Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, janeiro 16, 2019

Não devendo nem podendo nem conseguindo falar, falo de Katelyn que era a melhor até que deixou de ser.
E até que voltou a ser.
O pássaro conseguiu voar.


Ainda estou sem vontade de escrever.  Tudo muito violento, muito estranho, muito incompreensível. É o que toda a gente mostra: incompreensão. Todos querendo perceber, todos contando como não dá para perceber.

Como não quero nem consigo falar, não sei como dizer não dizendo. E teria mil coisas para dizer, mil. Mil dúvidas. Mil inquietações. Mil medos. Mil penas. 

Estive lá, cheguei tarde. Mil coisas para dizer. Como não quero nem posso nem devo, não digo mais nada. Tudo triste demais.

Por isso, falo de um pássaro que todos diziam que era uma pena que não conseguisse voar. Até que voou.


Vejam, por favor. Mais do que um pássaro: um pássaro muito voador e de borracha. E alegre.

Katelyn Ohashi (21 anos) - 10.0 Floor



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Dias felizes.
Bora curtir a vida, ok?

terça-feira, janeiro 15, 2019

Uma explicação





Ontem era para continuar a minha reportagem fotográfica por Lisboa: tenho paredes poéticas e vernáculas para mostrar, tenho um alfarrabista muito especial, tenho montras fantásticas. Mas tenho que confessar que estava um bocado sem vontade. 

Já tinha falado no recebimento de Montenegro pelo nosso Excelentíssimo e Ubíquo Presidente (diz-se recebimento ou recepção? ou recebidela? ou recebidinha? -- não sei, não sei qual a duração do encontro) e quando, nesta minha auto-disciplina que me faz ser uma trabalhadora incansável, ia escolher as fotografias das ruas de Lisboa, fui-me um bocado abaixo.

Há coisas para as quais a gente não está preparada.

No outro dia, quando estávamos a passear em Óbidos telefonou-me, falou-me dos filhos, de si próprio, perguntei pela família, estava tudo bem e que me viria fazer uma visita um destes dias.

Ontem, à tarde, o telefonema impensável.
Não quero falar nisso, não agora. Nunca sei quem está a ler-me, não quero falar de uma situação muito difícil e triste. 
Em voz baixa, contou-me. Ouvi com um aperto no coração.
Éramos tão novos. Rimos tanto. Ainda no sábado, depois dele me ter ligado, chorei a rir a recordar uma das situações mais divertidas da minha vida. O que ele me vez rir nesse dia. E o que ele me reencaminhava dela, ela ainda pior que ele. Uma foliona, uma descaradona. Já várias vezes aqui falei dela. O que me ri com ela. 
Não estamos preparados.


Os nossos filhos cresceram, são agora mais velhos do que eu e ele éramos nessa altura em que nos conhecemos. Ela ia buscá-lo. Apitava. Ele ia à janela, fazia-lhe sinal, descia.

Os anos foram andando e nós também. Os nossos pais, os problemas da idade, as casas, as coisas da vida. Sempre a sabermos do que se ia passando.

Inseparáveis, ele e ela. Até ao fim, inseparáveis.

Não estamos preparados.

E a fatídica coincidência. E a voz dele a dizer-me o que me disse. Fui capaz de falar, de dizer o que, na situação, se pode dizer. Mas com que custo.

E, mal acabei, uma reunião, como se nada se passasse. Depois no carro, a minha filha também admirada. Não sabemos bem, eu, pelo menos, não sei.

Hoje à hora de almoço, outro telefonema, outro impensável telefonema. 

Não quero falar nisso. Talvez daqui por uns tempos fale. Nunca consigo falar em cima do calor (ou do gelo) da situação. Falo depois, como uma memória a propósito de outra coisa qualquer.  

Mas, porque estou um bocado abalada, ontem passou-me a vontade e a capacidade para aqui escrever o que quer que seja; tentei mas não deu mais que isto. Depois, a noite foi praticamente em claro. Melhor: afogada em breu. E hoje ainda pior. 

Lamento.


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Para isto não ficar tão árido, coloquei aqui três fotografias feitas com drones

Trouxe a Mariza com a sua Chuva porque sim.

Marcelo recebe Montenegro.
Pergunta: a seguir, para equilibrar, vai receber o tal Morgado?
E a seguir, tendo já recebido o brócolo e a beterraba, vai também receber a Manuela Moura Guedes?
Só pergunto.


O tema não me entusiasma pelo que, por muito que os noticiários e os comentadores se excitem com este transfoguetório e arrebéubéu laranja, eu não tenho muito a dizer. Não me assiste. Que hei-de eu fazer?

Mas.

Dizem os laranjas, em sua defesa, que portarem-se como gatos esgatanhados dentro de um saco, arrancarem tudo e até olhos uns aos outros para disputarem lugares, aldrabarem picagens de ponto para receberem subsídios de presença, fazerem blogs, sites e páginas ou o que calhar para difundirem fake news e etc, faz parte do seu ADN. Como quem diz que ser trafulhas, trapalhões e traiçoeiros é a praia deles (isto da praia para usar a terminologia de Montenegro). Pretendem eles, os pró-ele, dar a entender que esta macacada do seu guru não é para ver se salva os lugares dos pró-Láparos nas listas mas, sim, uma coisa genética, uma pura manifestação do que é o ADN dos PSDs. Pois, pois. Se é isso, bem podem limpar as mãos à parede.

