheiros em Angola. Ouvi isto e pensei: Ui... muitas velinhas devem estar acesas para que a Caixa de Pandora permaneça bem fechada.


No post mais abaixo mostro dois anúncios que têm mensagens sexuais muito pouco subliminares, um com o Futre, que foi banido (banido o anúncio, não o Futre, diga-se) e outro, muito alta voltagem e muito chique, que não escandalizou ninguém. Enfim, critérios.

Mais abaixo ainda, conto-vos um susto que apanhámos e que me fez andar deitada no chão, de lanterna na mão. Um susto. Fica uma pessoa com um animal de estimação à sua guarda e vai o bicho e escafede-se. Dá para acreditar? Ainda não estou em mim.

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, não sei se a conversa vai ser outra ou se vou deixar-me dormir a meio caminho.

O estado de adormecimento em que me encontro retira-me a potência nos dedos. A da cabeça nunca é muita mas os dedos costumam fazer a despesa sozinhos. Hoje não me parece que se vão aguentar.

Adiante.

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Don't let me be misunderstood




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Já referi no post mais abaixo que ouvi o Pacheco Pereira, na Quadratura do Círculo, a formular votos de que o Ricardo Salgado aproveite o ensejo para começar a desbocar-se, entalando meio mundo pelo caminho.


Havia de ter graça: o DDT, que se gabava de nunca deixar cair ninguém, ao cair, arrastar consigo todos aqueles que comiam à sua mão.

Pacheco Pereira sugeriu: e que tal o Ricardo Salgado falar do negócio dos submarinos; ou de todos os negócios ligados ao armamento em geral; ou financiamento de partidos políticos; ou movimentações de dinheiros em Angola...? Não sei se ele juntou outros temas. Provavelmente adormeci a meio do enunciado.


Mas fiquei a pensar que isto parece ser um filme que ainda mal começou. Muito dinheiro escuso, muitas trocas de favores, muitas influências negociadas durante anos, toda uma teia oleada e bem oleada. E sempre muitos advogados com pareceres, e consultores, e assessores. Com chefe de gabinete e secretariado à sua volta, gente de confiança, muita confiança, e comparsas e colaboradores de topo. Gente que com certeza sabia de tudo ou, senão de tudo, pelo menos de muito mas que, por lealdade ou conivência, assobiou para o lado. Gente, alguma dela, que, de tanta confiança, quase se achava tão importante quanto o seu amo. Mas tudo com muita classe, muito savoir faire.

Agora as pessoas perguntam-se: para onde foram os milhares de milhões que parece que voaram sem deixar rasto? Pois. Devem ter ido para tudo aquilo de que o Pacheco Pereira fala. Cá e por onde ele e os seus próximos se iam movimentando.

Num país pobre como Portugal este dinheiro que percorre os bastidores da economia é dinheiro que não está ao serviço do desenvolvimento. Unta mãos aqui e ali, vai para offshores, para luxos, para bolsos de corruptos e, talvez, Pacheco Pereira o deu a entender, também para para pagar minudências como, por exemplo, campanhas partidárias. Em suma, para sabe-se lá o quê.

O Hotel Palácio Estoril é um hotel com cachet, requintado, sem ostentações vulgares. Vê-se o que é o suave charme da burguesia, mas da alta burguesia, da burguesia com muitos anos de história. Conheço-o. Leio que Ricardo Salgado montou lá o seu escritório provisório, que estaria a eliminar documentos. 


É natural. Agora que todos o abandonam e o temem, é natural que queira eliminar documentos comprometedores.

A justiça deverá fazer o seu caminho e a comunicação social, que durante tanto tempo o protegeu e dele se fez arauto, deverá agora respeitar a decência que se exige em todas as circunstâncias.

O que eu espero é que os inocentes sejam poupados, que as economias ganhas honestamente não saiam beliscadas, que se encontrem alternativas honradas para as empresas que vão ser alienadas e que se respeite o direito ao trabalho dos que, até aqui, lealmente têm servido o GES (e refiro-me às empresas do Grupo Espírito Santo e não à família em si). E que se faça justiça. Quem, julgando estar acima da lei e julgando-se com mais direitos do que o vulgar dos mortais, quem servilmente aceitou ser conivente de toda uma teia de corrupção, fraude e ilegalidades, quem desprezou a importância das economias das pessoas para as usar como se fossem suas, deve ser punido.

E que haja celeridade na justiça e serenidade enquanto esta se exerce. Julgamentos irracionais na praça pública não fazem qualquer falta.


E assim, com duras aprendizagens, se vai fazendo o caminho das pedras em Portugal. A cada dia que passa vamos perdendo um pouco mais da nossa inocência.

Talvez um dia nos tornemos ainda uma democracia madura. (A menos que nos tornemos um protectorado chinês ou angolano, coisa para a qual parece caminharmos a passos largos).

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E com isto me vou que hoje: com o sono com que estou, não consigo dizer muito mais. Antes de me deitar ainda vou espreitar a Tartaruga Voadora, não vá estar, a esta hora, à janela a ver o Tejo nesta noite fresca de verão.

Filha da mãe da Jaquina, que belo susto nos pregou, ainda não me refiz.

E a ver se esta sexta feira não cai ou desaparece outro avião. Isto que anda a acontecer aos aviões é estranho. Ainda bem que, nestes tempos próximos, não estou a contar ter que viajar, senão bem apreensiva andaria. Parece que, de vez em quando, há por aí umas quaisquer ondas magnéticas que incendeiam os ânimos, que distorcem os raciocínios, que tornam malvadas algumas mentes, que viram do avesso a cabeça dos deuses. Não sei. Coisas estranhas.


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Relembro: desçam, por favor, para saberem de uns anúncios do além, um que foi banido e outro, bem pior, que o não foi embora me pareça que deve fazer pior à saúde que as cápsulas do Futre. E ainda mais um pouco para saberem de um fenómeno que tenho cá em casa, uma Jaquina aventureira (a alpinista?).


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E, por agora, fico-me por aqui. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira!


O sexo desperta a vontade de consumir, não é? O Futre e a Lara Stone que o digam. Os anúncios que se seguem mostram até onde pode ir a potência e a gulodice. Um foi proibido e o outro, estranhamente, não.


Aquilo da Jaquina (que poderão ler no post a seguir) deixou-me um bocado KO. Depois de ter escrito sobre isso, incapaz de continuar a escrever, sentei-me um bocado no sofá a ver a Quadratura do Círculo. Mas, de abananada que ainda estava, adormeci instantaneamente. Acordei agora mas, confesso, ainda estou um bocado pedrada. Não ouvi nada do que eles disseram. Ou melhor, agora que estou a despertar, lembro-me que ainda ouvi o Pacheco Pereira a dizer que acha que o Ricardo Salgado deveria desatar a falar, a desbocar-se: submarinos, dinheiros em Angola, compra de material militar, financiamento de partidos.

Havia de ser giro... Fartava-me de rir.

Bem. Enquanto acordo e não acordo e enquanto vejo se me aguento aqui sentada ao computador ou se vou já direitinha para a cama, mostro dois vídeos completamente parvos.

Leio que o primeiro, o que contém um anúncio em que entra o Futre, foi banido. Não sei porquê.


Leio no youtube, junto ao vídeo que a TV não quis passar, que, com Libidium Fast, Paulo Futre mostra a sua técnica e talento. Os benefícios do produto estão à vista.


Libidium Fast - um produto Bliss Natura


Libidium Fast é um estimulante sexual masculino, com produtos naturais, que aumentam a potência sexual masculina, ou seja, segundo leio no site, um Viagra em versão naturalista


O que me espanta é o que leio a dado ponto:

Advertências e precauções ​

Não se recomenda a toma deste suplemento em caso de gravidez ou aleitamento, salvo indicação médica


Caraças! Então mas se isto é para dar espevitar a virilidade, que raio de conversa é esta da gravidez e do aleitamento? 

