Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, novembro 12, 2018

A quem é que, na sociedade portuguesa, ficaria bem o título de 'Baronesa da perna aberta'?


Não é por nada. É mesmo só para perguntar. Caso ajude, posso acrescentar que, em inglês, diríamos que a dita Baronesa tem umas lazy legs.

Uma chuva diluviana, um cogumelo fenomenal, um olhanense que fala como uma matraca, um avião desgovernado, o Bruno de Carvalho detido.
Etc.
Ou seja: um dia cheio de cenas.




Durante o dia choveu que Deus a dava. Uma coisa quase diluviana. Tentei fazer a minha caminhada mas não foi possível. Chovia, chovia. Muito bonito de ver. Uma tranquilidade boa. 

Mas tanta a força da chuva que, inclusivamente, entrou água na sala. Provavelmente alguma telha levantada, talvez caruma ou folhas de azinheira acumuladas. O meu marido pôs a escada e foi lá acima ver mas chovia tanto, tanto, que não deu para grande coisa. 

Olhei a rua pelas janelas. De repente reparei, um pouco ao longe, numa mancha redonda, muito branca, entre a folhagem. Vesti uma capa e, numa corrida e munida com a máquina, fui ver. Era um enorme cogumelo branco, muito liso, muito redondo, como que insuflado. Uma coisa quase fenomenal. A natureza é cheia de coisas curiosas e estranhamente belas.


De tarde, estava eu concentrada no meu tapete, intrigada com o branco que estava a usar que me parecia mais branco do que era suposto quando, num zapping, o meu marido estacionou numa entrevista. Numa confortável saleta, com um sofá bonito e uma estante, uma jovem entrevistava um senhor que dizia que era de Olhão, que falava pelos cotovelos, e ao lado do qual estava uma senhora com o cabelo muito mal penteado e com uns sapatos curiosos, creio que acobreados e muito grandes. A senhora olhava para as mãos. O senhor falava ininterruptamente, como se lhe tivessem dado corda. Falava tanto, tanto, sem que eu percebesse bem de que é que ele estava a falar e a senhora, ao lado, mantinha-se cabisbaixa. Às tantas, talvez atormentada pelo fluxo palavroso do senhor, começou a balouçar-se, para a frente e para trás, sempre de cabeça baixa. O meu marido interrogou-se: 'Será autista?'. Olhei e achei que podia ser. Às tantas, quando olhei com mais atenção, vi que o senhor se chamava Fernando Cabrita e que a senhora do descuidado penteado era, afinal, a Ana Cristina Leonardo. Comecei a prestar atenção para ver o que era aquilo. O meu marido protestou: 'Mas de que é que o gajo está a falar?'. E nisto cortaram a emissão e o meu marido disse: 'Claro, tiveram que cortar a emissão, era a única maneira de lhe cortar o pio'. Mas logo apareceu a locutora a dizer que havia um avião desgovernado nos ares. 


Ficámos logo preocupados com os nossos filhos. Tentei ver no mapa se o avião andaria sobre os espaços onde eles estariam. Mas ele, nestas coisas, é mais precipitado que eu: 'Liga já aos miúdos'. Serão sempre os miúdos, os nossos miúdos. Liguei logo pois, se não o fizesse, ele ficaria numa ansiedade. Ambos acharam o meu telefonema um bocado parvo, sem perceberem o que queríamos nós que eles fizessem. Senti-me burra, claro, quando disse: 'Olha, tenham atenção, se virem um avião às voltas tenham cuidado'. Como se uma pessoa se pudesse chegar para o lado para se desviar de um avião desgovernado a despenhar-se. Enfim. Mas, claro, estava mesmo nervosa com aquilo. Mas logo depois soubemos que estava a ir para o aeroporto de Beja e logo de seguida que, à terceira tentativa, tinha aterrado bem. Portanto, tudo bem.


Entretanto, ao chegarmos a casa, enquanto eu andava nos cozinhados, nas lavagens e arrumações e ele nas lides dele, estava a televisão ligada -- e ouvimos nas notícias que aquilo que se esperava há muito tempo tinha acontecido: Bruno de Carvalho tinha sido preso. Parece que é ainda aquilo de Alcochete. Pudera. O meu marido disse: 'Este gajo não vai acabar bem' e até parece que senti alguma pena na voz dele. Não aprofundei.

Depois ouvi falar num tal Mustafá. Parece que também preso. Em tempos, uma vizinha da minha avó tinha um gato chamado Mustafá. Era traiçoeiro e eu ganhei medo a gatos por causa da sua má fama, e mais ainda porque a minha mãe temia gatos que se assanhavam e o Mustafá era o pior de todos. Não sei se a alma do velho gato Mustafá desceu no corpo do tal mal afamado da Juve Leo ou se não tem nada a ver. O que sei é que o Bruno de Carvalho e o Mustafá e as suas dangereuses liaisons são o pratinho que faltava aos comentadeiros das televisões. E já não há pachorra para tanta má vida. 


Depois, enquanto jantávamos, tínhamos a televisão na SIC. Clara de Sousa picava o Marques Mendes e a nossa reacção foi de mudar de canal mas, naquela altura, falavam do Rui Rio, do Silvano, da Emília. Ficámos a ouvir. Marques Mendes arrasou os três. Arrasou completamente. E enterrou Rui Rio. Gostei de ouvir.

Agora estou na sala, descansada, estive a passar as fotografias para o computador e, como sempre, quando vejo as imagens daquele meu espaço de paz, sinto uma emoção agradecida, uma serenidade absoluta, como se lá estivesse o meu refúgio, o meu ninho, o meu paraíso. 

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Até já

domingo, novembro 11, 2018

Nesta noite de chuva in heaven




Parece que alguma coisa está a mudar dentro de mim. Não é a primeira vez que isso acontece. Quando acontece, o que está para trás fica para trás e a porta abre-se de par em par a uma vida nova.  Mas ainda não estou certa de que é isso que está a acontecer. Talvez seja, sobretudo, a vontade de que isso aconteça. Vontade de recomeçar. Vontade de ser surpreendida por uma vida desconhecida, cheia de surpresas. Gosto de entrar em caminhos desconhecidos.


Talvez seja a onda gigante que passou por cima de mim e me fez andar aos trambolhões dentro dela, sem chão, sem norte. Talvez tenha sido o não dito com todas as letras que existem dentro de um não. Todas as letras do mundo, as abertas e as mudas, as graves, as agudas, os gritos. Um não assim, redondo, convicto, definitivo, tem consequências. E, se calhar, algumas delas sejam estas. Insignificantes mas prenunciando outras. 

Mas não sei. nem quero saber. Não tento adivinhar-me. Receio impedir-me do que possa acontecer, quero-me disponível e desprevenida para o que está por vir.

Voltei, com muita saudade, ao tapete de arraiolos. Horas. O prazer voltou. Horas incansáveis, a mancha bordada a aumentar.


E ando agora muito devagar in heaven. Nunca antes assim, tão devagar. Examino a terra, as rochas, descubro tocas, fendas, ínfimas grutas nunca antes vistas, imobilizo-me de tal forma que os pássaros não voam: brincam e saltitam sem se importarem comigo.


Quando estava a passar a mão pela rocha, lisa e escura, fria e molhada, levantou-se um grande pássaro da aroeira que ali está. Olhei-o e pensei: ouviu-me, vai-se embora. Mas não, simplesmente mudou de ramo. Depois bateu as asas e mudou de novo, ainda para mais perto de mim. E eu ali, imóvel, arrepiada de emoção. Quando os pássaros voam dentro da copa das árvores fazem um barulho orgânico, o barulho das asas a roçar na folhagem. Gosto demais desse som. E cantam, felizes. Tèm uma vida tranquila, boa.


