Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, julho 24, 2016

Pedrinho, Luisinho, Nini - e os sonhos que foram ficando pelo caminho
[Ou a história dos que andam correndo atrás de sonho que corre ainda mais rápido, mesmo rápido pra cacete]





Pedrinho sonhava de ser cantor de ópera, coisa séria, porque não até mesmo no S. Carlos? Sua companheira da altura, moça de girl band, incentivava. Vai Pedrinho, porque não? Vai ficar toda a vida abrindo porta? Ou fazendo bolo p'ra vizinhos? Vai que eu apoio você.

Pedrinho foi mas não deu certo. Filipe queria moço mais talentoso. Bem que Pedrinho tirou aula de canto mas não deu, faltava-lhe alma, para ser alguém nisso da cantoria não basta ser capaz de puxar dó de peito, tem que vir emoção junto. Por isso, voltou ao de sempre. De biscate em biscate, Pedrinho se foi safando, chegou onde nunca ninguém alguma vez acreditou que chegasse. A falta de vergonha na cara e de miolo na cabeça são boas aliadas das trepadas fáceis. Esteve quatro anos no poleiro fazendo desfeita p'ra todo o mundo, causando desgraça pr'ó país, e fazendo frete p'ra todo o poderoso. Até que caíu, sem perceber como, e não deixando boa lembrança. Ainda anda por aí, feito gente importante no exílio, bandeirinha na lapela, causando troça de todo o mundo. Mas Pedrinho não liga para bobagem. Sua inteligência não chega para tanto.

Outro é Luisinho. Quando era pequenino sonhou de ser grande. Mas quando era já hora de ser grande ainda ele era mindinho. Arranjou amigos grandes a ver se a grandeza era contagiosa. Não foi. Deu jantares em casa, estabeleceu contactos, foi ministro, agenda sempre bem nutrida, mas nada: minguingo continuou. Sonhou de ser chefe de partido, de ser importante, arranjou amigos entre a gente com dinheirão fresco nas malas, olhos em bico, tanto fazia. Fingiu de isento, de conselheiro, de comentador bem informado. Ainda por aí pisa mas, coitado do Luisinho, ninguém leva o pininim muito a sério. Sua catraice é ladina e seu sorriso parece de bom moço, mas já não leva ninguém no bico. Luisinho continua sendo aquele puto manhoso que se quer fazer passar por grande.

Ah, e o Nini. Nini sonhou de ser estimado como o outro que também começou nas Finanças e acabou eleito figura de Portugal. Nini queria isso, o reconhecimento. Andou sempre dizendo que não era político (apesar de viver dela), que pr'a alguém ser tão sério que nem ele só nascendo duas vezes e outras algaraviadas mal paridas do mesmo género. Todos os bêpêénes por que passou e todas as aleivosias que foi construindo foram fazendo com que fosse cada vez mais desprezado pelo povo, mas o Nini é outro que não se enxerga. Acabou fazendo comentário brejeiro sobre fornicação de cavalo e lisonjeio pr'a vaca, cagarra e, na fase final, até pr'a banana. Assim sua esposa, a gaiteira D. Maria, possessiva como uma velha governanta, não ia pegar no seu pé. No fim, saíu pl'a porta baixa, todo o mundo desejando ver a múmia ressabiada p'las costas. De vez em quando, todo o mundo pensando que a enfernizada criatura se mantém esquecida a escrever inúteis roteiros, volta a sair à cena. Mas só em situações inconvenientes é que dá as cara: para ver se ainda chateia alguns. Aí, vem na dele, continuando a insinuar que sabe muitos segredos e acreditando que alguém está p'ra se interessar pelas suas inventonas pueris. Só pode ser por caridade que ainda ninguém lhe disse que se pode deixar ficar na rósea palaçota, que lá é que está bem. Coitado do Nini.

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O que acima escrevi foi inspirado no texto da Revista Bula, da qual transcrevo abaixo um excerto

ESTOU CORRENDO ATRÁS DE UM SONHO, MAS ELE CORRE RÁPIDO PRA CACETE


Felipe sonhava em construir foguetes para a NASA. Imaginem só, um brasileiro na agência espacial norte-americana. Dizem que já existe um por lá fazendo feijoada, tocando pagode, pensando em esquemas. Coisas de Brasil. Felipinho tinha talento nato para fugas homéricas do planeta. Com a cabeça no mundo da lua, hoje ele bate o polegar em beira de estrada, pede carona para qualquer pessoa que veja, vai para qualquer lugar que seja, desde que siga em frente. Para onde o nariz aponta qualquer lugar serve. Sua mente solitária é confusa, ferve.

Rebert sofria excesso de verve. Sonhava em ser mais famoso do que Jesus Cristo e os Quatro Garotos de Liverpool juntos. Um escândalo digno de se espatifar discos de vinil na cara dele em praça pública. Convertido ao mais completo ateísmo e abissal anonimato, ele carimba (com toda descompostura, é bom que se diga) alvarás na secretaria municipal de códigos de postura. Ganhou notoriedade entre os despachantes por cobrar cafezinhos para liberação das licenças. O sonho não somente acabou, como Rebert se transformou numa espécie de pedra rolante, a passar por cima de tudo e de todos, inclusive da lei vigente e do seu extinto entusiasmo adolescente. 

(...)

Zecarlos sempre fora o mais sonhador de todos os sonhadores dessa joça que estou a escrever, pois sonhava, não apenas por si, mas pelo resto da humanidade. Aquelas coisas de paz mundial, de fim da opressão, de justiça social, de distribuição da renda, love and peace e outros delírios que carregava desde 1968. As pessoas rotulavam-no como um político de esquerda, mesmo que ele não fosse filiado a nenhum partido, senão ao coração partido de que cantava Cazuza. Portanto, tinha um altruísmo que poucos compreendiam. Era gentil demais, constrangedor demais. Duvidam dele. Desconfiavam que ele possuísse interesses escusos por trás daquela sanha de justiça. Ora, ninguém era capaz de amar ao próximo daquele jeito. Zecarlos não era santo (já fora acusado de ter alma feminina e um pacto com o cão). Ele continua a correr atrás do sonho de um dia vivermos todos em paz, como irmãos.

Paulo Laranja nunca sonhou com porra nenhuma. Nada que merecesse ser ressalvado aqui nesse texto, e ponto final. Aplacado por um ceticismo revoltante (de arrancar santos-de-barro do oco), nos incontáveis meses de vida que os médicos lhe atestaram (afinal, arrancaram-lhe cerca de sete metros e meio de tripas, e nem assim foram capazes de fazer nele um coração), contenta-se em escrever crônicas semanais para uma revista literária (a menos lida no seio familiar e no seu vasto círculo de ex-amigos). Ele se ocupa em enterrar esperanças. PL teve o disparate de batizar a sua coluna semanal como Cemitério de Sonhos. Vai ser desagradável assim lá em casa.


