Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

sexta-feira, março 22, 2019

Qual a palavra para dizer azul, silêncio, limpidez?





Nos outros, eu gosto de ler textos curtos, palavras soltas. Mas eu, quando me ponho a escrever, não sei ser contida. Falta-me um freio, falta-me um filtro, falta-me a sabedoria para destilar as ideias. 

É como na pintura. As que escolhi e comprei aqui para casa são neutras, claras, simples. Eu, se me ponho a pintar, desfaço-me em cor, incapaz de controlar a torrente.

Não sei que é isto em mim, este excesso. 


Por exemplo, agora estou com vontade de escrever sem ser por nada e gostava mesmo era de ser capaz de saber dizer palavras silenciosas, transparentes. Estou a escrever e a parar, a pensar, sem saber como escrever para que, quem leia, se sinta como se estivesse a contemplar, em silêncio, uma lâmina de gelo azul, límpida, perfeita. Pétalas de azul efémero.

Também gostava de saber falar sobre a paz. Não a impossível paz no mundo mas, sim, apenas, a paz entre duas pessoas talvez unidas por invisíveis e inconfessáveis laços feitos de palavras. Mas não sei. Acredito que seria preciso muito mais do que sei. Não sei alcançar as quimeras, não sei como aproximar-me do transcendente. Nem sei se a palavra transcendente aqui faz sentido pois desconheço as letras que deslizam, frescas, azuis, que se unem, que formam palavras puras. Afecto, luz, paz, água, azul, olhar, silêncio. Ou fogo.


Uma cama azul, infinita, amores perfeitos e intangíveis, palavras cegas, perdidas, procurando o gesto, o tacto, o remoto olhar. Soubesse eu qual a palavra, a única palavra, soubesse eu dizer pouco e numa única palavra guardar dentro o reflexo, a saudade, o sonho, o murmúrio, o fogo. Mas não sei.

Talvez a palavra amor.

Mas não sei.

_________________________________________________________________

As fotografias mostram o gelo a quebrar-se no Lago de Michigan
_________________________________________________________________


________________________________

quinta-feira, março 21, 2019

Gosto deste homem, o que é que hei-de fazer?


Estamos a viver tempos incríveis. Tudo tão inesperadamente caótico, tão imprevisível e fora de controlo que, quando a coisa parece que vai num determinado rumo, alguém lança uma cartada e vira o jogo tornando os prognósticos ainda mais impossíveis.

A Ana, Lady of Vaz con Cellos, dizia que até é difícil não ter pena de Theresa May, a patareca-mor, e eu concordo. Tudo lhe corre mal, todo o mundo dá patadas, não especificamente nela mas muitas acabam por acertar-lhe -- e sempre tudo à vista do mundo, a malta a rebolar de riso com tanta falta de jeito. E o P. Rufino tem razão, aquilo é uma democracia, aquilo ali é um lugar de gente com muita história e pedigree. Mas mais parecem daqueles aristocratas já com os genes muito ensarilhados, sem noção da realidade, ainda a viverem num comprimento de onda que já acabou no século anterior. 

O tempo está em contagem decrescente, a guilhotina a baixar devagarinho e todos incapazes de saberem onde está a saída do labirinto em que se enfiaram.

A pobrezita ali anda a bater a todas as portas e toda a gente a bater-lhe com a porta no nariz. Uma das fotografias do dia é deliciosa: ela e o outro tão patarata como ela. Ela com um corte de cabelo que não correu bem. Ele naquela sua postura sempre tem-te-não-caias. Ela a olhar para ele com ar de galinha desconfiada. Ele com ar de peru velho recosido em vinha de alhos.


O que é que pode sair de bom de um tal par de jarras?

E, no meio desta cegada, desta gente descomandada, continua a sobressair o Speaker. Despudoradamente despenteado, com gravadas criativas, John Bercow dá lições de democracia, de bom comportamento, de graça, de fluência vocabular e gramatical e de etiqueta. Acresce que tem um pulso naquela maltosa que dá gosto. Veja-se este vídeo aqui abaixo para se perceber porque é que gosto deste fantástico mariola (e, calma, mariola no bem sentido).

Bercow defends Parliament after Brexit delay: 'None of you is a traitor'


John Bercow has defended MPs against Theresa May’s accusation that they are frustrating the will of the people over Brexit. Addressing the House of Commons, the Speaker stood up for the right of parliamentarians to vote according to their principles, after the prime minister suggested their failure to back her agreement was responsible for delaying the UK’s departure from the EU.


__________________________________

Já agora, para quem precisa de relaxar, distender ou meditar:

Aula de Yoga versão Brexit pelo Mestre Sammy J


Sammy J helps us flex our foreign muscles with a brand new flow straight out of Europe. 
Biting, bite-sized comedy as Sammy J tackles the big issues of the day, wrestles them to the ground, then submits them to a variety of yoga poses, sporting analogies, and craft activities.


Até já

Desconversa light






Parece que há quem pense que de Lisboa -- do Restelo ao Parque das Nações, de Carnaxide até à Graça, da Ajuda até aos Olivais, e etc -- não se avista nenhuma serra. Se calhar pensam que, em Lisboa, apenas se vêem montras e trotinetas. Mas vêem-se: serras. Mais do que uma. Já para não falar das que se avistam lá mais longe, a sul. Mas não faz mal. É até bom saberem que têm muito por descobrir. Em vez de se porem a suspeitar de tudo, achando que invento quando falo de serras e rios e céu e luz, mais valia que se alegrassem por ficarem a saber que têm um mundo de coisas insuspeitas pela frente, tanta coisa para aprender. Agora que é engraçado, é. É que não se acanham de lançar suspeitas. Comprova-se a toda a hora que a ignorância é muito afoita. 


