Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, setembro 23, 2018

Extensão do pénis: a tendência mais quente na cirurgia plástica
[E, de passagem, o cogumelozinho cabeçudo de Trump, a birra de João Ribas e a estética sado-masoquista de Robert Mapplethorpe]


A descrição do pénis de Trump pela tempestuosa Stormy Daniels (e desculpem-me o pleonasmo), a ex-artista porno que teve uma perigosa liaison com o Donald e pela a qual ele pagou caro (e ainda mais caro há-de ter que pagar), num livro explosivo tem dado que falar.

Descreve-o de forma irónica. Como se imaginava, é uma pila pequenina mas, concede ela, não estupidamente pequena. O pior é a glande. Fica uma coisa estranha que ela descreve com piada, dando a entender que é um cogumelo cabeçudo com um insignificante pedúnculo. Aliás, mais vale eu transcrever:

It's “smaller than average” but “not freakishly small”.
“He knows he has an unusual penis,” Daniels writes. “It has a huge mushroom head. Like a toadstool…
“I lay there, annoyed that I was getting fucked by a guy with Yeti pubes and a dick like the mushroom character in Mario Kart... 
“It may have been the least impressive sex I’d ever had, but clearly, he didn’t share that opinion.”
Para um vaidoso compulsivo como Trumpo, imagino a dor de alma que deve sentir por ouvir e ler piadas por todo o lado sobre a sua não muito abonatória condição e desempenho -- não a nível político mas sexual. E imagino o nó no estômago que sente a mulher, a esfíngica Melania, ao saber que os relatados encontros aconteceram pouco depois de ela ter sido mãe.

Seja como for, a notícia veio relançar o célebre dilema: o tamanho importa?

Já falei disso algumas vezes e já referi que nem é só o tamanho propriamente dito: é o design. A estética é relevante em tudo e nisto também. E, claro, é o que se faz com ele. 

Mais: tenho para mim que, quem vê caras, vê pénis.

Olho um homem e, se o vejo como homem e não como uma mera criatura do sexo masculino (e devo dizer que, modéstia à parte, exigente e requintada como sou, não são frequentes as vezes em que isso acontece), consigo antever como será o seu pénis.

Isto dito, posso dizer que, sendo -- à vista desarmada -- Trump uma nulidade como homem, se me forçar a imaginá-lo como veio ao mundo, claro que era óbvio que aquilo lá nunca podia ser alguma coisa que se aproveitasse.

Mas, tendo o pénis saltado para a ribalta, logo se desmultiplicam as notícias sobre o tema. E penso que é neste contexto que o The Guardian avança com a notícia de que as intervenções para aumentar os pénis estão de vento em popa (‘I wanted a truncheon in my pants’: the rise of the penis extension). E há quem goste tanto do resultado que, como no caso das mulheres que se viciam em plásticas, também aqui há quem reincida.

Parece que a intervenção, embora não isenta de riscos, é simples e passa por injectar gordura tirada da zona abdominal. Não será só isso, claro, mas passa por aí. É rápida, coisa para uma hora e, na maior parte das vezes, parece que corre bem. Contudo, parece que o pós-operatório é muito desagradável. Recomendam que se tire baixa de uma semana, no mínimo, já que a coisa anda entrapada durante cerca de dez dias. Durante um mês não é possível ter relações. Portanto, não é propriamente uma pêra doce.

Para quem queira avaliar se precisa ou não de um boost, avanço com dados estatísticos. Dizem que, em repouso, um pénis normal mede cerca de 9.3cm e, quando erecto, atinge, em média, 13.1cm. A operação resulta, em geral, num aumento de cerca de 1,3 cm. No caso do pato Trump, não sei se seria suficiente. Na volta, parvalhão e exibicionista como é, ainda se vai submeter a várias, não se ralando de andar entrapado durante uns meses, para daqui por algum tempo, no twitter, mostrar a fera em todo o seu fulgor. Não um cogumelo anão e marreco mas um canhão ponteagudo (se é que isso existe)

E eu, perante tudo isto, nada mais tenho a dizer. Cada um sabe de si. E que a malta seja mas é feliz.


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Portanto, quando há algum tempo andava a gabar-se do tamanho dos genitais, Trump estava, uma vez mais, a exagerar




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Agora, no âmbito daquilo de que quem vê caras, vê pirilaus, uma coisa vos digo eu: no que se refere a Michael Avenatti, o interessante advogado da Stormy, já é outra loiça... (e mais não digo porque para bom entendedor uma meia palavra é mais do que suficiente). Dizem que ele pode candidatar-se a presidente dos Estados Unidos e nem é preciso a defunta Cambridge Analytics para adivinhar que a maioria das mulheres e alguns homens votariam nele. Mas, não sendo isso, também daria um belo parceiro da Stormy no ramo XXX da indústria cinematográfica. Podem crer. Nisto como noutras coisas de igual relevância, aqui a vossa Sta UJM não falha.


PS

Quanto à birra do director demissionário de Serralves, segundo consta, parece que João Ribas não apenas não tem razão como se portou como um menino mimado. Ao que consta, as duas obras que não constam da exposição são as que ele retirou e as que são mesmo hard core estão lá para quem as quiser ver, embora numa sala reservada a maiores de dezoito anos. E isto é o normal neste tipo de exposições e não é censura nenhuma, é bom senso. Robert Mapplethorpe (autor da fotografia acima) é muito cá de casa, tenho livros da obra dele desde há muito e aqui no blog são inúmeros os posts com fotografias dele. Gosto da sua estética. Gosto muito e desde há muito. Contudo, há imagens de grande agressividade sexual que é pura estupidez pôr crianças a vê-las e só quem já viu essas fotografias é que pode avaliá-lo. Portanto, estão lá para adultos -- e se houver pais que autorizem as crianças a apreciar aquela violência pois muito bem, é estranho que o façam mas é lá com eles, mas, da forma como as fotografias parecem estar resguardadas de olhares incautos, não poderão alegar que não estavam avisados.

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E disse. Vou agora pensar num tema mais erudito.

sábado, setembro 22, 2018

Ambrósio, my love, vamos falar de sentimentos e de laços sagrados...?