Mas eu, com essas atitudes deles, já não me admiro. Salvo raras excepções, nunca os tive em boa conta. Gente muito oportunista, muito vale-tudo, muito desclassificada. Laranjas sempre do chão. Tocadas. Meio podres.

O que me espanta nisto é o Presidente Marcelo ter recebido em Belém o dito joker Montenegro. Foi porquê? Porque já tinha dado tempo de antena ao Goucha, já tinha telefonado em directo para a Cristina Ferreira, já tinha gravado um testemunho para a Tânia Ribas de Oliveira? Como o Montenegro agora é que está a dar nas notícias, quis equilibrar? Mas onde é que isso vai parar? No mínimo agora tem que receber o Morgado e olha que menino, coisa fina, afiambrada. E se um qualquer autarca de Vale da Gatinha resolver anunciar que também quer correr com o Rio? Vai também recebê-lo? E a mão atrás do arbusto... não? E a madrinha do brócolo e da beterraba, aka Procuradora? Não recebe? Tem que ser, não...? E ao Bruno Lage não recebe porquê? Vai dizer que ele não é importante...? Um especialista em captar feelings tácticos nos olhares não é importante?! Não? E a mim? Sim. A mim. A mim não me recebe? Mas porquê, posso eu saber? É boa.

segunda-feira, janeiro 14, 2019

Lisboa é romântica, é namoradeira, conversadeira e boa para se ficar zen.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 1 de muitos]




Por onde se passe, em especial junto ao rio, há gente a contemplar o rio, lindíssimo, tranquilo, muito azul. Gosto de fotografar as pessoas que olham as águas, seja de um rio, sejam do mar.

Seria bom poder ir falar com elas, saber como se sentem, o que pensam. Mas claro que se pudesse me inibia pois haveria de ter o bom senso que olhar para a água é um momento sagrado, jamais se deve interromper alguém que contempla um horizonte ou o azul impossível de um rio que corre mansamente.


Acho romântico ver alguém assim. Seja uma pessoa solitária, seja um casal, seja um grupo de amigos. Imagina se eu era maluca que fosse cometer um tal dislate: Olhe desculpem, podem dizer-me o que sentem quando aspiram a maresia ou olham o azul cambiante ou o ondular das aguas. coitadas das pessoas, haveriam de ficar desconcertadas, sem perceberem se haveriam de me empurrar a ver se um banho me refrescaria as ideias ou se, cortesmente, me diriam: sorry, can't understand such surreal questions

Também gosto de fotografar pessoas que conversam, mulheres geralmente. Duas mulheres que tirem a tarde para passear, conversarão ininterruptamente desde que se cumprimentem até que se despeçam. Tão certo como dois e dois serem quatro.


Acho o máximo ver duas mulheres a conversarem. Nem dão pelo que se passa à sua volta. A conversa absorve todos os seus sentidos.  Há sempre assunto. 


Diferente de dois amigos, de dois namorados. Aí há silêncios, hesitações, suposições não assumidas, meias palavras -- a cumplicidade assume outras formas. Com duas mulheres amigas é uma torrente contínua.

Mas, enquanto ia caminhando e observando, uma dupla chamou a minha atenção. Um homem magro, debruçava-se sobe uma mulher que, assim de repente, me parecia que estava numa cadeira daquelas para pessoas que não se aguentam bem sentadas. Desviei o olhar. Não gosto de ser indiscreta. Mas a curiosidade foi mais forte. Ao passar perto, espreitei pelo canto do olho e vi que não era o que tinha pensado. Mas continuei a não perceber, parecia que se deitava sobre uma mulher também ela toda inclinada.


Então olhei melhor e vi que era uma cadeira de massagem e que ele lhe dava uma intensa massagem. Ela ali estava, abandonada às mãos e aos antebraços dele. Fiquei com uma certa invejinha. Que bom deve ser levar uma massagem nas costas ali, à beira mar, ao sol suave da tarde. Aliás, pelo Natal, recebi um voucher para uma massagem da felicidade e não vejo a hora de o resgatar. Adoro massagens. A ver se para a semana dá. 

Ao lado do massagista uma rapariga fazia colares, igualmente em estado zen. Vejo agora na fotografia que estava um homem atrás dela. Lá não reparei. A gente não repara em grande parte do que está perante os nossos olhos. É tão estranha essa sensação. Quem sabe se as nossas ideias não seriam diferentes se, no momento em que fazemos opções, tivéssemos em atenção tudo aquilo a que não prestámos atenção?

(É uma pergunta retórica: nunca conseguiremos absorver tudo o que a vida nos oferece)

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Ainda tenho mais uns três ou quatro postais mas já é tão tarde que acho que vou deixá-los para amanhã.