E todo o santo dia me aconteceu disto: bizarrias, maluqueiras, gente que convida outros para coisas que não sabe dizer que coisas são, gente que diz que os outros não se sabem explicar e os ditos outros que se queixam que eles não percebem nada de nada, gente que disfarça inseguranças com galhardias, gente que confunde poder com prepotência mas que, quando confrontada, mete o rabo entre as pernas e recua, a ganir, para a casota. Coisas desconexas, descabeladas, coisas que andam às arrecuas. E eu? Dentro do cenário. Desalinhada e inserida. E, às escondidas, divertida. O mundo de verdade é um mundo imperfeito, disparatado, cheio de suculentas surrealidades. Podendo, por vezes, parecer que não, a verdade é que sim: gosto.

Haverá quem diga que lá estou eu com fantasias. Mas não. Teria mais graça se pudesse contar que engoli um apito e que outra coisa não fiz ao longo do dia do que soltar involuntários assobios ou que, estando eu a fazer meditação no vértice de uma pirâmide de cristal turquesa, veio uma borboleta pousar no meu mamilo direito. Mas não. Coisa boa só acontece aos outros, a mim só banalidade.

O que vale é que, de vez em quando, me dá para pular a cerca, a cerca gastronómica quero eu dizer, e penetro em lugares desconhecidos e peço iguarias que não sei o que são e descubro coisa boa, sabores novos, e são sabores marroquinos, sabores indianos, sabores coreanos e se vejo ingrediente com nome nunca lido, então, é esse que quero. E é doce, picante, agridoce e sabe a flor, a fruta, a especiaria e nem tento saber o que é. E esses sabores bons derretendo-se-me na boca dão-me vontade de primavera. 

Ou perfumes. Se passo em perfumaria e vou com tempo, gosto de experimentar. Aromas com nomes exóticos. Ou não exóticos mas apenas evidenciando a minha incompetência para conhecer essências fundamentais. Gosto de experimentar. Gosto de sair de lá perfumada por mil perfumes diferentes. Coisa soft, só um pinguinho de coisa boa. Tudo junto não fica muito. Fica apenas cheirinho bom. E aspirar esse cheirinho também me dá vontade de primavera.

Ou abrir livro de poesia, ler verso solto, poema limpinho deitado na página branca. Gosto. Não pode ter palavra de prosa, falta de música, realidade a mais. Se encontro isso, deixo logo para trás. Tem que ser palavra luminosa, bonita, com melodia elegante, som de sombra, sopro de voo, coisa ainda não nomeada. Disso eu gosto, fico parada a ler, devagarinho, deixando o som da palavra pousado ao de leve no coração ou na palma da mão. Poesia escrita em livro é palavra inscrita em árvore. E pensar nisso dá-me vontade de primavera.

Podia também agora falar da lua que hoje está branca e que é outra vez a maior, a mais branca, a mais esbelta, a mais quente, a mais próxima, a mais redonda do ano. Mas não. Não vou falar. Lua cheia virou coisa banal, commodity, já anda na boca de qualquer um, título de notícia em canto de página, fotografia a metro. Olhei para ela e ela não me disse nada. Portanto, desviei o olhar à procura de alguma outra coisa que me desse vontade de primavera.

E há muitas. Algumas estão dentro de mim e não conto a ninguém. Outras são indefinidas. Vontade de. Vontade de ter vontade. E a primavera vem. Já cá está. Só falta agora os dias ficarem grandes. Um destes dias aventuro-me a ir andar em cima do rio ao pôr do sol. Das vezes que andei, em Madrid, por exemplo, ou a subir a uma serra na Suiça, tive um medo que me deixou transida. Andar nas alturas, aquilo a parecer que não vai caber nas argolas, um susto. Mas pode ser que consiga livrar-me de vertigens para desfrutar o bom que deve ser, na primavera, ao fim do dia, andar de teleférico sobre o rio, em Lisboa. E, sim, em Lisboa também há teleféricos. Até há leões. E galos. E formigas. Ver formigas a andar em carreirinha também é bonito.

Mas formiguinhas dentro de casa não. Só na rua. Formiguinhas, apressadas, organizadinhas, são como nós ao fim do dia, em noite de cidade cheia de carros. 

Mas é isto. Penso que o dia que passou veio em pack, um pack promocional: equinócio, primavera, árvore e felicidade. Tudo bom. Só faltou vir com minutos ilimitados.

Mas pronto, tirando isto, nada mais tenho a desacrescentar. Só se for que hoje não me meto na disputa na caixa de comentários, que agradeço, pois, a esta hora, já sou como a maré a recuar.  Por isso, vou ficar por aqui e fechar os olhos para pensar em figurinhas de cores quentes e alegres, malandrecas e bué primaveris, se calhar quase estivais.

O pior é que não chove.


------------------------------------------------------------------------------------------------

Isabel, desta vez não me esqueci: o autor das pinturas é Yoo Youngkuk

-----------------------------------------------------------------------------------------

E pensavam que aquilo do apito ou da borboleta era fantasia?

Acertaram. Fantasia e da boa.




Um dia feliz a todos. 

quarta-feira, março 20, 2019

Uma casinha na árvore





Vivi quase sempre em lugares altos. Em casa dos meus pais eu levantava-me e ia à varanda ver a serra. Ao princípio, via também o rio mas, depois, perdeu-se essa vista. Mas a vista sempre foi desafogada. A serra, um castelo, as casas ao longe, uma vastidão à disposição do olhar.

