Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, agosto 11, 2020

Ler. Escrever.





Há pessoas que, quando me recomendam um livro, me deixam logo com a certeza de que jamais o procurarei. Tenho um colega que, volta e meia, vem perguntar-me se já li um livro que lhe recomendaram como sendo imperdível, coisa do melhor que há. Nunca sei do que fala e só fico é com a certeza de que é coisa com a qual os meus olhos nunca perderão tempo.

Há, contudo, outras pessoas que, mal me recomendam um livro, logo fico numa inquietação para o ter. Inquietação mesmo. Urgência. Só descanso quando os tenho. Como medicamento sem o qual não conseguirei a cura.

Por exemplo, li o Ensaio sobre a Cegueira porque um amigo me disse: vai ter que ler, vai gostar. Cumpri a ordem, gostei muito. E de Leitores daqui, pessoas que não conheço senão daqui, também já fui atrás de conselhos, numa urgência -- e foi tiro certeiro. Não sei que afinidade é esta, que pontaria é esta que se desenha através de caminhos tão etéreos e indecifráveis.

É curioso isto dos livros, da escrita, da leitura. Para quem gosta é coisa sem a qual não se pode passar. É uma porta aberta que tem, porque tem, que ser transposta.

Por exemplo, eu agora. Ando numa daquelas alturas em que trabalho a dobrar e a triplicar. Ainda há bocado, eu aqui no sofá, a minha princesa mais linda encostadinha a mim (e não, não acabou o covid, mas temos cuidados e eles, depois de férias, foram fazer testes e estão todos 'limpos'), vendo-me a escrever um mail, por sinal em inglês, e percebendo que era assunto de trabalho, me perguntou porque é que eu estava a trabalhar àquela hora. Expliquei-lhe que, com o estado em que está a casa e com tanto que tenho que fazer, tenho que aproveitar todos os bocadinhos para despachar algumas das muitas pendências que vão aparecendo ao longo do dia. Ela encolheu os ombros, fez um ar meio desconsolado, como se não percebesse. Mas não tinha de que se queixar: antes já tínhamos estado ambas a maquilhar-nos mutuamente, ela a experimentar vestidos meus, eu a fazer-lhe penteados, etc. Mas, àquela hora, já o soninho a pedir-lhe miminho, estranhou que eu, em vez de me deixar estar, simplesmente, encostada a ela, estivesse a trabalhar.

E, de facto, caraças, cansada como chego a esta hora, não poderia eu agora estar quieta, já deitada? Mas, não senhora, para aqui estou a jogar conversa fora. Parece que os dedos precisam de para aqui estar neste sapateio inconsequente sobre o teclado. Vício de escrever. Dantes era vício de ler. Lia até quase madrugar. Agora não é a ler, é a escrever. Certo que também já foi misto: fazer tapete de arraiolos e ler. Ou pintar e ler. Parece que os meus dedos têm sempre que se agitar ao cair da noite. Mas agora, com tanto trabalho, só chego ao sofá muito tarde e ocupo o tempo a escrever, não sobra tempo para mais nada, quanto muito para visitar outros blogs e espreitar as notícias. Mas espreitar as notícias não é ler.

Mas tenho esperança de que um dia destes, a casa arrumadinha, consiga chegar ao fim do dia e sentar-me sossegadinha da vida a ler. Ou a escrever um romance. Ou uma história doida, doida varrida. Anseio por escrever histórias malucas. Ou um romance erótico. Qualquer coisa nessa base. Ou, então, volto aos arraiolos. Sempre era mais seguro. De mulheres que lêem ou escrevem diz-se que são perigosas. Das que fazem tapetes de arraiolos acho que não se diz nada disso.

E pronto, vou pregar para outra freguesia.


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Pinturas de Turner para fazerem companhia a Melody Gardot, Good night

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Espero que vocês aí desse lado sejam mais regrados que eu.

Uma bela terça-feira.

Não brincar em serviço é isto


Volto ao Lincoln Project para partilhar mais um daqueles vídeos que vão à jugular do narcisista-mor, paranóico compulsivo, estupor encartado. Apesar do que por aquelas se bandas se passa, a verdade é que a liberdade de expressão ainda lá existe e é usada desta forma inteligente e incisiva que aqui se pode ver.

Os republicanos que aqui se congregam não se dispersam. Não. Estão focados num propósito: impedir a reeleição de Trump. Tomara que o consigam.

Regret


(Os que lamentam ter votado em Trump)

segunda-feira, agosto 10, 2020

O que as fotografias não dizem





Nestas arrumações aparecem coisas surpreendentes. Espantoso como a vida dá mil voltas, como nós nos encontramos e desencontramos e, ao fim de muitos anos, quando já nem nos lembrávamos da sua existência, eis que, do nada, há coisas que reaparecem.

Para o fim, estão a ficar aquelas coisas que, para mim, são como galpões. Sinto terror do que para lá esteja, coisas inesgotáveis, pesadelos. Armazéns nem sei de quê. Ao longo de anos, a gente vai lá metendo coisas. Às tantas a gente já perdeu o tino ao que para ali está. Acredito que alguns dos meus Leitores não percebam isto. Mas a minha casa é grande, tem muito movimento, muita vida se tem vivido por aqui. Sei lá.

Eu estava a esvaziar uma grande secretária que está no quarto que era da minha filha. A secretária mede um metro e setenta de comprimento e é muito funda. O que de lá saíu... Ao meu lado tenho daqueles sacos grandes para o lixo e vou enchendo. Mas o mais surpreendente foi que descobri lá, numa das portas de baixo, os sapatos que usei no casamento dela. Uns sapatos lindos. De tecido cor de pérola, de cetim, bordados, com brilhozinhos, fechados à frente, abertos atrás, só com um fiozinho a prender no calcanhar. Um tacão fininho. Lindos, lindos. Estão envoltos em papel de seda, numa caixa. E a bolsa que usei também nesse dia. No mesmo tom, igualmente bordada a brilhozinhos no mesmo tom. Obras de arte. Guardei-as tão bem que nunca mais me lembrei. Também nunca mais calhou vestir um vestido como o que vesti naquele dia, naqueles tons. No casamento do meu filho o vestido era um misto de azul turquesa e verde esmeralda, todo brilhante. Não podia levá-los, o tom não calhava de todo. Depois disso, também não calhou. Ou, se calhar, até calhou mas não me lembrei. Ou, na volta, é a vontade de os preservar. Parecem uma relíquia. Um dia ainda os ponho em exposição numa vitrine.


O meu marido estava a esvaziar o móvel grande desta sala, o móvel às ondas. Por cima tem portas de vidro e tem livros mas, em baixo, as portas são de madeira e, como é muito largo na parte em que a onda se chega à frente, cabe lá tudo. Volta e meia ouvia-o a praguejar. 'Mas o que é isto?!?' Também deitou muita coisa fora.´É lá que estão as fotografias. Sempre fui viciada em fazer fotografias. Dantes imprimiam-se e eu, quando eram as fotografias dos miúdos, arrumava-as em álbuns. Só que volta e meia alguém vai ver os álbuns, tira uma ou outra fotografia para mostrar a alguém e depois já não sabe de onde tirou e fica de fora. Depois havia os negativos. Envelopes e envelopes de negativos. E, a partir de certa altura, deixei de arranjar aqueles álbuns pequeninos e passaram a ficar em envelopes. Centenas e centenas deles. Depois as avulsas, as que alguém nos deu, as de casamentos, em eventos, sei lá. Ele com um conhecido ex-ministro, por exemplo. Coisas assim.

