Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, julho 04, 2015

Donald Gould perdeu a mulher, perdeu o sentido da vida, perdeu o emprego, perdeu a casa e perdeu o filho -- mas as suas mãos não perderam o caminho da música. E, inesperadamente, uma nova vida parece estar a inventar-se à sua frente.




Donald Gould tem 51 anos, é um sem-abrigo depois de anos de abandono e perdição. Até que um dia encontrou um piano na rua, se sentou, e tocou ‘Come Sail Away’. O vídeo tornou-se viral e, de repente, a sua vida parece renascer. 


A todo o momento, nas situações mais imprevistas, a vida renasce, reinventa-se, e sorte a dos que estão disponíveis para aproveitar cada nova oportunidade.


Transcrevo do Bored Panda:

Donald Gould, a 51-year-old homeless man in Sarasota, Florida, recently captured the internet’s attention after a video of him playing a beautiful piano rendition of Styx’s ‘Come Sail Away’ went viral. Before losing his wife and falling on hard times, this man was a Marine Corp clarinet player and was on course to become a music teacher.

In the video, he plays his heartfelt rendition of the classic song on a piano left outside by Sarasota Keys, a music store that has placed popularly-acclaimed outdoor pianos throughout the city for anyone to play.

So far, one nearby bar called Surf Shack has offered to give Gould a tryout as a piano player for their upstairs piano bar. 

He is also searching for his now-18-year-old son, whom he lost to child services after losing his wife and turning to drugs. 

Hopefully, this video will throw many opportunities his way; a GoFundMe account has been created on his behalf as well!






No dia seguinte deu uma entrevista.



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A fotografia no topo e o vídeo aqui abaixo mostram o Casino de Constanta (nada a ver, portanto, com Donald Gould), em tempos o mais belo edifício da Roménia, hoje abandonado. Assim é a vida. É-se tudo, uma vida pela frente e, de repente, o declínio pode acontecer, o mais completo abandono. 

Mas tantas vezes há a possibilidade de renascer, tantas, tantas. Nunca perder a esperança é o caminho certo, olhar em frente, ir. E um dia a sorte muda.

As imagens deste vídeo não são, pois, de um sem-abrigo mas de um abrigo que já não acolhe ninguém.



E, no entanto, acredito que um dia o Casino de Constanta será reconstruído, tornar-se-á um novo casino, um hotel de luxo, um centro cultural, uma biblioteca maravilhosa, qualquer coisa. E voltará a ter pessoas lá dentro que usufruirão a sua grande beleza.

Bela e rica é a vida dos que conseguem reconstruir-se.


[Assim a Grécia, assim todos quantos foram traídos pela sorte ou por más escolhas]

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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sexta-feira, julho 03, 2015

"PORTUGAL É UMA BOMBA-RELÓGIO “À ESPERA DE REBENTAR”", diz Matthew Lynn no WSJ Market Watch. O José Manuel Fernandes é bem capaz de achar que esse fulano é um pessimista. [E, ainda: Quem somos? - pergunta Viriato Soromenho Marques, a propósito de uma Europa que se destrói a si própria]



BITCH BETTER HAVE MY MONEY



Lisbon’s debts are high, and foreigners own most of it

Portugal has a high debt-to-GDP ratio, and it owes most of its government debt to foreigners.


Soube desse artigo ao ouvir Marisa Matias num debate sobre a Grécia na RTP 1 com Braga de Macedo, Paulo Trigo de Morais e José Manuel de Fernandes num debate na RTP sobre a Grécia.
(Só vi um bocado mas fiquei a tentar adivinhar o critério para escolher as pessoas que levam à televisão. Será que querem respeitar umas quotas? Por exemplo: uma mulher de esquerda tida por conhecer o Syriza, um tido por muito inteligente e próximo do PSD, um tido por moderado, justo e próximo do PS e, por fim, um tido por muito limitado? Talvez seja. Uma coisa equilibrada, portanto).

O que os ouvi dizer estava em linha com eles próprios. Braga de Macedo disse que a saída precipitada da Grécia da zona euro seria uma bagunça, o Paulo Trigo de Morais disse coisas acertadas, que a crise da Grécia afecta a todos, etc e tal,  Marisa Matias no fim, para rematar, referiu o que mais abaixo transcrevo, e o outro não disse uma que merecesse registo. Nunca diz. Mas convidam-no para todo o lado. Deve ser por aquilo do equilíbrio, só pode.

Bem.

Para aligeirar o texto que se segue, que entre o momento musical. E este é dos bons.
Leitor a quem agradeço enviou-me um vídeo já com uns meses e que acho que até já aqui divulguei mas, porque tem piada e continua actual, aqui o coloco de novo. 

V for Varoufakis


NEO MAGAZIN ROYALE mit Jan Böhmermann 




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Ora bem. Que entre, então, o artigo que é um baldinho de água fria na cabeça do láparo.


ESQUEÇAM A GRÉCIA. PORTUGAL É UMA BOMBA-RELÓGIO “À ESPERA DE REBENTAR”



Entre avanços e recuos, a crise na Grécia poderá estar em vias de se resolver – pelo menos por mais uns meses. Mas um conceituado analista financeiro acredita que a verdadeira crise na Europa poderá estar muito longe da Grécia, mais concretamente num país que é uma bomba-relógio à espera de explodir: Portugal.

O analista britânico Matthew Lynn afirma esta quarta-feira na sua coluna de opinião no WSJ Market Watch que o nível de dívida pública portuguesa, acima dos 130%, poderá ser já “insustentável”.

No artigo em causa, “Forget Greece, Portugal is the eurozone’s next crisis“, Lynn salienta que Portugal tem o maior índice de dívida publica em percentagem de PIB na zona Euro, e que a maior parte da dívida é detida por estrangeiros.


Segundo o financeiro, a economia portuguesa não se encontra no estado de permanente crise da economia grega, que “está nos cuidados intensivos”, mas não parece capaz de conseguir uma recuperação sustentada.

Portugal, diz Lynn, “ainda está em sarilhos“, e poderá ter que enfrentar uma situação de incumprimento. Lynn antecipa mesmo que as eleições legislativas de Outubro poderão despoletar uma segunda crise em Portugal.

“À superfície, Portugal parece estar muito melhor do que há três anos, depois de ter saído com êxito do programa de assistência da troika“, continua o analista, “e a economia parece estar a crescer”.

Se, depois da Irlanda, também Portugal conseguir efectivamente recuperar da crise, “será uma vitória estrondosa para a União Europeia e para o FMI”, cuja receita baseada em austeridade se revelou “uma catástrofe” na Grécia.

O problema, diz Lynn, é que Portugal poderá afinal não estar salvo.


Segundo o analista, a evolução positiva de alguns dos principais indicadores económicos – consumo, desemprego, exportações, investimento – parecem não ser sustentadas.

Mas o verdadeiro problema, defende o cronista, é mesmo a dívida.

Portugal tem uma dívida pública de 130% do PIB, e 70% dela é detida por estrangeiros.


Até há países, como a Finlândia ou a Letónia, com maior percentagem de dívida detida por estrangeiros. Mas têm muito pouco endividamento. Itália, por outro lado, tem uma enorme dívida pública – mas quase toda contraída internamente.


[Texto obtido aqui]

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Belo trabalhinho que o Láparo e Companhia têm andado a fazer, belo trabalhinho, sim senhor.

