Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

sexta-feira, agosto 28, 2015

Em especial para a Rosa Pinto, que gosta de fotografias de casas, e para a GG, que descobre soluções giríssimas de decoração, aqui mostro três fotografias da minha casa in heaven.


No post abaixo falei-vos de um amigo silencioso que agora aparece por aqui, do lado de fora, a espiar-me com ar circunspecto, e de uma inovação no transporte de caruma e folhas secas.




Aqui, agora, continuo mais ou menos no mesmo comprimento de onda. Tenho andado em limpezas. Hoje foi dia de aplicar restaurador nos móveis de madeiras. Aplico em grandes quantidades para as madeiras absorvem e ficarem hidratadas, com ar feliz. Claro que, nos primeiros momentos, fica tudo húmido, molhado mesmo, reluzente. Mas, depois, a madeira bebe o líquido e fica macia, bonita.

Numa vez em que um senhor da aldeia me arranjou uns móveis, pôs-lhes cera de abelha e as madeiras ficaram lindas mas eu aqui não a tenho e, de qualquer maneira, deve ser mais difícil aplicar cera do que este produto. Gosto imenso de fazer este género de coisas, gosto de ver tudo com ar de novo, limpinho, cheiroso. Amanhã vou aplicar cera líquida nas tijoleiras do chão. Tenho é que escolher uma altura em que tenha a certeza de que o meu marido não vai entrar pois é certo e sabido que, mal acabo de lavar o chão ou encerar, ele há-de aparecer e, se não o intercepto a tempo, fica-me o chão todo espezinhado. É uma luta que travo há anos. Ele diz que é porque eu demoro tempo demais e que, inevitavelmente, a meio, ele há-de precisar de alguma coisa cá de casa. Não sei, o que sei é que não se ensaia nada para pisar o chão molhado; e depois diz que nem reparou.

Mas andava eu nas minhas limpezas interiores, antes de me deslocar para os trabalhos no exterior, quando me lembrei de fotografar algumas coisas para mostrar às Leitoras Rosa Pinto e GG. É capaz de parecer presunção da minha parte isto de achar que vão gostar de ver até porque já antes tenho mostrado imagens cá de casa, mas, enfim, é como se as estivesse a convidar para entrarem, virem ver, virem cá lanchar comigo.

Mas sei que não é nada de especial, é apenas a minha casa - e eu não tenho pretensões a ser grande decoradora mas, enfim, sinto-me bem aqui e as pessoas que cá vêm também costumam gostar. Tem muita luz, muita cor e umas peças antigas que herdámos ou recebemos de presente e de que gosto muito.

Na fotografia abaixo, em primeiro plano, está a mesa depois de lhe ter aplicado o dito produto. Ao fundo, no aparador, debaixo do espelho grande, ao meio, está uma balança das antigas, de pratos (de latão?), com pesos, que era do avós do meu marido e que, dos avós, passou para umas tias e das tias para o meu sogro e, do meu sogro, para nós.

As louças são do Espaço Fortuna, de Azeitão, oferecidas pela minha mãe. A taça grande ao meio da mesa foi comprada por mim em Sagres




Abaixo mostro parte da lareira. Na parede por cima, tenho um quadro que não é um quadro, é um tabuleiro antigo a que foram retiradas as pegas, em que entre a madeira do fundo e o vidro, tem uma seda bordada com desenho e ponto das colchas de Castelo Branco, uma peça muito antiga, feita pela mãe de uma senhora amiga. Essa senhora minha amiga é da idade da minha mãe e a mãe dela fez isto quando era nova, ainda solteira. Por isso, imagine-se quantos anos tem isto. Por tudo e pela sua beleza própria, é das peças cá de casa de que muito gosto.

Na madeira da lareira podem ver-se três peças de artesanato. Uma menina pernalta, peça de artesanato urbano, um Santo António e um copo de barro alentejano, ambos de artesanato mais tradicional. O copo faz parte de um conjunto de jarro e meia dúzia de copos e meia dúzia de pratos que o meu avô, quando eu era miúda, me ofereceu uma vez que fomos passear ao Alentejo. Lembro-me dele, nesse passeio, me querer oferecer alguma coisa e, para surpresa de todos, eu ter escolhido isto. Entretanto, já se partiram alguns pratos e copos. Mas ainda subsistem alguns, memória do gosto que o meu avô fez em me oferecer uma coisa que eu, há tantos anos, já achei tão bonita.

Os livros, como se vê, estão a transbordar da prateleira de tijoleira que ladeia a lareira. Terão que sofrer uma intervenção arrumadora, também eles. Talvez faça um banquinho como aquele que a GG mostrou no outro dia, num comentário que deixou lá mais abaixo.




Aqui em baixo, um conjunto de peças (tralha, diria o meu marido) que tenho mesmo aqui à minha frente, neste momento. Estão no móvel onde está a televisão e o leitor de DVDs. Eu agora estou sentada no sofá em frente, enquanto vejo a RTP 2.

Há uma mulher (ou uma santa?) em madeira, uma galinha, um xilofone, uma ovelha que é uma vela e um buda e ainda há um cubo aberto, dourado, que tem uma vela lá dentro e que praticamente não se vê na fotografia. Na parede por cima tenho um painel de azulejos. Nada disto tem muito a ver uma coisa com a outra mas acho que há nas cores e nesta aleatoriedade algo que tem muito a ver comigo. 




Não parece mesmo que o badocha gordalhufo está no gozo a olhar para a galinha que se pôs ali a tirar o protagonismo à santa? Acho o máximo. Vou variando o que está na sua mira porque me dá vontade de rir a expressão de gozo dele.

Enfim. Maluqueiras minhas.
...

Tinha em mente ainda transcrever uns textos divertidos sobre João César Monteiro, um louco encartado, mas acho que por hoje já chega, não vos maço mais. 

....

Relembro que, abaixo, poderão saber quem é o agente secreto cujo olhar parece ter vindo do frio e que anda a espiar as minhas andanças campestres.

....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. 
Divirtam-se, descansem, sejam felizes - está bem?

...

Escuro, olhar fixo e transparente


Enquanto me dedico às limpezas fora de casa - apanhando a caruma, as folhas secas, limpando árvores, cortando pernadas desgarradas e rebentos ladrões - noto que sou olhada. 