Entretanto, se estiverem in the mood para um passeio comigo por esta Lisboa que amo de coração, desçam até à Lisboa linda e amorosa, à Lisboa musical, à Lisboa com homens com pinta e aos pontos cardeais de Lisboa. Espero que gostem.

Lisboa tem lagos com gaivotas, veleiros que deslizam como cisnes e pais que passeiam de mão dada com as filhas.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 2 de muitos]




No sábado à noite tentei, durante um bocado, adormecer o bebé. Pus-lhe a chucha, sentei-o ao meu colo, bem abraçadinho e ele aconchegou-se, nitidamente a dar-lhe uma pancadinha de sono. Isto no meio da maior confusão. Mas, então, o irmão veio sentar-se ao meu lado e eu disse: quando o teu pai e a tua tia eram bebés eu cantava-lhes 'o meu menino é de oiro' e eles ficavam sossegadinhos a ouvir até adormecerem. Se eu me lembrasse, cantava agora ao teu irmão. E comecei a trautear. Mas faltavam-me muitas palavras. Ele, então, começou a cantar e sabia mais do que eu. Ficámos, então, os dois a cantar, baixinho. O bebé muito sossegadinho, aninhadinho. E eu pensei: este é um momento de ouro. Feliz, feliz da vida.


Até que, de repente, como se tivesse acordado, endireitou-se e saíu do colo e foi brincar. Pronto, com ele a canção de ninar não surtiu efeito.

Mas fiquei com vontade de a ouvir de novo. Canção maravilhosa de tão serena e apaziguadora. E que boas memórias me traz. Só com a minha menininha é que não. Quando era bebé e eu ficava com ela à noite, não queria dormir. Atingia o limite da rabugice, chorava, perdida de sono, mas recusava-se a dormir. Se eu ensaiava, então, cantar ao dele O meu menino é d'oiro ela ia aos arames. Emperrtigava-se e dobrava o choro, furiosa. Nessa altura eu ainda não me tinha apercebido da personalidade forte que ali está. 

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Caso queiram continuar a passear por Lisboa, queiram fazer o favor de descer seja para verem uma Lisboa musical, seja para verem homens com muita pinta, seja para verem os pontos cardeais de Lisboa.

Lisboa tem música.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 3 de muitos]




A fotografia ali em cima mostra uma das várias montras da fantástica loja Hermès. As montras Hermès são sempre montras invulgares e com um toque de graça. Desta vez, não sei porquê, estão cheia de engraçados ratinhos brancos e orelhudos, verdadeiros topo gigios, Escolhi esta por ter a ver com música.

Anda-se por esta zona de Lisboa e há música everywhere. No Chiado há música e dançam, no Cais do Sodré é jazz, há guitarra portuguesa há trio cantante. Até na areia vi um jovem deitado ao sol abraçado à sua guitarra. O sol ameno, a luz límpida, o rio, as pessoas e a música. Muito bom passear em Lisboa.


Aquilo que me levava a ter vontade de ir para fora porque não encontrava por cá -- este ambiente descontraído, este hábito de estar na rua ao invés de fechados em casa como era até há uns tempos em que as nossas ruas estavam quase desertas e em que quase não havia gente nos parques ou à beira rio ou nas esplanadas, esta coisa boa de termos música enquanto passeamos -- já não existe.

O nosso país começa a saber desfrutar das cidades e, talvez pelo contágio com quem e«vem de fora, o ambiente que agora se vive em Lisboa é bom. Dá gosto passear. Um maná para quem, como eu, gosta de fotografar.

Muito talentoso, este jovem. Tomara que vá longe. Muito boa (e muito bem tocada) a música que toca.
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E queiram continuar a descer, quer para verem três homens com pinta, quer para verem os pontos cardeais de Lisboa, a magnífica cidade.

Lisboa tem homens muito fashion.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 4 de muitos]




Já vos contei muitas vezes: gostava muito de andar na rua a fotografar pessoas. De tudo -- flores, árvores, paisagens naturais, a arquitectura das cidades, tudo -- aquilo que mais gosto de fotografar são as pessoas. Mas gosto de as fotografar à traição. Não gosto de avisar ou pedir que olhem para mim, que riam, que façam macacadas. Aquela coisa do cheeeeeeese ou da ba-ta-ta comigo não dá. Mas depois, ao fotografar as pessoas sem as avisar, não obtenho o seu consentimento e, portanto, se as publico aqui, fico sempre com algum receio de que não gostem de aqui se ver e me peçam para eu me deixar de ser abusadora e as retirar.


Mas, pronto, de vez em quando arrisco. Aqui foi o caso. Vi muita gente muito interessante porque Lisboa é caleidoscópica e há pessoas para todos os gostos. Mas optei por me focar em três homens com indumentárias muito díspares mas qualquer deles com muita pinta. A elegância tem várias formas e fica bem em qualquer idade.

Seja o dandy da beira rio, seja o camuflado do Chiado ou o blasé da Brasileira à conversa com Fernando Pessoa, qualquer deles é bom de ver. Mas, claro, se algum deles aqui se descobrir e não quiser cá estar, bastará que mo diga quer através de comentário, quer de mail. Lamentarei porque gosto de estar rodeada de homens interessantes mas obedecerei sem pestanejar.