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A fotografia lá em cima mostra Rihanna no seu novo vídeo mas é tão tétrico e nonsense que não o mostro. Só a ela, de pistola em punho ao pé de outra amordaçada, junto à desgraça da dívida portuguesa. Afinal isto anda tudo ligado.

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Mudando de assunto: está na hora de reflectir -- mas vamos com boa música.

A lua sobre o rio, aqui na minha janela


Dustin O'Halloran com We Move Lightly



Deixem, então, que partilhe convosco mais uma grande crónica de um dos homens inteligentes deste País

Quem somos?


por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES (no DN)


Muitas vezes, quando se compara a tendência crónica para a Europa entrar em convulsão política, com a capacidade dos EUA para navegarem as borrascas da história, sem perderem o rumo da lei e da ordem garantido pelo seu federalismo constitucional (como se viu agora com o histórico acórdão do Supremo Tribunal que fez recuar a homofobia em toda a União), ouve-se dizer: "para chegar ao federalismo os EUA tiveram de passar por uma guerra civil". Trata-se de uma afirmação vazia de sentido. Ortega y Gasset deu talvez a melhor explicação. Para ele, há muitos séculos que a Europa constitui uma "sociedade", alimentada pelos laços históricos e materiais tecidos pelos seus povos. Contudo, é uma sociedade sem um sistema de governação funcional. Para Ortega, as guerras europeias (incluindo as duas mundiais) são formas brutais de "governo europeu". O holocausto de pessoas e de bens faz parte da crónica incapacidade de os europeus construírem um regime comum baseado na lei e na liberdade. O grande sonho da União Europeia residiu na esperança de que, depois de tantas guerras civis, também nós europeus percebêssemos que só é possível vivermos em conjunto respeitando a dignidade dos cidadãos e a igualdade dos Estados. Em 2010, a grandeza deu lugar à cruel realidade de uma zona euro, que em vez de defender os povos contra os riscos da globalização os imolava numa folha de Excel destinada a saldar os danos da ganância de um sistema financeiro, que a venalidade política deixou sem regulação nem limites. Veremos se a Grécia regressa, depois de jugulada a rebeldia, ao redil hegemónico de Berlim-Frankfurt-Bruxelas. À rédea curta de uma Europa, sem alma nem rumo, que confunde cansaço com anuência e medo com lealdade. Contudo, uma Europa assim nem precisa de inimigos. Derrota-se a si própria.

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E, assim sendo e nada mais tendo a acrescentar, despeço-me porque tenho que ir ver que roupa hei-de vestir e que maquilhagem hei-de pôr para fazer pendant com a toilette -- coisas interessantes que me desviam o pensamento das maçadas que acima divulguei.


Mais do que a maquilhagem ou a roupa, é tudo uma questão de atitude


Yves Saint Laurent - rímel Babydoll com Cara Delevingne



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Tenham, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. Gozem-na bem, está bem?

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quinta-feira, julho 02, 2015

Porque é que Obama, os chineses ou qualquer um que mande, quando quer falar com alguém da Europa, em vez de ligar ao Juncker liga à Merkel? Vendo o vídeo é fácil perceber porquê.


Já tem mais de um mês mas as coisas vão passando e a gente acaba por se esquecer.




Mas Leitor atento lembrou-me, e eu, revendo a cena macaca que abaixo mostrarei, percebi bem porque é que alguém com um mínimo de sobriedade e a querer falar de coisas sérias, não se arrisca a dar com um Juncker no lindo estado que veremos e vai direito a quem, no meio da bagunça geral, ao menos ainda manda alguma coisa (se bem, se mal, não é disso que falo, falo apenas em mandar): a bardajona-mor (que, de resto, também parece que anda a reboque do insuportável Schäuble), Madame Merkel.




Ou seja, vendo bem as coisas, apenas por decoro, o Obama não liga directamente ao outro, ao padrinho do ex-Gaspar, àquele perante as flexíveis colunas vertebrais dos burrocratas europeus se vergam, o dito Wolfgang).

E do destravado do Juncker ninguém se lembra quando o assunto é sério, claro.




E é assim que os destinos dos países europeus estão a ser conduzidos, entre humores etílicos, chalaças, contas de algibeira, birras, chantagens, influências subterrâneas.




O vídeo abaixo constará um dia como o exemplo acabado do que eram os governantes nestes tempos de desgoverno, de descontrolo e despudor em que campeia a caça aos gregos, a desinformação, o estrangulamento de um país (-- e, do lado dos gregos, um certo desnorte, talvez uma certa imaturidade ou amadorismo perante uma situação tão dramática).

Mas, seja como for, a situação europeia é um tal marasmo, uma tal ausência de visão, uma tal submissão aos grandes interesses financeiros, que é mesmo necessário um qualquer abanão para ver se alguma fractura se dá, uma fractura que leve ao emergir de uma nova forma de governar a bem dos povos e não dos mercados -- e tentemos ser tolerantes na tentativa de compreensão pelo que se está a passar na Grécia, já que seria esperar de mais que um abanão saísse certinho como um bem ensaiado pas de deux. Não é uma coreografia que se perceba bem, volta e meia mais parece uma trapalhice? Pois.

Mas vamos ver no que dá, vamos pensar no País, vamos apoiar o povo grego (e não confundir esse apoio com o apoio incondicional a todos os tropeções dos seus governantes, que isso, de facto, face à situação, não será tão fácil assim).



Jean Paul Juncker dá espectáculo em Riga




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A Merkel e o Obama tal como os vemos nas imagens que usei para juntar ao texto são obra da artista israelita Amit Shimoni que gosta de transformar os homens e as mulheres políticas em hipsters. Muito justamente deu à série o nome de Hipstory.


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E por aqui me fico porque, a sério, voltei a chegar a casa muito tarde e estou cheia de sono.  A ver se um dia destes tiro a barriga de misérias e ponho o sono em dia, chego cedinho a casa e me sento aqui descansada da vida.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta-feira muito feliz. 
Saúde, sorte e amor para todos.

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quarta-feira, julho 01, 2015

Eu, o cansaço, o silêncio, a paz, o leão, o espelho no espelho - e a verdade de Pejac.






Estou cansada, com sono. Apetecia-me ir aos saldos e não tenho tempo. Apetecia-me ler e não tenho tempo. Apetecia-me ir ao cinema embora tema que não haja nada que se aproveite para ver, apetecia-me ir passear à noite para o Chiado embora não tenha nem força para pegar num gato pelo rabo, apetecia-me atravessar o rio de barco à noite mas acho que até me vai custar chegar até à cama, quanto mais pôr-me a andar de barco à noite. É que nem é que o trabalho seja muito mais do que é costume: é a conjugação do calor excessivo, de afazeres domésticos, familiares, de estar a fazer uma coisa e já estar a receber solicitações para outra, é começar a fazer uma coisa que requer concentração e estar a receber telefonemas e mails e recados, é olhar para a agenda e ver mais reuniões, mais trabalhos, mais preparação de reuniões, e saber que devia fazer arrumações aqui em casa e não estar a ver como ou quando, é saber que deveria fazer também limpezas e lavar os tapetes de arraiolos e dar bondex nas madeiras e aparar o mato lá in heaven e nem estar a ver quando, são as solicitações dos mais novos e dos mais velhos e é não ver jeito de nada disto abrandar. 