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As imagens, como é bom de ver, não têm qualquer relação com o texto que, como também é bom de ver, pelo menos na parte que me diz respeito, também estão muito aquém da realidade. São apenas fotografias a que acho piada da autoria do fotógrafo francês Maurice Renoma que, no início deste ano, teve a sua obra exposta em 7 lugares distintos em Paris.

A senhora que lá em cima canta a plenos pulmões é Edita Gruberova cantando a Cunegonde da ária "Glitter and be gay" da opereta Candide de Leonard Bernstein.

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sábado, julho 23, 2016

Saber esperar (sentado)


Dizem que é dos mais divertidos episódios de comédia de todos os tempos e é protagonizado pelo comediante irlandês Dave Allen. É coisa para ter passado na BBC para aí há uns 40 ou 50 anos.



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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Coisas normais em tempos de medo e perplexidade






Por motivos que agora não vêm ao caso, hoje estava em casa a horas em que ainda costumo estar a trabalhar ou enlatada no meio do trânsito. Sozinha em casa, tempo totalmente meu. Mas, como já saberão os que daqui já me conhecem há algum tempo, não me dou bem com a ociosidade. Ter um tempo para mim que não precise de ser conquistado, comigo não funciona. Se não tenho tempo para nada, parece que arranjo tempo para tudo. Tê-lo de mão beijada, desconcerta-me. Podia ter pegado num livro, podia adiantar o blog, sei lá -- e isto para não falar em ocupações mais imperiosas como, por exemplo, pôr papelada em ordem. Mas não dá. Abate-se em mim uma indolência quase incapacitante.

Portanto, deitei-me no sofá e liguei a televisão. Em todos os canais o tiroteio em Munique. Ainda há pouco tempo, um ou dois meses, parte do meu pessoalzinho lá andou a passeio. Só de pensar nisso, fiquei ainda mais incomodada. A vulnerabilidade absoluta de todos nós pode ter um efeito paralisante. As televisões começaram a encher-se de comentadores. Até o Francisco José Viegas lá estava, não sei se ao lado de um polícia, não sei se era no Correio da Manhã TV. Ninguém sabia de que se tratava mas já toda a gente opinava. As mesmas imagens em contínuo. em todos os canais. Um sapato abandonado, os polícias de arma apontada, gente a sair com ar assustado.

Não sei ainda de que se trata mas acho que uma propaganda destas, mostrando em tempo real, durante horas, carradas de polícias na rua, armados até as dentes, tudo aquilo parece mais uma das omnipresentes séries ou filmes de violência que as televisões e os écrãs de cinema passam a toda a hora, tornando a agressividade, a raiva ou a loucura tópicos essenciais na indústria do entretenimento -- onde a morte é um elemento banal, imprescindível para manter a atenção.

Algum dia, alguém ainda há-de estudar o efeito perverso que a comunicação social e a indústria do cinema e da televisão têm na banalização do mal.

Fica-me a ideia de que os malucos encartados, os ressabiados, os deprimidos, os violentados ou rejeitados não se ensaiam muito para, em momentos de revolta, angústia ou desligamento afectivo do meio envolvente, resolverem 'partir tudo', 'limpar o sebo a uma data deles', provarem ao mundo que não deviam ter sido descartados, provarem que falavam verdade quando diziam que ainda iriam 'ouvir falar muito' deles.

Ou seja, não me parece muito difícil que gente com problemas de rejeição ou abandono, com vidas desestruturadas e sem esperança num mundo melhor, se vire para os cavaleiros do neo-apocalipse, para os neo-vingadores, para esses neo-convertidos que se vestem de guerreiros do deserto, enrolados em vestes de neo-profetas e armados como se estivessem num jogo de guerra. E esses neo-guerreiros (do Isis ou do que calhar) também não desdenharão a adesão de tudo o que é doido varrido, pronto a lançar o terror e sem medo de morrer.

Não sei quais as motivações do(s) atirador(es) de Munique pelo que mais não sei nem quero dizer. Não tenho conhecimentos sobre o assunto.

Preocupa-me, isso sim, a falta de lideranças fortes, democráticas e inclusivas no mundo ocidental. O actual bando de galináceas que por aí pulula, vendendo-se por tuta e meia e ferindo a dignidade das populações, fazendo acordos com ditadores, criando guerras e depois fechando as fronteiras às vítimas, com a xenofobia e o racismo a brotar como perigosa infestante, isso, sim, parece-me favorecer um perigoso caldo onde não será difícil que germinem ódios, demências ou desvarios.

Mas não sei. Pode isto não ter nada a ver. Como não ouvi os comentadores a metro, não me instruí.

Abreviando; aborrecida por ver o festival de comentadeiros que as televisões arrebanham mal lhes cheira a pólvora ou a cadáveres no passeio cobertos por curto lençol, parti para a maluqueira do zapping alternativo.

Não sei em que canal parei mas sei que fui parar a um onde as pessoas iam fazer operações plásticas correctivas depois de outras opreações lhes terem corrido mal. Uma chinesa tinha mudado o formato dos olhos e a cara agora parecia, dizia ela, o rabo de um macaco. Para além disso, tinha ela mesmo injectado nas maçãs do rosto um silicone que comprou pela internet. Comprou todo o que podia por 100 dólares. O médico dizia que era um perigo porque são produtos não sujeitos a controlo, que podem causar sérias alergias ou até pôr a pele preta. Agora queria voltar a parecer chinesa.

Outra era a ex top model Janice Dickinson, mudada de alto a baixo, um rosto estranho, a boca informe -- e que dizia que estava tudo muito bem. Maravilhosa - excepto no peito, dizia ela. Que, como tinha nascido com peito pequeno, tinha posto implantes de silicone já há uns 30 anos. E que agora tem pregas na pele do peito e que sente que há coisas a nadarem dentro dos seios. O médico explicou que aquele tipo de implantes tem que ser substituido de 10 em 10 ou, vá lá, de 12 em 12 em anos e que, depois disso, correm o risco de rebentar. Mostravam, então, os seios dela: uma coisa quase assustadora. A preocupação dos médicos era com o facto de ela ter tido problemas com drogas e, portanto, não ser aconselhável medicamentos de tipo narcótico. Ora aquela operação ia ser muito dolorosa.

O programa depois parou ali e deve continuar num próximo episódio. Fiquei com pena, gostava de ver como fivava a chinesa ou como ia a Janice reagir. Depois deu o Project RunWay e tive a sorte de papar os dois últimos episódios daquela série, ficando a conhecer de mão beijada o vencedor. Gosto imenso destes programas. A criatividade instantânea aliada ao virtuosismo técnico fascina-me. Do nada, desatam a fazer vestidos, casacos, saias e blusinhas altamente originais e tudo bem feito. Como eu gostava de ser assim.