Depois, já quando por minha conta, vivíamos mesmo perto do céu. Um ninho de águia. O rio a toda a volta.

Agora ainda. Tenho cidade, tenho rio, tenho serra. Levanto-me e vou à janela. Fotografo vezes sem conta a largueza que o meu olhar alcança, como se quisesse fixar uma vista única. E é única. A luz muda de dia para dia, ao longo do dia. E isso muda tudo.


Quando andávamos à procura de um lugar no campo, procurámos tanto. Ou eram caros, ou eram espaços acanhados, mal avizinhados, confinados ou as casas eram feias ou escuras. Até que descobrimos este espaço a que aqui chamo heaven. Uma vista desafogada, a serra, o vale, saber que o rio corre lá ao fundo, poder ver o nascer e o pôr do sol, à noite muitas mil estrelas num céu infinito.

Gostava de ter a casa mais embrenhada em árvores. E está um pouco e o que me salva do furor radicalista do deita-abaixo é que são azinheiras, árvores gigantes e lindas, protegidas. Se for à janela ou quando abro as portadas para a rua fico no meio do verde e é uma sensação maravilhosa, uma paz total, um silêncio apenas entrecortados por trinados felizes. 


Mas a ideia de poder ter uma casinha mesmo no meio das árvores, uma casinha de madeira, não me abandona. Não me canso de ver 'modelos' e imaginar sermos mesmo nós a construir uma. Depois levar lá os meninos. Estar com eles a ver o imenso verde, o céu imenso.

Não terá nada a ver com a casa de Jim Olson o que imagino pois é mesmo numa cabanita que penso -- nada de grandiosidades, muito menos de luxos, mesmo que luxos despojados. Penso numa escadinha, uma casinha pequenina mas com uma varandinha para lá pormos duas cadeiras confortáveis. E sentarmo-nos lá a ver os montes, o arvoredo, ouvir o canto dos pássaros. Imagino isso.


E, enquanto isso não nasce das nossas mãos, vou-me entretendo a ver casas no meio da floresta, espaços arejados, luminosos, aconchegantes. A casa que abaixo se vê é linda, linda. Gostava de poder, um dia, passar uma noite numa casa assim. Uma noite ou um dia. Ou uma noite e um dia. 

In Residence: Jim Olson - inside the architect's treetop house


----------------

Pinturas de Fed Williams e o Gabriel's Oboe de Ennio Morricone a acompanhar

----------------------------

Confissões e circos no post abaixo.

-------------------------------------------

Então mas não é que o filho da mãe do algoritmo do YouTube me aprontou mais uma...?


Acabei de mandar um mail que terá o efeito de uma bomba. Anunciei que esta quarta-feira vai haver festa. Não sei ainda bem a dimensão da dita mas palpita-me que vai ser das boas. Sinto um ligeiro frémito interior antecipando o tamanho do salsifré. 

Não sei a quem saí com esta minha maneira de ser. À minha mãe não é que se enerva perante a necessidade de tomar decisões que, de alguma forma, possam causar algum incómodo. Ao meu pai também não pois tinha insónias mesmo sem ter com que se enervar, faria quando alguma coisa o preocupava. 

A minha filha, quando aqui escreveu um dia sobre mim, disse que eu não tenho medos. tenho, claro que tenho. Por exemplo, tenho medos quando a coisa se refere à descendência. Aí, preocupo-me, inquieto-me. Mas sobre coisas minhas, do trabalho e assim, sinto uma leve agitação interior, uma espécie de ímpeto destemido que me impele a ir em frente. Assola-me, por vezes, à mente um certo receio de que o que me preparo para fazer tenha consequências imprevisíveis e desagradáveis. Mas isso não me refreia os ânimos.

Mas, portanto, tendo eu acabado de lançar a bomba, resolvi passar os olhos pelas notícias -- e que dor de alma ver o que se passa em Moçambique, que desgraça tão grande, que infelicidade, que impossibilidade de fazer frente a tamanha tragédia --- resolvi passar para o YouTube a ver se me distraía um bocado.

E vai o sacana tem para me mostrar uma coisa do caraças, quase alusiva à minha situação. E logo a mim que tenho pavor de alturas, que tenho umas vertigens que me deixam com os pés desasados. Vai ele ali nas alturas, na corda bamba e, às tantas, até a corda de segurança lhe falta. Caneco. Será aviso? E será que o diabo da inteligência artificial do tipo capta mais do que deve? Andará a ler-me os pensamentos? Vai ver é isso.

Charlie Chaplin no Circo


-------------------------------

As pinturas são de Sol LeWitt

--------------------------------------------

E agora, depois de dar o post por acabado, volto ao YouTube e ei-lo: o vídeo completo onde posso ver como é que a coisa acaba.



Já agora, falemos de Miss Val



Não posso alongar-me. O novo dia já aí está e vai ser dose. Portanto, tenho que ir dormir e não vou poder falar melhor de Miss Val. Digo só que é elegante, bonita. Aquilo a que se chama 'feminina'.

Num contexto daqueles, é costume os treinadores serem assexuados, eficazes, exigentes e desprovidos de charme. Não é seguramente o caso de Miss Val. 

Valorie Kondos Field, Valorie Kondos de nascimento, tem 59 anos, apresenta-se com o seu farto cabelo bem cortado, bem penteado, aparece elegantemente vestida. E é alma de uma equipa de talentos. Sabe motivar, incentivar, inspirar os jovens que trabalham com ela.

Quanto a bolinha saltitona se atira ao ar rebentando em alegria, quando toda a gente abraça e aplaude os sucessos uns dos outros, é Miss Val que está por trás, é dela que vem a alegria, a graça, a confiança.