Não ouço notícias. Vou e venho de carro e fujo das notícias. Aqui em casa, chego tarde e não me apetece ver notícias. Aliás não me apetece ver nada do que passa na televisão. São raras as pessoas que têm uma visão própria, desempoeirada. Por acaso, numa de zapping, agora a coisa estabilizou na TVI 24 e até é gente válida. Vá lá. Estou a ouvir o Embaixador Seixas da Costa e, como sempre, é claro e sereno. Também vi o Ricardo Paes Mamede, muito bem, muito racional. Finalmente estou a ouvir alguém na televisão a dizer coisas inteligentes, com voz própria.

Entretanto, espreito aqui os jornais online e é só treta, e, claro, a confusão grega, uma europa entregue a um bando de tristes. Podem algumas vozes serem até lúcidas mas a realidade sobre a qual falam é um charco. Esta UE, este FMI, esta cegada que transformou a Europa num bando de credores acéfalos. Cansada como estou, tudo isto me cansa. Volta e meia só penso em ir para o meio do nada, fazer qualquer coisa de útil. Fazer casas para quem não as tem, ensinar a ler a quem não sabe, visitar crianças institucionalizadas, presos - coisas que façam verdadeiramente a diferença na vida de quem pouco tenha. 

Enfim, escrito assim, no meio desta minha canseira, até pode parecer um pensamento fútil de uma dondoca entediada. Mas não, nem sou dondoca, nem conheço o tédio, apenas o cansaço, nem é um pensamento fútil, é mesmo genuíno. Ainda não tive foi coragem para me organizar nesse sentido, talvez seja demasiado comodista.




Adiante. Volto a andar aqui pelos jornais e revistas e não vejo uma coisa que desperte a minha atenção. Ou melhor, ver até vejo. Uma ou outra. Coisas simples, palavras depuradas, lugares onde não há ruído, onde há paz. Podia, a sério que podia, ficar uma noite inteira a olhar para uma imagem do mais depurado que há, para meia dúzia de palavras. A beleza aparece assim, como uma essência. E depois o silêncio. Há imagens e palavras que me aparecem envoltas em silêncio e esse silêncio é branco e macio como a paz. Muitas vezes penso que era capaz de viver uma ou duas semanas ou até um mês num mosteiro. Andar em silêncio, tratar da horta, lavar o chão dos corredores, recolher-me, ler, meditar, lavar a louça, lavar a roupa à mão, estender a roupa ao sol. E tudo em silêncio. Deve ser bom. Claro que teria que telefonar todos os dias para todos os meus, para saber se estavam bem, e teria que garantir que me iam lá visitar pelo menos uma vez por semana. Faria bolinhos e compotas para lhes oferecer ao lanche.

E já nem sei a que propósito vem isto. Talvez seja porque, apesar de cansada, me sinto em paz. Há alturas em que sinto que, apesar de mil situações contraditórias e mil solicitações sobrepostas, o meu corpo ou a minha mente (não sei distinguir o que me guia, se é o corpo, se é a mente) sabe levar-me pelo caminho certo. E isso traz paz à minha vida. 




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Andei pelas cores, queria um espaço limpo de ruído, de cor, de palavras.
Acabei por me deter neste vídeo. É o branco Chanel, num relógio, mas podia ser outra coisa qualquer.



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E não me perguntem, porque não saberei responder, porque me apetece ter aqui agora um leão sobre um fundo negro. Talvez procure a dignidade, a grandeza, a coragem, a beleza em estado puro. Mas não sei. Pode ser por outro motivo qualquer.




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As imagens que escolhi para acompanhar o texto respeitam a obras de Pejac, street art no seu melhor.

A música é, de novo, de Arvo Pärt : Spiegel im Spiegel ( Cello + Piano ) - Malter /Schwalke

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um dia bom, bom, do melhor que possa haver.
Boa sorte a todos.

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terça-feira, junho 30, 2015

A Grécia e os Prémio Nobel que a apoiam. E o Obama a perceber que o caso está mal parado e, à falta de melhor interlocutor, a ligar à Merkel, pelos vistos a única que manda alguma coisa numa Europa atarantada e à mercê dos abutres e nas mãos de contabilistas de cabeça à nora. E os europeus desinformados, egoístas, aníbais desatinados, láparos alienados, papagaios estarolas - a assistirem bovinamente a este espectáculo. Uma tristeza.


Será mesmo isto que se quer?



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A. Pode parecer estranho -- especialmente ao próprio, mas eu, que tanto me arreliei com o Luís M. Jorge, autor do blog Vida Breve, quando ele se atirava como um possesso ao Sócrates, apoiando o Passos Coelho e chegando, até, a propor umas linhas mestras para que o PSD as usasse na campanha eleitoral para derrotar o PS -- venha agora aconselhar a leitura de alguns dos seus posts mais recentes. 


Há cerca de quatro anos, achei uma coisa espúria o apoio que ele manifestava em relação a Passos Coelho. Sócrates podia não ser um santo mas, caraças, Passos Coelho era muito pior. Não era, contudo, essa a sua ideia (chegando, uma vez, a dizer-me que pior que o Sócrates só a peste bubónica). A história dirá quem, de facto, mais danos irrecuperáveis causou ao País.

Seja como for, apesar de manter a sua convicção em relação a Sócrates, inteligente e senhor de uma escrita sempre escorreita, Luís M. Jorge produziu uns posts acerca da Grécia que remetem para documentação interessante sobre a actual miséria que assola a Europa (e, em particular, o nosso Portugal que qualquer dia é mesmo de plástico, chinês, uma bagatela).

E, portanto, assim sendo, e porque reconheço o valor a quem o tem mesmo que possa não subscrever todas as opiniões, recomendo a leitura de:

Artemis




2. Textos inúteis num país de gente bruta (que engloba links relevantes para a compreensão do que se está a passar).


Greece Over the Brink, Krugman 

Europe’s Attack on Greek Democracy, Stiglitz. 

Na Forbes, esse bastião do esquerdismo radical, The Day The Euro Died 

« La scandaleuse politique grecque de l’Europe », Habermas






B. E da Estrela Serrana, no seu Vai e Vem, recomendo também:  Os gregos e os algozes


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C. E, já agora, no Expresso, Traduzido e comentado: O que Varoufakis disse na reunião que “não orgulha a Europa”


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Mas, apesar de tudo, há a Grécia. Salve Grécia!







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Que a Europa acorde a tempo de reconhecer aos gregos o direito à dignidade e às pessoas inteligentes o direito a pensarem.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma excelente terça-feira.
E que tenham boas surpresas, e encontrem raras afinidades electivas, e que tenham saúde e sorte e tudo de bom, incluindo sorte no euromilhões.

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segunda-feira, junho 29, 2015

Saudades para Alberto Vaz da Silva - diz José Tolentino de Mendonça e digo eu, também. Houve certos seres através dos quais Deus nos amou. Talvez seja isso. Talvez todo o mistério comece por aí.






Há uns quantos anos, resolvi fazer um curso de grafologia. Já aqui falei disso algumas vezes e, inclusivamente, já fiz análise grafológica a uns dois ou três leitores que me enviaram textos manuscritos. Quando agora alguém escreve à mão ao pé de mim até, sem querer, corro o risco de passar por mal educada, dou por mim só a deitar o olho para o que escreveram, não pelo que está escrito mas, sim, pela forma da escrita em si. Não sei porquê mas tenho constatado que, de facto, a forma como uma pessoa escreve revela a sua natureza e o seu estado de espírito.