Ao contrário do que a maioria das pessoas da aldeia fará, eu faço este tipo de tarefas de fato de banho. Não é que o tempo esteja especialmente quente: eu é que fico cheia de calor com estes trabalhos pesados e, portanto, visto-me à fresca. Conto com o facto de que, por onde ando, não sou vista do exterior (nem tenho visto drones filmadores por aqui). E, se calha estar junto à vedação que dá para a rua e ouvir passar algum carro, o que é raro, desvio-me e escondo-me atrás de algum arbusto.

Por isso, andando eu por ali feita veraneante dada à lavoura, foi com estranheza que me senti observada. Olhei e vi, de facto, um par de olhos claros espreitando.

Como ando sempre munida com a minha máquina fotográfica, aproximei-me. De cada vez que me aproximava, ele saltava e fugia.

Deixei então que voltasse para o seu posto de vigia e continuei a minha lida. Depois, de longe, fotografei-o.




Por fim, já deixava que eu me aproximasse e fixava-me de uma forma que me causava estranheza, um olhar fixo, transparente. 




É um cão muito bonito. Não sei de que raça é, talvez seja rafeiro. O meu marido diz que ainda é novinho. Não sei. Sei que é castanho escuro, pelo sedoso, e tem uns olhos transparentes, atentos.




Gostava de saber o que pensa ele enquanto assim me olha, mas isso ele ainda não me disse. Talvez o faça quando confie mais nesta mulher que por aqui anda de podão, serrote e ancinho (e vestida de fato de banho).
...

Já agora deixem que vos conte de uma grande melhoria nas condições de trabalho por estas bandas; descobrimos no Leroy este big balde com rodas. Agora já não tenho que carregar com o contentor pesadão. Com rodinhas, é uma limpeza. 



....

quinta-feira, agosto 27, 2015

A difícil vida das pessoas verdadeiramente ricas. Ralações, ralações, ralações.


No post abaixo falei de árvores maduras, de mulheres maduras, de beleza, de um filme sobre um fotógrafo que sabe captar a beleza das mulheres independentemente da sua idade. Peter Lidbergh reuniu seis mulheres que eram lindas nos anos 90 - e que, agora, são ainda mais bonitas.

E estava eu nisto, numa de frescuras e assuntos levezinhos próprios para a estivalidade mental de que me apetece estar imbuída, quando um artigo despertou a minha compaixão. Explico como lá cheguei.




  • Já tinha feito vista grossa, e a muito custo o faço, aos milhares de pobres coitados que fogem da guerra e da miséria, vindo com a roupa do corpo e os filhos ao colo, quando não no ventre, em barcos sobrelotados ou a pé ao longo de estradas e fronteiras;
  • já tinha feito vista grossa às palavras do cherne Barroso que, depois de andar a alinhar em guerras e guerriúnculas que muito contribuíram para a instabilidade e desgraça nos países de onde provêm os imigrantes, anda agora rançosamente armado em moralista;
  • já tinha igualmente feito vista grossa face a Guterres que, centenas de milhares de imigrantes e muitos milhares de mortos depois, resolveu lembrar-se que é Alto Comissário para os Refugiados e acordar e sair à cena, dizendo as vacuidades sensatas e redondas em que ao longo da vida se especializou;
  • já tinha também feito vista grossa face ao que se está a passar na Hungria, uma vergonha, um pesadelo - é que se é certo que a Europa, exangue, desguarnecida e sem liderança, não tem capacidade para absorver ilimitadamente estes muitos milhares de imigrantes (só na Alemanha, este, ano, estima-se que sejam 800.000), não menos certo é que não é fechando fronteiras, erguendo muros ou desatando ao tiro aos desgraçados que se resolve uma crise desta monta;

mas não podia ficar insensível perante a alegria que finalmente parece estar a sossegar o espírito de uns quantos infelizes. É que, nos últimos dias, tinha sido tristeza a mais, aquela tristeza que vem envolta em incompreensão e sentido de injustiça. Refiro-me, claro, à tristeza resultante das desastrosas perdas que os grandes jogadores de roleta, os big capitalistas de casino, os verdadeiros donos do mundo, averbaram perante o descalabro bolsista desencadeado pelo bater de asas da borboleta chinesa - mas que, felizmente (para eles), parece estar a acalmar. 



Além disso, não nos esqueçamos daquela de que nada se perde, tudo se transforma: é quequando alguém muito perde, outro alguém muito ganha. Se Bill Gates, o mais rico dos ricos, andava tristinho por ter dito adeus a $3.2 milhares de milhões no início da semana, já Amancio Ortega, o dono da Inditex (Zara e etc.), ganhou $2.6 milhares de milhões num único dia. 
Milhares de milhões que se ganham ou se perdem apenas porque sim, por nada, por especulação, por desfastio, por sorte ou azar. Zeros que crescem ou diminuem na conta dos verdadeiramente riscos e que valem mais, muitas mil vezes mais, do que as vidas anónimas que tudo arriscam na dolorosa procura por um futuro melhor, num El Dorado que não existe.

Por preguiça, pela qual me penitencio, vou transcrever, tal e qual, o artigo de Emily Jane Fox para a Vanity Fair.

Finally, Some Good News for Billionaires



Investors across the world have been biting their nails over the last week, as global markets careened off a cliff on fears of a slowdown in China.

The bleeding seems to have slowed for now, and no one is happier about that than billionaires.

After days of shaving hundreds of billions of dollars off their collective fortunes, the world’s richest people saw a quick 180. In fact, the top 200 billionaires added $10 billion to their pile of money on Tuesday, according to Bloomberg’s Billionaires Index.

The index measures the wealthiest people across the globe each day based on market and economic changes, and updates net-worth figures, gains, and losses for the billionaires every evening.

This return to raking in the dough is a swift, and likely welcomed, change, though it still doesn’t begin to make up for the agony over the last few days. Just on Monday, Bloomberg reported the world’s 400 richest people lost a combined $124 billion, with 24 billionaires seeing their wealth fall by more than 10 figures. Bill Gates, the richest of the rich, said good-bye to $3.2 billion and Amazon's Jeff Bezos lost $2.6 billion at the start of the week, according to the index. Mexico's Carlos Slim’s wealth toppled to its lowest level since the index started charting wealth three years ago.

This is after these billionaires lost $182 billion last week, which, at the time, was the largest weekly drop in the index’s history.