Ambrósio, começo a sentir uma ligação, não sei, diria que especial, sei lá, uma coisa assim, apetece-me que me ensines, ser tua pupila, não sei se estás a ver, ser a tua lolita, (lolona, vá), mas é isto, estou sempre a arranjar pretexto, não percebes isso?, se não percebes é porque és ceguinho, vá lá, abre os olhinhos, olha para mim, conta-me histórias, diz de tua justiça, ensina-me. Está certo que já me ensinaste muita coisa, é ir por aí abaixo que a prova está bem à vista mas, percebes, é tudo na base da prosa sem picante, tudo morno, e eu, se não sabes devias saber, gosto mais de coisas calientes, por isso, vá, diz-me como me vês, diz o que achas de mim enquanto mulher, define-te enquanto macho, diz-me se sabes porque é que ainda estás solteiro, logo tu, meu lindão, coisa mais fofa, mais doce, diz porque, de vez em quando fechas os olhos, encostas os teus lábios à curva do meu pescoço e me chamas querida, diz-me o que, para ti, é o amor, diz-me se é amor ou paixão esta chama acesa e louca que, dentro de mim, arde por ti, meu amor mais doce, meu amor, meu doce. Diz-me se me queres para tua noiva, diz-me o que é, para ti, o casamento -- queres?, não queres?, diz que sim, diz, vá lá --, diz porque quero fazer de ti o meu marido, tenho planos, amor, vais ver. Mas olha, e nem é bom agora falar nisto, mas sou precavida, já sabes, e toda a gente um dia tem que ir e, por isso, a ires vai tu à frente, não é por nada, mas é que, mal por mal, antes ser eu tua viúva do que tu meu viúvo. Credo, nem quero falar nisso.

Mas vá, Ambrósio, amor, já falei de mais, agora é a tua vez, ensina lá a tua querida
Mulher, n. Animal que vive habitualmente nas proximidades do Homem e que é pouco susceptível a domesticação. Das espécies predadoras, esta é a mais amplamente disseminada, infestando todas as partes habitáveis do mundo, desde as graciosas montanhas da Gronelândia à virtuosa costa da Índia. A mulher é ágil e elegante nos seus movimentos, omnívora, e pode ser ensinada a não falar.
Macho, n. Um membro do sexo desconsiderado ou negligenciável. O macho da espécie humana é normalmente conhecido por Mero Homem. Este género tem duas variedades: os que sustentam a família e os que não sustentam a família
Solteiro, n. Um homem que ainda está a ser posto à prova pelas mulheres
Querida, n. A chata do sexo oposto, numa fase inicial do seu desenvolvimento
Amor, n. Demência temporária que se cura com o casamento, ou afastando o paciente das influências que provocaram a enfermidade. Esta doença, tal como a cárie e outras, prevalece entre as raças civilizadas que vivem em condições artificiais; as nações bárbaras que respiram ar puro e comem alimentos simples são imunes aos seus ataques. Chega a ser fatal, embora mais para o médico do que para o paciente.
Paixão, n. Qualidade distintiva do amor inexperiente
Noiva, n. Uma mulher com excelentes perspectivas de felicidade atrás de si
Casamento, s. Cerimónia na qual duas pessoas passam a ser uma, uma passa a ser nada e nada passa a ser sustentável
Marido, n. Indivíduo que, depois de ter jantado, é incumbido de tratar dos pratos
Viúva, n. Uma figura patética que o mundo cristão decidiu encarar de forma humorística, embora a ternura de Cristo pelas viúvas tenha sido uma das marcas mais distintivas do seu carácter

E, assim, Ambrose Bierce disse.

E, nesta era, em que a comunicação social vacila sem saber bem qual o seu papel, o que vem a ser um Repórter, ó Ambrósio?


Não sou cá de intrigas. Sei lá se hoje em dia são todos maus? Ou se antes eram todos bons? Ou se são maus porque a escola deles é uma escola que ensina a escrever e a falar com os pés? Pode ser. Ou se saem bons da escola e os chefinhos e os patrões é que dão cabo deles? Não sei. Na volta, é. Só sei é que volta e meia a gente vê os totós a fazerem perguntas que até doem. Pode o entrevistado dizer que o primeiro rei de Portugal foi o Rei Felipe VI que o diligente repórter nem pestanejará e lhe perguntará se sabe como vão agora as relações entre a Letízia e a sogra. Uma indigência. E isto já para não falar naquelas vezes em que desatam a falar ininterruptamente, uma conversa redonda em que cada palavra puxa a seguinte e esta a seguinte e... a conversa não anda nem desanda, parecendo não ter o raio de um fim.

Mas, se calhar, estou a ser muito redutora. Então, ó Ambrósio, conta aí: o que é, afinal, um repórter?
Repórter, n. Um escritor que vai adivinhando o caminho até à verdade -- e que depois a dissipa numa tempestade de palavras.
Pois... Ou isso ou uns propagadores de rumores. Ou, mesmo, inventores de rumores. 

Mas sejamos objectivos: o que vem a ser um rumor? Diz lá, ó Ambrósio.
Rumor, n. Uma das armas favoritas dos assassinos de carácter

Ambrósio, apetece-me algo.
Por exemplo, saber o que é um magistrado.


Com este thriller em volta da Santa Mana e ao qual agora se juntou um pouco recomendável Láparo -- e isto já para não falar nas vizinhas calhandreiras que dantes lançavam boatos e que, depois de um upgrade tecnológico, se especializaram em fake news, não se fala noutra coisa senão em magistrados. Tanto que se fala deles que a gente já nem sabe bem de que é que se está a falar. Por exemplo, um magistrado é sempre magistrado ou apenas quando está em funções? Um magistrado é magistrado mesmo que pareça um delinquente? Um magistrado é magistrado mesmo quando é uma garganta funda do Correio da Manhã ou do Sábado ou, mesmo, do Expresso? Claro que isto não desfazendo dos verdadeiros magistrados que os há e que deveriam merecer um louvor e uma selfie com o nosso ubíquo Marcelo.

Portanto, Ambrósio, chega-te à frente e ensina-nos lá o que é um magistrado.
É um funcionário judicial com uma jurisdição limitada e uma incapacidade desmedida.
Sim, senhor. Assim a gente já ficou a saber. Ambrose Bierce dixit.

Já agora, segreda-me o Ambrósio: e, então, minha menina, o que é um puzzle? Confesso-lhe: pois não sei, diga lá V. Senhoria. 
Puzzle, n. As malhas da lei.
Caneco, Ambrósio, chegas a desconcertar-me.

sexta-feira, setembro 21, 2018

Exército


Não desfazendo, claro. E nem todos serão iguais. Na Venezuela ou na Coreia há-de ser um bocado diferente do que é em Portugal. Mas não sei, sou toda paisana, não sei nada disto.