A terra está fértil, molhada, coberta por musgos, os troncos por líquenes, a caruma está rubra, enleada na humidade, em folhas, em bagas.  Cheira muito bem. Não é o cheiro das primeiras chuvas: é o cheiro da terra fecunda, da felicidade imaculada da natureza.

Enquanto escrevo, ouço a chuva. É o som do milagre. Cair do céu a água de que a terra se alimenta é um milagre. A noite passada esteve muito vento. Abri um bocado o vidro para melhor o ouvir. O meu marido protestou, que não está tempo para dormir de janela aberta. Mas tapou-se melhor e adormeceu. E eu também. Gosto de adormecer a sentir a aragem fria da madrugada e, se vier com o som da ventania, melhor ainda. Ou da chuva.


Na salamandra arde um tronco grosso e perfumado. Ouço-o crepitar, Levantei-me agora mesmo para o virar e, ao fazê-lo, tudo se acendeu lá dentro e veio aquele calor doce, cheiroso, que deixa a minha casa tão agradavelmente acolhedora.

Aqui ao meu lado está o tapete que estou a fazer e eu olho para ele e penso que amanhã vou escolher os azuis e os verdes que vou meter dentro da janela que hoje bordei. O mar, o céu. Não o faço agora porque as cores têm que ser escolhidas à luz do dia. A luz artificial não deixa distinguir bem quais as melhores cores para fazer as cambiantes marinhas, as nuvens, o céu. Antecipo o prazer de escolher as lãs, de imaginar como vou preencher o espaço que ainda está vazio.


De tarde, vi na televisão um pouco de um programa sobre equilíbrio ecológico. Diziam que as bolotas são um alimento muito saudável. Tenho o chão ali fora, deste lado da casa, cheio delas mas não sei como comê-las. Mas hei-de aprender. Gosto da ideia de me alimentar do que a terra dá. Eu que gosto tanto de comer fruta, saladas, queijos, hei-de aprender melhor o que mais daqui posso comer. Hoje descobri três figos pequenos, os últimos. Comi-os. Da chuva e de serem tardios, tinham pouco sabor. Mas comi-os com um prazer enorme. Os últimos figos frescos deste ano.

Há agora muitos cogumelos, muitos, grandes. Penso que é sinal que a terra rebenta de de tanta vida. Lembro-me sempre de como era esta terra quando para cá viémos. Não havia caruma, folhas secas, cogumelos, líquenes, hera trepando pela rocha. Era uma terra árida e triste. Transformou-se numa terra prenha, exuberante nas suas mil vidas.


O meu marido tentou fazer uma fogueira para queimar o que por aí há de ramos e mato mas estava tudo molhado demais, não conseguiu. Amanhã ainda menos com tanto que está a chover.

Tudo tão verdinho, verdinho de dar gosto.

Na vinda estive a ler sobre Kafka. E sobre Bach. E vim encantada com a beleza das palavras inteligentes de Kundera. Um dia vou mostra-vos algumas.

Passei por uma casa grande, abandonada, e pensei que gostava de entrar lá dentro e fotografar e depois inventar uma história dentro dela. Mas nem tentei porque para inventar histórias de verdade dentro de casas abandonadas é preciso um tempo longo e vagaroso que ainda não conquistei.


Vou parar de escrever. Sinto que o texto que estou a escrever anda por aqui à toa, sem se ater a caminhos, todo ele zanzando, espreitando recantos, cheirando as palavras, perseguindo os sons que por aqui andam a rondar. Talvez, lendo-o, não se perceba o seu sentido até porque não sei se ele tem sentido. Talvez tenha, apenas, os meus sentidos misturados nele.


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo. 
Saúde e alegria.

sábado, novembro 10, 2018

Emília Cerqueira, a amiga do Silvano, a laranja que quando nasceu já não era virgem, que entra nos computadores dos colegas e que mostra uma de duas: ou que é perigosamente ignorante ou que é escandalosamente descarada.
E eu pergunto: aquele grupelho de deputados do PSD é todo formado por gente que faz de tudo para parecer inconsciente, ignorante e tola? Não há ninguém que se aproveite?


É geralmente quando ando no carro que me é dado testemunhar revelações que me deixam à beira de cair para o lado. Como vou a conduzir, não caio: mantenho-me sentada. Mas é um problema porque, qualquer dia, numa destas, tenho um ataque de apoplexia e não sei o que acontece.

Ainda hoje. Saí da Antena 2, passei pela Smooth e fui aterrar na TSF. E aí ouvi uma voz que arranhava e tive curiosidade de perceber a que desagradável criatura aquela voz pertencia. Era alguém que falava com sete pedras na mão. E tudo o que dizia era disparatado. Que eram umas virgens ofendidas mas que ela, que é do Alto Minho, sabe que não há virgens. Como estava no carro, não consegui rebater. Mas se lá estivesse, naquela pseudo conferência de imprensa, tinha-lhe dito que estava a pensar na Nossa Senhora e em mais uma data de gente que aposto que é virgem. A ver o que ela dizia. Mas, na altura, ainda não sabia a quem pertencia aquela voz desagradável Só sei que, ouvindo o que estava a ouvir, apenas me ocorria aquela velha máxima do meu marido, aplicada em situações análogas: 'esta gaja ou é parva ou come merda às colheres'. E sorry for my french mas, calma, como estava sozinha no carro não o verbalizei, apenas pensei. Mas, quando apurei o ouvido e a conversa se desenvolveu, percebi, então, que se tratava da ghost do vice do Rio, o ilustre Silvano, ou seja, a voz pertencia àquela mão secreta que marca a presença do inteligente Silvano quando ele está ausente.

Mas continuando.

Lançava a criatura, Emília Cerqueira de seu nome: Se alguém nunca usou password alheia que diga. Tive vontade de abrir a janela do carro, gritar para lhe dizer: Emília! Ó Emília! Eu nunca usei! Depois a criatura, usando aquela espécie de facécia tão típica dos ignorantes que não têm consciência do tamanho da sua ignorância, dizia qualquer coisa como: Em todo o lado (acho que ela disse: em qualquer instituição), se alguém quiser colaborar com outra pessoa, como a documentação está no computador dessa pessoa, tem que usar a password do 'dono' do computador.

E eu ouvia e não queria acreditar. Então, se ela colaborar com alguém que viva na China e outra pessoa na Patagónia, tem que ir à China para entrar no computador de um e ir a correr à Patagónia entrar no computador do outro?

Muita burrice para ser verdade.

Mais: se há um conjunto de deputados ignorantes que julga que, nos dias de hoje é assim que se trabalha, alguém que os meta numa banheira digital durante um ano, os faça estar imersos de manhã à noite em literacia informática e não os deixe ver a luz do dia enquanto não derem provas de não serem um risco para a segurança das organizações.

Mas mais: no meio de tanta estupidez, o andar a 'picar o ponto' pelo colega (e já lá vou*) quase me parece pormenor -- porque grave, grave, é esta prática promíscua de, pelos vistos, uns quantos inconscientes e ignorantes andarem a fazer-se passar uns pelos outros, entrando nos computadores e nos documentos uns dos outros, fazendo-se passar uns pelos outros. A rastreabilidade do que fazem e a responsabilização pelos seus actos, a ser verdade o que a criatura diz, é nula. E isso parece-me suficientemente grave para que Ferro Rodrigues ou alguém responsável pelas boas práticas na Assembleia abra urgentemente um inquérito e proíba que alguém volte a fazer tal barbaridade.

* Agora sobre aquilo de bastar entrar no computador dos deputados para que, automaticamente, se admita que está ao serviço o que tenho a dizer é que, se é verdade, alguém que justifique a razão de ser dessa aberração. Se não é, alguém que diga à Emília que vá dar banho ao cão em vez de a andar a querer fazer passar os outros por burros. Mas o drama é que, na volta, é capaz de ser verdade. Daí, o Silvano já ter dito que muitas vezes só passa pelo Plenário para picar o ponto. Pudera, se basta entra no computador para assinalar a presença e receber a senhazinha, para quê a maçada de ali ficar a aturar aquilo, né? Entra-se no computador e está o dia feito. Lindo.