But at long last, Tuesday brought good news to many rich men. Amancio Ortega, owner of the world’s largest clothing retailer Inditex, added $2.6 billion to his fortune in one day, while LVMH chairman Bernard Arnault tacked on $1.3 billion.

Many American billionaires weren’t so lucky. Sheldon Adelson, Warren Buffett, and Larry Ellison each shed nearly $600 million Tuesday. The Koch brothers both lost $450 million, and for Gates, another $430 million, the Index showed.

This has been a public-service announcement to hug your local billionaire.

...

Nem de propósito, o Luís M. Jorge, autor do Vida Breve, com quem em tempos muito discordei mas que sigo por nele reconhecer aquela forma de inteligência desabrida que me agrada, mostrou um vídeo onde a Mariana Mortágua* não passa ao lado desta finança de roleta que vem dando cabo do mundo sem que ninguém consiga encontrar um travão eficaz.

Mas que, ao menos, vamos ganhando alguma consciência para que não sejamos tão facilmente manipulados. Pela oportunidade, coloco também aqui esse vídeo:


Mariana Mortágua: lições do crash




----

* Uma pergunta: porque é que os senhores do PS não arranjam alguém que fale da mesma forma cristalina que a Mariana Mortágua e não aparece assim perante o eleitorado, com sentido de oportunidade, com capacidade de desmontagem de embustes e de alerta para os riscos do liberalismo desregulado? É que isto é eficaz, é sóbrio, é útil - e o eleitorado agradece.


.....

Relembro: abaixo há um vídeo com 6 mulheres muito belas - as que, nos anos 90, eram consideradas das mais belas da indústria da moda.  Peter Lindbergh mostra como agora são mais belas, mais interessantes.
....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira. 
Saúde, sorte, alegria, leituras, sorrisos, cor, luz, amor e dinheiro para os trocos - é o que vos desejo.

...

A beleza das mulheres maduras. Peter Lindbergh reuniu 6 beldades dos anos 90 e mostra-nos agora como agora estão ainda mais bonitas




Se o amor ou o sexo ou a paixão ou essas coisas são coisas mentais, tenho a certeza que também a beleza o é. Quem o feio ama, bonito lhe parece. Mas não precisa, sequer, de ser isto. É que mesmo quem é belo pode parecer feio ou desinteressante aos olhos de quem não está nem aí. Os olhos de quem vê contam muito nisto da beleza.

Olho as minhas árvores secas, adultas, ramos cinzentos, troncos rugosos e cobertos de peles caídas e acho-as belas, extremamente belas.

Com a idade pode a carnadura ganhar alguma flacidez, pode a pele ganhar rugas, pode o cabelo branquear ou enfraquecer, pode a capacidade de visão erodir-se um pouco, pode tudo isso - que a beleza dos rostos ou corpos de quem é olhado com admiração ou carinho manter-se-á intacta ou, até, ganhará uma textura de suavidade.

E isto vale para homens ou mulheres. Há muitos homens que são muito mais interessantes na idade madura do que em jovens; e há homens que eram bonitos em novos e que, com mais ou menos cabelo, mais ou menos barriga, serão sempre lindos aos olhos de quem os ama.




Cindy Crawford, Helena Christiansen, Eva Herzigova, Karen Alexander, Nadja Auermann, and Tatjana Patitz juntaram-se e Peter Lindbergh olhou-as, enternecido, agradecido. E mostra-as maduras, belas como sempre. The Reunion




...

quarta-feira, agosto 26, 2015

Uma cabana in heaven, um espaço para pensar (e para ler e para fotografar... e para varrer, limpar, lavar, desbastar...)


No post abaixo falei de três professoras por recordá-las como jovens ou sem idade, em contraponto com as outras que recordo antiquadas, quando não velhas. E, a propósito de viver de acordo com a idade que se sente e não com a que o Cartão de Cidadão indica, mostrei um filme com piada.

Aqui, agora, continuo numa boa. 

Comecei as minhas férias e estou confiante de que vou conseguir ter, de facto, uns dias de descanso. A nível familiar (e, em particular, a nível clínico) tudo parece estar agora relativamente tranquilo e, até à próxima consulta, que é no início da próxima semana, conto ter um período de acalmia, isenta de compromissos, afazeres, combinações. Cheguei a esta altura do ano a precisar mesmo de desligar, de dormir. E se tenho dormido... Hoje estou in heaven e, para começar, já deitei mão ao que se impunha: limpezas a preceito. Varrer, lavar, arrumar, limpar, regar. Amanhã a empreitada continuará porque isto estava mesmo a precisar de uma barrela valente. Curiosamente, este trabalho não me cansa. Pelo contrário, gosto imenso de deitar mão a estes trabalhos braçais. Levantei-me tarde e passei o dia nisto e, pelo meio, estive a ler, deitada, a luz coada a entrar pela sala. 

Para onde quer que olhe, vejo coisas que precisam de arrumação ou reorganização. Por exemplo, os livros aqui na sala em que escrevo estão sem rei nem roque. Nas estantes do corredor, umas que tenho embutidas no meio da parede, os livros estão por autores ou por colecções. Mas estes aqui são os que vou trazendo para o fim de semana ou para as férias e que, por aqui, vão ficando. Estava a limpar o chão e olhei para eles, sem saber o que lhes fazer. Ou os levo de volta para a outra casa, para ficarem junto dos respectivos pares, ou tento encontrar uma ordem lógica para os ter aqui. Assim, parecem-me a prova provada do caos que é o meu gosto literário. 












A ver se amanhã me inspiro e vejo se dou um jeito nesta anarquia. Entretanto, para estes dias em que andarei entre cá e lá, mas tentando arranjar um tempo para ler em sossego, trouxe mais uns quantos. Tenho esta coisa de ler de forma picada, de ler um bocado de um, saltar para outro, encantar-me com a surpresa da linguagem, voltar onde me maravilhei, reler uma passagem, e partir para nova busca.

....

Everywhere we go


....

Hoje estive com Os Cães de Tessalónica que trouxe mas, pelo meio, com La Cabana de Heidegger, un espacio para pensar, que encontrei caído atrás de um sofá e de que já uma vez aqui tinha falado.


(A Cabana de Heidegger em cima de uns tapetes que tinha estado a sacudir)


Como me identifico com a forte ligação entre o nosso eu mais profundo e um lugar de que se fala neste livrinho tão interessante... Também eu ando pelo meio das árvores a ver como o sol as deixa brilhantes e macias sob a luz dourada, também eu olho o vento nas ramagens, também eu afago com o olhar as suaves montanhas ao longe.