Mas, então, o que é um exército? Ambrose Bierce esclarece.
Uma classe de pessoas improdutivas que, para defenderem a sua nação de uma invasão, devoram tudo aquilo que o inimigo possa querer.
Obs: Claro que isto não tem nada a ver com o putativo saco azul de Tancos pois o nosso Ambrósio sabia lá das barraquinhas que armam nos nossos quartéis.

Eremita


Há por aí quem reconheça que é eremita embora talvez não assumindo as razões que o levam a isso. Digo eu.

Mas, então, afinal de contas, o que vem a ser um Eremita?

Ambrose Bierce explica-nos:
Uma pessoa com vícios e manias que não são sociáveis.
Obs: E isto é verdade vivam essas pessoas em Ourique, Oeiras, no Observador ou na mera blogosfera -- e isto não foi o Ambrósio que disse, fui eu.

Aliança


Aliança? O que é?

Ambrose Bierce responde:
Em política internacional, consiste na união de dois ladrões com as mãos tão afundadas nos bolsos um do outro que já não conseguem roubar um terceiro separadamente
Obs: Nada a ver com o Pedro Santana Lopes, portanto. O Ambrósio sabia lá do Flopes...

Angèle
-- e, de passagem, a Santa Mana Joana que vai de asa --


Eu sei que quem vem ao Um Jeito Manso vem mais pelo que escrevo do que pelos vídeos que aqui coloco. Pelo menos, assim me têm dito vários Leitores. Contudo, gosto de partilhar as descobertas que faço ou o que, não sendo propriamente descobertas, são coisas que me aprazem. Pode ser uma dança, um poema dito, uma graça, uma música, qualquer coisa.


Desta vez o que descobri foi Angèle. É uma jovem belga -- tem 22 anos --  que provém de uma família onde todos estão ligados à vida artística. Toca, canta e compõe as respectivas letras e músicas. Aparentemente é tudo muito levezinho, umas musiquinhas em francês. Contudo, há ali aquela petite chose que faz a diferença. Por exemplo, os vídeos que vi estão bem feitos, são inovadores, têm qualidade e tudo se conjuga de forma agradável e criativa. Acresce que ela é bonita e tem um ar também muito fresquinho. Tudo resulta, pois, muito bem.

Por exemplo, o primeiro vídeo, Lei de Murphy, foi feito ainda não há um ano e foi logo um êxito no YouTube. Vendo-o percebe-se porquê. Divulguei-o aqui num dia em que falei na Santa Mana Joana (Santa Mana Joana, a enchedora do chouriço infinito), a dita insubstituível criatura que, de repente, certamente para desespero* das fundamentalistas beatas que nunca antes tinham visto tamanha competência, foi ao ar. Bem, não já, já, já mas um dia destes antes que se faça tarde.

Agora há novo vídeo. Jalousie. É o clip de apresentação do 1º álbum, que vai sair no início de Outubro e a dança que por ali vai, é um gosto de ver.



*

Desespero, disse eu lá em cima...?

Não. Desespero nenhum. As beatas e abéculas criaturas que tanto têm defendido a recondução da Santa Mana Joana, ameaçando rasgar as vestes se a dita não continuasse PGR, são bem capazes de, num rápido flic-flac à rectaguarda, quiçá até com um mortal encarpado, aparecer agora a dizer que nunca tal fizeram e que obviamente a mana Vidal já estava a patinar em seco, que as barracas das fugas de informação já eram escandalosas demais e que, obviamente, a dita cuja tinha mesmo é que ir de asa. Vira-casacas e vira-latas como são, nada me espanta.

O que é um pobre?


Ambrose Bierce responde:
Pobre, adj. Pessoa que não tem dinheiro para pagar os seus impostos. Os Mello, por exemplo.
Obs: Juro que é o que está escrito. Admito que seja transliteração ou gracinha de Rui Lopes, o tradutor. Mas, na volta, foi divinação do Ambrósio. Ou isso ou havia outros.

quinta-feira, setembro 20, 2018

Irresistíveis tentações




No primeiro dia fui logo a uma livraria. Estava sem tempo mas não consegui deixar de ir. Estava sem disponibilidade para passarinhar calmamente, para folhear, espreitar, tomar-lhe o pulso. Ao entrar, olhei o relógio e hesitei: entrar para quê, sem tempo? Mas foi mais forte. Ainda assim trouxe o livro do Manuel Alegre, 'Todos os Poemas são de Amor' e o da Hélia Correia, 'Um Bailarino na Batalha'. E trouxe-os só porque sim, só porque não podia deixá-los lá ficar e porque, de certeza, iria gostar mesmo que nem de tudo ou não muito de tudo. 

No dia seguinte, cruzei-me com a mulher com andar de passarinho em terra. Hélia Correia que, quando escreve, escreve como se desenhasse palavras no céu e que, quando fala, fala com assertividade e luvas de combate, quando anda, vai hesitante, o corpo pouco afirmado. Forço-me a pensar: 'Também já não é uma miúda, já vai para os setenta'. Mas não é isso, é mesmo aquela sensação de que não estará muito habituada a andar com os pés em terra, como se o seu mundo fosse o das brumas imateriais. Pensei: 'Hoje é que devia ter aqui o livro'. Mas fiquei a pensar: 'Se o tivesse, iria maçá-la? Teria o direito de ir interromper o seu caminho? Acho que não. Que futilidade absurda a minha se me achasse com o direito a interromper o seu andar para lhe pedir que escrevesse o seu nome...'

Regressei, pois, à minha vida na cidade, nas torres cristalinas, regressei àquele mundo em que os problemas se sucedem, em que há sempre coisas para decidir, assuntos para encaminhar, agendas para compatibilizar. Não há tempos mortos. Por isso não tenho tempo para pensar na aridez que são esses momentos quando comparados com os passeios no meu bosquezinho atapetado, tão perfumado, tão feliz para os pássaros que lá habitam e para mim.

Felizmente, de vez em quando, uma inesperada conversa sobre um poema ou sobre uma estranha opção na tradução de uma antiga expressão vem atenuar a falta de ar puro. Mas é insuficiente. E, então, fui de novo à livraria. Sempre com pouco tempo mas, desta vez, forçando-me a algum vagar, mesmo que breve vagar, para olhar com olhos de ver.

