Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, maio 26, 2019

Ele quer desmantelar o Facebook


O que me assusta nisto do Facebook, Instagram e WhatsApp é que, apesar dos riscos brutais, as pessoas não o percebem e continuam a usar alegremente, sem preocupações, estas redes sociais. Sucedem-se os casos de violações de privacidade e de manipulação psicológica dos utilizadores, sucedem-se os alertas sobre os riscos -- e ninguém quer saber, toda a gente continua a usar na maior descontração. 

Pela 'natureza' tecnológica das próprias plataformas e pela natureza dos objectivos de Zuckerberg -- que nisto está por conta própria, um verdadeiro um deus ex machina, um deus inesperadamente surgido de um algoritmo, alguém com um poder fora de controlo --, a menos que apareça um travão efectivo a nível judicial, o Facebook, o Instagram e o WhatsApp não pararão de se expandir e de se tornarem cada vez mais perigosos. 

Apelos ao suicídio, ao terrorismo, ao exibicionismo mais primário ou a práticas sexuais, ao consumismo, chantagem, manipulação eleitoral, censura moral e artística, ou, sem que a própria vítima se aperceba, condicionamento social -- há de tudo no Face, no Insta, no Whatsapp. 

São fábricas de notícias falsas, albergues galácticos para oportunistas, tarados, assassinos, criminosos de toda a espécie, populistas, racistas, xenófobos, gente pouco recomendável. E tudo disfarçado de ligeireza, de brincadeirinha. E há, de facto, ligeireza e brincadeirinha, recordação de juventude, amigos de longa data, foto de família, bolo de anos, paisagem magnífica, gatinho fofinho, criança inocente, vestido lindo, unha artística, olhar de amor. 

Há de tudo.

São essas coisas que alimentam grande máquina. 

Ao pormenor, com a inteligência artificial ao serviço da machine learning, as potentes máquinas e as suas brutais bases de dados conhecem ao pormenor de que é que cada um gosta, não gosta, qual a fase da vida em que está, de que precisa. 


E, então, como por magia, é dado a conhecer â pessoa o que o algoritmo acha conveniente: a sugestão de umas férias, uma notícia anti-sistema, um pedido de amizade. É que nada, mas mesmo nada, ali acontece por acaso: tudo é fruto do dito algoritmo que tem por objectivo aumentar os clicks, as mensagens trocadas, os vídeos vistos, ou seja, tudo tem por objectivo fazer subir o volume de negócios e, claro, valor das acções do Facebook.


Mas não estamos a falar apenas de um poderosíssimo monopólio económico -- estamos, também a falar de uma muito perigosa arma para cujo uso não existe regulamentação.


Embora moda recente (há quantos anos o Facebook se tornou o alfa e o ómega da ligação das pessoas ao mundo? Uns dez anos?), a verdade é que a própria maneira de ser e estar das pessoas se modificou. O vício das selfies, o egocentrismo, a futilização, a leviandade na tomada de posições, o contágio emocional e irracional -- são comportamentos que associo ao advento do uso generalizado de redes sociais.


Ao lidar com as emoções primárias das pessoas, ao criar-lhes dependências, e ao deter toda a sua informação, por tudo o que acima referi e por muitas outras razões, o poder do Facebook (que detêm o Instagram e o WhatsApp) é incomensurável e os riscos que isso comporta igualmente imensos e muito perigosos.

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É por isso que é com gosto que recebo notícias de que há vozes importantes que se levantam para lançar alertas. 


Neste caso estou a falar de Chris Hughes, cofundador do Facebook, que pede que o governo dos EUA desmantele a empresa que controla a rede social mais famosa do mundo.


O Expresso deste sábado traz como artigo de fundo um longo texto de Chris Huges mas como a maior parte das pessoas não conseguirá lê-lo, deixo aqui um vídeo (muito bem feito) no qual ele diz ao que vem. E espero que quem de direito o ouça e o leve muito a sério.



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E até para que a União Europeia regulamente sobre o uso desta arma e sobre outros aspectos que tanto condicionam a nossa vida e para que possamos viver num espaço livre, democrático, inclusivo, moderno e seguro este domingo bora votar em força. 

E está bom tempo, não há desculpa para ficar em casa. Mesmo com dores nos calos ou vontade de mandar grande parte dos candidatos darem banho ao cão, mesmo assim é de ir votar -- a bem deste nosso tão bom espaço comum.

Um bom domingo de eleições. 

