Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, fevereiro 21, 2020

E se, em vez disto, um diário?





Portei-me bem. Acontece-me muitas vezes ficar surpreendida como me porto tão bem e tanto mais quanto é de uma forma que não é comandada por mim. Nessas alturas, não posso deixar de ficar contente por haver várias centrais de comando dentro da minha cabeça. 

Depois, também por comando desconhecido, mantive-me indiferente como se nada daquilo me dissesse respeito. Indiferente. As coisas passando-se num mundo que não é o meu.

Tinha receado não poder estar livre à hora de almoço mas, afinal, estive. Fomos aos indianos que descobrimos recentemente e que, se calhar, são nepaleses. Um restaurante muito simpático, com um ambiente acolhedor, uma média luz que transmite a vontade de a gente ter conversas cúmplices, com subentendidos sussurrados não vá alguém da mesa ao lado perceber. 

A seguir, devia ir logo trabalhar mas não fui. Já sozinha, apeteceu-me entrar dentro da natureza. Não quero saber que seja uma natureza fabricada pois tudo nasceu uma primeira vez e não interessa se a semente voou ou se alguém a pôs lá, o que interessa é se os pássaros a adoptam como sua casa e se a minha alma a adopta como seu refúgio. A seguir fui ver a livraria pequenina e não digo se me deixei ou não tentar que não sou masoquista, só digo que estar lá também deve ser equivalente a meditar pois não apenas me sinto tranquila e desligada do mundo enquanto lá estou como saio de lá revigorada.

Olhei para o relógio e pensei que devia ir. Mas não fui. De novo pelos caminhos que serpenteiam sob a copa das grandes árvores, dirigi-me à outra livraria. Aí não andei apenas de roda dos livros. Andei a passar a mão pela seda da túnica, a ver as caixinhas de comprimidos com motivos de pinturas, a experimentar o canto dos passarinhos de peluches, sempre com vontade de trazer outro, a passar a mão pelo vidro macio da meia esfera que tem flores dentro. Feliz e livre como um passarinho. Mas, na realidade, um passarinho de faz de conta.

Daí segui para o menos um, para a exposição dos projectos para a expansão dos jardins. Um dos projectos é de pessoa conhecida e gostava que fosse o projecto vencedor. Mas são todos bons. Andei por lá, por entre os jovens que fotografavam as maquetes e viam atentamente os desenhos. Gostei de andar entre eles. O que diziam, como riam, o interesse com que viam os trabalhos dos grandes, agradou-me muito. Faltou-me a minha máquina fotográfica. Tenho a certeza que podia tê-los fotografado de longe e de perto que não me teriam visto, tão absortos estavam uns nos outros e no que viam. Assim, incompleta e sem máquina, ainda mais invisível fui.

A contragosto lá saí para ir trabalhar. 

E trabalhei como se não fosse aquela que tinha andado no jardim e a deambular por uma exposição de arquitectura. Ainda não me habituei a não me surpreender com a gente desconhecida que vive dentro de mim.

Depois, à vinda para casa, os dias já grandinhos, a luz fugidia, as árvores a transformarem-se em silhuetas que aos poucos se vão dissolvendo na penumbra, a música boa, baixinho, vagarosa. Em horas assim não suporto música rápida ou ruidosa, apenas música lenta, mais silêncio que som. Não quero notícias nem vida real. Deslizo na estrada mas é como se deslizasse sobre planos abstractos, numa elegante geometria analítica que se fundisse com memórias, com imaginação, com palavras que nascem soltas e se misturam umas com as outras e se fundem com as sombras e com as luzes. Ocorreu-me que poderia começar um diário de verdade, onde pudesse falar sem enigmas, onde escrevesse os nomes que aqui não ouso, onde dissesse por extenso o nome do lobo e a saudade que tenho do seu uivo, onde me aventurasse por becos e vielas e labirintos, onde soltasse o perfume das flores que crescem dentro de mim, onde abrisse as mãos e o coração sob as palavras para as ajudar a voar para um lugar habitado por anjos e mistérios.

Depois cheguei a casa e agora estou aqui, no escurinho, a escrever e a ouvir música e a escolher fotografias de flores mas com pena de não estar antes a escrever um diário de verdade, cheio de bichos inventados, cheio de histórias sonhadas, cheio de palavras que nunca seriam ditas.


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Desejo-lhe uma happy friday.

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quinta-feira, fevereiro 20, 2020

A Lena e o Paulo


Ora bem. A conversa ali mais abaixo vai animada mas o dia foi longo e passa bem da uma da manhã, hora imprópria para me meter ao barulho ou para encetar tema estruturado. Além do mais, depois da Beatriz Gosta e da vida sentimental dos portugueses, em tese pouco mais haverá a acrescentar. A vida humana, vendo bem as coisas, pode ser uma coisa muito simples.

O dia que me espera é daqueles que me traz afeliada, sem saber como devo reagir perante o que vai acontecer e, muito francamente, com muito medo da minha reacção. O dia que aí vem é de rotura, e devo dizer que hesito entre escrever rotura e ruptura, e sei que terei que apelar aos meus melhores dons de representação, coisa em que sou péssima. E o que vai acontecer durante e após seria motivo mais do que suficiente para me colocar apreensiva. Mas, ao contrário, só de pensar nisso já me apetece rir e rir é coisa que, de maneira alguma, poderei fazer em público. E, se penso no assunto e na forma como seria bom que eu reagisse, volto a desatar a rir e o que me alivia é pensar que, se continuar a rir-me, talvez esgote o riso e, quando a coisa acontecer, pode ser que consiga manter-me sisuda.

E o meu dia transacto foi muito cheio de coisas, de natureza diversa, pegas e refregas, dilemas e desabafos. Nem um pequeno espaço de bucolismo, nem uns instantes de metafísica. Como diria o outro, tudo no duro. E passaram-se umas cenas que dariam para notícia em primeira página de jornal e outras para profundas dissertações sobre a natureza humana. Mas traçando a bissectriz a tudo, neste meu mundo em permanente geometria variável, o que resulta é um vector neutro, branco e, portanto, sobre isso melhor que se abata o silêncio.