Portanto, não apenas esta sandice do Silvano e da sua amiga Emília mostram o lado manhoso, rançoso, ignorante, chico-esperto de parte do PSD (e tanto mais quando ela diz que aquilo é prática corrente entre os seus colegas do PSD), como nos deixa uma tremenda dúvida: será que não é apenas no PSD? Será que parte significativa dos deputados, nossos representantes, é isto: irresponsáveis, inconscientes, parvos?

E uma pergunta para Ferro Rodrigues ou para a estrutura de gestão da Assembleia da República: os deputados não sabem o que é o RGPD? Os dados pessoais na Assembleia da República estão ao dispor? Podem ser acedidos assim tão facilmente por outras pessoas? E os deputados nunca tiveram nenhuma formação em segurança informática? Não sabem que a regra número um, número dois e número três é nunca, por nunca, dar a password a quem quer que seja?

Ai. Que susto.

É com nódoas destas que a democracia se fragiliza: são nódoas destas que abrem a porta ao populismo.

sexta-feira, novembro 09, 2018

O Silvano das baldas, o germânico Rio dos iogurtes
-- e o homem dos pretos que roubam namoradas.
[... Mas anda tudo doido ou quê....?]



Vinha a chegar a casa -- e juro que isto é rigorosamente verdade -- e, no passeio, um homem bastante alto, talvez uns quarenta e muitos anos, talvez até cinquenta e poucos, bem vestido, um saco ao ombro, uma mala de desporto na mão, seguia devagar enquanto falava alto ao telemóvel. Já era de noite -- o que não admira porque se às seis é de noite, fará quase às oito -- e apenas uma ou outra pessoa passavam a caminho de casa.

Calhou eu ir na mesma direcção, atrás dele. Tinha passado pelo supermercado e vinha devagar, com a carteira ao ombro e as compras na mão, tentando não deixar cair a caixinha de infusão de gengibre ou o de camomila ou o saquinho dos miolos de amêndoa. E, portanto, não pude deixar de ouvir a animada conversa. O outro com quem o grandão falava devia dizer piadas porque ele se ria muito. Quase parava para rir. Depois foi a vez dele falar. E disse, com voz alargada de sorrisos e boa disposição: 'Fui lá ver. Aquilo é bom. Tens que lá ir. Combinamos, vamos os dois. Diz quando queres, Vamos. Gostei, pois.' O outro disse qualquer coisa ao que ele respondeu: 'Lá nos Jerónimos? Fui, mas não. Não, não, não presta. Tou-te a dizer. Não presta. Não vale a pena.' A voz animada, voz de conhecedor, a confiança de quem tem dicas para dar e vender. E continuou: 'Nas Descobertas? Ná... Não fui. Sabes o que é que o outro rapaz me disse? Olha, avisou-me: lá nas Descobertas tá cheio de pretos. Uma pretalhada. Se apareces com uma namorada, os pretos sacam-na logo, sais de lá sem namorada.' O outro disse qualquer coisa e ele continuou: 'Achas que vale a pena ir a um lugar assim? Ná. O rapaz contou-me como é. Ná. É que, tás a ver?, íamos com duas namoradas e no fim os pretos é que ficavam com elas. Ná. Não vale a pena'. 

Por esta altura, ultrapassei-o e perdi o fio da conversa. Discretamente ainda olhei para trás. O homem parecia normal, diria mesmo com bom ar. Mas esta conversa foi muito estranha. É que nem consigo descodificar. Uma coisa tão sem sentido que apenas bateria certo se o homem fosse retardado. Mas pareceu-me tudo menos isso. 

Portanto, não sei. Mas juro que isto se passou tal e qual assim.

Só me ocorre dizer que toda aquela conversa foi tão disparatada e fora de propósito como a do tal Silvano que se deve achar um chico mais esperto que os outros ou como o Rio com aqueles dispautérios do prazo de validade dos iogurtes ou a responder aos jornalistas em alemão. Olha-se a tentar perceber se há ali algum atraso mental e dir-se-ia que não, pelo menos não parece, mas, a sério, qual a lógica das parvoíces que fazem e dizem? Juro. Não percebo.

(E estas do Silvano e do Rio também são verdade, as coisas também estão a passar-se rigorosamente assim.)

Se tenho que concluir alguma coisa acho que só pode ser isto: parece que anda tudo doido, doido varrido.


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Por estas e por outras é que é bom fazer-se ioga, arroioloterapia, tricoterapia e etc.

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O novo ioga.
[Este pratico eu com uma perna às costas]




Pois vos digo que se me vou um bocado abaixo e quase aterro -- ou por cansaço, excesso de trabalho, embrulhadas profissionais, preocupações familiares ou o que seja -- a verdade é que o meu organismo tem umas formas curiosas de dar a volta. E falo no meu organismo e não na cabeça porque a coisa não resulta de elucubrações ou mise en place de estratégias de qualquer espécie. É completamente involuntário. Simplesmente parece que viro a página e entro num filme diferente. 

Nesta recente revoada de virada de página para a qual arrastei o meu marido, reorganizámos os livros, reorganizámos a zona de escritório, trouxemos uma poltrona para a zona que agora é exclusivamente de leitura, rependurámos quadros, espelhos, reposicionei bibelots. A casa agora está diferente e uma das salinhas pequenas in heaven também. E ando entusiasmada como se me tivesse mudado para uma casa nova.

[E calma: não estou, com isto, a dizer que sou especial por ser assim. Isto pode apenas significar que não sou boa da cabeça.]


No outro dia, vi na Area 8 uma espécie de pequena árvore, só uns estilizados troncos com luzinhas nas pontas.  Está a ser vendida como enfeite de Natal. E eu tenho uma igual. O meu marido diz que a comprei lá o ano passado. E eu tenho a certeza que não, que a comprei num chinês por um terço do valor. Não interessa, o que interessa é que andei à procura dela e, depois de a encontrar, coloquei-a em cima de uma das estantes baixas aqui da sala para servir de candeeiro. O meu marido refilou quando me viu a andar nisto. Disse que era uma palhaçada pôr um enfeite de Natal a servir de candeeiro. Mas, quando o viu aceso e constatou o bom ambiente que traz à sala, já não disse nada. Tão bonito e agradável que fica.

Também fiz outra coisa: no que era o quarto da minha filha, tinha um candeeiro de pé, todo xpto, Pensei que ficava bem ao lado da poltrona de leitura. Carreguei com ele para lá. Tem leds na pontinha de cada arabesco. Infelizmente só três é que acendem. Mas fica mesmo bem ali. Temos que substituir os que não acendem. Mas o candeeiro fica mesmo bem. Tomara que, com leds novos, todas as pontinhas acendam.

E estou cheia de vontade de, também aqui, na cidade, durante a semana, voltar a fazer arraiolos. Só que a carpete que cá tenho a meio não apenas é enorme como é daquelas com desenhos do piorio (do género destes dois que aqui vos mostro, um dos quais está aqui sob os meus pés, e que fiz tempos atrás). Para além disso vai trazer-me um apontamento de desarrumação a esta sala que agora anda tão linda. E, last but not the least, vai impedir-me de estar tanto tempo de volta do blog (e de leituras diversas). Esta que tenho para acabar está arrumada num lugar muito alto, terá que ser o meu marido a ir lá buscá-la e ele não tem estado muito para isso. Hoje, por exemplo, com o jogo do Sporting, não quer que eu o distraia por nada desta vida. 