Matemática, poesia, pintura, justiça


Para mim, é muito claro que a criatividade é o ingrediente mais importante da matemática. Essa criatividade tem de ser acompanhada pelo rigor. É como para um acrobata: a performance tem de ser perfeita. Na matemática queremos fazer coisas interessantes, chegar a novas ideias e ao desafio de produzir asserções completamente novas. Todos os passos do nosso trabalho têm de ser provados, mas precisamos de imaginação e criatividade.
       É por essa atenção ao pormenor que lhe chamam “artista da matemática”?
É talvez por ser bastante sensível à conexão entre a matemática e a poesia. Gosto de fazer conexões entre a matemática e a arte.
(...) 
Se quiser pintar, precisa de inspiração e, para isso, tem de deixar o cérebro livre e abrir espaço nele. Esse espaço não pode ser usado para duas coisas ao mesmo tempo. Claro que há comparações possíveis: eu adoro pintura abstrata. Acho-a absolutamente maravilhosa, porque é muito semelhante ao que fazemos na matemática: os objetos abstratos que introduzimos e selecionamos são mais reais para nós do que os objetos do real, da vida concreta. Para mim um dos mestres da evolução da arte figurativa para a arte abstrata é o [Claude] Monet, que fez desaparecer progressivamente a forma concreta, como ela é dada pelo real, a fim de a tornar um objeto da mais pura pintura. E isto está tão perto do que eu sinto na matemática… É o que é maravilhoso no Monet. Em certas pinturas dos nenúfares [série de pinturas a óleo do artista], ele fez desaparecer as flores e chegou a algo que é muito mais real, feito de cor e movimento.

Porque é que precisamos da matemática?
[Por um aspecto] civilizacional. Como pensar de forma correta. O que é uma prova, o que é uma asserção, o que é uma hipótese, o que é uma conclusão. Quando fazemos matemática, temos de provar que algo é verdadeiro, não fazemos política. Um matemático que prova alguma coisa é uma pessoa que tem de ouvir os outros. Neste mundo de fake news, toda a gente grita. Na matemática nós ouvimos quem provou alguma coisa.

[Excertos de “A matemática que se dá na escola não tem grande significado” no Expresso de 2019.05.27, entrevista de de João Diogo Correia a Claire Voisin.

Claire Voisin foi a vencedora europeia do For Women in Science, prémio atribuído pela unesco a cinco cientistas, de cinco regiões do globo, para suprir a ausência de mulheres nos principais galardões científicos. Esta francesa é uma das grandes matemáticas do nosso tempo]

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sábado, maio 25, 2019

Theresa May, um irrelevante ponto e vírgula na história do Reino Unido



Claramente não podia dar certo. Não sou de rogar praga mas há trajectórias que não enganam. Não é preciso ver o caminho acabar no buraco para a gente olhar e ver que é lá que ele vai dar.

No outro dia um colega lançou um projecto e eu, ao sair de lá, arreliada pelo dinheiro que se gasta em coisas destas, disse-lhe: 'Não vai dar em nada'. Ele, nem percebendo a incorrecção lógica da frase, como que teve um arrepio: 'Puxa. Vire essa boca para lá!'. Lembrei-o: 'Algum dos meus alertas alguma vez falhou?' e ele insistiu: 'Não. Por isso lhe digo que vire essa boca para lá'.

E é.


Mas também pode ser que os meus palpites que dão furados eu esqueça. Posso não saber de muita coisa mas de uma eu sei: não sou arraçada de cavaco de maneira nenhuma: engano-me. E, quanto a dúvidas, upa, upa, cada vez mais.

Hoje, por exemplo, juntei um e mais um e mais outra coisa que nada a ver e deu três e, vai daí, tocou um sino do caraças: uma suspeita cabeluda que, a ser verdade, seria uma tal bomba que me forço a pensar que mais vale tirar daí o sentido porque ia ser bomba demais, coisa que ninguém na vida poderia suportar. E, no entante, é como sempre. Sei que a coisa vai começar a fazer o seu caminho. E escrevo isto e penso: 'Estou enganada. Estou enganada'. e, dentro de mim, há sinos a tocar, campainhas que não se calam. 

Em situações destas forço-me a pôr-me em stand by, a não me mexer. Sei que a coisa se vai resolver por si e é assim que as coisas se devem resolver. Quando as antenas estão ligadas captam tudo, até o que está a milhas, até o que está para acontecer. Só tenho que estar sossegada, à espera que as pontas se juntem e que eu esteja atenta para observar antes da coisa ser visível. E, se nada acontecer, a suspeita morre por si.

Mas caraças. Caraças.


Mas isso não vem ao caso. E neste caso nunca aqui virá. Quanto muito sob a forma de história.