E queiram descer para verem os pontos cardeais de Lisboa.


Lisboa tem pontos cardeais.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 5 de muitos]




Muita coisa a fazer em casa mas, mal acordei, o meu marido foi ter comigo à cama para me perguntar se não queria ir passear, almoçar ali pelo Chiado. Turistar em Lisboa. Claro que sim, há lá coisa melhor? No fim, já a meio da tarde, até lhe disse: não me importava de tirar dois ou três dias de férias para podermos andar à descoberta do que mudou desde a última vez. 

Aliás, deve ter sido telepatia entre mim e ele pois ontem, ao adormecer, naquela fracção de segundo que levo para cair no sono, tinha mesmo pensado nisto: não inventar, limitarmo-nos a passear na mais linda cidade do mundo, linda, cada vez mais linda. 

Entretanto, regressámos quase a anoitecer e, desde aí, já me fartei de trabalhar. Tarefas domésticas que é coisa de que gosto se feitas à pressão. Um dia que esteja em casa sem necessidade de fazer as coisas à pressão nem sei como vai ser.

E agora vou continuar a enviar postais de Lisboa. Espero que gostem.

domingo, janeiro 13, 2019

Palavras de acalmia depois de um big vendaval





Pronto, já consegui instalar-me. Tive-os a todos cá e depois só os cinco porque os crescidos foram curtir a night e foi aquele festival de quando os cinco pimentinhas estão juntos em espaço confinado. Os quatro a fazerem wrestling, bebé incluído. No meio da confusão até deu uma dentada nas costas de um dos primos. Ela brincou aos escritórios, depois maquilhou-me, maquilhou-se. E eles depois a rebolarem em volta da big ball, bebé também incluído. Depois quiseram ir comer uvas e bolo, e isto para aí uma hora e picos depois de terem jantado.

Depois ela descobriu uma caixinha de trident e quis uma pastilha e depois todos queriam pastilhas e reivindicavam como se estivessem numa manif: pastilhas! pastilhas! pastilhas! e até o bebé gritava: pilha! pilha! pilha!

Quando os pais os vieram buscar, tarde e más horas, estavam todos espertos e prontos para continuerem a brincar.

Entretanto, as almofadas mudaram de sofá, as canetas e os lápis de cor estavam todos fora dos respectivos estojos, as cobertas dos sofás estavam meio tiradas, uma cadeira estava no chão e os brinquedos com que o bebé brincou estavam fora do cesto. Quando saem e nós vamos despedir-nos e depois reentramos em casa, é como se um furacão tivesse passado pela casa. O meu marido põe-se logo a apanhar coisas e desabafa: aqueles gajos... mas eu fico tão cansada que não consigo articular palavra.

Mas fui beber água e fiquei logo melhor.

Mas o pior não foi isso. O pior é que o touchpad de um dos computadores, um que está a dar as últimas, tinha deixado de funcionar e o do trabalho, que este fim de semana trouxe para casa, estava já sem carga e carregador viste-o. Passava da meia-noite, queria pôr-me aqui a descansar e os computadores fora de combate. Estiveram a mexer neles e fizeram este lindo serviço. O meu marido repreende-me: Deixas os putos fazerem o que querem. Fiquei furiosa: Deixo? Mas como consigo não deixar? Se ajudasses a tomar conta deles... Mas ele refila: Ai é? E quem é que punha a mesa? E quem é que levantava a mesa? E quem é que... E eu já nem o ouvi porque era verdade e não me apeteceu dar-lhe razão.

É que se ando atrás do bebé, que trepa e sobe e desce sozinho para cadeiras e tenta mexer em tomadas, ficam os outros quatro à solta. Se vou atrás de algum dos outros, não vejo o que estão os outros a fazer, em especial o bebé de quem não podemos tirar os olhos nem por um segundo.

Enquanto acabava o jantar, apareceram uns com o computador na cozinha para ficarem a fazer não sei o quê, jogos talvez. Entretanto, dei com ela, na sala, a brincar com a tia aos escritórios e depois aos médicos e a escrever no outro computador. E ouvi-a a dizer que ia guardar o carregador na mala do computador. Depois vieram dois dos rapazes a dizer que o touchpad tinha deixado de trabalhar. E dizia um: será que apanhou água...? e reparei que, de facto, havia alguma água no teclado. Percebi: não me digam que entornaram água no computador... E logo eles, com sorriso apanhado: não... E eu a ver que ali havia coisa. E o outro: só se caíu... E eu, já zangada: Olhem lá. Deixaram cair o computador? E logo o mais novo: Não, não caíu, juro que não fui eu... E os dois com sorrisinho apanhado. Fiquei mesmo arreliada: deixaram cair o computador e ainda lhe entornaram água. E agora? Fico com o computador estragado? E eles: desculpa Tá, desculpa. Não insisti. Não quis sabe quem foi, como foi. Foi; e de certeza que, o que foi, foi por acidente; portanto, ponto final. Não consigo zangar-me com eles.

Entretanto, agora pedi ao meu marido que lhe desse com o secador. E ele: Era mesmo só o que faltava, passa da meia noite e eu a dar com um secador num computador. Deu-lhe durante um ou dois minutos e foi dormir. 