Mas, à vinda, apanhei o Guilherme Leite com o Alvim, na Antena 3, e vim a rir de gosto todo o caminho e tudo o que poderiam ser divagações ou reflexões foi, acto contínuo, para o espaço. E falaram na Marilú do Ena pá 2000 e eu cheguei aqui e fui recordar e voltei a ficar bem disposta, como se não houvesse preocupações que pudessem afectar-me. E estive vai não vai para o colocar aqui já que é um verdadeiro hino à vida fora de órbita e essa, para o meu alter ego, é a melhor forma de viver a vida. Mas como o meu alter ego não é para aqui chamado, deixo o lancinante apelo do Manuel João para outro dia e foco-me num outro grande momento: uma entrevista a um casal improvável, uma lésbica e um gay. Pode haver quem ache que isso é banal, que esse é padrão mais do que muito déjà-vu, mas eu sou assim mesmo, dada a banalidades, a commodities de toda a espécie e feitio. Portanto, com vossa licença, neste momento que deveria ser de reflexão e de interioridade, é a este emblemático casal que dou voz. É certo que a coisa se deu há já dez anos; mas o que são dez anos na longa marcha da humanidade não se sabe bem em direcção a quê?

Portanto, ouçamos o testemunho da Lena e do Paulo, um casal pouco dado a espiritualidades que, noves fora nada, não costumam ser de grande préstimo na igualmente longa construção dos caminhos da sabedoria e whatever.

Ei-zi-os: a Lena e o Paulo

(Ei-zi-os ou eizi-os? -- o priberam não esclarece, caraças)


E siga o baile. 

A vida sentimental dos portugueses:
ponha-se-lhes um microfone e uma câmara à frente e logo a franga se lhes solta


E falo referindo-me aos outros que não a mim porque nunca me vi nessa situação. Aliás, já vi sim. Mas foi noutras vidas, noutros contextos. Assim, ir na rua e aparecer-me uma Beatriz Gosta ou outra vedeta de microfone em punho, isso nunca me aconteceu. Contudo, se bem me conheço, desviar-me-ia ou pediria escusa. Mas isso é o que imagino porque o que vejo é que a malta se disinibe, conta tudo, toda a malícia que se esconde debaixo de uma pele habitualmente bem comportada sai à cena. Não sei se, na vida normal, as pessoas já são assim, destravadas, brejeiras, emocionalmente soltas. Mas, na perspectiva de aparecerem na televisão, são capazes de surpreender o maior gabiru. E dá ideia que, mesmo os que não são emocionalmente selvagens, perante o microfone não se incomodam nada de mostrar que são apertadinhos, como se perdessem a timidez sobre a sua timidez.

Este vídeo é bem prova disto e não sei se é um curioso apontamento sociológico, se é um caso psicológico. Mas é uma coisa digna de ser ista. E, claro, é mais uma prova do talento da Beatriz Gosta.


quarta-feira, fevereiro 19, 2020

Seios, sustos, uma mulher nua e de saltos altos, santinhos e anjos do além





Não há muito, num daqueles exames de rotina, a médica detectou um pequeno nódulo que não aparecia referido no relatório do exame anterior embora em tempos tenha havido referência a um, que talvez fosse o mesmo e que, inclusivamente, já foi biopsiado e que tanto medo me causou. Esse tinha um nome de que agora não me lembro (seria fibroadenoma?) e, felizmente, era benigno. Não sabendo se era o mesmo e intrigada por não aparecer no exame anterior, pelo sim, pelo não, a médica pediu para repetir o exame quatro meses depois. Foi hoje. Se por um lado tenho para mim que estou bem pois sinto-me bem, por outro sei que há coisas silenciosas que fazem o seu percurso ao longo de anos sem que quem as tem se aperceba do que quer que seja. E, se tendo a ser despreocupada, a verdade é que, na meia hora que precede o exame, um nervoso miudinho se apodera de mim de uma forma um bocado intensa. Para começar, ao ir para lá, ia tão distraída a ouvir música mas ao mesmo tempo já a ficar tão enervada que só dei por que tinha passado o cruzamento onde deveria ter virado quando já ia para aí um ou dois quilómetros à frente. Azar. Impossível virar. Tive que continuar por mais uns dois quilómetros até conseguir inverter o sentido. 

Quando cheguei, mal acabei de me inscrever fui logo à casa de banho. Tinha ido antes de almoço, menos de uma hora antes, mas sentia a bexiga a ponto de rebentar. 

Passado um bocado, chamaram o meu número.

A funcionária mandou-me entrar para um cubículo e disse que me despisse da cintura para cima, vestisse a bata e me deixasse ficar sentada com a porta aberta. Assim fiz. Pensei que aquela de ficar sentada de porta aberta fazia sentido para ter ar para respirar e para ouvir quando me chamassem. Vesti a bata com a abertura para a frente e não a abotoei, apenas a tracei, prendendo-a com os braços cruzados debaixo do peito. Disse-me ainda que, quando me chamasse, eu levasse a carteira comigo.

Entretanto, senti que estava outra vez aflita para ir à casa de banho. Pensei que não podia ir pois a casa de banho fica na zona aberta ao público e, naquele estado, meio despida, não era muito conveniente circular. Pensei que era psicológico, que a bexiga não podia ter-se enchido em meia dúzia de minutos. Mas cada vez estava mais aflita. Pensei que se não me chamassem rapidamente teria mesmo que ir.