Por todos os motivos, guardo do tempo em que fiz esse curso as melhores recordações. Nesses dias, às terças-feiras, salvo erro, saía do trabalho um bocado mais cedo, deixava o carro no parque do Chiado e depois ia para o Centro Nacional de Cultura. Tentava sempre chegar um pouco antes para poder dar uma volta por aquelas ruas que tanto amo, em especial ao fim da tarde. Depois havia o lugar onde decorriam as aulas, aquele edifício tão bonito, aquele soalho, aquelas luzes, todo aquele ambiente. Mas, sobretudo, o professor, o querido e especial Dr. Alberto Vaz da Silva. Aquelas aulas, dadas ao lusco fusco, eram momentos extraordinários. Culto, amoroso, de uma delicadeza extrema, todo ele memórias, referências, gestos de afecto - ouvi-lo e vê-lo era um privilégio. Eu assistia maravilhada, tudo aquilo era bem mais do que eu esperava.



Hoje, ao ler a crónica de José Tolentino de Mendonça falando dele, senti a emoção de ter tido a sorte de ter conhecido, ao longo de meses, aquela pessoa tão especial.

Transcrevo alguns excertos:

(...) não é estranho que [Alberto Vaz Silva), sendo licenciado em Direito, ele se tenha tornado um poliédrico e colossal humanista; que tendo exercido advocacia, por mais de trinta anos, ele se tenha sentido renascer no encontro com Rosaline Crepy, sua iniciadora no saber da grafologia, e a partir daí mudado de vida; que tenha viajado pelo hemisfério sul (e por um sem-número de hemisférios interiores) para ver grupos de constelações, como outros viajam pelo interior de bibliotecas ou de árduos e fascinantes problemas matemáticos. 

Ele vislumbrou uma nova relação com o real, feita não já de oposições e distâncias, como se a vida não fosse um mistério único, mas sublinhando corajosamente os traços de união, os hífens inesperados, as continuidades. E assim nos mostra que não há pequeno ou grande, não há cósmico nem quotidiano, não há interno ou exterior: por todo o lado e em todas as coisas está, pelo contrário, latente a mesma espantosa proposta que a vida em si mesma é.

(...) O contributo dele é aproximar na mesma visão, numa nova sintaxe, aquilo que se avista de galáxias diferentes. O que o apaixona é o que ainda não existe ou o que começa a emergir sem que a maioria se dê conta.


(...) Para homens como Alberto Vaz da Silva, a italiana Cristina Campo reserva um nome: imperdoáveis. Isto é, aqueles que possuem e definem um estilo, os habitados por uma força profunda, por um carácter próprio, por uma sabedoria irremovível, aqueles que desenham com as suas vidas um mapa de tal forma original que se torna necessário à viagem dos outros. 

Há uma frase de Saint-Martin, que Alberto Vaz da Silva recorda muitas vezes: "Houve certos seres através dos quais Deus nos amou". 

Talvez seja isso. Talvez todo o mistério comece por aí.




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As pinturas são de António Palolo

Horowitz interpreta Schubert - Impromptu in G flat major D899 No.3

A referida crónica de José Tolentino de Mendonça veio publicada na revista E do Expresso deste sábado, dia 27 de Junho de 2015.


Para quem queira conhecer melhor Alberto Vaz da Silva, aqui fica o link para a entrevista que concedeu a Anabela Mota Ribeiro em 2012, entrevista essa que é referida na crónica de José Tolentino de Mendonça.

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E, se quiserem saber das ameixas, orégãos e outras coisas in heaven, aceitem o meu convite e desçam, por favor, até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma fantástica semana a começar já por esta segunda-feira. 
Que a vossa vida vire para melhor. 

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As ameixas já eram e as amoras ainda não estão boas mas, vá lá, os orégãos já estão bons para a salada. E o alfazema está perfumado de dar gosto. E um ventinho de leste a erguer a minha saia.


Hoje tinha uns mil assuntos para aqui partilhar convosco, nem sei por onde começar. Tenho estado para aqui a fazer cálculos mentais, a ver para o que é que tenho tempo e que outros posso deixar para outro dia. 

Mas, para começar, o mais importante.

Já no outro dia me tinha aqui lamentado por causa das filhas-da-mãe das ameixas. Saborosas e doces que só visto e raramente lhes consigo ferrar o dente. Os sacanas dos pássaros levam-me sempre a melhor. Se eu estivesse in heaven a tempo inteiro, conseguiria antecipar-me mas, assim, um dia vejo-as ainda mal começando a ganhar cor e, quando lá volto, já as encontro comidas, debicadas, e outras no chão, no meio do mato.




Para ver se compensava -- estava mesmo a apetecer-me a doçura dos frutos vermelhos -- fui-me às silvas. Carregadas, carregadas de amoras mas, ora bolas, ainda não estão no ponto. Já com uma corzinha razoável mas longe de estalarem em sumo rubro na boca. Limitei-me a fotografá-las: não come a boca, deleitam-se os olhos.




Fui então passeando, observando os figos ainda miúdos, as flores, as árvores que dançam ao de leve com a aragem quente, sentindo a caruma seca ou a cama de folhas miúdas e estaladiças das azinheiras sob os pés. Depois atentei nos orégãos. Já bem floridos. Daqui a uma ou duas semanas apanharei umas belas braçadas para que a minha mãe os seque e distribua por frascos para toda a família.

Mas, ainda assim, já apanhei uns quantos pés. Mesmo frescas, as flores dos orégãos são boas, perfumam as saladas, e dão um toque de sabor campestre aos assados no forno.

Quando estava a apanhá-los, o vento estava a dar na minha saia e, ao tentar controlá-la, devo ter disparado sem querer a máquina. Agora ao passar as fotografias para o computador, cá estava a imagem do momento.




Até me fez lembrar um poema a que sempre achei uma graça especial, do Daniel Filipe.

Um amor como este
não pede mar ou praia:
somente o vento leste
erguendo a tua saia.

O resto é o futuro
além, à nossa espreita:
doce fruto maduro
na hora da colheita

E depois apanhei também alecrim, fica-me a cozinha cheirosa e os assados ainda mais saborosos; e também umas pontas de alfazema que dão um perfume fresco e lavado à casa.




Já estava de regresso à frescura da casa (que calorão que estava cá fora, que calorão... Só se estava bem dentro de portas), quando vi as pinhas já prontas para atear a lareira ou a salamandra nos próximos frios. Fotografei-as, acho-as bonitas no seu ton sur ton.




A natureza é uma fonte de beleza, de prazer e de vida. Para mim, é na perfeição que encontro na natureza, em toda ela, que reside o grande milagre da existência e da vida. Não quero saber se, na génese de tudo, houve um grande arquitecto, o génio da lâmpada, um deus único ou mil deuses. Basta-me observar e respeitar o que vejo e o que adivinho sob a superfície das coisas e dos seres.

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De entre as oferendas recebidas hoje por mail, que agradeço, aproveito para divulgar aqui um vídeo com imagens que são também uma beleza. Alguns dos lugares que aqui se vêem já os conheço, outros terei que conhecer. Portugal é um país muito bonito.