O que vem é que, tendo estado todo o santo dia incontactável, agora à noite me diz o meu marido: 'A May anunciou a demissão' e eu pensei que desde o primeiro dia eu tinha lido na cara dela a palavra demissão. Ter-se-ia poupado a tantas humilhações, a tanto esforço para superar as atrapalhações e para ser engraçada, para aparentar naturalidade, a tanto trabalho inglório, a tanta traição, a tanta preocupação para nada. Obviamente não nasceu para liderar coisa nenhuma.

Até acredito que seja boa pessoa, até acredito que genuinamente tenha pensado que conseguia fazer alguma coisa. Mas, coitada, não teve um bom amigo que, sem ser derrotista, lhe pudesse ter dito que aquilo não era coisa para ela?


Estive agora a ver o vídeo. A forma como se emociona ao terminar, dá-me pensa. Coitada, tanto esforço para nada. Terá à sua espera o abraço apertado do marido, aquele senhor com ar de totó e que é capaz de também ser um bom homem. 

Mas isso não apagará as noites mal dormidas, os vexames, as viagens permanentes de Londres para Bruxelas e vice-versa, para levar tareia por onde quer que passasse.

A alhada em que o Reino Unido se meteu é outra que me dá pena. Não é bonito de se ver nem sei como é que isto vai acabar. Adivinho mas não é tudo: só algumas coisas e, ainda assim quase nunca vem o guião completo. Mas uma coisa parece óbvia e nem é preciso ser bruxa: começo a pensar que pode não acabar bem.

A única saída que pode ser é se os resultados forem inesperados e vier a haver um segundo referendo que reverta a situação. Muitos ses que não descansam ninguém até porque... e se não?

Caraças.


Whatever. Estou a dormir. Muitos dias a madrugar e a dormir pouco, muita cena, muita distância, sempre muita coisa. E na volta até aconteceram muito mais coisas e, possivelmente, até mais colunáveis do que o triste fim de uma pobre desasada. Mas eu não sei e, além disso, é coisa que, a esta altura do campeonato, me dá igual.

Os vídeos abaixo mostram tudo isto de que tenho estado para aqui a falar, enquanto tiro um cochilo entre cada sílaba.









Os cartoons que plantei lá em cima, a meio do texto, são de Steve Bell e obtive-as no The Guardian. Gostava de ver é como eu me saíria das mãos dele. Medo... [o que vale é que essa é hipótese inexistente]

Impossível para mim, agora, comentar os comentários de ontem. Pode ser que amanhã. As minhas desculpas.

sexta-feira, maio 24, 2019

O meu mea culpa perante Paulo Pedroso



Há temas que me revolvem as entranhas e me fazem perder a distância emocional de que a racionalidade precisa. Aquele que, há uns anos, invadia a comunicação social foi um deles. Tantas discussões que tive por causa disso, em especial cá em casa. Queriam chamar-me à razão e eu não queria ouvir. Teimava que, se as crianças diziam, é porque era. Nessa altura, eu não sabia que as crianças podiam ser manipuladas e que os investigadores poderiam condicionar as suas respostas.

Quando mete crianças eu cego, eu viro loba, predadora de quem pode querer fazer-lhes mal.

Nessa altura, eu também ainda não tinha aprendido que a justiça pode ser leviana, traiçoeira, destruidora, injusta e vil. Nem sabia que a imprensa escrita e televisiva saliva por sangue, por perversidade. Muito menos sabia do conluio entre agentes da justiça e a imprensa mais sensacionalista e nojenta. Ainda me lembro dum Expresso a fazer capa com Ferro Rodrigues. Nesse dia o meu marido divorciou-se do Expresso e eu, apesar de duvidar da notícia, não condenei o Expresso, apenas tive pena que o jornal se tivesse enganado tão grosseiramente. A minha compreensão andava toldada.


A toda a hora, se sabiam de casos, a toda a hora se ouviam e liam testemunhos. Foi feita uma lavagem ao cérebro dos portugueses. E eu, tão inocente na altura -- tamanhas eram a minha preocupação pelas crianças e a repugnância por quem poderia molestá-las --, não duvidei que a Justiça não estivesse a fazer o seu papel. 

De forma cega, condenei inocentes. Um deles foi Paulo Pedroso. 

Lembro-me bem das televisões a mostrarem a sua prisão na Assembleia da República, o juiz a acompanhar o espectáculo. E lembro-me da dignidade de Paulo Pedroso. Mas não coloquei a hipótese de que toda aquela encenação fosse um dos momentos mais negros da Justiça do Portugal democrático. 


Só passado algum tempo caí em mim. Mas caí em mim tarde de mais. Fui injusta, cega e, portanto, cruel. Percebi, só então, que não há maior crueldade do que condenar um inocente.