Mas isto é capaz de ser o sono com que estou que não me deixa perceber tudo à primeira. Às tantas, amanhã quando estiver acordada, percebo logo.




Não sei porque é que proibiram isto. Será publicidade enganosa? Quem tomar um comprimido destes não consegue fazer as mesmas habilidades que o Futre?

Como não estou grávida ou a amamentar, será que, se tomar, desato a dar toques na bola só com a força mental que se elevará do meu baixo ventre? Capaz de ainda experimentar. Ou melhor, não. Sabe-se lá se isto me dá para ficar barbuda.

Será que a Cátia Palhinha ainda está no programa da SIC? Era moça para se meter a experimentar isto sem pestanejar. 

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Do mesmo tipo é o novo anúncio Stella McCartney para o perfume STELLA. Filmada pela dupla Mert e Marcus, fotógrafos que são visita frequente no Um Jeito Manso, Lara Stone aqui insinua o que pode fazer com um frasco de bom tamanho.


Este anúncio é que me parece que devia ser proibido. Perigoso aquilo. Olha se a gente passa a usar os frascos de perfume daquela maneira...? Ainda nos engasgamos. E se o frasco se entorna na nossa boca? Será que não faz mal ao estômago? Ná. A mim não me apanham a lamber ou a comer a Stella.




Bonito serviço, sim senhor.

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Sobre o que aconteceu aqui em casa, um verdadeiro fenómeno surrealista (uma Jaquina voadora a atravessar a casa) podem, os meus Caros, conferir no post já a seguir a este.

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Então não é que a Joaquina fugiu...?!


O meu marido chegou a casa uns minutos antes de mim. Estava eu a chegar, toca-me o telemóvel. Era ele, a voz espantada. 'Então não é que a Joaquina fugiu...?'. Pensei que estava a delirar. Uma tartaruga do tamanho de uma moeda, num aquário em que a água está lá em baixo e com paredes que ela, de todo, não pode saltar, não pode fugir. Não pode. Fugir como?

Pois.

Entrei em casa intrigada. Revirei o aquário. Tirei as árvores de plástico, a pedra de plástico, pensei que a tartaruga se tivesse encolhido (não me perguntem como) e que apenas não a estivéssemos a ver.

Nada.

Trepar, uma tartaruga não trepa. Voar também não. Saltar? Como? Ganha balanço nas patinhas minúsculas, projecta-se...? Impossível.

Olhávamos um para o outro, intrigados.

Resolvemos que, não havendo argumentos contra factos, o melhor era partirmos para as buscas.

O aquário está em cima de um banco e o banco está na cozinha, perto do canto das máquinas. Fomos buscar lanternas, eu com uma agulha de tricot comprida e o meu marido com uma mega-broca para passarmos por baixo do frigorífico e das máquinas, deitámo-nos no chão para espreitar por debaixo de armários que são ligeiramente abertos em baixo.

Nada.

A cozinha, copa, passadas a pente fino. Nada. Tudo afastado das paredes. Nada.

Nem queria acreditar no que estava a acontecer: tínhamos deixado fugir a Joaquina...!

Pensei: terá abalado como eu lhe sugeri? Andaria em campanha com o Tozé? - Já só pensava: ah Jaquina, filha, que burra, então não viste que era a brincar...?

Alargámos as buscas à varanda. A varanda revirada, uma canseira. Nada. 

No meio das buscas, o meu marido descobriu numa estante mais umas tretas do meu filho, uns aparelhómetros quaisquer. Nem prestei atenção.

Depois a casa de banho. Ter-se-ia enfiado debaixo da banheira? O meu marido tirou o painel da frente, espreitámos, nada.

Depois já andávamos pelo quarto do meu filho. Secretária, cama, mesa de cabeceira, tudo afastado. Nada. 

O meu marido já pelo hall, sala, varanda da frente. E eu a achar que não, que devia estar na cozinha, que seria impossível a moça dar um trambolhão daquele tamanhão, atravessar a cozinha, a copa, e andar por ali - um niquinho de coisa não teria resistência e pernas para tanto.

Não. Não seria humanamente possível.

Pus-me, então, outra vez na cozinha a espreitar e a a afastar o que já estava revisto - já me sentia derrotada. Já me estava a ver a ter que ir amanhã, sem saber onde nem quando, desencantar outra tartaruga para ver se as crianças não davam pela diferença... e a deixar que a Joaquina fenecesse num canto qualquer.

O meu marido já sugeria: pergunta no blogue se algum leitor sabe se as tartarugas se aguentam fora de água, se há truque para as recuperar.

Entretanto, pus água no chão e o meu marido pôs 2 camarões, na esperança que lhe desse o cheiro a aparecesse. Nada.

Até que, quando eu já estava a perder a esperança, ouvi o meu marido exclamar: Está aqui! 

E lá estava, a grande filha da mãe! Atrás da mesa de cabeceira do quarto do meu filho. Cosida à madeira, num recanto, atrás. Eu tinha afastado, espreitado e não tinha visto. Deve ter a ver com o ângulo, ela é mínima e escura. Filha da mãe.

O meu marido pegou nela. Parecia morta. Cabeça e patas encolhidas, sem se mexer.

Pô-la dentro de água e ela nada. Outro susto. Sacana da Joaquina. Até que vimos umas bolhinhas de ar a subir pela água. Depois, começou a mexer as patas, a cabeça, devagar, aos poucos.

Em síntese: reanimou-se. A seguir demos-lhe camarões, comeu-os de seguida, já quase espevitada.

E agora que sabemos que a Joaquina é uma tartaruga voadora, já enfiámos o aquário dentro de um alguidar. alto. Penso que por cima do alguidar não vai voar, a grande filha da mãe.



E com isto demorámos imenso tempo, uma estopada de todo o tamanho. 

Já lhes contei, ao telefone. Riram-se. A sacana da Jaquina não é boa da cabeça, disse o meu filho. Não me agrada nada uma responsabilidade destas, disse-lhe eu. Ele riu-se, disse que eu estava a fazer dramas, que uma tartaruga só custa 10 euros. Mas e a Joaquina ficava a agonizar aí num canto?, perguntei. Tranquilizou-me, Então, algum dia havias de dar com o cadáver

Não leva estas coisas a sério, é o que é. E eu tão ralada que fiquei.

Sacana da Joaquina!


quinta-feira, Julho 24, 2014

Ricardo Salgado, empresas familiares e próximas sob investigação - o cerco aperta-se. De 'Donos Disto Tudo' a gente sob suspeita das piores coisas, alvos de buscas, o nome pelas ruas da amargura. Podem ainda não ser vistos como o 'Inimigo Público Nº 1' mas que deve haver muita gente a jurar-lhes pela pele, lá isso deve.


Depois de, no post abaixo, ter falado na hipótese da Albuquerque ir para Comissária Europeia e de como isso pode ser a resposta do Passos às manobras que parecem desenhar-se no bas fond do PSD, e de, mais abaixo ainda, ter falado na dança dos bolinhas, ou seja no forma e desenforma partidos, manifestos e fóruns com que a esquerda ex-caviar se continua a entreter, aqui, agora, volto ao tema quente da actualidade financeira portuguesa: o escândalo em volta do Grupo Espírito Santo.

O homem que mandava nisto tudo deve ser hoje um homem acossado. Ouve-se que na família e nos círculos mais próximos já dizem que ele é um traidor, que os tramou bem tramados. O homem antes tão poderoso é agora, segundo se ouve dizer, odiado e amargamente rejeitado. De Deus passou a Diabo.