Uma fez-me ficar cheia de pena. Uma pessoa do meu emprego casou a filha. Convidou todos os do seu grupo. Um grupo de homens e as respectivas mulheres. E, como sempre, eu e o meu marido. Uma, casada com um grande amigo e também, ela, minha amiga, tão alegre, uma bem disposta que fazia rir toda a gente à sua volta, um poço de anedotas e de histórias, médica num grande hospital, tão saudável e bem encarada. Foi-se há um ano e picos, um desgosto grande que senti, uma coisa tão estranha. Por meias palavras, penso que aludi a isso aqui. O marido ligou-me a seguir ao natal, estava com ela ao lado, estavam bem dispostos, combinámos encontrar-nos no início do ano. Tranquilo. Poucos dias depois, talvez menos de uma semana, ligou-me, ela estava muito mal. Nem acreditei no que ele dizia. Nem ele acreditava. No dia seguinte, ligou-me: ela já se tinha ido. Escondeu dele que estava tão mal. Sendo médica, deve ter-se medicado para não ter dores e para ele não perceber. Estava cansada, notava ele, mas era o período das festas, da compra de presentes, de ter gente em casa, essas coisas. Afinal, veio a descobrir-se: não estava cansada, estava era por um fio. Os colegas dela do hospital sabiam que a doença estava a progredir rapidamente mas não sabiam tudo, ela encobriu de toda a gente. Quis viver a pleno até ao fim. Não quis causar preocupação a ninguém. Acho isto de um estoicismo incrível. Quando se pensa que a morte é uma disrupção absoluta, pensa-se mal. A morte, quando não acontece por um abrupto acidente, pode ser um apenas o fim de um caminho progressivo. A cabeça pode estar bem e tudo parece estar bem e, no entanto, por dentro, a morte está a fazer o seu caminho. E um dia leva a melhor e a máquina pára. 


Também está nessa fotografia um outro que, na altura, se destacava sobretudo pela muito alta estatura. Destacava-se naturalmente. O pai, não sabendo que ele ia ficar tão alto, deu-lhe um nome que também o faria destacar-se onde quer que se apresentasse. Vigoroso, altivo, apoiado pelo pai que, desde cedo, o preparou para ser o maior, o melhor, em todo o lado ele dava voz de comando. Mais temido do que amado, fiquei surpreendida por conhecer a sua mulher. O oposto dele. Ele um prepotente, ela uma inocente palradora. Pouco tempo depois dessa tarde em que ali nos juntámos para a fotografia, ele foi vítima de um episódio nunca bem explicado. O assunto veio nos jornais, apareceu na televisão, reportagem no local. No dia seguinte, ligou-me um desse nosso grupo. Tinha eu ouvido as notícias? Sim, claro. E não sabia quem tinha sido? Não. Credo, não me diga que alguém conhecido... Pois. Ele, o arrogante gigante. Estava em coma, em risco de vida, poucas probabilidades de sobreviver. Eu não queria acreditar no que ouvia. Meses internado, perdeu o andar, a fala, tudo. Desfigurado. Sobreviveu, pois, mas com severas limitações. Mas naquele dia, sorrindo, o cabelo brilhando ao sol, estava longe de saber o que lhe haveria de acontecer.

Um outro, o melhor de todos nós, uma pessoa recta, vertical, de uma dedicação e lealdade extremas, exigente para com todos mas, sobretudo, para com ele próprio, austero, era visto por muitos como uma pessoa difícil. Eu nunca o vi assim. Sempre me dei lindamente com ele. Daquelas pessoas que mais depressa quebra do que torce. Travou lutas sem quartel, sempre em nome de uma exigência total. Pessoas assim são frequentemente mal compreendidas. Por isso, foi prematuramente afastado. Tive imensa pena. Foi despedir-se de mim, ao meu gabinete, no seu último dia. Estava muito triste. 


Sempre soube que um dos filhos era algo problemático, fraco interesse pela escola. Falava com preocupação do filho mas falava pouco. Era reservado. Tempo depois de ter saído, ligou-me. Estava seriamente preocupado. Queria saber se haveria maneira de recebermos o filho como estagiário, apenas para o rapaz estar ocupado, nada mais pedia para ele. Conseguiu-se. Poucos meses depois acompanhei o que é o drama de ter um filho com problemas mas com inteligência para os encobrir. Durante meses o rapaz iludiu o pai dizendo que todos gostavam dele, que lhe davam trabalho cada vez mais exigente, estava a gostar, tomara que o passassem ao quadro. O pai falava comigo agradecido, contente, via o filho animado, motivado, finalmente parecia que estava a ganhar juízo. Até ao dia que um outro colega me ligou a dizer que ia dizer-me uma coisa difícil e que fosse eu a contactar o nosso ex-colega: o filho dele há meses que não aparecia no trabalho, não dizia nada, não respondia a telefonemas, tinha que se rescindir o contrato de estágio. Fiquei tão dorida como se fosse comigo. Enchi-me de coragem e liguei ao meu amigo. Uma pessoa sempre tão exigente e recta e, afinal, com um filho assim, aparentemente irresponsável e complicado. Ficou em sangue, pelo filho, pelo medo do que se estaria a passar com ele, pela surpresa, tão bem que parecia estar, e, também, por nos ter pedido isto, tão contrário aos seus hábitos, e por o filho o ter deixado ficar mal. O que se passou nesse dia, em que ele se meteu no carro e foi surpreender o filho, até ao que se tem passado a seguir é tema que não poderei abordar aqui. Posso apenas dizer que o problema era grave e que o mais estranho é o facto de uma pessoa conseguir urdir uma tal teia de mentiras e enganos, tudo tão consistente e aparentemente tão sincero e genuíno, que os pais nunca suspeitaram de nada. De nada. 

Mas, naquele dia da fotografia, ele e a mulher sorriam, bem dispostos -- estávamos todos bem dispostos -- sem saberem o pesadelo pelo qual iriam passar.

E estava também nessa fotografia um outro, o pai da noiva, dono da enorme e belíssima quinta onde decorreu o copo de água. Era um homem muito rico. Várias casas, qual delas melhor que a outra. Grandes carros. Despertava inveja por aparecer em carros de luxo, com motorista próprio. Sempre gostei muito dele apesar de ser pessoa que despertava ódios mortais. Era destemido, orgulhoso, provocador. Meteu-se com quem não devia, um dos poderosos deste país, um ser desprezível que por aí anda. Não soube parar. Tantas vezes o aconselhei. Estava varado de fúria pela injustiça de que era objecto. Tinha razão. Mas há um ponto em que tem que se perceber que há poderes que podem muito. Perdeu quase tudo, incluindo aquela bela quinta.


O meu marido perguntou: onde é que guardo esta fotografia? Respondi: recordações. Mas fiquei a pensar que deveríamos ter uma caixa com uma etiqueta a dizer: 'o que as fotografias não dizem'.

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Pinturas de Loïs Mailou Jones a acompanhar Mark Knopfler & Emmylou Harris em If this is goodbye

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Desejo-vos uma boa semana.
Saúde. Ânimo.

domingo, agosto 09, 2020

Flores geladas para me ajudar a ter melhores epifanias nesta noite tão quente




Há quem leia bem, sentado numa mesa de café. Eu não. Em ambiente movimentado parece que não consigo abstrair-me o suficiente do que me rodeia para me entregar totalmente à leitura. De resto, não gosto muito de ler sentada. Não me dá jeito. Prefiro ler reclinada. Não deitada: reclinada. Sempre pensei: devia ter, junto às estantes, uma coisa onde me pudesse reclinar. Agora tenho um cadeirão reclinável junto aos portugueses mas, junto aos estrangeiros, quanto muito deito-me no sofá já que os estrangeiros estão na sala de estar, nesta em que agora estou. Mas às vezes não vem muito a propósito. Primeiro, pode estar mais gente na sala e não dá jeito nenhum eu monopolizar os três lugares do sofá para me pôr a ler e, depois, aquele sofá é tão fofo e bom que, mal ali me deito, deixo-me dormir.

