Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, maio 02, 2016

O sol da Caparica -
com memórias, glúteos, cães, leitores e passeantes de todos os géneros e condições
[E a voz da Terra]


Depois do campo, é o mar que me chama. A praia, o sol, caminhar junto à água, sentir a pele quente, sentir a fresca maresia, ver os corpos que se descobrem, observar as pessoas, o que fazem, como - cada uma à sua maneira - desfruta estes belos momentos de uma primavera que este domingo foi mais de verão.



Sou bicho de rua, animal do campo, animal da beira de água, de sentir o vento e a chuva e o sol na pele. No entanto, durante cinco dias por semana, passo os meus dias inteiros, de sol a sol, enfiada no asséptico ambiente condicionado de edifícios modernos, energeticamente eficientes, sem janelas que se abram. Vejo o sol lá fora ou vejo a chuva ou vejo a copa das árvores a balouçar-se ao vento mas não as ouço nem sinto. Por isso, quando chego a casa, mesmo que já de noite e mesmo que já cansada, procuro a beira do rio, o frio, as luzes da noite que cai e ando até me sentir mais leve, mais inteira.

E, ao fim de semana, encaixo os afazeres domésticos em momentos em que, a grande velocidade, despacho tudo o que posso para que me sobre tempo para estar na rua. Preciso de largos espaços, preciso de sentir os elementos junto ao meu corpo.

Se, por algum incontornável motivo, me vejo forçada a estar um dia inteiro em casa, logo uma neura miudinha se instala em mim, parece que há moleza no ar, parece que o tempo se adensa, que não flui, parece que há uma pressão atmosférica amorfa e pesada sobre mim, tirando-me energia e alegria.

Por isso, depois de sentir os pés a pisar a terra e de andar encantada a fotografar as flores, foi para perto da rebentação que me desloquei. Um dia de verão e de praia, este domingo. No areal e no passeio contíguo, as pessoas desfrutavam este belo dia de calor e azul.

Ao contrário do que acontecia até há algum tempo, agora as pessoas já se habituaram a sair de casa e a procurar o ar livre, a caminhar, a pedalar em liberdade. De todas as idades e condição física, sozinhas ou acompanhadas, vê-se de tudo, e eu passo invisível entre as pessoas, fotografando-as mas tendo o cuidado de não as expor, querendo apenas captar o ambiente. Gostava de saber como se lida com esta situação. Sabido que é que adoro fotografar, confesso que gosto, sobretudo, de fotografar pessoas. Contudo, sei que se as procurasse e dissesse 'Permite que a fotografe e que, depois, se me parecer oportuno, divulgue as fotografias?' as pessoas reagiriam com estranheza ou, na melhor das hipóteses, perderiam a naturalidade. Por isso, contorno a situação, não as fotografando de frente para que, se possível, não sejam identificáveis. 

Não sei como é que os fotógrafos de rua ultrapassam isto. Se toda a gente tivesse os cuidados que eu tenho, ninguém documentava a realidade anónima. E agora estou a lembrar-me de Vivian Maier que fez milhares e milhares (cerca de 150.000) fotografias de rua que permaneceram desconhecidas até que acidentalmente alguém descobriu a preciosidade que residia em tantos e tantos negativos.


Por vezes cruzo-me com pessoas que fazem coisas que não reconheço. Tenho que me voltar para trás para ver se percebo. No meio de quem passava, o jovem praticava o que não sei se seria kickboxing. E tão cansativo me pareceu ser para o jovem que dava murros andando em volta do senhor como para este, que segurava um escudo almofadado e que tinha que o elevar ou baixar para aparar os golpes do rapaz.

Mas o que mais me surpreendeu é que me pareceu que só eu estava surpreendida com estes exercícios feitos em pleno passeio público. Todas as outras pessoas passavam sem olhar, como se aquilo fosse normal. Se calhar, é.


E passam vestidos, despidos, magros, gordos, brancos, negros, a andar, a correr, de skate, de patins, de saltos altos, descalços, de mãos dadas, abraçados, a conversar, em silêncio, sozinhos, a ouvir música. Há de tudo.


E há quem se estenda na areia, quem entre na água, quem jogue à bola ou quem, na maior tranquilidade, se instale em cadeiras e leia enquanto, de quando em vez, espraia o olhar pelo mar.

Um dia destes, vou encher-me de coragem e vou ao pé de alguma pessoa falar com ela, saber o que está a ler, o que está a sublinhar, pedir que me deixe fotografar de frente, enquanto lê ou sorri de olhos fechados na direcção do sol. Hoje tive mesmo vontade de fazê-lo com este casal aqui tão deliciosamente instalado.


E depois há os cães. Lembro-me tão bem da minha. Gostava tanto da praia. Ainda o carro vinha longe, já ela se impacientava, ganindo de alegria. Depois, mal abríamos a porta do carro, tínhamos que a segurar senão largava a correr para a areia. Quando lá chegava corria, doida de felicidade, baixava-se, desafiava-nos, depois vinha a correr na nossa direcção, louca de alegria. A brincadeira preferida era que lhe atirássemos um pau ou a bolinha dela. Era um prazer para ela e para nós.

Quem não tem cães não percebe que quem os tem goste de lhes proporcionar essa felicidade. Eu percebo e gosto muito de ver as pessoas a brincarem com os seus cães na praia.


Ver uma imagem como a destes jovens aqui abaixo em harmonia com os seus dois cães é muito bom, há uma comunhão, há um prazer partilhado, há um afecto notório entre os quatro.


E disse no título que o post tinha glúteos dentro mas é uma coisa parva de se dizer porque um cu não existe independentemente de quem o transporta mas é uma parte do corpo que, ao sol, tem graça, parece que é o corpo em todo o seu desplante.

Lembrar-me eu como, quando era adolescente e gostava de usar biquini, tinha dificuldade em arranjar modelos coloridos, bonitos, a meu gosto, atadinhos de lado, com graça. O primeiro que tive era castanho, uma coisa sem piada. Depois lá arranjava modelos mais curtinhos e coloridos nos Porfírios ou por aí mas, cotejando com a variedade absoluta de hoje, não há comparação possível.


E, por falar em biquinis ou tanguinhas, não sei se já o contei. 

Poucos meses depois de ter começado a namorar aquele que viria a tornar-se meu marido, no primeiro verão (no segundo já estávamos casados), para passarmos férias juntos de manhã à noite, e dado que não podia pernoitar em minha casa, ele resolveu alojar-se numa pousada de juventude (ou, se não era isso, era do género) em Tróia. Logo de manhã eu apanhava o barco, ia ter com ele e passávamos o dia na praia ou nas dunas, almoçávamos por lá, nas piscinas, no self-service. De tarde, ele ia comigo para a cidade, por lá jantava ou jantava connosco e depois ficávamos juntos até tarde, até ele apanhar o último barco.

Nunca relatava nada do que se passava na dita pousada. Dizia que chegava, tomava duche, deitava-se e dormia até se levantar e se despachar para ir ter comigo. Achei que devia ser isso já que não lhe devia sobrar tempo ou energia para mais. Já me tinha dito que dormia num quarto com mais duas ou três camas. Admiti que aquilo não fosse misto mas não tive curiosidade em saber.

Contudo, um dia fui até lá, acho que ele se tinha esquecido de qualquer coisa. Quando entrei no quarto nem queria acreditar. Acho que me senti ficar sem pingo de sangue. No quarto estavam mais umas duas ou três raparigas, não me lembro ao certo, só me lembro, e bem, que estavam bronzeadíssimas e eram louríssimas, de olhos claríssimos... de curta tanga e em tronco nu. Lembro-me de uma se ter posto de pé em cima da cama dele para ir buscar uma coisa a uma estante (ou seria beliche) e de ficar com os bronzeados e rotundos seios ali bem junto a nós

Fizeram uma festa quando o viram e por ali continuaram, deitadas ou semi-deitadas ou a circular no maior dos à vontades, como se fosse o usual. Eu para morrer.

