Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, fevereiro 06, 2016

Carol. Patricia. Cate. A sexualidade de três mulheres perigosas.



Sexta-feira, sempre que possível e sempre que há alguma coisa que desperte a atenção, é dia de cinema. Hoje foi dia de Carol. Quando disse à minha filha que ia ver este filme, perguntou-me se era aquele das lésbicas. Respondi-lhe que era aquele com a Cate Blanchett e que era adaptado de um romance da Patricia Highsmith.


O meu marido estava um bocado renitente, queria que eu lhe dissesse se o filme não seria uma daquelas pepineiras de que eu gosto tanto e a que ele não acha graça nenhuma. Disse-lhe que achava que era bom, que ele ia gostar. Antes de entrarmos, disse-me que estava mesmo a ver que a sala ia estar cheio de fxxxx. Volta e meia gosta de se armar em engraçadinho. Aliás os meus filhos às vezes dizem que vê-se mesmo que o pai gosta de fazer a mãe rir. Mas não ri, respondi-lhe que estava a ser parvo. Quando estávamos já sentados no nosso lugar, chegou-se ao meu ouvido e segredou: 'O que é que eu disse?'. Olhei à volta e, sem querer, soltou-se-me uma gargalhada. E depois custei a ir ao sítio, uma vontade danada de me rir. Não é inédito haver grupos de mulheres nos cinemas, aliás é o que menos falta. Mas, caraças, o que se via a toda a volta eram vários conjuntos de duas mulheres em que, na maior parte, dava mesmo a ideia de serem casais de verdade.

Mas, pronto, não é coisa para se rir, já disse aqui mil vezes que acho que cada um tem a orientação sexual que tem e boa noite, nada a ver com isso. Mas foi aquilo de ele ter dito aquela parvoíce e de, depois, ter confirmado. Ou isso ou a sonsice dele que me faz desatar a rir e ele mantém-se sério, como se a parva fosse eu. 

Enfim. Coisas nossas.

O filme é bom, a história é credível, as representações muito boas, tudo bem. Mas, para mim, parece que falta ali alguma emoção mais funda, alguma hesitação mais violenta, mais dolorosa, alguma sedução por um lado mais contrariada mas, ao mesmo tempo, mais difícil de contrariar. Sendo uma história marcante, parece que corre com demasiada facilidade. Tenho o livro mas ainda não li. Não sei qual o fio com que Patricia Highsmith coseu a trama pelo que não posso ajuizar se o pecado é original ou se houve ali -- no guião, na filmagem, na edição ou na banda sonora, não sei -- uma certa falta de densidade ou de textura. Parece que lhe falta erotismo apesar das cenas de amor e nudez. Tal como acho que ao marido parece que falta incompreensão, desespero ou raiva. Parece que nunca há nem verdadeiro sofrimento nem verdadeiro prazer.


Mas o filme é bom, que não se pense que não: aliás, recomendo que o vejam e que formem a vossa própria opinião. Às tantas eu é que já ia com as expectativas muito altas ou que sou niquenta. Nunca se sabe.
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Foi na sequência deste filme que Cate Blanchett disse, numa entrevista, qualquer coisa que deu azo a que dela dissessem que também era sexualmente fluida.


Transcrevo as notícias da altura:
In an interview ahead of the film’s premiere at Cannes on 17 May, Blanchett was asked if playing the title role in the Todd Haynes-directed period drama was her first turn as a lesbian.
“On film – or in real life?” the actor responded. Pressed on whether she had ever had a relationship with a woman, Blanchett told the interviewer: “Yes. Many times.”

Mais tarde Cate veio esclarecer que não é lésbica, que nunca teve relações sexuais com outras mulheres e que a entrevista acabou de outra forma:

Do you mean have I had sexual relationships with women? Then the answer is no.’ But that obviously didn’t make it.”
Mas a isso já não foi dada qualquer importância e volta e meia leio que ela já teve relações com mulheres e aparece na lista das actrizes que se assumiram como bissexuais.

Cate, uma mulher inteligente, acrescenta sobre o assunto:
“[Carol’s] sexuality is a private affair. What often happens these days is if your are homosexual you have to talk about it constantly, the only thing, before your work. We’re living in a deeply conservative time.”
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Mas let's look at the trailer


 

Sobre o filme Carol transcrevo do Cinecartaz:


Nova Iorque (EUA), década de 1950. A jovem Therese Belivet sobrevive com um emprego na secção de brinquedos de um grande armazém ao mesmo tempo que sonha com uma carreira como fotógrafa profissional. Um dia, conhece Carol Aird, uma mulher sofisticada de cabelos loiros e casaco de vison que ali chega para comprar um presente de Natal para a filha. Therese anota o endereço de envio do brinquedo e, num impulso, escreve um cartão de felicitações. Carol, que está a viver um momento conturbado e que se encontra à beira do divórcio com Harge, o marido, responde. Mais tarde, as duas encontram-se e tornam-se amigas. Com o tempo, a ligação torna-se mais íntima, e a amizade converte-se em paixão. Mas quando a relação se torna evidente, o marido de Carol retalia pondo em causa a sua competência enquanto mãe e exigindo a guarda total da filha de ambos. É então que Carol, desesperada, desafia Therese a fazer uma longa viagem pelos EUA…

Nomeado para seis Óscares da Academia (entre os quais Melhor Actriz, Melhor Actriz Secundária e Melhor Realizador), uma história dramática realizada por Todd Haynes (“Velvet Goldmine”, “Longe do Paraíso”, “I'm Not There – Não Estou Aí” ou, mais recentemente, a série televisiva “Mildred Pierce”). O argumento, da autoria de Phyllis Nagy, baseia-se na obra “O Preço do Sal”, da escritora norte-americana Patricia Highsmith. Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson e Kyle Chandler dão vida às personagens. 
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Quanto a Patricia Highsmith (americana, 1921-1995), escritora compulsiva, democrata, ateia e homossexual (e que recorreu a tratamentos para ver se ficava em condições de querer casar e a quem se conheceram vários relacionamentos amorosos com mulheres), não estivesse eu já perdida de sono e escreveria aqui quelque chose sobre a sua extraordinária obra mas já não consigo. Assim limito-me a dizer que que se diz que mulheres que escrevem levam vidas perigosas e que Patricia, que tanta gente matou, que o diga.