Pelo meio, cada vez mais cheia de medo, pensava que tomara que estivesse tudo bem. E, às escondidas de mim, pedi protecção. Mas senti-me uma pedinchona incoerente e sem vergonha na cara. E, lembrando-me de uma coisa que tinha lido na véspera num livro, numa livraria, deu-me vontade de rir.
É que, na segunda-feira, fiz uma daquelas minhas incursões por uma livraria mas, como sempre, tomada por firme decisão de não comprar qualquer livro. Ia-os catrapiscando e pensando: vou ser lógica, vou ceder à ortodoxia dos bem-comportados, não vou ser uma pessoa assim, bla-bla-bla. Às tantas, folheei um e li uma coisa que era qualquer coisa como isto: um homem dizia que, quando estava em apuros e aflições, tirava uma imagem que tinha na carteira e pedia-lhe protecção. E exemplificava, mostrando ao outro a imagem. O outro exclamava: 'Mas é a Greta Garbo!'. O homem confirmava e dizia que era importante ter qualquer coisa em que acreditar. E eu achei a ideia deliciosa. E fiquei cheia de vontade de trazer o livro nem que fosse para reler a cena e para ver se havia mais coisas assim. Mas resisti. Há dias em que consigo portar-me bem. E agora não tenho como validar se foi isto mesmo que li ou se o que contei foi uma construção da minha cabeça a partir de um relance em diagonal num livro aberto ao acaso.
Mas, então, estava a lembrar-me disto e quase a  rir, já mais aliviada da bexiga e do medo. Às tantas, a funcionária chamou 'Bárbara'. Fiquei admirada, pensei que ela tivesse trocado a ficha. Então, para meu espanto, vejo que do cubículo ao lado -- no qual eu não sabia que estava uma pessoa pois quando para lá me dirigi estava fechado -- sai um mulherão. Teria à volta de trinta, era morena, alta, formas generosas. Ao contrário de mim que ia fazer apenas uma ecografia mamária, ela devia ir fazer também a pélvica pois estava nua. Contudo, curiosamente, manteve os saltos altos, muito altos, e a bata aberta atrás, presa por um cintinho, mas deixando-lhe à mostra as costas e, ao andar, as pernas. Uma imagem muito sexy. E ia com a carteira ao ombro o que tornava o conjunto ainda mais insólito. Avançou resoluta, aparentemente sem sombra de medo.

Quando faço os dois exames e também tenho que me pôr nua, vou praticamente descalça para o gabinete da médica, só com umas sapatinhas descartáveis. Pois ela ia gloriosa, em cima dos seus saltos altos. 

Fiquei a pensar que, antes de se levantar, ela devia estar sentada, tal como eu, de porta aberta, tal como eu. Quem estivesse de frente, teria visto aquela beldade toda nua e de saltos altos, apenas vagamente coberta por uma bata fina e descartável, provavelmente a olhar para o telemóvel, e eu, de calças e igualmente de saltos altos, também com a bata, mas certamente com ar amedrontado, a tentar não pensar que não aguentava sem ir à casa de banho e que tomara que o exame não desse nada de mal.

Passado um bocado, saíu do gabinete da médica, bárbara e gloriosa, enfiou-se no cubículo, ouvi fechar a porta, e antes que me chamassem, saíu, saia justa, pelo joelho, um casaco justo a três quartos, a carteira ao ombro; deitou a bata no recipiente e lá foi, óculos escuros na mão.

Passado um bocado, ouvi o meu nome. Lá fui. Assustada e a sentir-me quase muda. A funcionária disse-me para despir a bata e deitar-me de barriga para cima. Escusava de dizer, sei como é. Braços para cima. Desprotegida. A médica encheu-me o peito de gel e começou a tortura, passando o dispositivo, que parece um rato, por toda a superfície dos seios. Faz força, incomoda. Com os braços para cima, não ficamos apenas expostas, ficamos à mercê. Provavelmente por estar em tensão, tudo aquilo me dói. E depois há o medo. Ver a médica a parar, a fixar a imagem no ecrã, a medir o tamanho do que encontra. Mas ela concluíu que estava tudo bem. Ainda lá estava o nódulo mas igual ao que estava há poucos meses e igual ao que estava anos antes. Explicou que pode acontecer não ser detectado em alguns exames por estar escondido atrás de alguma gordurinha. Foi ela que disse: nas maminhas há gordurinhas que, por vezes, não deixam ver bem. Quando ela me disse isso, descontraí. Deixou de me doer e deixei de estar aflita para ir à casa de banho. Respirei fundo, consegui falar.


Quando saí, ia na maior felicidade. Sentia-me agradecida e ocorreu-me que talvez devesse ter na carteira uma fotografia de alguém a quem agradecer numa situação destas. Não uma santa mas um santinho. Pensei que talvez o Jeremy Irons, e que bom, bom mesmo, seria ter um cd com a voz dele e, então, punha-o a tocar e era como se tivesse o santo em pessoa ali a dizer-me poesia. Depois detive-me, senti-me incorrecta por ter pensamentos tão hereges quando deveria era sentir-me recatadamente agradecida.

De tarde trabalhei sentindo a alma leve como uma pluma.

&

Como post scriptum posso ainda contar que, como no sábado e no domingo estive doente e dormi que me fartei, na noite de domingo, sentindo-me já fresca, estava sem pitada de sono. Então, levantei-me e mudei-me para a sala. Estendi-me no sofá, tapei-me com uma manta quentinha e pus-me a ler Gabriel Garcia Márquez: o livro de contos onde se inclui a história da cândida Eréndira e da sua avó desalmada. E o que me deliciei. A sala às escuras excepto o que se via sob aquele pequeno foco de luz. E o que se via era uma delirante delícia.
Tinha chovido tanto que o quintal estava alagado e havia caranguejos por todo o lado. E com o rio transbordante e com a intempérie não só tinham aparecido caranguejos aos montes como tinha aparecido um anjo de cabelo ralo, desdentado e velho. E o casal tinha posto o anjo velho numa gaiola e veio gente de todo o lado para ver o anjo; e o casal ficou rico. E, pelo meio, iam os dois para o quarto e era de todas as maneiras, aos coelhinhos, às formiguinhas e a outros bichinhos. Às vezes enganavam-se e faziam de outras maneiras e não naquela em que iam a pensar. Depois um dia, muito tempo depois, as penas, que tinham caído, voltaram a nascer nas grandes asas e o anjo, a custo, levantou voo e lá foi. Ou, então, a história da jovem Erêndira que era uma escrava às mãos da avó, uma velha gorda, a quem a neta tinha que dar banho, vestir, fazer a lida da casa. Um dia, morta de cansaço, a menina pousou o castiçal e adormeceu. As velas pegaram fogo aos cortinados e casa ardeu mas a avó foi boazinha, disse que não fazia mal, que a neta pagaria o prejuízo. E passou a vender os serviços sexuais da jovem de catorze anos. Dezenas de vezes por dia. A menina exausta. Até que um dia apareceu Ulisses e a menina e ele fizeram amor, de gosto, ao longo de toda a noite. Não contei que o pai da menina se chamava Amadis e o avô também e que já tinham morrido, estavam enterrados no quintal. E que, depois da casa ter ardido, a avó andava com a caixa dos ossos dos Amadises por todo o lado onde fossem. 
Pelo meio a prosa ia andando com pormenores que me traziam a felicidade, tanta a inteligência, o humor e a elegância das palavras. E eu estava a ver que não me dava o sono, tão gostosa estava a leitura. Até senti que, a qualquer momento, poderia sentir um lobo a espreitar-me, na distância, na insolência. Mas não, acabei por cair no sono.


