ano novo 2014

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quinta-feira, Outubro 23, 2014

Durão Barroso disse adios, adieu, auf Wiedersehen, goodbye, adeus, e a malta, de pé, feliz, retribuíu: adeus, ó vai-te embora e não voltes a aparecer-nos pela pela frente! Juncker, esse, gritou-lhe aos ouvidos: Tanta austeridade ia rebentando com a Europa, ó cherne de uma figa! e, em alemão, gritou para a Merkel: “A consolidação orçamental, por si só, não traz crescimento”. E os Verdes, esses queridos, na despedida do cherne, fizeram-lhe um vídeo e tudo. 'Bref, Barroso, bon débarras' (que é como quem diz, 'Resumidamente, Barroso, boa viagem').


No post abaixo já vos dei conta da nova que a rádio alcatifa anda a divulgar: Relvas está de volta. Estará? Para onde? O que é que vai mudar na sociedade portuguesa com a vinda de tão ilustre doutor?

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, fala-se de um outro que sai sem deixar saudades.





Nunca percebi como foi possível que uma criatura como Durão Barroso tivesse ido para a frente da Comissão Europeia. Que provas tinha ele dado para que alguém tivesse tido tão peregrina ideia? A sério, não percebi. E, todo este tempo decorrido, continuo sem perceber.

Lideranças fracas são uma desgraça. Se a gangrena dá para avançar não é um peixe balofo que lhe vai fazer frente. 

A Europa esfarelou-se nas mãos deste zero à esquerda. Só fez porcaria. Maria vai com as outras, acobardado, capacho da Merkel, permitiu de tudo um pouco. Aquele ideal de Europa que os europeístas alimentam (crescimento, conhecimento, liberdade, democracia, etc) quase feneceu às mãos (que devem ser papudas, moles, suadas) deste mal encarado.

Sou uma optimista. Estou sempre pronta para embarcar junto de quem olha de frente e parece olhar no mesmo sentido que eu.


Juncker não é um perigoso comunista e eu estou a gostar do que o ouço dizer.



Seja por isso, seja porque a fria realidade dos números — quer dizer, da economia — se está a impor, a verdade é que os dogmas até agora dominantes no pensamento e na acção da superstrutura política europeia parecem estar a ceder. Essa mudança ficou mais clara ontem, com o discurso de Juncker, mais preocupado com o crescimento e a resolução dos problemas sociais do que com a consolidação orçamental.  Draghi está cada vez mais acompanhado na sua determinação de contrariar as orientações de Berlim. Não vai ser fácil, como ainda a semana passada provou a chanceler alemã no Bundestag, quando, contra todas evidências, mostrou a mesma inflexibilidade de sempre quanto ao abrandamento das políticas de austeridade. 

Mas, aparentemente, o presidente da Comissão não se intimidou e, em jeito de resposta, mudou o discurso do francês para o alemão, para avisar: “A consolidação orçamental, por si só, não traz crescimento”. O tempo dirá se este discurso é para ficar.





Juncker voltou ainda a insistir na sua "bandeira", dizendo ser sua prioridade avançar com um plano europeu de investimento de 300 mil milhões de euros em três anos. "O nível de investimento na UE diminuiu em cerca de 500 mil milhões de euros, ou seja 20 %, após o seu último pico registado em 2007. Confrontamo-nos com um défice de investimento que devemos ultrapassar".

A Europa, acrescentou, "pode contribuir para que tal aconteça". "Como é do vosso conhecimento, pretendo apresentar um ambicioso conjunto de medidas de investimento no montante de 300 mil milhões de euros para relançar o emprego, o crescimento e a competitividade. Não posso anunciar desde já todos os elementos que este pacote integrará" mas, acrescentou,  "se nos derem o vosso apoio hoje, apresentaremos esse conjunto de medidas até ao Natal". "Não se trata de uma promessa, é uma afirmação", asseverou.



Espero poder dizer pelo Natal: Temos homem! Temos Europa!



Entretanto, a delegação Europe Ecologie no Parlamento Europeu fez um pequeno vídeo para parodiar a triste figura que ia dando cabo do sonho europeu e que, finalmente, vai de asa, esperemos que para bem longe de nós. Resumidamente, Barroso, boa viagem!






Bref, Barroso, bon débarras por EurodeputesEE


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Os dois cartazes que ilustram o texto provêm do blogue We Have Kaos in the Garden

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Relembro: o Relvas vem já aí.

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quarta-feira, Outubro 22, 2014

Miguel Relvas está de volta? De volta para onde? E será que agora já é mesmo doutor ou ainda é o Vai-estudar-ó-Relvas? - Não sei, só pergunto.


Depois de já ter recebido a informação através de um comentário, eis que hoje tinha um mail com o texto que abaixo transcrevo e que está tal e qual o recebi, com maiúsculas e tudo. Não faço ideia de que se trata e já pedi informações. Certo, certo é que quem enviou a novidade é pessoa que se tem mostrado sempre bem informada, nunca falha uma. 

As coisas que eu tenho sabido... hábitos novos, hábitos antigos, segredos cabeludos que só visto. 

Mas adiante que hoje o que me despertou atenção foi esta novidade sobre o regresso do Relvas:


Já mandou vir o RELVAS para lhe injectar diarreia na cabeça e colocar-lhe as extensões pois o cabelo está ralo e já se vê o coiro cabeludo. Desde que o Relvas saiu, só se encontravam às escondidas, para o MARIANI de Belém não saber. Coitado, a pintura do cabelo era diferente todas as semanas Agora o RELVAS VAI PÔR TUDO NA ORDEM.


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Imagem do saudoso We Have Kaos in the Garden

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O Porto ganhou e o Sporting, coitado, perdeu. O Quaresma salvou o FCP e o Sporting perdeu nos descontos. Coisa da Champions, parece. E mais não sei dizer, não percebo muito de futebol, não daria para comentadora desportiva, não poderia ter uma carreira como a bem fornecida Marika Fruscio, fervorosa adepta do Nápoles. Depois do calendário dos Deuses do Estádio para quem aprecia belos corpos de homem, agora tenho um presente para os apreciadores de bola(s) - se é que me entendem.


No post já a seguir a este mostro um calendário cujas receitas revertem para um fim meritório. E, se os fins justificam os meios, então posso assegurar-vos que os meios são do mais meritório que há - uma rapaziada desnudada e bem alimentada que deixa qualquer um(a) de olhos arregalados. Em tempos, quando eu andava na rua, ouvia, de vez em quando, dizer: 'É só saúde!' e é o que agora me ocorre dizer a propósito daqueles belos pedaços de homem.

Mais abaixo ainda tenho um conjunto de fotografias que mostra o antes e o depois de Renée Zellweger que agora parece a Sarah Jessica Parker ou a Robin Wright ou qualquer outra que não ela mesma.

Mas, enfim, isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra e vou ser rápida.