Patricia Highsmith - A woman of mistery


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E, por agora, por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Sou a louca mais domesticada que conheço.
E não há quem se sinta mais decepcionado com isso do que eu.
[E um pequeno parêntesis sobre António Costa, Passos Coelho e sobre as histéricas e venenosas viúvas laparianas]


Bem, no post que se segue já falei de moda e da minha relação com ela, já mostrei a moda primavera-verão 2016 segundo a casa Chanel e já mostrei a preparação das peças de alta-costura.

E agora estou a aqui a hesitar se hei-de gozar que nem uma perdida com o desplante do láparo, com a falta de moral, a falta de bom senso da criatura que agora aparece todo posudo, outra vez feito putativo estadista, fazendo de conta que não andou por cá nos últimos 4 anos a espatifar o país -- ou se não toque com as minhas mãos nas teclas que me levarão a escrever palavras de agonia e fale mas é de outra coisa.

Já decidi: vou falar de outra coisa.



Mas antes, deixem que abra aqui um parêntesis, coisa pouca.

O Orçamento, como já aqui tinha dito, foi aprovado pelo Governo, por Bruxelas (que tem mais que fazer do que meter-se em trabalhos com os tugas que nunca dão trabalho nenhum e que são umas boas cobaias para tudo, até para ensaiar uma inflexão na política europeia) e que agora vai ser aprovado no Parlamento. 

António Costa  tem vindo a afirmar-se como um mestre na negociação, uma mistura de negociador marroquino (quer chegar a 10 e, ao mesmo tempo, agradar à contraparte, e, então, começa por 100 para ir negociando, negociando, chegando onde quer e deixar o outro todo contente pela vitória que teve) e de príncipe florentino, cheio de manha, charme, todo escolado na arte da sedução e conquista. E, portanto, foi uma vez mais nas calminhas que levou a água ao seu moinho. 

Não sei se há algum maquiavel a aconselhá-lo ou se ele é conselheiro e príncipe numa única pessoa, como parece ser. Um case study, de qualquer maneira.
As histericazinhas do regime, as viúvas do láparo -- que nada percebem, que nada tentam perceber e que apenas têm a sua ignorância, a sua perfídia e o seu ódio a movê-las -- bem andaram por aí a inventar grandes crises, a vilipendiar, a tripudiar e a torpedear mas, hélas, não tiveram sorte em nenhuma das frentes de batalha que abriram, nomeadamente nas externas.


Só espero, agora, uma coisa: que o Governo e a coligação que o apoia percebam a importância da comunicação. Os saudosistas do láparo e os avençados a soldo dos endinheirados e diligentes agentes dos mercados tudo fazem e tudo farão para minar a opinião pública.


Há, pois, uma pedagogia séria a fazer, uma desmontagem de todos os ardis e bacoradas que foram propagados insistentemente. Durante quatro anos os portugueses foram vítimas de uma perversa lavagem cerebral que ganhou fundas raízes já que o terreno é fértil: os portugueses, dada a sua matriz cultural judaico-cristã, formatados para assumirem a culpa (nem que seja dos pecados dos outros), facilmente assimilaram uma história falsa.

Há muito trabalho a fazer neste domínio e, do que tenho visto, isto não está a ser acautelado. As notícias que ouço nas televisões são manipuladoras, facciosas, indutoras de ideias distorcidas. A desinformação deve ser percebida como o um risco sério que é.

Uma democracia saudável precisa de uma população bem informada. A desinformação massiva torna as populações vulneráveis a todo o tipo de manipulações e daí até aos regimes populistas, extremistas e perigosos, vai apenas um pequeno passo.


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Mas, enfim, hoje estou sem grande vontade de vos maçar com este género de conversa pois só me apetece falar à bruta e acho que quem me lê não tem que levar com a minha revolta. Hoje, depois do rio manso da moda que corre mais abaixo, estou de mar revolto. E ou estou aqui num apertado esforço de contenção, coisa em que não sou especialista, ou parto para a bordoada e acho que, numa sexta-feira, ninguém merece.

Por isso, com vossa licença, vou partir para outra. Ora vamos lá. Vamos falar da loucura que é ser livre.

(...)


Loucura mesmo é perder os descaminhos por andar demasiado tempo sobre os trilhos. A trilha não compensa. É preciso não temer em demasia o beijo na lona. Contudo, admito, sou um maria-vai-com-as-outras. 


E por falar em efeito manada, em seguir a onda, loucura mesmo é achar a coisa mais comum do mundo quando o mar quebra na praia. As marolas nunca são iguais. Espuma e melancolia são coisas muito subjetivas, pois cada um investe poesia na sua vida da maneira que dá conta. Em tempo: o ato mais lírico e insano que já cometi foi ter cometido filhos. É um tipo de amor que não possui métrica. Não consigo rimar nada parecido com isso.

Loucura mesmo é buscar a fama sabendo que a fome da terra nos espera com os dentes de anteontem. Há uma pressa incompreendida no nascer-e-morrer do universo. Ninguém explica isso sem partir para o fanatismo. 

Não sei se você concordaria com isso, mas, fanatismo é reverenciar uma boa hipótese. 

Se sacasse alguma coisa a respeito dessa tal Geração Y, eu perguntaria aos universitários, sem titubear: o que é a vida, chapas? Rio só de imaginar as caras deles.

Pensando bem, se prestarmos muita atenção nos detalhes da nossa longa existência no planeta, notaremos que loucura mesmo é derrubar hectares e mais hectares de mata-virgem para asfaltar a relva e plantar espigões de concreto onde seres humanos se empilham. Há pouca ou nenhuma humanidade nisso. Não faz tanto sentido quanto afirmam os arquitetos. (...). 