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As fotografias são de Clara Belleville

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Uma quarta-feira feliz. 
A todos desejo alegria. E saúde.

terça-feira, fevereiro 18, 2020

Muito mal, Miguel Sousa Tavares, muito mal.
À sua conta e à da TVI, o André Ventura subiu mais uns pontos nas intenções de voto.



Ontem, por todos os canais onde se passava, lá estava o ataque à civilização e o Marega e os que não tinham apoiado o suficiente o Marega e mais o racismo!, racismo!, e a repugnância, e o fim da picada.

Parei as minhas leituras e fui ver de que se tratava: Marega, um jogador negro de aspecto possante, foi apupado e insultado e, muito compreensivelmente, fartou-se. E, mostrando que os tem no sítio, mandou os racistas irem dar banho ao cão e saíu do campo. 


Foi isto. A coisa conta-se, pois, em duas penadas -- e o repúdio, sendo veemente e convicto, em menos que isso. 

Pois hoje continua a não se falar noutra coisa. O tema devorou o coronavírus e a eutanásia. Um enxame de #somos.todos.marega e #abaixo.o.racismo.no.futebol invadiu os media. As televisões estão cheias de comentadores exaltados, todos na mesma, em roda: a mastigar, a regurgitar, a voltar a mastigar, a comerem o regurgitado uns dos outros -- em non stop.  Falam, falam e não acrescentam nada. Até porque não há mais nada a acrescentar. A argumentação perde eficácia quando repisada ad nauseam.

Depois, noutros fóruns, discute-se se somos ou não somos racistas. Diz-se de tudo. E tudo é verdade e mentira ao mesmo tempo pelo que vale dizer tudo e o seu contrário. Uma discussão fútil levada a cabo por gente que parece descerebrada. Parece que é preciso pôr um rótulo colectivo e, como não é fácil pôr o mesmo rótulo na cabeça de dez milhões de pessoas, não saem do mesmo sítio. Em algumas pessoas, parece haver necessidade de auto-punição como se, pelo facto de uns serem racistas, todos termos que ser. E, uma vez mais, com generalizações, lá se perde a eficácia e objectividade da argumentação.
Ainda hoje, um conhecido meu, ao falar numa outra situação que nada tem a ver com o futebol, dizia que tinham arranjado 'meia dúzia de pretos' para irem fazer um certo trabalho. Devo ter feito uma cara de espanto pois caíu nele e disse, a rir: 'Caraças, ainda aparece para aí um Marega a chamar-me racista'. 
Ora eu, do que lhe conheço, não consigo dizer que seja racista. É ultramontano e bota de elástico, é provinciano e, cá para mim, tem um parafuso a menos. Mas posso concluir que os portugueses, no seu conjunto, são racistas lá porque um zé-cueca se sai com uma parvoíce daquelas? Claro que não. Por cada um que se sai com tiradas parvas há outros tantos e muito mais que conseguem falar sem dizer parvoíces.
Agora uma coisa que eu acho ainda mais parva, mas mesmo completamente parva, é o Miguel Sousa Tavares, no noticiário da TVI, ter lá levado o André Ventura para o confrontar sobre este tema e sobre a sua reacção. 

Um bailarico. O André Ventura pôs o Miguel Sousa Tavares a rodopiar, a dançar de fininho.

O André Ventura não é parvo. Tem boa memória. É uma verdadeira picareta falante. E não tem escrúpulos. Como bom populista que é, mistura coisas acertadas, fáceis de perceber, coloca-se do lado do zé-povo -- os simples, os bons, os que dizem as verdades -- e contra os intelectuais e políticos que têm a mania que são inteligentes e que só querem mostrar a sua superioridade perante o dito zé-povo. E, logicamente, o que sai dali é um cocktail bom de beber, que escorrega que nem ginjas pela goela dos incautos, ingénuos, desiludidos da vida, rebeldes sem causa.

Portanto, se o Miguel Sousa Tavares pensou que ia enquadrar o André Ventura, esteve muito longe de o conseguir. O que levou foi uma abada. Perante um André Ventura desenvolto e aguerrido, sempre colado ao povo, o que se viu foi um Miguel a ouvir e calar, incapaz de conter a torrente verbal do grande demagogo que é o Ventura. 

Façam muito mais favores destes ao Chega, façam, e depois venham ganir baixinho e chuchar no dedo sem saberem o que fazer perante a ascensão do bicho. Continuem a dar-lhe palco e verão como, num ápice, ele papa o CDS, devora as pernas ao PSD e se torna charneira na Assembleia. 

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Ai Chega, Chega...

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[E queiram descer um pouco mais caso queiram saber de mais uma do 'alarmismo militante da TSF']

O alarmismo militante na TSF


De novo, ao ir almoçar, sintonizei a TSF. Ainda não aprendi que dali não sai uma leitura serena da realidade... 

Com ar de alarme, a jornalista informava que havia mais um doente suspeito de ter coronavírus e rematava -- naquele seu usual tom de sobressalto -- que 'já são dez os suspeitos de coronavírus em Portugal!'.

Passei de imediato para a Antena 2. É que o que se passa é que, até ver, todas as suspeições têm sido infundadas. Portanto, a notícia séria deveria ter sido: 'Sendo que até aqui, felizmente, nenhum caso de coronavírus se confirmou, está agora um caso em análise'. E ponto. A notícia era essa. 

Eu, que gosto imenso do Fernando Alves com os seus Sinais ou do Uma questão de ADN da Teresa Dias Mendes tal como dantes gostava de ouvir o Pessoal e Transmissível do Carlos Vaz Marques, não suporto estes noticiários, estes empolamentos e empolgamentos absurdos, esta tentativa de lançar o alarme. 

Não haverá quem controle isto? Não haverá uma voz experiente que explique que isto é manipulação, é mau jornalismo?