Escusado será dizer que o meu marido já estava farto de protestar: não apenas não são programas do seu agrado como eu estava a ocupar-lhe o sofá. Dizia: 'Olha lá, não tens que ir fazer o blog?'. Portanto, aqui estou agora.

Entretanto, depois de vaguear pelos canais, agora está a ver a tourada na RTP1.
Custa-me pensar no sofrimento dos touros, claro que sim, mas tenho em mim um lado bárbaro: também gosto de ver tourada. Agora, por exemplo, estou a escrever isto e a espreitar a pega que teima em não se concretizar. Aliás, o primeiro aviso acaba de soar.
Já conseguiram. Bom embarbelamento.

E eu penso que a esta hora deve estar a dar o Expresso da Meia-Noite e que me estou a marimbar para o que toda essa gente diz, ou que, se calhar, a esta hora, já se conhecem os contornos do que se passou em Munique mas também não me apetece ir averiguar.

Entretanto, andei à procura de imagens para aqui colocar que ilustrassem a banalização do mal e lembrei-me de pôr o Graham -- que, coitado, pode ser horroroso mas mau acho que não é. Contudo, penso que ilustra bem o nonsense desta sociedade. A razão de ter sido criado pode ser meritória mas parece que a a mente começa a puxar demais para o lado do monstruoso. Transcrevo:
He might look a little different but I assure you that he’s human. Well, sort of. The reason he looks the way he does is because his body has been modified to withstand a car crash.
He has multiple nipples to protect his ribs like a natural set of airbags
Graham was created as part of a new Australian road safety campaign by the Transport Accident Commission (TAC). He was designed by sculptor Patricia Piccinini, a leading trauma surgeon, and a road safety engineer, who modified him based on their own knowledge of traffic accidents. The result isn’t a pretty sight but it’s certainly a sobering one. As you can see, Graham doesn’t have a neck because these snap easily in car accidents. He also has a flat, fleshy face to protect his ears and nose. And if you’re wondering about all those extra nipples, they’re to protect his ribs like a natural set of airbags.
Don’t have a body like Graham’s? Then think about slowing down next time you’re behind the wheel.
Em contrapartida, quis começar e acabar com imagens que ilustrassem a beleza da natureza. Queria imagens que mostrassem que ainda há lugares puros e belos e que se transfiguram em belezas ainda maiores quando são olhados com desvelo. É o caso da última (aqui abaixo) e das duas primeiras fotografias da autoria de Joni Niemelä, um fotógrafo autodidacta de Southern Ostrobothnia, Finlândia.


Lá em cima, a música é interpretada por um menino muito talentoso, George Ezra, que aqui aparece num divertido mano a mano.

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E agora vou à procura de poesia dita ou de dança.

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Ora bem; cá temos um momento poético


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado

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sexta-feira, julho 22, 2016

23 razões e agora mais 1


Polícia dispara contra homem negro desarmado e com as mãos no ar


A polícia norte-americana disparou esta segunda-feira contra um cidadão negro não armado que estava deitado no chão e com as mãos no ar. Charles Kinsey é um terapeuta que estava a tentar acalmar um paciente com autismo que fugiu do centro de tratamento quando foi abordado pela polícia.

No vídeo, publicado esta quarta-feira, vê-se Charles a tentar esclarecer toda a situação com a polícia e a obedecer às ordens dos agentes, que acham que os dois estão armados e se posicionam a uma distância segura, com armas semiautomáticas apontadas aos dois suspeitos.

A polícia de Miami tinha sido chamada ao parque porque tinha sido reportado que lá estava um homem armado a tentar cometer suicídio. Charles Kinsey tentou explicar que o homem em questão era o seu paciente, Rinaldo, e que ele não tinha uma arma, mas sim um camião de brinquedo.(...)


Mas, apesar de tudo, Charles Kinsey teve sorte. O tiro foi na perna e, apesar de o deixarem estar a sangrar na rua durante bastante tempo, ele salvou-se e está cá para contar.

Assim vão as coisas no país que supostamente é um dos bastiões da democracia e da liberdade.




Contudo, vários outros que têm em comum com ele a cor da pele não a tiveram.


23 Ways You Could Be Killed If You Are Black in America


Beyoncé, Alicia Keys, Rihanna, Jennifer Hudson, Pink, Bono, and others explain why it's time to take action to heal the long history of systemic racism in America




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E não vale a pena menosprezar estes actos ou lançar intrigas sobre os que lutam contra o racismo pois é da revolta face a um profundo sentimento de injustiça que nasce, por vezes uma incontrolável fúria.

E é de gente que se acha superior a outros apenas porque tem uma cor mais clara que nasce, tantas vezes, o apoio a gente bronca, estúpida e perigosa (vidé a confirmação de Donald Trump para candidato à presidência dos EUA.)

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quinta-feira, julho 21, 2016

Ah, o nosso cérebro, esse vasto território tão maravilhosamente desconhecido
- Veja o novo mapeamento das zonas do cérebro, com identificação de cerca de 100 novas zonas
[E quantas mais estarão ainda por descobrir?]


Depois de ter viajado em busca de lugares belos e decadentes, eis que tenho notícia de mais uma descoberta. E esta é das boas e, ainda por cima, relacionada com a parte mais misteriosa do nosso corpo: o cérebro. 

Researchers have divided the brain into discrete areas based on structure and function
Transcrevo:

Human brain mapped in unprecedented detail
Nearly 100 previously unidentified brain areas revealed by examination of the cerebral cortex.


Think of a spinning globe and the patchwork of countries it depicts: such maps help us to understand where we are, and that nations differ from one another. Now, neuroscientists have charted an equivalent map of the brain’s outermost layer — the cerebral cortex — subdividing each hemisphere's mountain- and valley-like folds into 180 separate parcels.

Ninety-seven of these areas have never previously been described, despite showing clear differences in structure, function and connectivity from their neighbours. The new brain map is published today in Nature. (...)

But the map is limited in some important ways. For one, it reveals little about the biochemical underpinnings of the brain — or about the activity of single neurons or small groups. “It is analogous to having a fantastic Google Earth map of your neighbourhood, down to your individual back yard,” says Jung. “Yet, you cannot really see how your neighbours are moving around, where they are going or what sort of jobs they have.”(...)



Mas vejamos o vídeo que foi divulgado esta quarta-feira. Ainda está quentinho.


The ultimate brain map


A new map of the human brain could be the most accurate yet, as it combines all sorts of different kinds of data. This might finally solve a century of disagreements over the shapes and positions of different brain areas.


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E agora que já sabem muito bem onde fica o bocadinho do vosso cérebro que é responsável pelo vosso hábito de ler o Um Jeito Manso, deixem-se deslizar por aí abaixo porque, se este não vos convenceu, há mais dois posts novos e pode ser que gostem de algum.