Rômulo e Remo acharam plausível, líquido e certo mamar nas tetas de uma loba. Então, mamaram. Era uma questão de sobrevivência. O que esse adendo mítico tem a ver com a minha história? A não ser pela sedução do trocadilho, nada. Não reclame. Eu avisei que estava com a macaca. Você trepou com o meu texto porque quis. Mesmo assim, não se amofine. Estou aqui, próximo de um fim, agarrando-me a qualquer fio-da-meada que se me oferecer.

Loucura mesmo é ter coragem de levar a vida na flauta, à margem da escala-de-dó dos que sofrem por falta de tempo, com sanha por patrimônio material. Que vida odiosa levam os que buscam um futuro melhor gozando o presente da pior maneira. Loucura mesmo é contar dinheiro, várias vezes ao dia, na esperança de que apareça um pouco mais dele. É organizar carnês por data de vencimento. É fazer ginástica financeira, mas, enfartar por causa do sedentarismo. Coronárias não aceitam banha-de-porco, quem dirá, desaforo.

Você foi alfabetizado, amigo? Então, conte nos dedos quantos loucos deram certo na vida. Todos. Eu digo e repito, com medo de acertar: todos. Os malucos anônimos e os malucos geniais. Os loucos magníficos, mesmo sem pleitearem os louros, entram para a história e se tornam eternos. É comum que dependuremos os seus pôsteres nas paredes, a fim de admirarmos tanta petulância. É como se falássemos ao espelho: Queria tanto ter sido como você; doido, lindo, sincero e verdadeiro.

Mas existem demandas demais, compromissos demais, impostos demais, impostores demais esperando por nós: os homens normais. Esse status tolo no qual eu e você estamos inseridos faz parte do enfadonho, triste e conveniente convívio social — não necessariamente nesta ordem. Porque, quando o assunto é desordem, não entendemos nada. Quem dela se alimenta são os loucos-de-pedra. Os homens mais livres que já caminharam sobre a face da terra.


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O texto a itálico é um excerto de Loucura mesmo é ser livre do médico e cronista Eberth Vêncio na Revista Bula. O título do post pertence à parte do texto que não transcrevi (depois de o passar para o feminino, bem entendido que eu cá não sou louco coisa nenhuma, sou é louca mesmo).

As fotografias provêm da Vogue e são da autoria de alguns dos vários fotógrafos que têm contribuído para o prestígio da revista. A partir de dia 11 de fevereiro a exposição Vogue 100: A Century of Style pode ser visitada na National Portrait Gallery.


Lá em cima Sonia Wieder-Atherton interpreta Song In Remembrance Of Schubert.


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E queiram, agora, se para aí estiverem virados, descer até ao post já a seguir para saberem como me visto e para uma conversinha levezinha sobre a moda segundo aqui a vossa jeitosa mais mansa 
(ora aí está um bom nome para um outro blogue que eu invente A Jeitosa mais Mansa.)

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Eu e a moda -- e a alta-costura Chanel, colecção primavera/verão 2016



Não serei a pessoa mais indicada para falar de moda. Embora goste de me vestir com um certo cuidado, não gosto de gastar muito dinheiro em roupa. Não vou atrás de modas, prefiro as coisas de que gosto e que não se vêem por todo o lado. Por exemplo, se as franjas estão na moda, certo e sabido que não uso nada que as tenha. Se o xadrez é o hit da saison, mais do que certo que eu lhe passo ao lado. 

Não me importo -- e, aliás, gosto -- de misturar cores, comprimentos. Gosto de assimetrias e de cores sobre cores e de écharpes. Não me ensaio nada para usar caças estampadas de um tecido atípico e conjugá-las com blusas clássicas, lisas. Gosto de articular a roupa com os sapatos e com os brincos, colares, anéis, pulseiras (geralmente tudo bijuteria e com conta, peso e medida).

Anna Wintour,
editora-chefe da Vogue americana
(que inspirou a personagem que Meryl Streep
interpreta em O Diabo veste Prada)
Dantes, quando não tinha este ofício nocturno do blog, chegava a pegar em blusas normais e fazia-lhe alguns bordados com pedras, tornando-as em peças verdadeiramente diferentes -- isto muito antes de se verem à venda blusas com pedras no decote. 

Como não gosto de usar roupa grossa porque sou encalorada, uso geralmente blusas fininhas, depois um casaquito fino, depois outro igualmente fino mas mais grossinho que o anterior. Este geralmente fica no carro e o outro salta mal entro no gabinete. Geralmente tenho também no carro uma capa de lã ou coisa do género para, quando chego à noite e vou fazer uma caminhada sem ir a casa, vestir tudo, umas coisas por cima das outras (tenho uns ténis no carro). É assim que me sinto bem. 

Gwyneth Paltrow
Nas noites frias, o meu marido vê-me assim e pergunta se acho que está tempo para andar tão mal agasalhada, casaquitos finos, um por cima do outro, e uma capa de lã ou um casaco geralmente de meia manga, de lã, por cima. Digo-lhe que sim, até porque ponho uma echarpe de lã quente à volta do pescoço e sinto-me logo aconchegada.

Portanto, não sou dada a últimos gritos da moda, a roupa de marca, a delírios fashion. Prezo o meu gosto pessoal que é desconstruído e descontraído.

Claro que, conjugando isto com uns saltos bem altos, a coisa ganha logo um ar mais 'a sério' e já posso exercer as minhas funções sem me sentir muito diminuída ao pé das minhas colegas de escritório que levam a moda muito a sério.

O meu marido uma vez ofereceu-me um fato completo, calças e blaser, Armani. Foi comprá-lo com a minha filha. É intemporal. Surpreendeu-me e encantou-me. Jamais esperaria que tivesse tal ideia e que tivesse, por ele, tomado a iniciativa de chamar a minha filha para ir com ele escolher tal coisa. E, se bem me lembro, a minha filha contou que o pai lá entrou, olhou à volta e disse que gostava daquele. Como habitualmente, em três tempos despachou o assunto. E a verdade é que acertou em cheio. Mas eu, por mim, não me sinto minimamente tentada a gastar dinheiro numa toilette de tal calibre. Sou mais de andar a descobrir raridades e autênticas pechinchas nos fins de saldos.