Aldeias de Portugal


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domingo, junho 28, 2015

Sailors and Daughters






De um Leitor que sempre me envia coisas que muito me agradam recebi o link para uma exposição online que nos transporta para tempos de pioneirismo e aventura. 




E, no entanto, vendo as fotografias que constam da exposição, penso como, apesar de tudo, são tempos tão mais longínquos em relação aos tempos presentes quanto, nessa altura, se viam sorrisos, vestígios de paz e uma expectativa positiva nos semblantes de quem se deixava fotografar enquanto, agora, nos grandes êxodos por mar a que hoje assistimos, o que vemos é gente aflita, desgraçada, que foge de guerras cruéis, de pobreza, violações, desmandos inumanos, metendo-se em barcos em que a probabilidade de sucesso é praticamente nula.




Mas a exposição é do pioneirismo na arte e no prazer de fotografar que sobretudo trata. Que imagens maravilhosas nos chegam de tempos e locais tão remotos, que maravilha é esta arte da fotografia. Saber que estas foram pessoas que, um dia, há cerca de século e meio se puseram em frente de uma máquina estranha e sorriram ou se mostraram desafiadoras e se deixaram fixar para a posteridade, é qualquer coisa de fantástico.

Diz o Leitor, a quem muito agradeço, que: Saber, bons materiais e bom gosto tornaram esta pequena exposição - online - um "must". De facto. Concordo.




Transcrevo do site:
Sailors and Daughters reveals the expansive maritime societies of Zanzibar, the east African coast, and beyond. From the 1840s, cameras traced the international migrations of traders, sailors, sons, and daughters through Indian Ocean ports, continuing trade that dates back over five millennia. East African cities flourished as hubs of both land and sea trade routes, which extended to the central African interior, Horn of Africa, Persian Gulf, Indian Ocean islands, western India and the Far East. 
The region’s intercultural ethos generated a multitude of encounters between subjects, photographers, and the global audiences who viewed the resulting images. By gathering images from scarce and little-known collections of early photographs, lithographs, postcards, and private albums, this exhibition focuses attention on a diverse cross-section of the region’s people and their cosmopolitan cities by the sea. It serves as a starting point for a larger photographic and creative visual history of the prosperous and diverse communities of the Indian Ocean world.



A exposição tem o nome de Sailors and Daughters - Early photography and indian ocean e vê-la é um prazer.



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A música é Fleurette Africaine do álbum Solo na interpretação de Vijay Iyer (de quem também tive conhecimento através do mesmo Leitor). 

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E hoje fico-me por aqui. Este sábado foi daqueles dias grandes que meteu de tudo: praia, festa de anos à tarde (os caranguejos, por estas bandas, são aos cachos), jantar de família, sarau nocturno, meninos a dormirem cá em casa e o mais que quiserem imaginar. Por isso, a esta hora, estou que nem me tenho. Não sei de nada do que se passou no mundo nem do que se vai passar na próxima semana até porque, como é bom de ver, não tive ocasião de acompanhar a sessão do catraio Mendes, esse tão ladino videntezito. Por isso, sem forças e sem saber de nada, de que me ia eu pôr para aqui a opinar, não é?

Vou ver se leio um pouco o Expresso mas duvido que a coisa vá funcionar bem. Tenho cá para mim que, assim que pousar o corpo em cima da cama, o assunto se resolve na hora: tiro e queda.

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E, assim sendo, desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo. 
Desejo-vos muitas felicidades.

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sábado, junho 27, 2015

O amor ao espelho. Like a painting.








Estava sem saber o que fazer, agora que estás longe. As minhas irmãs vieram fazer-me companhia, tentam sempre animar-me. Animada eu estou, sinto é a tua falta, parece que nada faz muito sentido sem te ter aqui comigo. Durante o dia penso que te devia contar o que pensei, contar-te sobre a música que ouvi, relatar-te as conversas que tive. Mas, depois, ao falar contigo, não ia maçar-te com isso e ficava com tanta coisa dentro de mim, sem as partilhar contigo. Parece que nada vale muito a pena se é para ficar apenas comigo. Há uma dimensão que se acrescenta ao que se vive, que é a que resulta da partilha com quem conhece o nosso coração.

Então elas vieram, buliçosas, e as três escolhemos vestidos de verão, e os vestidos que escolhemos não tinham alças e mal cobriam o peito e então escolhemos blusinhas justas para vestir e despimos os soutiens, e vimos como os nossos seios permanecem iguais, pequenos, mamilos pequenos, peitinhos de adolescente, e rimos, e dissemos graças maliciosas, e depois escolhemos laços para pôr na cintura, cada laço de sua cor, e sapatilhas bordadas com brilhantes, e penteámo-nos umas às outras, e pusemo-nos com ar de noivinhas antigas e, rindo, saímos para o jardim e fizemos uma roda em volta da árvore e cantámos e dançámos. E voltámos a ser meninas, as manas sorridentes, as meninas com uma vida feliz pela frente.

Depois sentámo-nos na varanda, cansadas, e, ao verem-me calada, logo se puseram em minha volta, e desfizeram-me o penteado, e contaram-me histórias, tentaram fazer-me rir. Ri-me para não as preocupar, para que se fossem embora. Sei fazer de conta que estou contente. Mesmo elas, que me conhecem tão bem, não percebem, julgam que desviam o meu pensamento para sítios onde tu não existes. Deixo-as julgar, rio-me com elas.

Vendo-me alegre, foram. Vi-as saírem, conversando, de braço dado, cabelo solto, disponíveis para serem felizes. Viraram-se, fizeram adeus, atiraram-me beijos no ar. Retribuí, rindo.

Mal se afastaram, voltei para dentro. Olhei para o relógio. Vontade de falar contigo. Vontade de saber de ti, vontade de te ouvir a contares-me o que fizeste. Podias dizer coisas simples, assim: atravessei a rua, a árvore ao pé do semáforo está florida, almocei numa esplanada, pensei em ti, depois o sol batia-me na cara, não consegui ler, pensei em ti. Podiam ser coisas assim, simples, que eu ouviria com interesse, como se fossem histórias raras. Mas a esta hora podes estar a trabalhar ou em casa, não posso ligar-te. Tenho que esperar que me ligues, que me escrevas, que te lembres de mim.

Despi o vestido das flores, despi tudo. Fiquei nua. Olhei-me ao espelho, a pele branca, macia, sem préstimo. Senti a falta do teu olhar que acariciava a minha pele, que procurava o meu olhar. Querias perceber se eu te queria tanto como tu me querias. E depois olhavas o meu corpo que dizias que tinha sido feito para ti. Lembras-te de como olhavas o meu corpo? Lembras-te de como querias que eu me despisse devagar para olhares? Lembras-te de como querias aproximar-te e eu te afastava até que não aguentasses mais? Ah, como eu gostava de me despir para ti, de deixar que o sol entrasse para pousar no meu corpo, para que me visses envolta em luz. E tu dizias, afasta-te da janela, ainda te vêem e eu provocava-te, aproximava-me ainda mais, e dizia, pois que me vejam, que vejam como me dispo para ti, para que me vejas nua, tua. E fechava os olhos, e dizia, se eu não vir, também não me vêem a mim, e tu dizias, eu vejo-te, e eu dizia-te, ah, mas eu quero que me vejas, é para ti que danço ao sol, e o sol dançava na minha pele e tu que eu fosse mas é para perto das tuas mãos. E eu dizia, já vou, quando o meu corpo não puder esperar mais, quando as tuas mãos não puderem esperar mais. E tu dizias, já não posso esperar mais. Ainda te lembras?