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O que poderia ser um passeio para fazer com tempo


Sintra


Gosto muito de passear. Quando penso em ir, não me ocorre muito ir de avião, muito menos de barco, mas, sim, de carro. Ou seja, o que me parece natural é ter comigo o meu próprio meio de locomoção.

O meu marido em tempos tinha a ideia de ter um daqueles carros-caravana. Um primo nosso tinha um, com beliches, cozinha, uma salinha, casa de banho. Gostavam daquilo, eles. No entanto, isso a mim nunca me atraíu muito pois limitar-nos-ia a ter que procurar parques de campismo. Uma colega minha aluga uma coisa dessas e vai com o marido e com os filhos e diz que, por vezes, ficam mesmo nas cidades. Mas não sei. 

Parece-me que ir num carro normal e ir dormir a hotéis é mais tranquilo e nos dá mais liberdade.

Torre em Belchite, Espanha, destruída durante a Guerra Civil


Também gosto de andar de comboio, gosto até muito, mas acho que o comboio é bom para viagens ponto a ponto. É que, se o percurso pretendido é variado, a rede nem sempre nos leva onde queremos ou implica muitas mudanças. Ou seja, quando estou no ir é em ir de carro que penso. O problema é que sendo as férias curtas, ir de carro tem a limitação do tempo. Ou seja, só limitações, umas por razões profissionais, outras por razões familiares.

Dantes viajávamos bastante. Agora, desde o AVC do meu pai, faz-me impressão ir para longe e, por isso, poucos passeios temos feito. Fazemos cá em Portugal e bastante que gosto deles, o nosso país é lindo. Contudo, sinto a falta de me pôr ao largo.

Hotel del Salto, Colômbia


Para me animar, penso, então, que um dia que estejamos de férias todo o ano, haveremos de fazer os passeios que quisermos.

Um que eu gostaria de fazer, seria ir visitar belos lugares abandonados. Fascinam-me esses edifícios que, um dia, foram imaginados para serem vividos em felicidade e que, fruto das circunstâncias, se viram sem ninguém e que, apesar disso, apesar das inclemências do tempo ou da força da natureza, resistem, mostrando ainda vestígios da sua antiga beleza.

Claro que isto sou eu a sonhar porque, se lá fosse, a esses lugares misteriosos e decadentes, haveria de ter medo de lá entrar, medo que as paredes ou os tectos ruíssem, medo que aparecessem monstros, espíritos, gente fora do mundo, tigres azuis, vozes sem corpo, assustadoras respirações.

Uma solitária e esquecida igreja em Frnça

Um dos locais que, ao ver as fotografias, me inquietam e, ao mesmo tempo, mais despertam a minha curiosidade, é a infinita escada para o paraíso. Na origem da sua construção estiveram motivos bem prosaicos e, na prática, o que se pode dizer é que terá sido um projecto falhado. De manutenção difícil e muito perigoso, há formas mais expeditas e seguras de chegar ao cimo do monte. Mas, abstraindo-nos desse lado mais pragmático, é uma constução maravilhosa com quase 4.000 degraus.

Stairway to Heaven’, Oahu, Hawaii
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Talvez um sonho. Talvez uma impossibilidade eu ir um dia ver sítios assim. Talvez nunca passe disto, de ver as fotografias destes lugares solitários, belos, que resistem à decadência que o impiedoso devir do tempo lhes reservou. Não faz mal. Também gosto de imaginar e de ir viajando pela internet, vendo fotografias, descobrindo lugares mágicos que talvez um dia recuperem a vida que conheceram em dias felizes. Ou que vão acabando aos poucos, dust to dust.

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Edifice


Dirigido, editado e filmado por Rogerio Silva
Coreografado e interpretado por Carmine De Amicis e Harriet Waghorn 
Música de  Alaskan Tapes "Then Suddenly, Everything Changed"

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E queiram, por favor, descer para uma paródia encenada para gozar com a confirmação do clown Trump para canditado conservador à presidência dos EUA. Parece anedota. Parece mesmo.

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Faz sentido o Trump ser candidato à Presidência dos Estados Unidos?
- Stephen Colbert foi à procura do Jon Stewart para partilhar a extraordinária notícia


Dois dos grandes senhores da televisão americana mostram que não brincam em serviço e que, se pode ser muito bom, sem ter que se ser neutro.

E acrescento: sorte a deles não viverem na Turquia, essa terra governada por um democrata apoiado pelos democratas ocidentais. Isto de acobertar o ninho onde se desenvolve o ovo de onde a toda a hora pode nascer uma letal serpente pode dar pelo nome de diplomacia mas, de facto, deveria chamar-se simplesmente cobardia.

Mas vejamos:


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quarta-feira, julho 20, 2016

O so-called cagalhoças Marques Mendes anda a vazar notícias velhas e relhas para fazer o jeitinho a alguma eminência pardaloca?
Cartas ultrapassadas e tal e coisa, e a CGD e o escambau...?
Pois, em abono da verdade, vos digo: não estou nem aí. Tenho mais que fazer.
Por exemplo, ver uns vídeos maneiros: a coitada-copista Melania Trump, a genuína Michelle Obama no Carpool Karaoke e o gato fofo e o seu amigo cão que não acordou nem por mais uma


A sério: para mim o catraio MM é coisa datada. Traz recados, é um leva e traz, uma concièrge no pior sentido da coisa, uma vizinha alcoviteira. Não tenho pachorra. Há séculos que não lhe ponho os olhos em cima. Ando a ver se me despoluo. Aqueles pafiosos têm uma pegada lapariana muito pesada, uma pessoa vê-se grega para se limpar do sarro que deixaram por todo o lado. Portanto, apenas soube da intriga da carta que o dito coisinho levou para o balcão da tasca do Militante Nº 1 pela bloga e pelos online. Mas não foi música que me embalasse. Eu ando numa onda mais Kardashiana: temas softs, fofos, very lights, levezinhos, coisa própria da silly season.

Portanto, depois de ter descoberto que o ADN da Kim e do Conde White Castel revelam que foram separados à nascença, agora parto para o reino dos animais. Claro que, como bem sabemos, todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que outros.


Portanto, começo pela putativa Primeira Dama, Melania Trump, a mulher do homem banana (que acaba de ser confirmado como candidato conservador), que, inspirada, fez um emotivo discurso que, apenas por acaso, também foi separado à nascença do discurso de Michelle Obama.


Comparação entre o discurso de Melania Trump e o de Michelle Obama



Tadinha dela, tão bonitinha, e a escorregar numa gaffe destas.
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Mas, olha lá. Mel, já agora imita lá também esta.

