Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, dezembro 06, 2019

Hesito entre ir à procura de Julieta ou dançar o tango.
Embora, sendo realista, it takes two to tango...





Só para dizer que continuo desinspirada para fazer compras de natal. Passo pelo comércio e ponho-me ao largo. Aversão ao consumismo, às barafundas. Sei que, à medida que o dia se aproxima, cada vez há-de ser mais difícil; mas ainda não desceu em mim a interiorização da necessidade. Só me apetecia chegar à véspera e ao dia e haver só a companhia uns dos outros, zero presentes. Mas os meninos não perceberiam pelo que, paciência, lá terá que ser qualquer coisa para cada um. 

Também ando sem paciência para as cenas do PSD. No outro dia calhou ver aqueles três da vida airada, cocó, ranheta e facada mas foi coisa passageira, nem três minutos aguentei. Nada naqueles três é interessante. Fazem parte do passado. O meu mundo não é o deles. 

Do resto, os outros partidos ou andam às aranhas ou a trilhar os caminhos do populismo ou, no caso do PS, a governarem na boa, sem qualquer oposição. E, assim sendo, porque as boas notícias não têm que se lhe diga e às indigências a gente deve poupar, não me detenho na matéria. Se a comunicação social não andasse com alguns ao colo, desapareciam por si. 

Do Trump, esse narcisista em decomposição, também já mal consigo falar. Não gosto de falar de zombies, de parvalhões que já mal se aguentam de tão desintegrados que já estão. E do Bolsonaro, esse outro animal que os brasileiros resolveram eleger, também não vou falar. Não vale dois réis de prosa fiada. Ou de outros.

Nem tenho nada a dizer sobre a vinda do Bibi e do Pompeo para falarem um com o outro nem me apetece falar da campanha americana anti-China. Tudo uma cambada. Mas não é perto das duas matina que vou maçar-me com essa camarilha.

Podia, claro, ao menos falar do ódio ou desprezo inexplicáveis que algumas pessoas, do alto da sua ignorância ou pesporrência, sentem pela Greta mas falar disso poderia enervar-me e eu, santa paciência, tento poupar-me.

Podia falar de outras coisas. Por exemplo, dos loucos e loucas que assomam às janelas da blogosfera para inventarem narrativas destrambelhadas, para moerem a paciência a quem lhes cai no goto, para fazerem cenas patéticas. Gente demente que não sei se na vida real mostra a psicopatia que lhes corre nas veias ou se conseguem disfarçar. Mas não vou falar de stalkers, paranóicos e outros e outras totós. Até porque não há pachorra.

Ou podia ainda falar das secas que, parecendo que não, apesar da boa companhia e das conversas simpáticas, são os jantares e almoços de natal. E, em cima desses, outros. Ainda hei-de perceber o que dá na cabeça de tanta gente para desatarem a organizar almoços específicos como se os 'oficiais' não fossem mais do que suficientes. E mais os almoços de despedida para homenagear os colegas que  resolveram que já mais do que deram para este peditório e que, segundo dizem, vão abraçar novos desafios. E vá de almoço. Se me vejo sem compromissos durante dois ou três dias de seguida até digo que é mentira.

Devia era ficar a dormir até às onze, depois ir caminhar na praia, depois petiscar, depois dormir a sesta, depois ler, depois ir caminhar no campo, depois regressar a la maison, beber um chá quente. Etc. Coisas assim. Uma vida regalada. Anseio. Ou ir de férias para uma aldeia aí perdida no meio das serras.


Enfim. Isto para dizer que, depois do jantarinho da Kate Moss, nada mais tenho a declarar.

Vou é mas é ver se consigo acordar o meu marido para vir aqui dançar um tango comigo. I'm in the mood. Embora mais em sonho do que na realidade até porque já estou a dormir.

Já trouxe para aqui algumas companheiras para a dança: algumas das beldades que valorizam o Calendário Pirelli 2020 com fotografia de Paolo Roversi.