Mas nada, nem pó, o rato do computador sem trabalhar e eu sem rato externo. Entretanto, como disse, o outro sem funcionar e eu sem descobrir o carregador. Dentro da mala não estava nem nos sofás nem debaixo deles nem na cozinha nem em lado nenhum. Liguei ao meu filho. Tinha acabado de deitar os miúdos e ainda estavam acordados. Disseram que estava na bolsinha exterior da mala do computador, bolsinha essa em cuja existência nunca tinha reparado.

Com o computador a carregar, pesquisei e li que fizesse fn F9 e milagrosamente o rato do computador voltou à vida. Portanto, às tantas nem o banho que apanhou nem o trambolhão que deve ter dado tiveram a ver com o touchpad ter ficado desactivado.

Passa bastante da uma da manhã e estou feliz da vida pois nada me traz mais felicidade do que estar com os meus; mas tenho que reconhecer que ficarmos os dois em campo fechado com estes cinco fazedores de vendavais é obra. Deixaram-me, pois, um bocado off. Ua vez mais não consigo responder a mails que tenho em atraso ou a comentários. Impossível. A energia daqueles cinco é uma coisa que só vista, parece que se potencia quando estão juntos.

Mas, como a seguir ao almoço já fui aos meus pais, este domingo estamos por nossa conta. Tenho vários afazeres mas face ao forrobodó e ao vendaval de hoje cá em casa vai ser piece of cake.

Lamento não ser capaz de escrever sobre o que quer que seja nem tenha fotografias das minhas para mostrar apesar de ter andado a passear numa cidade muito linda e bem arranjada e, penso, ter fotografias que o atestarão. Mas não consigo ir escolhê-las. E devo ter também muitas deles, dos meus queridos pimentinhas, certamente parte delas desfocadas pois não conseguem parar sossegados. Como será que eles, quando forem crescidos, recordarão estas estadias cá em casa, como recordarão as almoçaradas e jantaradas em volta da mesa grande, toda a gente a falar e a rir? Espero que sejam memórias que acarinhem para o resto da vida. Eu de certeza que o farei. Quando os meus filhos eram pequenos e andavam à bulha eu pedia-lhes sempre que fossem amigos, muito amigos, grandes amigos para sempre, toda a vida. E agora desejo isso também para todos os seus filhos -- que sejam grandes amigos entre si, amigos inseparáveis, irmãos e primos, tios e sobrinhos. Os meus amores e os meus amorzinhos.

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Os casais a dançar -- talvez um tango, talvez une valse à mille temps -- que Botero pintou talvez não tenham nada a ver com o texto. Nem a canção do Moustaki que, não sei bem dizer porquê, me causa um frémito e uma emoção que não sei bem definir, talvez como que de uma intrigante nostalgia. Mas estando eu tão KO como estou, é a minha forma de enviar um sorriso a um certo métèque que não sei se o merece ou não mas a quem, tendo eu a alma de uma verdadeira santa, me sinto com vontade de perdoar. E de dizer a todos os viajantes que por aqui gostam de passar que, apesar de perdida de sono, nunca perco a vontade de sorrir e de dançar, mesmo que apenas com as palavras.

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A todos desejo um bom dia de domingo.

sábado, janeiro 12, 2019

Luís Montenegro, o joker de mão do Láparo, está com vontade de sangue.
Não se pode dizer que Rui Rio já dançou porque tem ar de pé de chumbo.
Santana Lopes, a velha naba do regime, anda a cuscar para ver a quem ferrar.
Mas nada disso tem que se lhe diga porque é tudo uma chachada.
Prefiro dedicar-me a outras cenas.




Só para dizer que os dias passam e eu continuo sem descanso. Tenho coisas minhas para tratar e não consigo uma escapadinha nem de manhã nem à hora de almoço. Ao fim do dia muito menos, saio sempre tarde. É ridículo.

De vez em quando penso em colegas meus que, quando tinham a idade que tenho agora, começavam a deitar contas à vida, punham-se a jeito para, daí por um ou dois anos, receberem uma bela indemnização, daí saltavam para o desemprego e do desemprego para a reforma. Eram outros tempos. As reformas podiam obter-se cedo e, tanto quando julgo saber, sem penalizações. Claro que foram essas liberalidades que ajudaram a dificultar o equilíbrio das contas da Segurança Social pois gente a reformar-se cedo e a viver uma segunda vida já reformada a par da diminuição de novos contribuintes era coisa que não podia continuar.

Mas a verdade é que agora, com a reforma cada vez mais tarde, autêntico alvo móvel, uma pessoa esgota-se neste afã e parece que nunca mais lá chega. Por vezes consolo-me e penso que já faltou mais e que está na hora de arranjar sucessor, começar a prepará-lo e, aos poucos, ir entrando em phase out. Essa perspectiva agrada-me. Mas logo as circunstâncias de encarregam de me tirar as peneiras. Por isto, por aquilo ou por aqueloutro logo me vejo submersa. Na volta é inabilidade minha para me poupar ou uma certa tendência natural para -- involuntariamente -- descobrir e, a seguir, ocupar espaços vazios. Uma maçada.