Carpool Karaoke com Michelle Obama, no carro com o fabulástio  James Corden


(A ser divulgado esta quarta-feira no The Late Late Show with James Corden)



[Também está mais bolachuda, a Michelle, não está? Ou é impressão minha?]

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E, para continuar na boa onda da Madame Obama, vejam este gato fofésimo que não consegue acordar o seu amigo, um big dog.

(Se não os podes vencer, junta-te a eles, certo?)


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Kim Kardashian e José Castelo Branco -- gémeos separados à nascença?
- ou o triunfo do bisturi e do silicone no maravilhoso Reino das Selfies
[Nem a Mona Lisa resistiu a esta moda, caraças]


selfies kardashian

No outro dia, um amigo mostrou-me fotografias de um importante evento em que tinha participado. Cusca eu e não menos cusco ele, ali estivemos no corte e costura, a ver um por um, e ele a mostrar-me a mulher deste, acabada, acabada, a outra, tia, podre de tia, o outro já a cair da tripeça, a tal que é gira todos os dias. Às tantas pergunto-lhe se a mulher de fulano de tal não tinha ido. Que sim, que sim, poderia lá ela faltar a uma coisa daquelas. Mas nunca mais aparecia. E ali estive eu a ver uma que, gorda como está, já não tem corpo para se vestir daquela maneira, o outro que parece uma múmia bem conservada. E entre o espanto e o riso, lá fui vendo as mais de duzentas fotografias.

Até que me diz ele: 'Olhe. A sua amiga.'. Olhei, espantada, sem conhecer ninguém. Ao meio da fotografia uma desconhecida, de pé, sorria. Dos lados, outras. E ele: 'Mau. Então?' E eu: 'Não conheço ninguém...'. E ele 'Olhe bem'. Eu parva, a olhar: 'Não me diga...,' E ele: 'Ai digo, digo'. E eu: 'Não... impossível...' E ele, 'Ai não, não...?'. Era ela, a mulher do outro. Irreconhecível. Esticada por todo o lado. Nem se percebia onde acabava o nariz e começavam as maçãs do rosto que, por sua vez, estavam redondas e volumosas, lustrosas como maças saloias. A boca era outra desgraça. Umas beiçolas inchadas, reviradas, transbordando para o espaço entre o lábio superior e o nariz.  Diz ele: 'Pois, estou a ver que partilha da minha opinião: não correu bem'. E eu: 'Nada bem. Fogo... que tragédia!'

E ali fiquei, perplexa, a olhar para ela, tentando reconhecê-la. Sem rugas, sem feições, sorriso pasmado, Parecia a mãe dela que também se recusa a deixar o tempo pousar sobre o rosto. Gastam fortunas, devem ter dores quando fazem aquelas obras de recauchutagem, e, acredito, acham-se bonitas nesta figura.

É o reino do faz-de-conta, do fútil, dos sorrisos a toda a hora, das selfies feitas para seguirem directamente para o Face ou para o Insta.

O pináculo deste fenómeno foi atingido por essa rabuda que dá pelo nome de Kim Kardashian. 


É conhecida apenas porque se dá a conhecer -- e tão fenomenal é a sua figura e tão vazio o invólucro que milhões de pessoas a seguem como se fosse uma divindade. 


Ela fotografa-se com as mamonas ao léu e é o furor, ela besunta-se de óleo e despeja champanhe na bundona e rebenta com a internet. Não passa disto. Já teve um programa de televisão e sei lá que mais. E, repito, não passa disto!


Se olharmos para ela rapidamente percebemos que a nossa bicha de estimação, o José Castelo Branco é uma Kim Kardashian avant la lettre. Criatura auto-construída, alimentada pelo jet set de trazer por casa, o Conde também dá o cu e cinco tostões por aparecer na televisão ou na capa de uma revista cor-de-rosa (nb: metaforicamente falando, claro).  São quase iguais.

Ambos gostam de mostrar o corpo, ambos o mudam à medida do que lhes passa pela cabeça. Nus, de fato de banho, abraçados aos conjuges, o que calhar: é preciso é aparecer. Alimentam-se disso. Como se vivessem permanentemente ao espelho.

Kim Kardashian e as suas formas pronunciadas

José Castelo Branco, a mana gémea da Kim,
que não tarda também se vai pôr a enxertar toucinho nas nádegas

Mas, enfim, mal também não faz. E ilustram bem o que são estes tempos que atravessamos, tempos de narcisismo e vacuidade. Ainda hoje uma jovem considerada de elevado potencial e uma estrela em ascensão, que conhece vários países e tudo o que é restaurante e bar da moda, me dizia, toda convicta, que não tinha tempo para ler. Nem gostava. Tudo muito chato -- dizia ela. E eu não a contrariei. Para quê? Falamos uma língua diferente, vivemos em mundos diferentes.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.

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terça-feira, julho 19, 2016

Novas do Departamento de Imigração
- a bem da segurança interna


E logo hoje, meus Caros, com mais um maluco a amar baderna, desta vez num comboio a Alemanha. Mas a mim dá-me ideia que, enquanto for dado palco a todos os doidos varridos, mais tarados se hão-de sentir incentivados a também fazer das deles. Por isso, não me levem a mal por não me pôr aqui a falar da insegurança deste mundo, dia a dia mais perigoso, mas prefiro não dar muita bola a gentinha desaparafusada.
Mas que sei eu disto de ser mais ou menos perigoso do que sempre foi? Talvez agora esteja a avançar para o ocidente, isso sim, porque actos de desordem e barbárie sempre os houve. 
Mas não quero falar disso. Uma pessoa pode saber do que se passa mas não deve deixar-se arrasar de pânico ou depressão.

Claro que me assusta tudo isto mas, oh meus Caros, coração ao largo e vamos mas é aproveitando bem os bons momentos que nos são oferecidos.

Por isso, vamos lá a pensar no que poderão ser os oficiais destes departamentos que, tal como se tem visto, tão inteligentemente crivam os verdadeiros perigos.

Immigration Officer Ian Foot - Come Fly With Me
BBC One


Chief Immigration Officer Ian Foot interviews a moustache-less French man after fears he's using someone else's passport.



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Ian Interviews Taaj - Come Fly With Me 
BBC One

Chief Immigration Officer Ian pulls in Taaj for questioning as part of a 'random' security check.

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E queiram, por favor, conferir mais uma prova de que não sou normal
Tem a ver com o Pokemon Go - vou já avisando.


Confirma-se: não sou normal.
Não tenho sequer interesse em perceber que joguinho é esse do Pokémon Go
(ie, o gambozino dos tempos modernos)



Leio que há uma febre colectiva, que anda tudo de telemóvel na mão à caça dos neo-gambozinos, que a polícia em Espanha já emitiu recomendações (que não andem à caça enquanto conduzem, que não ponham a vida própria nem a alheia em risco), que há parques e jardins congestionados, tudo de telemóvel em punho a ver se os conseguem apanhar. Sei lá.