Mas isto veio a (des)propósito de um artigo que li sobre a tricoterapia (Relaxation, confiance en soi et anti-stress : comment la tricothérapie nous fait du bien). Há até um livro que diz que o tricot é o novo ioga.

Já no outro dia eu aqui me tinha interrogado sobre se a leveza de espírito que sinto quando faço tapetes (ou quando escrevo; mas também se fizer tricot ou pintar ou fotografar) não será uma forma de meditar. Fico de tal forma alheada de tudo o resto, tão focada naquilo, que esqueço tudo o que me possa preocupar.

Não sou, por natureza, dada a stresses, a estados de afeliação (isto é, a curtir o fel próprio). Sou muito primária -- esqueço-me rapidamente do que me chateia, desligo-me facilmente de maçadas, ponho para trás das costas aquilo que me desagrada, e parto para outra -- pelo que, que me aperceba, não procuro estas actividades para esquecer agruras ou para me descontrair mas apenas porque sim, pelo simples prazer de as executar. Mas a verdade é que, enquanto estou absorta nisto, as minhas mãos andando sozinhas, a cabeça desligadamente observando as mãos, me sinto como a mais inocente, livre e despreocupada das criaturas.


Existem escolas de tricot que são espaços de convívio e bem estar, existem manuais, vídeos. Etc. E há o autodidactismo que, na verdade, é a minha onda.

O artigo fala no bem estar que é estar a fazer uma coisa destas, confortavelmente, com uma mantinha quente, uma caneca de chá para ir bebericando, num espaço confortável. É assim que, quando está frio, gosto de estar. In heaven, junto a isto o calorzinho da salamandra ou da lareira.

Por algum motivo que desconheço, parece que, por cá, estas actividades caíram em desuso. Nenhuma das minhas amigas, familiares ou conhecidas se dedica a isto -- com excepção da minha mãe que é devota praticante (está, neste momento, com uma encomenda em mãos: duas camisolas e dois casacos para quatro dos cinco bisnetos. Para o bebé nada foi pedido pois herda tanta roupa que raramente precisa de mais). Comentei com ela isto de dizerem que o tricot é o novo ioga e ela concordou, diz que estes trabalhos manuais (tricot, crochet, costura) é o que a tem ajudado a superar tão bem as agruras da sua vida tão complicada. Isso e ler. E eu acredito que sim.


Note-se: Apesar de toda esta apologia deste tipo de trabalhos manuais e apesar de admitir que o mais certo é o ioga não ser para mim, ainda não desisti de o ir experimentar. Mas tudo naquilo me faz hesitar: para começar acho que algumas daquelas posições parecem esteticamente muito interessantes mas se e só se a pessoa estiver bem ginasticada, sem um grama a mais -- assim como esta menina aqui em cima. Agora se a pessoa não for capaz de se virar do avesso com as pernas ao alto, presumo que seja sobretudo um bom motivo de galhofa, incluindo para o próprio.

Mas adiante.

quinta-feira, novembro 08, 2018

Serpe.
As três águas do encanto.





Tenho ideia que seria um ano mais velha que eu. Muito discreta. Estudava o mesmo que eu mas nunca a via por lá. Era prima do primo dele. Eram muito amigos. Encontrava-a nesses encontros familiares, nunca na escola.

Quando dei aulas, encontrei-a na mesma escola. Sempre muito discreta. Eficiente, cumpridora, espírito rigoroso. Via-me a mim própria como uma diletante, turista acidental ocasionalmente professora. Ela não, como se professora desde a nascença.

Deixei de ser professora, ela continuou. Fisicamente igualmente discreta, sem nunca elevar a voz, sem extroversões ou, sequer, estados de alma à vista, era respeitada a ponto de vir a ter cargos de direcção. Sempre quase silenciosa mas sempre muito objectiva, sem uma palavra a mais ou a menos.

Depois teve uma menina e um menino. A menina era engraçada. Pequenina, alegre, bem disposta. O menino tenho ideia que mais calado. Mas a menina, era a mais nova das meninas e as mais crescidas achavam-lhe graça. A mãe, como sempre, discreta, sem alardear gracinhas da sua menina.

Fui perdendo o rasto. Diziam-me da menina, entretanto já adolescente: estuda teatro. E eu pensava: que engraçado, pequenina, alegre, bem comportadinha; e a gostar de teatro, quem diria? Preconceito meu. Como se para se ter vocação para o teatro se tivesse que ter nascido exuberante, palhacita, sem inibições ou freio na língua. 

Mais recentemente, eu comentava: nunca a vi na televisão, em telenovelas ou em reportagens sobre peças de teatro. Esclareceram-me: não, é contadora de histórias. Nem fui capaz de perguntar nada. Não sabia que havia isso de 'ser contador de histórias'. Pensei para mim, cheia de dúvidas: mas contará histórias a quem? E pagar-lhe-ão para isso? Intrigada, eu, e a confirmar: cada vez sei menos deste mundo.

No outro dia: sabes? lançou um livro de poesia. Eu ainda mais espantada. Ela? Poesia? Pelo sim, pelo não, perguntei qual o nome que aparecia. Conheço-a pelo petit non, nunca lhe soube o nome completo. Disseram-me. Não fazia ideia.

Hoje, com mais uns minutos e com vontade de entrar numa livraria, o meu marido disse-me: se não conseguires resistir, traz livros para os miúdos. Já era essa minha ideia. Tinha pensado: vou trazer um livro para os meninos, para mim não. Mas, depois de ter os livros para os meninos, mesmo sabendo que não ia trazer nenhum para mim, quis ir vê-los. Meia triste, deslizei entre estantes e escaparates. Folheei um ou outro, abstémica, forçando a distância. E, então, nem eu me lembrava já da conversa de dias antes, lá estava: 'Serpe - As três águas do encanto' de Ana Sofia Paiva com ilustrações de LigeiramenteCanhoto. Que engraçado: a menina pequenina já cresceu e publicou um livro a sério, e logo um de poesia. Folheei. Espantada. Tão bonito, tão diferente, tão original, tão delicado. Claro que o trouxe. Este não conta para contabilizar incumprimentos meus, este é especial. Trazê-lo não foi pecado, foi mera justiça, mera obrigatoriedade. 

Tenho estado a ler. Espantada. Quem poderia imaginar? Que distraída sou para nunca ter intuído. E que orgulho nela devem ter os pais. Que engraçada é a vida, sempre tão cheia de surpresas.

Transcrevo um pequeno excerto do livro que, até graficamente, é especial.


A tarde é hoje, anunciada.
Venho pressentindo há semanas esta solidão.
Já tinha visto as folhas, cheirado
a música ao silêncio do crepúsculo.
Venho pressentindo, sim.
E ao pressentimento poderia chamar
outono, como toda a gente,
melancolia ou apenas isso -- solidão.
Mas não.

A tarde é hoje, anunciada.
E chamo-lhe somente lassidão.

Lá vem, estendendo ossos
terrenos, muito plácidos,
num bocejo quente de areias.
Outono que se faz com teias
de leves carícias langorosas
de alguma erva adormecida e mole.

Outono: sequidão de um fole
embalando as horas açucenas.
Um breve piano tocado apenas
pelo calor sem sol -- só.
Brisa arrepiando notas ao silêncio,
a doer, devagar.
Serena idade.

Outono: reverso da saudade.
Outro nome para dizer adeus.


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Quando aquilo de saber que ela era 'contadora de histórias', fui ao YouTube. E cá está ela. Já não é menina, já é uma mulher. Bonita, interessante, expressiva. Contadora de histórias. Investigadora. Poeta. Noutro vídeo vejo que também canta, noutros vejo entrevistas. Talentosa. Mas, curioso, comedida e sóbria como a mãe. 

Aqui abaixo, contando um conto angolano. Quem diria...