No entanto, gosto do que faço porque, em boa verdade, faço aquilo de que gosto. Quando calha proporem-me coisas de que não gosto digo que não dá, azarinho, comigo não violão. Acho que já atingi um certo estatuto que me permite isso. O meu marido diz que sim, estatuto de maluca. 

Whatever.

O que sei é que, submersa como ando, vejo como se de fora os gatos manhosos e engalfinhados, no saco que é e sempre foi e será o PSD. Teve e talvez ainda tenha alguma gente de qualidade mas, basicamente, aquilo lá é gente que procura a vantagem, os jogos de interesses, gente oportunista. Conheci de perto alguns. Ainda conheço. Mas agora não andam com o rei na barriga como andaram noutros tempos, andam na moita. Conheci um, a coisa mais inculta, básica, bronca e sem ética que até hoje já conheci. Administrador de empresas, de grandes empresas, das maiores do país. Sem vergonha na cara. Amigo dos mais influentes psd's, tudo gente desqualificada. Vejo-os na televisão, sei por onde param, lembro-me dos sítios por onde andaram, o que fizeram. Na televisão armam-se em arautos do que não são. Gente sem escrúpulos constrói a sua verdade, a verdade conveniente. Gente que se faz de confiável, putativos senadores do regime -- mas em quem não se pode ter confiança.

Lembro-me de como conspiravam para guardarem e esconderem o osso. Lembro-me de como conspiravam para escorraçar possíveis ameaças.

É o que acontece agora. A perspectiva de ficarem afastados do poder durante muito mais tempo deixa-os nervosos, agitados. Os escritórios de advogados onde se acobertam estão ansiosos. Estão aí obras públicas e temem não ser contratados com a mesma ligeireza e abastança que um governo laranja faria. Ministros e secretários de estado laranjas são uma festa: assessores e avençados para todos os gostos, tudo saido do saco de gatos laranja. Mas agora as sondagens mostram o óbvio: ninguém leva a sério o mangas de alpaca. E, portanto, os Montenegros, os Morgados, os Rui Alexes e todos os sarrafeiros laranjas desta vida começam a perfilar-se. A rata velha e gorda já pulou fora, numa das suas habituais e falhadas fantasias.

A Cristas, por outro lado, por aí anda cantando de galo. Quem a ouça pode pensar que tem razões para andar naquela euforia cantante. Mas canta porquê? Canta como se tivesse 27% mas, é ridículo, não passa dos 7%. A sua popularidade tem um saldo de 2,6% contra 33,4% do Costa. Uma galinha sem cabeça que não se enxerga. Pensando bem, até dá pena.

E, tirando isto, nada. Nada se aproveita. Um PSD, um CDS e agora também uma Aliança que não valem um caracol furado. Uma indigência. Bem pode o Marcelo chamá-los a ver se enfia algum tino e sentido de responsabilidade naquelas cabeças ocas que não conseguirá nada. Desde que o Cavaco tomou conta do partido que aquilo se contaminou tudo. Os chicos-espertos minaram por dentro aquela máquina toda. E daí para cá, progressivamente, as madeiras vão ficando desfeitas, as raízes fracas, os ramos definhando, as folhas gastas -- e frutos não há.

Não é bom para a sustentabilidade da democracia. Está a formar-se um espaço grande demais sem nada que o polarize. São vazios destes que atraem populismos.

Mas numa noite em que já deixou de ser sexta-feira para entrar no sábado, praticamente a dormir, não consigo interessar-me mais por isto. É que nem sei que mais se pode dizer sobre o nada,

Portanto, há pouco, para ver se arrebitava, pus-me a ver o Mr. Bean. Gosto do Mr. Bean. Aliás gosto de qualquer coisa que me faça rir. Por exemplo, divirto-me imenso com o Nelo e Idália. Ainda esta semana me fartei de rir. Conheço um machão que é muito como ele. Aliás, machão esse que passa a vida a contar graças sobre bichas e que vai às lágrimas com o Nelo. Nunca percebi porque é que as bichas não perdem oportunidade para contar anedotas de bichas.


Mas, então, dizia eu antes de adormecer pela vigésima vez, que me pus a ver um vídeo do Mr. Bean. Pelo meio caí a dormir não sei quantas vezes mas, juntando o tracejado que consegui ver, dá-me ideia que é engraçado. Por isso, em vez de para aqui estar já nem sei a dizer o quê, vou partilhar o vídeo convosco.

Hoje não consigo sequer olhar para os mails nem consigo responder aos comentários. E devia tentar reler o que escrevi, que deve estar pejadinho de gralhas, mas também não consigo. Não levem a mal. O dia que está quase a chegar vai ser bem preenchido e tenho que ir carregar baterias.

Espero que tenham gostado das imagens. São pinturas de Wolfgang Lettl, doidas e divertidas  como tudo o que é surrealista. As lágrimas negras de Zu&Nuria estão aqui bem deslocadas mas porque é que este meu post haveria de estar todo bem alinhadinho? Não vejo porquê.



sexta-feira, janeiro 11, 2019

A moda no tempo em que as palavras eram necessárias.
E hoje, no futuro.