Pois bem: acabei de ter uma epifania. Nestas minhas mudanças, só me apetece que não fique pedra sobre pedra, tudo do avesso, vida nova, e acabou de me ocorrer pegar na chaise longue que está na sala da lareira e colocá-la junto à janela na saleta que vou forrar a estantes. Fica a biblioteca dos lusófonos -- dos lusófonos e não apenas dos portugueses, e incluirei também os poetas -- e, nela, também uma pequenina secretária, quiçá a que me trará a possibilidade de vir a escrever grandes obras (não sei quê e água benta, certo...?) e, para me reclinar a ler, a dita chaise longue. 
De cada vez que aqui falo na chaise longue recordo-me sempre do dia em que a dita veio cá para casa. Como não encontrei nenhuma tal como eu queria, resolvi mandar fazê-la. Comprei um tecido, levei uma fotografia e fui ao estofador a quem de vez em quando recorro. Por essa altura, ia havia uma festa cá em casa. Era uma época de muita festança chez moi. Não me lembro se era o aniversário da minha filha, se quê. Sei que eu tinha pedido para vir com um ou dois dias de antecedência mas ele, o estofador, perfeito de mãos, é um bocado lento de compreensão e de execução. Portanto, chegou no exacto dia da própria festa. Mas eu estava a trabalhar durante o dia. Estava a minha filha em casa. Combinei com ela onde é que era para ficar e o pagamento. Quando cheguei a casa, no meio do reboliço que era sempre preparar uma festa em pouco tempo, estava a minha filha perdida de riso. Acho que já aqui o contei. Apareceu-lhe um calmeirão à porta, e eu não lhe tinha dito que ele era um tal calmeirão, mas ga-ga-ga-ga-go para além da conta, e eu não a tinha avisado de tal, a dizer que trazia uma ó-ó-ó-ó-to-to-to-to-ma-ma-ma-ma-na-na. Ora a minha filha não fazia ideia que à dita chaise longue também se chamava otomana. Portanto, gerou-se ali à porta uma confusão agravada pelo facto do dito calmeirão não se exprimir a direito. Nem ela percebia bem o que ele dizia, tamanhas as síncopes que em que ele mergulhava entre cada sílaba da dita cuja. Primeiro que percebesse que era o estofador que ia levar a chaise longue teve que penar um bocado. Ela ria bom rir a contar-me isto e eu ainda hoje me rio só de imaginar a cena.
Aliás, os tormentos que eu já passei com aquele estofador só eu sei. Não sabe planificar os trabalhos nem calcular as necessidades de material. Uma vez disse-me que, para forrar um cadeirão grande, de orelhas, e para fazer um puff do mesmo tecido, precisava de uns certos metros. Perguntei-lhe para que largura de tecido estava ele a fazer as contas, para eu me certificar quando o fosse comprar. Primeiro que percebesse a pergunta foi o bom e o bonito. Já não me lembro qual foi, finalmente, a largura que me disse ser a habitual. Tentei que me explicasse o raciocínio para eu adaptar a quantidade caso o tecido tivesse outra largura. Esqueçam. Não conseguiu. Entre a gaguez e a dificuldade para compreender a aritmética aquilo foi conversa de surdos. Pois bem: azar dos azares, o tecido que escolhi tinha mesmo outra largura. Liguei-lhe. Não foi capaz de extrapolar. Disse-me que tinha que ensaiar. Pedi-lhe para ver com um outro tecido qualquer que tivesse na oficina pois, obviamente, não ia poder levar-lhe uma peça de tecido para ele ensaiar. No dia seguinte ligou-me. Disse-me a quantidade. Achei que não ia dar. Insistiu que sim. Eu insisti que não. Ele insistiu que sim, que ora essa, era a profissão dele, sabia bem o que fazia. Pelo sim, pelo não, levei um metro a mais. Pensei que o que sobrasse  daria para almofadas. Lá fui levar. Passados uns dias ligou-me, a gaguez extremada, enervadíssimo, a corda ao pescoço: o tecido afinal não dava e se calhar não podia aproveitar nada senão ia ficar com costuras onde não podia. Fiquei passada. Em vez de me dizer o que faltava, queria que comprasse os metros todos outra vez. Eu dizia que não fazia sentido. Aquilo tinha almofadas, tinha braços, encosto, etc, havia forçosamente costuras, tinha que poder aproveitar tudo o que já lá tinha. E ele que não era assim, que tinha que ser ao correr da fiação, que tinha que acertar o desenho. Eu passada: mas qual desenho? O tecido é liso, só com umas leves e ínfimas pintas em relevo, na mesma cor. E ele a dizer que eu não percebia, que ele assim não sabia trabalhar, tinha que pôr a peça por cima da estrutura e depois é que cortava com o desconto das costuras. E gaguejava, gaguejava, um sufoco, um tempo infinito, ele enervado, eu enervada com aquela lentidão mental. Perguntei-lhe qual a diferença: faltava mais ou menos a diferença para a quantidade que eu tinha estimado. Fui à loja. Já não tinha a quantidade toda que ele queria. Comprei um bocado a mais do que a quantidade em falta e foi isso que levei. E quase o levei ao desespero porque disse que não ia conseguir, que era impossível, que pedia muita desculpa pelo erro, que desistia do trabalho, que não ia conseguir fazê-lo sem a quantidade certa de tecido. Tentei que se acalmasse. Sugeri soluções. Mas ele que não, que era muito perfeito na maneira como trabalhava, que não fazia trabalho mal feito. Eu já passada. O tempo a passar e eu ali. Geralmente ia lá à hora de almoço. Só que, com ele, o tempo passa, passa e a coisa não desenvolve. Por fim lá estabelecemos um acordo. Costas e por baixo com o bocado que agora eu tinha trazido. E, no resto, a parte anterior. Se não fosse ao correr do fio ou outro preciosismo qualquer, paciência, ficava a imperfeição por minha conta. Contrariado, lá aceitou a incumbência.
Cá o tenho, o meu confortável cadeirão de orelhas. Não se dá por nada e creio que não se dá porque não há nada para dar. 
Agora, nestas arrumações em que tudo foi revisitado (e carradas de papel e tralha para o lixo!), apareceu um papelinho com o nome dele e o telefone. Sorte. Numa das vezes em que fiquei com o telemóvel todo limpo (habilidade de um dos meninos, coisa que nunca ninguém percebeu como é que ele conseguiu tal proeza), todos os contactos que não eram profissionais desapareceram para sempre (porque os outros foi fácil recuperar) e o do estofador tinha-se perdido de vez. Até agora.
Bem. Mas esta minha epifania de colocar a chaise longue junto à janela e perto dos lusófonos não é desprovida de escolhos. Primeiro: tem a cabeceira (ou o braço) no lugar contrário ao que, onde a quero pôr, deveria ter. E, se a viro, terei que afastá-la da parede para poder ir-lhe para cima e, para isso, acho que não há espaço pois a toda a volta terei as estantes, sobrando, à justa, espaço para a dita otomana. Acresce que, como a janela é baixa, penso que o encosto longitudinal a excederá ligeiramente em altura. Amanhã logo confirmo este aspecto.

Portanto, vamos ver se a epifania terá pernas para andar.

Quanto aos estrangeiros, terão perto de si o cadeirão reclinável que estava a fazer companhia aos portugueses. E poderei ter os estrangeiros todos na mesma ala: seja policial, seja romance, sejam diários, epístolas, biografias, seja poesia.

Os de história, política, economia política e esses que são, sobretudo, do meu marido ficarão noutro sítio, perto da sua secretária de trabalho.

Os de arquitectura, que são muitos, os de pintura ou fotografia ficarão também organizados numa estante específica.
Ah, é verdade: apareceu aquele livro de fotografia que tem uns nus que deixaram o mano do meio fora de si e que, desde então, motivam buscas pela casa toda, não apenas feitas por ele mas já secundado pelos primos. Tão bem o tinha escondido que agora fiquei surpreendida ao dar com ele no meio da filatelia.
Enfim. Temas que ocupam a minha mentezita.