[E, ao mesmo tempo, penso: parece que, não há muito, eu era a menina de quem as amigas da minha mãe diziam: cresceu, está uma mulher; mas mantém as mesmas feições, a mesma maneira de rir. Agora sou eu que me espanto de ver como as meninas de há pouco já são mulheres. E mulheres cheias de surpresas mas com as mesmas feições, os mesmos olhos cheios de vida]



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As fotografias foram feitas in heaven no último fim de semana. As três moldurinhas têm uns bordadinhos que fiz há mil amos, sem desenho, apenas pelo simples prazer de bordar.

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quarta-feira, novembro 07, 2018

Banksy, Lisbon calling. We will welcome you.
Ofereça-nos uma provocação. Saberemos acarinhá-la.



Venha mais cedo, parta mais tarde. Ou venha antes. Ou venha depois. Saberemos dar-lhe casa enquanto não encontrar o melhor sítio, saberemos protegê-lo enquanto, na calada da noite, estiver a deixar a sua marca, a sua ironia estampada num muro. Seria melhor no verão, os dias maiores, a luz de Lisboa mais pura, as pessoas na rua, deitadas à beira-rio. Mas Lisboa é sempre Lisboa e a luz de Lisboa é sempre a luz de Lisboa. Mesmo em fevereiro. Mesmo se noitar cedo, mesmo se nevoar ou chover, Lisboa sabe mostrar a sua beleza. 

Provoque-nos, provoque o mundo. Sinta o espírito do lugar e goze com os nossos mixed feelings sobre as touradas. Ou goze com com os nossos brandos costumes ou com a Madonna que já é quase made in Portugal, goze com os navios enormes a despejarem turistas, goze com o que quiser. Ou enterneça-nos. Mostre a nossa alma gigante, mostre a entrega sentida de quem canta o fado e toca o coração do mundo, mostre como a partir deste país pequeno nos abalamos a conquistar o mundo. O que quiser. O que quiser oferecer-nos será recebido com todo o nosso apreço.

Waiting for you, Banksy. Faltam só três meses e uns dias.



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E queiram descer até a uma declaração absolutamente fatal
. É já no post abaixo.

Fatal




Fatal. Fatal como o destino. 

Nem mais nem menos. Isto mesmo. E os muito novos que me desculpem. E os muito velhos também, se a indecisão já passar da conta. É que tudo tem que estar no ponto certo. Sou exigente, se calhar um pouco niquenta, na volta ponho defeito onde outros vêem petisco. Mas é o que sou. Dourar a pílula para quê? Não sou perfeita. Orgulhosamente imperfeita, confesso.

E digo isto porque, se me ponho a querer definir, os requisitos parecem demais e parece que contraditórios. Mas são mesmo assim. Especifico. Pelo menos, tento. Comigo nem prato muito cheio, muito vulgar, tempero pouco cuidado, nem coisinha pouca, arte infantil, pratinho vazio com um salpico ao canto e uma ervinha a enfeitar. Não, nada disso. Tem que ter sabor inusitado e muito bom, tem que atrair o olhar, tem que ser na conta certa. E tem que ter beleza, graça, sabedoria, singeleza e malandrice, tem que saber pensar, surpreender-me com as suas metáforas, tem que usar a palavra como se fosse uma espada afiada porém delicada, como se fosse uma flor, um véu, um beijo, uma vénia, uma armadilha, um abraço, um ponto no infinito, um abismo, um afago, um desafio, uma imprevisão, um enlevo. E tem que olhar, saber olhar é muito importante, e, olhando-me, tem que saber desvendar-me. Mas não abusar da descoberta. Tem que ser capaz de guardar segredo. Mesmo que, um a um, vá desocultando os mistérios, tem que deles guardar segredo. E deve ser capaz de ouvir com reverência a música mais pura, o canto mais divino. E deve gostar de árvores, muito. Tanto ou mais do que eu. E tem que saber percorrer a minha pele. Com o olhar, com a mão, com a sua pele. E tem que apreciar os silêncios e tem que respeitar os meus vagares. 

Portanto, não é qualquer um. Não senhor. Tem que ser alguém especial. Raro. E tem que querer ser meu. E, sendo meu, tem que saber ser livre.

Mas mais vale deixar a Adélia falar que ela introduz bem o tema. 

Fatal

Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma actriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se me dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperar que ganhem indecisão. E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.

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E nada de conclusões precipitadas. Nem tem que ser anjo, nem minotauro. Poderia dizer que talvez in between mas sei lá. Aliás, nem interessa. Nada pior do que definições.

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O primeiro desenho é de Rodin, o segundo de Picasso. Renée Flemming interpreta Sempre libera de Verdi (na Traviata) e Serge Polunin dança como um anjo ao som de Evermore de Kai Engel. O poema Fatal, como referi, é de Adélia Prado.

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terça-feira, novembro 06, 2018

E, enquanto isso*, a família Lopez mantém a sua comovente esperança num mundo melhor


* O asterisco tem a ver com o post que escrevi antes. Enquanto acontecem coisas como abaixo refiro e enquanto estupores encartados, populistas demenciais e perigosos, fazem da vida dos desesperados uma bem sucedida bandeira eleitoral -- desesperados esses que apenas tentam alcançar algum refúgio ou um El Dorado que há muito é apenas uma miragem --  as estradas enchem-se. É a caravana. E são pessoas, tão pessoas como nós que ali vão. No caso que aqui mostro, tentam chegar aos Estados Unidos. Vêm das Honduras, de El Salvador e da Guatemala e querem trabalhar, querem uma vida melhor. 
E eu, vendo esta gente, não consigo deixar de me admirar com o seu optimismo, a sua coragem, a sua resistência física. É comovente como conseguem manter o aprumo. Uma das raparigas que fala, sorrindo enquanto fala, tem brincos, está bem penteada. Lavam-se na rua, banham-se se encontram um rio; e lavam a roupa pelo caminho, riem, caminham, caminham, e mantêm a chama da esperança bem acesa. As crianças são uma ternura. E é enternecedor ver como os mais velhos acarinham as crianças de colo. Quanta valentia, quanta resistência física.

Vêm de países dominados por cartéis de droga e bandidismo, vêm de países governados por doidos varridos, de países sem lei. E não há instância que consiga ajudar estas populações. Escorraçados dos seus países são impedidos de tentar a salvação. Destinos cruéis. E quem os poderia ajudar, faz deles bandeira contra a ajuda, contra a inclusão.

Que mundo perigoso este. Vejam, por favor. 



Entretanto, à sua espera, eis o que está a ser preparado para os impedir de entrar. Uma angústia.


Votar nos States com uma ajudinha do Randy Rainbow.
Isto enquanto a Menina Elisa Isoardi anuncia a separação de Matteo Salvini, mostrando-o nu, na cama, em posição de chamego.


Imagino que ao longo dos tempos sempre tenha havido isto de algumas pessoas acharem que se caminha a passos a«largos para o fim dos tempos. Ou isso, ou que se está a bater no fundo. Ou que, depois disto, só a hecatombe. Portanto, não creio que faça parte de algum grupo de vencidos da vida new age ou que esteja a ser minimamente original. Desiludidos e descrentes sempre os houve e, enquanto por cá andarmos, sempre os haverá.

Não tenho conta de Facebook, Instagram, WhatsApp, Twitter e não apenas isso não me atrai e não me é útil como considero, e desde o início o considero, que mais do que plataformas de partilha, elas facilmente podem ser usadas como armas contra a liberdade e contra a democracia. E isto não apenas pelas ferramentas em si como pela forma desregulada como são utilizadas. Claro que há formas legítimas de as usar, mas mesmo essas podem alimentar armas ilegítimas (como tem sido sobejamente noticiado e como, certamente, na maioria dos casos, nos é ocultado).