Para encurtar razões, deixo-vos dois vídeos que se vêem com gosto.





...........................................

Convido-vos a descerem pois há mais dois posts: um sobre a patifaria do João-Maluco das Gravatas e outro sobre a bola saltitona humana.

----------------------------------------------------------------

Por caridade não falo daquilo do Jerónimo sobre a 'democracia' da Coreia ou do Rio a passear com uma galinha ao lado, os dois a cacarejarem contra incertos. Fica para outro dia (porque não é todos os dias que a santinha desce em mim).

------------------------------------------

terça-feira, março 19, 2019

E, quando menos se esperava, ele puxou a toalha...


Muito cá de casa, ou não fosse daqueles malucos de quem eu tanto gosto -- malucos com graça, que sabem manejar uma bela frase, que usam a palavra com elegância, provocação, sedução, que sabem que a palavra é arma e muito mais que arma --, John Bercow surpreendeu toda a gente com uma decisão. Disse com palavras completamente british aquilo que eu digo com palavras bem cá das minhas: se a patareca da Theresa May lhe aparecer pela terceira vez com mais do mesmo vai receber ordem de ir é dar banho ao cão. Que já chega. Nem precisa de ser a mesma coisa: basta que seja quase igual. Com ar amofinado, anunciou que já deu demais para esse peditório. Chega. Basta. Xô. Bem que a plateia se levantou em protesto que ele nem aí. Justificou, confirmou, reconfirmou. Se é para lhe aparecerem com mais qualquer coisa para votar pois que seja material fresco, peixe do dia, couve apanhada no dia. Senão, meia volta e andor.

Agora uma coisa é certa: este processo do Brexit vai dar muito filme, muita série. Tem tudo: comédia, drama, traição, suspense, lágrima, gargalhada, soluço, pateada. Ingrediente do melhor. Pitéu assegurado.


E, no centro do palco -- naquele parlamento onde a malta se acotovela, braço com braço, perna na perna, sem poderem estar a ver os posts do face ou a mandar mensagens de uns para outros -- estará Bercow, o despenteado, o das gravatas mais inesperadas, o que grita a plenos pulmões Order! Order!
In a surprise statement to MPs, John Bercow says government cannot bring meaningful vote back to parliament again unless substantial changes have been made to the prime minister's Brexit deal. The Speaker said there had been much speculation about another meaningful vote after MPs expressed concerns about being asked to vote on May's deal more than once

Speaker says May cannot have vote on same Brexit deal



-----------------------------

E queiram descer para ver uma menina saltitona a tirar mais um 10


Mais um 10 para uma maravilhosa e alegre saltitona


Não me canso de ver esta miúda. Nunca vi coisa assim. Esta é outra das que aparece uma vez em cada cem anos. Temos visto, ao longo dos tempos, muita miúda ultra ginasticada, mecanizada, miúdas que saltam, que se equilibram, que surpreendem pela elasticidade. Mas como esta nunca vi. É que esta é isso e muito mais. Esta é alegria em estado puro, é a alegria personificada. É dança, é salto,  triplo salto, salto para a frente, salto para trás, é espargata, é roda, é riso, é equilíbrio, é força, é leveza, é felicidade.


Vejam, por favor, este último vídeo. Depois de encantar e alegrar toda a gente e arrancar mais um dez -- um 10 perfeito, redondo, absoluto, total --ela agradece, ela dança e, por fim, até conduz uma banda. Nunca vi coisa assim. E tinha estado doente na semana anterior. É de loucos.

Katelyn Ohashi (UCLA) Perfect Ten Floor vs Utah State 2019


segunda-feira, março 18, 2019

Mãos doridas -- e a primavera já instalada in heaven





Hoje vou vencer a preguiça e vou buscar umas fotografias que fiz. Ainda não as vi mas acredito que algumas se haverão de aproveitar.

[Pronto. Já fui. E, como podem ver, já para aqui começaram primaverilmente a saltar].


Até me custa a abrir as mãos, doridas que estão tanto o trabalho de desbastar árvores. O meu marido diz que com a mesma convicção com que antes queria poupá-las, agora convictamente quero vê-las levantadas até onde faça sentido fazê-lo. Diz que já chega e eu descubro sempre alguma que precisa de intervenção. Explico que é o efeito da consciencialização. Ter árvores frondosas e respeitar a natureza era um paradigma que me parecia sagrado. Agora a minha cabeça mudou. E o facto é que se a paisagem mudou, eu acho que mudou para melhor. Há alguns pinheiros mansos, inocentes, que ainda me custa ver, habituada que estava a copas fartas, rodadas, alegremente pegadas umas às outras. Agora, para as afastar, as copas foram escadeadas, aparadas, desbastadas e, muito francamente, ainda não estou certa que faça sentido fazer isto. Mas, enfim, pode ser que razões de segurança se sobreponham a razões estéticas e, portanto, paciência, já está. 


Mas, de resto, todo o espaço me parece agora mais luminoso, os pássaros cantando mais acima mas mais apurados no trinado, o pulmão mais solto, a voz mais franca. E se o pulmão neste caso não se aplica pois que fique pela metáfora que o entusiasmo dos pássaros bem o justifica.

Tenho agora visto muitas rolas. Andam por lá, cores suaves, rosado, platina e pérola, requintadas habitantes de um espaço tão rural.

Vimos dois gatos. Um preto e branco, mais esquivo e o cor de mel que se instala como se fosse o dono do pedaço. Usa, até, de poses senhoriais. Olha-nos, orgulhoso. E eu acho muito bem.