Começo por dizer uma coisa em que não vão acreditar, sei que parece não bater certo face ao que se vai seguir, mas juro que é verdade verdadinha. Vim para aqui com a pia intenção de me debruçar sobre o Livro de horas IV da Maria Gabriela Llansol e sobre o Bach de Pedro Eiras para escolher parte de um, parte de outro (ele, no livro dele, fala dela). E ia pôr Bach como fundo. Coisa fina, portanto. Tenho um lado bem comportado, juro que tenho.

Mas, antes de abrir o blogue, espreitei a caixa do correio e, entre outras coisas, tinha o vídeo que agora vos vou mostrar, depois espreitei as notícias e dei com o calendário dos Deuses do Estádio e com a maluca da Renée e, pronto, saltei dos carris. Lá está, é a tal driving force que puxa por mim e me leva para maus caminhos. 

Ainda pensei, vou portar-me mal mas, a seguir, entrego-me às artes e lavo os pecados todos. Às vezes tento redimir-me assim, não sei se já repararam.

Marika Fruscio, a nova versão da
The Fallen Madonna with the Big Boobies




Mas com o sono com que ando e passando já da uma da manhã, acho que não vou a tempo de me fazer passar por intelectual. Por isso, abreviando razões, vou directa ao assunto e vou apenas aqui deixar a recomendação aos senhores da SIC, TVI e RTP - que contratam uns comentadores que são uns chatos, de quem nem consigo fixar o nome, talvez apenas o do filósofo futebolístico Rui Santos - para porem os olhos na Marika Fruscio.  (Vista assim, aqui nesta fotografia, até parece a Ana Malhoa e as suas big tits).


A propósito dela, um amigo meu, num dia de almoçarada e alegre convívio que durou até às tantas da noite, estando já bem bebido, deu-lhe para dizer que era grande admirador da Ana Malhoa. E queria explicar porquê mas toda a gente o atalhava já que há detalhes que escusam de ser revelados. Mas ele, quando está assim animado, dá-lhe para ser insistente e, então, esteve o tempo todo com aquela conversa da Ana Malhoa.
Mas adiante que não é da Ana Malhoa que vou falar até porque não lhe conheço dotes de comentadora ou adepta desportiva. Vou falar é da Marika.

Aquilo sim. Aposto que fideliza a audiência cá de uma maneira... Aposto que os espectadores (a propósito: deverei dizer espectadores ou espetadores?) devem estar todos, o tempo todo, a ver quando é que o mamilo lhe salta cá para fora. Aliás, ela vai cuidando de ajeitar o decote de modo a que ele esteja ali bem quase a a espreitar.

Depois de, mais lá para baixo, ter falado de plásticas e de implantes, olho para o despautério mamário da Marika e não faço ideia de se aquilo ali é de origem ou se são enxertos. Diria que ela se apanhou com duas bolas da rapaziada do post a seguir e as escondeu ali mesmo, debaixo das de origem, mas, enfim, isso é pormenor (e, se me alongo com isto, ainda alguma voz maldosa se vai pôr a dizer que eu tenho é inveja). Mas confesso que a mim me parece coisa exagerada, quase do além. Diria mesmo que lhe deve dar cabo das costas, aquilo parece coisa para uns quantos quilos cada, mas acho prudente não dizer nada. Gostos não se discutem.


Marika Fruscio e as suas potenciais Mamonas Assassinas




E, portanto, sem mais conversa, passo aos factos. Eis a estonteante Marika, uma desenfreada madona em acção. 

E um conselho aos Leitores: tentem, se fazem favor, portar-se como os bem comportados colegas de painel da Marika. Nada de ficarem de olho à procura do mamilo da menina.




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E, portanto - sem literaturas, nem laparadas, nem cagarradas, nem deseconomias, nem buracos nas finanças, nem cratinices, nem zeinaladas, nem salgalhadas, e, muito menos, com Bach - hoje fico-me por aqui.

Mas, Caros Leitores, acreditem: isto hoje foi um vaipe que me deu. Voltem, por favor, que amanhã já devo estar outra vez encarrilada.

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Relembro que, descendo, encontrarão já aqui a seguir material de primeira escolha e, mais abaixo ainda, material recauchutado mas, apesar disso, não menos curioso.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira. 

E, já agora, boas práticas desportivas.

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Para mulheres de bom gosto e para bichas igualmente exigentes, eis que chegam «Les Dieux du Stade». Belos, robustos e, ainda por cima, cheios de boas intenções. O calendário de 2015 já vem a caminho e as receitas revertem em parte para a luta contra o Cancro da Mama. Lindos meninos.


Depois de no post abaixo ter mostrado a pancada da Renée Zellweger que parece que tanto se retocou que virou outra (e só vendo para crer!), aqui, agora, parto para outra.


Durante anos, os camionistas e os frequentadores de oficinas de automóvel babaram-se perante calendários exibindo mulheres de curvas generosas e corpos bondosamente postos ao léu enquanto os intelectuais discretamente se alambazaram com os sofisticados Pirelli de colecção. As mulheres eram objectos copiosos feitos a partir de uma costela de um homem e, portanto, para sua livre fruição.

Mas eis que as mulheres começaram a perguntar aos homens se sabiam assobiar, a tomar as rédeas do jogo sem papas na língua, a dizer piropos a preceito, e a mostrar que também apreciavam um belo corpo de homem.

E a rapaziada não se fez rogada, claro está. Parecendo que não, os homens gostam de fazer um agradinho, gostam de se sentir lindinhos, fofos, apetitosos.

E, portanto, o striptease passou a ser também masculino, os calendários passaram a exibir músculos, abdominais esforçados, poses exóticas, sugestões eróticas, homens como objecto de desejo. O ano passado, cá pelo burgo, deu que falar a rapaziada dos Bombeiros de Setúbal. Fizeram bem. A causa social deve ter sido justa e a mulherada apreciou.


Pois bem. Vejam agora vocês isto aqui abaixo.





Li há pouco que em França uns tais do Stade Français, jogadores de râguebi, já fazem o seu calendariozito há uns 15 anos. Nunca eu tinha ouvido falar em tal coisa mas não faz mal, vou ainda muito a tempo.





Transcrevo:

A edição de 2015 desse ex-libris da escultura anatómica volta a reunir fotografias de Fred Goudon. A objetiva do fotógrafo desnuda não apenas atletas do clube parisiense como Jules Plisson, Hugo Bonneval e Pascal Pape, mas também Morgan Parra, colega de equipa de Julien Bardy no Clermont, e outros convidados do Olimpo desportivo francês, como o futebolista Djibril Cissé, o judoca Loïc Piétri e os andebolistas William Accambray, Nikola e Luka Karabatic. 


Claro que não conheço ninguém desta gente mas só posso ter andado distraída. É com cada ursinho felpudo, com cada rapagão mais desenvolvido, bem alimentados, benza-os Deus (e que Deus me perdoe por o trazer para uma conversa destas mas é que uma pessoa até fica sem tento nos dedos).

E lavadinhos. Olha para eles aqui no banhinho.






Ora, façam-me o favor de ver o vídeo e depois digam-me lá se esta rapaziada não tem um ar tão saudável?