E vejo os traços do tempo nas paredes e, em vez de ter vontade de as pintar, vou é a correr buscar a máquina para as fotografar. Acho-as lindas, a sua beleza evoluindo com o passar do tempo, desenhos de cor que os líquenes inscrevem nos rastos da água da chuva que escorre das telhas. E as folhas caídas, e as sombras das árvores sobre os bancos, sobre os muros, tudo , tudo me encanta. 

Transcrevo alguns excertos do que ele escreveu sobre o lugar que amava de uma forma intensa e que, de certa forma, influenciou a sua obra e intercalo com fotografias feitas hoje, in heaven.




Cuando la luz de la aurora crece en silencio sobre las montañas...

Cuando al comenzar el verano se abre una solitaria flor de narciso en la pradera y una rosa de las rocas brilla bajo el arce...




Cuando el viento, al cambiar de repente, murmura en las vigas de la cabaña y el tiempo amenaza con volverse desagradable...




Cuando en un dia de verano la mariposa se posa en una flor y, con las alas cerradas, se balancea con ella en la brisa...




Cuando la luz de la tarde, inclinándose en algún lugar del bosque, baña de oro los troncos de los árboles.




Cuando el arroyo de montaña en el silencio de la noche cuenta su caída sobre las piedras...


Uma lua transparente que apareceu no meu céu para me fazer sonhar
....

E, caso vos apeteça ver um vídeo muito bem disposto e ler alguma coisa sobre a memória que guardo de três das minhas professoras, queira, por favor, deslizar até ao post seguinte.

....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.
Muitas felicidades a todos.

...

Viver de acordo com a idade que se sente ter, em qualquer idade


Lembro-me de que, quando andava no liceu, achava as professoras umas senhoras já de alguma idade. A esta distância, lembro-me delas muito aperaltadas, muito compenetradas. Não sei que idade teriam mas não é provável que fossem todas já meio velhas; contudo, é assim que as recordo. 

Apenas de três tenho ideia de serem diferentes. 

Uma talvez não fosse, de facto, muito nova mas recordo-a sem idade. As aulas dela eram diferentes e eu adorava-as. Era professora de Português e não se entretinha a esfacelar a literatura com a ferramentaria da gramática. Foi também por ela que me inscrevi numa actividade circum-escolar que a tinha como professora, creio que se chamava Introdução à Poesia ou Leituras de Poesia, não sei. Íamos para a rua, sentávamo-nos no chão, em roda, debaixo de árvores, e líamos. E ela chamava-nos a atenção para alguns pormenores. E eu adorava, sentia-me em estado de fusão com a natureza e com as palavras. A professora chamava-se Joana Meira e amava a Língua Portuguesa. Tenho ideia que o seu cabelo era grisalho mas, para mim, era uma fadinha boa que me trazia toadas mágicas, histórias de outros mundos, encantamentos vários. 


Outra era a professora de Educação Física e era ágil, jovem, divertida. Nós éramos adolescentes, éramos irreverentes e aluados e namorávamos por todos os lados e ela achava graça, nunca havia censura ou repressão nas suas atitudes. Lembro-me de uma excursão que fizemos e em que todos nós lhe pedimos encarecidamente que nos acompanhasse. Acompanhou. E foi uma companheira atenta, cúmplice, amiga. Ao contrário das outras professoras que usavam penteados mais produzidos, ela usava o cabelo curtinho e eu achava o aspecto dela o máximo. 

A terceira era professora de Psicologia e era mesmo nova. Penso que era formada em Filosofia. Vivia no Estoril, aparentava ser uma típica menina da Linha. O marido estava a fazer a tropa no Ultramar e ela tinha muitas saudades dele. Era uma jovem muito moderna, com uma visão aberta do mundo. Falava-nos de autores de que nunca eu tinha ouvido falar, falava de assuntos que eram, para mim, janelas abertas sobre o desconhecido. E eu olhava para ela, com aquele ar tão jovem, e que parecia transportar um conhecimento tão imenso, muito mais do que as outras tão mais velhas.

Por essa altura, eu achava que a minha mãe era também uma senhora com ar igual aos das outras professoras. Olho para ela agora e parece-me mais jovem do que era nessa altura. 

Eu, por mim, acho que nunca fui muito em conversas, em modas, em andar como os outros esperam que eu ande. Quando eu era adolescente, o meu pai zangava-se todo quando me via maquilhada ou vestida de forma mais produzida, dizia que eu ainda não tinha idade para aquilo. Mais tarde, era bem capaz de torcer o nariz por achar que eu já não tinha idade para andar a fazer qualquer coisa que ele achava que era para miúdas. Paciência. A idade não me condiciona. Claro que tenho a noção do ridículo pelo que, por exemplo, não me apresento no supermercado de shorts curtinhos e t-shirt de alças como ontem vi uma, com os cabelos pela cintura, que mais me parecia ter idade para minha mãe. Mas corro, salto, sento-me no chão, rio à gargalhada, vibro com um belo texto, com um sol dourado, com uma lua transparente, com um olhar, com um abraço. Vivo sentindo-me entusiasmada perante o futuro como se tivesse ainda a vida inteira pela frente. E tenho. O que me falta viver é a viva inteira.


E vem esta conversa toda a propósito do vídeo aqui abaixo: Act any age.



..

terça-feira, agosto 25, 2015

Passos Coelho exibe a doença da mulher, Laura (ou Lolita), nas capas das revistas. Em altura de pré campanha eleitoral, acho isto uma indigência moral insuportável. Mas, para nos animar, um grande momento pode estar em perspectiva nestas legislativas 2015: Paulo Portas e Heloísa Apolónia no que talvez esta venha a ser o debate que todos esperamos, a luta de titãs, o momento alto da campanha. E sugiro ainda mais: para abrilhantar os debates em que participem PàFs que haja, atrás, um número de burlesco. Já que os PàFs gostam é de desviar as atenções, pois então, que o façam com números a condizer com a sua ideologia.


No post abaixo falei de interpretação de sonhos e mostrei Cloclo, a majorette. Coisa séria, científica e com um momento lúdico de permeio para aligeirar a densidade do tema.

Tempo agora, portanto, de partir para outro registo. Política. Baixa política.