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Pelo contrário, a mensagem a reter é esta:


E, como sempre, mantenha as mãozinhas lavadas. 
(Mas também não vale a pena arrancar a pele... ok?)

segunda-feira, fevereiro 17, 2020

O teu destino deveria ter passado neste porto
onde tudo se torna impessoal e livre
onde tudo é divino como convém ao real




Diz Heraclito de Éfeso: 
"Não compreendem que o que se opõe se reúne em si mesmo: harmonia de tensões opostas, como a do arco e da lira"
Esta "harmonia de tensões opostas", bela como a do arco e da lira, habita toda a grande arte grega: chaos e kosmos, natureza e geometria, Apolo e Dionysos, tumulto e medida.



Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar -- branco pano que se rasga


Desfaço durante a noite o meu caminho.
Tudo quanto teci não é verdade,
Mas tempo, para ocupar o tempo morto,
E cada dia me afasto e cada noite me aproximo.


                                                  Faz da tua vida em frente à luz
                                                  Um lúcido terraço exacto e branco,
                                                                 Docemente cortado
                                                                 Pelo rio das noites.

                                                   Alheio o passo em tão perdida estrada
                                                   Vive, sem seres ele, o teu destino.
                                                                 Inflexível assiste
                                                                 À tua própria ausência.

Murmurei o teu nome
O teu ambíguo nome

Segundo a lei de máscara do teu nome

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Poemas ou excertos de poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen em 'O nu na Antiguidade Clássica e Antologia de Poemas sobre a Grécia e Roma': a primeira parte, em prosa, é o início de 'Os Kouroi'. O primeiro poema é 'Pã', o segundo é 'Penélope', o terceiro é 'Homenagem a Ricardo Reis (V)', as três últimas linhas fazem parte de 'Em Hydra, evocando Fernando Pessoa' bem como o título deste post.

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A todos desejo uma boa semana

Máscaras anti-coronavírus defeituosas?
Ou mau jornalismo e mau sindicalismo?





Perto da hora de almoço já ouvi na TSF a notícia de destaque de que o material de protecção enviado pelo INEM para o terreno estava defeituoso. Meia hora depois, a repetição da notícia. A meio da tarde ainda a mesma notícia. Provavelmente foi massacre que durou todo o dia. No entanto, do INEM diziam que não tinham recebido nenhuma queixa. Quem se queixou ao Jornal de Notícias e, entretanto, falava à TSF era do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar. Dizia ele que não se tinha queixado porque o sistema para se queixar estava indisponível. Noutra frase já não era bem isso, já era que o computador das ambulâncias, através do qual apresentavam as queixas, se tinha avariado.

Perante isto, o jornalista não foi capaz de lhe perguntar porque é que em vez de se ir queixar para a Comunicação Social, não se queixou antes para o INEM. É que para se comunicar para os jornais também não teve o computador da ambulância. Além do mais, presumo que ele, sindicalista, teria acesso a outros computadores ou telefones que não os da ambulância. 

Depois o jornalista também não foi capaz de perguntar se todas as máscaras enviadas pelo INEM estavam sem os elásticos ou se eram só algumas. E, se eram algumas, quantas. É que é bom perceber de que é que se está a falar. Se ao todo foram enviadas, por exemplo, mil máscaras e dez estavam defeituosas, então estaremos a falar de uma percentagem ínfima que não merecia um segundo de conversa.

Agora, no noticiário na televisão, de novo grande destaque para esta notícia. E a situação é a mesma. O INEM não recebeu nenhuma reclamação pelo que não sabe do que se trata e o sindicalista empola o que diz sem que concretize o que quer que seja.

E eu interrogo-me: não há jornalistas com cabeça? Perante a falta de objectividade de um cavalheiro que em vez de se queixar junto de quem pode resolver o assunto, resolve procurar palco, ou se obtém informação concreta ou não se dá a notícia. Para quê estas notícias?

Sem ter ficado minimamente esclarecida em relação que se passou, admito como provável que possa ter acontecido uma de várias situações:
1 - Efectivamente, algumas máscaras vieram com defeito. Nesse caso, há que devolver ao fornecedor e ou ele tem para fornecer em bom estado ou comprar-se-á a outro fornecedor. Nada que não aconteça quando se fazem encomendas de produtos em grandes quantidades e com urgência na entrega. É um problema que se resolve.
2 - As máscaras fornecidas são de outro modelo e as pessoas é que devem prender o 'elástico' à máscara e, portanto, não há problema nenhum. 
Em qualquer dos casos, não se percebe a relevância da notícia sem que nada de concreto se saiba.

O que se percebe é que se está na presença de mau sindicalismo e de mau jornalismo.
  • Mau jornalismo porque se propala, como notícias, conversas que, não sendo objectivas, são mera maledicência e tentativa de lançar alarme.
  • Mau sindicalismo porque, em vez de garantir que os problemas são resolvidos por quem os pode resolver eficazmente, se prefere a para a praça pública lançar a confusão.
Não quererão antes ir à procura de outro emprego?

domingo, fevereiro 16, 2020

A vida efémera das borboletas. E das cartas de amor (de amor e não só).





Tenho andado constipada e na sexta-feira piorei. À noite estava deitada abaixo e dormi mal, com tosse, dores no corpo, dores de garganta. Tirando o bocado em que fui ao médico, este sábado passei o dia em casa. De tarde dormi e, no resto do tempo, pouco fiz, agasalhada e apanhada. Felizmente, o tratamento já começou a fazer efeito e, embora a minha mãe quase me tenha implorado que este domingo também me mantenha resguardada, recordando-me insistentemente que já não tenho vinte anos, estou em crer que tal não acontecerá. Não sou bicho de hibernação.

Este estado em que me encontro não apenas me abate pela ociosidade forçada como me reduz as faculdades.

Por exemplo.

Tenho quase a certeza que há uns dois ou três dias li no Guardian um artigo sobre um site que proporciona os contactos para que estranhos se correspondam, através de cartas de verdade, cartas escritas à mão. Mas agora não o encontro. Só se não foi no Guardian. Nesta demanda fui dar a artigos antigos (por exemplo: Writing letters to complete strangers can make the world a better place), fui dar a um site e talvez seja o site referido no artigo (The world needs more love letters), fui dar a uma conferência Ted (Hannah Brencher: Cartas de amor para estranhos). Tenho estado entretida a passarinhar por isso. Mas, certamente por preguiça mental, ainda não percebi bem como funciona pois não acredito que as pessoas tornem públicas as moradas de destino das cartas. Em alguns casos apenas as escrevem e deixam em lugares públicos para quem as queira ler. Mas o que tinha lido não era isso: era mesmo escrever cartas a uma pessoa, receber resposta dela e, assim, estabelecer um hábito de correspondência.