Gostava de poder voltar atrás no tempo e ter tido, nessa altura, a lucidez que penso que, com o tempo, fui adquirindo, com a constatação objectiva dos erros grosseiros e dos vícios da justiça em Portugal. Se isso fosse possível, teria a oportunidade de defendê-lo com unhas e dentes, teria oportunidade para mostrar a minha repugnância por quem ousasse enlamear de forma tão vil um homem inocente. Mas não é possível voltar atrás no tempo.

Por isso, a única coisa que posso fazer é aqui pedir públicas desculpas a Paulo Pedroso. Mas faço-o sabendo que isso é coisa que não vale nada, nada, pois mesmo que ele me desculpasse, jamais me desculparei eu a mim mesma. Condenar um inocente é coisa que não tem perdão.


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Escrevo isto depois de ter lido no Aspirina B: Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus que remete para o blog de Paulo Pedroso: O dia do triunfo do absurdo

E incluí aqui pinturas de Francis Bacon e se calhar não devia pois este texto não deveria consentir distrações uma vez que há palavras que devem impôr-se sobre tudo -- e assim deve ser um pedido de desculpas. Mas, quando penso em absurdo, em situações informes e degradantes, mentalmente associo-as às pinturas de Bacon. E a situação terrível, absurda e de uma violência demolidora pela qual passou Paulo Pedroso é isso tudo.

quinta-feira, maio 23, 2019

Não me lembro do nome dela





A secretária do director era uma pessoa intrinsecamente neutra. Nunca tinha opinião e nem valia a pena que tentassem tirar-lhe nabos da púcara: dizia que não sabia, que não tinha lido nem ouvido nada. As outras juntavam-se na copa e riam-se e comentavam tudo mas ela, por isso mesmo, evitava lá ir, especialmente se percebia que as outras lá estavam. Na melhor hipótese dizia-se dela que não dava confiança a ninguém e, na maior parte, dizia-se que era o cão de guarda do chefe. Creio que ela nunca suspeitou destes comentários pois parecia viver fechada no seu mundo.

Não gerava simpatias nem nunca lá lhe conheci uma melhor amiga ou alguém que lhe fosse especialmente simpático. Frequentemente, quando lhe ligava para saber se o meu colega estava disponível, não me lembrava do nome dela. Agora que escrevo também não me lembro. Deve ser das poucas pessoas de que nunca me lembrei do nome, como se fosse anónima, como se a sua identidade fosse irrelevante.

Aquele meu ex-colega sempre foi muito alegre e informal e bem disposto e tentava contagiá-la quer na forma como falava com ela quer na forma como queria que ela organizasse o trabalho. Mas ela era irremediavelmente formal. Colocava cada papel num separador de pastas de despacho, coisa antiga, e levava-lhe como se vivesse no século passado. Separava-lhe os documentos todos em pastas, tudo com um cerimonial a que já ninguém estava habituado. Parecia ignorar as possibilidades da informática. Contudo aprendia tudo num instante e, mesmo no computador, a organização das suas pastas eram exemplar.

Era mais ou menos da minha idade mas sempre a vi como pessoa velha. Não me lembro que tivesse rugas ou cabelos brancos e sempre a vi bem arranjada. Mas tudo nela era convencional, antigo, coisa de outra era. Estou a tentar lembrar-me dela e só me ocorre que parecia estar sempre vestida de igual, de uma cor indefinida, de saias e blusa mas tudo fora de moda, como se vivesse na província, décadas atrás. Tenho ideia que andava geralmente em tons de castanho, com o cabelo também sempre igual, da mesma cor, nem mais curto nem mais comprido. E até pode ser que houvesse cambientes mas é assim que a minha memória a guardou.

Quando eu estava no gabinete do meu colega, ela aparecia a perguntar se eu queria chá e se eu dissesse que sim ela perguntava se preferia lúca-lima, menta, cidreira. E aproveitava para verificar se a garrafa tinha água. Era silenciosa, quase invisível, quase desconfortavelmente discreta. Muitas vezes quase não dava por ela e, quando ia agradecer-lhe, já ela estava a sair.

A certa altura, o meu colega começou a andar preocupado. O novo accionista estava a impôr algumas mexidas e na área dele, em concreto, queria que se passasse grande parte do trabalho para outsourcing o que implicaria mandar embora várias pessoas do departamento. E ele falava, com muita preocupação, de alguns jovens licenciados em quem vinha apostando e de quem, provavelmente, teria que abrir mão. Os jovens nem supunham que o seu destino estava a ser discutido com a maior frieza. Faziam-se contas, equacionavam-se vantagens e desvantagens. O meu colega batia-se como um leão e eu e outros colegas estávamos ao seu lado. Tudo se fez para combater a estúpida moda de externalizar os serviços. Substituía-se mão de obra especializada, gente motivada e dedicada, por serviços que se compravam, serviços esses prestados por outros jovens mal pagos, desmotivados, sem qualquer 'amor à camisola'.