Cara Delevingne, um dos ícons Chanel, com o seu cão
e com um casaquinho transparente, bordado, lindo

Agora uma coisa é certa: se um dia me saírem uns milhões no euromilhões, para além dos destinos que já lhes estão destinados, dar-me-ei ao luxo de entrar na Casa Chanel em Paris para escolher um ou outro modelito.

Além do mais, se há coisa de que gosto é de ver o acto de costurar. E, quando a costura é arte (como é o caso da alta-costura), então é um fascínio.

Partilho convosco dois vídeos relativos à colecção Chanel Primavera/Verão 2016.


Vejo isto e apetece-me logo tirar ideias, desatar a aplicar coisinhas em blusinhas, pintar, bordar, pregar contas, pedrinhas, florzinhas. 

(Mas ou faço isso ou estou aqui a escrever estas coisecas, para as duas coisas o tempo não estica)





Entrevista com o mago da alta costura - Karl Lagerfeld, o sempervirens



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma magnífica sexta-feira.

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quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Nossa Senhora de Fátima vai ter um perfil no Facebook?
E a investigação do Caso Marquês já vai no Jumbo? E na Fnac?
Ai... na volta já estou a ser escutada... (comprei o livro do Sócrates numa Fnac... que medo)
O melhor mesmo é eu entrar numa catedral. Na Sagrada Família. Entrem comigo, por favor


Bem, agora que já falei da inesperada prisão de José Eduardo Martins na sequência de eu me ter insurgido aqui com o seu desempenho nos debates na SIC, já posso virar-me para a religião.

Cá vou eu.



Bem, antes disso, para que não se gere para aí algum boato, rectifico: claro que não foi por eu me ter zangado com ele: aquilo foi mesmo uma pegadinha de carnaval. Claro. Quiseram que ele pensasse que tinha alguma coisa a ver com o Caso Marquês, até o puseram na mesma cela onde já esteve Sócrates e tudo. 
Ah, agora a propósito: mais outra piadola. Li, juro que li, que a grande investigação ao Sócrates levada a cabo por esse super-crânio que dá pelo nome de Rosário Teixeira já descambou de vez em pura anedota. Imagine-se onde é que os agentes da justiça agora têm andado a fazer buscas? A sério. Quem não leu a notícia, feche os olhos e imagine onde pode ter sido. Ok, eu digo. Agora andam no Jumbo, no El Corte Inglês, na Fnac, na Bertrand. Querem ver as listas de vendas de 1.500 livros de Sócrates porque acham que isso são vendas a mais, que esses hits costumam estar reservados ao José Rodrigues dos Santos. Já lhes explicaram que a amiga ou o amigo compraram alguns para oferecer a outros amigos e familiares ou para enviar para militantes socialistas que pediram. Mas não. O Rosarinho não vai nessa, ó Vanessa. Não, o Rosy quer saber os detalhes: no Jumbo, quem comprou, porque é que comprou, como pagou, onde arranjou o dinheiro para pagar?
Um dia destes ainda aqui me aparecem dois paisanas, armados em maus, pistola em punho, ui que medo, para eu ir, algemada?, prestar declarações. 
Pois daqui eu confesso: comprei um livro do Sócrates numa Fnac. Paguei com cartão. Pago o cartão com o meu ordenado. O meu ordenado é legal e sobre ele pago impostos. Não tenho nenhuma casa em Vale de Lobos. Não sou prima do presidente da Venezuela. Não sou uma das cinco mulheres de Sócrates. Não é o amigo de Sócrates que paga a minha conta da luz nem que paga ao meu patrão para ele me pagar a mim. 
Só estou para ver se, no fim disto tudo, a mega-operação Marquês tem é a ver com a concorrência que o Sócrates fez ao José Rodrigues dos Santos

Bem, onde é que eu ia? Ah, ia no José Eduardo Martins. Mas sobre isso falo no post abaixo, não aqui.

Aqui agora quero falar numa coisa. Estávamos nós a jantar, conversando, espreitando a televisão, quando reparamos que está um padre a falar das obras na Igreja (penso que na Basílica) e o senhor padre fala nas aparições e nas peregrinações e mostram as obras mas, ao entrevistarem os fiéis que por lá andam, as pessoas não sabem bem o que foi, uma diz que está igual mas mais branca, outras pessoas andam à procura dos pastorinhos, depois ouvimos dizer que os túmulos dos pastorinhos estão lá num corredor e mais qualquer coisa e, nós sem prestarmos muita atenção, e, então, aparece uma jovem, toda moderna, nada de freiras nem de padres, uma Relações Públicas completamente à civil, toda moderna, falando das comemorações, concertos e o escambau e até que vão estar ou já estão nas redes sociais. O meu marido que se tinha distraído, exclamou: 'É pá, mas o que é isto?'.

Fui agora à procura e encontrei uma notícia sobre as Comemorações do Centenário (Cento e cinquenta iniciativas assinalam centenário das aparições em Fátima) e leio que, de facto, há uma assessora executiva da Comissão do Centenário, Carla Abreu Vaz. Acho que é esta menina bonita aqui ao lado.

Repare-se que, ao escrever isto, não estou a criticar. Isto é mesmo espanto. Como não frequentamos estes meios, ainda estamos naquela de, em Fátima, aquilo ser organizado e gerido por padres ou freiras; e isto de nos aparecer assim uma moçoila, toda fashion, qual Roberta Medina a anunciar as novidades do Rock in Fátima, deixa-nos de boca aberta. 

E eu interrogo-me: Nossa Senhora irá twitar? Mandará fotos para o Instagram? Gostará que lhe ponham muitos likes no Face? Haverá bué de people a querer amigar-se com ela?