Ninguém quer estar ligado a ele. As demissões sucedem-se nas empresas do Grupo (à data a que escrevo, já vão em 23). A família é obrigada a vender apressadamente empresas que julgavam coutada privada, e são descritos na comunicação social portuguesa, e não só, como um exemplo do que é um grupo familiar mal gerido, com manias oligárquicas, habituados a situar-se acima da lei, usando tudo à sua volta em benefício próprio, uma fraude a punir de forma exemplar.

Pior. O que soava, começa a tomar corpo: começou o cerco judicial. De há muito as suspeitas faziam caminho. Por serem quem eram, pareciam estar imunes. As notícias apareciam mas logo caíam no esquecimento. Monte Branco, branqueamento de capitais, evasões fiscais, milhões em offshores, negócios mal explicados, influências. Mas a plebe condescendia. Aos quase deuses tudo se permite. O seu poder protegia-os. Mas a protecção parece estar a esvair-se porque a coisa transbordou do pequeno rectângulo onde reinavam. Luxemburgo, Estados Unidos, Angola, Panamá: a crise já aí está, com as autoridades em acção. Veremos nos outros países. 


Hoje sabemos: já estão a ser objecto de buscas. Há um cerco sim, e é um cerco que se aperta.

Daí às detenções para averiguações é um pequeno passo.


Transcrevo do artigo de Cristina Ferreira no Público:


Ministério Público e regulador dos EUA fazem buscas a empresas do GES



O cerco começou esta semana a apertar-se à volta dos interesses do Grupo Espírito Santo (GES). O PÚBLICO apurou que os supervisores financeiros norte-americanos regressaram ao BES Miami, tudo indica para investigar operações com as subsidiárias do BES do Panamá e da Venezuela, enquanto o Ministério Público português fez buscas durante a tarde desta quarta-feira na sede do grupo, na Rua de São Bernardo, onde funciona o conselho superior que reúne os cinco ramos da família. Também visitou sociedades ligadas à família ou empresas que tiveram ou têm relações comerciais com o GES.

(...)

As autoridades nacionais deslocaram-se ainda a outras empresas não pertencentes à esfera do GES, mas que têm ou tiveram relações com veículos do grupo familiar e “visitaram” gestores com potencial conhecimento de movimentos financeiros envolvendo o grupo ou elementos da família.


Uma vergonha. 


Bem pode, na Caras, Maria Ricciardi comentar o caso BES dizendo: "Não somos um banco, somos uma família". 


Pois. A culpa não é dela. Mas o que aconteceu é que a família usou o dinheiro dos clientes para benefício da família, a família desrepeitou as regras, violou os regulamentos, não quis saber da lei.




Como sempre nestas ocasiões, ocorrem-me as mesmas perguntas: valeu a pena, Sr. Ricardo Salgado? 

Imagino eu, quanta vergonha para a senhora D. Maria João, sua mulher... Sabia ela de tudo isto? E merece ela tudo isto? 

E quanto ódio sobre si... 

Nestes momentos - em que os seguranças privados que o rodeiam (israelitas, ouço dizer) talvez não consigam evitar o pior, com a eminência parda, o seu amigo e advogado de longa data, o das mãos tentaculares, o que ajudava na intermediação de mil negócios, a pôr toda a sua ardilosa inteligência ao serviço de uma estratégia de defesa - tem tempo para pensar naqueles a quem tão severamente prejudicou? 


Pense bem: o que fez aos seus clientes? O que fez aos seus amigos? O que fez ao seu País? 

Valeu a pena?

Permita que eu responda por si: não. Não valeu a pena. Não há riqueza no mundo que valha uma consciência limpa. E a sua, Senhor Ricardo Salgado, não deve estar nada limpa.

E a todos os que se vergaram às vontades do DDT, que o bajularam, que fecharam os olhos aos indícios, às irregularidades, que fingiram que não percebiam, todos os que usufruíram de grandes ordenados, grandes prémios, oferendas e prebendas, pergunto também: valeu a pena?

Não. Não valeu a pena. O medo que sentirão agora, o cerco que sentem aproximar-se, destroem o valor de todo o luxo a que julgavam que tinham direito por terem sido ungidos com a protecção quase divina do DDT.

Não vale a pena querer ser mais do que os outros.

Mas, enfim, isto sou eu a divagar. Sou uma alma inocente. Uma lírica. 


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Relembro: sobre as tricas e as licas do PSD e sobre a dança dos bolinhas ex-BE e simpatizantes é descerem, por favor, até ao post já a seguir.

Só sei é que, com isto tudo, nem falei do meu namoradinho de adolescência. Mas paciência.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta feira.


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Ana Drago, Daniel Oliveira e pareceu-me que também Ricardo Paes Mamede chegam-se à frente e dizem que é preciso unir a esquerda e que, por isso, bora lá formar mais um Partido...? É isso? Percebi bem? E, se bem percebi, vão formar este Fórum, ou Manifesto ou Partido ou lá o que é e depois juntam-se ao Livre e, de braço dado, vão bater à porta do PS? Ou percebi mal? É que, se é isso, não seria mais fácil irem inscrever-se no PS? Ó esquerdinha mais destrambelhada sem qualquer tino na cabeça...


No post abaixo já falei das notícias da imprensa de mão, que dão conta de que o Coelho não se importa de deixar ir a Albuquerque para a Comissão Europeia. E não disse mas dei a entender: cantam bem mas não me embalam.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.



O barco vai de saída



(Fausto, no seu melhor)

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A direita é mais bronca, inculta, gentinha incompetente, pequenos conservadores ultramontanos, pacóvios e provincianos, tementes em relação à cultura e ao conhecimento. Dói só de a gente saber as burrices que dizem e fazem. 

Quando tomam conta da quinta, fazem leis que não lembram ao diabo, destratam quem podem, avacalham o que os rodeia, destroem tudo à sua passagem. Sem pruridos ou remorsos.

Ana Drago é inteligente, tem o verbo fácil, é fotogénica.

Mas... so what...? De concreto, o quê?

Os inteligentes de esquerda vêem isso e sentem genuína repulsa. Têm angústias literárias, exaltações quase místicas, epifanias criativas e, de todas as formas possíveis e imaginárias, parodiam, insultam, desprezam os mentecaptos dos direitolas.

Depois, cada um de per se quer parir a tirada mais iluminada, quer citar o intelectual mais cosmopolita, quer obter o reconhecimento deslumbrado dos seus pares, de facto, quer ser primus inter pares.

E, nessa ânsia narcísica, em que os princípios se querem os mais puros, as intenções as mais nobres, o despojamento o mais onírico, começam as divisões.

Enquanto a direita se une, a esquerda divide-se.

Portugal pode estar a ruir, as contas desequilibradas, a dívida a subir para níveis estratosféricos, os juros da dívida a sugarem toda a magra seiva que a frágil economia consegue produzir, podem os desempregados estar a deixar de receber subsídio e os excluídos a deixar de receber o subsídio de inserção, pode o país estar a tornar-se um país onde as desigualdades mais se cavam, e podem os professores ser humilhados e tratados como cães sem dono, e os cientistas ser desprezados como parasitas, podem os jovens sair em debandada, reproduzindo-se longe deste país pobre e envelhecido... que a esquerda continua a agir autisticamente, numa lógica que é essencialmente de estética política. 

Um por aí anda a tocar ferrinhos e a apelar à desunião dentro do próprio partido, outros a repetirem, no mesmo tom de voz, os mesmos slogans de há dezenas de anos que já ninguém escuta, e os da esquerda que se quereria arejada e moderna a brincarem aos partidinhos, juntando-se e desajuntando-se. Um filme que seria de risota se não tivesse a consequência de deixar o caminho livre à destruição que vem sendo levada a cabo - sem oposição.

Acho Ana Drago, Daniel Oliveira, Ricardo Paes Mamede ou Rui Tavares gente inteligente. E João Semedo ou Catarina Martins também. Ou Francisco Louçã, também. Inteligentes e boa gente.