Está provado que grande parte da população tem hoje, como principal fonte de informação, o que circula nas redes sociais. Mais: está provado que, mesmo que inúmeras vozes credíveis denunciem a falsidade de parte dessa informação, as pessoas acreditam mais facilmente nas mentiras do que nas denúncias de falsidade.

E isto acontece porque os humanos são bichos dados à burrice. Ainda recentemente vivi uma situação em que uma criatura, tida como uma estrela, e venerada e paga como tal, mentiu, tomou decisões erradas, umas a seguir às outras, causou estragos de monta e, quando alguém tentou alertar para o que estava a passar-se, foi apontada como desagradável, como alguém que apenas quis denegrir a imagem de uma estrela. Mesmo perante evidências, claras como a água, as pessoas preferem acreditar em histórias nebulosas, mal contadas, manipuladas. A verdade por vezes é crua, pode ferir a vista. Por isso, grande parte dos humanos prefere filtros, névoas, embustes.


O que se passou e passa nos Estados Unidos, o que aconteceu no Brasil, o que acontece em Itália são exemplos do que acabo de dizer. Tudo o que aqueles populistas, ignorantes e estúpidos têm dito e feito, deveria merecer um drástico repúdio, um valente chega para lá. Mas não. Os seus defensores continuam a defendê-los. Porque são igualmente ignorantes e estúpidas, por preguiça, por cegueira...? Não sei. Presumo que por um misto de tudo isso.


Hoje foi notícia que a namorada de Matteo Salvini, o populista direitolas de Itália, anunciou no Instagram que estão separados. E qual a melhor forma de o anunciar? Pois bem: com uma fotografia de ambos na cama, ele aparentemente nu, ela de roupão, perna ao léu. Tudo bizarro, estúpido, injustificável. Qual a lógica de anunciar uma separação numa rede social? Qual a lógica de o fazer ostentando uma fotografia mais ou menos íntima? Qual a lógica disto quando ele é o rosto de um governo que envergonha os italianos* e a Europa? Zero. Lógica nenhuma. Mas é o fruto do tempo, quiçá o novo normal.
* Isto numa altura em que Itália pasma com a anormalidade do dito animal que, perante o drama das cheias, faz uma selfie a andar de barco em Veneza, todo pimpão, a fazer um like. Houve um tempo em que nos governos havia estadistas, gente de bem. Gente, pelo menos com decência, com bom senso. Agora é isto. E é nisto que a maioria anda a votar.  
Entretanto, os Estados Unidos vão a votos  e eu estou curiosa para ver o que se passa. Provavelmente os que gostam de andar armados até aos dentes e que têm fobia de imigrantes e de comunistas em geral, seja lá o que isso, nos States, significar, irão votar em Trump como antes votaram. Não há evidências que lhes entrem pelos olhos adentro porque, simplesmente, se recusam a ver. 

Salva-se o humor e, de novo, aqui trago Randy Rainbow a quem acho graça pela irreverência directa, sem meias palavras. Pode ser que consiga influenciar três ou quatro indecisos.


segunda-feira, novembro 05, 2018

Esperem lá: O "Casados à primeira vista" afinal é um reality show?
[Mais valia era porem um microfone e uma câmara atrás da malta que gira em torno de Tancos para a ver se a gente percebe quem é que anda a mentir neste filme]


Bem. Se vos contasse o meu dia não acreditavam. Se amanhã me conseguir mexer só vos digo que é milagre. Uma coisa do além.

São quase onze horas e agora é que acabei de jantar. 

Claro que já tratei da lida doméstica. O problema é que a lida doméstica começou tarde e más horas. 

Uma loucura. Ao telefone agora com a minha filha, ouvi das boas, que somos malucos. Se calhar, somos. 

Como estávamos no estado em que estávamos e como tinha roupa para lavar, roupa para arrumar, sopa e arroz de carne para fazer, pagamentos a fazer e unhas a pintar, achámos que o melhor era mandarmos vir uma piza. Mandámos. Com a chuva e provavelmente com muita procura, chegou hora e meia depois do pedido. Já meio fria mas boa e, além disso, tanta a fomeca, que marchou que nem ginjas.

Mas isto para dizer que, ao sentar-me agora aqui na minha sala (que está como nova!), liguei a televisão e dei com uma cegada, gente mal disposta, meninas birrentas, um pobre de óculos que, penso que na lua de mel, até chorou tal foi o destrato a que a briguenta da mulher o sujeitou, psicólogos ou sei lá quem a darem música aos casais... e fiquei a perceber que afinal aquilo dos casamentos não é one time shot. Não tinha percebido: pensei que o objectivo era uma equipa polivalente descobrir o par certo entre os candidatos e que a coisa se extinguia com o casamento ou, no máximo, que talvez houvesse algum ponto de situação ao fim de algum tempo. Mas não: dá ideia que as câmaras andam sempre atrás deles, gravam as conversas, uma coisa invasiva. Um reality show.

Uma coisa estranha. Já achava extraordinário -- mas não censurável, aliás, até curioso -- que as pessoas escolhessem este método para arranjarem parceiro mas agora acho um bocado estranho que aceitem sujeitar-se a uma coisa como esta. Uma pessoa expor-se desta forma, expor a sua intimidade, as suas inseguranças...? Que coisa tão, tão estranha.

Por vezes, tantas e tantas são as situações em que me sinto fora deste mundo, que até tenho que me esforçar para não ficar a pensar que tenho alguma pancada.

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Sobre Tancos não consigo dizer nada a não ser que tanta tramóia num milieu que devia estar reservado a gente séria também me deixa a pensar que tudo aquilo é tão estranho que, na volta, eu é que não tenho QI que chegue para compreender que forrobodó é aquele. Não seria de também transformarem aquela cena num reality show para a gente acompanhar em directo as traições, as aldrabices, os conluios, as ratices, as fofocas, as rasteiras, as facadas nas costas?

Ó Professor Marcelo, Presidente, pense lá nisso. Mande distribuir microfones e ponha a malta dos Big Brothers desta vida a seguir os GNR de Loulé ou do Vale da Gatinha, a PJ, a PJM, o SIS, os sargentos, capitães, generais e tutti quanti, a ver se conseguimos perceber alguma coisa desta história mal contada. Pode ser?

domingo, novembro 04, 2018

Prazeres antigos e sempre como novos
-- isso, cores lindas e o cheirinho bom a lareira.
Talvez seja o outono que vem chegando. Tão bom.




Ora bem. É como andar de bicicleta: não se esquece, não se perde a mão. Já dei um bom avanço. Tão bom. Há quanto tempo... Como consegui estar tanto tempo?

Esta que aqui está é daquelas em que vou fazendo, sem desenho, como se pintasse. Os que têm desenhos complicados estão na cidade. Aqui, in heaven, sempre preferi coisa que eu possa fazer assim, tranquila e desatenta, para não ter que estar concentrada a seguir o guião. Para este, a minha ideia era fazer um tapete comprido, como uma passadeira, para pôr no corredor que vai dar à sala onde vemos televisão e em que mais tempo estamos. Queria que fosse claro, neutro, sem efeitos especiais, uma coisa apenas para dar conforto e para não distrair a atenção do principal que é a vista que se tem daquela sala.
Fui à cesta, peguei nele, peguei nas lãs, fui buscar o dedal e retomei onde o tinha deixado há uns anos -- e foi como se o tivesse deixado ontem. Que bom que é. Sempre gostei muito de trabalhos manuais.

Na cidade o único tapete que não foi feito por mim é o redondo (que está debaixo da mesa redonda). De resto, todos foram feitos por mim. São, quase todos, réplicas de tapetes genuínos, dos primórdios, século XVII, que estão em museus, quer cá, como o de Arte Antiga, quer em Paris (Arts Décoratifs) ou Londres (Albert and Victoria), por exemplo. Alguns são bastante grandes, carpetes que até a mim me custa acreditar que tenha sido eu a fazer. Mas fui. Olho para elas sempre com algum espanto. Um colega meu uma vez que as viu também se espantou: 'Mas como é possível? Quando vou ao seu gabinete nunca a vejo a fazer tapetes...'