Tenho eu andado para aqui a perder tempo e a gastar o meu escasso latim com láparos, irrevogáveis, pinókias, c-ratos, cruzes e canhotas, criaturas que para aí andam a cavar buracos atrás de buracos, sabendo eu que estou a chover no molhado, quando afinal estão aqui estes jovens tão generosos, tão bonzinhos, a chamar por mim...?


Os Deuses do Estádio e o calendário de 2015






O calendário «Les Dieux du Stade» já está à venda e são 29 euros de sensualidade, virilidade, malandrice, saúde, nudez, músculos, carinhas larocas. E, atendendo a que parte da receita reverte para uma causa mais do que meritória, parece-me dinheiro bem gasto.



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Relembro: para verem o surpreendente antes e o depois da Renée Zellweger desçam, por favor, até ao post seguinte.

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Renée Zellweger, antes e depois. Plástica? Implantes? Botox? Peeling? Tudo isso junto? Ou uma estranha aventura? Era para ser assim? Ou correu mal?


Renée Zellweger apareceu e ninguém a reconheceu. Não era uma coisa como das outras vezes, ora gorda, ora magra, ora ar casual, ora ar sofisticado. Não. Desta vez não era uma variante, era mesmo outra. Quando vi as fotografias nem acreditava que fosse ela.



Renée Zellweger antes e depois da transformação radical



Já aqui estive a observar para ver se percebo. 

Li que, para além de se ginasticar afanosamente, se trata regularmente com botox e com laser e que faz peelings para ter uma pele radiosa de adolescente e que agora, para além disso tudo, aparentemente terá feito um implante no queixo e alisado a zona circundante dos olhos.

A mim, de tudo, o que mais me chama a atenção são os olhos. Eu acho que os olhos dela eram a sua imagem de marca. Tinha a pálpebra superior gorda que fazia com que os olhos ficassem apertados e com ar vagamente rasgado e isso dava-lhe um ar travesso, levemente malicioso.




Ora, parece-me que lhe tiraram o recheio da pálpebra superior e que, portanto, ficou com o olhar menos expressivo, parece que perdeu o traço que a caracterizava.





Olho para a nova Renée Zellweger e, de facto, não a vejo mais nova. Vejo-a com um ar até mais triste pois o anterior olhar apertado dava-lhe um ar maroto característico, toda ela sorria através do olhar, e, sem esse olhar que a fazia parecer inocentemente traquinas, fica apenas bonita. Da graciosa, divertida e inocente Bridget Jones já não há ali nada.


Mas, enfim, cada um sabe de si e se ela gostar de ser ver assim, tanto melhor para ela. Mas que faz impressão, faz. Quando se vê ao espelho, reconhecer-se-á?


terça-feira, Outubro 21, 2014

Milan Kundera, Caliban e a Portuguesa


No post abaixo já desvendei um segredo a propósito dos burros que vivem à babugem do poder. Foi a Lovely Lídia que me contou. Regressou e veio com tudo. Já fazia cá falta e é com alegria que lhe dou as boas vindas.

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra. Livros, livros, livros.






Podia dizer o que já tantas vezes aqui o contei, que, desde pequena, era vidrada em livros, que lia os que tinha em casa, os que os amigos dos meus pais tinham em casa, os que havia na biblioteca do liceu, os que encontrava. Lia até altas horas da noite. Acendia a luz da mesa de cabeceira e lia até não aguentar mais ou até a minha mãe desconfiar e vir, pé ante pé, dar comigo a ler e me obrigar a apagar a luz. Pelos anos e pelo natal queria livros (a complementar outras coisas... que também não era propriamente rata de biblioteca) e, mal me apanhei com mesada, preferia comer menos ou comprar menos roupa e embrenhar-me nos alfarrabistas, nos saldos da Bertrand e onde calhasse.

Portanto não é de agora. Mas agora tenho um motivo suplementar: tenho medo de que um dia me aconteça um desaire, que fique desempregada ou assim, ou que aumentem o imposto sobre livros de tal forma que fiquem mais caros que trufas raras, caviar exótico, chanel nº 5, sei lá. E, então, dou por mim quase que a querer açambarcar não vá esgotarem-se e já não poder comprar novas edições, ou que a partir de certa altura, impossibilitada de comprar novos, tenha que me cingir aos que tenha em casa e que já não tenha nada de novo para ler.

Sei que não é razoável ou lógico pensar assim mas há aspectos da minha vida que se regem em contra natura, em contramão, como queiram.

Afogo-me em livros, não consigo dar vazão, mas não consigo deter-me. Parece-me que só o facto de os ter, de os folhear, de ler parte deles já me consola. Depois, aos poucos, aleatoriamente, vou voltando a eles e a muitos deles parece-me que já me são familiares e a esses eu dou saída, avanço por eles dentro. Em relação aos que não me dizem nada, aos que não me agarram o olhar ou o coração, aí dou folga, fica para a próxima.

Hoje o meu marido quis O Capital no Século XXI do Piketty e, por isso, fui com ele mas pensando que ia numa de chaperone. Mas então, fazer o quê? 

Claro que acabei por trazer outros, tentações tão fortes.


Vamos, por favor, com Manuela Azevedo - Carinhoso




[José Peixoto - guitarra clássica; Fernando Júdice - baixo acústico; música de Pixinguinha]




Chegaram ao apartamento de D'Ardelo duas horas antes do início do cocktail. 'É o meu assistente, minha senhora. É paquistanês. Peço desculpa, ele não sabe uma única palavra de francês.', disse Charles, e Caliban inclinou-se cerimoniosamente diante da senhora D'Ardelo, pronunciando algumas frases incompreensíveis. A indiferença delicadamente superior da senhora D'Ardelo, que não lhe prestou nenhuma atenção, confirmou a Caliban o sentimento de inutilidade da sua língua laboriosamente inventada e a melancolia começou a invadi-lo.

Felizmente, logo após esta decepção, um pequeno prazer veio consolá-lo: a criada a quem a senhora D'Ardelo ordenou que se mantivesse ao serviço dos dois senhores não conseguia descolar os olhos de um ser tão exótico. Dirigiu-se-lhe por várias vezes e quando percebeu que ele só conhecia a sua própria língua começou por ficar confusa, depois estranhamente descontraída. Porque ela era portuguesa. Já que Caliban lhe falava em paquistanês, tinha uma rara oportunidade para abandonar o francês, língua de que não gostava, e utilizar apenas, também ela, a sua língua natal. A comunicação em duas línguas que não compreendiam tornou-os próximos um do outro.

(...)

Em seguida Charles afastou-se até ao salão, deixando Caliban preparar as últimas bandejas. Uma rapariga muito jovem, segura de si, entrou na cozinha e virou-se para a criada:

- Não podes mostrar-te por um segundo que seja no salão! Se os nossos convidados te vissem, fugiriam! - Então, olhando para os lábios da Portuguesa, desatou a rir: - Onde é que foste desencantar essa cor? Pareces um pássaro de África! Um papagaio de Bourenbouboubou! - e saiu da cozinha a rir.