Na minha adolescência eu escrevia muitas cartas. Todos os dias, era uma emoção saber se o carteiro tinha trazido uma carta. Recebia envelopes com longas cartas e eu, igualmente, escrevia longas cartas.

Do prazer com que as escrevia só eu sei. E do prazer que sentia ao abrir o envelope, desdobrar as folhas, ler tudo o que me tinham escrito também. Nesses momentos, tocava o mundo de quem me tinha escrito e quem me tinha escrito não apenas me mostrava o seu mundo como a sua pele, as suas vísceras, a sua alma. Momentos de partilha e comunhão.

Há tanto tempo.

Agora, se quisesse voltar a escrever uma carta assim teria a maior dificuldade, parece que já mal sei escrever à mão. Também já nem me passa pela cabeça voltar a receber uma carta escrita à mão, entregue pelo carteiro. Isso já não existe. E, no entanto, como gostaria.

De vez em quando recebo mails escritos como se fossem cartas, mails longos. Fico toda contente. É como se o prazer de receber uma carta estivesse de volta.

De todas as que recebi, recordo agora uma, um mail longo em que o autor me falava de si.

Não acreditei em nada. Não sei porquê mas não acreditei. Contudo, estava escrito de uma forma credível e, sobretudo, muito bem escrito. Na altura senti-me especialmente tocada. Uma carta interessante que eu agora gostaria de reler. O pior é que estupidamente apaguei esse mail e, portanto, não consigo satisfazer a minha curiosidade. Ia escrever saudade no lugar de curiosidade mas é igualmente estúpido dizer que se tem saudade de uma carta.

Mas agora que estou a escrever isto estou a pensar que era bom que a carta tivesse sido escrita à mão. Escrever à mão é como colocar o DNA à vista. Ao passo que por mail a mesma pessoa pode fazer-se passar por outra, usando diferentes nomes e endereços de mail, se escrever à mão não o conseguirá. 

E, enquanto escrevo, estou também a pensar: será que isto que aqui escrevo pode também ser lido como uma carta? Quem me lê, lê como se estivesse a ler uma carta que eu lhe escrevi?


Assim, também a deslizante caneta
que mancha uma superfície
não tem consciência do objectivo
de qualquer traço
ou que o todo terminará
como uma amálgama
de heresia e sensatez;
por isso ela confia na mão
cujo discurso silencioso anima
os dedos palpitantes --
cujo espasmo não colhe pólen
mas sossega o coração.



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As fotografias de borboletas são da autoria de Brian Hale

Excertos de 'Borboleta' de Joseph Brodsky, trad. Jorge Sousa Braga in 'Animal Animal, um bestiário poético'
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Deveria dizer que, de certo modo,
careces de existência?
O que estão, então, sentindo as minhas mãos
tão parecido contigo?

Medusas






Como vós oh infelizes cabeças
de roxas cabeleiras
não há coisa que mais me agrade
do que dançar no meio da tempestade




Visível, invisível,
             um encanto flutuante,
uma ametista tingida de âmbar
             habita-a, o teu braço
aproxima-se e ela abre-se
             e fecha-se; tinhas decidido
apanhá-la e ela treme;
             abandonas a tua intenção.




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Medusas poéticas respectivamente de Guillaume Apollinaire e Marianne Moore, trad Jorge Sousa Braga in 'Animal Animal um bestiário poético'. A medusa dentro do vidro foi fotografada agora e dança em frente de alguns dos meus livros
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Poderá um dia uma medusa também assombrar o mundo?

O pangolim

P



Tinha havido todos aqueles tigres, claro,
e um leopardo, e uma girafa de seis pernas,
e um jovem veado que saltava para a minha janela
antes de ser morto, e certa vez um cavalo azul,
e algures uma impressão de cães maciços.
Por que é que sonho com tamanhas bestas de sangue quente
cobertas de peles suadas e cheias de paixões
quando podia haver lagartos secos e rãs frias,
ou criaturas lentas, modestas, como uma pausa
de todos aqueles animais pintados do tamanho de pessoas?

Ouriços-cacheiros ou talvez tartarugas,
mas eu penso que o pangolim ficava melhor:
um animal vegetal, que vai
disfarçado de alcachofra ou ponta de espargo
num casaco verde de folhas bem ajustadas,
com a sua cauda de pá, lisa, e o seu nariz de pincel:
o papa-formigas escamoso. Sim, ele ficava bem
melhor num sonho do que numa jaula
na Casa dos Pequenos Mamíferos; por isso convido-o
a ser sonhado, se ele estiver interessado.

['O pangolim' de Fleur Adcock, trad. Graça Braga, in 'Animal Animal, um bestiário poético' organizado por Jorge Sousa Braga]



E, então, veio o pangolim e pôs em risco o Império do Meio

sábado, fevereiro 15, 2020

Ó P., essa da mulher braaaaava.... é uma indirecta ou quê...?


Do Leitor P., com quem volta e meia mantenho discordâncias e que tem a graça de fazer questão de me provocar de forma certeira quase parecendo que faz de propósito para ver como sou quando se me solta a mola (a mola ou a tampa?), recebi um curioso mail cujo título é justamente Mulher braaaaava... !

Não consegui descobri-lo no Youtube pelo que o insiro assim, desta maneira, todo estreitinho. Mas quem fizer o favor de o ver, faça o favor de me dizer se isto será piada...? Será que sou eu que dou a ideia de ser assim? Alta, morena, poderosa? Capaz de deixar dois meliantes a torcerem-se no chão...? Ná... Sou boazinha, santinha, P., acredite. 
🧚‍♀️Sta UJM dixit


Thanks P. 
O seu sentido de humor e a forma paciente como atura os meus ímpetos são notáveis e, obviamente, agradeço-lhe.

Bom fim-de-semana a todos.

És humano, Sergei?


Ligo o computador e espreito as sugestões do YouTube. Good boy. Não me esquece nem se esquece de que é que gosto. Um dia ainda lhe acendo uma velinha no altar virtual onde São Valentim tem lugar cativo. 