Quantas vezes já vimos estas pessoas a formarem manifestos, partidos, tendências?

Falam, falam, falam... e não fazem nada...


Mas, lá está, falta-lhes qualquer coisa. Falta-lhes um suplemento de quelque chose. Falta-lhes uma cola agregadora. Falta-lhes alegria e força intrínsecas. Miguel Portas tinha tudo isso e tinha, ainda por cima, carradas de charme. Ora nenhum destes tem isso porque isso não se herda, isso ou está nos genes ou, azarinho, não está.

Se ainda não perceberam que, para além de tudo o que é genético e de todos os puros ideais, têm que ter os pés assentes na terra, têm que ter um mínimo de pragmatismo e que, se querem chegar-se ao poder e aliar-se ao PS, então devem ter sentido prático e, de facto, juntarem-se ao PS - ou, então, vão andar o resto a vida a fragmentar os partidos por onde passam, depois a formar outros, depois a provocar cisões, depois a voltarem a juntar-se noutros, uma brincadeira inconsequente e ridícula. 

Fazem-me lembrar as bolinhas de mercúrio quando se partia um termómetro do antigamente. Têm muita pressa de fazer qualquer coisa, juntam-se a outras bolinhas, depois as bolinhas dividem-se em duas e depois voltam a juntar-se a outras bolinhas; mas tanta dança de bolinhas não passa disso mesmo: de uma dança de bolinhas.


Pressa. Muita pressa. Foi neste ritmo que Daniel Oliveira abriu esta quarta-feira ao final da tarde a sessão organizada pela Fórum Manifesto para “Uma governação decente”. Do lado oposto da mesa, mas em sintonia perfeita, na pertença à associação política, mas também na escolha dos verbos e adjectivos, estava Ana Drago, igualmente ex-dirigente do BE.

(...)

Duas certezas para já: vai nascer uma plataforma política e eleitoral que se baterá por ir a votos já nas legislativas de 2015. E que entende que é “suicidário” excluir o PS. Um partido? Aderem ao Livre? “Vamos ver como é possível organizar esse esforço. É muito cedo para ver a forma institucional”, disse Ana Drago.


Por um lado dizem que têm pressa mas, ao mesmo tempo, que ainda é cedo. Em que ficamos? Em lado nenhum, claro.

Há pouco ouvi o Rui Tavares na televisão. A mesma lenga-lenga intelectualizada, bem articulada. Mas, senhores, falta-lhes garra, sentido prático, experiência de vida, capacidade para deitarem mãos ao trabalho.

Se nem conseguem unir-se entre eles, meia dúzia de gatos pingados, como pensam conseguir algum dia mobilizar um país? 

Sabem o que me ocorre perante tudo isto? Que, por este caminho, e se, ainda por cima, os amigos do Seguro o conseguirem aguentar lá, o Passos Coelho e o vice-irrevogável Portas nem precisam de se ralar com as próximas eleições. Têm, de facto, muita sorte: governam um país manso e ainda por cima têm passarinhos destes na oposição... 

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E, a propósito do Passos, queiram, por favor, descer até ao post seguinte.

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Este Passos Coelho pode não ser um Einstein ou um Wittgenstein mas que tem um instinto de sobrevivência de se lhe tirar o chapéu, lá isso tem. Com medo que ela lhe faça sombra, agora quer despachar a Maria Luís Albuquerque para Bruxelas...?



passos coelho quer ver-se livre da Mª Luís albuquerque
Albuquerque - de útil a incómoda...?
Ou o aluno que se torna chefe da professora
mas que continua a pelar-se de medo dela...?


Ouve-se por aí, na rádio alcatifa, que a Albuquerque seria uma alternativa ao Passos na presidência do PSD, que ele já era, que o melhor é tirarem-no de lá antes das eleições e que a Albuquerca tem boa imagem, que tem um sorriso empático, que nunca se desconcerta e etc e tal. E dizem que ela é ambiciosa, que não se ensaiaria nada de passar a perna ao ex-aluno, e que tem ambições e que é um perigo e que, com aquela carinha de sonsa, cuidado com ela.


E que alguns barões, caciques e gente de outras categorias sociais começam a ficar ansiosos, que com eleições em Abril e com o Costa no PS, seria uma enxovalhadela para o PSD sem paralelo e que isto e aquilo e que é preciso começar a preparar as coisas.

Diz-se que o cão com pulgas não faz outra coisa que não andar a cheirar os rabos de uns e outros a ver se detecta afinidades electivas (electivas de eleições, se é que me entendem) e que anda a lançar nomes, entre eles o dela, a ver se pega. E isto, aquilo e o outro.

Ora se as ondas da rádio alcatifa têm chegado até mim, mais depressa terão chegado ao Passos.

Pois bem, leio agora que o Passos não se importa de a libertar se Maria Luís Albuquerque for para um bom lugar em Bruxelas, se o lugar de comissária for dos bons. Não se importa...? Mas quem é que a quer levar...? Leio e soa-me mesmo a conversa fiada. Dá ideia é que está a querer despachá-la para onde não lhe faça sombra.


Ou, então - como a coisa não está a correr bem, o défice a não dar tréguas, os impostos já a rebentarem pelas costuras mais e que, mesmo assim não dão para tapar os juros da dívida que upa upa - quer ver-se livre dela a ver se arranja outro menos sorrisinhos larocas, menos mediático, uma coisa tipo moedas ou nessa base?

Alguma é.


Bem me dizia um grande amigo meu a propósito de fulanos que a gente acha que são burros e que, afinal, se aguentam como uns sempre-em-pés e que, até, sobem até onde nunca pareceria possível: 'É gente que põe toda a esperteza que tem ao serviço da sua própria sobrevivência'. 

Pois.


quarta-feira, Julho 23, 2014

O despertar da minha sexualidade, à mistura com história e geografia


No post abaixo já falei dos amigos que começam a cercar-se para ajudar a salvar o BES. Esqueci-me de falar do BESA mas isso é outro filme. Centrei-me nos amigos alemães que aí estão uma vez mais e também no Goldman Sachs, debicando aqui e ali, e ainda nos fundos, e em todos quantos farejam a carniça, a desgraça, o estado de absoluta carência.

Mas isso é a seguir. 

Aqui, agora, a conversa é outra.

Como é óbvio não me interessa nada que o Santana Lopes esteja a perfilar-se para Presidente da República ou que o António José Seguro ande numa campanha alegre a ver se consegue realizar o sonho da vida dele ou que o Marques Mendes todos os sábados se arme em comadre boa do cavaquismo ou até mesmo que o Passos Láparo ande a escrever cartinhas ao Aníbal Silva a mandá-lo fazer coisas como se estivesse  a dar instruções a um lombinha qualquer. São coisas que não mexem comigo, digamos assim. Tenho mais que fazer. Até lá não me doa a cabeça. Cantam muito mas não me alegram. Rebéubéu, pardais ao ninho. 


Poderia, é claro, falar da prepotência de um ministro sinistro como uma cobra venenosa que tudo faz para humilhar os professores que estão a caminho do desemprego ou para destruir toda a comunidade científica portuguesa. Mas isso requereria que eu tivesse um estômago mais resistente do que o meu. Falar do Nuno Crato ou falar da violência com que ele ataca os que sabem mais do que ele ou que querem aprofundar o conhecimento, revolve-me o estômago, revolta-me, repugna-me.


Portanto, adiante.

Agora, pensando nos professores e em quanto marcam a nossa vida, e talvez porque me apetece estar noutra, numa onda revivalista, vintage, coisa assim, deixem-me então retroceder no tempo.