Mas a sentença estava traçada.

Aquela direcção foi reduzida a quase nada e o meu colega foi incentivado a sair ficando ligado à empresa através de uma avença.

Tudo muito triste.

No meio disto, ninguém se lembrou dela. Um dia, ia eu a passar no corredor ao pé do espaço dela, uma espécie de antecâmara do gabinete do meu colega, e vi-a com a cabeça entre as mãos. Senti como que um choque. Nem por um momento me tinha lembrado dela. E agora gostaria de a referir pelo nome e não consigo ter nem ideia de qual fosse. Parei, perguntei-lhe o que se passava. Disse-me o óbvio: tinha sido convidada a ir-se embora. Contou-me que o meu colega lhe tinha dito que não era obrigada a aceitar sair, que ficasse. Mas ela tinha medo de ficar sem nada que fazer ou de ser mandada para outro serviço onde se sentisse recebida por favor, onde não conhecesse o trabalho. Lembro-me que dizia: 'Ainda me põem a lançar facturas'. E eu dizia-a que isso não tinha mal nenhum. Ela dizia, voz quase estrangulada, que não sabia nada de contabilidade. Eu dizia que para lançar facturas não é preciso ser-se contabilista e que a ensinariam. Mas ela reagia como se qualquer dessas perspectivas fosse um pesadelo. Tentei convencê-la: que não estivesse assim, que, para onde fosse, a fariam sentir integrada. Mas ela não queria sequer equacionar essa possibilidade. Nunca tinha conseguido enturmar-se, nunca tinha estabelecido laços de amizade com ninguém. Vivia para trabalhar naquilo que sabia: para servir o chefe, para organizar o trabalho dele. Chorava enquanto falava, mas quase como se não houvesse ali emoção, como se tolhida pela angústia e pelo desalento. Tive muita pena. Ela olhava, com uma tristeza difícil de descrever, as suas estantes tão arrumadas e dizia que não sabia quem ia zelar pelo arquivo e que, de repente, ninguém queria saber de nada daquilo, como se anos de vida profissional vividas com tanto zelo afinal não valessem nada. Disse-me que não conseguia dormir, que só lhe apetecia chorar.

Falei com o meu colega. Estava preocupado. Também ele estava a viver tempos difíceis. E vê-la assim deixava-o ainda mais prostrado. Com a maneira de ser dela, não a via a poder fazer outra coisa na vida senão ser secretária daquela forma dedicada, quase obsessiva. Queria que ela ficasse na empresa. Se fosse para o desemprego, não arranjaria nada.

O meu colega, começou a aparecer menos, alguns dos gabinetes foram ficando vazios e, logo de seguida, ocupados por outros serviços. Ela continuava lá, a olhar para a parede ou para o computador. Todos os dias eu passava por lá, tentava animá-la. Estava amorfa, frequentemente com olhos de sono. Andava a tomar ansiolíticos. 

Até que um dia, a vi a arrumar gavetas. Disse-me que já tinha acertado as contas. Ia para o desemprego e ia receber o subsídio todo de uma vez e porque ia explorar um quiosque, vender revistas. Estava desencantada, com ar cansado. Eu nem queria acreditar. Disse-me que já não aguentava mais estar ali. Eu olhava para ela sem perceber como poderia ela lidar com clientes, ter expediente para saber o que encomendar, como gerir as compras e vendas de uma pequena papelaria. Só pensei que ia desgraçar-se, gastar o dinheiro todo num investimento que não podia dar certo. Não queria desanimá-la. Derrotada já ela estava. Mas também me custava não alertar para os riscos daquela ilusão que, à partida, já era apresentada por ela com ar desiludido.


E lá se foi. Não se despediu de ninguém. Quando por lá passei estava o lugar dela vazio. Nunca mais soube dela. Quando perguntava se alguém sabia dela, ninguém sabia. Acabei por me esquecer.


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Só ontem, e já passaram tantos anos, voltei a lembrar-me dela. Foi ao fim do dia, quando fui fazer a minha caminhada, ao passar por um pequeno café, vazio, todo pintado de cor de rosa, duas ou três mesas com toalhas cor de rosa. Ao fundo, um pequeno balcão que também me pareceu vazio e atrás dele uma senhora com o cabelo apanhado e com um avental cor de rosa. Olhei e senti um aperto no peito.