E, como eu não fosse logo, insistias, vem, traz o teu corpo para os meus braços, vem, vem que não vivo sem o teu corpo junto ao meu, vem que os meus braços ficam vazios sem o teu corpo, vem, vem.

E, então, eu ia, e ia devagar, e ia antecipando o prazer de me ter entre os teus braços que me abraçavam com tanto amor, como se não fossemos separar-nos nunca. Lembras-te?

E assim estive, envolta em lembranças, em silêncio e saudades, em frente do espelho, até que a tarde tombou e trouxe o véu que prenuncia o anoitecer. Sozinha, num quarto quase sem luz, sem a tua voz, sem o teu olhar, olhei o meu corpo inútil. Podia ter tido pena de mim. Mas não tive. Já não te lembras de mim. Não mereces estas minhas tão fundas saudades.

Depois tive uma ideia: vesti o vestido com que um dia me sonhei, e assim, vestida de branco, voltei ao jardim, entrei pelos fetos macios, deitei-me como numa cama feita para o amor, acariciada pelas folhagem macia como os teus dedos. Que saudades tenho dos teus dedos, eu era uma dócil harpa nos teus dedos, lembras-te?

Esperei a noite, que a noite esconde segredos, por vezes traz mistérios que se desvanecem pela aurora. Se me ligares ou escreveres não me encontrarás. Pensei: se um dia voltares a lembrar-te de mim, talvez já eu não me lembre de ti, talvez já me tenha apaixonado pelos mistérios que a noite esconde.

Fechei os olhos e deixei que o sono ou o sonho ou os segredos tomassem o meu corpo. O meu corpo é o corpo de uma mulher livre. Lembras-te disso, não te lembras?



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As fotografias fazem parte da exposição 'Vogue: Like a Painting' que pode ser vista no Museo Thyssen-Bornemisza em Madrid  entre o próximo 30 de Junho e 12 de Outubro.



A primeira fotografia é One enchanted evening, Taormina, Sicilia de Peter Lindbergh, 2012. 
A segunda não sei.

Maria Callas interpreta Madame Butterfly de Puccini

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E, por falar em liberdade, desçam, por favor, até ao post seguinte. 
Ali fala-se da liberdade e da dignidade no berço da democracia e junta-se um link para um magnífico post onde se desvendam alguns mistérios.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um sábado feliz, sereno.

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Tsipras, o referendo, a democracia, a dignidade


Tsipras é dos poucos estadistas que ainda conserva um pingo de dignidade nestes tempos de atoleiro, intimidação, chantagem e vergonha.

Miseráveis são os contabilistas armados em estrategas, os fiscalistas especializados em penhorar gambas panadas, os cobardes disfarçados de gente importante, ministros e ministras que mais não são do que isildas, rastejantes ricamente aperaltados, camaleões bem falantes, lacoisas, cavacos de toda a espécie, incompetentes servis, láparos, aldrabões e alcoólicos que governam esta europa pequenina -- deixando o terreno livre para toda a espécie de abutres e esquecendo a união entre os povos e o mais elementar respeito pela dignidade humana.

Bem podem palrar os camelos camilos, os gomes f., os das neves e outros fala-baratos, ilustres avençados, lacaios, acéfalos, papagaios e míopes, e todos esses campeões da verdade a la minute que acham que isto é uma questão de idade da reforma, de iva, de bugigangas dessas. Bem podem. Coveiros, ignorantes e zombies que não sabem o que é a liberdade, a democracia, a dignidade.

Não sei qual será o resultado do referendo na Grécia, não sei qual será o desfecho de tudo isto. Mas é um acto de afirmação e de dignidade este de convocar um referendo para, em poucos dias, obter a opinião do povo.

Salve Tsipras! E que grande discurso!

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Sobre o que se está a passar na Grécia recomendo vivamente a leitura de Como estourar um país para proveito próprio e mau exemplo


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sexta-feira, junho 26, 2015

Quando será que aquelas abéculas do Eurogrupo, do FMI, da Comissão Europeia e do raio que os parta -- que andam a moer a paciência a toda a gente, em especial, aos pobres gregos que mereciam melhor sina -- atinam? Cambada de gente de vistas curtas, de abutres e de isildas. Só espero que, quando o assunto estiver finalmente resolvido, soltem um rocket circular gigante que se veja de todos os países... [Sobre o assunto Jara e Cavani e sobre os meus votos para as próximas legislativas portuguesas, por pudor, não falo aqui no título, só mesmo no fundilho do texto]


Quando se faz planeamento e controlo de gestão, olham-se para os números de forma abrangente e compreensiva, tentando perceber as tendências, como é que as variáveis externas impactam nas internas, a origem dos problemas, a razão de ser dos desvios face ao expectável, etc, etc. Geralmente olham-se com mais atenção os grandes números, que são os que influem decisivamente na condução das organizações, e não se perde tanto tempo com miudezas já que o esforço de as olhar em detalhe não paga o tempo que com elas se gastaria.

Em contrapartida, os contabilistas devem garantir que as contas estão certas ao cêntimo, que não há verbas transviadas, mal classificadas, etc. Apenas com uma contabilidade certa, correctamente balanceada, as pessoas do planeamento e do controlo de gestão podem focar-se com acuidade nas 'gordas', descansadas por saberem que, se quiserem ir aos peanuts, as verbas lá estarão devidamente arrumadas e conferidas.

Ora bem, vendo o disparate que desde há uns cinco anos se passa na gestão da crise financeira europeia, concluo que a Europa está entregue a gente com espírito de contabilista. Não estou a menosprezar os contabilistas, note-se. Mas os contabilistas devem fazer contabilidade, não gerir a União Europeia.

O assunto deve ser analisado por gente com visão, com uma visão holística, estratégica, humanista, gente que perceba o que correu mal na aplicação do ideal europeu e saiba corrigir a rota da condução desta União, gente que saiba o que é a Política.




Não é possível que se esteja a arrastar tamanha crise, uma crise que envergonha quem tenha dois dedos de testa, por causa de trocos. É que o que está em causa na crise financeira grega são amendoins. Houve lá excessos? Claro. Onde é que não houve? Houve lá, como houve em todo o lado, em especial em países com economias vulneráveis e que, ao longo de anos, serviram para alimentar os negócios alemães (no material de guerra, então, foi uma festa! de tudo os alemães venderam). A correcção dos desequilíbrios deve ser feita de forma inteligente, respeitando a dignidade dos povos, pugnando pelo desenvolvimento e pelo equilíbrio.

O que está a ser feito, a querer impor castigos à viva força, só me faz lembrar aquela senhora e o movimento por si capitaneado, uma tal Isilda Pegado que, em conjunto com os PaFs, querem que as mulheres que abortam não apenas paguem taxa moderadora como vejam antes a ecografia e a assinem. Gentinha mesquinha, má, má, que gosta que os outros ajoelhem vergados sob o peso da culpa. Uma vergonha.