Com os olhos húmidos, a Portuguesa disse a Caliban (em português):

- A senhora é simpática! Mas a filha! Que malvada! Disse aquilo porque você lhe agrada! Na presença dos homens, é sempre má para mim! Dá-lhe prazer humilhar-me em frente dos homens!

Nada podendo responder-lhe, Caliban acariciou-lhe os cabelos. 

Ela ergueu os olhos para ele e disse-lhe (em francês):

- Veja, o meu batom é assim tão feio?

Rodava a cabeça para a esquerda e para a direita, para que ele pudesse ver bem a largura dos seus lábios.

- Não - disse-lhe ele (em paquistanês) -, a cor do seu batom é muito bem escolhida...

No seu casaco branco, Caliban parecia à criada ainda mais sublime, ainda mais inverosímil, e ela disse-lhe (em português):

- Estou tão feliz que esteja aqui.

E ele, arrebatado pela sua própria eloquência (sempre em paquistanês):

- E não apenas os seus lábios, mas também o seu rosto, o seu corpo, toda você, tal como a vejo diante de mim, é bela, muito bela...

- Oh, como estou feliz que esteja aqui - respondeu a criada (em português).




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O texto em itálico é um excerto da Quarta parte: Estão todos em busca do bom humor, na sub-parte intitulada 'Os casacos brancos e a jovem Portuguesa' do mais recente livro de Milan Kundera intitulado A Festa da Insignificância numa tradução de Inês Pedrosa.



Sétima parte: A Festa da Insignificância - um outro excerto




As imagens que escolhi para ilustrar o texto são de Sara Sampaio, a bela Portuguesa, e David Gandy que não é paquistanês mas que não seja por isso, está perdoado, é como se fosse.


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Um brevíssimo parêntesis

O que está a acontecer à PT deixa-me quase de rastos. Deixar os mercados à solta e nada fazer, assistir aos abutres a devorarem um corpo vivo é uma coisa que me parece inconcebível. O governelho português lavou as mãos, a CMVM está a ver o sangue a jorrar por todos os poros e nada faz (parece que agora vai proibir as vendas a descoberto, mas de que vale isso agora, quando já quase que só resta a carcaça e um coração latejante?) Uma situação ultrajante e dolorosa, uma humilhação e um rombo tremendo na economia e, a prazo, no emprego, no PIB, sei lá. Custa-me tanto isto que nem me apetece falar.


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Relembro: se quiserem saber a explicação para haver tanto burro à volta do Poder, desçam, por favor, até ao post seguinte.


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Incapaz de reler o que escrevi e, portanto, pedindo a vossa indulgência para as gralhas, fico-me por aqui e desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

(Agora que já começaram os descontos de outono/inverno, eis que entrámos no Verão. Não faz mal. Voltei aos braços ao léu e isso sabe-me bem)


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Porque é que há sempre tantos burros a trabalharem perto do Poder? ---- A Lovely Lídia está de volta e enviou-me a explicação. Ora confiram, se fazem favor.


Era uma vez um rei que queria pescar. 

Um dia chamou o seu meteorologista e pediu-lhe a previsão do tempo para as próximas horas. Este assegurou-lhe que não iria chover. 

A noiva do monarca vivia perto de onde ele iria e colocou a sua roupa mais elegante para acompanhá-lo. 

No caminho, ele encontrou um camponês montando o seu burro que, ao ver o rei, e disse: "Majestade, é melhor o senhor regressar ao palácio porque vai chover muito". 

O rei ficou pensativo e respondeu: 

"Eu tenho um meteorologista, muito bem pago, que me disse o contrário. Vou seguir em frente". 

E assim fez. 
Choveu torrencialmente. 

O rei ficou encharcado e a noiva riu-se dele ao vê-lo naquele estado. 

Furioso, o rei voltou para o palácio e despediu o meteorologista. Em seguida, convocou o camponês e ofereceu-lhe emprego. 

O camponês disse: "Senhor, eu não entendo nada disso. Mas, se as orelhas do meu burro ficam caídas, significa que vai chover". 

Então, o rei contratou o burro. 

E assim começou o costume de contratar burros para trabalhar junto ao Poder.

Desde então, eis a razão de burros ocuparem as posições mais bem pagas, em organizações assim como em qualquer governo. 




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As três primeiras imagens pertencem à campanha Dolce & Gabanna Outono/Inverno 2014/2015. Do último, que não sei se é ministro, secretário de estado ou assessor, também não sei o nome.


Agradeço à Leitora Lídia a história que me enviou.

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segunda-feira, Outubro 20, 2014

Sábado na casa nova-velha do meu filho e domingo na Casa da Cerca


No post abaixo já me interroguei sobre a motivação de Portas ao permanecer neste governo descredibilizado, odiado, e sujeitando-se à pública humilhação a que o láparo o submete. Os jornais põem-no nos Baixos, desenham-no como um defunto político, gozam-no, as sondagens mostram um partido que se diluíu na voragem da desgraça causada por Passos e nada parece justificar a sua continuação no governo. Contudo continua. Alguma coisa que desconhecemos o prende? Não sei. Isto intriga-me.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Muito outra.


E, uma vez mais, se estiverem de acordo, vamos com música.

Sonia Wieder-Atherton - Song In Remembrance of Schubert







Já ontem vos tinha dito que estava para vos falar da empreitada dos pimentinhas a estucarem a casa nova-velha do meu filho. Por isso, cá estou a fazê-lo.

Fim de semana de temperatura amena, este domingo já verão, e a família reunida para alegria dos meninos e nossa.

Já vos contei da casa a cair de podre que o meu filho e a minha nora compraram (por isso, lhes chamam a casa nova-velha). Estava ao abandono, até ocupas lá viveram e até fogueiras devem ter feito dentro de casa. As paredes estavam acabadas, escavacadas, o chão escalavrado, tudo rebentado, o telhado esventrado, o quintal uma lixeira. O preço reflectiu o estado da casa e essa foi uma das partes boas do caso. Dir-se-ia, de resto, ser um caso insolúvel tal o estado miserável em que a casa se encontrava; mas a localização da casa é boa, a área folgada, e a estrutura original da casa simpática. Penso que se trata de casa da primeira metade do século passado.

É esta casa que, ao princípio metia medo, que tem vindo a ser reconstruída aos poucos, à medida da disponibilidade dos donos, e com muito esforço (incluindo esforço físico) do meu filho - o que faz com que, também por isso, eu me orgulhe muito dele.


O sótão, onde falta pintar o tecto.


A casa agora já está outra. Por dentro já está quase pronta, faltam algumas pinturas e pequenos acabamentos, montar as casas de banho, coisas rápidas. 