E eu nem aí. Claro que me interrogo sobre a minha natureza: como é que tanta coisa que leva ao êxtase qualquer vulgar mortal a mim me deixa completamente indiferente?

Nunca li nem vi nenhum Harry Potter, não sei nada do que é moda, nunca quis ter um iPhone, nunca andei a ouvir música com auscultadores nos ouvidos enquanto caminhava ou trabalhava, não sei de que fala grande parte das pessoas. Não tenho conta de Facebook ou de Twitter nem Instagram, nem tenho o CV no LinkedIn apesar de toda a gente que conheço o ter e de todos os dias receber convites nem sei para quê, creio que para fazer parte da rede de amigos ou de contactos. A verdade é que nada disso me interessa e já me bastam as coisas que tenho que gramar sem me interessarem, era o que faltava que me fosse forçar a qualquer coisa desse tipo sem ser obrigada.


Parte deste mundo em que se socializa via internet de uma forma que me parece meio fútil me é estranho e indiferente. Nunca senti qualquer falta disso. Muito menos, acho graça a jogos que levam as pessoas a infantilizar-se. Aliás, não gosto de jogos de qualquer tipo (excepto para aí de um ou dois tipos mas esses, agora, não são para aqui chamados).

Pode acontecer que essas 'cenas' das redes sociais ou desses jogos sejam boas para pessoas solitárias ou que vivem em lugares recônditos em que pouco contacto há ou onde a possibilidade de se conhecer gente nova é mínima. Não é o meu caso. Conheço gente que não acaba e tomara eu que não peguem no meu pé. 

Por isso, pode ser que sim, que seja giro, o máximo, fantástico, super, e que tudo isso seja dito com voz de tia, supé-tia, e que tudo tenha montes de piada.... que eu, no meu íntimo, fico a pensar que sim, tabém, que vão mas é dar banho ao cão.

Mas, lá está, não tomem isto com censura para os que são diferentes de mim. Nada disso. Sei bem que a verdade é dura mas que tenho que a aceitar: eu é que não sou normal. Ponto.

Normais são estas pessoas aqui abaixo:


Pokemon Go - Rare Vaporeon Monster (Craze in Central Park)



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma terça-feira muito feliz.
Saúde e alegria para todos.

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segunda-feira, julho 18, 2016

Ver e ouvir a fantástica The Cinematic Orchestra à espera de saber quando é que apanhava com o maluco da fila da frente em cima de mim


Tal como no concerto do ano passado com a Melody Gardot, também este domingo o céu estava iluminado por uma gloriosa lua branca. O recinto cheio, um ambiente tranquilo, as árvores iluminadas, muita gente na relva, copo na mão, conversa sorridente. Há barzinhos de cerveja, de gin e talvez de outras coisas, não sei. Mais lá para trás há venda de cachorros e outros comes.

Nós tínhamos vindo já jantados, apenas demos uma circulada e fomo-nos logo instalar. Casalinho acomodado, tínhamos bilhete para a plateia.

Primeiro o Salvador Sobral. Nada a ver com a voz miada da mana Luísa nem com a vozinha de menino ainda pouco solto dos tempos do concurso da televisão. 


O Salvador agora é outro: um vozeirão, uma excelente presença em palco, uma tremenda empatia com o público. Muito bom. O menino, se quiser, vai longe. 

A seguir, mudança de equipamento, começam a chegar os carregadores de pianos e do resto. Material que não acabava. 

Depois, ao recinto central, chegam o técnico de som e o de luz (na fotografia abaixo, os que estão de pé). O que está à esquerda, de camisa escura e boné, é o da luz e é um artista. 


De facto, durante todo o espectáculo, a luz é o outro elemento da banda. Grandes efeitos de luz; belos, de impactante efeito cénico.

Depois de todos os testes, lá começa, finalmente, o concerto. The Cinematic Orchestra no EDP Cool Jazz Fest. Um som do catano é o que vos digo, mil vezes mais marcante ao vivo do que em todas as gravações que tinha ouvido antes.


Não tenho gravação deste concerto nos jardins do Palácio Marquês de Pombal - até porque é proibido gravar - pelo que, para aqui, tenho que me socorrer de um vídeo já com algum tempo, obtido via youtube. Breathe.



Um som ecléctido, do urbano furioso ao soft slow, do jazz arriscado às ladies que singam os blues, do alternativo às baladas românticas. E a luz sempre a mudar. E os elementos em actuação também em geometria variável.

Muito bom, quer a música, quer as vozes, quer os coros, tudo, 


Mas, como referi no post abaixo, o pior foi a maluqueira que ia na fila à nossa frente. Depois do Salvador, no intervalo, chegaram dois homens ainda novos, um de calças e camisa com as mangas levemente dobradas acima do pulso, o outro de tshirt, calções compridos, óculos de armação fina. Bom ar. Cool. Nada de mais. 

Contudo, mal se sentaram, o da camisa abraçou-se ao outro, um longo e apertado abraço, um abraço cheio de carinho. Pareciam ser um casal que finalmente vê cumprido um sonho, talvez ver ao vivo a banda preferida, e que mostram efusivamente a alegria por darem um ao outro esse prazer. Mas isto pensei eu ao ver aquele grande e ternurento abraço, a cabeça de um aconchegada na curva do pescoço do outro. Pensei: isto vai ser amor durante todo o concerto.

Mas não.

Passado um bocado, à medida que os acordes eram arrancados com maior veemência, o mais alto, o da tshirt, começou a dar grandes saltos na cadeira. Os acordes subiam ou as pancadas vibravam na bateria e ele punha a cabeça meio de lado, dava fortes guinadas, levantava o rabo da cadeira, saltava e a cabeça quase lhe saltava do pescoço. 

O meu marido segredou-me: o gajo é passado. Eu, vendo aquelas cenas, disse baixinho: se calhar tem epilepsia e a música alta dá-lhe cabo da cabeça. 

Depois a música acalmava e ele acalmava também. Se entrávamos no slow, era o outro, o da camisa, que se balançava, mas todo na calminha: rebolava a cabeça mas muito ao de leve, todo ele movimentos suavezinhos, a cabeça balançando devagarinho. O outro, aí, nada.

Depois vinham os acordes mais ferozes e começava o tal 'passado' a dar violentas guinadas com a cabeça, uma coisa tresloucada. Os óculos soltavam-se numa das orelhas, ficavam presos só numa haste, coisa que não o incomodava, ajeitava-os e prosseguia, de nariz meio levantado, a cabeça dando violentas guinadas, meio revirando o corpo como se estivesse a levar fortes choques eléctricos.