E, por falar em animais, aconteceu uma coisa. Estava eu a arrastar as pernadas de aroeira, uma aroeira gigante que não pára de crescer e de lançar pernadas junto a uma das escadas de pedra, enquanto o meu marido as serrava, quando apareceram dois cãezinhos vindos de uma outras propriedade. O me marido é que os viu: 'Olha! O que é que andam aqui a fazer?'. Os cães deram ao rabo e foram atrás de mim. Eu a arrastar os ramos e eles atrás. Até pensei que pareciam os meninos das alianças atrás da cauda da noiva. Quando voltei, vinha o meu marido com mais ramos e vimo-los muito aplicados com qualquer coisa no chão, um bocado lá mais ao fundo. O meu marido disse: 'Viste ali alguma coisa? Os gajos estão a comer alguma coisa'. Não, não fazia ideia. E ele também não. A verdade é que estavam os dois a comer e, no fim, lamberam os beiços. E, assim como vieram, assim se foram. Fui ver se descobria o que tinha sido e nem vestígio de nada. Se não tivéssemos visto os cães a banquetearem-se não saberíamos de nada. Eu passei ali antes e depois e não vi nada.


Mas, dizia eu, a paisagem mudou. Agora da sala consegue-se ver ao longe, até a parte de cima e o telhado da capela se vê. Pelo meio havia arbustos, havia árvores frondosas. Agora há uma profundidade de campo que me agrada. Do lado de lá é a serra. Dantes tinha que ir para alguns lugares mais altos para a ver, majestosa, a guardar o horizonte. Agora não, agora daquele lado está ao alcance do olhar a quase toda a volta. Muda de cor ao longo do dia mas é ao fim do dia, quando se funde no azul que desce do céu, que eu mais gosto de vê-la.


Não tenho conseguido ler. Ao fim de semana tem sido impossível. Também pouco tenho pegado nos tapetes, quer no que estou a fazer in heaven, quer aqui, na cidade. 

Hoje, a minha filha avisou-me que iam passar a tarde a casa do irmão, que os miúdos iam jogar à bola no relvado, mas que não queria vir tarde de lá. Disse-lhe que não dava, que ainda ia a casa dos avós. E foi. Só chegámos aqui a casa lá para as oito e meia da noite e ainda com sopa para fazer, coisas para arrumar. E esta noite nem foi das mais trabalhosas porque trouxe entrecosto já feito de lá e já tinha feito uma máquina de roupa na sexta à noite. Mas estou aqui a estou a pensar que ainda temos que arranjar a salamandra e que temos que pintar o tecto no sítio para onde o foi o fumo quando o tubo se soltou, que ainda temos que ver como desbastar uma pernada muito alta de uma azinheira que está já muito perto do telhado do estúdio, que temos que insistir com o senhor que já era para ter ido há mais de um ano arranjar uns canteiros que estão a dar de si e nunca mais vai.


E esta semana vou ter reuniões e trabalho que não acaba mas agora nem me apetece pensar nisso, parece-me coisa secundária.

Quase não tenho visto televisão. Sei que há uma tempestade, um ciclone, penso, em Moçambique e vi imagens que me deixam de coração partido. Nestas alturas em que a natureza mostra a sua força indómita percebe-se quão frágeis são os homens, em especial os mais pobres. E vi imagens de Paris. Feridas abertas no coração de França. Vandalismo total. Alguma coisa está ali a falhar. Li qualquer coisa sobre fake news a invadirem as redes sociais francesas, boatos e falsidades provenientes da Rússia. A democracia demonstra ser frágil perante a força imensa da maldade.

E agora, enquanto escrevo, ouço na RTP 2 uma professora universitária a falar dos riscos reais da cibersegurança. Temas que mostram como é fácil o mundo perder o controlo face a ameaças que nascem do uso desregulado das tecnologias.

Mas não é agora o momento para falar sobre isso. Estou cansada, uma nova semana está a começar e ainda quero tentar responder aos comentários.


A todos desejo uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

domingo, março 17, 2019

Clara Antunes não existe
[Coisa que concluo depois de um feliz dia de trabalho de grupo no campo]




A menininha linda também gosta de podar árvores. Sozinha cortou uma rodada de ramos altos de cedro. Ajeitou-se com aquele serrote na ponta de um grande cabo que ofereceram ao avô pelo Natal. O bebé pegou num pau grande, uma estaca redonda e comprida, e andava também com ela ao alto debaixo das árvores a fazer de conta que fazia o mesmo que a mana e os grandes faziam. Também andou com o carrinho de mão onde punhamos as folhas secas e ia despejar, todo contente por ir despejar o 'lixo'. O mano do meio preferiu andar de bicicleta, anda em grande velocidade e, se cai, levanta-se, sacode-se e volta a montar-se e a pedalar. No carro, quando íamos petiscar, enquanto eu falava com a minha mãe, pediu para eu contar que também andou a pôr ramos na fogueira.


O pai deles deitou abaixo, à machadada, um pinheiro. Dito assim custa a crer e eu, se não tivesse visto, ficaria admirada. Mas assisti e confirmo: atirou abaixo um pinheiro alto à força de machadadas. E cortou um ramo gigante de eucalipto. Quando o ramo estava quase separado do tronco principal, começou a ouvir-se ranger, depois as folhas a agitarem-se e, de repente, aquele grande volume desabou lentamente, a despegar-se progressivamente, até que, num grande estrondo, caíu por terra. Desramou também vários pinheiros em altura, serrou os troncos grandes em troncos pequenos e ajudou na fogueira. Ao fim do dia estava, tal como os filhos, cansado e cheio de sono. A mãe dos meninos também desramou pinheiros e varreu o 'campo de futebol' que estava pejado de folhas secas. Ao fim do dia adormeceu no sofá mas, à noite, era a que estava mais acordada pelo que foi ela que foi a conduzir de volta para casa.