Pois se julgam que ele se atrapalhou é porque não o conhecem. Que nunca tinha reparado que elas andavam assim, que nunca me tinha dito nada porque não havia nada a dizer, que não tinha mal nenhum e que nunca lá estava de dia para as ver assim. Se eu não o conhecesse ainda poderia acreditar mas sabendo-lhe os gostos, eu estava estarrecida. Penso que deve ter sido a primeira vez na vida que devo ter sentido alguma coisa parecida com ciúmes. Só imaginava o que não seriam os bacanais com aquelas malucas naqueles preparos de roda dele.

Mas, enfim, primária como sou, acho que logo me esqueci do facto. Também que podia eu fazer? Ir lá exigir que se vestissem quando ele estivesse por perto? Levá-lo para minha casa? Olha, paciência, coração ao alto. 


Enfim. Volto ao sol da Caparica.

Portugal é um país de praias fabulosas, tem um clima que permite que, no início de maio, possamos estar como em pleno verão, o mar é imenso, limpo, o sol doura os corpos e eu, que tinha umas coisas para dizer ao láparo que, cá para mim, anda a bater mal, mas mesmo mal da cabeça (ou, então, é a situação que não lhe permite manter a pose de estadista e começa a revelar o bacoco e matarruano que existe dentro dele) com isto tudo deixei, outra vez, que o tempo passasse e agora já não são horas para me atirar àquela desclassificada criatura. Mas não perde pela demora que até tenho umas fotografias à maneira para ilustrar o que hei-de escrever. Amanhã será.

É que ainda por cima o meu marido não achou graça à fotografia que eu tinha escolhido para encimar o blogue, aquela que tinha uns bonecos, achou até um bocado sinistra. Eu não tinha feito a mesma leitura, até me pareceu uma paródia. Mas, por via das dúvidas, cá coisas sinistras é que não e, portanto, troquei-a. Ainda hesitei quanto a esta, não apenas por ser um bocado too much ousada -- como a querida Rosa Pinto já me disse (vide comentário mais abaixo) mas por poder transmitir a ideia que aqui é lugar de narcisismos, eu a falar das minhas dores e mágoas, muro de lamentações, desfile de penteados, nails e sapatos -- e, fogo, não é nada disso. Mas, para já, fica esta, não tenho tempo para continuar à procura. Só que depois tive que trocar também o fundo, já não ficava bem o outro com flores às cores, preferia uma com flores encarnadas. Felizmente encontrei este com papoilas. Mas o tempo passa e eu a ver que já não tenho tempo nem para responder a mails nem a comentários, nem tão pouco para me atirar ao transtornado do láparo.


Por isso, fico-me pela praia e pelas pessoas que procuram o belo sol da Caparica e pelo prazer que tenho em andar por lá, a passear, a apanhar sol, a fotografar -- enfim, a curtir o belo prazer de existir.

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E fico-me ainda pela voz da Terra. Estas coisas atraem-me. Intrigam-me. Fascinam-me.

(Tinha escolhido primeiro um vídeo sobre as marés, o que as origina, os efeitos gravitacionais da lua e do sol - mas não era permitido incorporá-lo-lo aqui, só pode ser visto no youtube; contudo, durante a procura, dei com este aqui, que não terá muito a ver mas de que gostei muito; partilho-o convosco)

NASA Space Recordings Of Earth

Our Universe is not silent. Although space is a vacuum, this does not mean there is no sound in space. Sound does exist as electromagnetic vibrations.The specially designed instruments on board the Voyager and other probes, picked up and recorded these vibrations, all within the range of human hearing (20-20,000 cycles per second).
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Lá em cima Xavier Rudd interpreta Follow The Sun

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Caso vos apeteça agora entrar comigo no meu reino de flores e perfumes, aceitem o convite e desçam comigo: vamos entrar in heaven

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Flores em Maio -- this is heaven to me
[E a natureza fractal da pintura de Pollock]


O perfume é intenso. A natureza impõe a sua tremenda energia. Tudo rebenta: os botões de flor, as folhas, as ervas, o mato, as árvores. Onde havia caminhos, há agora uma camada de pequenas hastes que ondulam, apenas aparentemente frágeis, douradas pela luz do sol. E eu baixo-me, encosto-me ao chão, quero vê-las como elas são, orgulhosas e belas.



Por todo o lado há arbustos, cores, os amarelos são intensos e a delicadeza das pequenas flores oculta a aspereza dos espinhos. Os pássaros estão doidos de alegria, cantam à desgarrada, todo o espaço está ocupado com a vibração dos odores e dos cantos. 


Por vezes, nos lugares de mais sombra, a terra rescende a uma humidade íntima, um cheiro morno e doce, perigosamente feminino.

E as flores neste sítio são virginais e, dengosas, colam-se à nossa pele, devem ter muito açúcar a circular na sua seiva.

A minha mãe sempre disse que a vegetação aqui é idêntica à da Arrábida. Por isso, quando no outro dia vi o livro 'Flores da Arrábida', Guia de campo, de José Gomes Pedro e Isabel Silva Santos, agarrei logo nele. Agora, consigo dar nome à flores com que por aqui vou enchendo a minha alma (seja lá o que for isso da alma).

Estas aqui abaixo são as Cistaceae. Passo as mãos por elas, tento soletrar o seu nome, quero que me reconheçam como igual.


Depois, por onde passo vou vendo composições cromáticas que me lembram pinturas. Frequentemente vejo Pollocks onde outros verão mato para limpar. A sobreposição amigável de gerações de pequenas plantas, umas maduras, outras que despontam, outras já secas, cada uma de sua cor, um emaranhado cromático que me dá vontade de me deter, decompor o que vejo em camadas, acrescentar dimensões de visão, certa de que, à medida que for aprofundando o que vejo, mais dimensões se hão-de revelar.

Pollock, com a sua abstracção resultante de gestos quase incompreensíveis é, para mim, um fiel retratista da realidade que os meus olhos vêem.


Sei que os campos têm que ser limpos mas esta é, para mim, uma altura de luta. Dever-se-ia meter uma máquina pelos campos adentro ou avançar com uma roçadora e isso é o certo, e eu tenho que aceitar que deveria render-me aos argumentos racionais, mas tudo isto por aqui, para mim, é sagrado: os pés de alecrim, as hastes de rosmaninho, as bocas-de-lobo, as marioilas, as roselhas, as mais humildes ervinhas. Tudo, para mim, deveria ser preservado, respeitado -- sinto-me sem direito a destruir tamanha beleza.


Quando vejo os lírios-roxos, Iridaceae, baixo-me para os fotografar. Por vezes, deixo-me tentar a procurar o melhor ângulo, tenho vontade de abrir as suas frágeis e belas pétalas para desvendar a sua intimidade. Mas é tão fino e macio o seu tecido que logo receio molestar, penso que são obras de arte que não devem ser tocadas. As cores são tão belas, o desenho das pétalas tão elegante, tudo tão delicado e superlativo que eu penso, muito sinceramente, que aquela flor atingiu, na sua evolução, um grau de sofisticação de que eu ainda me sinto muito longe.


Mas estar a eleger uma flor como a mais perfeita e sofisticada é um exercício absurdo. Na natureza há lugar para muita beleza, é tolice estar a eleger um ou outro dos seres que a habita.

Como poderia eu colocar num patamar menos honroso a madressilva, Caprifoliaceae, o arbusto do qual nascem caprichosas e perfumadas flores que nunca me canso de fotografar? Passar ao fim do dia junto a um destes arbustos é colher uma sensação inebriante.