Portanto, para resumir: penso que me esperam belas horas de santa e descansada leitura. Tenho aqui em carteira alguns para ler e tenho que, rapidaemente, arranjar um certo narciso que me recomendaram e que, só de saber que é 'muito bonito' e que está longe de mim, me faz ficar em estado de impaciência por ainda não lhe poder deitar a mão, espreitar, degustar-lhe a qualidade da escrita.

Tirando isso, também estou a ver se consigo ter o meu lugar de eleição para poder escrever, aquele de que acima vos falei. Isto um dia em que tenha tempo para escrever, claro.

E, por hoje, é isto. Ou melhor: não passa disto.


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As flores em gelo são obra de Marisa Culatto e as The Webb Sisters confirmam o óbvio: Always on my mind

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E a si, em particular, desejo um feliz dia de domingo

sábado, agosto 08, 2020

Nem sei que nome dar a isto




Com a casa virada do avesso, limpezas profundas em curso e a mente totalmente aberta à mudança, estou a aproximar-me daquela fase que me põe a adrenalina a esvoaçar dentro de mim como uma borboleta impaciente. A arrumação dos livros. Volta e meia é isto. Reorganização. Adoro.

Há tópicos que ficam mal resolvidos e que, sozinhos, fazem o seu caminho de forma a que a questão em aberto se transforme em imposição, em tema a resolver. Por exemplo: se tenho os autores portugueses arrumados na mesma estante, devo pôr tudo junto, seja ficção, ensaio, correspondências ou poesia desde que o autor seja português? Ou devo ter uma estante para poesia portuguesa? Outra para diários? E essa, então, dividida entre autores portugueses e outros? Ou, mesmo que não encha uma estante inteira, devem estar numa zona específica da estante dos portugueses? E devem ser autores portugueses ou de língua portuguesa? Brasileiros, angolanos, etc. Mas por zonas dentro da estante ou tudo de seguida desde que de língua portuguesa?

E depois os de ficção estrangeira: por ordem alfabética? Por nacionalidade? Por tipo? Os policiais, por exemplo, devem estar num local autónomo? Ou policial é ficção e o resto é conversa e, portanto, devem estar ao pé dos outros?

Dúvidas assim. Isto deveria aprender-se na escola. Ou deveria haver clubes dedicados à arrumação de livros. Uma pessoa não deveria ser deixada assim, à sua mercê, na mais completa das ignorâncias.

E depois aquela severa dúvida de fundo: livros lidos e não lidos: tudo ao molho e fé em deus ou os não lidos devem estar segregados? É que se forem misturar-se com os lidos, a gente perde-lhes o rasto, esquece-se da incumbência de os ler.

Mas, se for esta a opção, a de estarem segregados, como é? tudo na maior promiscuidade -- portugueses, japoneses, ensaio, filosofia, o que for -- e, de cada vez que se quer procurar, nada a fazer, é revirar tudo até que apareça?

E tudo isto, claro, tentando conciliar as necessidades em termos de medida linear com as estantes existentes, com as zonas onde estão as estantes. Não vou, por exemplo, pôr os de língua portuguesa num lugar em que não caiba tudo e tenha que continuar numa outra divisão da casa, não é?

Penso que isto está é a pedir que eu crie um modelo matemático, quiçá recorrendo a programação linear, que me optimize o espaço e que obedeça às exigências e condicionantes concretas. O pior é que não atino com os critérios, senão a ver se não me abalançava. Coisas malucas é comigo (e falta aqui na frase a palavra 'fazer' para ficar gramaticalmente correcta mas, ainda assim, vou deixá-la ficar como está, com ar de coxa).

Olhem. Tive uma ideia -- e que ninguém se apodere dela; aqui fica publicada como a prova documental que a ideia é minha. Tal como existe uma Marie Kondo para arrumar roupa, preparem-se que, um dia destes, vão perceber que existe uma UJM que anda de casa em casa a arrumar os livros dos outros. Mas antes tenho que estudar a melhor forma de arrumar os meus, aproveitando para fazer tutoriais e tornar-me uma YouTuber, uma influencer. Capaz até de me pôr a falar em brasileiro para ter mais saída.

Com estes temas em mente claro que nem tenho cabeça para aqui escrever sobre outra coisa.

Mas o dia foi muito bom. Os leões estão em força. Aniversários nesta semana já são dois. Desta saison, já vai três. E não fica por aqui. Os leoezinhos pequeninos estão crescidos, qualquer dia uns teenagers, o mais crescido já com doze.
Tudo muito estranho. No outro dia, o meu marido estava com um álbum de fotografias na mão e perguntou qual dos miúdos era aquele bebé. Tive que me concentrar um bocado para perceber pois se, na verdade, me parecia um, aquele que de facto era, a verdade é que tinha ideia de que a minha mãe não tinha ido e afinal estava lá. E vi outras pessoas de quem já não me lembrava assim. Há uma fotografia, em particular, muito bonita. Um grupo de vistosas e sorridentes mulheres sentadas em frente de uma tapeçaria lindíssima. As cores do fundo diluíam-se na luz que envolvia o grupo e tudo estava harmonioso, elegante. Foi no baptizado do mais velho. O pai e a família paterna quiseram que houvesse baptismo. Tenho ideia que foi o meu filho e o meu marido que foram os padrinhos do menino. O meu filho ainda parecia um jovenzinho. E não é baptizado, ele. Se calhar por isso, é que o meu marido também foi. Se é que não estou a baralhar tudo. Ligo tão pouca importância a essas coisas que agora nem sei. Na volta não é nada disso. Que vergonha, credo. Devia saber isto.
Sempre achei que os baptizados são uma coisa sem qualquer sentido. Por isso não baptizei os meus filhos. Quando era miúda, treze anos, a minha tia quis que eu fosse madrinha da minha prima mais nova. Achei graça a isso. Já não frequentava a igreja, mas ser madrinha, coisa de gente crescida, achei boa ideia. Mas, quando os meus cunhados quiseram que fossemos os padrinhos do nosso sobrinho mais velho, não quisemos, parecia hipocrisia da nossa parte alinhar numa coisa em que não acreditávamos minimamente. Com os meus netos já foi diferente, pelos meus filhos e netos faço o que for preciso. Se quiserem que eu própria volte a ser baptizada pois com certeza, um mergulho na pia baptismal e lá vai disto, com benzedura a óleo (perfumado, espero) na testa e tudo.

Hoje o mais novo, o de três anos, queria ser ele a apagar as velas. Como não era o aniversariante, não o deixaram e, todo sentido, coitadinho, foi amuar para um canto. Fiquei logo com pena e com vontade que o deixassem fazer a vontade. Os pais não quiseram, dizem que tem que aprender que não pode ser sempre ele o menino dos anos. Fiquei com pena do menino. O meu filho perguntou-me: 'Qual é o mal? Não consegues lidar com a situação?'. De facto, não. Não gosto de ver os meninos tristes.

Bolas... isto é do sono, só pode, já estou em piloto automático, já nem sei a que propósito isto veio. Vou acabar. E desculpem lá o desnorte do texto que começou nas estantes e acabou nos amuos dos meus ricos meninos. Que nonsense.

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Pinturas de Lasar Segall e Mercy de Max Richter

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E um sábado à maneira!

sexta-feira, agosto 07, 2020

Não dá para acreditar. A sério, não dá para acreditar.


O tema melhor vem no fim. A queda de um mito com centenas de anos. A novidade das novidades. A explicação para muita coisa. 

Mas, primeiro, com vossa licencinha, o do costume.

Receio que me achem uma maçadora, que achem que estar a incidir nesta coisa é uma seca -- ou seja, que não estejam nem aí para esta conversa.