Logo em primeiro lugar tinha este vídeo. Sergei Polunin - opção sempre acertada. Vejo e, observando a elegância como voa, perdoo a maluqueira que fez ao seu corpo pintando-o com toda a espécie de cenas, incluindo a cara de Putin. Aliás, isso perde relevância perante a amplitude e demora no ar dos seus fantásticos saltos. Vê-se e não se acredita que seja possível, pelo menos num ser humano. A càmara lenta ajuda a perceber.

Voa, Sergei, voa


sexta-feira, fevereiro 14, 2020

Bebés acabados de nascer e meninas afegãs a andarem de skate





Esta semana já me levantei às cinco e picos da manhã para me meter a caminho para ter uma reunião à primeira da manhã a norte, já me constipei, já tive, por junto, uma mão cheia de reuniões, algumas com duração de uma meia dúzia de horas, já tive que ler relatórios com muitas páginas carregadas com coisas chatas. E agora dói-me a garganta.

Chego ao sofá para me distrair e, a seguir aos noticiários, ou falam de presos ou de minas abandonadas ou de incêndios transactos ou de culpados e, pelo meio e por cima de tudo, eutanásia. Ou, então, corona vírus (ou conan osiris como dizia, no outro dia, na Prova Oral, a avó de um), agora transmutado em  Covid-19. E é sempre isto, sempre, sempre, sempre: gente doente, gente incapacitada, gente que padece nos hospitais, velhos abandonados, tarados à solta, infectados, isolados, mortos -- desgraça, drama, tragédia. 

Não tenho paciência. Juro: não tenho paciência. É demais.

Se calhar, se esta minha semana não estivesse a ser assim ou se o meu corpo aguentasse um dia inteiro de pés gelados ou entrar e sair de ambientes aquecidos para o frio ou almoços de pé rodeada de simpáticos cavalheiros para, logo de seguida, retomar mais um reunião, e tudo tão non stop, talvez eu tivesse paciência para ver a Isabel Moreira em todos os canais ou para ver desgraças, reincidências, taras, abandonos all over. Assim, lamento, não tenho. Não tenho mesmo.

Acresce que esta sexta vai ser também de arrebimba e eu já estive a escolher o que vou vestir porque de manhã não tenho tempo mas também sei que mal vou ter tempo para almoçar e estou naquelas fases em que só me apetece vestir-me já com manga curta e andar leve, bem disposta e toda eu colorida, antecipando a primavera e os primeiros calores de verão e, à hora de almoço conseguir escapar-me para um jardim e veranear a ouvir passarinhos -- e, afinal, o tempo continua chuviscoso, friento e não consigo pôr-me à fresca nem ter tempo para arejar. A minha mãe arrelia-se: mas não hás-de andar constipada e mal da garganta se nunca andas agasalhada, se andas sempre esgargalada? Pois é. Mas acho que não tem a ver com isso, acho que tem a ver com a seca de vida que levo. A minha filha diz que anda meio mundo assim, que isto são viroses, cenas. Não sei.

O que sei é que, com isto, no estado em que estou e só droga a passar nos ecrãs, desisti da televisão. Qualquer dia desisto de vez. Que estupidez é esta de, em horário nobre, competirem para ver quem fala mais de desgraças? Gaita. Uma pessoa a precisar de peace and love, coisas boas, tranquilidade e afectos e... nada.

Portanto, com vossa licença, mudo-me para uma twilight zone onde não há nada de stresses. Ou há mas dão-lhes a volta. Não dá para ficar a pessoa a afogar-se em desgraças.

Passo para um vídeo que me comove. No meio da guerra, no meio da falta de tudo, em situações limites, alguém resolve ensinar as meninas a sentir o gostinho bom da liberdade e de como é bom brincar, em paz: skating. Um vídeo que, completo, deve ser uma maravilha. Para já, só dá para ver a apresentação. Mas é uma lufada de ar fresco.

E, para contrariar o cinzentismo das palavras, fotografias de bebés a nascer. Um milagre que nunca festejaremos o suficiente e de que nunca me cansarei de falar e de ver.


Só tenho pena de não ter o filme do nascimento dos meus filhos. Estava acordada, sem anestesia, mas estava com tantas dores e sem possibilidade de ver o que se passava lá em baixo que só me lembro deles já cá fora, pousados sobre o meu peito, cobertos ainda de restos do ninho de onde tinham vindo. Momentos mágicos. Duas pessoazinhas a saírem de dentro de mim, tão ligadas a mim, tão independente de mim. E a magia continuou: cresceram, ficaram grandes, maiores que eu, tão lindos, tão queridos. Pensar que se formaram no meu ventre parece-me um daqueles milagres que nunca conseguirei compreender e de que nunca me cansarei de me sentir agradecida.

E o vídeo das meninas afegãs a andarem de skate é este aqui abaixo. E a descrição do filme e do reconhecimento que tem reconhecido está aqui: Documentary Telling The Story Of Courageous Afghan Girls Learning To Skateboard In A War Zone Wins Oscar


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As maravilhosas fotografias de nascimentos provêm daqui, onde há mais.
As autoras são Daniela Justus, Jessica Vink, Rebecca Coursey-Rugh e Jana Brasil

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(E agora vou ali buscar uma pastilha para a garganta)

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Eutanásia





Confesso: é tema sobre o qual não quero nem pensar, talvez porque gostava de nunca, em circunstância alguma, ter que tomar qualquer decisão que se relacione com isso.

Tendo que lidar de perto com a finitude da vida, e tendo já por várias vezes visto de perto um fim que, milagrosamente, a seguir, se adia, o que posso dizer é que não antevejo que alguma vez consiga ter coragem para pensar em ser eu a agente da decisão de pôr fim à vida de quem quer que seja. 

E não é por amar demasiado a vida para pensar em interrompê-la. Ou, se calhar, é por isso e mais porque tenho em mim este sentido de esperança que parece que me obriga a confiar no rumo natural das coisas.