Homens com o que parecem tiques efeminados, mulheres masculinizadas, seres andróginos. É o que abundantemente vejo em sites como The Sartorialist. É também o que vejo em muitos desfiles de moda. 

Posso achar graça a algumas ousadias, a sobreposições irreverentes, a cores arrojadas ou a assimetrias deliberadas mas, em regra, não me sinto tentada a adoptar o estilo e jamais me poderia interessar por um homem com calcinha colorida, justa, acima do tornozelo, camisa gritante, apertada, abichanada. Interessar no sentido hetero do termo, quero eu dizer. O facto de dizer isto não tem implícita censura, muito menos condenação. Só que parece que o mundo da moda tem uma componente homossexual com algum predomínio e tendo embora o seu público, não faz muito o meu género.

Na moda sou um bocado intemporal, clássica. Não antiquada, acho eu, mas clássica. Posso usar a mesma roupa durante anos. Não escolho modelos que passem de moda. E gosto de me vestir de forma feminina. Não barroca, não mulherzinha. Feminina.

Nos homens, então, não tolero seja o que for que fuja do clássico mais clássico que houver. Tudo o que me pareça dar nas vistas, já é demais. Não pode haver botãozinho artístico, alfinetinho de gravata, fio com medalhinha, berloque no sapatinho. Nada. Homem quer-se quase ao natural. Mesmo nas camisas que o tecido não apresente textura que não a lisa, neutra, sem relevo ou brilho.

Vivo no meu tempo e sempre me senti bem com isso. Mas sinto uma certa nostalgia de um tempo que me parece ter sido o meu numa outra encarnação.


O tempo dos vestidos compridos, saias amplas e roçagantes, rumorosas à passagem, brilhos suaves nas pregas, corpetes elegantes, rendas à mostra, seios mal encobertos, capas de veludo, ondulantes. Gargantilhas discretas e perfeitas, colares de pérolas de três voltas, gancho de tartaruga a suster o cabelo solto, véu descarado a cobrir o olhar.


Gostava de poder voltar a vestir-me assim. Sedutora, sentada junto à lareira. As palavras a serem o centro do mundo. Ler em voz alta. Ouvir ler em voz alta, os pés sobre um banquinho bordado. As palavras como elemento de fascínio. De sedução. Escrever, de tarde, uma página de diário, escrever com sinceridade os pensamentos mais secretos. E à noite, numa roda de amigos, um cálice de Porto numa mão, o diário na outra, ler em voz alta as palavras indecorosas de tão sinceras. Gostava. Cortinas de renda na janela e lá fora a chuva. Ou ir a um concerto. De braço dado, um chapéu elegante. O som do violoncelo. Depois escrever sobre o concerto, sobre os vestidos das outras mulheres, sobre o olhar indiscreto de um certo senhor, sobre a forma pudica como eu o tinha ignorado. Saborearia devagar cada palavra, sorriria enquanto escrevesse. Usaria uma caneta bonita de tinta permanente.


Depois iria bordar. Flores em seda sobre tules e rendas, pedrinhas nacaradas ou às cores, folhos e favos de mel, fitinhas. Depois, ao espelho, provaria o vestido bordado, veria o fruto do meu trabalho. E, então, beberia um chá, pegaria num livro.


Mas, claro, isto naquele tempo em que as palavras ainda eram necessárias. Aquele tempo em que havia tempo e amabilidade e o prazer das coisas demoradas e da beleza.

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Mas a nostalgia de outras vidas noutros tempos não trava o futuro.

E o que vestiremos no futuro, naquele tempo em que as palavras e a amabilidade talvez já não sejam necessárias, será o que se pode ver no vídeo abaixo


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E queiram descer até ao post seguinte caso queiram perceber porque é que não me apaixonaria por um certo homem de 50 anos.

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Ele não consegue amar uma mulher com mais de 50 anos.
E eu, olhando para ele e ouvindo o que ele diz, só me ocorre dizer que eu também não seria capaz de amá-lo.
Nem sequer de apenas ir para a cama com ele.


Aliás, tenho a dizer que li a notícia há uns dois ou três dias e nem tugi nem mugi. Para começar nunca tinha ouvido falar de tal pessoa. Quero lá saber do que qualquer um diz. Mas depois fui lendo notícias, o escarcéu que se foi levantando, meio mundo indignado com uma afirmação que a mim me pareceria tão inócua. 

E hoje resolvi ir perceber melhor quem é Yann Moix

Trata-se de escritor, realizador e apresentador de televisão. Parecem-me skills a mais num único corpo mas, pensando bem, o Cláudio Ramos também é escritor e apresentador e ninguém me garante que também não faça vídeos. E se puxar mais pela cabeça sou capaz de encontrar uma palete deles também por cá. Gente polifacetada, quero eu dizer.
O facto de também não o conhecer como escritor não desabona a favor dele mas, provavelmente, de mim. Na volta, salvo um ou outro maluco destrambelhado que ainda vou conhecendo, de resto sou ignorante da nova literatura francesa.