Ora aquilo a que assistimos é que parece que na condução dos destinos da Europa se juntaram os contabilistas, as isildas, os láparos desta vida, os chernes e seus derivados, e, ainda, os agentes escusos que se ocupam dos jogos de poder e falhanço (porque, não nos esqueçamos, há sempre alguém que muito ganha quando alguém muito perde) - e o sarilho é infindável, uma teia cada vez mais ensarilhada, uma cambada de estarolas mentecaptos que não sabe sair do labirinto onde se enfiaram. E, claro, os abutres estão à espreita.




Mas, enfim, pode ser que um dia destes, algum desses palhaços ganhe tenência ou que comecem a aparecer Políticos (com maiúscula), inteligentes, honestos, corajosos, e que este regabofe acabe. 

Nesse dia, só espero que haja festa rija, bailes na rua, alegria, esperança, balões pelo ar.

Ora, nem de propósito recebi, de um Leitor a quem muito agradeço, um vídeo extraordinário. Melhor que o fogo de artifício da Madeira, que os balões de S. João, melhor do que tudo o que já se viu. É na Tailândia e é do além. E é o que deveria haver quando a Europa voltar a ser um espaço de liberdade, democracia, desenvolvimento e respeito pelas pessoas.


Giant Circular Rocket

(Para dias de festa rija)


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As imagens acima usadas para enfeitar o texto, que revelam o sentido de humor de quem as produziu, são da autoria do grego Manos Kaperonis (@manoskaperonis)


Há quem diga que, para compreender os outros, nada como nos calçarmos com os sapatos desses outros (sou uma desmiolada com os ditados, e isto que escrevi não me está a soar nada bem; deve ser outra coisa mas, enfim, agora não me ocorre nada melhor).
Ora, aqui a ideia é mudar de cabelo (ou de cabeça, mantendo o cabelo) a ver se compreendem os assuntos com a cabeça dos outros: a sonsa da Merkel a perceber o entalado do Tsipras e o cabelo da sabuja da Lagarde (Lacoisa)** com a cara do pedaço do Varoufakis**. 
Enfim, mesmo que não produza efeito prático, tem graça. Ao menos isso, que os gregos e os europeus em geral não percam o gosto pela alegria de viver.


[** As palavras Lacoisa e o pedaço do outro (pedaço do outro salvo seja, claro) não é de minha lavra: ver por favor, comentário abaixo da sempre inspirada Leitora Rosa Pinto]

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Recebi também, por mail, um outro vídeo que aqui divulgo, desejando que o povo grego que se vê como que enclausurado numa jaula com um leão, e quase parecendo que de lá não vai conseguir sair com muita saúde, tenha a presença de espírito e a coragem que Charlot teve.

(E quem diz o povo grego diz toda a gente que se vê aflita, metida num sarilho dos grandes, aparentemente sem razão para ter esperança: há sempre razões para acreditar). Por exemplo, eu tenho esperança. Apesar das sondagens, acredito que o povo português, nas eleições, vai fazer aos PaFs o mesmo que Jara fez ao Cavani* -- e, portanto, haja esperança, minha gente).



Charlie Chaplin na jaula do leão




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* Dizia eu que, apesar da aparente falta de assertividade de António Costa, que está a custar a arrancar, (e apesar do ar desbotado e infeliz dos cartazes do PS...), ainda estou convencida que, entre o PS, o PCP, o BE e o Livre, os portugueses vão fazer aos PaFs o que o Jara fez ao Cavani.
Aos que não acompanham estes gestos de salão, explico. E que me desculpem as pessoas finas que frequentam o Um Jeito Manso. Eu também sou fina, ora essa, mas, meus Caros, às vezes tem mesmo que ser.

Com vossa licença, mostro e transcrevo


A jogar em casa, o Chile eliminou os uruguaios, detentores do título, num jogo carregado de polémica e com duas expulsões na seleção do Uruguai. Uma delas, a de Cavani, foi crucial no desfecho da partida e está a correr mundo devido ao gesto do defesa chileno Jara, que provocou o avançado uruguaio ao introduzir um dedo no rabo do avançado.


Nem mais.
(Temos pena.)

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Resumindo e baralhando: Está mais do que na hora de nos vermos livres de pró-chernes, ácaros, pinókias, vice-portas, cães com pulgas, schäubles, lagardes rastejantes, hollandes pastelões, vírus, láparos e bicheza ruim de toda a espécie.


Neste caso, do láparo, (como nos restantes): lixo com ele. 
E a seguir, toca de lavar as mãos com um bactericida dos valentes.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. 
Aliás, todas as sexta-feiras são de uma beleza estonteante. Belas e boas, boas, boas.

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quinta-feira, junho 25, 2015

Como se eu fosse a árvore e tu fosses um espelho -- [Uma história levezinha entre o poético e o erótico]


Depois de um dia de trabalho, a mulher foi a um debate seguido de concerto. São normais estes convites. O local não podia ser mais agradável. Um edifício apalaçado com um grande jardim mesmo no meio de Lisboa. 

No entanto, tinha estado com uma certa dor de cabeça. Tinha acordado de madrugada, tinha ficado com calor apesar da janela estar aberta. E as muitas reuniões do dia, umas complicadas, tinham ficado a desfilar na sua mente. Isso e outras coisas. Muita vida a decorrer em muito pouco tempo, muitas camadas de vida, umas visíveis, outras ocultas, muita canseira, muito livro para ler, muitas viagens por cumprir, e saudades, e incompreensões e preocupações, e, em cima de tudo, muito sono para pôr em dia; e logo, a meio da noite, o sono haveria de se evaporar.

Finalmente, já de manhã. adormeceu. Passado um bocado tocou o despertador e, obrigada a levantar-se de imediato, não conseguiu ter um despertar progressivo e, logo ali, a cabeça mostrou desconforto.

E foi em crescendo, ao longo do dia. Desabituada de comprimidos, foi esperando que passasse por si. Mas não passou.

Portanto, pouco antes da hora de sair da empresa para atravessar a cidade em direcção ao local do evento, hesitou. Pensou que devia era ir para casa, meter-se debaixo do chuveiro, comer um pêssego e um iogurte, atirar-se para o sofá e adormecer. Mas o programa e o local eram aliciantes. Foi à copa, preparou uma infusão. Sentou-se a bebê-la devagar. Sentiu que talvez estivesse a melhorar.

Foi à casa de banho, viu-se ao espelho, avaliou-se. As olheiras estavam fundas mas nada de dramático. Foi, então, ao gabinete, desligou o computador, avisou que ia sair mais cedo. Entrou de novo na casa de banho, passou uma sombra nos olhos, nos lábios um gloss em tom nude, passou o pente ao de leve pelo cabelo de modo a mantê-lo com ar despenteado. Despiu a blusa, ficou apenas com o top. Desceu à garagem, dirigiu-se ao carro, trocou de sapatos, os de salto alto normal por outros mais elegantes, mais altos.



E arrancou.

Na rua, deixou-se ir com a janela do carro aberta. O ar fresco da tarde sabia-lhe bem. Ajeitou o retrovisor e viu-se ao espelho. De repente, lembrou-se de uma coisa. Que esquecimento. Na estação de serviço mais à frente parou. Tinha uma fita preta, larga, na carteira. Apanhou o cabelo ao de leve com uns ganchos quase invisíveis e prendeu-o melhor com a fita a que deu um nó de lado, as pontas curtas espetadas, quase um turbante. Riu. Será que já não tinha idade para isto? Riu de gosto. Pensou: que se lixe. Arrancou, prego a fundo, a janela aberta.