E há a macieira. Por esta altura nascem flores de uma delicadeza e beleza que me encantam. Deve ser tanta cor e perfume que atrai a passarada. Como os compreendo. Pudesse eu e por aqui andaria também de manhã à noite vendo a natureza a existir em plena liberdade.

Daqui por algum tempo, haverá maçãs que ficam sempre pequeninas. Doces, doces. Mas os pássaros não as deixam crescer. Mal se adoçam logo eles as debicam. Para eu lhes levar a melhor tenho que as comer ainda pequenas e pouco doces -- senão nem chego a prová-las. Mas os frutos são mais dos pássaros do que meus. Gosto que eles tenham que comer por aqui para que por aqui fiquem, que gosto tanto de os ouvir, de os sentir a levantar voo das árvores baixas quando eu passo ao pé deles.

Poderia continuar por aqui a mostrar-vos as flores que me acompanham quando estou in heaven mas sei bem que uma coisa é estarmos nós emocionalmente próximos de uma coisa ou de uma pessoa: para nós tudo nos maravilha, não nos cansamos de olhar ou de louvar mas, para quem a eles é alheio, não tem graça nenhuma, é uma maçada.
Por isso, termino já. Mas termino com os cachos de uma das robínias. São tão lindos. Olho-os recortados em branco contra o azul do céu e fico assim, a olhar, tão feliz: parece que a perfeição que observo atesta a maravilha que é este nosso mundo. Que sorte a nossa podermos testemunhar tanta beleza.

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Já agora deixem que partilhe convosco:

Marcus du Sautoy explica a natureza fractal da pintura de Pollock




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Lá em cima Madeleine Peyroux interpreta This is Heaven to Me

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma belíssima semana, a começar já esta segunda-feira.


domingo, maio 01, 2016

Uber versus Taxi
- e os senhores do Eixo do Mal





Começo por confessar: é raro usar táxi. Pelos condicionalismos da minha vida, sobretudo da minha vida profissional, raramente uso transportes públicos, incluindo táxis.

Pela mesma razão, também nunca recorri à Uber. 

Contudo, de todas as vezes que usei táxi nunca me senti incomodada. Já aconteceu as viaturas serem antigas e pensar que a vida dos taxistas não deve ser fácil pelo que trocar de carro deve ser investimento dificilmente acessível. Pode ter acontecido os taxistas não serem um modelo de delicadeza mas isso aconteceu com taxistas, com lojistas, com professores, com médicos, com gestores. Por exemplo, ao ouvir, neste momento, os senhores do Eixo do Mal, sinto-me incomodada com a arrogância e as generalizações pedantes e forçosamente incorrectas de Clara Ferreira Alves e Luís Pedro Nunes. Se tivesse que fazer uma viagem e soubesse que algum destes ia no mesmo carro que eu, faria tudo para o evitar. Entre um taxista humilde que pode usar um português gramaticalmente menos escorreito e a pesporrência insuportável da Sra. Dra. Clara ou o emproamento bacoco do dito Luís Pedro, claro que eu preferia mil vezes um taxista.


Nem nunca achei que os taxistas portugueses eram piores em Portugal do que nos outros países. Em França, por exemplo, já apanhei com cada mal disposto... E pode um ou outro tentar receber mais do que deve. Comigo nunca aconteceu mas admito que sim. Não há profissões onde 100% dos seus praticantes sejam um poço de virtudes. Excepções há em todas as categorias profissionais. Mas criticar um ou outro que pisa o risco, não dá o direito de arrasar toda a classe.

Devo ainda dizer que sinto alguma simpatia pelos taxistas que se sujeitam a riscos, que pagam impostos, que estão sujeitos a regulamentação, que trabalham fora de horas, que têm que lidar com tanta e tão diferente gente -- e, provavelmente, para conseguirem um magro pecúlio mensal. 

Nada me move contra a Uber e admito que são tendências que estão aí para ficar. Mas deveriam ser tão regulamentadas como as que já operam no mesmo sector. Da mesma forma que quem aluga as suas casas para o turismo deveria estar sujeito às mesmas exigências de segurança, higiene e fiscais que os estabelecimentos do género, também os senhores da Uber deveriam estar sujeitos a todo os condicionalismos que regulam a actividade dos taxistas.

Mas o que me aborrece mesmo é ver estes pedantezecos, estes senhoritos que, com sorriso superior e verbo ágil, não se importam de denegrir de forma generalizada os profissionais honestos e humildes que, por algum motivo, ficam na mó de baixo. São os marialvazecos e os cagões (de ambos os sexos) que são um perigo para um país: por meia dúzia de moedas, por um microfone à frente da boca, por meia dúzia de likes, para cavalgarem a onda da moda, por sabe-se lá que vã glória, não se importam de pisar em cima dos mais humildes, em especial de quem tem menos facilidade em defender-se. Uma tristeza.

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Nota de rodapé

Volta e meia gosto de renovar a decoração, o corte de cabelo, o aspecto do blogue. Hoje foi dia. Estava farta da capuchinho vermelho, queria outra coisa, apetecia-me algo. A questão é que, na escolha da fotografia que gosto de ter a encimar o Um Jeito Manso, e que gosto que sejam mulheres que tenham a ver comigo, isto é, mansinhas, me distraio com as horas. Mudei o blog mas espatifei-me nas horas.

Tinha aqui umas fotografias das florzinhas do campo -- tão bem que se está in heaven, o ar perfumadíssimo -- e, com isto, agora já é tarde. Se eu pudesse ficar a dormir até às tantas, ainda partia para essa faena mas, como tenho que estar a pé a horas decentes, tenho que me ficar por aqui. E, uma vez mais nem consigo responder a comentários, nem a mails nem participar na tertúlia anedoteira que em posts mais abaixo se formou.

A ver se amanhã, de dia, consigo mostrar-vos como é tão acolhedora a natureza na qual estou mergulhada. (Digo assim que soa melhor e omito a parte do matagal, credo, que a erva e o mato estão com uma pujança...)

Mostro só a robínia carregada de lindos cachos brancos que se vê da sala
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E já é Dia da Mãe -- mas isso a mim não me diz grande coisa porque sou mãe todos os dias (ainda este sábado estive com o pessoal todo, uma animação que é um gosto) e também sou filha todos os dias (e vou estar com a minha mãe este domingo mas é porque estou com eles todos os fins de semana) -- e também é 1º de Maio e, a esta hora e já cheia de sono, o que tenho a dizer é que tenho pena que tenha calhado a um domingo. 


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Caso vos apeteça espairecer, queiram, por favor, deslizar até aos graffitis de Setúbal, arte de rua da melhor do mundo, o rapaz dos pássaros e a menina das borboletas.


O rapaz dos pássaros e a menina das borboletas
- em Setúbal uma das 24 melhores pinturas murais do mundo e outra que também é muito bonita


Já foi no fim de semana passado que fotografei duas grandes pinturas de parede em Setúbal. Depois, a oportunidade de as mostrar passou como tantas vezes acontece com inúmeras fotografias ou apontamentos. Metem-se outros assuntos ou, simplesmente, receio maçar os leitores com as minhas fotografias ou divagações.

Mas fiquei com pena de não mostrar. Sou grande apreciadora de arte de rua, nomeadamente de pinturas de paredes. Não acho graça nenhuma a que se vandalizem paredes de prédios com riscos ou letras mas, pelo contrário, gosto imenso de ver paredes ou muros de lugares em que as pinturas valorizam o espaço ou trazem vida a locais decadentes ou simplesmente abandonados ou embelezam lugares que, de outra forma, eram como se não existissem.

Também eu, in heaven, pinto muros, escrevo poemas em paredes. Gosto. Acho que é um cunho humano que se deixa inscrito na paisagem e, no panorama urbano, acho que a street art é uma mais valia que deveria ser mais apreciada e valorizada.