Looking for Juliet...? Não sei, não... Quero é dançar. Na boa. Nem que seja mulheres com mulheres. Até porque o tango era homem com homem.


Mas pronto, vá, para que não vos pareça insensível, aqui fica um cheirinho de amor em poema pelas meninas bonitas do Pirelli possuídas pelo espírito da Julieta -- e não se fala mais nisso.


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E, por ora, é isto. Se vos apetecer frango a la Moss é só descerem.

Beijos e abraços e uma bela happy friday


Só não percebo é como um único frango deu para tanta gente...


No outro dia, quando lá in heaven estava a entrar no carro, saí à pressa e voltei atrás para, quase a correr, ir lá abaixo apanhar uns ramos de alecrim. O meu marido ficou muito admirado, pensou que tinha acontecido alguma coisa, não percebeu. Quando me viu aparecer com um ramo de alecrim na mão encolheu os ombros, quase resignado.

Gosto de usar alecrim nos assados. Mesmo nos estufados, por vezes, para além da salsa ou dos coentros (a que a chinesinha simpática da loja das frutas chama cheilinhos -- quando estou a pagar os dióospiros, pergunta 'qué cheilinhos?' e, como digo que sim, que quero, ela, sorridente, enfia um molho de salsa e coentros no saco), uso um pouco de alecrim. Rosemary. Gosto imenso do cheirinho do alecrim. O meu marido já quase se habituou mas os meus filhos protestam, dizem que encho a comida de ervas. Mas o alecrim não é apenas perfumado, dando um bom sabor à comida: é também, segundo sei, bastante saudável. Portanto, não vejo razão para me cercear.

E também, por vezes, enfio uma cebola e meio limão nos interiores do frango. A diferença é que deito um fio de azeite sobre a sua superfície antes de o pôr no forno para que fique mais louro e maciinho.

E também, quando faço carne assada, para acompanhamento, costumo cozer batatas e, uma vez cozidas, levo-as ao forno, temperadas com azeite e umas 'ervas' (alecrim e/ou orégãos) até se bronzearem ligeiramente.

E tal como ela, quando a comida está feita, vou tomar sempre banho (embora na modalidade duche) e vestir-me para receber os convivas limpinha, sem cheiros de comida, lavadinha de fresco.

E, tal como ela, também deixo os doces para quem os quiser fazer.

E também me divirto e rio com o que faço e digo e, ainda mais, com o que os outros fazem e dizem.

Só não sou é a Kate Moss mas com isso e com outras coisas já aprendi a conformar-me. 😜

Cozinhando com a Kate Moss



Bom apetite.

Até já.

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Presentes úteis para o Natal





Nem vou falar do que foi o meu dia. Começou bem cedo e teve de tudo. E nem enumero a dimensão do que é este tudo não vá alguém ler isto e dizer: olha, mas querem lá ver...? será que a gaja também lá esteve...? Será que era aquela...?.
E não, não é paranóia minha, não senhor. Então não repararam que, no outro dia, ao contar que vi um homem lindo, alto e com um deslizar felino, conhecido de o ver na televisão, e que a namorada chegou, o beijou e mais não sei o quê... não é que apareceu um comentário a dizer que não era namorada, não senhora, era casada com ele e dava pelo nome de tal e tal...? Ou eu escrever que tinha trabalhado em tempos com um homem superior, com um sentido de humor delicioso e etc. e receber um mail a dizer: era assim, tal e qual, trabalhei com ele noutra empresa e era assim sem tirar nem pôr. E eu: puxa? fui tão explícita? caneco...
Portanto, não vou falar de como acabou o sacripanta do meu dia até porque foi coisa pública e a última coisa que quero é que alguém diga que também lá esteve e que confirme que foi como relatei excepto que a coisa não acabou ali. É que, de facto, pirei-me à papo-seco. Com um certo sentimento de culpa mas pirei-me. Arrastada pelos meus acompanhantes. Seja como for, por via das dúvidas, não relato coisa alguma. 