Afinal o narcisista cor-de-laranja está longe daqui, do nosso pequeno rectângulo. Só que o mundo é mais do que o nosso próprio umbigo. O bater de asas de uma borboleta no alto de uma montanha no cu de judas pode desencadear uma tempestade numa qualquer terra do outro lado do mundo, um navio abandonado há anos no meio do mar pode matar centenas e ferir milhares e destruir uma cidade e um anormal ao comando de um país gigante, com a possibilidade de carregar num certo botão, pode fazer com que o mundo acabe indo pelos ares. Ninguém, em qualquer lugar do mundo, pode estar sossegado enquanto houver narcisistas em lugar de poder, em especial à frente dos destinos de coisas relevantes como, por exemplo, à frente de um país.

Pior ainda quando o animal está numa trajectória de esbodegamento progressivo. De dia para dia a gente vê-o mais embestalhado, mais esbongalhado. Não diz coisa com coisa, não consegue alinhavar raciocínio que faça sentido. As palavras saem-lhe esparvalhadas. Da boquinha (que mais parece o ânus de uma velhinha) saem-lhe babaquices, os olhinhos orlados de branco estremelicam, tudo nele já não faz sentido, já não passa de conversa de narcisista esbobalhado e fora de prazo. 

Narcisista nunca acaba bem. Toda a vida a viver em função da atenção que querem dos outros, chegam a uma altura em que já ninguém tem saco para aturar babaca e eles, sem receberem flu-flus e gaitinhas como prova de atenção a toda a hora, caem na aflição, ficam com medo, ficam agressivos, inventam desculpa para tudo, fazem-se de vítimas, trazem conversinha de quando eram pequenos e carentes, procuram a peninha alheia, manipulam as emoções dos outros, tentam convencer que os outros são todos maus, tudo é fake new, tudo é gente má, chegam a dizer que ninguém gosta deles, kalimerizinhos da treta, pequenos bugs sem préstimo. É nessa fase que está o orange donald. Deteriorado, o cérebro reduzido a dois neurónios coxos, o animal demonstra todos os dias o paupérrimo estado a que já chegou -- e só os ceguinhos é que não vêem o perigo que uma besta destas é para os outros, seja lá, nos States, seja em qualquer parte do mundo

Já ninguém consegue sequer fingir que o leva a sério. Já ninguém consegue manter um mínimo de respeito. É exposto ao ridículo por onde passa. Uma coisa patética. Que ele não vai acabar bem é mais do que óbvio. Pior é se faz estrago antes que alguém o impeça de fazer mal a sério.

Esta entrevista é uma coisa do além. Ninguém consegue já ajudar esta alimária a cabar o mandato com dignidade, já ultrapassou essa linha, já está a caminho de acabar a fuçar as próprias fezes.

Trump's Mind-Numbing Interview with Axios



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Bem. Tirando isto nada mais tenho a acrescentar a não ser que, para meu espanto, no meio do há ou não há vacina e há ou não há pirataria informática para sacar a fórmula mágica, aparece o que menos se espera. Do nada, sabe-se que caíu mais um mito urbano. E se este era cabeludo. A gente pensa que sabe uma coisa e, de repente, vê abalar os nossos alicerces. 

Julgava eu, eu e todo o mundo, que o espermatozóide, esse bichinho cabeçudo, se desloca nadando, a dar ao rabinho, serpenteando, serpenteando, uns ficando pelo caminho e outros às cabeçadas a ver se conseguem penetrar na arca do tesouro. 

Pois, afinal, não. Não serpenteiam coisa nenhuma. Andam é feitos bichas malucas armadas em saca-rolhas, a dar guinadas quais baratas tontas. Claro está que, com tanta palhaçada, se um conseguir entrar já é sorte. 

Está, pois, tudo explicado.

Os homens são o lado assimétrico, imperfeito e inconsequente do género humano. Não atinam mesmo. Até nisto.

Spinners, not swimmers: how sperm fooled scientists for 350 years



E desejo-lhe, em especial a si, uma happy friday

quinta-feira, agosto 06, 2020

Devagar, o futuro começa a desenhar-se




Ontem foi um dia importante na minha vida. Concretizei um desejo antigo, tão antigo que já tinha afastado da mente. Acho que uma maneira de uma pessoa não se sentir frustrada é deixar para lá aquilo que está para além das nossas possibilidades, para além daquilo que está sob o nosso alcance e controlo. Lutar por aquilo que se quer, sim, mas medindo o poder de fogo de todos os lados. Se a gente quer coisa que não é para o nosso bico, passo maior que a perna ou coisa do género, então, mais vale pôr os pés na terra e deixar que o tempo faça o seu caminho e nós o nosso. É que, quando o desejo é forte, a sua raiz fica submersa, viva, e, quando surge a oportunidade, eis que logo o sonho floresce. A vida tem-me ensinado isto: não se deve forçar nada. Quando a coisa não flui, não vale a pena insistir. Ou melhor, não vale a pena fazer de conta que não se percebe que não vai dar. Padecer ou fazer de conta não. As coisas, quando não têm que acontecer, não acontecem. E, quando é para a acontecer, acontecem. Parece La Palice? Pois, se calhar é. Claro que esperar, saber esperar, saber esperar que a oportunidade se cruze com a nossa disponibilidade para aproveitar a oportunidade, não é fácil. A gente gosta de se impacientar, de se armar em injustiçados ou frustrados, a gente gosta de cair no chorinho disfarçado de raiva. Ficar na nossa, à espera que apareça o bocado que nasceu para ser comido por nós, é coisa que ou é genética e se consegue na calminha ou tem que ser trabalhada.

Mas, portanto, foi dia bom. Um consolo, um sentimento de sonho feito realidade. Mais: a sensação de que o caminho está no início. Uma nova vida está a começar e tão, tão diferente do que foi até aqui.

Penso: há muitos anos, durante muitos anos, o quis. Não era possível. Não era ainda a altura. Se o tivesse forçado, não estaria aqui onde estou hoje. E, olhando para o dia de hoje e o que poderia ter sido, penso que ainda bem que, na altura, não aconteceu.

E, se na terça-feira foi dia bom, esta quarta-feira não lhe ficou atrás. Não. Ultrapassou. A alegria e o prazer partilhados. Todos contentes com esta opção. Um dos meninos dizia, espantado com o que estava a conhecer: eu não admito...! eu não admito...! Mas penso que era confusão vocabular, confusão causada pela alegria, devia querer dizer que não acreditava.

Contudo, dado o muito trabalho, afazeres e obrigações, não me são fáceis estes dias. Chego à noite e sobram-me deveres por cumprir e, portanto, em vez de estar a descansar, estou a trabalhar. Ao longo do dia, vendo os mails a chegar ou os telefonemas por fazer a acumularem-se, algum stress se vai apoderando de mim. Mas vou gerindo pois, apesar de um pouco de stress ser saudável [J. dixit], tento manter-me serena, penso que, à noite, recuperarei os pendentes.

Um destes dias, talvez desvende aquilo de que falo. Mas não agora. Agora ainda me sinto debaixo da crista da onda, em risco de, em vez de cavalgar o canhão, ser esmagada por ele. Mas não é nada de especial. Só é especial para mim. Apenas mais uma parcela da minha vida em mutação.

Mas, apesar de tudo, apesar de ainda estar longe do tempo em que conseguirei desfrutar em plena liberdade e tranquilidade o que é esta minha nova opção de vida, a verdade é que, ainda assim, já é bom.

Também soube que a minha mãe foi ao médico e lhe calhou a que, em tempos, foi a minha melhor amiga. Ela perguntou por mim e a minha mãe esteve a contar-lhe. E esteve a falar dela própria e eu, sabendo o que a minha mãe me contou, fiquei muito contente com as novidades. Ríamo-nos tanto. Tanto, tanto. Eu chorava a rir e ela, embora menos exuberantemente, também. Depois arranjou um namorado muito fora do mainstream e afastou-se um pouco. Seriam as últimas pessoas que eu imaginaria juntas. Mas, na realidade, embora por motivos talvez diferentes, ambos eram incomuns. E essa invulgaridade uniu-os. Depois, iniciaram o seu caminho e eu fui pelo meu. Mas lembro-me muito dela. Ainda no fim de semana passado tinha perguntado por ela à minha mãe. No fundo, gostava de perceber se ainda nos daria para desatarmos na galhofa, ambas a rir como umas perdidas, eu a chorar a rir, o rosto todo molhado de lágrimas que rebentam com a explosão de alegria, ela a tentar conter-se mas também a rebentar a rir só de ver o meu estado hilariante.