Eu tinha uma professora de geografia que, aos meus olhos, devia ter perto de cem anos. Pensando hoje no assunto, admito que não tivesse tantos mas muitos teria certamente. Pequenina, direitinha, vestida como uma pequena boneca antiga, cabelinho branco pela nuca, vestidinhos com golinhas de renda, chapelinhos com redes ou rendinhas. Toda ela era uma gracinha. Parecia saída de um filme antigo ou de um postal de outros tempos. Falava baixinho, voz de velhinha querida. Na altura, os professores usavam cadernetas onde lançavam as notas, as faltas e outras observações. Ela, boazinha como era, em vez de punir, agraciava: dava estrelinhas aos alunos bem comportados. Era uma doçura. 

Mas, claro, era também uma vítima. Para os rapazes, as aulas de geografia eram uma paródia. Faziam toda a espécie de tropelias de que ela, bastante surda, nem se apercebia. Depois, se calhava ela olhar na direcção deles, disfarçavam, sorriam-lhe, diziam coisas queridas e ela presenteava-os com estrelinhas. O rapaz por quem eu estava loucamente apaixonada na altura, um dos piores em comportamento, claro está, era useiro e vezeiro em trocar-lhe as voltas. Tal como eu, ela também o adorava. Acho que ele deve ter ganho o máximo de estrelinhas.

Não me lembro do nome dessa professora e fico aborrecida por isso.

Nunca fui de decorar ou de me pôr a estudar concentradamente. Geralmente, o conhecimento era adquirido a partir do que aprendia nas aulas, do que lia nos livros, do que apanhava do ar. Ora, como daquelas aulas pouco se apanhava já que, com a vozinha baixa que ela tinha, apenas os que estavam junto a ela a conseguiam ouvir e já que a minha atenção era mais estimulada pelas aventuras que se passavam nas costas dela do que pela matéria em si, nunca soube muito de geografia. Mesmo depois, por mim, nunca foi assunto que me despertasse demasiado a atenção. Os países e respectivas fronteiras é assunto demasiado aleatório e mutável para eu querer fixar. Bandeiras, então é mentira. Conheço a de Portugal e pouco mais. Depois a questão orográfica, a fauna, a flora, isso assim, já me interessa um pouco mais mas de forma bastante relativa. Li um livro interessante do Professor Orlando Ribeiro e disso gostava. Mas sou geograficamente ignorante.

Outra pecha no meu conhecimento, e essa também grave, tem a ver com história. As razões são basicamente as mesmas.

A nossa turma era uma turma piloto. Inaugurámos, a título experimental, as turmas mistas. Juntaram os melhores alunos de cada ano anterior independentemente de serem rapazes ou raparigas. Por isso, porque naquela altura, não sei porquê, os rapazes tinham melhores notas, a turma tinha para aí uns 20 rapazes e umas 10 raparigas. Uma alegria para mim. Na turma havia uma predominância de meninos e meninas família o que, em certa medida, era sinónimo de rebeldias e maus comportamentos. Claro que nada que se comparasse com o que vim, anos depois, a encontrar quando fui professora que, aí, já era falta de respeito, falta de educação, baderna, insubordinação. Não, naquela altura, eram maus comportamentos mas com boa educação. Filhos de médicos, de industriais, de comandantes de marinha, de presidente de câmara, de presidentes de institutos, eram em grande número. Muitas vezes os desacatos sobrevinham de encararem e discutirem com os professores de igual para igual, coisa que, na altura, os professores não aceitavam.

Mas havia os casos mais bicudos. Esse meu namoradinho era dos piores. Aí as coisas eram mais graves. Lembro-me que entrava pela janela da chamada sala de ponto, roubava os enunciados dos ‘pontos’, copiava-os, distribuía-os. Ou pregava partidas aos professores ou desafiava-os. Por vezes era ameaçado de ser suspenso e foi várias vezes publicamente repreendido.

Tínhamos uma professora de História que era uma chata insuportável. Obrigava-nos a decorar o livro e assinalava como mal ou incompleta se a resposta não estivesse tal e qual as frases do compêndio escolar. Uma vez, num desses dias de teste, ouvi-a dar um grito: ‘Mas o que é isto?!?’. Não sabia de que se tratava. Então ouvi a voz dele lá atrás (estava sempre na última fila), muito calmo, ‘É o livro’. E ela ‘Que é o livro estou eu a ver. Mas o que é que o livro está a fazer aberto em cima da secretária??. E ele, calmo, desafiador, ‘Estou a copiar que é para não me faltar nenhuma vírgula’. Eu encolhia-me quando coisas destas se passavam, cheia de medo por ele, pelo que se ia passar a seguir. ‘Vais ter 0’. E ele, calmo, com a folha na mão, a levantar-se e a sair. E ela, outro grito, ‘Onde é que pensas que vais?’. E ele, rebelde, atrevido, ‘Vou sair. Se me impede de fazer o ponto, não estou aqui a fazer nada’. E ela, já mais a medo, a voz trémula ‘Senta-te e vê se acabas o ponto mas vou ficar com o livro’. E ele, gingão, malandreco, de novo a caminho do lugar, a dar-lhe o livro ‘Faça favor’. My hero.

A partir daí a professora passou a ser uma vítima. Na altura, usava uns vestidos de malha, justos ao corpo. Sempre que ele se lembrava, antes dela chegar, soprava uma camada de giz na cadeira onde ela se ia sentar. Ela escrevia o sumário no livro de ponto sentada e depois dava a aula a andar entre nós. E era para mim quase insuportável aguentar o riso ao ver que ela andava com duas bolas brancas na parte de trás do vestido, no que correspondia às nádegas. E a coisa ficava ainda mais caricata quanto ela era tudo menos sexy.

Eu ficava ainda mais perdida de amores por ele com estas coisas. Era ainda mais my hero. Apesar de tudo isto, era um dos melhores alunos da turma, uma inteligência fulgurante apesar de negligente. Mas a negligência dele tornava-o ainda mais sedutor.

Isso e um dente da frente partido. Uma vez, no verão, estávamos a passar o dia na casa de férias de uma amiga nossa. Para se armar em campeão, ele fazia peões de bicicleta, no ar, descia grandes ladeiras na bicicleta, sem mãos, depois, na areia, fazia travagens malucas que o faziam rodopiar. Era ele e outro a verem quem fazia mais disparates. Eu sempre derretida mas a adivinhar que aquilo ainda ia dar para o torto. Claro que deu mas, menos mal, a coisa ficou-se por um incisivo de cima, ali bem à frente, partido em diagonal. A boca inchada, sangue, e todo esfolado, de alto a baixo, braços, pernas. My hero. O que eu apreciei aquela bravura. Depois curou-se mas aquela falha no dente ficou e dava-lhe um toque de malícia que me deixava ainda mais enfeitiçada. 

Tinha uma letra horrível, mal se percebia.

O professor de matemática, um sujeito nervoso, passava-se com ele. Não percebia nada daquela letra. Uma vez, sentado à secretária (e, naquela altura, a secretária dos professores estava num estrado elevado) fazia a chamada e entregava os testes classificados. Quando chegou a vez dele, atirou-lhe o teste e disse ‘Esperteza saloia. Se essa letra ilegível é para ver se eu não percebo nada e marco como certo, estás muito enganado, o que não percebi marquei como estando mal’. Ele não fez esforço para apanhar o teste que tinha sido atirado e o teste foi parar ao chão, no estrado. Nestas alturas eu ficava assustada. Mas o meu amor, com aquela calma desafiadora tão típica nele, sorriu, deu meia volta e foi sentar-se no seu lugar. O professor deu-lhe um grito ‘Volta atrás e apanha o teste’. Ele sorriu e disse, ‘Eu não o apanho. Fico à espera que mo dê à mão’. O professor ficou branco. Fez a entrega dos testes que faltavam e depois ficou em silêncio. Um nervosismo terrível tomou conta do ambiente. De vez em quando o professor dizia ‘Não sai ninguém desta sala enquanto não vieres apanhar o teste’. Ele apenas sorria, calmo, desafiador. Quando tocou, o professor gritou, ‘Não sai ninguém!’.