E, uma vez mais, isto não é crítica ou gozo: é que isto me deixa mesmo pasma. Sou de uma outra era. Uma vez, teria eu uns 16 ou 17 anos, não sei, os meus pais lembraram-se de ir conhecer o Santuário de Fátima. Acho que tínhamos ido ver umas grutas lindas ali perto, cheias de estalactites e estalagmites, e o meu pai todo prosa com explicações à volta do calcário e de depósitos sedimentares e tal. Lembro-me que eu tinha uns calções justos e curtinhos, uns little shorts avant la lettre, e uma blusinha de alcinhas, decotada atrás e à frente. Por essa altura usava o cabelo bem comprido mas, enfim, não servia de véu. Acho que fomos com amigos. Nem sei se não fomos até com uma das minhas avós. Mas cada um andou para seu lado, aquilo era enorme. Por todo o lado eu via cenas que despertavam a minha curiosidade: pessoas a andar ajoelhadas, com panos nos joelhos já em ferida, velas com formatos de pernas e braços, sei lá. Às tantas, vi que os meus pais iam a entrar para a Basílica e resolvi ir também espreitar. Mas, nessa altura, quando eu ia a entrar, veio um padre ter connosco a dizer que eu não podia entrar assim: tinha que cobrir o corpo e pôr um véu ou não podia entrar. E a minha mãe também um véu. O meu pai passou-se. Todo ele anti-beatice, aquilo pareceu-lhe uma afronta. A minha mãe ficou também indignada mas não queria que ele se pusesse para ali a discutir com o padre, e, por isso, disse que eu também não precisava de entrar e que ela também não. Alguém sugeriu que eu arranjasse um casaco comprido e que alguém me haveria de emprestar um véu mas eu também já não quis. Achei aquilo verdadeiramente ofensivo, não me deixarem entrar na igreja. Nunca mais me esqueci disso, eu, uma miúda, a ser barrada à porta da igreja.

E agora aparece uma moça, leiguíssima, a falar de festividades religiosas na maior ligeireza, públicos de todas as idades, concertos, sei lá, e com redes sociais à mistura... Estou a ficar pré-histórica. Desapareceram as irmãzinhas da caridade? E padres? Também já são uma raridade? Fátima já estará nas mãos do Luís Montez? Ou já terá caído nas mãos de algum fundo chinês? Ai...

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O vídeo lá em cima é Enra, "pleiades" numa interpretação e coreografia de Saya Watatani e Maki Yokoyama com música de Nobuyuki Hanabusa.

As fotografias são da autoria de Mark Leeming (excepto, acho eu mas não garanto) a da Carla Abreu Vaz.

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Bem. Ainda não é hoje que falo do lobo. Mas, para não darem o vosso tempo por perdido, deixem que vos convide a ver o vídeo abaixo sobre a fantástica Sagrada Familia em Barcelona que, mais do que uma catedral, é um sonho de um homem, uma epopeia em pedra, uma inexplicável utopia que se fez obra, uma casa próxima do paraíso, um castelo, um abrigo, uma desmedida loucura. Vejam, por favor, até ao final para verem como se espera que esteja quando estiver pronta, o que talvez aconteça em 2026.


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E, pronto, agora a seguir é que vem o José Eduardo Martins e a sua extraordinária aventura na prisão.

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José Eduardo Martins, escute lá! Olhe que não fui eu que o mandei prender na 5ª feira passada, ouviu? Eu apenas me chateei consigo por V. ser tão incoerente nos debates na SIC, ouviu? Olhe, a sério que lamento saber que foi preso e ainda por cima por uma estupidez de todo o tamanho. Mas acredite: eu não tive nada a ver com isso... A sério.




Na noite de dia 27 insurgi-me aqui porque o ex-deputado do PSD, José Eduardo Martins, na televisão, parece que fala para ter audiências e, portanto, para continuarem a contratá-lo, diz e desdiz, tudo com igual displicência e convicção. Se antes era geralmente contra o governo do Passos Coelho por achar que tanta austeridade era má para o país, agora que António Costa está a propor um alívio com vista a relançar a economia, é também contra. Passei-lhe aqui um raspanete, portanto.

Foi, portanto, o post que esteve disponível para leitura na quinta-feira. Ora bem. Nesse mesmo dia, logo de manhãzinha -- sei agora -- dois agentes apresentaram-se em casa do dito comentador, ex-Secretário de Estado e ex-Deputado para o prender. À frente dos filhos, acrescente-se, e sem o informarem das razões, levaram-no preso.


O que ele descreve é de loucos. E porque é que o prenderam? Felizmente não foi para me agradarem, senão acharia um absurdo excesso de zelo, não haveria essa nechecidade, até porque se vão a correr prender todos aqueles de quem eu aqui mostro alguma distância, qualquer dia não tinha de quem falar.

Transcrevo o seu artigo, Kafka e eu, do Jornal de Negócios.


No Tribunal, outros agentes, o mesmo traquejo a lidar com criminosos… Lá me encarceraram numa cela que, a rir, disseram já ter albergado um ex-primeiro-ministro. Pedi outra. Já não tinha direito a pedidos. Meia hora a olhar para as grades (nota: nunca ser preso sem levar um livro, pois não ficamos com telemóvel ou tablet) e lá vamos à diligência, o "my day in Court". Se me privaram da liberdade, vou certamente poder perguntar ao juiz ou ao magistrado do MP as razões de tão gravosa medida. Enganem-se. 
Não havia magistrados, mas apenas uma engraçada e populista oficial de Justiça. 
Sentei-me. Olhou para o processo e disse: "Bom, é para lhe perguntar se confirma as declarações que fez. E, eventualmente, se quer acrescentar mais alguma coisa." 
Desculpe!? Sim, é isso mesmo, prenderam-me às 7h30 da manhã em frente aos meus filhos para que eu confirmasse o meu depoimento enquanto vítima de um assalto a minha casa. Não poderia isto ter sido feito por escrito, sobretudo com menor dispêndio de recursos e, já agora, de privação de liberdade?

Será que também tiraram a fotografia da praxe a José Eduardo Martins? 
  