Mas não deixa de me espantar que um sujeito qualquer, seja ou não escritor decente, caia nas bocas do mundo só por dizer que as mulheres com mais de cinquenta não lhe dão pica. E que ele tenha 50 parece-e mero pormenor. Se não dão, não dão. Só gosta de jovens. Está no direito dele. Porquê tanto falatório?

Claro que os jornais e revistas logo se encheram de fotografias mostrando toda a espécie de apetecíveis idosas, com mais de cinquenta. Há montes delas, claro. 


Não desfazendo, eu própria me insiro aí (presunção e água benta, ora pois). Mas, claro, gostos não se discutem e o facto de eu me ver dentro do prazo de validade não quer dizer que um Yann qualquer desta vida não me veja senão como uma avozinha daquelas em quem nem o lobo mau pega. 

Agora duma coisa eu sei: vendo as fotografias dele ou vídeos em que o vejo a falar, não tenho dúvidas que ele a mim também não me inspira nada, nem sentimentos nem apetites. Não é por ter cinquenta anos porque eu, nisso, sou agnóstica: é porque aquela cara parece que indicia um candidato a tarado ou, se olhar melhor, um tipo com ar de campónio metido a besta. Ná. Nem tem um ar sereno nem civilizado nem parece ter sentido de humor. Pior: tem ar de quem não tem uma 'boa pegada'. 

Pode acontecer que uma teenager -- linda, fresca, inexperiente e com pouco mundo -- se deixe deslumbrar por uma vedeta televisiva e vá na conversa de um mal encarado destes. Agora uma mulher feita, que saiba que há mais marés que marinheiros e que são as mulheres que escolhem e não o contrário, olha para uma fraca figura daquelas, disfarça o desinteresse (não vá a florzinha amachucar-se) e segue em frente.

Tirando isso, nada.

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Para quem queira conferir: Yann Moix, o chopinha de macha por ele mesmo


quinta-feira, janeiro 10, 2019

A linguagem silenciosa das mãos




Não sou de ter falta de auto-estima mas, também, não a tenho em excesso. Na verdade, não sou tema para mim. Se aqui falo muitas vezes de mim é porque é o assunto que tenho mais à mão. Tal como muitos pintores passavam a vida a auto-retratar-se porque não tinham dinheiro para pagar a modelos, também eu deito mão a mim e aos pequenos momentos da minha vida para aqui deitar conversa fora apenas porque é o mais fácil para mim.

Dito isto.

Dito isto, se me perguntam o que mudaria eu no meu corpo fico com dificuldade. Podia mudar mil coisas mas como não sei se as mudanças ficariam harmoniosas não é coisa que me atraia. Suponhamos que dizia que gostava de ter as maçãs do rosto mais salientes. Mas e se depois ficava com olhinhos afundados no meio das saliências? Ou que dizia que gostava de ter pernas mais altas? Então e o resto do corpo  ficava igual? Não poderia ser, não é?


Mas há uma coisa que eu não me importava nada de ter diferente: umas mãos maiores. Gostava de ter mãos grandes, esguias, mãos de pianista. E não precisava de mudar o resto do corpo para acomodar umas mãos maiores.  

Em tempos houve quem escrevesse poemas às minhas mãos pequeninas mas não foi por isso que passei a gostar mais delas. Não é que desgoste mas, enfim, acho que podia ser maiores.


É que sou toda de mãos: e não é apenas por escrever tanto, por fotografar, pintar, bordar, tudo coisas manuais. É também porque gosto de andar de mão dada, gosto de sentir a pele, gosto do prazer do toque. Ando in heaven com as mãos a deslizarem sobre o alecrim, passo pelas árvores e gosto de sentir a rugosidade dos troncos.

Foi por isso com especial gosto que vi, no sempre belíssimo blog de Steve McCurry, o último post. É dedicado à silenciosa linguagem das mãos.


Um dia a tecnologia permitirá coisas que hoje parecem impossíveis. Por exemplo, permitirá que eu faça chegar até a alguns dos meus leitores o toque e o calor das minhas mãos. Para muitos isso não interessará para nada mas pode ser que, para um ou dois, seja o toque humano que lhes faz tanta falta.

Com as mãos se brinca, se despreza, se ama, se seduz, se resguarda, se ampara, se trabalha, se oculta, se declara o amor, se diz adeus. Dizemos muitas coisas com o silêncio das nossas mãos.

E as fotografias de Steve McCurry, justamente, mostram bem o que é a linguagem silenciosa das mãos. Fotografias belíssimas, humaníssimas, umas que imploram, outras que ocultam, outras que acarinham e protegem. As primeiras lembram-me as mãos da minha avó paterna quando pegava no seu rosário e rezava o terço. Outras recordam-me a coragem dos que procuram a liberdade em países longínquos. Imagens muito tocantes.
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Para ver todas as fotos e as oportunas citações que sempre insere nos seus posts, por favor, visitar o último post do blog de Steve McCurry: Silent Languagem of hands.


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Dias felizes!

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Para quem quiser saber de Marcelo a equilibrar-se com a Tânia recomendo que desça um bocadinho