E vi 'Ru' de Kim Thúy. Não conheço, nunca tinha sequer ouvido falar. Foi a capa. Foi o que li na contracapa. Foi ter lido que Ru -- que em francês quer dizer 'riacho' ou 'torrente' -- significa 'canção de embalar' em vietnamita. E foi, ao espreitar-lhe a alma, ter gostado do que li. E ter gostado da paginação. Sou sensível a coisas assim. Como nos perfumes sou sensível ao nome ou ao desenho do frasco. Trouxe.

E também 'O regresso' de Hisham Matar. Ignorante, chegada do campo, sem conhecer autor, sem saber de novidades, só chegada a desenho de capa. Este tem passarinho abstracto e umas cores simples que logo puxaram por mim. E depois história real, coisa em cru. Gosto de coisas cruas. Trouxe.

E mais. Outro.
Um delírio. Só coisa imprevista, só coisa tentadora. Três semanas fora e tudo isto, assim. Surpresa atrás de surpresa. Não necessário novo de nascimento. Novo de coisa inusual ali no meio de tanta letra vazia. 
Desta vez  'Dicionário do Diabo' de Ambrose Bierce, prefaciado pelo casto abade de Belém, que Deus me perdoe que até gosto do que ele escreve, mas parece que quando lhe cheira a pecado, logo estende a sua platónica bênção. 'O Dicionário do Diabo é um manual de guerrilha contra o conformismo', escreveu Mexia. E a encadernação? E as ilustrações? Preciosas. Pois bem: trouxe.

E quando pensava que já estava saciada e que o melhor era parar de olhar já que, como se sabe, quem muito olha sempre acaba por ver, um outro: 'Confabulações' de John Berger. A capa: muito boa. E que não fosse. John Berger. Só ele vale um delíquio. Abri e aquela vertigem de quando estou à beira de ceder à tentação de me despenhar já se fazia sentir. Tudo o que li me fez amar este livro. Claro: trouxe.

Enquanto ia pegando neles, objectos preciosos, ia pensando que nunca conseguirei deixar de procurar novos livros. É um luxo supremo, o de nos rodearmos de palavras, de ideias, de mentes livres, da melodia misteriosa que se desprende das páginas, do gosto bom de ter um objecto material, um objecto que tem origem numa árvore. 

E trouxe ainda mais dois. Mas a conversa vai longa e eu estou cansada. A vida não é fácil e o dia que já entrou também não o será. Pode ser que me apareça alguém que me fale de poetas ou posso eu ver espaço para falar de silêncio, de bibliotecas, de luz. Seja como for, se calhar não faz muito sentido eu, em vez de ir descansar, continuar aqui a escrever como se não houvesse amanhã.


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Nós fomos noite e noite até ser dia
nós fomos noite e a noite fomos nós
fomos a noite e os corpos e esses nós
com que a noite se atava e desfazia

fomos a noite e o que sobrava dela
e o que sobrava dela foram luas
que circulavam à volta de uma estrela
ora nas minhas mãos ora nas tuas.

[de Manuel Alegre]


Houvera noites cheias de estrelas muito baixas, tão baixas que dir-se-iam ao alcance da mão. Depois, a lua regressara e, aos poucos, ia ocupando o céu com a sua luz. Fazia, pois, meio mês que vagueavam. E, como os homens tinham garantido que estavam sem semente para deitar, que a fadiga e a fome os transformavam em eunucos de toda a confiança, dormiam todos na frescura, desenhando, sem o saberem, uma flor, um girassol.


[de Hélia Correia]


Apesar de todas essas noites em que os nossos sonhos escorriam pelo soalho inclinado, a minha mãe continuou a ambicionar um futuro para nós. Arranjou um cúmplice. Ele era jovem e sem dúvida ingénuo, pois ousava exibir alegria e desenvoltura no meio do monótono vazio do nosso quotidiano.


[de Kim Thúy]


Ali estava ela, a terra. Cor de ferrugem e amarela. Da cor da pele acabada de sarar. Talvez eu pudesse finalmente ser libertado. a terra tornou-se mais escura. Rebentos de vegetação verdes cobrindo levemente as colinas. E, de repente, o mar da minha infância.Os exilados romantizam tantas vezes a paisagem do seu país natal! Eu preveni-me contra isso.


[de Hisham Matar]


Política, n. Um meio de subsistência a que recorre a franja mais degradada das nossas classes criminosas. Uma luta por interesses disfarçada de disputa por princípios. A gestão dos negócios públicos para obter vantagens privadas.

Político, n. Uma enguia no lamaçal basilar sobre o qual a super-estrutura da sociedade organizada é erigida. Quando se contorce, confunde a agitação da cauda com o estremecimento do edifício. Comparado com o estadista, tem a desvantagem de estar vivo.


[de Ambrose Bierce]


Na semana passada, quando te estava a ver e a ouvir atuar, Yasmine, tive um impulso de te desenhar. Um impulso absurdo, porque estava demasiado escuro; não conseguia ver o bloco de desenho nos meus joelhos. Houve momentos em que rabisquei sem olhar para baixo ou sem tirar os olhos de ti.


[de John Berger]

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Só um bocadinho de John Berger para eu matar saudades


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As pinturas que fui buscar para aqui ter entre os livros são de Hai Ja Bang e viémos ao som de Händel - Yet can I hear that dulcet lay - com Bejun Mehta

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quarta-feira, setembro 19, 2018

As palavras que não te disse







As palavras que não te disse estão aqui
caladas há tanto tempo não se calam
trago-as em mim e sem falar te falam
estão dentro do silêncio e cantam para ti.

Palavras nunca ditas e no entanto
não param de dizer-te o que não digo
palavras para ti e a sós comigo
palavras que não digo e são o canto.

Palavras que não disse e tu esperavas
não sei se ainda esperas ou se é tarde
o que nelas ardia ainda arde
não são de mais ninguém essas palavras.

Palavras que te digo sem dizê-las
palavras onde pulsam várias vidas
e são a escrita mesmo se escondidas
e são o canto mesmo sem escrevê-las.