Era para ter falado nisto ontem, para dizer que tomara que o cafezinho dê certo, que a senhora tenha sorte. E que aquela minha colega de que não consigo lembrar-me o nome também tenha tido sorte. Mas meteu-se aquilo do Prémio Camões para o Chico e quis aqui deixar-lhe o meu agradecimento e os meus parabéns. E, por isso, esta conversa ficou para hoje.

E é mesmo só isto que eu hoje tenho para dizer.


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[As fotografias são de Tamara Dean]

quarta-feira, maio 22, 2019

Chico e o seu jeito manso de amar a Teresinha
-- e, para além da Teresinha e de tantas outras mulheres, a língua portuguesa, a bem amada língua portuguesa.
Salve, amigo Chico Buarque, grande Prémio Camões 2019.





Já o contei muitas vezes: devo o nome deste blog à canção do Chico 'O meu amor'.

Faz já algum tempo, num certo sábado, tínhamos estado a ouvir as canções do Chico quer cantadas por ele quer pela Bethânia, canções que bem conhecíamos. Eu tinha levado para ouvirmos no carro e, depois, à chegada, apeteceu-nos continuar a ouvir e levei o CD para casa. E ali ficou a tocar. 

Como por vezes acontece quando ouve canções de que gosta, o meu marido passou o dia a cantarolá-la e eu também, entoando-a nós com a malícia que a letra pede. Às tantas, cantávamos ao despique. 

Sempre gostei especialmente de quando a Teresinha diz:

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

ou
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Quando, nessa noite, resolvi experimentar ver como se fazia um blog e tive que lhe dar um nome, foi sem pensar que me saíu 'um jeito manso'. 

Por vezes, ocorria-me que, como título de blog, 'um jeito manso' não fazia grande sentido mas a verdade é que sentia que o nome se me tinha colado. E até comecei a achar que, na volta, até fazia sentido. E assim foi ficando.

Tenho, pois, essa grande dívida ao Chico. Essa e muitas outras. Gosto muito das suas canções e da forma como as canta. Ainda não li as razões da escolha para Prémio Camões. Pode ser que tenha também a ver com os seus livros. Mas eu, em relação ao Chico, é pelas suas canções que mais me deixo encantar.

E há tantas.

Por exemplo, a sua Geni.


Ou as suas Mulheres de Atenas


Ou a ternura de João e Maria (aqui apenas a letra)



Ou tantas outras.

Claro que também pode ter recebido o Prémio pela cor dos seus olhos. E, se foi por isso, também terá sido muito bem dado pois quem tem uns olhos assim, cheios de mar, merece de certeza o prémio Camões.


Também pode ter sido por saber gostar de mulheres e por saber dizê-lo com tão bom gosto, mesmo quando escreve poemas de mulheres escritas na primeira pessoa.


Para acabar, uma de que muito gosto, aqui justamente cantada por uma mulher.
Elis Regina canta Tatuagem



Chico, muitos parabéns pelo Camões 2019. Salve.

terça-feira, maio 21, 2019

Sobre o debate televisivo nada a dizer.
Por isso, passo à frente e tento compensar as pessoas que vieram parar ao Um Jeito Manso e, certamente, não deram com o que queriam.


Tenho que confessar: volta e meia ia espreitar o debate com a Maria Flor Pedroso mas havia ali personagens que beliscam a minha paz de espírito e que, onde quer que estejam, conduzem a conversa para o vão de escada, para a conversa de deitar fora, para a mais rapada lorota. Não dá. Mesmo que algum deles quisesse ser esclarecedor logo aparecia um galã a fazer sorrisinhos de engate, especialmente quando a Marisa falava, ou uma galinha despenada a cacarejar espaventosamente fosse contra os outros, fosse contra a própria moderadora. Aliás, para falar verdade, nem percebi o que estava uma galinha a fazer ali. Será que, ao menos, pôs algum ovo? Ou nem isso?

Não aguentei, portanto. De resto, já sei em quem vou votar; não são estas rodas de baile mandado que me vão esclarecer. Portanto, salvo algumas fugazes espreitadelas, passei ao lado, estive entretida a recordar os tempos em que o Láparo made my days e a fazer outras coisas mais instrutivas.

E agora, antes de ir pregar para outra freguesia, fui espreitar as estatísticas do blog e, ao ver as palavras que algumas pessoas escreveram nos motores de busca e que as trouxeram até aqui, constatei que as mais frequentes são as de sempre: 'Um jeito manso', 'um jeito manso blog', 'quem é a autora de um jeito manso', etc, mas, que, a seguir, voltam a aparecer algumas fantásticas. Confesso que me deixam intrigada não apenas por não saber a que algumas se referem, como por não perceber porque é que o algoritmo achou que aqui iam encontrar o que queriam. E algumas expressões têm muita graça.