Penso que, um dia destes, hei-de voltar a estar com toda essa gente boa que, de certa forma, faz parte das minhas memórias e, logo, de mim, e a quem a vida introduziu distância e alheamento de permeio. Ela e a outra que se desviou creio que fatalmente. Dessa também gostava de saber. Nunca percebi que coisa aconteceu naquela cabeça para ter virado uma pessoa tão tresloucada, tão desligada daquilo a que antes dava valor. Tão crazy. Nunca consegui perceber, ela nunca deixou que ninguém percebesse. Era uma menina bem comportada e, do nada, virou uma doida que não acautelava nada. As situações em que se meteu não lembram ao diabo. Uma menina família, ajuizada, de repente a fazer toda a espécie de maluquices. Que será feito dela? No outro dia, a minha filha pesquisou pessoas minhas conhecidas no facebook. Não a encontrou. Terá mudado de nome? Usará um nome que nada tem a ver com o nome de solteira? Que eu saiba, apesar de uma vida amorosa fértil, não chegou a casar-se. Portanto, deveria ter o mesmo nome. Fiquei intrigada. A minha mãe também nunca mais soube dela. Como seria se nos encontrássemos? Seríamos duas estranhas? As últimas vezes foram tensas. Critiquei-a e ela não gostou. Nem foi tanto criticar, foi perguntar, foi não conseguir explicar e pedir-lhe que me explicasse. E ela, tomada por uma urgência caótica, sem querer fazê-lo, creio que sem conseguir fazê-lo. Dir-se-ia que talvez drogada. Mas não. A droga dele era outra, creio que era o medo de ficar sem ninguém, a urgência em ficar com qualquer um não fosse ficarem todos 'tomados' e não sobrar nenhum para ela. Uma coisa difícil de compreender. Era linda. Mas as mulheres muito bonitas têm frequentemente esta insegurança.


Mas estou capaz é de ir já deitar-me a ver se consigo dormir. Cansada como ando, volta e meia nem capazmente consigo dormir. Se calhar, vou pôr um daqueles valdispert debaixo da língua. Preciso de descansar senão, de noite, começo a elencar o que tenho que fazer, aquilo de que não posso esquecer-me, e, de dia, nem rendo o que tenho que render. Bolas para isto. O calor também não ajuda. Tanto calor.

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O vídeo abaixo não tem nada de nada a ver com a conversa. Ou, se calhar, tem. Sei lá. 
Cavalos e flamingos -- e cada um que escolha o seu lado. Ou não escolha coisa nenhuma e fique-se apenas a observar.

Salut d'amour, Op. 12, de Elgar também aqui apareceu nem sei porquê. 

Muito menos a Menez. A não ser que seja por gostar da sua obra.

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E, bora lá, para a frente é que é caminho.

E uma bela quinta-feira

quarta-feira, agosto 05, 2020

Caminhar dentro de um sonho





Dia muito cansativo. Muito bom, encerrando mil promessas, repleto de surpresas (algumas menos boas e que introduzem compassos de espera e despesas não esperadas; mas outras boas), cheio de momentos daqueles em que a gente vê tanto por fazer que olha em volta sem saber por onde começar. Tantas coisas a acontecerem na minha vida, tantas que se atropelam. Sou eu, bem sei, sou eu que as procuro. No carro, a minha mãe dizia: descansa, para quê tudo ao mesmo tempo? Depois, como eu estivesse cansada demais para ripostar, acrescentou: mas sempre foste assim, incapaz de esperar, incapaz de parar. Penso que apenas devo ter suspirado. Ela acrescentou: sais ao teu pai, também sempre assim. É. Uma urgência. Penso: o meu filho é igual. A minha filha é diferente, nestas coisas talvez saia mais ao pai, parece que prefere dar tempo ao tempo.

Com tanta azáfama, parte fora de casa, chegámos às dez. Ainda fomos tomar banho. Havia um resto de comida e foi o que comemos. Juntei uma salada. Depois sentei-me aqui e voltei a entregar-me ao que me tem ocupado.

O vento de mudança que sopra sobre mim não me dá descanso. Penso, equaciono, ajusto, projecto, avalio, penso, faço contas, faço desenhos. Agora quase são duas da manhã e, neste programa de festas em que me vou inserindo, tenho que me levantar daqui a nada. O dia promete. Continuo a trabalhar e tento encaixar tudo sem prejuízo de nada, um permanente exercício de equilíbrio ao qual vou acrescentando mais e mais variáveis. De facto, sinto que um dia terei que abrandar. Penso que já faltou mais para ter uns dias de férias e essa perspectiva faz com que sinta que é só um pouco mais de esforço.

Mas estou contente. O vendaval que, desde há alguns tempos, sobra sobre mim está a levar-me para onde quero ser levada e, a cada passo que dou, eu vejo-me a caminhar na direcção certa. E isso dá-me um sentimento bom de justiça e, ao mesmo tempo, agradecimento pela sorte que tenho tido.

E vejo-me também a caminhar dentro de um dos meus sonhos: é um sonho recorrente, bom, do qual não gosto de acordar. E hoje, de tarde, vi-me dentro dele.

No mundo, não sei o que aconteceu durante o dia. Aliás, sei que houve uma explosão em Beirute. Às vezes as cidades correm perigos que desconhecem. Às vezes as circunstâncias levam a que situações de alto risco estejam na mão de quem não sabe avaliar o risco que ali está. Deveria haver um departamento estatal que monitorizasse as medidas de segurança das instalações de alto risco. Isto em todo o mundo. Mesmo cá. Mas, tirando isso do acidente, estou a zero.

Tenho comentários e, sobretudo, mails a que deveria responder. Mas não consigo. O dia esticou-se para além da conta, invadiu a noite.

Partilho apenas um vídeo porque, de entre os recomendados pelo meu amigo algoritmo, essa bicha maluca que gosta de me fazer agrados, este despertou a minha atenção.

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A pintura é de Ogbami Alenosi e não me perguntem porque me fui lembrar da Lara

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E eu desejo-vos um dia feliz. 
Saúde e bom ânimo, minha gente.

terça-feira, agosto 04, 2020

Little Birds
Post com bolinha encarnada no canto
[Histórias para serem vistas de olhos bem fechados]


Um dia ainda aqui falo daquilo da Purília. Mas tenho que estar mais fadada para a criptografia do que hoje -- hoje estou que nem posso, os pesos que já carreguei, senhores -- tem que ser coisa para não se perceber bem se conheço por dentro ou por fora ou se vi com os olhos abertos ou fechados. E tem que sair uma escrita metafórica, cheia de subtilezas, de claro-escuro, de mil nuances. Não direi de tules que isso é tecedura que fia mais fino, coisa que pede romance, quiçá poesia, suavidades muitas. Aquilo ali é outra coisa, é sacanagem mesmo, malandrice, pura gozação, experimentação de limites, sofisticação de faz de conta, coisa de baile de máscaras, de adrenalina, de pele, de loucura. Não de borboletas azuis a voarem dentro do peito. Mas, dizia eu, da Purília ou de outros carnavais não é hoje que vou falar. Hoje estou mais para a casca grossa, pão pão, queijo queijo.

Kind of.