Na rádio, a Callas interpretava o O mio babbino caro. Perfeito.

Quando saíu do carro, vestiu o blaser. Atravessou a rua. A sala estava cheia. Sentou-se numa das filas de trás. Debatiam a futuro da Europa, falaram da Grécia, uns a favor de uma valente lição a ver se aqueles malandros aprendem, outros que o problema é político e que é melhor não abrir a caixa de pandora. Tretas. O drama grego já a servir de entretenimento de fim de dia a gestores, empresários, advogados, jornalistas. Olhou em volta. Não viu jeito de estarem ali académicos, artistas, gente desempoeirada. Tudo executivos e a fauna que os rodeia. Uma maçada.

Levantou-se, então, e foi espreitar as salas em volta. A dor de cabeça tinha desaparecido. Sentia-se, de repente, aliviada, a cabeça leve. E toda ela se sentiu leve, livre.

Começou, então, a ouvir a música. Era chegado o momento musical. Então parou. A mesma música. Espreitou. Uma jovem cantava o que tinha vindo a ouvir no carro.

Em silêncio foi avançando pelas salas. Esculturas, pinturas, belos cadeirões revestidos a tapeçaria, pesados cortinados, um conforto requintado, uma decoração que preservado a riqueza de outros tempos.

De repente, sentiu-se observada. Um homem estava junto a uma janela mas, em vez de olhar para fora, olhava-a a ela. Sobressaltou-se. Colocou a mão no peito, como se querendo acalmar o coração. Disse: 'Assustou-me...'. Ele disse apenas: 'Não fiz nada'. Ela desculpou-se 'Sou eu, sou assustadiça e também não pensei que estivesse aqui alguém'. Ele disse: 'Se quiser, vou-me embora'. Ela sorriu, 'Que ideia'.

Então ele disse 'Estava a ver o jardim, daqui vê-se um recanto, a esta hora está bonito'. Ela aproximou-se, 'Que bonito, que paz'. Da outra sala chegava o canto, a luz que vinha da rua era uma luz coada, o jardim lá fora estava envolto em dourado: um momento perfeito. A mulher ficou ao lado do homem. Em silêncio. Depois, quando ela se virou para se afastar, o homem começou a dizer qualquer coisa em voz baixa, uma toada. Ela parou, pôs-se a ouvir. Aos poucos a sua pele foi ficando arrepiada. O homem, olhando o jardim, dizia

paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.

A mulher ficou parada a olhar para ele. No fim, como ela o olhasse, em suspenso, ele disse: 'Herberto'. Ela quis sorrir mas estava quase emocionada, e surpreendida. 'E sabe de cor?'. Ele encolheu os ombros, 'Sei algumas coisas'.

Então ela aproximou-se e com ar zangado disse: 'Fez mal'. Ele admirou-se: 'Fiz...?'. Ela confirmou 'Muito mal'.

Sério, ele tentou perceber: 'E posso perguntar o que fiz eu de tão mau assim?'. Ela fez um ar ainda mais zangado, 'Não se faça de inocente. Fez mal e vou ter que o castigar'. Ele sorriu ao de leve, 'Assim? Castigo directo? Sem acusação? Sem culpa formada?'. Ela zangou-se ainda mais: 'Ora, não brinque com coisas sérias; acha que podia dizer um poema destes, num fim de dia destes, com uma música de fundo destas, a olhar pela janela para um jardim destes, e nada lhe acontecer...? Não brinque comigo...!'.

Então tirou a fita do cabelo, apeteceu-lhe sentir os cabelos soltos sobre o rosto. Encostou o homem à janela. Depois ainda ensaiou puxá-lo a si pela gravata mas, vendo o ar assustado dele, desistiu. Resolveu, então, tratá-lo bem. Chegou-se, encostou o seu corpo ao corpo do homem, sentiu que ele estava expectante, sem saber o que fazer. Ela não se importou com o espanto dele. Roçou o seu rosto pelo rosto dele, sentiu o corpo dele no seu, sentiu o calor que vinha do corpo dele, o perfume dele, deixou que ele sentisse o seu.

Depois afastou-se, virou-lhe as costas. Abriu a portada de vidro e foi para a varanda. Ele foi atrás e, cavalheiro, colheu uma rosa branca de um grande vaso; num gesto tímido, ofereceu-lhe.




Ela disse, 'Não pense que é por me oferecer uma rosa branca que está absolvido'. Ele olhou-a, 'Eu? Não penso nada. Deixei de pensar'.

Sedutora, ela brincava com a rosa, mas não abrandou, 'Quê...? Está a querer passar por inimputável...? Não... Vai ter que pagar, não pense...'. Ele disse: 'Grande foi, então, o meu pecado'. Ela assentiu, ar de caso, ' Foi. Foi mesmo. Vai ter muito que rezar'.




Depois afastou-se e virou-se para trás como que querendo, de novo, puxá-lo pela gravata, como se fosse uma trela. O homem hesitou. Ela largou-o. Ele ficou parado.

Ela avançou, entrou noutra sala, escondeu-se. Pouco depois, ouviu-o a entrar. Procurava-a e ela escondida. Quando ele saíu para outra sala, ela foi atrás dele. Via-o procurando por ela. Perseguiu-o. Ele inquieto e ela atrás, predadora.

Até que viu um outro homem, mais jovem. Disse, então, em voz alta para o diseur, que apanhou um susto: 'Então está com medo...? Anda a fugir de mim...?'. O homem disse 'Não, andava era à sua procura'. Ela disse, 'Não se arme em simpático, não pense que escapa ao seu castigo'. 

Ele riu, 'Pronto, rendo-me, faça o que quiser'. Ela disse, implacável, 'Ah pois faço... E sabe qual vai ser o seu castigo?'. Ele sorriu 'Não faço ideia'.

Ela empurrou-o para a sala onde estava o homem mais jovem e disse 'Vai ensinar-lhe um poema para ele também me dizer, quero que me digam poemas, ora à vez, ora em coro, baixinho, quase num sussurro. Quem disser melhor, ganha um presente'. O mais jovem, muito admirado, disse, 'Não sei se vou ser capaz'. Ela riu-se, ficava amoroso com aquele ar atrapalhado, o aprendiz. Ela tranquilizou-o 'Será, será. Cuidarei que o mestre seja paciente. E temos a noite toda para o ensinar'. E, maliciosa, olhou o diseur. Este corou. Ela sorriu e fechou-se lá dentro, com eles.



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O poema é um excerto retirado de Photomaton & Vox de Herberto Helder.

"O mio babbino caro" da ópera Gianni Schicchi (1918), de Giacomo Puccini é interpretado por Maria Callas em Paris, Junho de 1963.

O vídeo, muito recente, é The AristoCrazy Collection, da campanha Outono/Inverno 2015 relativa aos elegantésimos sapatos de Giuseppe Zanotti.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.

(E não é que escrever esta historinha infantil me fez passar a dor de cabeça...? 
A sério. Passou mesmo. 
Ora aí está: quando tiverem uma dor de cabeça, nada de aspirina ou ben-u-ron: 
basta escrever uma história infantil. Boa. Já tenho matéria para um paper científico)

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