José Eduardo Martins foi preso porque a sua casa de Grândola foi assaltada, apresentou queixa e depois não compareceu quando o chamaram para prestar informações. Vai daí não foram de modas: num dia mandaram-lhe uma multa de 204 euros e no dia seguinte foram a casa prendê-lo. Ah leões!


Diz ele que a casa já foi assaltada 4 vezes. Ou seja: não apanham os ladrões -- e prendem a vítima. É de loucos!

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Este tema para mim está muito fresco. No fim de semana, na nossa casa no campo, um vizinho que tem uma casa no início da rua passou por lá, abrandou e cumprimentou-nos, perguntando se tínhamos encontrado tudo bem. Admirados, dissemos que sim. Ele explicou, então, que, uma vez mais, tinham andado ladrões na zona, que tinham entrado na propriedade dele para roubarem umas ferramentas que tem lá num armazém, que tinham ido de noite, com eles lá, e que os cães até deram por isso mas que deve ter ficado outro a distrair os cães na direcção oposta porque ele foi para lá e não viu nada mexido; e que há dias lhe tinham roubado umas ovelhas; que lá mais abaixo tinham roubado não sei quê.

Perguntei se tinha apresentado queixa. Riu-se: 'Para quê?, não fazem nada e ainda nos metemos em trabalhos, chamam-nos ao tribunal, é coisa para um dia perdido, se não vamos ainda nos multam, só chatices para nada'. Pensei que, se não apresentam queixa, é como se não houvesse assaltos, assim é que ninguém pode fazer alguma coisa.

Mas depois recordei-me de quando assaltaram a nossa casa, há uns dois anos e picos, felizmente tendo levado apenas coisas do exterior. Nessa altura, apresentámos queixa e os agentes da GNR disseram que não podiam fazer nada, não tinham meios. Deu-me até pena do senhor, ali sozinho, nem jeep tinha. Algum tempo depois, recebemos a informação de que o caso tinha sido arquivado por falta de provas ou coisa do género. Felizmente não nos fizeram perder um dia de trabalho.

Mas o que me deixa consternada é que não há agentes para fazerem patrulhas, para vigiarem as casas mesmo em zonas ou em períodos de assaltos; e depois há agentes para andarem a prender as vítimas dos assaltos. É de loucos! De loucos!

Perante isto o que penso é que nem é falta de meios: é falta de gestão, de organização, de cabeça, de tino, é as coisas andarem sem rei nem roque.

O anterior governo apenas desgovernou, deixou tudo de pantanas. A nova ministra, Francisca Van Dunen, que deve ser uma mulher tesa, nem deve ter mãos a medir, tantos os fogos que tem para apagar, tanta a bagunça desorganizativa que deve estar a encontrar por todo o lado. Coitada. Parece ser uma mulher serena e bem que a serenidade lhe vai ser bem precisa.
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Bem. Só espero que deitem a mão a este assunto, que se organizem, que prendam os ladrões e deixem em paz as vítimas. Eu, pela parte que me toca, o que posso fazer é oferecer-me para dar uma ajuda nas patrulhas. Se é esse o problema, olhem, posso avançar em regime de voluntariado.

(Mas olhe, ó Sr. Zé Eduardo, não vale e pena pedir-me que o vá prender outra vez que já tenho a agenda cheia.)
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta-feira muito feliz.

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quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Aquelas que, em tempos, foram mulheres muito belas


Bem, agora que que se ouvem tantas meninas a gritarem que vem aí o lobo e que eu já disse o que tinha a dizer sobre o assunto -- deixando umas sugestões para os senhores que nos governam -- vou intervalar.

De qualquer maneira, a quem não aguentar a espera e quiser já ouvir-me a dar conselhos ao Costa, ao Centeno (que, coitado, tão estafado parece estar, dá ideia de já mal poder com uma gata pelo rabo) e ao Mister Foreign Affair e, tagarela como sou, também a falar do orçamento, de caniches que não largam, de incontornáveis popotas e de galinhas bronzeadas e sei lá que mais, pois que salte já daqui até lá para baixo.

É que, aqui, agora, vou falar de mulheres. Da beleza das mulheres quando deixam de ir para novas. (Hélas, como é o meu caso).

 Jennifer Lawrence, 25 anos, e Jane Fonda, 78 anos -  por Annie Leibovitz para a Vanity Fair, 2016



Silêncio e tanta gente - Maria Guinot


Hoje fui ao supermercado à hora de almoço. Todas as semanas levamos as compras mais pesadas para que a terceira idade não tenha que o fazer. Quando me atraso, o meu marido despacha tudo num ápice: as compras cingem-se ao estritamente necessário. Quando eu vou, dou-lhe cabo do sistema nervoso porque o tempo é limitado e eu, sem querer, perco-me. 

Jane Fonda, 1978

Geralmente, mal o apanho de costas, pisgo-me a ver se há promoções na zona dos cremes. Vejo para que idades são eles recomendados para ver se são mesmo os que eu deveria usar, se apagam as rugas, se eliminam a flacidez, e mais qualquer coisa de que agora não me lembro. Vejo se são de dia, de noite, se são tratamentos reafirmantes, se são daqueles que simulam preenchimento, etc. (O que será a outra coisa de que não me lembro?) Adiante. Depois vou ver os mais caros, para ver as novidades. Um balúrdio. Arrepio caminho e, se estou a precisar, fico-me pelos mais básicos.

Volta e meia encontro na casa de banho do escritório algumas colegas retocando as maquilhagens. Só vejo coisas de marca. Eu não. Abasteço-me na fancaria e, de preferência, no que estiver em promoção. Perdulária só sou com livros (ou coisas para a descendência, claro).

Pois bem, hoje havia promoções das boas, 35% de desconto. Abasteci-me, claro está. Agora já apliquei um creme de noite, dos novos. Com um descontão destes, trouxe um daqueles que, só pela embalagem, a gente já vê que é coisa técnica, certamente mais eficaz do que um lifting.