Fui à procura de alguma informação sobre o enorme painel do menino dos pássaros e transcrevo parte de uma que encontrei:

“O Rapaz dos Pássaros”, pintado por Sérgio Odeith no exterior do Auditório José Afonso, em Setúbal, foi considerado um dos 24 murais mais bonitos do mundo pelo site I Support Street Art.

Só alguém que ainda guarda na memória uns pés de criança cheios de terra a correr por entre aves que rasgam céus de azul poderia pintar com tanto realismo outro rapaz, também ele descalço, e também ele amante dos pássaros. É assim que Sérgio Odeith explica tantas afinidades com o mural inaugurado em Março de 2014, ao abrigo da original iniciativa “Arte em toda a parte”, levada a cabo pelo Alegro Setúbal: “o facto de ter passado a infância e o início da adolescência, até aos 13/14 anos, no Alentejo, ajudou-me bastante na concretização deste trabalho, que reflecte tempos em que as pessoas andavam descalças e tinham mais contacto com a natureza”.
Juntando o melhor dos dois mundos, campo e cidade, Odeith fez uso do seu imenso talento para a arte urbana, conseguindo transformar uma fotografia dos anos 30 num mural vanguardista com perto de 20 metros. 
No retrato original, da autoria de Américo Ribeiro, aparece um menino a segurar uma gaiola de pássaros. Com o nome de Vicente Inácio Martins, esse rapaz da fotografia conta hoje com mais de 90 anos e foi com surpresa que viu a sua meninice ampliada numa parede, conta Odeith: “embora muito velhote, o senhor lembrou-se imediatamente da ferida no tornozelo que tinha no momento em que foi tirado o retrato. Foi curioso recordar isso depois de 80 anos.”
No site da RR, leio:
"Quem merca [compra] os pássaros?" era o pregão utilizado por Vicente Inácio para vender os pássaros que não eram dele, sendo certo que acabava por ficar com alguns ou mesmo quase todos.
"Os pássaros não eram meus, eram de outra pessoa. Uns vendia, outros roubava. Roubava-os quase todos", contou à Lusa, com um sorriso rasgado, depois de contemplar o mural onde aparece como menino.
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Um pouco mais à frente, ainda na cidade, a caminho da doca ou das praias, um outro painel. Mais pequeno, menos aparatoso, mas muito bonito. Não consegui descobrir a autoria mas é impressionante: chamo-lhe a menina das borboletas mas não sei se esse é o seu nome. 


Vi que tem um pequeno rectângulo, por baixo, que fala do fim da violência sobre as mulheres. Talvez a pintura tenha qualquer coisa a ver com isso. Seja como for, é muito bonita, embeleza a cidade.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

E, em particular, desejo que todos os que estão desempregados arranjem rapidamente trabalho.

E que todas as mulheres que andam a tentar engravidar sem o conseguir, que sejam bem sucedidas o mais em breve possível.

E felicidades a todos.


sábado, abril 30, 2016

Não são 20 anos, são alguns mais, mas até podiam ser só dois -
Palavras na praia ao fim do dia e divagações nocturnas




Podia pôr-me para aqui a descrever o meu dia mas, se fosse fiel aos factos, achariam que estou a ficcionar. Uma vez descrevi quase ipsis verbis um cena decorrida numa guest house fantástica onde tinha passado o dia. No meio encaixei um príncipe árabe só para introduzir uma pitada de ficção. Pois parece que ninguém estranhou o príncipe árabe mas acharam que o resto era invenção, tenho ideia que até falaram em mania das grandezas, ou nova-rica, uma coisa nessa base, que me punha a inventar situações que jamais em tempo algum poderia viver. 

Desde essa altura, em certas situações, passei a ter cuidado com a minha sinceridade: não vale a pena que pensem que sou uma deslumbrada que se põe para aqui a inventar que frequenta alguns ambientes. Não tenho necessidade de inventar, tal como não tenho necessidade de ouvir remoques ou dúvidas sobre a minha sinceridade. Pode ser que um dia, esperemos que ainda com a memória em bom estado, me dê para contar algumas memórias. Acho que são de tal calibre, que a coisa é muito bem capaz de ter público.

Já pensei até em inventar histórias decorridas em alguns dos lugares que, volta e meia, frequento, e misturá-las com situações reais. E, se me permitem a sinceridade, penso até que poderia escrever histórias eróticas e depois filmá-las nesses lugares que são geralmente inacessíveis ao público e que são lindos para além da conta. Se a história ou os artistas não fossem grande coisa, salvar-se-ia o décor.

Adiante. Já estou a delirar.

Assim sendo, passo por cima do que vivi hoje desde que me levantei, bem cedo, até que cheguei a casa ao entardecer, calcei uns ténis e, com o meu namorado, zarpámos para a praia ainda a tempo de ver o sol a pôr-se e os pescadores da arte xávega a venderem, no areal, o produto da sua pescaria.


Por lá andámos até há pouco, jantámos, passeámos. Há mil anos atrás também andámos pela praia, não nesta mas numa outra igualmente bonita.

Tirei fotografias ao mar, aos pescadores, aos passeantes solitários e ao meu namorado. Ele também me fotografou a mim. Agora, ao ver as fotografias, ainda pensei fazer um corte vertical, meio corpo de alto abaixo, a começar no pescoço, e, desta forma, mostrar-vos um pouco de mim. Mas depois achei que ideia mais estúpida não podia haver e, portanto, rapidamente me esqueci. Mas tive uma outra ideia parva, quando estava por lá. Pedi para o meu marido se pôr ao meu lado, que eu ia fazer uma selfie. Não queria, claro, diz que não é maluco. Mas dada a data especial, resolveu fazer a gentileza. No entanto, fazer uma selfie com uma máquina fotográfica, grandona, às cegas, só podia dar uma xaropada. Apanhei-nos aos dois, vá lá, mas perto demais, a cara meio distorcida, um desastre. A nossa primeira selfie e isto, parece que nos pusemos em frente de um espelho deformador. Estive vai não vai para apagar mas depois achei que não, afinal é um documento histórico.

Reparem nas nuvens densas, compactas, que se tinham depositado sobre Lisboa que, na fotografia mal se vê


Agora que estou em casa -- a milhas mentais do meu dia tão incrivelmente preenchido, vivido naquele ambiente lindo, lindo, lindo, tão lindo que amorteceu os momentos complicados que aconteceram -- mas ainda com as imagens da praia ao anoitecer (tão linda a praia nestes momentos) bem presentes, já passei as fotografias para o computador; mas estou tão verdadeiramente cheia de sono que acho que hoje não consigo mesmo dizer muito mais do que este nada que para aqui estou a escrever.

Não sei se há novidades no país, não ouvi notícias e tenho preguiça de as ir procurar, não consigo ir ler os jornais online, imagino que seja treta sobre treta, nem quero saber da pancada dos jornalistas que parece que andam e enfiar a cara em sacos de plástico para cheirarem cola e que, por isso, alucinados, em vez de quererem saber das medidas concretas que estão a ser equacionadas no plano A, preferem navegar na maionese e andam, de lanterna em punho, a ver se descobrem gambozinos para os irem plantar num qualquer plano B. Não há pachorra para tanta palermice. Por estas e por outras é que, apesar de a política ser coisa que me interessa, não consigo imaginar-me a exercer cargos públicos: é que não teria paciência para aturar tanta parvoíce, ou da parte de deputados que parecem atrasados mentais ou vulgares trauliteiros ou da parte de jornalistas que parece que padecem de qualquer coisinha má que não os deixa pensar normalmente.