Tenho andado sem grande paciência para gastar o meu latim com universidades de verão, pontais, cães com pulgas, fricotes de láparos e portas armados em divas, coisas assim. E, tirando isso, parece que pouco mais há, por aqui, de que se fale. Passeio-me pelos jornais online e a pasmaceira é entediante, cinzentolas.

Durante a semana que passou, fiz algumas tentativas para comprar revistas -- que parece que é coisa com que os internados gostam de se entreter -- mas também não consegui encontrar uma coisa decente. 

O casal-maravilha, Láparo e Lolita, está, salvo erro, em quatro capas. 


Depois de ter começado por dizer, armado em gente séria, que não queria que explorassem mediaticamente a doença da mulher, aquele que diz uma coisa e sistematicamente faz o contrário, agora deixa-se acompanhar nas férias, dá entrevistas e permite que a imagem da sua mulher sem cabelo seja cabeça de cartaz nas flash, lux ou vips desta vida. 

E os títulos das capas dizem coisas cor-de-rosa como que ele é um carinho, que a Lolita é uma mulher de força e que ambos lutam pela vida dela. 

Numa altura eleitoral, se isto não é uma exposição mediática quase obscena nem sei o que diga. É que uma coisa seria um artigo sério, num jornal sério, sobre a situação que é, certamente, complicada, e outra, bem diferente, é a exploração vulgar a que ali se assiste. Incomoda-me aquilo e de que maneira.

Não acho que o facto de alguém ter cancro e ficar sem cabelo por fazer quimioterapia seja motivo de vergonha e que deva seja escondido - pelo contrário. A atitude da senhora, de tentar levar uma vida normal, parece-me muito meritória e corajosa. Louvo-a por isso. E que ela queira ajudar o marido, trazendo-lhe votos, parece-me também um gesto abnegado. O que me parece indecoroso não é isso. O que me parece indecoroso é ele aproveitar-se da situação. Isso é que me parece que o rebaixa - e de que maneira. Um homem que se aproveita da doença da mulher causa-me repulsa.

E interrogo-me. Se, em vez de calvície, a senhora tivesse uma ferida aberta, gangrenada, também seria exposta nas capas das revistas? No meio de beldades em biquini, com os seus novos namorados? Não... isso talvez não. 
Uma ferida aberta talvez não fosse fotogénica, talvez não trouxesse tantos votos quanto uma cabeça calva. 
Que hipocrisia a de Passos Coelho, que cobardia, que imperdoável falta de pudor!

Espera ganhar votos, o láparo. Mas talvez lhe saia o tiro pela culatra que o zé-povo não é tão burro assim. 

Adiante que não quero falar mais nisto, incomoda-me. 

Passemos, pois, para um momento vaudeville.

Pode a Europa continuar de gatas sem saber como enfrentar riscos de terrorismo, pode andar às aranhas por não saber como lidar com uma invasão de imigrantes esfomeados, doentes, e impreparados para se integrarem numa vida social normal (digamos assim), pode o tigre capitalista chinês estar gaseado e as bolsas todas despassaradas, podem as altas instâncias (europeias e não só) continuar sem uma linha de rumo para garantir um crescimento estável e imune a desaguisados bolsistas e especulativos - pode tudo que, pelo rectangulozito tuguita, nada mexe. No pasa nada.

O que ainda parece causar algum frisson na comunicação social são os chiliques dos PàFs -- quem se apresenta a solo a votos não quer debater com o Portas que vai às eleições à boleia, na barriga de aluguer do Láparo, onde é que já se viu...?

Sua Excelência, o bronzeado e histriónico Vice-Irrevogável, não tem peito suficiente para o dar às balas, encolheu-se e enfiou-se no bolso do marido da Lolita e agora, armado em pequeno fanfarron, anda a lançar boquinhas aos outros por o tratarem como ele se pôs a jeito para ser tratado. Toca e foge, diz ele, com aquele ar contentinho de quem inventa muitas gracinhas; mas parece esquecido que foi ele mesmo quem, com medo de ser varrido do mapa, fugiu para dentro do útero do láparo... E agora, pelos vistos, queria ir a debates como se tivesse identidade própria. Não tem. O máximo que se lhe admite é que espreite de dentro da barriga do outro - mas é só para a gente se divertir, não é para mais nada.

E o láparo, cheio de medo da festa que seria a sua participação num debate, aproveitou a desculpa para se armar em vítima e escapar a esse momento que ele sabe que seria doloroso. 
Não sei porquê até me estou a lembrar daquela partida que a minha amiga médica diz que faziam nas noites de hospital em que apareciam doentes homens armados em pintas: iam chamar um enfermeiro negão, gigantão, ele calçava com vagar a luva, os dedões bem à vista, e elas diziam que o enfermeiro tinha que lhes fazer um toque rectal, que tinha que ser para despistar uma situação. 
Os pintarolas encolhiam-se logo, aflitos, sentadinhos, caladinhos que nem santinhos. O negão podia ir-se embora que a derrota era logo ali declarada, nem precisavam de ir ao castigo.
Bem. Nem sei porque me ocorreu isto. Adiante.

Pois bem. Inteligente, inteligente é a reacção do velho lobo Jerónimo. Se o Portas quer festa, pois então que a tenha com alguém na mesma situação: que debata com a Heloísa Apolónia, líder de um partido que também concorre em coligação. Acho lindo. Danada para a brincadeira como é a Heloísa quase aposto que teríamos outro número do negão. 

Já estou a vê-los no debate:
- O Portas, todo ele um bronze resplandecente, camisa preta sob casaco preto como agora gosta de se apresentar, botões de cima abertos, os pêlos do peito bem à vista, apenas com um pequeno apontamento de branco reluzente (os dentes, claro), todo ele uma encenação, preparado para mil tiradas espectaculares;  
- E a Heloísa, expressão feroz, boca aberta e sem açaime, pronta a estraçalhar quem se lhe apresente pela frente, dominatrix, castigadora, dente afiado... e a calçar a luva de latex com toda a calma. 
A ver se o Portas não perdia logo a verve toda (... ok, pronto, no mínimo desconcentrava-se). 

E eu, face a esta perspectiva, até começo a animar-me e a achar que esta campanha eleitoral ainda nos pode trazer belos momentos.