(Só espero amanhã, quando me vir ao espelho, poder constatar que estou com a cara que tinha aos 15 anos, sem uma ruguinha, pele quase de bebé.)

Helen Mirren, 2016
Tenho na parede do meu quarto, umas fotografias de quando me casei, banhada de sol, eu de calças brancas, justinhas, túnica Augustus branca, quase transparente, com uns bordadinhos brancos, cabelo curtinho, risonha, completamente in love e abraçadinha a um moreno sóbrio parecido com um sírio cabeludo e barbudo. 

Helen Mirren por Lord Snowdon, 1995

Por baixo dessas fotografias coloquei uma minha e uma dele quando tínhamos eu um ano (quase careca, apenas uma penugem clarinha, e toda risonha) e ele com dois (cabelo escuro, muito penteadinho e muito sério).

Volta e meia páro a olhar: eu com 1 ano, eu com 20 anos e, depois, se me olhar ao espelho, eu agora. E tento perceber quantas das minhas células actuais sobreviveram desses meus verdes anos. Penso que já devem ter ido todas à vida e, no entanto, sou eu, a mesma.

Mas os traços da idade estão cá e mais virão. Melhor: tomaram que venham que será sinal que estou viva. E, de resto, com cremes milagrosos, quem sabe se não parecerá que cristalizei no tempo, sempre com carinha de vinte anos.

(Estou a brincar, bolas, não quero parecer um fóssil, senão, às tantas, ainda me confundiam com a Senhora Dona Lady).

Diane Keaton por Annie Leibovitz, 2016
Diane Keaton, 1985
Dantes eu pensava que as mulheres eram bonitas quando eram novas e que, depois, eram o que tinha sobrado. Agora já não penso assim. Agora já acho que há beleza em todas as idades. Além disso, quando me distraio, logo penso: olha, de qualquer maneira uma mulher aos 70 ainda é capaz de parecer toda gira aos olhos de um homem de 80. Mas é um pensamento parvo, claro, até porque o que não faltam são mulheres que despertam paixões em homens bem mais novos.

E o que se passa com mulheres, passa-se com homens. Contudo, a pele dos homens parece que resiste melhor ao passar do tempo. Ou, então, sou eu que sou mais benevolente com eles. Mas que os homens ficam mais interessantes, mais inteligentes, melhores companhias, isso é inquestionável -- isto, claro, se não ficarem velhos babacas, taralhoucos.

Mas volto às mulheres para referir aquilo que verdadeiramente penso a propósito disto: interessantes são as mulheres que não têm medo de parecer velhas, feias, sem graça. Interessantes são as mulheres que amam a vida e a querem viver, toda, tenham a idade que tiverem. Interessantes são as mulheres que ousam, que desafiam, que seduzem. Interessantes são as mulheres que gostam do seu corpo, que querem amar e ser amadas. Interessantes são as mulheres que têm prazer em despertar interesse e que estão disponíveis para se interessar pelos imprevisíveis instantes de felicidade que a vida tem para oferecer. Tenham 20, 40, 60 ou 80 ou mais anos.

Charlotte Rampling por Helmut Newton, 1974

Charlotte Rampling, Annie Leibovitz, 2016


Mulheres brancas e pretas, sempre belas em qualquer idade

As mulheres que dão cartas em Hollywood - por Annie Leibovitz para a Vanity Fair  2016

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Hoje, quando cheguei aqui à sala vinha numa de falar de um certo lobo com um filósofo à mistura. Mas, depois de umas boas charutadas (vide post abaixo), nada como dar uma espairecida e, por isso, desviei-me para isto das mulheres. A ver se amanhã venho, então, de lobo pela mão que agora, com o sono com que estou, vou mas é pregar para outras pradarias.

Caso estejam fartos de tanta mulherada, aceitem o meu convite e venham dar vivas a Portugal, enquanto as maria-amélias suspiram de saudades pelos algozes. É já aqui abaixo.

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Alô, alô António Costa, Mário Centeno, Augusto Santos Silva! A hora é de negociar e de ser firme! Não de baixar as calcinhas, ouviram? É deixar as maria-amélias, as vizinhas e as concubinas mais a seita de comentadores avençados carpir, ameaçar, censurar e fazer a intrigalhada deles. Essa é a praia pafiana, não a dos portugueses patriotas.


Ora bem. Depois daquele título quilométrico pouco mais deve haver para dizer. Mas, enfim, palavrosa como sou, cá vão mais uns quantos recadinhos:


1. A hora é de negociar, dizia eu lá em cima. Em primeiro lugar negociar ao mais alto nível: com os presidentes da Comissão Europeia, do Parlamento Europeu, do BCE. E com a Itália, com a Grécia, com a França, com os socialistas espanhóis e com quem provavelmente eles farão governo, com a esquerda democrática europeia, e, que remédio, também com a Popota, vulgo Merkel.


As opções agora são de cariz político e é a esse nível que, em primeiro lugar, a discussão deve ocorrer.

É hora de abordar também a galinha tonta da Lagarde -- mas ir munido dos mil relatórios dos directores do FMI em que eles provam que os programas que impuseram estavam errados e falharam. É que a galinha bronzeada esquece-se muito, mais vale levar-lhe um best of do que foi dito pelos seus próprios colaboradores

Depois dessa cama estar feita, ajeitar então uma ou outra medida com os técnicos de Bruxelas para que eles achem que têm algum poder e não chateiem muito. Os burocratas, formatados segundo uma certa cartilha, são gente tinhosa. Não se deve mostrar que se tem medo deles, convém mantê-los no lugar senão julgam que mandam. Mas também não se deve subestimar essa gente: ladram que se farta, mordem as canelas, chateiam à brava. Convém ir-lhes dando alguns ossos e é bom que ninguém se esqueça disso. Nada de mais, só isso: mantê-los entretidos e satisfeitinhos.

Em síntese e para acabar este ponto: é importante que Portugal não baixe a guarda, não baixe a cabeça, não baixe as calças.
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Mas, se não se importam, vamos com música que vamos melhor.