Mas porque receio que tenham vindo ao engano e porque não quero que falte nada a quem aqui vem, vou tentar satisfazer a curiosidade dos meus visitantes. Faltam-me palavras para os elucidar tal a complexidade do desafio pelo que me fico por imagens -- e espero que sejam self explaining.

A rapariga dos bincos de perla 



Uma rapariga pico de perila



Corno manso que é cavalo



Abano de sacoca de abanar fogo





Filme pornô m calçados





Sexo nacional de dona gina 



Cerveja Gina (ou Yoni beer) -- cerveja feita com essência de vagina

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E, agora, caso queiram recordar o nada saudoso Láparo, podem fazer o favor de descer mas deixem que vos diga que não é coisa que se recomende.

Desenterraram o Passos Coelho para mostrar que não aprendeu nada e, cá para mim, para enterrar ainda mais o Rangel.
Coisa esperta.
O PSD está a especializar-se em dar tiros nos pés.


  • Se um País tiver muitos desempregados, que não descontam para o fisco e não contribuem para a Segurança Social, e, pelo contrário, recebem subsídio de desemprego, 
  • se, além disso, houver muita gente a emigrar e, portanto, sem fazer descontos no seu próprio país, 
são os que ficam e trabalham que descontam por todos. Ou seja, havendo menos gente a descontar, são os poucos que descontam que terão que suportar taxas de impostos e contribuiçãoes mais elevadas. Foi o que aconteceu na era do Láparo. Em especial a classe média foi esmifrada até ao tutano. Com  cortes de ordenados, agravamento de taxas e com taxas suplementares, penaram a bom penar. 

Em contrapartida, em era de maior desafogo, há menos desempregados, há menos subsídios a pagar e há mais gente a trabalhar e, logo, a descontar. E, se muitos emigrados voltarem, mais gente ainda haverá a fazer descontos. Mesmo que cada um pague menos impostos, e, portanto, sofra menos, quando tudo é somado, o 'bolo' total é superior. E é isto que se pretende, que mais gente pague e que cada pessoa pague menos. É o que acontece agora.

E é isto, caraças, que o Láparo (o campeão dos orçamentos rectificativos, o campeão do não-acerta-uma, o campeão dos insultos aos portugueses) não consegue perceber.  Apareceu agora na campanha eleitoral, ao lado do Rangel, a atacar o actual governo pela maior carga fiscal de sempre, sem perceber que houve um alívio a nível individual. 

E o PSD, um partido de gente doida varrida, parece também não conseguir perceber que, desenterrando o Láparo para ele exibir o que tem, ou seja, a sua proverbial ignorância e o seu deselegante e desagradável ressabiamento, só consegue uma coisa: enterrar ainda mais o incapaz Rangel. 

Andavam a cantar de galo, e nunca percebi porquê, dizendo que a campanha do PS estava a correr mal. Nunca percebi em que é que se baseavam. 

No fundo, apregoavam o que desejavam como se fosse uma verdade -- e os jornalistas-papagaios e os comentadores-papagaios, que nunca validam nada, repetiram a boutade como se fosse um facto. Mais: em cima da pueril parvoíce, construiram uma narrativa. Ficção, claro. E, claro!, enganaram-se em toda a linha.

E o que tudo isto revela é a triste falta de tino desta descomandada tropa fandanga laranja. 

O Rio, como sempre, pouco aparece. Deve andar a processar a informação -- sempre com um delay de dois dias. Como todos os dias há novas cenas, todos os dias precisa de mais dois dias. Ou seja, não consegue sair da fase de reflexão. O partido perde relevância de dia para dia e ele népias, tem mais que fazer.

Não vão longe, claro. Mas no dia 26 à noite logo falamos.


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Os cartoons do Kaos são do Kaos e eu, para não me repetir, só digo que muito gostaria se o dito We Have Kaos in the Garden regressasse. Faz tanta falta.

Onde andas, Kaos? Volta...

segunda-feira, maio 20, 2019

Para Duarte Pacheco a Grã-Cruz dos Inenarráveis Peitorais -- proponho eu.
Enquanto isso, Marques Mendes e João Vieira Pereira (cada qual mais Justiceiro-Mor que os demais que por aí pupulam), propõem retirar todas as condecorações a Berardo, Zeinal Bava, Bataglia... e, claro... Sócrates.


Tinha deixado a televisão da sala ligada. Fui acabar a sopa e tratar de outras pendências. Quando acabei, voltei para a sala para passar um brilhozinho nas unhas. Estava o Marques Mendes a perorar e, estando eu ocupada com uma tarefa que obriga a pouca movimentação não vá estragar o trabalhinho, deixei-o estar. 