Ao meu lado, as pessoas, depois da estranheza e da perplexidade discreta, começaram a desatar-se a rir, sem parar. Eu idem. Aliás, já chorava a rir. O rapaz do outro lado dele, olhava desconfiado e desatava-se também a rir. Contudo, o parceiro dele era como se não desse por nada ou, vá lá, quando o outro dava saltos mais frenéticos ou abanava a cabeça numa maior agitação, olhava sem grande atenção e sorria, como se fosse coisa normal.

Numa altura, em que a bateria estava ao rubro, ele agitou a cabeça de um lado para o outro com uma velocidade tão inacreditvel e durante tanto tempo que parecia que a cabeça lhe ia saltar disparada. Mas não. Foram só os óculos que lhe saltaram, disparados. Olhou para trás como se não fosse nada e continuou. Nós é que lhe tentámos encontrar os óculos. Uma rapariguinha lá os descobriu e deu-lhos. Pouco ligou.

Por diversas vezes, tal o desconchavo, tais os saltos, tais as guinadas com a cabeça, que, quer eu quer a senhora ao meu lado, nos desviávamos, ela de braços esticados para a frente, a ver que ele ia tombar e cair-nos em cima. O outro nem aí, quanto muito sorrindo ao de leve.

O meu marido voltou a segredar: 'Ele está é com uma valente pedra naquela cabeça'. E, depois de ele ter dito isso, achei que sim, que era provável. Não sei o que tinham metido para dentro mas alguma coisa foi: a um deu-lhe para ficar todo peace and love e ao outro para ficar capaz de tocar bateria com a cabeça, como se tivesse uma guitarra eléctrica dentro dele, como se estivesse completamente possuído, o corpo percorrido por violentos choques eléctricos. Depois, a música virava slow e acalmava-se, ficava sossegadinho como um homem normal e o outro voltava à sua dança calminha, slowzinho bom, a cabecinha a rodar de um lado para o outro, todo dengosinho.

Saí de lá perdida de riso, perdida, perdida. Aquilo só filmado. Parecia uma cena cómica. Nunca tinha presenciado uma coisa destas.


Quando acabou, lá foram os dois, aparentemente normais. E eu ainda a rir. Até o meu marido que não é de riso fácil, se ria. 

E, portanto, gostei do concerto, claro, é música a sério, música da boa, e as interpretações fantásticas, e a iluminação e o som e tudo, tudo mesmo bom. Mas, caraças, um número daqueles ali mesmo à minha frente, introduziu um elemento de espectacularidade e comicidade pelo qual eu não estava mesmo nada à espera.


No fim, muitos aplausos (e apareceu uma menina em palco, talvez filha de um dos membros da banda) -- e eu ainda perdida de riso. 

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
Be happy.

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Concerto numa noite de verão sob o olhar da lua cheia


Quando  chegar a casa a ver se mostro algumas fotografias e ponho um vídeo com a música.

E a ver se conto a maluqueira que ia na fila à minha frente e da qual ainda não me refiz.

Até já.

domingo, julho 17, 2016

O homem que viu o infinito




Há coisas difíceis de explicar. Se alguém souber explicar porque é que se sente atraído por outra pessoa, ou porque é que se emociona ao ouvir uma determinada música, ou porque é que fica tomado por dentro (como se o próprio corpo de rarefizesse) perante uma pintura, ou porque é que fica quase em êxtase perante uma certa paisagem, ou porque é que se sente tão estranhamente sereno dentro de uma qualquer igreja é porque nada do que sentiu foi desmedido, único.

A mim, que sou de sensações intensas, de emoções fáceis, extrovertida na manifestação dos meus sentimentos e pensamentos, acontece-me, por vezes, passar por situações extremas em que não há racionalidade, não há explicação, não há nada que possa ser traduzido por palavras normais ou lógicas comuns.

Com o tempo fui-me habituando a não tentar explicar algumas coisas. Sinto que para elas não há explicação ou que, a haver, ela não é deste mundo (e, sendo eu um ser racional e nada dado a esoterismos, quero, com isto, dizer que admito que há tanto por saber e descobrir que forçosamente algumas explicações pertencem ao conjunto de saberes que o futuro desvendará).

Acontece-me, por vezes, saber, de certeza absoluta, coisas que não tenho como explicar. Trabalhei com pessoas que acreditavam na minha intuição mas trabalhei também com um que é o meu oposto, um que tem que ver a explicação de a a z para poder aceitar a conclusão do que quer que seja. Eu a dizer-lhe que se devia fazer uma coisa qualquer porque a minha intuição assim o diz e ele, armado em meu educador, a explicar-me que as coisas não funcionam assim, que não podemos guiar-nos pela intuição mas pela lógica demonstrável. Um sofrimento para mim ter que lidar com pessoas assim.

Sempre fui muito de chegar à conclusão sem saber ou sem me interessar conhecer os passos intermédios. Quando estudava, acontecia ter a sensação de estar a responder ao acaso e, até, verdadeiramente incapaz de o fazer da maneira usual, passo a passo. 

E acontece-me também em relação a algumas pessoas: pode uma pessoa parecer o maior anormal, o maior traste, um ser detestável e, no entanto, vá lá eu ser capaz de explicar porquê, eu ver ali uma pessoa boa, uma pessoa de quem tenho vontade de me aproximar.

Ou o oposto: toda a gente estar embevecida perante um qualquer alguém e eu olhar e ver ali um oportunista, um saco cheio de nada. E não ser capaz de explicar porque acho isso. 

Ou uma obra de arte: emocionar-me perante ela como se estivesse perante um anjo e toda a gente olhar incrédula sem ver ali ponta de graça. E eu incapaz de explicar o efeito de tal absoluta rendição.

Da matemática, esta atração, esta verdadeira atracção. Nem por isto ou por aquilo em especial. Mais pela estética da lógica subjacente ao seu entendimento, pela suprema beleza dos conceitos em abstracto.
E já esquecida de tudo, incapaz de trabalhar com logaritmos ou de fazer integrais, longe, longe de tudo isso, como se nunca tivesse sabido.
E, no entanto, ainda a sensação de perplexidade amorosa perante uma construção abstracta, elegante, de uma beleza impoluta. Um fascínio para mim, a matemática. Mesmo que não compreenda. Ou melhor, especialmente se não compreender.

E a memória do desagrado das aulas, das colegas muito estudiosas, dos professores burocratas, dos exercícios repetitivos. Tudo parecia conspirar contra uma beleza que se queria poética, luminosa, inexplicável porque muito pura, divina. 

E a memória da sensação aguda de vórtice, de atracção para um momento de extremo prazer quando a mente era conduzida para a evidência de uma realidade abstracta de rara beleza, uma teoria, a demonstração de que não há realidades complexas mas apenas realidades que ainda não atingiram o estado da perfeição que é sempre sinónimo de simplicidade.