As salas que comunicam umas com as outras
(as paredes estão direitas, a fotografia é que está torta)


A cozinha onde conseguiram conservar o mosaico hidráulico original


Faltam também ainda pinturas no exterior, falta acabar a cave (que está a ser toda arranjada por eles, isto é, sem intervenção de profissionais, embora com alguma ajuda do meu marido), e falta fazer o jardim e a hortinha, 

É neste quintal parcialmente ainda em bruto que os pimentinhas adoram estar. Mal chegam vão logo a correr para aqui. O ex-bebé é um trabalhador braçal, tem força de homem e gosta de carregar pedras, areia, fazer construções.




Uma vez que o irmão mais velho é mais bola, conta sobretudo com a ajuda do bebé que também gosta imenso de brincar com o primo. Aliás gostam imenso os dois um do outro. Volta e meia o ex-bebé abraça o primo mais novo e dá-lhe um beijo na bochecha fofa.




A bonequinha (se repararem, também com um corte de cabelo Bob), única menina no meio das brincadeiras de rapazes, volta e meia tenta alinhar com eles mas, de facto, jogar à bola ou carrinhos de mãos carregados de pedras e areia não são coisas que a interessem muito e, portanto, arranja as suas próprias brincadeiras. Este sábado trouxe a sua Barbie-Mariposa e entreteve-se a despi-la e a andar com ela por ali. No fim, a boneca já estava ensopada, teve que lá ficar a secar.




Já vos contei ontem como os três rapazes andaram a estucar a cave e como ficaram imundos mas, enfim, há uma mangueira providencial ali ao pé do poço que permite que tirem alguma porcaria. De qualquer forma, mal chegam a casa vai tudo para a barrela, incluindo os sapatos.

Desta vez, para além do lanche habitual, houve um motivo suplementar de festa. Os donos da casa resolveram fazer ali mesmo, em cima do poço, um petisco. Num fogareiro pequeno, o meu filho assou castanhas e um chouriço, operação que foi seguida com interesse por todos.




No fim, sentámo-nos na escada que dá para um pequeno terraço de onde se acederá à sala e à cozinha, e ali mesmo lanchámos: castanhas quentinhas, chouriço alentejano assado e bem saboroso.


No domingo, optámos por um programa de festas que nos poupasse um bocado, isto é, onde não houvesse tantos motivos interditos (fazerem cimento, mexerem no gesso, andarem com ancinhos e pás, abrirem a torneira e encharcarem-se ou ficarem atascados em lama ou outras coisas onde se possam magoar ou sujar), ou seja, sobreduto, do qual as crianças não viessem completamente imundas. Apenas os homens foram trabalhar lá para a casa e as mulheres e as crianças foram para um dos lugar mais lindos à superfície da terra: a Casa da Cerca.

Quando chegámos, o bebé vinha a dormir pelo que ficou deitado em cima de um casaco e tapado por outro. Dormiu ali uma sesta que foi um regalo.




O mais crescido é maluco por bola. Para onde vai, lá vai de bola. Agora, para além da bola, já entrou na fase das cadernetas de cromos da bola. 

Andam os dois na escolinha do Sporting e no sábado já tem torneio. O irmão ainda não liga muito ao lado competitivo da coisa (aliás, aquilo é para maiores de 4 mas, como ele é grande e tem destreza e, sobretudo, para não ficar triste por o irmão andar e ele não, apesar de ter três e meio, lá o deixaram entrar). Mas o mais crescido, onde chega começa logo a cravar toda a gente para ir treinar com ele. No sábado, surpreendi-o com os meus dotes mas, este domingo, dado ser um lugar público, achei que não deveria dar show. Então, quem alinhou foi a minha filha, Contudo, felizmente, apareceu um menino que quis jogar à bola e, portanto, tivemos folga.


Não se vê mas estava com as chuteiras que os tios lhe ofereceram e que ele acha que são o máximo


Os primos do meio, amigos, estiveram a brincar um com o outro, descalços. Estava um sol macio, um quentinho bom, um daqueles dias de verão quase outono e é bom estar-se descalço na relva. Eu também me descalcei. E parece que esta segunda feira estará mesmo dia de verão.


Lisboa, o Tejo, um ar muito limpo e fresco, uma visão absolutamente magnífica


Mas há ali um ponto de irresistível interesse. Por mais que digamos que vão brincar para outro sítio, é para a beira do lago que acabam sempre por querer ir. Os nenúfares, as folhinhas, descobrir um pau para afastar as flores, e, sobretudo, o ser interdito, faz com que tenhamos que estar sempre a chamá-los e de olho neles.

Se repararem, na fotografia acima, verão a camisa que o ex-bebé tinha por cima da t-shirt (e que depois despiu, com calor) e o pólo verde que o bebé tinha vestido.




Se repararem agora na fotografia abaixo, verão como o bebé teve que sair de lá já com outra indumentária. Por pouco não ia de mergulho para dentro do lago, um perigo. Tanto se debruçou que foi por um triz. A mãe deu uma corrida e pescou-o a tempo - mas o pólo ficou todo molhado. Portanto, despiu o pólo e herdou directamente a camisa do primo. Aliás, a roupa e os sapatos são usados em cascata, do mais velho para o mais novo e, do mais novo, para o primo. E como tem outro primo rapaz, do lado da mãe, herda pelos dois lados.




E viemos de lá já por volta das seis ou depois, nem sei bem - e ainda fomos ver as exposições -  e dali ainda fui a casa para me juntar ao meu marido-trolha que tinha ido tomar banho e ainda fomos, depois, para casa dos meus pais.

Como sempre, o meu pai já estava num desatino, que já era muito tarde, já queria que a minha mãe tivesse ligado a saber o que se passava. E, mal me viu, disparou logo, Sempre atrasada! e quando a minha mãe se zangou com ele, Atrasada? Mas ela tem horário? Tinha algum compromisso? Ora. desculpou-se que não gosta que andemos na estrada àquela hora da noite. A partir das seis e tal, todos os dias, quer ir para a cama, diz que é de noite e que não gosta de estar levantado até tarde. Por isso, na cabeça dele tudo o que seja depois disso já é noite avançada.

Mas, portanto, resumindo e concluindo, foi um belo fim de semana. Não descansei muito e só consegui ler o Expresso no sábado à noite, esforçando-me para não adormecer, e o Público de domingo (grande artigo de Cristina Ferreira sobre o BES!) aos bochechos, mas, enfim, isso é pormenor. Bom, bom, é estar com os meus amores, vendo-os felizes, amigos.

E, com esta conversa toda, já me alonguei outra vez disparatadamente.


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Deixem que relembre: sobre Paulo Portas e sobre o papel dele nisto tudo e, ainda, a propósito do interessante artigo de Vasco Pulido Valente sobre o futuro deste governo, é descerem, por favor, até ao post que se segue.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.


...

Paulo Portas à beira de se refugiar em Caxias-Colombey? Ele próprio já nos anunciou, uma vez, com aquele seu ar dramático, que se demitia irrevogavelmente. Aparentemente voltou atrás mas o chefe, o tal Passos Coelho, trata-o como se ele já não estivesse no governo. Os jornais parodiam-no, a população não lhe perdoa, o partido está desejando vê-lo pelas costas e eu pergunto uma vez mais: a troco de quê aguenta Paulo Portas tanta humilhação? O que o move?