Pronto. Para não ir para a cama sem ter passado os olhos pelas novidades, fui à Marie Claire. Ao menos, por ali, nunca dou com nada que me faça afinar. Como estamos a entrar num mês novo, têm o horóscopo. Não sendo eu lá muito boa da cabeça, volta e meia gosto de ler os horóscopos.

Portanto, reza assim para o meu signo, para este mês de Maio:

Sentimentos

Filosofia, espiritualidade: Vénus reserva-lhe contactos ricos e reencontros inesperados. Eles criarão amizades... ou mais, consoante a sua vontade.



Vida social

Vão discutir-se projectos nos quais você vai aplicar força e fantasia. Com sucesso, na condição de evitar o psicodrama. Mantenha-se confiante.


Parece-me credível pelo menos na parte que reconheço. No que se refere a reencontros inesperados, ligou-me no outro dia um grande amigo meu, de quem já falei aqui várias vezes e com quem não estou há algum tempo. Como para a semana que passou já tínhamos ambos a semana muito carregada, combinámos que vai ligar-me esta semana para combinarmos irmos almoçar e pormos a conversa em dia.

No que se refere a projectos, ando no meio deles, enfiada até ao pescoço, e imprimo-lhes criatividade e vontade de ir além do que os que trabalham comigo esperariam. E, esta semana, uma pessoa que trabalha comigo e que está com uma depressão tramada, sobretudo por grandes problemas pessoais, entrou-me no gabinete, num pranto compulsivo, a pedir-me que a ajudasse, e durante um tempão chorou, desabafou, desabou, e, fez-me, ao longo de todo esse tempo, desarrincar argumentos para a convencer a que visse a vida com esperança, que relativizasse, etc. No fim já sorria e dizia que se sentia melhor. Em contrapartida, eu fiquei extenuada (mas, claro, não lhe disse que tinha ficado, eu, de língua de fora).

Bem, já chega de conversa. Já devem estar fartos. Credo que, mesmo com sono, desato a escrever e pareço uma tagarela, senhores.

Tenho ainda que agradecer os comentários e os mails. Não tomem por falta de educação eu não agradecer a cada um de vós mas estou a dormir enquanto escrevo, dou por mim a escrever de olhos fechados. Mas, a sério: muito obrigada a todos.

Amanhã logo respondo ao comentário do notário ou do conservador. Eu explico (se é que há explicação) mas, primeiro, quero perguntar uma coisa à minha mãe.

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Para terminar em beleza:

Lunge da lei - De' miei bollenti spiriti

La Traviata - Verdi; Anna Netrebko, Rolando Villazon

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Na praia, enquanto jantávamos, lembrei-me dos 20 anos do Patxi Andión e pedi que ele me dissesse. Disse. Gosto tanto que me digam palavras assim. E, nesta sexta-feira, soube-me bem ouvi-lo a dizer :

20 años de estar juntos
Esta tarde se han cumplido
Para ti flores, perfumes
Para mi, algunos libros
(...)
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.
Desejo-vos as maiores felicidades.

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sexta-feira, abril 29, 2016

Foi também numa sexta-feira.
E não há segredos. De facto, isto é simples, não é nenhuma ciência oculta.




Era sexta-feira e fazia sol. Não me lembro das horas, talvez meio-dia. Lá em casa apenas a família mais próxima. O meu pai quando tinha sabido, tinha ficado aborrecido, que eu não pensava em nada, que a um dia de semana para as pessoas terem que meter um dia de férias não tinha jeito, se não podia ser num sábado ou num domingo. De facto, nem me tinha ocorrido. Tinha sido o primeiro dia livre da agenda do notário, foi a uma sexta como podia ter sido em qualquer outro dia.

A túnica branca com rendinhas era transparente e decotada, muito bonita. Quando a tinha escolhido no Augustus nem me apercebi disso. Hoje isso não seria problema. Na altura era, já não era costume casar de calças justinhas, brancas, quanto mais com uma túnica transparente. A minha mãe lá arranjou um top para vestir por baixo mas não deu para usar soutien, não ficaria bem, notar-se-ia.

Não hesitei na escolha dos padrinhos: o irmão mais novo da minha mãe, o meu tio tão querido, e a mulher dele, uma tia querida desde que a conheci. Agora já não tenho padrinhos, foram-se os dois, com pouco tempo  de diferença. Nesse dia estavam felizes, muito bem dispostos.

O meu namorado chegou, cabelo pela nuca, barba negra cerrada, lindo, com um fiozinho de missangas minúsculas pretas que eu tinha feito e usava rente ao pescoço e que tirei para ele usar nesse dia. Trouxe-me uma rosa. Usei-a em vez de bouquet porque queria ter uma rosa oferecida e escolhida por ele. Não sou dada a artifícios. Queria tudo simples, nós como éramos, sem disfarces ou máscaras ou fantasias.

Já antes tínhamos comprado as alianças, os meus tios pagaram-nas e resolvemos começar logo a usá-las: muito fininhas, um fiozinho que mal se via.

Quando o notário nos deu por casados e disse que podíamos colocar as alianças, dissémos que já as tínhamos postas. E então pudemos passar logo para o beijo.

Não coloquei o nome dele. Achei que o facto de nos unirmos não mudava a minha identidade. Jamais usaria o nome de outra pessoa, como se fosse o ferro da casa.

Em todas as fotografias, estou a sorrir ou a rir. A minha mãe estava muito comovida, chorou. As minhas avós ainda mal se tinham refeito da neta se casar tão novinha, e ainda estudante. O meu avô, contudo, desfez a perplexidade delas: 'Com a tua idade já a tua avó estava casada há dois'. A minha outra avó deve ter engolido em seco já que com dezassete já ela tinha tido a minha mãe -- e na altura acreditávamos nisso. Quando morreu, a minha mãe descobriu que, afinal, a minha avó era mais nova e que a tinha tido não com dezassete anos mas, sim, com dezasseis. Toda a vida festejámos o seu aniversário numa data inventada por ela. A minha mãe, ao ver a data da certidão de nascimento dela, ficou parva: 'Olha a magana...!'

Depois, nessa sexta-feira em que nos casámos, fomos para um lugar muito bonito onde se nos juntaram os convidados e lá tirámos fotografias. Não quis um fotógrafo profissional. Não me via a espreitar atrás de uma árvore ou sentada na relva ou a fazer qualquer dessas poses que me pareciam ridículas. E se eu não via, muito menos o meu jovem marido via, sempre avesso a fosquices. Por isso, o fotógrafo foi um colega meu da faculdade, um que gostava de me fotografar e que também já nos tinha fotografado aos dois no jardim Botânico, umas fotografias mesmo bonitas, muito naturais, com uma luz que nos fazia parecer ainda mais enamorados.

As fotografias ficaram muito bonitas, incomuns. Dois miúdos muito apaixonados, banhados pelo sol. Eu tinha vinte anos e o meu marido, que é uns meses mais velho que eu, tinha acabado de fazer vinte e um. 

Depois foi o copo de água. Uma festa, uma alegria. Depois fomo-nos embora, de lua de mel. Os meus pais vieram despedir-se de nós ao carro e estavam muito comovidos, em especial a minha mãe, lavada em lágrimas. Acho que estava muita gente de volta de nós mas do que me lembro bem é da comoção dos meus pais.

Depois, quando regressámos, fomos viver para a nossa casa e voltámos às aulas na faculdade e, de tarde, às escolas onde dávamos aulas. Éramos muito felizes, eternos namorados, sempre juntos. Muito diferentes, quase opostos, e, no entanto, tão compatíveis.

Desde o primeiro dia que é sem compromisso: dá enquanto der. Quando deixar de dar, adeusinho, por aqui me desbaldo. Nenhum é dono do outro, nenhum quer domesticar o outro, nenhum quer condicionar o outro.