Aqui, in heaven, as duas carpetes da sala de jantar foram compradas em Arraiolas, antes de eu me ter dedicado a este ofício. Mas as que estão nas salas de estar ou no meu quarto foram feitas por mim mas, neste caso, longe de desenhos originais ou de qualquer classicicismo. Apenas o ponto e o preceito são os genuínos, o resto é tudo inventado.

Na fotografia, vê-se não só a que estou a fazer como, embora apenas uma ínfima parte, a que está aqui aos meus pés, uma assim a la Rothko.

Fazer tapetes não é coisa sensaborona: para mim é uma coisa boa. Enquanto bordo, estou a pensar, a ouvir música, a ver televisão, o que for. Provavelmente é uma forma de meditação. Antes de fazer tapetes, fazia tricot. Camisolas com modelos e padrões altamente criativos, algumas com desenhos abstractos. Também fiz camisolas para o meu marido mas, aí, muito normais (e que, portanto, não me davam grande gozo a fazer). Para os miúdos nunca me deu para fazer porque a minha mãe e uma tia do meu marido encarregavam-se disso e, além do mais, eles não apreciavam ir para a escola vestidos com camisolas que achavam artísticas demais. Também já me dediquei ao crochet: panos de tabuleiro, toalhas de chá, uma toalha de mesa grande e uma colcha. 


Já em adolescente me ocupava de coisas assim: almofadas bordadas em bastidor e sei lá que mais.

E tudo isso me dá vontade de ter mais tempo para tudo, porque de tudo eu gosto e o tempo não me chega para esse infinito tudo.

Tenho aqui ao meu lado o Kundera, 'Os testamentos traídos', que vim a ler no carro e que bastante prazer me está a dar, mas agora à noite estou preguiçosa, não me apetece ler, apetece-me estar aqui, com as mãos em acção enquanto a cabeça voa. Na volta também escrevo, as mãos também voando sobre o teclado, para dar uso às mãos -- a escrita como uma forma de artesanato.

E tudo isto, arrumações, tapetes, escritas, fotografias e tudo o mais é terapia e terapia das boas porque a gente nem chega a precisar de tratamento porque ter a cabeça e as mãos ocupadas evita qualquer nó ou buraco negro na cabeça.


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As árvores que aqui se vêem, excepto na última fotografia, aqui mais abaixo, não são de cá. Foram feitas ao início da tarde, antes de virmos. Tínhamos estado a esfolar o rabo às arrumações e já era tarde. Almoçámos e demos um pequeno passeio.

Não sei porquê os áceres nunca vingaram aqui, in heaven. Fiz várias tentativas mas nenhuma resultou. Até um cedro japonês, daqueles que no outono fica ao rubro, não vingou. A terra tem destas coisas. Uma questão de química: se o santo da terra não cruza com o santo da árvore, a coisa não acontece. Digo eu.

Mas não há árvore mais linda para nos enternecer com as suas cores abstractas do que o ácer. Emociono-me a olhar para eles. São lindos no Outono.

Aqui, in heaven, tirando a vinha virgem, o que fica mais bonito é o abrunheiro. Fotografo-o encantada, contrastando os seus tons quentes com as folhas do plátano que também já começam a ficar douradas.


Bem. Agora, apesar de já passar da uma, vou fazer um pouco mais de Arraiolos. Ah, coisa mais boa. E vou pôr mais lenha na salamandra. Cheira bem. Não se se é azinheira. Cheirinho mais bom.

Um belo dia de domingo para vocês, meus Caros Leitores. Saúde e boa disposição para todos.

sábado, novembro 03, 2018

Vou ali matar saudades


Só para informar. A tarde esteve linda, o outono está com cores gloriosas, tenho umas fotografias com umas cores que me emocionam, está frio na rua mas aqui está-se bem, a madeira a arder na salamandra traz um calorzinho bom e, não sei porquê, estou com vontade de ir buscar uma passadeira que interrompi há uns anos. Saudades de bordar arraiolos. O pior é se fico adicted e o blog passa para plano secundário. 

Veremos. Nem sei se ainda tenho a mão feita para a laçada firme e o braço robusto para dar conta daqueles pesos.

Inté.

O exantema está praticamente despachado




Acredito que o tema já seja, para vocês, meus Caros Leitores, não um tema mas, sim, um verdadeiro exantema. E, se não é, já não deve faltar muito. A dose tem sido de leão. Reconheço.

Mas deixem que acrescente uns pós. E faz de conta que isto é um diário, que estou a escrever só para mim, não se incomodem a ler, a sério. 

O que aqui quero deixar como apontamento é que, como disse no post anterior, ainda não arrumei os que estão aqui ao meu lado no sofá, ou porque foram os últimos ou porque receio perdê-los de vez assim que me separe deles. Os livros são como as pessoas: a gente pode gostar muito de alguém que, se a vida nos separar, aos poucos a mente vai-se habituando à privação, depois esquece, arranja alternativas (e disse mente como podia ter dito o corpo porque o corpo também é bicho muito arreigado a uma boa afeição) .

E agora que ia aqui dizer quais eram eles, eis que, não sei como, me aparecem outros. Ele há coisas. Juro que não sei. Quem os pôs aqui? É que nem me lembro de os ter visto no chão ou por aí. São as chamadas coisas do caraças. Parece que os livros vêm ter comigo. Tinha hesitado quando tinha arrumado dois da Adélia Prado. Agora olho e vejo aqui outro. Como? Quando o comprei? Não me lembro. Não foi dos últimos. Então como me apareceu aqui ao meu lado? E o Botas? E os escritos de amor do Fernando Pessoa?

Mistérios.


A noite passada sonhei com livros. Havia uma casa com uma escada em caracol. Era igual à do Clube da Marinha no Marquês. Acho que não era Clube da Marinha que se chamava. Seria Clube Naval? Não interessa. Não sei se ainda lá está ou se ainda existe. Era uma mordomia das boas. Uma casa maravilhosa de linda que era. E tinha uma escada em caracol que era uma belezura. Sonhei. E tinha livros à volta, nas paredes em volta. E passava-se para as estantes maiores que forravam todas as paredes por umas pontes que faziam vertigens. Mas eu ia. Andava a tentar descobrir a lógica da arrumação e encantava-me quando a descobria.

Acordei com vontade de continuar a sonhar mas um bocado assustada, com medo de cair daquelas perigosas pontes que ligavam as estantes umas às outras, com passagem pela escada de caracol. Maluqueiras minhas. Felizmente maluqueiras inofensivas.

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As fotografias foram tiradas sem qualquer cuidado. Peguei na máquina e disparei. Isto foi ontem à noite. Pelas horas das fotografias, vejo que passava das duas. Mas, tanto o sono que tive o bom senso de me ir deitar e deixar a inclusão delas aqui no texto para hoje. Entretanto, hoje de manhã já praticamente despachei as arrumações, o meu marido já pendurou os quadros que estavam nas paredes agora ocupadas com estantes e estou feliz da vida. Missão cumprida. E, por dentro, tento encontrar forças para tentar não comprar mais livros nos próximos cinquenta anos. Será que vou conseguir?

Às vezes uma pequena e simples ideia basta para se fazer a diferença


Eu é que tenho razões para estar cansada e o computador é que não mexe. Cheguei a casa relativamente cedo (yes! hoje havia pouco trânsito!) e atirei-me logo à empreitada. Chegou o meu marido e fez o mesmo. Só jantámos já tarde mas esta sala está que não se reconhece. Parece maior, desafogada. Ainda tenho umas coisitas para arrumar mas, yes!, tudo já entrou nos eixos. Tenho ainda aqui ao meu lado uma dúzia deles mas é porque são tão inclassificáveis que tenho a certeza que, no momento em que os encafue num qualquer lugar, logo lhes perderei o rasto -- e, portanto, estou a retardar a separação.