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2. A lástima que são as manifestações dos capachos dos fundos especuladores e dos investidores selvagens (e não digo nomes porque são muitos e deixaria certamente alguns de fora) apenas nos devem dar dó. 

A indigência dos comentários das gentes que padecem do síndroma de Estocolmo e que choram por mais austeridade, mais sopa dos pobres. mais desemprego e mais emigração também nos deve dar dó.

A cacafonia dos comentadores e dos jornalistas-papagaios que invocam medos ancestrais e enchem a boca com défices estruturais e outros indicadores que ignoram
(a sério: não há ninguém que se vire para um dos que tem a boca a deitar por fora de défice estrutural e lhe pergunte o que é isso, que explique como se calcule, quanto foi nos últimos quatro anos? Havia de ser um fartote, uma daquelas cenas que se tornaria viral num abrir e fechar de olhos) 
apenas nos deve fazer rir.


3. Outra coisa, agora a ver com comunicação.

PR= Public relations
O que é feito dos spin doctors deste governo ou da coligação que o apoia?

Estão as televisões, jornais e blogs da treta cheios de campanhas negras, tudo a dizer que vem aí o lobo, que os burrocratas nos vão dar tautau, e os anjinhos do governo não são capazes de lançar uma onda de informação a sério, didáctica, desdramatizada? E outra, paralela, a desmascarar os anti-patriotas, as maria-amélias, os caguinchas, as vizinhas, as rameiras, os vendilhões e os vendidos? A desmascarar e a gozar com essa gente.

Não há spin doctors de esquerda?!


4. E mais. Era bom, ó senhores socialistas, que alguém fizesse uns videozinhos simples a explicar como se faz um orçamento, daqueles videozinhos que correm pelo facebook e que estão disponíveis no youtube. Uma coisa explicada como se fosse para crianças de 4 anos ou para mariazinhas que gostam de encher linhas inteiras com uma única letra e que no fim batem palminhas de satisfação e lol, lol, lol.

Uma coisa assim. Se eu ganho 100 e tenho encargos de 40 e mais 50 e mais 20, tenho um défice.

Se eu não quiser ter défice, posso cortar nos gastos mas, ó gente, também posso ganhar mais.

Por exemplo. Se eu na minha casa recebo 100 e quero gastar 50 com os meus filhos, 30 com a casa, 10 com transportes e outras despesas, 10 para mim e outros 10 para amortizar uma dívida, posso:
  • Cortar nas despesas, ou seja, impor austeridade, ou
  • Trabalhar mais e ganhar mais do que 100, ou seja, actuar ao nível da receita.
E outros videos a explicar este tipo de coisas (ex: dívida, impostos, etc) para mostrar que a aritmética é simples mas que gerir um orçamento não é uma coisa determinística, em que as parcelas são fixas, quiçá obra divina: não, há sempre opções. E que optar é próprio de gente livre.


5. Tinha mais coisas para dizer mas, para não cansar a vossa beleza, fico-me por aqui. Mas, antes de acabar, digo ainda só mais esta: o orçamento vai passar e vai mostrar que é possível fazer diferente. Um toque para aqui e outro para ali mas os compromissos serão respeitados e António Costa saberá mostrar que o povo que elege quem governa é soberano (ou, pelo menos, merece ser tratado, com respeito, como tal). E, viva Portugal!

(Olha, até quase versejei)

Soou piroso eu dizer Viva Portugal?
(Paciência. Acho mesmo que falta de auto-estima é um dos problemas deste país.)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira muito feliz.

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terça-feira, fevereiro 02, 2016

Pertencemos a uma espécie de vida breve





Julgo que a nossa espécie não durará muito tempo. Não parece ter o estofo das tartarugas, que continuaram a existir semelhantes a si mesmas ao longo de centenas de milhões de anos, centenas de vezes mais do que a nossa existência. Pertencemos a um género de espécie de vida breve. Os nossos primos já se extinguiram todos.  E nós causamos estragos. As alterações climáticas e ambientais que desencadeámos foram brutais e dificilmente nos pouparão. Para a Terra será uma pequena perturbação irrelevante, mas não me parece que escapemos incólumes; tanto mais que a opinião pública e a política preferem ignorar os perigos que estamos a correr e enfiar a cabeça na areia. Somos talvez a única espécie na Terra ciente da inevitabilidade da nossa morte individual: receio que em breve devamos tornar-nos também a espécie que verá conscientemente chegar o seu próprio fim ou, pelo menos, o fim da própria civilização.


Como soubermos enfrentar, melhor ou pior, a nossa morte individual, assim enfrentaremos o colapso da nossa civilização. Não é muito diferente. E não será por certo a primeira civilização a entrar em colapso. Os Maias e os Cretenses já passaram por isso. Nascemos e morremos como nascem e morrem as estrelas, tanto individual como colectivamente. Esta é a nossa realidade. 


A que terra podemos chamar nossa,
sem que um desafio nos tenha feito medir as forças com ela
até lhe pedir perdão?
Não falo de vencedores, dos que não são de nenhuma terra
e de todas se apropriam.
Não falo da luta com o Anjo:
o Anjo vence-nos sempre
e não precisa de qualquer luta para nos esmagar.
Falo da nossa dívida à terra,
desta consciência brusca de amanhecer um dia
ao mesmo tempo que o mundo




by Banksy (algures perto de Calais)

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Migrantes: 10.000 crianças desaparecidas, diz Europol


(Já para não falar nas que morrem pelo caminho ou dão à costa como conchinhas vazias)

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O texto pertence ao capítulo "A fechar: nós" do livro 'Sete breves lições de física', de Carlo Rovelli.
O primeiro vídeo tem, de Ennio Morricone, On Earth As It Is In Heaven do filme The Mission
O poema é A Nossa Terra de Luís Filipe Castro Mendes in Relâmpago, Revista de Poesia 36/37
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Convido-vos a descerem até ao post seguinte onde se fala da nossa natureza humana e do que nos une às borboletas ou aos pinheiros larícios

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