E então ouvi o impensável: na sequência da convicta defesa da retirada da comenda ao Berardo, a quem chamou burlão e aldrabão, qual justiceiro adepto da justiça popular, dispensando os órgãos institucionais que têm por missão tomar decisões sobre isso, Marques Mendes defendeu que fossem também retiradas as condecorações a Zeinal Bava e Helder Bataglia e, de caminho, também a Sócrates (uma condecoração atribuída em 2005) e isto, segundo ele, devido a, e passo a citar apesar de "não ter sido julgado nem condenado" a sua conduta "foi inadmissível no plano ético e mancha a imagem de Portugal"


Ora não sei a que se refere ele. Se se refere àquilo que o próprio Sócrates reconheceu, de gostar de levar um estilo de vida digamos que desafogado e, para tal, recorrer a dinheiro emprestado por amigos, não sei se isso é razão para retirar condecorações a alguém. A menos que uma condecoração seja uma estrelinha de bom comportamento na caderneta. Mas, então, se é isso, o melhor é dá-las a padres e freiras e, mesmo assim, poucos passarão no crivo. Mas se refere a questões que constam da acusação e que nem o juiz Ivo Rosa ainda conseguiu digerir e que ainda estão longe de ser julgadas em tribunal que é onde estas coisas se tratam, então, uma vez mais Marques Mendes se esticou. sistematicamente mostra ser um manipulador e, se ainda é Conselheiro de Estado, muito mal aconselhado andará Marcelo Rebelo de Sousa.

E se a semana passada louvei o editorial de João Vieira Pereira, actual director do Expresso, por me parecer que estava mais atilado e isento, à segunda semana, constatei que me enganei, continua igual a si próprio, tendencioso, pouco profissional.

No artigo 'O sorriso é dele, a vergonha é nossa', no qual salta a pés juntos em cima de Berardo, não hesita em ceder ao seu vício: o de ir buscar Ricardo Salgado e, sobretudo, Sócrates, para os apresentar como os pais de todos os males do mundo para, como sempre, através deles, justificar o percurso de Berardo.
A dado ponto escreve: 'Tal como Salgado e Sócrates, também Berardo foi idolatrado. Algo que acontece com demasiada frequência. Basta lembrar que durante anos ninguém questionou a alegada herança de Sócrates que lhe permitia comprar apartamentos de luxo ou fazer uma vida desbragada numa das mais caras cidades do mundo.'
E mais à frente: 'Quando entrou no Parlamento Berardo deve ter achado que Sócrates ainda era primeiro-ministro ou que os banqueiros mandam alguma coisa'.
Uma forma rudimentar de pensar e, lamento dizê-lo, também de escrever.

E, lendo aquela prosa, fico sem perceber se o João Vieira Pereira tem dons mediúnicos e consegue ver o futuro, sabendo já a sentença do caso Marquês, ou se, uma vez mais, confunde o manuel germano com o género humano, a árvore com a floresta e a beira da estrada com a estrada da beira. Ele já sabe se Sócrates comprou mesmo apartamentos de luxo? Ele já sabe se Sócrates cometeu crimes? Se sabe, seria interessante que o dissesse. Mas que o dissesse fundamentadamente. É que eu não sei ainda de nada.

Sempre conheci João Vieira Pereira assim: pouco perspicaz, gabando o que os outros gabam, louvando o que os outros louvam, incapaz de ver um palmo à frente do nariz. Mas, quando alguém cai em desgraça, aí ele vira o mais implacável saltitão a pés juntos. Um puro maniqueísta, ainda por cima desprovido de subtileza.

Volto a dizer aquilo que sei: Sócrates foi julgado politicamente através das eleições e é nas urnas que se julga quem vai a votos. No que se refere às suspeições -- sobre as quais a gente mais incompetente que a Procuradoria já pariu construiu impunemente o maior monstro jurídico alguma vez foi visto e que temo que nenhum ser vivo conseguirá alguma vez virar de lés a lés -- há que esperar que, nas nossas vidas, alguma conclusão seja retirada. 

Pela parte que me toca, a minha posição é a de sempre: qualquer pessoa é inocente até prova em contrário. E não há justiceiro de meia tigela que me faça mudar de ideias, seja ele uma espécie de conselheiro de estado, seja ele um director de jornal.

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E eu, se é para ser assim, com base no diz-que-diz-que e no vale-tudo popularucho, avanço já daqui com uma proposta de condecoração com a Grã-Cruz do Macho com o Body mais Improvável para Duarte Pacheco do PSD, esse espectacular macho latino a quem não se conhecem outros feitos que não o de cultivar bem o corpo e de ter uns mamilos indecorosamente arrebitados.



E, tirando isso, nada mais.