Mas daqui deixo um conselho às televisões: como a malta pafiana não tem grandes feitos a apregoar nem sabe bem o que tem para prometer, para que os momentos televisivos da campanha em que participem os pobres PàFs não sejam dados por perdidos, pois, então, que preparem coreografias para encher o olho aos espectadores.

Por exemplo, uma coisa assim (para o menino e para a menina*) e, ainda por cima, com fins louváveis:


Broadway Bares 2015: Top Bottoms of Burlesque, 
the unrivaled evening of sexy striptease that benefits Broadway Cares/Equity Fights AIDS



....

* Pr'ó menino e pr'á menina e, já agora, também para os de sexualidade fluida, como agora se diz. [Vidé a filha do Johnny Depp e da Vanessa Paradis, a Lily-Rose, que anunciou ao mundo a sua sexualidade fluida]. Que expressão mais gira.


....

E, pronto, mais não digo.

Relembro apenas que, no post abaixo, se interpretam alguns sonhos, se mostra uma majorette muito fofa e outras coisas.

....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira, na boa. 

...

Como interpretar sonhos sem cair no ridículo



Você está caindo num precipício

Fome. Simplesmente, isso: fome. Evite dormir com o estômago vazio. Coma alguma coisa, nem que seja com os olhos. Devorar livros ajuda sobremaneira. (...)

Você esquece todo o conteúdo da matéria exactamente no dia da prova

Esse sonho pueril, juvenil, só acomete os estudantes devotados. Denota certo grau de insegurança. Com o que sonham os relapsos, os desinteressados em aprender? Sei lá. Provavelmente com a hora do recreio ou em comprar smartphones novos.

De repente, você se depara nu no meio de uma sala de aula lotada de gente

Timidez. Insegurança. Pénis pequeno. Feiura. Falta de coisa melhor para sonhar.

Você se apaixona por alguém que nunca viu na vida

Provavelmente, durante a vigília do quotidiano, você já viu ou já cruzou com a pessoa pela qual você se apaixonou dormindo. O problema é que você não se recorda onde, quando e por que. Esse é um dos mais frustrantes sonhos que um ser humano pode sonhar, principalmente quando se está solteiro. O sonhador desperta, cerra os olhos com esperança, força, implora o comparecimento imediato do sonho, mas ele simplesmente não retorna, e o ser amado escapa, evapora com os primeiros raios de sol.

....

....

O texto é um extracto de Como interpretar sonhos sem cair no ridículo da autoria de  Eberth Vêncio na Revista Bula, texto esse onde se pode ler que :
Os sonhos nada mais eram do que uma válvula de escape para que as mentes não enlouquecessem, uma espécie de câmara de gás para dizimar os pensamentos quootidianos, um recomendável back-up neuronal para se começar tudo de novo na manhã de um novo dia, uma privada para sinapses.
(Passei algumas palavrinhas para português pré-AO porque colocar aqui um texto brasileiro tout court pode dar a ideia de que me converti - e converti o tanas)


Os vídeos referem-se ao filme La parade, uma fábula real que fala da majorette Cloco Nº18 e de mais uns quantos bacanos.  Achei que tinha a ver com o texto dos sonhos. (Também sou uma bacana, como é bom de ver)

...

segunda-feira, agosto 24, 2015

A vida vivida um dia de cada vez, e feliz sempre que possível


Tinha dito que logo daria notícias quando as coisas acalmassem. Tinha dito que estava a viver um momento de susto, de medo. Traiçoeira é, por vezes, a vida.

O espírito positivo vive dentro de mim e, felizmente, também dentro dos que me são mais queridos. No entanto, perante rasteiras tão inesperadas e assustadoras, por vezes uma pessoa vai-se um bocado abaixo.

Mas, enfim, parece que a própria vida que nos tira o tapete se encarrega, também, de o voltar a repôr - embora com algumas diferenças. E a gente vai-se adaptando a essas diferenças.

Desde o dia em que um exame trouxe a insólita e assustadora notícia, a cada semana, com novos exames que iam sendo requeridos, novos medos foram surgindo e, depois, face aos resultados, vieram notícias animadoras e novas esperanças (se é que, nisto, as notícias menos más se podem chamar de animadoras e se é que é inteligente ter esperança só porque as coisas não são tão más quanto poderiam ser). Mas, enfim, uma pessoa agarra-se a todos os sinais que parecem menos condenadores.

O médico disse, quando se começaram a fazer muitas perguntas: um dia de cada vez.

Já tantas vezes o ouvira dizer antes mas parece que só agora interiorizei o significado disto: um dia de cada vez.

Um dos dias, logo a seguir, estava na sala de espera para uma outra consulta e peguei creio que numa National Geographic que lá tinham. Sei que falava de Gandhi. Li: 'Aprenda como se você fosse viver para sempre. Viva como se fosse morrer amanhã'. Acho que sorri. Duas vezes, de seguida, a mesma recomendação: viver como se fosse morrer no dia seguinte. Pensei o que sempre penso: devemos estar agradecidos por estarmos a viver. E por, no dia seguinte, estarmos de novo a viver. Sempre. Todos os dias. Um a um.


Gracias a la vida



Depois veio a data da cirurgia e o cirurgião lá foi explicar, na véspera, que havia probabilidades de as coisas não correrem bem e que, correndo, ainda haveria probabilidades de haver complicações, e enunciou cada tipo de complicação. Queremos nós só pensar em coisas boas, vai correr bem, bocado a mais, bocado a menos que diferença faz?, e o cirurgião a fazer questão de alertar para tudo o que poderia correr mal. Sobre aquele optimismo permanente de que parece que somos feitos, uma nuvem escura sempre a ser desenhada sobre as nossas cabeças.

Mas, enfim, somos como somos, optimistas impenitentes, e, portanto, (embora a medo... - e ó senhores, quanto medo, só eu sei), logo concluímos: 'Vai correr bem' porque é o que acontece na maior parte dos casos; e que se lixem as probabilidades mínimas de alguma coisa dar para o torto. 

Depois foi a cirurgia. Nunca mais chegava a mensagem a dizer que a cirurgia tinha começado e logo os nervos miudinhos a roerem as entranhas, Mas depois lá veio. E depois lá veio a outra, a dizer que tinha terminado e que o familiar tinha ido para o recobro. Um suspiro de alívio que vem do interior da alma.