Ilustração de Helder Oliveira no Expresso
a propósito da desfeita da dupla Passos/Albuquerque no OE 2015
sobre um Portas politicamente morto



Por onde quer que uma pessoa leia ou veja notícias, comentários ou opiniões sobre a miséria que é esta forma de desgovernar, sistematicamente encontra referência à desconsideração com que Passos Coelho e entourage tratam o vice-Portas.

As notícias são pródigas ao facultar provas da humilhação com que Passos castiga o Portas. Desta vez sabemos que escondeu do seu vice a notícia do crédito-de-imposto até depois da meia noite no dia da maratona do conselho de ministros de 18 horas - e isto depois de saber que o vice tinha andado a espalhar pelos jornais a notícia de que a sobretaxa ia baixar. 


Agora vejo-o na televisão ainda como que a gabar-se,  dizendo, com aquele seu ar encenadamente grave, que isto é melhor que nada e que andam a limpar a casa e mais não sei o quê, como se ainda julgasse que a sua voz é respeitada. 

Não percebo. Sendo inteligente, o que o leva a ser tão cego? Não vê ele que já ninguém consegue respeitá-lo? Chega a ser triste. E, sobretudo, apouca ainda mais a imagem que os portugueses têm desta forma de fazer política.

Destes anos de desnorte e destruição não se conhece qual a influência do CDS neste governelho de má memória. Conhece-se a ignorância e incompetência de Passos seguindo cegamente uma teoria mórbida (apesar de se saber há muito que não passa de uma teoria de cão de caça) mas, das bandeiras que Portas dizia empunhar, nem sombra.

De vez em quando encena umas gabarolices, tenta trazer a palco as rábulas dos contribuintes, dos pensionistas mas logo o Passos arranja maneira de fazer com que ele as engula em público, para desconcerto de quem assiste a tão repetidas provas de bullying governativo. Portas é, às mãos de Passos Coelho, o bombo da festa. 

É certo que Portas se presta a isso. Não se percebe o que anda a fazer, sempre de passeio, sempre descartável, sempre revogável. Como recordará a história este personagem que se imaginou importante, que desde jovem se viu a si próprio como capaz de mover mundos e fundos, que aparentemente tudo faz para se manter como ministro - mas que, de facto, é o exemplo acabado da irrelevância? Provavelmente de maneira nenhuma, provavelmente ignorá-lo-á.

Este domingo a crónica de Vasco Pulido Valente no Público, intitulada 'O futuro do Governo' teve graça:


Com o caso Crato e o caso mais sério da dra. Cruz, o primeiro-ministro criou na coligação uma atmosfera de bunker, a que ninguém, nem o próprio Portas, consegue escapar. Estão ali todos para defender 'a obra de salvação' da troika e do sr. Vítor Gaspar e nenhuma fraqueza é permitida. Hesitar, murmurar, criticar, são infames formas de trair a Pátria e empanar a glória de Passos Coelho.
Resta que o futuro dos génios que nos pastoreiam parece duvidoso. O primeiro-ministro arranjará com certeza um lugar condigno. Pires de Lima e Paulo Macedo também. Alguns voltarão a um escritório de advogados, que é uma boa maneira de continuar na política à socapa. A maioria ficará depenada e só. E mesmo que Portas se retire para Caxias-Colombey, não pode contar que o ponham em Belém daqui a vinte anos. Felizmente, a solução já foi encontrada: a entrada em massa de suas excelências na televisão e jornais. Competência não lhes falta: falam bem, discutem bem e não se atrapalham excessivamente com a verdade. Com uma gravata nova e um fato escuro, ninguém dirá que não se trata de uma nova geração de comentadores.
(...)
Os programas pululam de economistas (alunos, assistentes, professores, para não falar de analfabetos  com essa meritória mania). Tudo grita, estica o dedo, tudo repete e se repete com um fanatismo não exactamente 'orçamental'. Basta ao nosso querido governo aguentar um ano de sacrifício para se juntar a esta tropa fandanga. Não notaria a menor diferença.
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Um governo bom para ser parodiado (mas que, infelizmente, anda a dar cabo do País).


domingo, Outubro 19, 2014

Os livros em minha casa. Pequenos oásis de arrumação - e depois o resto.


No outro dia falei de bibliotecas lindas, arrumadas, coisa de gente ordeira, cenários que gosto de admirar, invejosa, estrangeira.

Como tantas vezes já aqui desabafei, ainda não percebi como se consegue ter os livros arrumados mas acessíveis e presentes. Na minha casa, os livros multiplicam-se e quase ganham terreno sobre as pessoas.

No entanto, não pensem que a bagunça é generalizada, absoluta. Não. Em minha casa tenho alguns redutos em que eles se mantêm disciplinados e quietos. Como nisto é ver para crer, vou mostrar-vos alguns desses pequenos oásis.



Mas, se não se importam, vamos com música. 

Sonia Wieder Atherton no violoncelo com Daria Hovora no piano


Nigun




Em tempos que já lá vão, não havia internet e as pesquisas eram feitas através de enciclopédias, colecções, obras em vários tomos. 

Quando comecei a trabalhar, dando aulas no secundário, fui abordada para ver se queria comprar uma enciclopédia. Pagá-la-ia volume a volume. Não resisti, claro. Quando os meus pais souberam, sabendo da minha imensa paixão por livros e sabendo que, desde sempre, a minha perdição por livros se sobrepunha à dos bens de primeira necessidade, fizeram questão de ser eles a oferecer-me a dita enciclopédia. Um a um, os livros da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira iam chegando e depois, mais tarde, os volumes com as actualizações. Bem útil ela me foi desde sempre e em especial quando os meus filhos tinham que fazer trabalhos para a escola.

Desde o início, houve a questão de onde arrumar tão extensa e pesada colecção. Perto da minha casa havia uma loja de móveis que abastecia essencialmente embaixadas e que, portanto, tinha um mobiliário clássico que sempre me agradou. Parte dos meus móveis provém dessa loja. A escrivaninha de alçado onde a preciosa enciclopédia, hoje quase coisa de museu, reside provém de lá.


Também durante muito tempo fui sócia do Círculo dos Leitores. De lá são várias colecções de História, de História de Arte, relativas a Património, o Grande Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa belamente encadernado. 

Esses livros hoje também se conservam imóveis, arrumados como gente educada. Ao escrever, noto que isto me faz sentir mal, como se estivesse a ser ingrata, desleal, a esquecer e abandonar amigos que deveriam merecer mais atenção.

Mas é verdade: quando agora quero pesquisar qualquer coisa ou ler alguns apontamentos sobre qualquer um destes assuntos que antes me levavam a folhear estes livros, procurando os índices, lendo os excertos que me elucidassem, nem me lembro já de recorrer a eles.

O vasto mundo está perto das mãos através da internet. Os meus hábitos mudaram tanto desde então.