Eu também desramei árvores mas hoje não muitas pois, sobretudo, andei atrás do bebé (que já não é bem um bebé mas um rapazinho lindo e terrível, muito independente e cheio de personalidade e, não menos importante, com um sentido de humor fantástico: faz patifarias e, se vê a minha cara espantada, desata a rir à gargalhada). Também trouxe os meninos para casa para lancharem e para ficarem a brincar aqui à porta de casa enquanto os crescidos ficaram no trabalho pesado lá em baixo. E fiz também um ditado à menina já que vai ter teste na segunda-feira e os pais fazem questão que se prepare. 

O meu marido, por seu lado, arrastou toneladas de ramos para a fogueira (queima esta devidamente autorizada, refira-se, que isto agora está, e bem, tudo controlado) e disse-me que também desramou árvores. 

Conto-vos: é impressionante a quantidade brutal de ramos e de árvores que se têm cortado e queimado e de cuja falta não se sente -- já que tudo o que fica se desenvolve à força toda, num vigor assombroso.


Como sempre, quando já estavamos apenas os dois, cheguei aqui e adormeci. O meu marido anda na mesma e queixa-se: 'um gajo não descansa'. É que, se as semanas úteis pedem o descanso do fim de semana, a verdade é que há não sei quantos que não temos podido ter as merecidas tréguas.

De cada uma das coisas de que aqui falei tenho fotografias. Vou acompanhando o andar do tempo quer com as minhas palavras, quer com as minhas fotografias. Não é apenas a permanente transformação da natureza que vou registando, é também a transformação dos meninos. Estão grandes, desenvoltos, amorosos. 


Entretanto, ao abrir o YouTube, voltou a aparecer-me, como sugestão, o trailer do filme que tentarei não perder quando cá aparecer: Celle que vous croyez. Não sei bem como traduzir: Aquela em que acreditas? Aquela que achas que conheces? Aquela que tu julgas que eu sou? Talvez seja mais este último.

Já tinha visto pois tem-me aparecido amiúde. E já li e vi entrevistas, nomeadamente com a actriz principal, Juliette Binoche.

É a história de Claire, uma professora universitária com 50 anos, que, para se vingar de um amor perdido ou para se desforrar da sua condição de mulher a perder o viço ou apenas para tentar viver uma situação emocionante (não sei -- nem sei se ela sabe), cria um perfil falso, o de Clara (Clara Antunes porque, quando estava a criar o perfil, ao pensar no nome, pousou o olhar num livro de Lobo Antunes).


Para tal inventa que tem 24 anos e, para a coisa ser credível, arranja uma fotografia de uma rapariga bonita e usa-a. Aproxima-se, então, de um jovem, amigo do ex-amante. Aos poucos o jovem apaixona-se por ela. Ela é simpática, sempre presente, usa frases joviais, emojis e outros bonequinhos, e assim vai enleando o ente cada vez mais seduzido. E do facebook passa para o telefone. E, aos poucos, vai, também ela, ficando prisioneira do avatar que criou, passando de sedutora também a seduzida. Rejuvenesce, apaixona-se. E, no entanto, ela é apenas uma voz, palavras, uma presença remota. Só que o mistério e intangibilidade seduzem. O trailer mostra as sessões que Claire tinha com a psicóloga, onde explica o que se passa.


Sem culpa: pelo contrário, com desarmante franqueza, Claire explica que, se não se disfarçasse de jovem alegre e descontraída, Alex, o jovem, não se apaixonaria por ela.

Este mundo virtual em que se podem criar personagens, inventar-lhes uma identidade, criar laços com outros seres que igualmente são nada mais do que presenças intangíveis do lado de lá do espelho é algo que me interessa bastante.


Tenho conhecido personagens assim, por aqui.

Uma coisa é uma pessoar ser anónima. Por razões pessoais ou profissionais uma pessoa pode não revelar a sua identidade. É o meu caso. Mas, em tudo o resto, haver verdade e, até -- se no mundo virtual faz sentido falar nisso -- haver transparência. UJM sou eu.

Mas outra coisa é inventar personas, dar-lhes um nome e criar para elas uma imagem, uma história, uma maneira de ser. Note-se que, ao falar, não critico isso pois admito que seja um caso psicológico, uma impersonalização, uma transposição de uma personalidade ficcional para um avatar. Não sei explicar bem mas admito que possa até não ser coisa voluntária ou racional. Suponho que o próprio acaba -- tal como Claire ficou prisioneira de Clara -- também refém das mentiras que vai criando para dar vida ao seu personagem, e isso dá-me alguma pena.


Há depois outras pessoas, pessoas com frustrações, que vivem vidas de solidão, e que preenchem o vazio aproximando-se virtualmente de outras pessoas, imaginando amizades maiores do que são na realidade, ficcionando afectos, insinuando-se, seduzindo. E, se percebem que, do outro lado não há disposição para alimentar essa fixação, forjam novas personagens que usam para se vingarem, para acusarem, para difamar, intimidar. E, de novo, falo nisto sem crítica. Acontece e há que aceitar que a vida é cheia de situações que preferíamos que não existissem. Mas o mundo não é perfeito. Há pessoas com problemas, que precisam de ajuda. Mais do que rejeitá-las, tenho pena, desejo que procurem apoio, que se tratem. Viver uma vida na sombra de personagens, ou mostrando uma carência afectiva muito grande ou mostrando rancor pela felicidade alheia, é uma forma estranha e, creio, pouco saudável de viver a vida.