No recobro, mal tendo saído da cirurgia, o familiar mal nos conhecendo, as pupilas dilatadas, sem saber se a cirurgia ainda ia ocorrer, dizendo que não tinha dado por nada, adormecendo a cada palavra pronunciada.

Mais tarde, nos Cuidados Intensivos, ainda a soro e a oxigénio, já de olhos abertos, a voz empastelada, a dose de analgésico ou os efeitos da anestesia ainda a toldarem ao de leve a consciência.

Mas, algum tempo depois, de volta o sentido de humor, o sorriso.

À volta de nós, nos outros compartimentos, sons de equipamentos a soltarem sinais de alarme e nós nem aí, alheados dos dramas alheios (embora ali tão próximos). Assim é a natureza humana, com esta capacidade de se adaptar instantaneamente a cada circunstância. Há uns anos eu seria incapaz de entrar num sítio assim, tinha um pavor terrível de me aproximar de doenças, acidentes, casos difíceis. Era uma fobia que me vinha de criança, penso que da morte do meu avô materno. Mas agora, ali estava, tal como antes já tinha estado quando o meu pai teve o AVC - e sem problemas, apenas concentrada no estado de saúde de quem, sendo-me tão próximo e querido, está numa situação complicada.

O enfermeiro vinha espreitar e dizia 'Está tudo óptimo' e nós contentes, correu bem, correu bem, e vai correr tudo bem.

E nos dias seguintes, já no quarto, a recuperação rápida*, já sem o soro, depois já de pé, a seguir já a alimentar-se. E sempre com a família em volta, palavras de ânimo, conversa leve, risos. Por estes dias, eu, embora exausta (física e emocionalmente), ia lá depois do almoço e depois do trabalho, ficando até à noite. A convalescença corre melhor, acho eu, se o doente se sentir acompanhado e acarinhado.

O cirurgião tinha avisado que era preciso esperar 3 a 4 dias pois poderia sobrevir uma complicação.

Ao 3º dia o estado óptimo, boa cara, boas cores, a andar, a alimentar-se, praticamente sem dores.

Dentro do corpo falta um bocadão mas diz que não dá pela falta, tudo parece bem.

Novas análises: boas. Veredicto: alta hospitalar.

Sabemos que o que foi removido foi para análise patológica, que vai demorar 3 a 4 semanas, e daí sairá a percepção sobre o grau de invasão das células nefastas e daí se concluirá também sobre o que se segue a nível terapêutico. Mas, enfim, até lá não nos doa a cabeça.

Ainda incrédulos com uma tal fantástica recuperação, lá saímos do hospital. A andar ainda devagar mas tudo bem.

No sábado de manhã, a sensação de alguma tontura ao andar mas depois já tudo normal.

A minha filha dizia ao cirurgião que se tratava de um corpo forte, fantástico, e o cirurgião com sorriso irónico: 'diga também que foi bem operado...!'. As duas coisas, sim. Bem haja o corpo resistente, bem haja o competente e sorridente cirurgião.

Esta etapa foi, pois, ultrapassada e, embora seja tudo tão recente, acho que já posso dizer que correu bem. Quero ser prudente no que digo e penso mas acho que, até ver, tudo parece estar a correr pelo melhor.

E a vida continua.

Este domingo, mais um aniversário. E dia de anos é dia de festa, dia de celebrar a vida, de desejar que se contem ainda muitos anos, e a festa faz-se com todos, mesmo com quem fez uma cirurgia complexa há menos de 1 semana.

Sendo o não fazer esforços o principal cuidado prescrito, por estes dias a recuperação está a decorrer num local com assistência médica pois, embora tudo pareça bem, há pensos a trocar, temperaturas a vigiar, e há que garantir o necessário repouso que, em casa, é mais difícil pois haveria sempre a tentação de fazer o que não devia. A convalescença num local assim decorre com maior tranquilidade e segurança, acho eu e, nestas coisas, podendo-se, faz-se o que se pensa ser melhor. 

Pois, foi lá mesmo que se juntou a tropa toda. As fotografias ilustram o evento.

Para não incomodar os outros hóspedes, foi mesmo no quarto que nos juntámos. Como quem está convalescente não está de cama (e até está com melhor cara que o resto do pessoal), a cama articulada estava disponível para servir de sofá e para toda a espécie de experimentações e cabriolices.



E foi o bom e o bonito. 

Desde lutas com pseudo-artes marciais até equilíbrismos, sapateados, brincadeiras de toda a espécie e feitio, e corridas e saltos e risotas e uma chinfineira que nos fez recear ser chamados ao gabinete da Direcção para nos dar ordem de expulsão - houve de tudo.

E, claro, tanta a energia gasta, que o calor já era muito e, como sempre, os pimentinhas acabaram a jornada praticamente despidos e descalços.

Mas, depois, houve também bolo, apagar de velas, cantoria, e todos sentados ou na cama ou no chão ou nas poucas cadeiras a comer o bolo e a festejar - incluindo quem ainda há dias estava com medo e agora já ali estava cantando na maior.

E houve presentes e ramos de rosas com rama de alfazema do jardim da casa ex-velha (agora nova e bonita) e os quadros (que estão lá mais acima) cheios de cor que a minha menininha mais linda e mais artista pintou para oferecer não apenas a quem fez anos mas também a quem, não o fazendo, também merece flores e mimos.

E, portanto, nesta lógica de um dia de cada vez, cá estamos todos animados e confiantes. A vida é assim mesmo, traiçoeira, efémera, mas também cheia de bons momentos e o que é preciso é que os saibamos aproveitar, instante a instante - antes que seja tarde demais.

...

* Penso que a rapidez da recuperação se deve ao método usado. A cirurgia decorreu pelo método da laparoscopia, que, segundo percebi, é muito menos invasivo do que os métodos mais tradicionais, que metem facalhão (este, pelo vestígios e pela descrição do médico, se bem compreendi, passa por fazer um furo maior para introduzir a ferramentaria e extrair as partes estragadas e adjacentes e outros três, mais pequenos, uns fuinhos, para as câmaras e a iluminação. Pelo que vejo na wikipedia, antes a laparoscopia circunscrevia-se a umas zonas do corpo e agora, pelos vistos, já serve para muito mais. 

...

E, para um outro momento feliz, queiram, por favor, descer até ao post seguinte onde mostro uma obra em processo de construção: a arte de rua em festa ali para os lados de Alcântara.