Quanto a mim própria não sei. Tenho pavor a ser um fardo para alguém. Estar num estado em que alguém tenha que ser escravizado para me manter viva é coisa que me mataria por dentro. Contudo, tenho esperança de que, se um dia isso acontecer, eu tenha recursos financeiros para que o tratamento seja profissional e levado a cabo por quem seja pago para o fazer, podendo as pessoas revezarem-se. E tenho também esperança de que a vida ou o acaso sejam generosos comigo e me poupem a sofrimento prolongado. É que não sei se, sendo o sofrimento físico e psíquico insuportável, quereria continuar a viver. Mas sei que não quereria passar o ónus de dar a ordem ou de facilitar a operação para alguém que ficasse com esse peso para o resto da vida.
Sei bem o que sofri e ainda sofro quando penso no último olhar da minha cãzinha quando o meu marido a levou à clínica veterinária e ela, tão mal que estava, tão mal, minha querida, tão mal, sem qualquer esperança, e já mal se aguentando viva, ainda assim estranhou que eu ficasse no carro, eu que sempre a acompanhava e lhe fazia festinhas para que ela se acalmasse. Virou a cabeça para olhar para mim, um olhar intrigado e triste. Não esqueço esse seu olhar. Tomara que não tenha percebido. Mas fui cobarde, infamemente cobarde, não suportei assistir ao seu fim nem suportei a ideia de a levar até onde a sua vida iria ser encurtada. 

Outra coisa diferente, e ainda não há muito passámos por isso, é quando a pessoa está muito mal -- em estado terminal, sem qualquer possibilidade de sobreviver -- e os médicos explicam qual a situação e perguntam se se autoriza que se suspenda a medicação de sobrevivência, administrando apenas tratamento paliativo. É muito doloroso, é coisa que não se quer ouvir, mas há a consciência de que se está apenas a deixar a natureza seguir o seu rumo, mas fazendo-o sem sofrimento. Ainda no outro dia, um amigo me contou como passou exactamente por essa mesma situação. Horrível. Muito doloroso. Mas há a convicção de que, a não ser isso, seria continuar a infligir um prolongamento de vida artificial, dependente, contranatura, a alguém que muito se ama. E isso a legislação já o permite e os médicos já o fazem. E fazem com sensibilidade, com cuidado, com respeito pela dignidade de todos.

Portanto, por mim, prefiro não falar em eutanásia, prefiro que não ande meio mundo a falar nisto como se fosse um tema-bandeira, uma causa-fracturante, um lugar-comum, uma coisa-de-nada, uma banalidade para ser usada como arma de arremesso na praça pública.

Se forem para a frente com a merda de um referendo, abster-me-ei. Se for a votos na Assembleia, não quero nem saber.


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Pinturas de Mark Rothko do seu período dark que já prenunciava a escuridão que o estava a envolver

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quarta-feira, fevereiro 12, 2020

Podia ser pior...?





Estou numa fase em que provavelmente vai acontecer uma coisa muito justa e que defendo há muito tempo. Contudo, dadas as envolventes, pensava que não aconteceria tão cedo já que mais altos interesses se levantam. Tinha pensado cá para os meus botões que, com os fogos que noutras frentes há que apagar, a coisa ia andando até ao verão. Depois vinham as férias. E, portanto, até lá não me doesse a mim a cabeça. Afinal ontem recebi um telefonema: vai acontecer. E depois o aviso: só nós dois é que sabemos. Pensei que nunca é bem assim. Mesmo quando só dois é que sabem, se formos ver bem as coisas, se não forem mais de meia dúzia é uma sorte. Mas não disse nada. Os homens preocupam-se à toa com pequenas coisas e, portanto, poupei-o.

No entanto, apesar de ser justo e desejável, para mim, agora, isto vem envolto em mixed feelings pois não sei que consequências terá para mim. 

Acresce que não posso falar no assunto. Mais: se alguém abordar o tema, tenho que fazer-me de desentendida para que ninguém saiba que sei. 

Não é a primeira vez que me vejo metida no meio de jogos de espelhos que têm que ser representados em silêncio ou em que, a bem de todos, a dissimulação é a palavra de ordem. A novidade é que um lado de mim já deseja é não ser puxado para alta cavalarias.

O horóscopo da Madame le Figaro dize:
Bonnes perspectives professionnelles grâce au bel aspect de Mercure. Bien inspiré, vous prendrez des décisions judicieuses, qui vous feront avancer d'un grand pas dans votre carrière. On vous appréciera.
Enfim, o que for soará.

E depois há outra coisa. O que para quem vive as situações podem ser grandes desafios ou grandes estopadas ou grandes riscos, quando vistas de longe são nada, invisíveis a quem passa ao largo. 

E depois, mesmo quando se vivem grandes divergências e há contendas, gente de má índole no pedaço e temos que estar sempre em guarda pois o ataque pode vir quando menos se espera, temos sempre a possibilidade de relativizar ou de ver o lado lúdico da coisa. Entra-se para um lugar assim com uma de duas atitudes: ou se vai num estado de nervos, antevendo os problemas com que nos vamos deparar, ou vamos na desportiva, sabendo que, haja o que houver, bater não nos baterão e o mais provável é que saiamos de lá com vida. E que, cereja em cima do bolo, quando de lá sairmos, à noitinha, a cidade estará linda e a música na Antena 2 será boa como sempre ou o Alvim na Antena 3 estará impagável também como sempre.

Portanto, as coisas podem correr mal...?

Se calhar podem mas menos mal porque, bem vistas as coisas, podia ser pior.

Ah, agora lembrei-me de vos contar: no outro dia estive com um conhecido que, coitado, estava de pé descalço, no ar, e com muletas. Depois de ouvi-lo, desconsolado, infeliz mesmo, a contar da cirurgia que tinha que fazer, do mês de imobilização, do mês seguinte de quase imobilização e dos meses de fisioterapia que se seguiriam, o melhor que me ocorreu dizer foi que podia ser pior. Felizmente, ele, que tem sentido de humor, desatou a rir. É que poderia ter-me mandado a um sítio feio (e eu compreendê-lo-ia).


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As duas primeiras fotografias são da autoria de David PD Hyde, a terceira é de Anastasia Egle Ellerman, a última é de Guendalina Fiore e fazem parte de The Gucci Beauty Glitch.

Lá em cima, Serge Reggiani  interpreta "Ma liberté" e vá lá eu saber porque me lembrei de aqui a pôr. Talvez seja porque, tendo que me sujeitar a tanta coisa, não posso dizer que seja completamente livre. Mas, enfim, podia ser pior -- além de que, pensando bem, haverá alguém que seja verdadeiramente livre? 

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E, quando pensarmos que as coisas estão a correr mal, pensemos que há mais a quem isso aconteça e que, parecendo que não,  há coisas bem piores. Vejam-se as situações enunciadas neste vídeo:


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