“Sometimes, you can be turned on by things that you might be frightened to be judged for’ 
- Juno Temple em Little Birds
Fotografia: Dean Rodgers/Warp Films/Sky UK

Hoje falo de Little Birds, coisa ficcionada. Ou talvez não. Angela Anaïs Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell, aka Anaïs Nin, tinha inspiração e experiência e, parecendo que não, sendo amante de Henry Miller, alguma coisa deve ter aprendido com ele, seja nas experiências de vida e do corpo seja nas de escrita. Se mulheres que escrevem são perigosas imagine-se a perigosidade se a escrita for erótica. E ainda mais se for pornográfica. Aí eu, um dia, ainda hei-de pisar. Mas com tempo para burilar o enredo, costurar a escrita com cuidado, com vagar, coisa quase chic. Mas não é de mim e desta minha secreta vocação que estou aqui para falar. Malandro que é malandro não se põe à esquina a anunciar. Malandro que é malandro está na moita e a malandragem aparece feita.

Portanto, que se façam anunciar os Passarinhos. Coisa fina, bem condimentada. Sabores do Mediterrâneo, do Norte de África. Sedução, calor, encobrimento, sombras.

Piu, piu. 

Little Birds




Mas que passarinhos são estes?


Até já

segunda-feira, agosto 03, 2020

O que dizem os VoteVets


É certo que não voto lá e embora, em média, 19% dos meus Leitores acedam a este blog a partir dos States, sei que a minha influência política é nula. Mas tanto se me dá. As minhas entranhas revolvem-se sempre que uma cavalgadura está em posição de fazer mal aos outros, em especial quando o faz a indefesos, quando o faz a quem não lhe fez mal nenhum, quando o faz deixando profundas marcas. Já aconteceu com Passos Coelho e a sua desgraçada entourage que durante anos me tirou do sério por fazer burrices atrás de burrices, cavando ainda mais fundo o fosso da crise, já aconteceu com Cavaco, essa fétida e ressabiada criatura que, depois de ter passado o país a patacos quando foi primeiro-ministro, exerceu política de forma mesquinha e vingativa quando foi Presidente da República, já aconteceu com Carlos Costa, esse perfeito nulo que, impavidamente, deixou que o sistema financeiro abrisse brechas insanáveis e que um incompetente como Passos Coelho cavasse um buraco ainda mais fundo ao acabar com o BES em vez de o nacionalizar. Mas também já me aconteceu com Steve Bannon, essa cobra venenosa que espalha ranço por onde passa e que faz de tudo para acabar com a democracia, seja onde for. Tal como falava desse outro palhaço repuxado que dava pelo nome de Berlusconi ou, mais recentemente, desse populista descarado e e perigoso que dá pelo nome de Matteo Salvini. Quando a pele me fica com brotoeja perante uma qualquer besta quadrada ou quando farejo bicho traiçoeiro e perigoso, toda eu me eriço, rosno e só não mordo porque estou longe deles.

Posso, pois, ter a noção de que as minhas investidas são de eficácia nula mas, ainda assim, não me inibo. De facto, é mais forte que eu. É como quando tinha a minha boxer, essa meiga cãzinha que adoçou a nossa existência, e que, mal farejava gato ou cavalo, virava fera, toda ela se eriçava, se transfigurava, perdia a tramontana e só não os estraçalhava se não pudesse. Assim, eu. Se, ao vivo, estou perante alguma alimária do género, ainda que de efeitos mais inofensivos por actuar em escala mais reduzida, eu não consigo conter-me. Sei, no mais íntimo de mim, que de criaturas assim nunca vem nada de bom e que, portanto, delas só devemos querer uma coisa: distância. E, antes que façam mais mal, eu, de forma sobretudo involuntária, quase animal, reajo, tento afastá-los, tento que se afastem, tento evitar que façam pior. É que, ainda por cima, animais deste calibre aparecem geralmente como simpáticos, quiçá até inseguros, tadinhos, uns incompreendidos, uns injustiçados, quiçá até a precisarem de colo. E, portanto, há sempre quem caia na sua esparrela, quem os apoie, quem os defenda contra tudo e contra todos. Sempre assim foi. Não há animais destes que não tenham a sua corte, o seu club de fãs, os que votam neles, os que os seguem. Os mais pobres e indefesos em França tratam Marine le Pen como se ela fosse uma mãezinha protectora. Os mais cruéis ditadores tiveram amantes, devotos, fiéis seguidores. Uma lástima.

Depois de ontem aqui ter falado no Luto na América, hoje partilho outro vídeo, desta vez divulgado pela organização VoteVets e que também tem como móbil o conseguir que Trump leve uma corrida em osso. E eu vou acender uma velinha para que todos os que querem isso tenham sorte.
VoteVets.org is the only political advocacy organization headed by veterans of the wars in Iraq and Afghanistan, to benefit other veterans of those wars in their campaigns for public office.  VoteVets.org also hold public officials accountable for the words they say and actions they take that adversely affect troops and veterans.

VoteVets - Morning Joe airs 'Enemy'



domingo, agosto 02, 2020

Luto na América


Por estranho que possa parecer, nas últimas eleições muitos americanos votaram em Trump. Pode dizer-se que muitas pessoas não se reviam em Hillary Clinton. Campanhas mediáticas perversas, muita instrumentalização ao serviço de russos e da ala mais maligna dos republicanos conseguiram abalar a sua credibilidade. Hillary foi arrasada, denegrida, ultrajada -- quase sempre injustamente. Mulheres assertivas são frequentemente vítimas de machistas, prepotentes, marialvas de pacotilha. Homens com pénis pequenino e testículos ainda menores temem mulheres corajosas e afirmativas. É dos livros e a história prova-o. Quem quis iludir-se, acreditou que Hillary tinha defeitos que não acabavam e que Trump iria voltar a fazer a América grande outra vez. Perante um palhaço cor de laranja com melena feita de barbas de milho, a olho nu um narcisista, insuportável e imprestável como todos os narcisistas são, tóxico como todos os narcisistas são, incompetente, ignorante e impreparado, muitos americanos preferiram ignorar o que já era evidente e elegeram-no.

Desde o primeiro dia e, certamente até ao último, Trump não tem feito outra coisa senão confirmar os piores prognósticos: cobarde, fraco, inseguro, irresponsável, influenciável, doentiamente vulnerável à opinião que sobre ele é formulada, Trump vive em função da sua própria imagem e do reflexo dela na opinião pública.

Poderá dizer-se: so what? é um narcisista e, em maior ou menor grau, não há narcisisita que não seja assim. Parecendo serem uma simpatia, aos poucos minam a confiança de quem os cerca, descartam-se de quem não os bajula, insultam e lançam suspeitas sobre aqueles que se afastam dele. É certo: todos são assim. Mas este não é um zé cueca qualquer que, quanto muito, suga a alma dos poucos que o aguentam: este é o Presidente dos Estados Unidos. Está à frente do destino de milhões de pessoas e tem poder para tomar decisões que influenciam todo o mundo. E esse é o grande perigo, um risco grande demais para poder ser assumido.

Trump tem que ser apeado. Não é só que a sua toxicidade já esteja a corroê-lo a ele próprio, nem é só que a sua irresponsabilidade esteja a matar americanos aos milhares nem é só que a sua psicopatia esteja a arruinar a economia americana. É isso tudo junto acrescido do perigo de que continue a fazê-lo e a fazê-lo de forma cada vez mais descontrolada.

Não conheço suficientemente o Lincoln Project para aqui, de caras, me atravessar por eles. Supostamente são republicanos que zelam pela democracia e que, neste momento, se polarizam em torno de um grande objectivo: apear Trump. Se é isso, cá estou para, na medida da minha insignificante influência, daqui os apoiar.


THE LINCOLN PROJECT


DEDICATED AMERICANS

PROTECTING DEMOCRACY

The Lincoln Project is holding accountable those who would violate their oaths to the Constitution and would put others before Americans.


A série de vídeos que têm visto a produzir e divulgar são de antologia e uma lição de comunicação em política. Neste caso, de comunicação negativa -- mas quantas vezes é necessário fazê-lo?

Seleccionei alguns para os quais encarecidamente peço a vossa atenção.