Mas isto para dizer que estamos os dois um bocado estafados mas, aqui que me vêem, estou de cara alegre, pronta para dar ao dedo e que, em contrapartida, o computador, que não mexeu uma palha, é que, vá lá saber-se porquê, não ata nem desata. Estive bem uma meia-hora com isto a empancar a cada passo que dava. Só a pensar, a enevoar-se, a patinar. Já estava a pensar que ia mas era desistir. Poderia tentar despistar o que se passa mas, francamente, a esta hora tenho lá pachorra para inspeccionar computadores...?, caneco, quero é que o computador se dane. Fogo. É que não colabora nem um bocadinho. Não consigo abrir um único site pois, mal lhe clico, o ecrã põe-se-me branco, pasmado, creio que nem a pensar, apenas embasbacado, sem tugir nem mugir. Não me obedece, não reage. Um desatino. Não sei de notícias, não sei se coisa alguma, não consigo informar-me. 

Agora, com muito esforço, abriu-se esta página onde posso escrever e, como se vê -- não vá a brancura invadir o espaço e devorar toda a escrita e, no final, o resultado ser a mesma página em branca com que comecei -- desatei a escrever. Mas agora mesmo, que nem de propósito, de repente, ficou tudo branco. Portanto, não sei se é o computador que está passado, se é a net que desatou a andar a pedal, se é outra coisa qualquer, uma qualquer travadinha de causas nunca vistas,.

Só sei que, no intervalo deste castigo, consegui espreitar os mails e vi um enviado pelo P., a quem muito agradeço a generosidade e simpatia. E, do pouco que consegui ver -- no intervalo de paragens, de silêncios e de intenso nevoeiro --  pareceu bem engraçado.

Pensei: Uma boa ideia não tem que ser rebuscada, artilhada, não necessita forçosamente de grandes meios, não tem que ser aparatosa. Tem apenas que ter aquela pequena coisa que faz a diferença: chamem-lhe graça, chamem-lhe inteligência, chamem-lhe simplicidade.

Esta animação que acompanha a 5ª de Beethoven é uma graça, dá gosto ver. Ou seja, assim ainda dá mais gosto ver a música.


Até já.


sexta-feira, novembro 02, 2018

Book affair -- PdS




Foi desde que me levantei até depois da meia-noite, com intervalo para almoço que foi na praia, seguido de passeio à beira-mar e visita aos meus pais. Mas de tal forma a minha cabeça está nisto que que nem me lembrei de levar a máquina. O mar lindo, prateado, alteroso, as gaivotas em grupo, saracoteando e cavaqueando no areal ou em dançantes voos baixos e eu, com os olhos incompletos, sem poder capturar o momento.

Mas, tirando esse pouco tempo de intervalo, o resto foi aqui de roda dos livros. O meu marido resolveu ajudar e deu um bom avanço. Mas invectivou-me, esconjurou-me, diz que eu nos meto sem trabalhos esforçados, que não havia necessidade nenhuma disto. Mas havia, sim. Agora está tudo na sequência certa, tudo bem acondicionado.

Ainda há uns quantos por aí, daqueles que uma pessoa nem sabe bem em que género encaixam ou em que companhia melhor se sentirão acolhidos.

E há os de gestão, de política, ensaios sobre diversos temas da actualidade -- Chomsky e nessa base. Penso que esses deverão ir para a estante da televisão que, não sei porquê, talvez por ser muito funda e eu aproveitar para pôr as 'peças de museu' -- como o mais crescido um dia se referiu a elas -- acaba por não dar muito jeito.


Mas estou um bocado desiludida pois queria que os livros estivessem mais à larga. A estante das biografias, autobiografias, diários, correspondências, crónicas e entrevistas está a rebentar pelas costuras. E é uma estante enorme. Mas penso que, para esta tenho escapatória. Há três prateleiras que estão ocupadas com colóquios/letras, 'egoístas'e 'ler' e que, quando o meu filho levar os livros dele, podem ir para essa estante. Mas a estante dos de língua espanhola também já está no limite. E mesmo a estante nova dos portugueses, com os que apareceram hoje, está quase sem margem. Isto deixa-me arreliada e com a firme determinação de nem tão cedo voltar a comprar livros. Não dá.

Tenho ainda que dizer que o meu marido, que acabou a faina antes de mim, chegou à noite a queixar-se das costas mas, vá lá, não especialmente furioso. Talvez por reconhecer que eu é que tenho razões para estar furiosa com ele... e não estou. Eu gosto de fazer as coisas com cuidado: tiro todas as bugigangas que estão nas prateleiras, ponho-as em lugar seguro, faço as coisas com calma. Ele não, quer fazer tudo a despachar. Resumindo, pôs uma peça de vidro no chão e, às tantas, distraíu-se e pôs-lhe um joelho em cima. Pimbas, já foste. Pior: partíu uma porta de vidro do móvel do hall dos quartos e isso, sim, é, não apenas prejuízo como uma complicação para mandar fazer uma igual. Diz que eu não a deveria ter deixado aberta. Mas juraria que não deixei. Deve é ter ficado mal fechada e com a velocidade a que anda e sem acender a luz, deve ter roçado nela e, ao abrir-se, nem sei bem como, arrancou-a das dobradiças e pimbas, já foste. Não se percebe a que velocidade teria que ir para aquilo acontecer mas também a mim, estando parada, veio o outro, que estava atrás de mim e que também estava parado, julgou que o semáforo tinha aberto para nós, e pimbas, amachucou-me o carro e partiu-me o guarda-lamas. Acontece. Paciência.

São praticamente duas da manhã, amanhã tenho que me levantar cedo --- e, upsss..., agora é que estou a sentir os músculos das pernas um bocado doridos. A ver se amanhã consigo andar direitinha.


O que concluo da jorna é que esta chatice de as estantes terem prateleiras até abaixo não dá jeito nenhum. Quem tenha casarões e possa ter estantes com fartura, pois que os livros estejam a não menos que a uns setenta e cinco centímetros do chão. É por causa das prateleiras de baixo que me doem os músculos posteriores e superiores das pernas e ao meu marido as costas. Outra coisa que concluo é que livros com formatos esquisitos, em especial, grandes formatos, são um desastre para arrumar. Por exemplo, tenho ali uns livros da Maria Gabriela Llansol com umas dimensões estapafúrdios que nem sei como arrumá-los. Outro que também vai pernoitar fora da mãe é a Obscénica. Uma bananona de um tamanhão obsceno que não cabe em lado nenhum.

Bem, vou retirar-me para os meus aposentos. Deixem ainda que refira que, à hora a que aqui me vêem, a sala está melhor do que estava quando a fotografei: há menos livros no chão ou em cima de tudo o que é sítio e as estante já estão sem interstícios livres. 

Amanhã vou almoçar a um sítio onde há livrarias e faz parte dos meus hábitos de higiene (mental) ir ver o que há de novo. Mas não me aproximarei. A partir de agora vou fugir de livrarias. Os livros que descobri, com surpresa, e dos quais não me lembrava de todo deixam-me firmemente decidida a dedicar-me a eles e não a novos. Vou mas é pedir para me porem uma pulseira electrónica para, se eu entrar numa livraria, tocar uma sirene na polícia.


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A ver se amanhã acabo a arrumação e se não há novo PdS (leia-se: Ponto de Situação) pois acredito que isto seja, para vocês, uma seca à antiga. Mas, depois de tão absorvida nisto ao longo de todo o dia, percebam, por favor, que não me ocorrem outros assuntos. Sorry.