Lembro-me do professor da aula seguinte assomar à porta. Lembro-me de eu própria querer ir apanhar o teste e do professor não me ter deixado. Mas não me lembro do desfecho. Provavelmente o professor saíu com o teste ainda no chão. Provavelmente o meu namorado recusou-se a pegar nele. Não me lembro.

Jogava muito bem futebol mas era de rastilho de curto. Volta e meia pegava-se à pancada com o arqui-rival, um outro tão betinho quanto ele mas da linha bem comportada. Na verdade, quando ganharam consciência cívica, o meu namorado tornou-se (des)alinhado com a esquerda revolucionária, a tender para o anarca e o outro virou de direita, CDS puro, que, na altura, era até quase heresia ser-se do CDS, tão à direita parecia ser.  Pegaram-se muitas vezes por minha causa mas eu, apesar dos problemas em que o meu bem amado se via constantemente metido, sempre o defendi e amei apaixonadamente enquanto sempre desprezei o outro, tão arrogante e que, quando queria parecer mal comportado, não tinha graça nenhuma. Veio a desempenhar um cargo público, claro. O meu bem amado ficou anónimo e presumo que continue a ser mal comportado.

Dos três eu era a que sabia menos geografia e menos história. Sempre foram os meus pontos fracos e uns dos pontos altos deles. Aliás um seguido a área do que hoje se designa por humanidades. Mas o meu bem amado, que também brilhava na física, seguiu o ramo das ciências.

Era irreverente e um caso bicudo de mau comportamento (o apogeu foi ter pernoitado na esquadra) mas a forma meiga e sensual como, com a ponta dos dedos, afastava lentamente o meu longo e pesado cabelo das costas para encostar os seus lábios a ferver ao meu pescoço, ainda hoje está bem presente na minha memória. Com ele percebi que o meu corpo tinha vida própria e no corpo dele senti, pela primeira vez, o efeito que o meu corpo poderia produzir num outro corpo. Eu era uma menina bem disposta e ele um puto rebelde e juntos descobrimos a nossa sexualidade.

Não tem conta as vezes em que, ao som do Bridge over troubled water interpretada pela dupla Simon and Garfunkel, dancei agarrada a ele, bem agarradinha, ele bem abraçado a mim, rosto contra rosto, ou eu com a cabeça encostada ao seu peito ou ele a arrepiar-me, beijando-me o pescoço. Tardes inteiras agarrados, no maior mel, inseparáveis.




Ou a conversarmos, cúmplices, amigos, de mãos dadas.


Começou aos 12 anos este amor, no dia em que, antes de uma aula ter início, a turma inteira se juntou, surpreendida, em volta da carteira dele. As carteiras eram de madeira e ele estava na última fila. Tão mal se portava que era posto de castigo no fim da sala e ali acabava por ficar. Nesse dia alguém descobriu que ele, com um canivete, tinha escavado o tampo da carteira. De ponta a ponta, em letras de forma de tamanho garrafal, gravou o meu nome e, por baixo, gravou I LOVE YOU. Eu nem queria acreditar. Olhei timidamente para ele, surpreendida. E, instantaneamente, apaixonei-me por ele. Claro que já andava encantada. Durante todas as aulas, lá de trás, ele atirava-me bolinhas de papel através de uma caneta a que tinha tirado a carga e por onde soprava. E fazia coisas como as que descrevi antes e que me faziam admirá-lo para além da conta. Aquela declaração de amor gravada na madeira foi apenas a gota de água.

O nosso amor durou até aos nossos 16 anos, altura em que, por sermos ambos temperamentais e orgulhosos, nos zangámos para nunca mais. Já contei isso. Amanhã, se estiver para aí virada, conto mais coisas.


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Relembro: sobre o BES e sobre os abutres que começam a chegar-se falo no post a seguir. E, ao mesmo tempo que escrevo, faço figas para que tudo dê certo. Tomara. Tomara. De caminho, mostro um vídeo de curta duração no qual dá para se perceber de que forma a Goldman Sachs e os mercados em geral mandam no mundo.

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Perdida, perdida de sono, e incapaz de passar os olhos pelo que acabei de escrever, despeço-me por agora. 

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira e, não nos esqueçamos, quarta feira passada, semana dobrada.

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BES afunda-se em prejuízos, as acções a preço de uva mijona - e, no entanto, há os que estão sempre aí, nos maus momentos, para saírem ganhadores. O Deutsche Bank foi contratado como conselheiro financeiro e o Goldman Sachs adquiriu uma fatia de 2,27% do capital social do BES. Identicamente, a gestora de fundos Desco LP comprou 2,71% do capital social do BES. Na terminologia de Passos Coelho só posso dizer que estes não são piegas. Piegas são os que ficarem desempregados, os que perderem economias, casas, os que se virem forçados a emigrar. Os derrotados do costume.



Quando este filme de terror se começou a desenhar em toda a sua verdadeira dimensão, antevi aqui: muita coisa ia ser vendida e o mais depressa possível, ou seja, de qualquer maneira, a quem quer que aparecesse com dinheiro na mão. Hotéis, hospitais, agências de viagem, bocados de banco - tudo o que ainda possa valer alguma coisa. Mais: nestas alturas há sempre abutres a pairar por perto; desvalorizam os activos, rondam, não descansam enquanto a carniça não lhe vai parar ao bico a preço de osso.

Não sou vidente nem especialmente inteligente. Simplesmente é isto que sempre acontece quando o capital está entregue a seitas que agem na penumbra, embora dentro da lei - ou melhor: nos interstícios da lei - quando o seu poder se ramificou por todo o tecido económico, quando agem desreguladamente.

As carcaças são abandonadas quando já não têm músculo nem valor. É, então, chegada a hora dos abutres.

Não demoraram.

Começam a pousar e são os mesmos de sempre. Os que ganham sempre. Os que sabem como ganhar. Os que seguram as pontas das cordas do poder, os que mandam no mundo.




Goldman Sachs, Deutsche Bank, fundos americanos ou apátridas, gente sem rosto, sem moral, acima da lei - a gente do dinheiro. Os mercados.



Money, money, money





Não o digo com surpresa nem, sequer, indignação. É este o mundo devastado que temos vindo paulatinamente a construir. Ou melhor, a destruir. Em todos os lugares onde os líderes desapareceram e a população se deixou manipular e aceitou ser governada por gente sem inteligência, sem moral, ou qualquer sentido de humanidade, acontece isto. São territórios que passam a ser o pasto onde as hienas, abutres, necrófagos de toda a espécie vêm buscar os despojos.

Vêm para ajudar, dirão. Talvez. Em momentos como estes forço-me a ser indulgente.

Senão daria em doida de tão revoltada que fico.



O alemão Deutsche Bank foi a instituição escolhida pelo Banco Espírito Santo BES para conselheiro financeiro, informou esta terça-feira, 22 de Julho, o banco liderado por Vítor Bento, num comunicado emitido à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).


"O BES informa que a sua Comissão Executiva contratou o Deutsche Bank como conselheiro financeiro para avaliar a potencial optimização da estrutura do seu balanço", lê-se no comunicado de duas linhas divulgado esta tarde pelo banco.

O banco anunciou ontem, 21 de Julho, que iria contratar uma instituição financeira internacional como seu conselheiro especializado para "auxiliar o BES a avaliar as oportunidades de melhorar a estrutura do seu balanço, com vista à sua optimização".



Em duas notas enviadas à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), o BES revelou ter sido notificado da duas novas participações qualificadas na sua estrutura accionista. 


O Goldman Sachs e a Desco passaram a deter uma fatia superior a 2% do capital social do banco agora liderado por Vítor Bento.