Os miúdos vieram logo a seguir. Com vinte e poucos já cá os tinha aos dois. Eles também se despacharam cedo. Multiplicaram-se e agora, quando chegam, enchem a casa.

O tempo vai passando, nós vamos mudando. Nunca me arrependi. Apesar de volta e meia se levantarem tempestades, os furacões e tornados são tão explosivos que, mal o fenómeno se esvai, e esvai rapidamente, logo vem a bonança e tudo fica como se nada se tivesse passado.

Não somos de esmiuçar os assuntos até ao vómito. Não há muito a dizer quando a pessoa está aborrecida. O que há a dizer, sai na hora, sai como uma tromba de água e depois acabou, ponto final, nada de ficar a remexer, a interpretar, a moer. Nada. Para trás das costas e bola para a frente.

Segredos para uma relação durar tanto? Acho que não há. Talvez, para começar, não ter essa mania de que há segredos ou poções mágicas. Não há. Essas balelas dos homens são assim e as mulheres são assado e ficar a dissertar sobre parvoíces também não é connosco. Mariquices como isso 'o que vês da tua janela?' muito menos. 

Gostamos um do outro pelo que somos, quer na maneira de ser, quer no corpo, e não nos cansamos de o demonstrar. 

E não sei o que hei-de dizer mais a não ser que, com a longevidade que hoje já é uma realidade, acredito que outros tantos anos virão e que, com um bocado de sorte, nos aguentaremos lúcidos, felizes, independentes e a gostar de estarmos um com o outro.

E se um dia me passar pela cabeça renovar os votos, coisa que acho que jamais acontecerá (até porque tal nem deve existir nos casamentos civis), acho que ele só aceitaria prestar-se a isso se eu me apresentasse vestida a preceito, qualquer coisa como abaixo se mostra. E eu fartar-me-ia de rir só de imaginar tal número - é que se o meu corpinho fosse igual ao da menina ainda vá que não vá, agora assim, com uns quilitos em cima, haveria mesmo de ter muita graça.

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Claro que as fotografias não têm nada a ver com o meu casamento.

Yiruma interpreta Love me. Andei à procura de outra coisa mas estou com pressa que daqui a nada estou a pé e não posso estar nisto. Se isto estiver cheio de erros, por favor, relevem.
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Caso vos apeteça uma musiquinha na piscina na companhia do casal láparo & paulinha lelé, queiram descer, por favor, até ao post que se segue.

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Para o chefe da Princesa Bafienta, um Cigarette Duet com cheirinho
-- se ela quiser, também pode atirar-se para o paf-charco onde, aliás, parece que os pró laparianos estão a sentir-se muito bem.


Não sou espetadora assídua, só de vez em quando. E mesmo quando espeto é em doses homeopáticas. Também sou um bocado alentejana apesar de não ter raízes por lá. Mas como tenho avós algarvios, se calhar é isso. A coisa deu-se há dias e só agora caíu a ficha. 
Não. Não foi isso. Deu-me pena. Pensei: 'Coitada' e, por isso, resolvi que não ia tocar no assunto.
Mas hoje resolvi que sim. Mas não é por ela, coitada, não merece que a gente fale sobre o assunto, acho que mais vale a gente fingir que não viu. Ocorreu-me usar a palavra caridade mas isso podia soar a maldade e, a sério, acho que maldade grande já foi a que o chefe dela lhe fez, já chega.

Por isso, este meu texto não é para ela, coitada, a sério que não. Este texto é para o chefe dela, aquele a quem o André Gustavo -- que não sei se foi apanhado no Lava-Jato ou não -- tratou da campanha eleitoral. Ele, o láparo maldoso, para discursar no 25 de Abril, a Assembleia à pinha, as televisões a filmarem, é que mandou aquela pobre coitada para os cornos do toiro.

E ela, coitada, com aqueles olhos de quem toma muito drunfo e sabe-se lá que mais, subiu ao parlatório e, com aquele seu ar que tenta, com a veemência, disfarçar a insegurança, para ali leu um chorrilho de disparates, adjectivos bafientos, salazaristas. Um despropósito, um desatino. Coitada.

Mas, como disse, não vi tudo. A televisão apanhou-a a meio e o meu marido disse: 'olha para isto, mal consegue abrir os olhos, e ouve só a conversa dela'. Tentei mas nem percebi de que é que ela estava a falar. Aquilo foi coisa escrita numa altura em que não estava em grandes condições, coitada, e o sacana do láparo, em vez de a ajudar, deixou ir assim mesmo. Não se faz. Por isso, desviei-me, não quis ver. Deu-me pena. Porque é que aquele ali não mandou avançar o enxúndias, o cão com pulgas, o joker ou o puto charila? Mandou aquela pobre coitada porquê? Não achará que queimada e mais que queimada já ela está? De facto, há pessoas cujo carácter se vê na forma como se tratam os mais desvalidos. 

Por isso, este texto é para ele, o láparo. Ela, se quiser, pode ir à boleia, pode ser que um banho de água fria lhe faça bem. Os dois para o banho. Aliás, estou certa que ao Presidente Marcelo vontade não deve ter faltado de lhe dizer: 'Ó minha senhora, vá dar banho ao cão' ou, a ele, ao salazarista e bafiento láparo: ''A que propósito é que em vez de ter ido dar banho ao cão, resolveu expor a loura a esta banhada? Isso faz-se? Acha que isso é de homem? O outro gabou-se de o ter posto aqui, como se tivesse feito um lindo serviço, mas não senhor, não fez grande trabalho, não senhor, não conseguiu fazer de si flor que se cheire. Olhe lá, não estará na hora de ir pregar para outra freguesia, de ir abrir portas lá para o império dele, do seu amigo banqueiro, o vai-estudar-ó-relvas? Vá. Xô!'

Uma miséria, este PSD.

Princess Chelsea - The Cigarette Duet

 

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quinta-feira, abril 28, 2016

Alô, alô senhores e senhoras do Bloco de Esquerda!
Que é lá isso de só se preocuparem com o género do Cartão de Cidadão?
E o resto...?! Estou farta de tanto machismo.
Porque é que o dress code dos homens há-de implicar andar de calças (ou, vá lá, calções)?
Faz favor de legislarem para acabar com isso: queremos roupa sem género. Roupas e outras coisas do género.
[E já agora o link para um post antigo que está a receber montes de visitas e eu não sei porquê: "Uma mulher solitária em toda a sua nudez (- ou uma história ainda mais estranha)"]





Caros Leitores e Leitoras, isto do machismo está por todo o lado. Mal uma pessoa se distrai e já está a cair na esparrela, usando palavras aplicadas a nós, mulheres, que são do sexo masculino. Ora isto das palavras terem sexo é uma maçada.
[É sexo ou género que têm as palavras? Estas meninas do Bloco Esquerdo já fizeram este lindo serviço de uma pessoa misturar procriação com gramática. Agora já nem sei e isso é um problema, aliás é do tipo de problemas que até costuma tirar-me o sono.]

Adiante. Hoje fui ficar, durante uma parte do dia, com dois manos que estão com uma virose. Já se sabe que a febre nas crianças dá pouco abalo e, portanto, embora mais sossegados do que habitualmente, murchos também não estavam. O mais crescido estava mais quentinho, mais jururu, encostadinho a mim e eu a ler-lhe a História de Portugal da Ana Maria Magalhães e ele todo interessado. O mais pequeno, aquele que em tempos era chamado de ex-bebé e que agora já fez 5 anos, andava de trotinete pela casa e, pelo meio, a fingir que era um guerreiro.