Depois há também os autores portugueses de vasta obra, os clássicos, Eça, claro. Há algum tempo que o não leio e, de resto, nem tenho o hábito de reler seja que livro for pois a imensidão do que vou tendo para ler pela primeira vez não me permite ocasião para revisitar velhos amores. Mas, como a minha mãe anda a relê-lo e me vai comentando, deliciada, a sua actualidade e a ironia, ando com saudade e vontade de lhe fazer uma visita. Talvez A Capital ou Os Maias.

Nesta estante aqui, que é das últimas que veio cá para casa e provém do IKEA, e onde estão alguns dos portugueses do início do abecedário (nem todos, pois o Aquilino, o Camilo, e outros que têm obra vasta, estão numa outra, dedicada a estas colecções), está por exemplo a diva Agustina, bendita mulher que se me deu a conhecer através da Sibila que tanto me impressionou, e também António Lobo Antunes, embora os livros dele de crónicas andem à deriva por outras paragens.

Tenho-o dito muitas vezes. Gostei muito, na altura, do sopro de novidade que foram os seus primeiros livros (Memória de Elefante, Cus de Judas) mas, depois, a sua escrita entrou numa tal elipse labiríntica que ao fim de me esgotar em alguns, comecei a desistir pois canso-me ao fim de umas dezenas de páginas. Tento, juro que tento, e acho que devo tê-los quase todos, sempre na esperança de voltar a sentir aquele encantamento inicial, mas não consigo vencer aquele cavar e remoer sobre o mesmo terreno. Mas as Crónicas, essas sim, leio-as de gosto. Ele acha que as crónicas são apenas um ganha pão, um entretenimento, coisa menor, mas eu é por elas que agora me fico. Também aqui tenho, nesta estante, o Abelaira que me encantou tanto, quando os li. 

A partir de certa altura, faltando-me o espaço para arrumar mais livros, comecei a olhar para cada recanto da casa a ver se lá conseguia encaixar pequenas estantes de forma a que não estorvassem o passo. Algumas destas estantes foram feitas a feitio, desenhadas por mim, medidas milimetricamente estudadas para que coubessem nos recantos e para que nela coubessem os livros.

Esta aqui é uma delas. Aqui é onde se alojam os autores de língua espanhola, autores geralmente vibrantes, sensuais, revigorantes que sabem transportar para a escrita o sal dos mares do sul, o sol, o sangue, a magia das lendas, o sonho.

Nesta pequena estante, como podem ver, tenho uns quantos saleiros, réplicas de peças de museu e caixinhas de porcelana. 

Durante muito tempo tive uma perdição por caixinhas. Tenho-as clássicas, de colecção, tenho-as de vidro, artesanais, de madeira, de metal, de pedras.

Agora não é que não tenha mais esse gosto mas tenho a percepção de que não posso continuar a trazer tralha para casa.

Sobre esta estante, se repararem, tenho um relógio derretido a la Dali. Acho-lhe imensa graça, claro está.

E ainda tenho mais umas quantas estantes que ainda consigo manter bem apresentadas. Mas há um problema. Estando os livros ali tão postos em sossego, acabo por me esquecer deles. Quando me apetece ir à procura de um livro novo para ler, esqueço-me de ir às estantes, não me dá jeito, está tudo tão adormecido.

Então, por isso - ou simplesmente porque transporto em mim a semente do caos - tenho à minha volta montes terríveis a que de vez em quando dou a volta pois ou tombam e tenho que os arrumar melhor ou vou à procura de um e gosto de os percorrer a todos. 

A mesa redonda que aqui vêem é a mesa onde escrevo. Estou no lado oposto ao da cadeira que se vê, num pequeno canto, cercada de pilhas de livros. As cadeiras eram as cadeiras de madeira de uma das minhas avós. Resistiram décadas mas estou sempre com medo que um dia sucumbam sob o peso que agora carregam. Há, em volta da mesa, apenas duas cadeiras livres, aquela em que agora me sento e outra que tem que estar livre para o caso do meu marido precisar de trabalhar no computador (coisa que o deixa doente pois gosta de alguma ordem e esta minha propensão para me entrincheirar no meio de livros parece-lhe prova da minha falta de razoabilidade e ele ter que partilhar este espaço tira-o do sério).

Mas sinto-me tão bem, tão acompanhada, junto dos meus livros. É uma atracção fatal aquela que sinto por livros. E não é apenas pelas palavras que eles contêm, não é apenas pelas ideias, pelas imagens se for caso disso. Não. É também pelo objecto que eles são: a capa, a textura do papel, a paginação, o peso, o toque. Não há outro objecto que tanto me seduza. Como pensar em substitui-lo pelo e-book? Não é possível. Estaria aqui, agora, numa mesa asséptica, vazia, e eu sem os escritores que agora tenho junto a mim, amigos, anjos da guarda, presenças reais.


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E, por falar grandes escritores, que dois espíritos brilhantes se juntem:

J. Rentes de Carvalho e Eça de Queirós







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Hoje estive com a tropa toda na casa nova-velha do meu filho. A tarefa dos homens hoje era estucar a cave enquanto as meninas iam ao cabeleireiro cortar o cabelo e os meninos brincavam no quintal sob minha vigilância. Contudo, os meninos quiseram ir ver o trabalho dos homens e acabaram também a estucar, verdadeiros aprendizes de trolha.

Quando as mães chegaram, ficaram em choque ao verem os filhos cheios de gesso mas, enfim, isso é um mal menor face à enorme satisfação deles por fazerem trabalho de tal responsabilidade. 

Gostava também de vos mostrar a casa por dentro que está quase pronta e que está mesmo bonita (a cave é que ainda está quase na mesma uma vez que ficou para o fim).

E queria contar-vos como, ao fim do dia, a dona da casa - com um belo corte Bob - foi comprar chouriço, que o marido depois assou, tal como assou também castanhas e como, depois, estivemos todos sentados a petiscar, no melhor convívio.

Mas passa das duas da manhã e eu tenho tanto sono... Se amanhã não se meterem outras coisas, talvez mostre. Não pensei alongar-me tanto com os livros mas sou sempre assim, ponho-me na conversa convosco e nem dou pelo tempo a passar. Fazia-me falta ter aqui um chá bem quentinho para irmos bebendo em conjunto. Gosto imenso de chá, seja chá a preceito, seja infusão do que for, lúcia lima, cidreira, camomila, tília, menta, qualquer coisa mesmo. Se vocês aqui estivessem comigo, nesta minha sala cheia de livros, eu servir-vos-ia um chá quentinho e perfumado. Teria era que ver onde é que pousava o bule...


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.
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sábado, Outubro 18, 2014

O que é a felicidade? Uma inteligente gestão de prioridades? Coisas simples que não têm nada a ver? A liberdade de fazer o que se quer, quando se quer, como se quer, com quem se quer? A compaixão compartida? Não sei. Por isso, dou a vez a Peter Sharp, a Owen e Haatchi, ao professor com a sua história da maionese e do café. E se alguém conseguir chegar a uma conclusão tanto melhor


No post abaixo já falei de um senhor que volta e meia vejo no Expresso da Meia-Noite e que me deixa sempre intrigada (a que se deverá tão misteriosa presença?) e falei também do papagaio inglês que foi dar uma voltinha e apareceu a falar outra língua e também dos milhões em que nadam os submarinos e, no meio da confusão, ainda consegui meter os Monty Phyton num registo delirante bem ao meu gosto.