De acordo com a comunicação feita pelo BES à CMVM, o Goldman Sachs adquiriu no passado dia 15 de Julho um total de mais de 127,6 milhões de acções do banco, o que consubstancia uma fatia de 2,27% do capital social do banco português, conferindo então uma participação qualificada à instituição financeira norte-americana.

Numa outra nota enviada ao final desta tarde ao regulador, o BES informa que no dia 21 de Julho a gestora de fundos Desco LP, uma empresa detida na totalidade pelo também norte-americano David E. Shaw, comprou mais de 152,5 milhões de acções, representativas de 2,71% do capital social do banco português.



Um dia destes a Desco sai e entram outros - dinheiro sem rosto que vive na transumância da desgraça. Onde lhes cheira a falências, a grandes aflições, aí estão eles. Enquanto uns vão ao tapete, outros aproveitam para especular, para forçar uma derrota ainda maior para depois venderem e ficarem a ganhar. Simples.

Problema dos pedantes da família Espírito Santo, dirão os mais precipitados sempre prontos a pensar que, com a desgraça dos outros, podem eles bem.

Errado. Os derrotados não são eles, os derrotados somos nós:
  • Os trabalhadores das empresas do GES que se verão com outros donos que reestruturarão as empresas, delas querendo 'extrair valor' custe o que custar, 
  • e os que, infelizmente, serão despedidos. 
  • E os que tinham acções do BES ou da PT e que agora se vêem com muito menos valor do que lá investiram.
  • E os que trabalham nas empresas clientes do BES que, de repente, se vão ver aflitas sem poder movimentar as verbas que tinham aplicadas em títulos que julgavam sólidos. 
  • E os outros bancos que terão que assumir novas imparidades e que terão que fazer novos aumentos de capital (aumentos de capital estes que, no fundo, representam dinheiro que sai da economia para ir tentar buracos resultantes de dinheiro que desapareceu não se sabe para onde - talvez para offshores, talvez para contas de familiares e amigos, talvez para corromper sabe-se lá quem, talvez para comprar propriedades e barcos em nomes de empresas sedeadas também em offshores).

Ou seja, os que perdem estão à partida sempre identificados: a grande maioria dos portugueses, os que pouco têm, os que são sempre acusados de tudo, de preguiçosos, de gastadores, de folgados (Augusto Santos Silva referiu-o e muito bem na TVI 24).


Os que ganham são os que sempre ganham: os fundos apátridas, o capital sem rosto, os grandes bancos, os grandes especuladores. E os grandes escritórios de advogados, claro.




Pelo meio há os idiotas úteis, os papagaios, os bobos da corte, os capachos, os traidores, os vendidos, os palermas, os que masoquistas - os que facilitam a vida aos algozes e que, sobre a destruição, tecem teorias, descobrem culpas que merecem punição, ajudam a vergar a resistência dos vencidos.


E, no entanto, apesar de tudo isto, de todo o jogo invisível, de todas as injustiças, de todas as rendições a que vamos sendo sujeitos, o que desejo, mas desejo mesmo, é que esta crise seja superada, que o BES se consiga salvar sem prejuízo para os clientes, com o mínimo de danos para a economia portuguesa.


. & .

Abro um parêntesis para dizer uma coisa: nem todos os membros da família Espírito Santo são culpados pelo que se passou, nem todos devem ser olhados precipitadamente com desprezo ou rancor. Haverá, por exemplo, muitos jovens que, habituados a uma vida de fartura, se verão agora rodeados de familiares assustados; miúdos que não percebem bem o que lhes aconteceu e que se sentirão envergonhados ou que serão tratados como ladrões ou vulgares falsários sem que tenham de alguma forma contribuído para esta hecatombe. Quem lide de perto com pessoas da família, deverá dosear a sua indignação consoante as pessoas que tenha pela frente. Pelo menos é o que eu acho.


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Goldman Sachs rules the world - Trader Interview BBC



The BBC presenters were speechless when an independent trader admitted that stock market crashes are planned and that Goldman Sachs controls the banking world.


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A música lá em cima, Money (Money Makes the World Go Round), pertence ao Casino, aqui na interpretação de Alan Cummings.

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terça-feira, Julho 22, 2014

Limpezas in heaven em tempo de trabalho - uma coisa a fazer de conta, a bem dizer


Ora, então, comecemos pelo resumo dos posts anteriores.

A seguir a este, temos anedotas sobre advogados, essa raça de gente mais perigosa, credo.

Mais abaixo ainda, mostro uma quase selfie da Joaquina depois de o meu marido ter tratado da sua higiene. Resolvi que vou ensiná-la a tocar ferrinhos para fazer uma surpresa à família. Quando regressarem dos banhos, nem vão acreditar quando a virem, toda gaiteira. Para a ensinar, vou usar como guru o fofinho do selfie Tozé, mostrando-lhe o vídeo desse grande líder da classe operária e das cassetes piratas em plena actuação pelas terras de Portugal.
Eu, se fosse o Eurico Brilhante ou os outros da entourage do Tozé (quem são?), haveria de tentar para o grande chefe uma coisa ainda mais arrojada. Por exemplo, contratava a Joana Vasconcelos e encomendava-lhe uma obra de arte que o Tozé pudesse vestir quando anda em digressão. Um fato de galo de Barcelos, por exemplo. Feito de pegas. Já estou a vê-lo, todo contente, biquinho afiado, todo colorido, a tocar ferrinhos e a ver se caça mais um votinho. Fofinho.

Bem, mas isto é a seguir. Agora, aqui, a conversa é outra.







Os assuntos que estão em fila de espera na minha cabeça amontoam-se porque eu sou só uma. Alguns acabam desistindo, outros pacientam até que as agruras diárias deixem uma aberta para que eles metam o pé e acabem forçando a entrada. Tenho pena de não poder atendê-los bem a todos. Se eu conseguisse escrever a quatro mãos, desafogava. Assim fazem enchente e, como não tiram senha, eu, que não quero ferir susceptibilidades, não sei por que ordem ir dando vazão.

Por exemplo, tenho na caixa de correio alguns artigos ou anedotas que alguns Leitores, generosos, me vão enviando. Mas gosto de os tratar, embelezar ou, quando são assuntos sérios, gosto de os perceber, de cruzar informação. Mas escasseia-me o tempo e os assuntos vão-se juntando. Depois há os  que nascem da actualidade, estou a ver as notícias enquanto janto e lá me aparece um tema que atropela os outros, salta por cima, vem plantar-se-me na ponta dos dedos. E alguns dos outros, depois, perdem razão de ser.

É o caso. Tenho aqui uma mente mas não sei se faz sentido. Quem me vai ler a uma terça feira, quer lá saber do que eu fiz no domingo... É assunto já de si irrelevante e se, ainda por cima, já for velho, interessa a quem?

Estava in heaven no domingo a fazer a faxina doméstica e, ao mesmo tempo a fazer a reportagem fotográfica, pensando depois falar nisso..

Quando estou no fresco do gabinete, a tratar de assuntos sem graça, não me ocorre mostrar-vos as paredes onde óleos verdadeiros as embelezam ou as paredes de vidro por onde a luz entra sem que o calor do sol me incomode. Tudo me parece inenarrável. Talvez tivesse interesse a quantidade incrível de pessoas que encontro nos grandes elevadores que andam em permanência para baixo e para cima sem que eu antes alguma vez as tivesse visto. Agora, já aparecem as que vieram de férias, mulheres esculturais bronzeadas e vestidas como se fossem para cocktails em Embaixadas ou cavalheiros tisnados e elegantes como se fizesse parte de um filme da Dolce and Gabanna. Ou outras, parecidas, perfumadas da mesma maneira, vestidas também quase da mesma maneira mas numa gama mais baixa (talvez queiram imitar as primeiras) ou homens conversadores e divertidos que falam sobre assuntos incompreensíveis.
Eu poderia pedir autorização para filmar esta curiosa gente que habita o grande edifício onde trabalho e teria, com certeza, a partir daí roteiros para muitas histórias.
Mas, tirando isso, os assuntos são muito específicos ou muito atilados para aqui me referir a eles. Há também o sigilo, claro, mas isso obviamente, está fora de questão pois jamais falaria aqui de assuntos profissionais particulares.
Em família também raramente falo de trabalho. Quanto muito, falo de assuntos de pessoas que lá trabalham. Não acho graça a falar de trabalho nem acho que isso interesse a ninguém tirando aos que lá trabalham comigo. Acho que a grande maioria das pessoas da minha família e amigos não sabe exactamente o que faço. Sabem a designação do meu cargo mas não como lá ocupo o meu tempo.
Contudo, gosto de falar de outras actividades que desenvolvo. Por exemplo, não me importo nada de falar de culinária, arrumações de livros ou limpezas.