[Poema de Manuel Alegre in 'Todos os poemas são de amor'
Fotografias de Robert Mapplethorpe]

terça-feira, setembro 18, 2018

A transferência da Cristina Ferreira e a morte da Princesa Diana,
a evidência científica de que há imbecis,
a gaffe literal da cuecona do Goucha,
o mistério da minha cara pós-férias e
Mr. Beans, Hillary Clinton, Forest Gump
(no inferno eles estarão em boa companhia)




Dado que não me saíu o euromilhões lá tive que regressar ao trabalho. E foi aquele velho déjà-vu com toda a gente a fazer a observação do costume: 'Então...? Já se acabaram, não foi...?' e eu que sim, que acabam depressa. Vintage com vintage se paga. A seguir: 'Pois... E foram boas...?' e eu que sim, que foram mesmo boas. Especialmente porque, ao contrário dos dois anos anteriores, não as passei em hospitais (dois anos... ou três...? acho que talvez três; três senão mesmo quatro, já nem sei que isto, de facto, nos últimos anos tem sido uma festa). E isto já para não falar em pior ainda. Ainda no outro dia, um dos miúdos me perguntou se a bisavó já estaria em esqueleto. E eu, apanhada, sem estar de sobreaviso : 'Credo, rapaz, que conversa'. E ele, pensativo: 'Mas como é que isso se passa?'. E eu, já aflita: 'Oh pá, cala-te lá com isso, que raio de conversa essa'.  Foge. Já bati três vezes na madeira. Caneco, nem é bom a gente falar porque às vezes até parece que atrai. Caraças, vade retro. Mas este pimentinha, para além de artista, é todo cientista. Vínhamos no carro, ele e os irmãos no banco de trás, os outros já meio a dormir, e pergunta ele: 'De que é que é feita a luz?. O meu marido, surpreendido: 'Olha, olha, agora esta...'. Lá lhe falámos de fotões, de ondas, de campos. E eu, tão pro em física das partículas e o escambau, a patinar sem saber bem como explicar uma coisa tão banal a uma criança que acabou de fazer seis anos. Sim, Leitor, de que é feita a luz, não me dizem como se estivessem a falar com uma criança de seis anos?

Mas pronto. Adiante. Sobre o meu regresso.


No sábado ao fim do dia, quando fui aos meus pais, a minha mãe, olhou-me com aquela atenção que costuma ser acutilante e, quando eu estava à espera que me dissesse que me podia ter penteado, saíu-se com esta: 'Até estás com melhor cara' e eu: 'Pudera, tenho dormido que deus o dá'. A minha mãe olhou-me melhor, apurou o olho clínico: 'Ou estarás um pouco mais gorda...?'. Nem respondi. Aliás tenho ideia que não engordei mas, lá está, melhor nem falar senão parece que atrai os quilos.

Mas hoje, ao entrar de manhã no escritório, depois de uma noite sem dormir 
(uma espertina do catano, acho que se dormi meia hora foi muito. Fui para a cama sem sono e deu no que dá sempre: voltas e reviravoltas e sono, nickles. Mas, na meia hora em que dormi, tive um pesadelo que me deixou ó tio, ó tio. Estava eu no campo, numa planície, vejo vir uma mega nave espacial, um rectângulo imenso deslizante. Agora que revejo a imagem do ovni estou a lembrar-me que no outro dia estive a ver fotografias da Biblioteca de Buenos Aires e, na volta, sem me aperceber, aquilo assustou-me. Mas, então, estava eu numa bela planície, num campo de trigo dourado, e vejo aquela coisa a vir a grande velocidade, a descer, a descer, quase a planar e eu em pânico a ver aquela caixa gigante, em vidro, e a emanar uma luz misteriosa. Vinha quase a rasar, quase a esmagar-me ou sei lá o quê. Eu aflita, a chamar nem sei por quem, a querer salvar não faço ideia quem. Depois acordei e fiquei naquela, feita estúpida, assustada e a ver-me aflita para perceber que estava na cama e não espalmada pela maqueta gigante da biblioteca de Buenos Aires. Portanto, estão a ver o que descansei).
fui tirar um café na copa. Era cedinho e eu estava a preparar-me para o primeiro round do dia quando chega uma colega que, depois da célebre constatação do 'então, já se acabaram...', olha para mim atentamente e me diz: 'Fizeram-lhe bem... Está com melhor cara...' Chegou outra que me inspeccionou e confirmou: 'Está, está'. Fiquei em silêncio não fossem elas, se eu lhes desse troco, também acharem que aquilo era mas era gordura alojada no facies.


Mas, para meu espanto, a coisa não ficou por aqui. Estava eu numa reunião, à tarde, quando um colega, olhando-me com ar um bocado intrigado, me diz: 'Está com melhor cara'. Arrisquei: 'Dormi muito'. Mas depois lembrei-me que ontem quase não preguei olho. E ele: 'Pois. Está mesmo'.

Agora, depois de jantar, fui lavar os dentes e olhei-me com atenção. Não noto nada de diferente. Mas lembrei-me: 'Eh pá... querem lá ver que foi daquela ginástica facial que fiz na outra noite e que repeti mais duas ou três vezes?' Não cumpri, pois a ideia era fazer todos os dias durante um bocado (ou seria duas vezes por dia? Também não me lembro. A verdade é que me esqueci, não só de qual a regra mas também de a fazer). Se calhar só a ideia rejuvenesce. Uma ideia das boas, portanto.

Seja como for, com a cura de pouco sono a que me vou submeter nos próximos tempos, o lifting virtual rapidamente há-de ir para o galheiro. C'est la vie, já lá dizia o outro.

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[Agora não... dói-me a cabeça... preciso de dormir...]

E nada mais tenho a acrescentar pois qualquer outro tema (brexit ou não brexit, conversas-de-café do Rio ou remoques do cagalhotas a propósito do medinho do outro, a cintilante Cristina Ferreira que fala ininterruptamente como uma sorridente matraca autocentrada e que acha que a sua saída da TVI para a SIC só tem paralelo na morte da Princesa Diana, a saída do lindo e fofo Paulo Gonçalves de papel de braço direito do Luís Filipe Vieira) me parece pouco relevante quando comparado com o mistério que envolve o estado da minha cara.

Só se for aquela descoberta científica de que afinal existem mesmo imbecis. Essa, sim, capaz de ser notícia bombástica. Transcrevo um pequeno excerto:
Já o tipo autocentrado corresponde a pessoas com muitos pontos em extroversão, mas marcas mais baixas em agradabilidade, consciência e abertura. Luís Amaral descreve-as ao The Washington Post em termos "não técnicos" de forma simples: são "imbecis". 
Portanto, pardon my french mas, depois de assistir à dita esfusiante entrevista que acabou com a loura, autocentrada e glamourosa criatura a ameaçar o desgraçado Rodrigo Guedes de Carvalho de que o quer desmanchar, fico sem saber se a imbecil é ela, se é quem a contratou ou os fãs que colocam os programas delas nos primeiros lugares das audiências. Mas, enfim, não quero estragar a minha beleza com tão profundo trilema. 