Às tantas, pedi que estivesse quieto porque já estava a exorbitar. Começou a fingir que me atacava e eu a dizer para estar sossegado e ele, a rir, todo folião, saíu-se com esta parvoíce: 'Dou-te um pontapé na pilinha!' Zanguei-me: 'Ai! O que é isso?? Isso diz-se?. Corrigiu de imediato: 'Ah, pois é: Tá, dou-te um pontapé no pipi'.

Tive que me esforçar para não me desatar a rir. Acho que lá consegui manter o meu ar de avózinha bem comportada e disse: 'Nada de violências, não acho graça nenhuma a essas palermices'.

Bom. Onde é que eu ia? 

Não sei, estou cheia de sono. Estou é a pedir a todos os santinhos que não me tenham pegado a virose porque era só o que me faltava. Estafada como ando, a rebentar pelas costuras com tanta reunião e tanta confusão, apanhar febre em cima da canseira com que ando vinha mesmo a calhar, vinha, vinha.

Adiante.

Ah, sim, o género. 

Há zonas da cidade em que uma pessoa se cruza com toda o género de excêntricos. Há bocado cruzei-me com uma mulher de meia idade, baixinha, bem encorpada, toda vestida de preto, botinhas pela canela, com o cabelo pelo meio das costas em cor de rosa vivo e com uns óculos de lentes transparentes e armação de massa também rosa fúcsia. Bizarra. E, comparando com outras, esta nem era nada de demais.

Pelas minhas andanças profissionais é o oposto, tudo produzido na base dos consultores e consultoras, vestidos de igual, fatos, camisas brancas, tudo formal, ou, se não é isso, são meninas dressed to impress. Não há cá excêntricos ou fora da caixa.

Na verdade, uma seca. Bem, seca não será.

Hoje subi no elevador com uma que fazia duas de mim, altíssima, com uns sapatos compensados de uma altura assustadora, com uma saia justa e curta, uma blusa transparente com um decote a perder de vista, com umas unhas pintadésimas, com um cabelo ultra bem penteado, toda loura com madeixas, um perfume marcado, uns lábios encarnados, debruados noutro tom, a pele toda coberta de base. Uma coisa intimidante.
As duas no elevador, ela meio à minha frente para eu a poder ver bem, e eu a sentir-me insignificante, cabelo à balda, roupa normal, sapatos normais, unhas curtas sem cor, na prática uma anemia em forma de gente ao pé daquela colorida estrela de Bollywood.
Outras vezes desço com executivos, todos pipocos, uns do género mais doce e outros do género mais salgado, mas, basicamente, tudo farinha do mesmo saco: armados em snobs, blasés, convencidos que são bons. Se vão sozinhos ainda quase parecem normais. Mas, se vão em grupo, é uma graça, armados ao pingarelho, a fazerem de conta que são gente que gosta de a levar na descontra mas incapazes de não evidenciarem a cagança de que são recheados. Penso sempre que deveria arranjar maneira de filmar estes pimpões, depois fazer uma montagem e pôr no youtube. Aposto que se transformava rapidamente numa cena viral.

Ontem, numa reunião, também vivi um verdadeiro momento Monty Python, uma coisa de loucos, hilariante, com um desses altos executivos com a mania que têm sangue azul mas que volta e meia, mais parecem gente do stand up. Mas não posso contar aqui, ainda a coisa está fresca, sei lá quem é que me lê.

Bom. Ia onde, eu?

Daqui a nada estou a dormir, nem sei bem sobre o que é que estou a escrever. Está bonito, isto, está.

Só de pensar que na sexta tenho que me levantar cedíssimo e passar o dia inteiro, sem intervalo para almoço, em ambiente de trabalho, já me faz sentir cansada. Cansada e frustrada. Estes dias deviam prever um período para passeio nas terras. É que passo a vida a ir a sítios lindíssimos sem poder usufruir: é programa cerrado de sol a sol. Bolas, que ainda arranjo é maneira de lá ficar a dormir para poder passear à noite. 

Ora bem. Mostro mas é já o vídeo antes que adormeça e que desate para aqui a escrever enquanto durmo, só sonhos e conversas malucas (isto é, mais malucas do que é costume)

Quem te disse que roupa tem gênero?


Para cada vez mais pessoas, ter no guarda-roupa apenas vestimentas e adereços autorizados para seu gênero é uma ideia limitadora e ultrapassada. Agora, as próprias marcas já começam a entender que é preciso adaptar o mercado a novos anseios e debates.  
Para entender melhor o que está acontecendo e tirar essa conversa do armário, o Trip TV conversou com um artista, um estilista e um caçador de roupas. Os três, cada um em um canto de São Paulo, vivem no dia-a-dia as possibilidades de usar tubinhos, colares e saias.

A Mariana Mortágua já anda quase sempre de calças, camisa e blaser de corte direito, algo masculino. Falta agora os deputados do Bloco começarem a aparecer de saia. Até o Mister Louçã, no seu comentário televisivo, poderia dar o exemplo e aparecer de saia justa e nails às cores.
Saia é uma delícia, ventila, refrigera. E nails? Ontem, ao almoço, vi uma madama com umas unhas que pareciam garras afiadas, cortadas em bico, em que apenas das unhas estavam pintadas, uma de cada cor, verde alface, azul céu, roxo. Mal me distraía lá estava eu, de olhos postos nas unhas da madama.
Adiante. Vamos mas é ao que importa. Está na hora da luta.
Abaixo o sexismo na roupa! 
Queremos roupa sem sexo! 
Cidadãs e Cidadãos: todos para a rua a exigir o fim do sexo modal e verbal!
[Calma: eu disse verbal]
Igualdade de género, já!

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Bem. E quem diz roupa ou palavras diz ballet. Quem é que impõe que os papéis de cisnes devem ser desempenhados por mulheres? Em algum lado se diz que são cisnas? Aliás, a julgar por aquela fofoca da Leda, é mais cisne alfazão que cisnazinha. A menos que fosse uma cisna fofa*.

Ida Nevaseyneva dança a morte do cisne 



Ida (never say never) é, de facto, Paul Ghiselin.
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* Teria o meu filho uns quatro anos, um dia diz qualquer coisa sobre uma coleguinha e conclui: acho que ela é fofa. Fico muito admirada porque ele nunca foi dado a ternurices: 'Fofa?'. E ele vai e faz um sorrisinho malicioso: 'Não sabes o que é fofa?' e eu admirada, sem perceber o alcance da coisa: 'Acho que sim, mas o que queres tu dizer? Que é simpática? Fofinha?'. Riu-se, como se até com pena da minha ignorância: 'Não, não é nada disso'. Vem a minha filha, que teria uns sete anos, muito a medo: 'Eu acho que ele quer dizer fufa'. 

Nestas ocasiões sempre perdi o pio. Por um lado, espantada com a 'escola' que já tinham, e, por outro, com receio de ter que explicar e sem saber como. Mas também acho nunca tive que explicar-lhes nada, sempre chegaram lá antes que eu supusesse ser a altura certa. Limitei-me, desde que nasceram, a ensinar-lhes que tinham que usar preservativo. Disso é que eu tinha mesmo medo. Lembrava-me sempre da minha colega que foi avó quando o filho teria uns dezoito anos e lhe apareceu em casa, à noite, com a namorada, a dar a notícia e a dizer que tinham resolvido assumir. O marido, ao ouvir a notícia, pegou no casaco e saíu porta fora. Ela ficou especada em frente deles incapaz de articular palavra, só a pensar que lhe apetecia era dar uma tareia ao filho.

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Não garanto que agora não caia da cadeira e não fique a dormir no chão. 
Logo vejo. Às vezes, chego a esta hora e esperto.

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Volto cá para partilhar o meu espanto. Estive a ver o filme 'A minha mãe' na RTP2, filme que não quis ver na altura porque é sobre um tema que me assusta. Mas hoje, aqui em casa, não resisti. Bom, bom filme. Mas não me pronuncio porque não gosto de falar do que me assusta.