Mas, enfim, não tenho conhecimentos suficientes para saber qual a melhor forma de lidar com estas situações. Diria que não se deve alimentar a dependência dessas pessoas, que o melhor é deixar que percebam que devem procurar tratamento ou alguma outra forma de apoio. Mas não sei mesmo.




-------------------------------------------

Lamento não conseguir responder aos comentários ao post de ontem. Passa bem das duas da manhã, estou perdida de sono. Se conseguir ligar o computador durante o dia, tentarei responder. Vai ser muito preenchido mas pode ser que tenha uma aberta. Aceitem as minhas desculpas.

As pinturas que usei neste post são de Hee Sook Kim.

-------------------------------------------------------------

A todos desejo um feliz dia de domingo

-------------------------------------------------------------------------------

sábado, março 16, 2019

Fantasias e delírios?
Ná.
Provocações e irrealidades?
Ná.
Lágrimas e suspiros também não.





Se falo verdade, há quem ache que ficciono. Tem graça isso -- e digo que tem graça porque, na realidade, não segue qualquer lógica. Se digo que fui boa aluna, desacreditam. Se dissesse que tinha sido má aluna acreditavam. Não percebo o racional dessas pessoas. Uma vez, numa história toda ficcionada que se bem me lembro incluía príncipes marroquinos a dizerem poesias, inventei uma cena que metia um jantar num palacete numa das mais belas vilas do país. Descrevi a casa, a decoração, o requintadíssimo repasto que lá tinha tido dias antes. Pois foi nisso, que era a única coisa verdadeira da história, que algumas pessoas não acreditaram. Acharam que estava a armar-me ao pingarelho. 


Licenciei-me num estabelecimento de ensino do mais clássico que há, fiz um curso que só não foi uma tareia das valentes porque sou dada a pôr os pesadelos para trás das costas. E, não sei com base em quê, há quem aqui chegue para dizer que devo ter feito daqueles cursos à Relvas, equivalências e diplomas ao domingo. Uma vez mais, não consigo compreender a linha de raciocínio de quem assim pensa.

E dizem-me que gosto que me massagem o ego. Nada mais errado. Se há coisa que detesto -- mas que detesto mesmo -- é de ser bajulada. No meu dia a dia, se alguém ensaia puxar-me o saco nem chega ao primeiro acto, vai logo de asa. E se há coisa que me diverte e me dá pica é que tentem arreliar-me. Tal como na 'vida real' gosto de uma boa disputa, gosto de discutir política, gosto de debater ideias sob visões antagónicas, aqui acontece o mesmo. Mas isso é diferente do insulto gratuito. Mas, mesmo assim, fico com vontade de dar troco. Se aqui calha aparecer um daqueles comentários que destilam fel ou parvoíce, é com entusiasmo que me atiro a dizer das minhas.


Também há quem se queixe que falo muito de mim. Presumo que sejam pessoas que não gostem do registo autobiográfico. Mas essas pessoas devem perceber que o que se passa aqui é coisa marginal na minha vida. Ponho-me a escrever porque gosto de escrever. À hora a que escrevo não tenho discernimento para ter muito assunto. Tal como os pintores que, à falta de modelo, se põem ao espelho e fazem auto-retratos, também eu, à falta de melhor assunto, falo de mim. Não frequento redes sociais, mal vejo televisão e, se não me ocorrem umas bocas sobre a actualidade, não tendo do que falar mas fervilhando-me os dedos para escrever, falo do que fiz ou do que me lembro. Se falo de mim, não invento. A menos que escreva uma história na primeira pessoa, mas aí é óbvio que se trata de ficção, no resto o que digo é tal e qual. E acho que se percebe quando é e quando não é história.


Por exemplo, se escrever assim:
Estava a conduzir numa das mais movimentadas avenidas da cidade. À minha frente, um carro branco, que reparei que tinha muitos anos, abrandou. E, para minha estupefacção, uma porta abriu-se e de lá saltou um pequeno gato preto. Travei, assustada, o coração acelerado, temendo matar o gatinho e, ao mesmo tempo, temendo que um carro me batesse. Sem ver o gatinho, sem saber em que direcção tinha ido, fiquei sem saber se podia andar. Os carros atrás de mim travaram. Avancei devagar, aflita. Mas não senti nada. Olhei para todos os lados. Nem sinal do gato. O carro branco acelerou, mudou de faixa e saíu por uma rua à direita. Ainda atordoada, pensei na maldade extrema de quem tinha feito aquilo de propósito para matar o bichinho. 
ou
Estava a conduzir. Num semáforo, ao parar, reparei que no carro ao lado estava um advogado que costumo ver frequentemente na televisão. Via-se que falava em alta voz. Ria, falava. A vantagem do bluetooth. Depois, como o sol lhe batesse nos olhos, pôs uns óculos escuros. Homem com muito charme. O sinal abriu, arrancámos. Encostei para virar e ele também, na faixa ao lado da minha. Estava calor, abri o meu vidro. Do carro dele vinha agora o som de uma ária. Pensei: Tosca. Mais à frente, pouco antes de passar por uma rua onde se encontra um dos grandes escritórios de advogados, o carro dele abrandou para virar. Reparei que ao seu lado estava agora uma mulher. Não estava antes e, no entanto, nenhuma mulher tinha entrado. Quando olhei, reparei como sorriam, ela ajeitando o cabelo.
penso que é claro que uma das narrativa é cem por cento verdadeira e que outra tem uma pitada de ficção (embora não mais que uns cinco por cento de ficção), pitada essa que, só por si e em conjugação com o lado deliciosamente verdadeiro, me deu vontade de desenvolver um suculento folhetim.