Até porque uma outra coisa vos digo: o povo não quer cá saber de dilemas, trilemas, silogismos e filosofia profunda, poesia de qualquer espécie, política grega ou jota-partidária, prosa enxuta, pensamento pensado. O povo gosta é de boca brejeira, gaffe soando a palavrão atirado ao ar, cueca estendida e, sorry Mr. Cagalhoças, graçolas de café. Isso, sim, é que está a dar. 

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E agora vou mas é fazer massagem facial para ver se retrocedo até à minha carinha laroca dos 15 anos. 
Me aguardem.

segunda-feira, setembro 17, 2018

No dia dos U2 em Lisboa,
optei pelo Book Club e fui ver como as Sombras de Grey mudaram a vida de quatro mulheres danadas para a brincadeira




Passo, então, a dar uma breve nota deste meu dia de despedida de umas tão preciosas três semanas de férias. 

Para começo, a parte mais chata: arrumações e compras no supermercado, incluindo legumes para a sopa -- coisa que, a não ser para as crianças, já não fazia vai para cima de um mês.


Depois, caminhada à beira-rio. Estranhando tanta gente, aproximámo-nos do ajuntamento. Camiões gigantes todos iguais. Muita gente com tshirt U2. Claro: é o hoje o concerto no pavilhão Atlântico (ainda me horroriza dizer Altice Arena). De facto, tínhamos vistos uma reportagem com a Ana Moura, que ia cantar com eles. Muito bem. U2 em Portugal e nós, noutro planeta, sem darmos por isso. Não sei se o Bono já tem voz. Deve ter senão não mantinha o concerto.

Gosto dos U2 mas devo dizer que aquele Bono já me parece um franchising dele próprio. E desde aquilo da evasão fiscal fiquei a olhá-lo de lado. Bem prega Frei Tomás -- e parece que é sempre isto, quanto mais pregam mais se desenfiam. Bem pode andar a fazer merchandising de causas mediáticas que para peditórios desses não contam comigo: fico-me apenas pelo lado musical da coisa. 


Fizemos a nossa caminhada na mesma. O rio estava chão, um espelho. No entanto, não cheirava muito bem. A maré vaza hoje não estava especialmente perfumada. Fotografei na mesma. 

A seguir fomos aos nossos petiscos cantoneses, incluindo crepes vietnamitas que, para o efeito, não querem saber de geografias e são deliciosos.


Depois de uns afazeres intermédios, ala para o cinema. O meu marido é quezilento quanto a filmes chatos e mais ainda em relação a salas com mastigantes pipoquentos -- coisa que a mim também me maça mas não tão radicalmente quanto a ele -- mas, tendo visto na televisão o anúncio a este filme, não se opôs.

'Do jeito que elas querem' que, no original, se chama 'Book Club' com Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen e Mary Steenburgen nos papéis principais foi uma boa escolha. Na verdade, não podíamos ter fechado as férias com melhor chave de ouro. Claro que é daquelas comédias ligeiras mas o que nos rimos valeu bem a pena. O tema é a sexualidade (e a vitalidade e o gosto pela vida) na idade madura, a amizade entre mulheres, o amor que só aparece quando se está disponível para ele. Etc. O meu marido que não é de riso fácil, fartou-se de rir. Portanto, já podem ver. 


Só encontro trailer legendado em brasileiro o que é um bocadinho enervante porque há expressões que não são bem as nossas mas, ainda assim, prefiro ao não legendado para ser perceptível por quem não se entende bem com a língua inglesa.


Queria mostrar um bocadinho das cenas com Andy Garcia que faz um papel simpatiquíssimo na contracena com a Diane Keaton, muito contido mas muito sólido e interessante e aqui, sim, tem que ser mesmo em inglês pois não encontro com legendas.

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E até já

domingo, setembro 16, 2018

Uma melancólica despedida
(ainda que seja apenas um breve até já)




Sempre que fomos ao supermercado ficámos espantados com o dinheiro que gastávamos mas a verdade é que pouco lá tivemos que ir. Ontem o almoço foram restos. Tudo é aproveitado ao máximo. Tinha duas costeletas congeladas que tinham sobrado do outro dia, tinha o caldo da caldeirada e tinha o resto do cabrito assado. Então cozi dois ovos e juntei-os ao caldo da caldeirada que ainda tinha batata, cebola, tomate e uns fiapos de peixe. E ficou uma boa sopa de peixe. Fritei as costeletas. Desossei os dois bocados de cabrito e fiz arroz de carne em que, para líquido da cozedura, metade foi o molho do cabrito (foi assado com o forno a baixa temperatura, pelo que o que ficou de caldo foram os sucos da carne, das cebolas, da salsa, do alho, do alecrim) e outra metade foi água e ao que juntei dois tomates e dois marmelos pequenos cortados aos bocadinhos. 

Ainda sobrou um bocado de arroz que foi metido numa caixa de vidro para servir para o jantar, com salada.


Ao fim da tarde, fechámos e arrumámos as espreguiçadeiras, varri a casa, sacudi os tapetes e cobertas, lavei o fogão e a bancada da cozinha, lavei as casas de banho, arrumámos tudo, a pouca roupa que tínhamos levado, o resto da fruta, o resto do tomate, o resto do arroz, os queijos, o mel, um ramo de alecrim. 

Estava o sol ainda muito dourado quando de lá saímos. Tão bom estar lá ao fim do dia, quando entardece em doçura, quando a luz banha tudo a ouro e serenidade.

Ainda fui à figueira comer mais uns figos. O meu marido já tinha apanhado um saco deles mas deu-me aquela vontade de voltar a sentir a seiva muito viva a vibrar na carne doce e rubra dos figos acabados de colher.

Com que pena fechei a porta, com que pena fechámos o portão. 

Sei que no trabalho não me esperam tempos fáceis e o contraste com a vida simples e boa que tenho vivido nestas três semanas parece-me abissal, quase difícil de suportar. Quantos mais anos passam, mais me custa pensar na qualidade de vida de que abdico para continuar a trabalhar de sol a sol, para perder horas no trânsito, para me ver enfiada em salas sem janelas, em reuniões intermináveis com pessoas que me parecem incompatíveis comigo. 
Mas como me disse há tempos uma pessoa que ainda há dois ou três dias vi a opinar na televisão, todo ele prosa e muito cheio de propriedade, 'todos temos uma cruz para carregar'. Carreguemo-la, pois.