Acontecia-me ir quase em transe, arrepiada, desbravando so caminhos da minha própria mente. Resolver equações, fascínio grande. Começar com elas bem complexas, cheias de indecifráveis enigmas e olhar e começar a ver a aresta onde a lâminha afiada do desbaste iria começar a poda e, aos poucos, a singeleza da evidência a aparecer, a convidar à descoberta final.  A solução. 

Ou um problema complexo com mil restrições, mil variáveis, mil constantes, insolúvel, para esquecer. E eu, com a calma dos perdadores, começar a sentir o nervo do problema, o latejar da resistência, mas prosseguir com a frieza de quem sabe que vai conseguir e, como que por magia, começar a descobrir entropias, a detectar redundâncias, a desmontar falsidades, a acabar com elas, e desbastar, desbastar e, por fim, já o sol a despontar por detrás de um horizonte límpido e encontrar a solução e sempre uma solução tão simples, tão elegantemente simples.


Ou encontrar padrões, testá-los, validá-los, modelizar a vida, reproduzi-la, vê-la na sua essência, simples, bela, quase reprodutível.

E o desconhecido para o qual caminhamos e de onde viémos, o mais e o menos infinito, esses territórios habitado por números imaginários, e que explicam o que não existe, a anti-matéria, os buracos negros que sugam a matéria e de onde se evola uma música subtil, sinuosa e imaterial.

Por isso, ao saber deste filme, O homem que viu o infinito, para ele acorri sem hesitar. Baseado na história verídica do matemático autodidacta Srinivasa Ramanujan, o filme é uma maravilha para quem gosta da matemática daquela forma inexplicável com que se gosta de uma poesia, de uma flor, de uma outra pessoa.


Muito belo, muito belo. Muito comovente. Por diversas vezes chorei. O meu marido, no fim, admirou-se, diz que estou cada vez mais maluca, que não havia ali nada para se chorar. Mas havia. Momentos tristes, para chorar, e momentos emocionantes, que me deram vontade de chorar. Ou que me arrepiaram. 

E Jeremy Irons no papel do matemático G.H. Hardy, o amigo que não sabe perceber os afectos, o protector que sabe disinguir o génio, magnífico, aquela voz, aquela contenção, aquela arte que parece coisa espontânea.

O HOMEM QUE VIU O INFINITO - Trailer Oficial Legendado (Portugal)




Uma benção para quem ama a matemática, este filme caído do céu.

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As imagens que usei mostram diversas formas, em diferentes épocas, de arte indiana.
Lá em cima, Anoushka Shankar interpreta, com Alev Lenz, Land Of Gold.

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E, caso vos apeteça ver as fotografias do calor in heaven, queiram, por favor, descer até ao post já a seguir.

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Tanto calor. Tanto. Quase uma febre.




Não sei se eram cigarras. Presumo que sim. Uma sinfonia arranhada. Um desaforo, um escândalo. Um calor desabalado e elas naquilo. Vinha das árvores. Se eram, estavam escondidas nas árvores. No sítio dos pinheiros, uma orquestra insolente, um canto ao desafio, muitas, muito alto. Olhei, olhei, e se nem pássaros consigo descobrir, muito menos veria cigarras.


Custava andar por ali, à chegada o termómetro do carro marcava quarenta graus. Ali o clima é extremado, insuportáveis calores, ventanias loucas, frios húmidos feitos de geladas névoas no inverno.

Hoje apenas se podia estar dentro de casa, as janelas fechadas. 

Mas apetecia-me fotografar o calor. Então, devagar, o cabelo apanhado, blusa leve e sem mangas, saia fresca, por ali me aventurei, pelos caminhos abrasados. Apenas eu e as cigarras. Nem o canto dos pássaros, nem a corrida dos coelhos, nem o deslizar suave das lagartixas. Apenas eu, em processo de evaporação, e as cigarras, doidas, desatinando à desgarrada.


Apanhei orégãos, alecrim, flores de alfazema. Uma braçada de flores frescas e perfumadas. Usarei os orégãos nas saladas de tomate maduro e fresco e o alecrim no tempero das carnes e dos peixes. O alfazema é para oferecer à minha mãe.

E fotografei as flores translúcidas de tanto calor, as sombras silenciosas, as sobreposições de hastes e folhas secas que dão textura e beleza à natureza em estado quase selvagem.


Encontro beleza em tudo o que vejo: padrões abstractos, cores com infinitas variantes, desenhos de uma geometria elegante -- e quase me esqueço do calor.

Mas depois recolho a casa. Antes de me deitar sobre a colcha fresca no quarto também fresco, ainda fotografo o calor que vejo lá fora, do lado de lá da janela.


Depois adormeço. Já contei que gosto muito de, nestas tardes em que o corpo pede descanso, sentir o sono a pegar em mim, a transportar-me para o meu outro lado, o lado da inexistência. Gosto tanto.

Acordei com o meu marido a fotografar-me, a mim com a Agustina ao meu lado, eu de lado, quase abraçada à Agustina, ela de vestido azul e com um chapéu de fitas a voar

Tinha levado um livro mas não me lembro se li alguma coisa. Ah, sim, agora que escrevo lembro-me que sim. Agustina escreve sobre o pai que fez do jogo uma forma de vida. E fala do tio do Mato. E do avô. E das Fabianas e da tia que só contava histórias meio perversas pois guardava as histórias boas para ela. Acho que até marquei o cantinho de uma folha para aqui, um dia, transcrever um bocado. Mas depois adormeci.

À tardinha, regressámos. Passei por casa dos meus pais. Ainda um sol claro, ainda um calor ardente. No muro, um gato dormia num sítio onde talvez alguma leve aragem se pudesse fazer sentir. Fotografei-o. Abriu os olhos, voltou a fechá-los. Não me atraem os gatos no sentido de os querer ter junto a mim. Acho que nunca fiz uma festa a um gato, tenho medo que se virem a mim, não os reconheço como iguais. Intrigam-me, gosto de os observar, gosto de tentar adivinhar o que pensam mas não consigo estender a mão e tentar tocar-lhes. Não apenas não tenho vontade de o fazer como acho que não devo, acho que os gatos não são bichos de darem confiança assim tão facilmente.

Serão mesmo deuses? 

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Dia bom, portanto, para se estar de molho, dentro de uma banheira, num banho de espuma de água apenas levemente tépida, com um grupo de trovadores em volta, Poderiam dizer poemas, cantar, dançar ou apenas estarem ali, em volta da banheira, fazendo uma barreira visual, de modo a que eu pudesse estar nua à vontade, sem que mais ninguém me visse. Apenas eles.
Isto deve ter sido o que pensou a Mademoiselle Melody Gardot quando lhe apeteceu cantar o seu 

Baby, I'm a fool 

(dentro de água).
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