Dizia eu, portanto que, no domingo, tinha a ideia de falar das limpezas mas, depois, meteu-se o artigo do Pde. Tolentino Mendonça sobre a carta da Rosa Luxemburgo e, quando acabei, apeteceu-me escrever o outro sobre eu ter nascido sem asas.

A propósito, quando estávamos esta segunda feira à espera para almoçar, perguntei ao meu marido se tinha lido. Respondeu-me: ‘Uma maluquice’. Perguntei de qual é que ele estava a falar já que tinha escrito dois posts. Respondeu ‘De teres nascido sem asas. Está muita gente aqui e eu não me posso demorar’. Interpelei-o, claro está: ‘Pergunto-te se gostaste do que escrevi e despachas o assunto em grande velocidade, mudas logo para outra coisa’. Respondeu-me: ‘Mas claro. Se é uma maluquice, mudo de assunto e faço de conta que não é nada. Ia agora pôr-me a falar de teres nascido sem asas? Não sou maluco.’ Isto para vocês verem o quanto os meus dotes literários são apreciados aqui por casa.

Bem, a ver se me concentro. Limpezas.

Tapetão de Arraiolos feito por moi-même, desenho livre, que tenho aos pés do sofá em frente da televisão


Há coisas de que gosto bastante de fazer. Gosto de varrer, sacudir tapetes, pô-los ao ar, lavar o chão, lavar casas de banho e cozinhas. E cozinhar, claro.

Não gosto nada é de limpar o pó. Fui enchendo os móveis de tralha e depois não dou mãos a medir. Qualquer dia guardo as bugigangas todas numa arca para só ter superfícies lisas para limpar.

E agora acontece um fenómeno.


Onde eu fui dar com a tesourinha... dentro de um dos pratos da balança antiga

Volta e meia os pimentinhas desencantam coisas onde não podem mexer. Então a gente tira-lhes as coisas das mãos e esconde-as onde eles não cheguem. E depois nunca mais ninguém se lembra. Bem se podem depois procurar essas coisas porque nunca estão onde é expectável. Ao limpar o pó é que vou descobrindo coisas onde menos se espera. Por isso, a tarefa de limpar o pó é uma seca ainda maior: é limpar e encontrar novos esconderijos para os objectos que vou descobrindo fora do sítio.

Acresce agora a quantidade de brinquedos que descubro por todo o lado. 


Brinquedos que eram dos meus filhos.
A estes pu-los a ocuparem dois lugares de sofá


Nem sei onde guardá-los pois os pimentinhas, mal chegam, entram a correr à procura do carro da pá, da cama da barriguita, do cavalinho, da casa das chaves. Mais vale as coisas estarem à vista. Eram brinquedos dos pais. Tenho a despensa cheia deles. Vão saindo à cena à medida que os pais se vão lembrando.

Depois, quando saímos, é uma manobra logisticamente tão complexa que não dá para estar com grandes arrumações. A maior parte, a bem da verdade, nem com grandes nem com pequenas. Fecham-se portas e janelas, desliga-se o gás e a água, acciona-se o alarme, e ala que se faz tarde.

O pior é quando se entra em casa na vez seguinte.


Estaca de madeira que ficou assim
depois de a terem andado a revestir de plasticina.
Menos mal aqui, até fica com piada.
O pior é quando encontro nas carpetes,
bolinhas dentro de caixinhas e sei lá mais por onde.

As plasticinas agora estão escondidas mas encontro vestígios por todo o lado. O meu marido aborrece-se, Porque é que tiveste a triste ideia de lhes dar plasticina...? Esconde-a bem escondida antes dos gajos chegarem!


Mas o pior mesmo são as teias de aranha. Não dá para acreditar. Há teias nos cantos das paredes, entre as molduras dos quadros ou dos espelhos e as paredes, debaixo das cadeiras, por todo o lado. A cadeira de balouço por baixo era uma teia de aranha pegada.

Quinze dias sem entrarmos em casa e a bicharada toma-a de assalto. Dos bichos de conta então nem é bom falar. Afasto os sofás ou os móveis e não há apenas pó: há toda a espécie de animais rastejantes. Este fim de semana mais uma: a sala estava cheia de formigas. Eu, que gosto de andar descalça, ia sendo devorada.

Mas são limpezas à pressa. Ao fim de semana, geralmente mal estamos lá 24 horas. Entre chegar, ler o Expresso, descansar e comer e dormir, como fazer uma limpeza como deve ser...? E isto quando estamos só os dois porque, se vai a tropa toda, então, é tentar chegar antes deles para uma limpeza à pressão e acabou-se, porque mal chegam já não há oportunidade para frescuras dessas.

Estou desejando que cheguem as férias para poder fazer uma limpeza mais a sério, lavar tapetes, lavar vidros, pôr cera nos soalhos.

E lá fora...? Desta vez não tive tempo mas há folhas secas que dão para uma semana de vassoura na mão. E o que eu gosto de varrer.


Paredes a precisar de pintura
Chão a precisar de ser varrido


Há outros trabalhos mas esses requerem mais mão de obra e mais tempo. Por exemplo, pintar a casa e os muros, já para não falar de bondex nas portas e portadas. Com tanta chuva, o musgo infiltra-se nas paredes e descolora e seca as madeiras. Eu gosto imenso de ver, farto-me de tirar fotografias, acho bem mais bonito assim do que paredes brancas imaculadas e madeiras reluzentes mas, de facto, acho que estaria na hora de pintar tudo. Mas quando? Vamos sacrificar as poucas férias que temos com homens lá dentro, a pintar a casa? Pintarmos nós não dá, é parede a mais para sermos só nós dois. Aí é que as férias não dariam mesmo e acabávamos as férias mais podres do que quando começássemos. Enfim, vamos andando, a casa cada vez mais coberta de patine. Um charme - faz de conta.

Agora tinha ainda ideia de vos contar sobre o almoço de domingo cujo tempero foi feito apenas com ervas que apanhei por lá mas já são duas da manhã e já estou com sono. Fica para outro dia, está bem?


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A música lá em cima é uma interpretação de um pianista fantástico (tantas vezes uso estes adjectivos que qualquer dia vocês não me levam a sério mas que hei-de eu fazer se há tantas coisas e pessoas fantásticas?): Júlio Resende aqui interpretando "Fado" (Gaivota).


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Relembro: para piadas sobre advogadas perigosas e sobre ainda mais perigosos estudantes de advocacia, desçam por favor até ao post já a seguir. Para verem o que eu vou ensinar à Joaquina para ver se ela se torna primeira-ministra, desçam até um pouco mais abaixo. Informo os que não gostam de fofinhos: para além da Joaquina, vão lá encontrar uma coisa ainda mais fofinha que a Jaquina, o docinho do Tozé a tocar ferrinhos.


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E, por agora, por aqui me fico.
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira. 
E os que estiverem de férias façam a caridade de não mo dizerem, para eu não morrer de inveja, está bem?