Já tudo no carro, voltei a casa. Fui buscar o livro do Manguel para acabá-lo no carro. E, de repente, fiquei com pena deles, dos que lá estão, uns por ler, outros lidos, outros que me parecem melhor lá do que cá, outros à espera que um dia, outros que nem sei como lá foram parar. Fui ao carro buscar a máquina fotográfica e fotografei-os. Só fotografei os que estavam espalhados, uns num sofá, outros noutro, outros na mesinha de apoio, outros na mesa da casa de jantar, um sobre um prato de louça que está esquecido em cima de uma pilha de livros de museus.

Não fotografei as estantes embutidas na larga parede do corredor, a parede que separa a parte original da casa e a que foi acrescentada. Um dia fotografo-os. Nem os que estão nas duas estantes que o meu pai me fez, um só com livros de pintura e fotografia e outra com livros de viagens. Nem os de arquitectura que estão ao pé da lareira, tantos livros de arquitectura, lindíssimos. Um dia também vos hei-de mostrar.

Pelo caminho, enquanto lia o livro que fala da paixão por livros e por bibliotecas ocorreu-me que lá, in heaven, podia fazer uma biblioteca. Em pedra, entre as árvores. Vim de olhos fechados a imaginá-la, livros em volta, de alto a baixo, janelas estreitas com vidros de igreja, uma mesa larga ao meio. Pensei que se fosse uma única divisão, pequena, tinha que ter dois andares. Aì a coisas começou a complicar-se, comecei com ideias avançadas -- uma das paredes ser a rocha da barreira, talvez ficar à altura do passeio que circunda a casa para se poder entrar por cima. Cá em baixo, à volta da casinha, todo em redor, um canteiro de alecrim, rosmaninho e alfazema. Depois comecei a pensar na organização. E aí começou outra vez a complicar-se. Uma loucura este amor por livros.


Entretanto, fomos a casa dos meus pais, deixei lá um saco de figos, agora aqui já arrumámos tudo, jantámos, viémos para a sala, vimos televisão e aqui estou, cheia de saudades. Parece impossível mas é verdade. Gosto muito da minha casa, desta, gosto mesmo, mas estar lá no campo, acordar com o canto dos pássaros, passear à sombra de árvores que plantei, sentir o perfume da terra... não há o que se lhe possa comparar.

Enfim. Daqui por uma semana, talvez, lá esteja a recuperar da semana que aí vem.

sábado, setembro 15, 2018

Sorry, Sr. Presidente, não lhe segui o exemplo:
não fui capaz de mergulhar na Fróia*...


Só para desfazer já as ilusões: não foi por mais nada, foi mesmo só pelo bucho e pelos maranhos. Love, love, love. Ou seja, estando por ali, nem pensar em vir embora sem os ir manjar onde eles são de a gente se lamber e chorar por mais. 

Portanto, o percurso de volta passou pela Sertã e, de caminho, por Proença-a-Nova.




E, já que estávamos em Proença, nem pensar em passar por lá sem ir até à Fróia, essa bela praia fluvial.
* E, note-se, não sei se o Marcelo também por lá banhou o seu mundano corpo mas, dado como é a tirar a roupa em qualquer lugar, se esta praia fluvial lhe escapou foi por mero acaso e, de resto, nada nos garante que um belo dia não estejamos nós de mantinha sobre os joelhos a ver televisão e não nos entre ele, todo lampeiro, sala adentro, a mergulhar nas verdejantes águas da Fróia.
Adiante.

Pensámos: para lá chegarmos, deve haver indicação, placas, quelque chose. Mas perceber que quem não é do sítio precisa de ter placas de orientação é coisa que os nossos municípios, de maneira geral, ainda não perceberam. Podíamos ter tentado logo o gps mas resolvemos, antes, fazer as coisas à moda antiga. Ir até ao centro, dar um passeio, ir até ao Turismo.


E foi o que fizémos. Démos uma voltinha a pé, procurámos os Paços do Concelho e lá démos com o Turismo. Uma jovem simpatiquíssima deu-me um mapa, explicou-me.

Ao entrarmos no carro, lá transmiti as indicações mas o meu marido, achando que eu não estava a ser clara, insistia: há-de haver indicação de praia fluvial ou de aldeias de xisto, qualquer coisa. Sim, sim, era bom. Sendo pontos de atracção no concelho, era normal que estivessem devidamente assinalados. Nada. Acabei por tentar o gps e felizmente lá tinha a Fróia. Sorte. É que só mesmo junto ao sítio onde se vira é que tem uma placa. O costume.

Mas, chegando lá, a gente esquece a falta de visão dos autarcas e focamo-nos é no que a nossa própria visão nos dá a ver.

Uma maravilha. Já conhecíamos mas a lugares assim pode sempre voltar-se que nunca será de mais.

Verde que te quero verde. Um mundo tranquilo todo em verde. Lá em cima, na estrada fazia um calor abrasador mas cá em baixo, junto à água, no meio do arvoredo, estava um fresquinho verde de dar gosto.



Não sei que erro de paralaxe é este que, ao projectar-nos nas águas, me deixa redonda e  põe o meu marido barrigudo e mais pequeno que eu
Por estas e por outras é que não gosto de selfies: parece que desfavorecem uma pessoa, credo

Estava, pois, com vontade de seguir o conselho do nosso ubíquo Presidente-Nadador e mergulhar nas águas da praia fluvial. Mas, olhando para o fundo, não consegui. A água escura, na beira um fundo pedregoso e a meio nem se via o fundo. Não consegui. Não sei que monstros se escondem em águas assim, não sei se haverá piratas submarinos a puxar as pernas das ladies que se afoitam, não sei se há tubarões de água doce, polvos gigantes ou medusas enleantes e perigosas. Não. A mim não me apanham em águas que não sejam transparentes. Aliás, corrijo: a água até é capaz de ser transparente mas o fundo e as margens devem ser escuras e toldam a visão. Ou isso ou outra coisa qualquer que não deixa ver. Portanto: andei e passarinhei, fotografei mas não mergulhei.