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
E que os vossos dias tenham muitos momentos felizes.

...

A arte de rua a acontecer - novo painel em Alcântara


Em Lisboa, toda a zona de Alcântara - Av. de Ceuta, convergência com a Av. da Índia - está a tornar-se riquíssima em termos de arte de rua.

A arte de rua é, para mim, dos mais nobres tipos de arte pois coloca a arte à disposição de quem passa. E é cor, luz, imprevisto - e isso é do que precisamos, mergulhados que vivemos numa normalidade cinzenta e abúlica.

Ia a passar de carro e vi a rapariga a pintar. Difícil ali conseguir parar o carro para fotografar. Mas, enfim, quando se quer mesmo, alguma coisa se consegue. Não é muito mas aqui vos deixo o que consegui. Não sei o nome da artista mas, seja quem for, daqui a felicito. A parede estava a ficar viva, alegre, feliz.

Que venham mais artistas de rua, mais jovens, mais velhos, quem quiser, e que encham as cidades de arte, de cor, de imagens inesperadas, de pássaros inventados, de bichos mágicos, de céus, de sóis, de luas, de montanhas alucinadas, de mares intrépidos, de marinheiros sonhadores, de palavras verdadeiras, de mulheres apaixonadas, de crianças felizes, de mundos afortunados, de tudo o que quiserem. Que as cidades ganhem uma vida insuspeita e que as pessoas saiam para a rua para verem as paredes e os muros e que depois dancem e riam, felizes, felizes, renascidas.



...

domingo, agosto 23, 2015

Dismaland, o novo 'bemusement park' europeu - de Banksy with love. Ver para crer. E há mão portuguesa no Dismaland: a Wasted Rita está presente!!!!!!


Tenha eu, um dia, cabeça para organizar uma galeria dos 'mais que tudo' aqui no Um Jeito Manso e, certamente, Banksy fará parte dela. O que ele faz nunca me deixa indiferente: é truculento, carinhoso, atento, lúcido, destemido, irreverente, gosta do mundo, gosta das pessoas, gosta das crianças, é inflexível para com os desmandos do capitalismo selvagem... e tem um sentido de humor desarmante. E, sobretudo, é um espírito brilhante.

Desta vez superou-se. Os media andavam a anunciar que ele estava a tramar uma coisa em grande. Desta vez não era só graffiti, nem era só uma daquelas suas insólitas instalações, não era apenas uma pintura onde menos se esperava, não era apenas uma escultura provocadora. Não, desta vez era gozo à grande, desta vez ia gozar com a Disneyland mas, que nos preparássemos, que is ser mesmo à séria.

E cá está. Ver para crer.

O Dismaland situa-se em Inglaterra, mais propriamente em Weston-super-Mare, uma cidade perto de Bristol, a cidade natal de Banksy, e é descrito como ‘the UK’s most disappointing new visitor attraction!



O castelo Dismaland e a Pequena Sereia

Uma vista global que mostra melhor o aspecto deliberadamente decadente do parque


A abóbora/carruagem onde ia a Cinderela virou-se, a Cinderela morreu... e os paparazzis apareceram de imediato
(não há símbolos intocáveis ou tabus para Banksy - é que nem a princesa Diana escapou...)


Alguém aproveita a distração para fazer lasanha com a carne dos cavalos do carrocel


A baleia assassina sai de do local mais inesperado para fazer uma habilidade

Uma senhora é atacada por pássaros, no caso, gaivotas desencabrestadas


No lago, uma embarcação cheia de imigrantes negros

Uma visão mais geral do laguinho com barcos com imigrantes que são seguidos por patrulhas

Funcionária do Dismaland vende balões com o seguinte dizer 'Eu sou um imbecil'

Uma visão mais global para se ver o edifício com figuras e com a inscrição: Mediocre"

'Hey... Parece que há uma cena de sexo aqui dentro...'
- um graffiti típico de Banksy para que ninguém tenha dúvidas

Esquema geral do parque para que, quem lá queria ir, não perca pitada


E o Vídeo do Dismaland, o 'Bemusement park, com os cumprimentos de Banksy



...

E, para terminar com um momento musical, a seguir a uma conversa entre Banksy e uns dos músicos que vão tocar ao parque,:


Banksy meets Run The Jewels

(a propósito da próxima actuação no Dismaland - a 4 de Setembro)


I like to ask artists this question: if you could choose only one, would you rather be thought of as a great artist or a nice person?

EL-P Interesting question. We all want recognition and validation to an extent for our art, but greatness as a trade for decency is a risky proposition. In my life I try to leave the people I encounter with the feeling that they have been respected and treated with warmth and appreciation. Being known as honorable is way more important to me. But being that my career is in the public and my personal relationships are ultimately private, I suppose, for the sake of the question, being considered a great artist publicly means a bit more than being considered a nice guy publicly. Although I like to think I am thought of in that way. Point being, I don’t get paid to be a nice guy, I just try to be one.
KM I don’t know what the hell the future brings. If I did, I would play the lotto and win the mega millions and buy toy cars, real muscle cars, sneakers and art. I cannot lie: as good as it feels to get my deserved props, the best part of reading social media after I meet folks is reading: “Mike was a nice guy”. I believe being honourable lasts longer than rapping good.



....

Nota importantíssima

Em comentário, a Leitora Rosa Pinto deixou referência à participação da portuguesa Wasted Rita no Dismaland. Transcrevo as suas palavras com os meus agradecimentos e os meus parabéns à Ritíssima!


E parabéns para a Rita que participou neste projecto.

No Sol

Wasted Rita faz desenhos, ilustrações e escreve teorias sobre o que a rodeia.

Para a "Dismaland", Banksy escolheu cartazes antigos da portuguesa que dizem: "You're giving me massive diarrhea" ("Estás a dar-me diarreia maciça"), "Bankrupt is the new awesome" ("Bancarrota é a nova cena"), "I have no fucking idea what I am doing in this world" ("Não faço ideia o que estou a fazer neste mundo") e "The more I know people the more I love snakes" ("Quanto mais conheço as pessoas mais gosto de cobras").

Além disso, Rita irá replicar, na "Dismaland", a parede "Love Letters" ("Cartas de amor") que criou no Parque das Nações, em Lisboa, durante o festival SuperBockSuperRock, no passado mês de julho.


Entretanto, vi que também a Visão referiu o facto e aqui deixo o link

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo. 

...