Mas isto é a seguir. Aqui, agora, reúno alguns contributos dos Leitores que me enviam mails ou referências de vídeos e espero que algum de vocês, Leitores meus, saiba traçar a bissectriz e encontrar a chave para o segredo supremo: o que pode tornar feliz uma pessoa normal.




Não sou muito dada a receitas mágicas, pozinhos de perlimpimpim, depuralinas psicológicas, psicanálises blogosféricas e outros truques instantâneos que transportam a felicidade como se fossem drageias infalíveis. Aliás, é coisa sobre a qual não consigo dar conselhos. Ser feliz está nos genes, acho eu e acho que está provado. Ou se nasce com tendência para estar bem disposto ou não. Claro que há a sorte e as circunstâncias mas, tirando isso, acho que uma pessoa que nasce com essa característica tem em si a capacidade para relevar o que é menor, pôr para trás das costas o que não é para ficar para a história, e isso tira-lhe peso de cima, deixa-a livre para se sentir feliz.



Aqui há tempos, estava eu numa discussão enorme, tensa, com um colega meu. Estava capaz de lhe fazer nem sei o quê, furiosa, e ele comigo, um desentendimento severo, vozes elevadas, nenhum a dar o braço a torcer, o caso mal parado. Passado um bocado, nem sei como, a conversa amainou, derivou para outro sítio e eu já estava a rir. E, então, ele diz-me, com ar sentido, 'Já pôs tudo para trás das costas, não foi?' E tinha sido. Ele ainda estava com ar quase ofendido, a querer curtir o desentendimento, e eu já mal me lembrava do que se tinha passado. Disse o que tinha a dizer e ficou dito - e para a frente é que é caminho. 
Por isso, mesmo situações que são verdadeiras crises para a maior parte das pessoas, para mim são coisas passageiras... e bola para a frente. Não o faço por ideologia, por seguir teorias ou filosofias de vida. Não, faço-o mesmo porque sou primária. Dá-me com força e passa-me depressa. 

Se, para além de emocionalmente primária, também fosse intelectualmente básica diria aos angustiados crónicos que fizessem como eu. Mas claro que não digo. Dizer é fácil. Se o cérebro de algumas pessoas apenas respira se estiver no lado sombrio da vida, como lhes falar de luz, de imprevistos sopros de alegria - ou seja, de uma realidade que lhes é estranha? 


Eu acho que viver muito ao ar livre, contactar com a natureza, estar aberto aos sorrisos dos outros, ser capaz de gestos generosos, coisas assim, são condições quase suficientes para o coração se abrir e para uma pessoa se sentir mais feliz.

Mas que sei eu dos mecanismos emocionais de pessoas que sejam muito diferentes de mim? Não sei.

Por isso, calo-me já e dou passagem aos vídeos e à história que recebi sobre o tema.



Moving Train Party


A iniciativa foi ideia e esteve a cargo de Peter Sharp, em Perth, Australia. Ele explica ao que vai: proporcionar um momento de felicidade aos passageiros do comboio. Ao princípio, as pessoas estranham mas, aos poucos, a festa vai-se generalizando. Como se vê, são as mulheres que mais espontaneamente aderem à alegria inesperada.






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A Maionese e o café 

(- e, se me permitem um conselho, o único, leiam sem preconceitos esta história que Leitor, a quem agradeço, me enviou)



Quando as coisas na vida parecem ser demais, quando 24 horas por dia não são suficientes, lembrem-se do frasco de maionese e do café.




Um professor, durante a sua aula de filosofia, sem dizer uma palavra, pegou num frasco de maionese e esvaziou-o. Tirou a maionese e, a seguir, encheu-o com bolas de golfe.

A seguir perguntou aos alunos se o frasco estava cheio. Os estudantes responderam que sim.

Então, o professor pegou numa caixa cheia de pedrinhas e meteu-as no frasco de maionese. As pedrinhas encheram os espaços vazios entre as bolas de golfe.

O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio, e eles voltaram a dizer que sim.

Então o professor pegou noutra caixa, uma caixa cheia de areia e esvaziou-a para dentro do frasco de maionese. Claro que a areia encheu todos os espaços vazios e, uma vez mais, o professor voltou a perguntar se o frasco estava cheio. Nesta ocasião os estudantes responderam unanimemente  "Sim !".

De seguida, o professor acrescentou ainda 2 chávenas de café ao frasco e claro que o café preencheu todos os espaços vazios entre a areia. Os estudantes nesta ocasião começaram a rir-se... mas repararam que o professor estava sério. Disse-lhes ele, então:

Quero que se dêem conta que este frasco representa a vida. 
As bolas de golf são as coisas importantes como a família, os filhos, a saúde, os amigos, tudo o que te apaixona. São coisas, que mesmo que se perdêssemos tudo o resto, as nossas vidas continuariam cheias.
As pedrinhas são as outras coisas que importam como: o trabalho, a casa, o carro, etc.
A areia é tudo o demais, as pequenas coisas.
Se pusermos primeiro a areia no frasco, não haveria espaço para as pedrinhas nem para as bolas de golfe. 
O mesmo acontece com a vida. Se gastarmos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas, nunca teríamos lugar para as coisas realmente importantes.
Prestem atenção às coisas que são cruciais para a vossa felicidade.
Brinquem ensinando  os vossos filhos,  arranjem tempo para irem ao médico, namorem e vão com a vosso/a namorado/marido/mulher jantar fora, pratiquem o vosso desporto ou hobbie favorito.
Haverá sempre tempo para limpar a casa e reparar as canalizações. Ocupem-se das bolas de golfe primeiro, das coisas que realmente importam.
Estabeleçam as vossas prioridades, o resto é só areia...


Então, um dos estudantes levantou a mão e perguntou o que representava o café. O professor sorriu e disse:

O café é só para vos demonstrar, que não importa o quanto a vossa vida esteja ocupada: sempre deverá haver espaço para um café com um amigo.


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Owen, um menino com 9 anos e uma doença rara, e Haatchi, um cão que foi maltratado, colocado junto à linha de caminho de ferro para morrer mas que sobreviveu, embora sem a cauda e sem uma patinha, são um caso tocante de afecto e superação. A amizade entre os dois é fantástica e o bem que cada um está a fazer ao outro é emocionante.







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E há ainda a parábola da natureza, do acaso e das boas e más consequências.

A história do agricultor chinês






Uma parábola sobre a vida e a natureza narrada por Alan Watts, animada por Steve Agnos, e com música de Chris Zabriskie.


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Permitam que vos relembre que descendo até ao post seguinte encontrarão um pot pourri à maneira.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores um belo sábado.

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