Luto na América



Votaremos



Nacionalista geográfico



Como tudo começou



Fauci


Vários outros vídeos existem e, se tudo correr de feição, muitos mais existirão. E acredito que ajudarão a conseguir aquilo a que se propõem - afastar Trump da Casa Branca. A bem dos americanos. E a bem dos humanos.

sábado, agosto 01, 2020

Em silêncio





Afazeres múltiplos, longos telefonemas, acordos, combinações, avaliação de alternativas, expediente -- o normal. Depois, no fim, arrumações. Sem fim, as arrumações, sem fim. Objectos insólitos: uns de há anos, já fora do radar da memória, outros mais recentes. Sem uso, tão escondidos que esquecidos. Tanta coisa. Cansaço.

Depois, praia. Caminhada no areal, a água fresca, pureza em toda a sua força, contemplação do mar. Tão boa a praia, tão longo o areal, tanto mar, tanto azul, tanto tempo extenso e bom.

A caminho de casa, decisão: pizza. Queijo, frango, nozes, mel. E alcachofras, limão, presunto, manjerição. Chegada a casa, banho. Pouco depois, a pizza. Por via das dúvidas, forno com ela.

Enquanto isso, sofá. Instantaneamente, a dormir. Dez minutos depois, já acordada, o forno a chamar por mim. Jantar. O sabor quente e familiar dos bons sabores.

De volta à sala, passeio pelos blogs, pelos jornais, por aí. Mas cansada. Cansada até para os verbos.

Frases sem verbos. Seria bom se também sem adjectivos. Sem preposições, sem laços ou gramáticas.  Sem sentido, até. No limite, mesmo sem palavras.

No limite, só o pensamento. No limite, só ideias sem verbos, estáticas, suspensas no vazio, envoltas em luz. No limite, apenas o momento presente, tingido por doces memórias, o presente dourado pelo futuro que vive escondido na luz do presente. Por dentro, o secreto vislumbre, o atraente abismo, a inconfessada vertigem. E sonhos, caminhos que se desenham no ar, a paz que se adivinha, aquela serenidade prenhe das emoções que revolteiam em torno dos afectos. A infinita e eterna proximidade. Palavras silenciosas, um alfabeto feito de flores, olhares, sorrisos, símbolos. 

E nada mais. Apenas silêncio.

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Um final feliz



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sexta-feira, julho 31, 2020

A minha dúvida existencialista a propósito das arrumações





Depois da melancia, não sei o que posso escrever mais pois tenho ideia que é preciso ter cuidado com o que se ingere a seguir, parece que a dita pode encortiçar. Na volta é mais um daqueles mitos urbanos. Mas, por via das dúvidas, tenho que ter cuidado com o que vou dizer a seguir. 

E o que tenho a dizer -- passando ao lado das grandes causas da humanidade e dos casos algo complicados com que tive que me deparar ao longo do dia -- é que, ao fim do dia, voltei às minhas arrumações. Deixei quase para o fim um móvel que tenho na sala de jantar. Há o louceiro e há o aparador. O que mais temia era este aparador: uma verdadeira arca do tesouro. Cheio como um ovo com tesourinhos deprimentes. Tremo de lá mexer. Ao longo de anos fui para lá enfiando tudo e mais alguma coisa. Coisas do enxoval, coisas herdadas, presentes que diferentes ofertadores e que atravessam épocas, estilos díspares, utilidade por vezes duvidosa. Numa ginástica que desobedece às leis da física, encaixo, sobreponho, enfio. E lá fica tudo, esquecido.


Em dias de festa ou de maior número de comensais, tenho que me afoitar e, quase a tacto, enfiar a mão e, devagar, qual jogo do micado, tirar a travessa, a terrina, o balde gelo ou a taça de vidro em forma de morango para servir os morangos, de maneira a que tudo não se desmorone e não aconteça uma desgraça. Depois, no fim do dia, depois da louça lavada, é o castigo final: conseguir que o espaço volte a acomodar a peça que, à primeira, à segunda e à última vista, parece não caber. 

Há bocado, quando o meu filho me ligou e perguntou o que temos feito, lá lhe contei que continuo (continuamos) nesta faena, que parece que não acaba, que aparecem peças em quantidade infinita. Ele passa-se: diz que nada daquilo serve para o que quer que seja, que só serve para encher, que não percebe, que nada daquilo tem qualquer valor. Pergunto-lhe se acha que deite fora serviços da vista alegre, travessas e terrinas de valor, garrafas de cristal, coisas assim. Diz: cristal é aquela coisa que é feita de chumbo. Digo que pois é mas que deve estar inertizado, que não deve ter problema, são peças atlantis, coisas de valor, não vou deitar fora. Diz que não se lembra de eu servir vinho ou água naquelas garrafas de cristal. Pois não, tem razão, mas é que acho que não se justifica, sei lá, tenho medo de partir. Digo: quando eu e o teu pai formos desta para melhor, tu e a mana fazem um leilão. Ele diz: podes fazer isso em vida. E pronto, ficamos assim. Esta conversa é recorrente. Os meus filhos não ligam muito para este género de coisas. Nem muito nem pouco. E eu, para dizer a verdade, acho que agora também não. Mas as coisas foram-se juntando. Vou fazer o quê com elas?


O meu marido, neste processo, ficou com o pelouro das estantes. Sim, que posso ser maluca mas parva acho que não sou. Não me arriscaria a pô-lo a mexer em louças e vidros. Assim como assim os livros não se partem. Mas, quando vou ao pé dele, está passado. Diz que encontra livros absurdos, que não percebe porque foram comprados. Para alguns encontro explicação. Para outros não. Coisas que vêm de mil anos antes, que se vão adquirindo porque se resolveu fazer uma colecção, sei lá. Diz-me: metade deles iam mas é para o lixo. Aborreço-me. Jamais (dito em francês, se faz favor). 

Mas a verdade, verdadinha, é que, por dentro, fico cheia de dúvidas. E das existencialistas que são as que custam mais. Dúvida existencialista é como bolha do sapato a roer o pé. Para que ando eu com tanta tralha agarrada a mim? Mas, se não quiser andar, faço o quê? Desfaço-me de peças valiosas? Não sou como a minha avó paterna que vendia por tuta e meia propriedades no Algarve porque os filhos não davam mostras de ligar àquilo, não queriam saber da apanha das alfarrobas ou das amêndoas. Quando davam por ela, já ela tinha despachado tudo. Ou a minha avó materna que tinha um móvel que eu achava o máximo e que, quando um dia disse que gostava de ficar com ele quando ela não o quisesse mais, obtive de resposta: Onde é que isso já vai... Já o vendeu a um antiquário qualquer que por lá passou a saber se ela queria desfazer-se de algumas coisas. Desfez-se do que calhou, sem ligar a nada. Família desapegada a minha. Quando os meus avós morreram, quer os paternos, quer os maternos, nenhum dos meus primos quis o que quer que fosse. Eu sim. Coisas simbólicas. A enxada do meu avô, o cadeirão onde ele via televisão, os copinhos de vidro coloridos da minha avó. Tive pena que já não houvesse a grande avenca que estava no parapeito da sala, numa janela com as portadas meio fechadas porque 'a avenca gosta mais do escuro e do fresco'. Dou valor a coisas que têm vida agarrada.


No fundo, no fundo, prefiro a simplicidade, os ambientes arejados. Mas o que faço a tudo o que a vida me foi pondo no regaço?

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Bem, isto vai longo demais, tenho que parar. Começo a escrever e distraio-me. Sorry.

As fotografias são da autoria de Terry O’Neill e achei por bem ir buscar Liszt, La leggerezza, pela mão de Martha Argerich 

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E, como agora ando numa de coisa divertida e sorridente como forma de vos dizer 'até já', aqui vos deixo com mais um destes vídeos deliciosos e ternurentos. Have a big smile.


E queiram descer caso queiram aprender a comer melancia em sociedade

E um dia feliz. Saúde e alegria.