Agora uma coisa tenho eu a dizer: ainda não sabemos valorizar o património riquíssimo que temos. Lugares paradisíacos como estes são ainda quase desconhecidos do mundo. E quando falo do mundo não preciso de ir longe. Num dia de calor (trinta e tal graus) e com muita gente ainda de férias (já para não falar nos que não trabalham como, por exemplo, os reformados) não estava lá mais do que uma dúzia de pessoas. 

Está certo que não é preciso que haja enchentes que estraguem ou descaracetrizem a beleza natural dos lugares mas o turismo de qualidade sabe conciliar o melhor dos mundos. Mais turismo traz mais riqueza aos lugares, mais emprego, mais oportunidades. 

Proença-a-Nova tem um potencial que, à vista desarmada, se vê que é enorme e, no entanto, do que conheço (e que, confesso, não é muito), não parece saber tirar partido disso.

Adiante. 

Dali rumámos à Sertã. Estava muito calor, mesmo muito. Demos um passeio no bonito e cuidado jardim e, de seguida, até porque estávamos quase no limite do horário, fomos então ao bucho e ao maranho. Bons, bons, bons.


E dali iniciámos o caminho de regresso. Já cá estou, in heaven. O bem que me sinto aqui, a alegria com que chego a casa, são difíceis de explicar. Já andei a varrer a caruma à volta da casa, já andei aos figos, já assei um cabrito no forno, com alecrim e mel. E aqui estou, sossegada, partilhando convosco estas minhas andanças.

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E, agora que já acabou o filme Eu, Daniel Blake que passou na rtp2, devo dizer que, se não viram, devem vê-lo. Penso que é imprescindível e urgente vê-lo. A situação de quem se vê numa situação de fragilidade, sem meios, sem ter a quem recorrer, à mercê de mecanismos e organismos frios, insensíveis, onde não há consideração pela dignidade humana nem compreensão para com a vulnerabilidade de quem nada tem, pode ser de total desespero. A história de Daniel e de Katie é de partir o coração. E é, acredito, o retrato realista do que se passa nessa parte do mundo real em que as pessoas são a parte menos importante, nesta Europa que, por vezes tratar assim os seus cidadão. E é isto que tem vindo a abrir a porta ao populismo, à xenofobia e a tudo o que de mais temível está à espreita. Tentem ver este filme, é o que vos recomendo.

Boas notícias!
Parece que vão voltar a produzir uma das minhas séries preferidas de todos os tempos!
Tomara que ele se mantenha tão doido e descarado como era...



Não sou nada de rever aquilo de que gostei. Nem livros, nem filmes, nem exposições. Só um ou outro eu posso dizer que revi de gosto, com o mesmo prazer ou mais do que na vez inicial (e o seio e as mãos acima pertencem a Constance que, por sua vez, pertence a um filme que já vi creio que duas vezes e que, de novo, veria de gosto). De resto, mesmo que tenha gostado muito, já gostei, está gostado. Prefiro guardar a boa memória do que massacrar a consciência forçando-a a gostar repetidamente.

Com as séries a mesma coisa. Não sou muito de me apegar a séries. Mas gostei de algumas.


Gostei muito do Borgen. Não perdia um episódio. 
Mostrava de forma inteligente uma forma inteligente de fazer política


Na altura, também gostava do Sexo e a Cidade embora longe de ser adicted
Aquela liberdade de movimentos das mulheres na cidade apareceu como uma lufada de ar fresco na sociedade conservadora, bafienta e moralista que sempre foi a portuguesa


E adorava os Simpsons. O Bart e o Homer sempre me deliciaram.
Ainda gosto mas parece que já não puxa tanto por mim. 


Também gostava de House of Cards
Aquela intriga, aqueles personagens, aquela maldade auto-desculpabilizada interessavam-me bastante.

E assim de repente não me lembro de mais nenhuma série para aqui referir. Claro que vi outras de que gostava mas que me tenham prendido de coração não sei se terá havido muitas mais.

Mas havia uma que eu não perdia. O que me ria, o que eu gostava do personagem principal... Sempre, sempre a dizer e a fazer coisas inenarráveis.

Pois bem. Quando estou aqui, in heaven, sem tv cabo, volta e meia vou parar à RTP Memória e tenho boas razões para lá ficar. Que gozo. Ainda hoje voltei a ficar rendida, a rir de gosto. O meu marido detesta ver coisas antigas e quando viu que era um episódio de 1986 ficou passado. Mas eu não quero saber. Vi e vejo sempre que dou por ele. Nem eu sabia as saudades que tinha.

E agora, ao pensar em escrever isto, fui ao youtube e tenho aqui estado de gosto, a ver pequenos vídeos. E descobri que vão voltar a produzi-la. Tomara que o argumento mantenha uma coisa do outro mundo do mesmo calibre da que era então -- e alguém com uma voz igualmente descarada para ajudar a compor o boneco.


Alf. A minha série preferida de todos os tempos.

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Um vídeo ao acaso, de entre muitos possíveis.



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E agora, enquanto escrevo, estou a ver Eu, Daniel Blake e estou francamente impressionada.


António Lobo Antunes, a Pléiade e, finalmente, um Nobel*


Tal como os antigos comentadores biblícos, Borges e Scholem debateram a questão fundamental: 
A que sucesso pode aspirar um artista? 
Como pode um escritor alcançar o seu propósito, quando tudo o que tem à disposição é a ferramenta imperfeita da linguagem? 
E, acima de tudo, o que é criado quando um artista parte para a criação? 
Será que surge um mundo novo e proibido, ou será que um espelho negro deste mundo é erguido para nos vermos reflectidos nele? 
Será uma obra de arte uma realidade duradoura ou uma mentira imperfeita?

in "Embalando a minha biblioteca", Alberto Manguel

[O excerto acima vem mais ou menos a despropósito da mais recente parvoíce de António Lobos Antunes: 
Para Lobo Antunes esta publicação numa coleção tão especial, desde a encadernação ao papel bíblia, tem um valor comparável ao prémio da Academia Sueca: "Estar na Pléiade é como receber um Nobel." Acrescenta: "É uma biblioteca onde se encontram vários Nobel da Literatura."
António Lobo Antunes garante que este era o seu sonho de adolescente "porque é o maior reconhecimento que algum escritor pode ter". ]

* Um Nobel à medida dele, claro. Só me pergunto: teria ele necessidade de dizer estas parvoíces? Ficar contente e orgulhoso é normal -- mas não consegue sentir o reconhecimento sem se sair com a parvoíce do Nobel? Que raio de ego ele tem, senhores.