E agora estava a prepara-me para desligar o computador e fui espreitar as estatísticas. Pois fiquei admirada: um post antigo a 'bombar' à força toda, visitas e mais visitas. Não sei porquê. Já nem me lembrava de ter escrito aquilo -- uma daquelas minhas histórias que não sei se são muito próprias para consumo.

Caso queiram ver, aqui fica o link

Uma mulher solitária em toda a sua nudez (- ou uma história ainda mais estranha)


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Desejo-vos, meus Caros Leitores uma bela quinta-feira.


quarta-feira, abril 27, 2016

De que matéria?



De que matéria é feita a emoção que sinto quando vejo uma tela encarnada, quase só uma mancha, quase só nada? Que parte de mim é activada para que eu sinta o peito a vibrar e eu com vontade de entrar dentro do vermelho, o meu sangue feito pigmentos derramados sobre a tela, eu feita o nada que habita uma tela inerte? Ou não é inerte a matéria que assim me convoca? É mesmo luz o que sai do coração da tela, uma alvura que não tem explicação, talvez leite, talvez nuvem, talvez apenas silêncio? Que laços se soltam desta tela para virem, assim, enlear-me, eu atraída pela injustificação que me prende? Sombras, rolos de fumo, o quê, em baixo, que nasce de dentro da matéria da tela, que nasceu das mãos de Rothko, que nasceu do nada que por vezes habitava a sua mente? 

Mas a tela não está agora aqui, o que está é uma representação sob um vidro, flocos feitos de ínfimos impulsos que atravessaram o espaço, que entraram nas redes invisíveis e infinitas que entretecem o espaço; e, no entanto, vendo o que estou a ver, sem querer, eu penso em mim, no museu, eu em frente da tela imensa e silenciosa, e eu com vontade que a tela seja oração e eu uma sombra passageira que passou por ali levando consigo a emoção de ver estes simples rectângulos cor de sangue e luz.

De que matéria posso eu falar quando falo do que estou a falar? De matéria nula, intocável, toda e só abstração?


E de que matéria é este meu sentimento de devoção, de enlevo, de encantamento, como se só de ouvir esta música eu me tornasse outra, melhor, como se por atravessar as minhas células, a música me transformasse, eu por momentos transcendente, ou não eu mas a matéria que em mim se transformou para recolher a impressão que a música quer deixar gravada na minha curta memória?

Ouço uma música assim e penso que algures dentro de mim há cordas invisíveis que se agitam como borboletas efémeras ou como um mar de papoilas ondulando ao vento. Saberia eu fotografar essas imagens invisíveis que se formam dentro de mim quando ouço uma música assim? 

E as searas coloridas que dançam suavemente num lugar luminoso dentro de mim quando ouço Horowitz a tocar Mozart serão iguais às vossas, Caros Leitores? Ou a vocês a música não desenha searas mas nuvens deslizando no céu ou pássaros brincando na rebentação das ondas? Ou apenas um lugar de recolhimento, uma capela vazia? 


E de que matéria é feita a minha curiosidade atenta quando ouço Sylvie Guillem falar enquanto o seu corpo se move como eu gostava que o meu soubesse mover-se? E que partículas elementares dentro de mim se agitam em uníssono, certamente em uníssono, uma manta de partículas movendo-se em sintonia, enquanto observo as longas pernas de Sylvie, a elegância das composições, a inquietação dos arabescos que desenha com o seu corpo, os seus braços longos como asas nuas?

Ou não há matéria envolvida nesta história? Apenas rastos que as partículas em movimento deixam em mim? Sonhos imateriais, ligações intangíveis?

E de que matéria é o movimento que conduz os meus dedos que deslizam pelo teclado em busca das letras que cheguem até vós como sinais de luz com significado, transportando até junto do vosso olhar a emoção que sinto no momento em que as palavras se formam, já soltas de mim?

Pergunto -- mas felizmente não posso responder, porque me desconheço.

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E, caso estejam para aí virados, queiram descer para irem visitar a Dona Guidinha e, a seguir, a poesia de Eugénio de Andrade.

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Dona Guidinha






Aos catorze anos, quando as nossas meninas são feitas de amor e de susto, Guidinha atravessou o impetuoso Curimataú, de margem a margem, só porque uma outra duvidou.

  - Duvida? - disse ela - grelando o olho.

Corou, conteve um ímpeto, e ganhou o meio do rio:

  - Apois lá vai!

Nadava de braça como os homens, e não como as mulheres, que trabalham com as mãos por debaixo d'água, pelo instinto de pejo, e vão assim batendo os pés à tona.


O pai tinha desgosto de que ela não fosse macho.

Casou Margarida, finalmente, aos 22 anos, já morto o velho Venceslau. Naquele sertão havia por esse tempo muita abastança, por modo que um grande pecúlio não era lá nenhum desses engodos. Os mancebos, que frequentavam a casa, frequentavam-na sem dúvida por causa da moça, por via de ser ela muito de liberalidades, muito amiga de agradar, não poupando nem mesmo as carícias que uma donzela senhora de si pode conceder sem prejuízo da sua física inteireza. Aconteceu a uns dois se lhe apegarem de rijo, porém as respectivas famílias, com a imposão que então os pais ainda abocanhavam, os desviaram; um deles, até à força bruta, quase amarrado, foi recambiado para Olinda, onde se ordenou.


Todavia, contando-se este caso ao Rev. Visitador, que nesse tempo era o cura de Russas de Jaguaribe, balançou a cabeça em ar de motejo e de antigo entendedor de mulheres e de namoros:

 -  Feiosa, baixa, entroncada, carrancuda ao menor enfado - disse ele - não admito que homem algum se apaixone pela filha do capitão-mor, salvo se não é aquela que tenho visto no Poço da Moita, onde cheguei a passar mais de uma semana com as febres. Vão ver que ela usou de feitiçaria... Ora se não é isso! Vão ver.

  - O Rev. Visitador ainda acredita em urucubacas?

  - Se creio! O Inimigo do género humano não dorme. E mulheres? Mulheres! mulheres! A nossa mãe Eva que não me deixe mentir.

Em todo o caso, razão tivesse ou não o sacerdote, é certo que o começo do tirano amor é sempre de umas exterioridadezinhas, pontinhas de dotes profundos, que, em faltando, a mulher parece antes um homem, ou antes um animal sem sexo. Margarida era muitíssimo do seu sexo, mas das que são pouco femininas, pouco mulheres, pouco damas, e muito fêmeas. Mas aquilo tinha artes do Capiroto. Transfigurava-se ao vibrar de não sei que diacho de molas.


Esposando ao Major Joaquim Damião de Barros, uns dezasseis anos mais avançado que ela na idade, passou a chamar-se Margarida Reginaldo de Oliveira Barros. Se, recebendo o nome do marido, ela fez tudo o mais que ordena a Santa Madre Igreja, a Deus pertence.

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O texto é um excerto de 'Dona Guidinha do Poço' de Manoel de Oliveira Paiva.
Dona Guidinha do Poço, escrito em 1892, é um dos maiores romances do Naturalismo brasileiro e possui uma história interessante: seus originais foram entregues pelo próprio autor ao amigo Antônio Sales, que entregou uma cópia a Lopes Filho, que a perde, e outra a José Veríssimo, que iniciou a publicação, interrompida com a falência da sua Revista Brasileira; no fim dos anos 40, porém, Lúcia Miguel-Pereira encontra uma cópia com Américo Facó, depois de intensa pesquisa. Ela publicou, finalmente, Dona Guidinha do Poço em 1952.
Escolhi a nossa bela Sara Sampaio para ilustrar o texto, como D. Guidinha.

Leonard Cohen interpreta The Gypsy's Wife


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