E, uma vez mais, estou com isto não porque seja importante para mim que saibam tão relevantes frioleiras mas porque me apetece escrever e não me ocorre outro assunto. Há assuntos fantásticos, fracturantes ou sensíveis sobre os quais deveria, a esta hora, dissertar em vez de estar com esta conversa de nada? Pois, acredito que sim. Por exemplo, poderia falar sobre a beleza monástica dos lírios ou sobre a lucidez sensata dos substantivos que não carecem de adjectivos ou ainda da delicadeza angelical dos olhares que caem, oblíquos, sobre o meu decote. Ou poderia falar da tristeza dos ramos nus dos plátanos ou da alegria saltitante dos passarinhos que cantam nos beirais dos blogs. Poderia, claro, mas não seria a mesma coisa.

É que aqui não há regras, não há agenda, não há propósito. Aqui não há altares, muito menos santinhas. Aqui, quem vem, vem para jogar. Mesmo que seja ao jogo da verdade ou consequência. Ou apenas para jogar às verdades. Ou para esconder o jogo. Ou para piscar o olho. Ou para mostrar as cuecas.

E espera-se que quem cá vem alinhe. E dance. E escute. E olhe. Ou seja respeitador e desvie o olhar.

Ou não.


_____________________

E para os que não acham graça a estas desconversas, tenho aqui dois vídeos muito bons que espero que compensem a falta de substância das minhas desnutridas palavras.


Na casa de Maggie Gyllenhaal e Peter Sarsgaard em Brooklyn




Arte é vida - A colecção de Marianne e Pierre Nahon


E tenham um belo sábado, está bem?

sexta-feira, março 15, 2019

Porque é que as nossas memórias não são de fiar






Há momentos marcantes na minha vida e penso que os guardo, com todos os pormenores, na minha memória. Poderia agora enumerar alguns mas são vários e, se me ponho e enunciá-los, fica isto longo demais.

Mas, por exemplo, não guardo qualquer ideia do primeiro dia de escola: nem da infantil, nem da primária, nem do liceu nem da faculdade -- momentos que, supostamente, são simbólicos e marcantes na vida das pessoas. Nada. Da ida dos meus filhos para a escola, dos primeiros dias, também não tenho ideia precisa até porque começaram a ir tão cedo e isso me custou tanto que a minha cabeça escondeu essa lembrança. Mas recordo, e recordo ainda com dor, o primeiro dia em que o meu filho foi para o infantário, teria uns sete ou oito meses, nem sei bem. Olhou para mim com o beicinho a tremer, a conter o choro. Tão bebé e mais corajoso que eu. Saí de lá de rastos, a chorar e, sempre que me lembro do rostinho dele, ainda sinto que as lágrimas me vêm aos olhos. Também me lembro do dia em que cheguei a casa com a minha filha, que tinha ido buscar à escolinha, e com ele que tinha ido buscar ao infantário. Ele vinha a chorar, incomodado. Aliás, frequentemente notava que ele vinha com olhos de choro. Diziam-me que tinha estado bem, que era impressão minha. Fui ver a fralda e tinha a mesma fralda que tinha levado de manhã. Fiquei desvairada. Peguei neles os dois e voltei lá a fumegar, furiosa. Desanquei aquela gente desalmada, ia em brasa, lembro-me de nem as deixar falar. E comuniquei que ele não ia voltar. E não voltou. Nem sei se lá chegou a estar um mês. Mas o que me custa pensar que não esteve bem enquanto lá esteve... Ainda hoje me faz sofrer pensar nisso.


A minha memória é selectiva, provavelmente como todas só que os critérios de selecção talvez sejam um bocado atípicos. 

Por vezes a minha mãe fala de momentos que acha que seriam de alguma forma marcantes para mim e eu, para seu espanto, não retive nem pitada. Em contrapartida, lembro-me de insignificâncias que a mim própria me espantam. 

No entanto, acontece-me por vezes lembrar-me de coisas mas com a sensação que perdi alguns pormenores, saber que já aqui falei disso e ficar intrigada: então quando escrevi lembrava-me tão bem e agora a coisa parece que ficou vaga...? E vou à procura, leio o que escrevi e tudo volta de novo. E, ao ler, evoco, então, pormenores que, na altura, ao escrever, me tinham escapado.


Fico, então, a pensar se as coisas se teriam passado exactamente assim como as recordo ou se, com o tempo, a imaginação compôs alguns hiatos. 

Mas isto para dizer que gostei muito de ver o vídeo que mais abaixo partilho convosco. Afinal essa sensação tem razão de ser e é mesmo assim. O nosso cérebro é mesmo a tal fronteira que ainda não conseguimos transpor completamente. Um mistério tão vasto, tão fora do nosso alcance.



Why your memories can't be trusted


Memory does not work like a video tape – it is not stored like a file just waiting to be retrieved. Instead, memories are formed in networks across the brain and every time they are recalled they can be subtly changed. So if these memories are changeable, how much should we trust them? With experts Dr Julia Shaw and Prof Elizabeth Loftus, the Guardian's Max Sanderson explores the mysterious world of human memory, how false memories can be implanted – and how this can be harnessed for good and ill


...............................................................

E permitam que vos convide a continuar a descer para irem saber quem é Sophie de Oliveira Barata.

.........................................................................

E thanks God it's friday. E que seja boa.