Bem. Com tantas horas em cima, daqui a nada quase vinte e quatro, e com tão variado programa de festas, estou como estou. Obviamente cansada, os olhos a quererem-se-me adormecer. Acresce que ando com uma em mente que me ocupa todo o tempo livre. E também não quero aqui falar disso, sorry. Cheguei ao sofá às dez e tal da noite e até agora, e já passa bem da meia noite, tenho estado de volta disso. E não quero falar porque não deve dar em nada. O meu marido é contra, não me dá o mínimo de bola e é daquelas coisas em que ou querem os dois ou chapéu. Devia era ir para a cama e deixar-me de conversetas. E sei bem, L., sei bem que este meu regime de dormir pouco não é bom. Mas é assim que o meu corpo funciona. Devia compensar, dormindo até às dez da manhã mas isso ainda não é para já. Por isso acumulo défices e isso, sabido é, traduz-se num aumento de dívida. Eu a dever muitas horas de sono ao meu corpo Sei bem. Mas pode alguém ser quem não é?

Adiante antes que caia para o lado: passo já ao que interessa. Sugestão para presentes de Natal.  Coisas úteis que darão muito jeito a quem os receber. A época é de consumo puro e duro mas podemos aliar a utilidade à gracinha.

Ora bem:

1. Esponjinhas para chorões. 

E quem diz chorões diz também choronas (como aquilo de dizer portugueses e portuguesas). Para quem anda numa onda emotiva e desata a chorar ao ler certos blogs ou a ver certos programas de televisão, antes coloca estes óculos e está a coisa resolvida.

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2. Mãozinha para aparar o sol quando se vai de passeio. 

Uma mãozinha dá sempre jeito. Pode ser para isto, para fazer a sombra, mas pode servir também para fazer um cutchi-cutchi na axila do vizinho na mesa de reuniões, para ver se tem cócegas, ou para fazer uma investida indecente -- e nem entro em pormenores, só digo que é perna acima -- no vizinho ou na vizinha no restaurante ou no cinema,  mesmo que não o/a conheça. Caso o destinatário se mostre incomodado/a é só dizer: 'não fui eu, foi ela' e mostrar a santa mãozinha.

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3. Chapéu de chuva para telemóveis.

Do mais útil que há quando se quer telefonar à chuva. Claro que no meu caso deveria usar também um para a cabeça pois andar à chuva dá-me um ar pouco civilizado, em especial porque me dá mais volume e ondulação ao cabelo. Mas os carecas -- que não têm problema com chuva no cabelo -- só precisarão mesmo de proteger o telemóvel. 

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4. Coleira para os dedos para prevenir que os do meio se arrebitem quando contrariados. 

Assim, quando se tem vontade de mandar alguém para um sítio daqueles, a gente já está segura. Aliás, corrijo: o dedo do meio até está esticado mas os do lado não conseguem agachar-se para se fingirem de saquinhos de arroz ou ajoelhar-se para prestarem vassalagem ao dedo-pirilau. Portanto, é um presente bué cristão.

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5. Espelho retrovisor para uma pessoa poder andar e, ao mesmo tempo, ir a ver-se ao espelho ou, consoante a inclinação, a ver o que se passa na rectaguarda. 

Não sei como se consegue viver sem isto. Já viu a gente ir a andar e, atrás de nós, ir um gato fogoso e a gente nem dar por isso...? Já viu o desperdício? 

Ou -- o que me acontece tantas vezes -- chegar a um lugar e estar precisada de me ver ao espelho e não dar jeito, no meio de cavalheiros que não desgrudam e que só querem falar de assuntos sérios, abrir a carteira, tirar um espelhito e rever a situação. Este espelho ao ombro resolve essa e muitas outras situações.

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6. Respirador para almofadas. 

Imprescindível. Sempre que é necessário dormir a sesta em pleno dia e uma almofadinha a tapar-nos a cara é a solução, um respirador é indispensável para evitar o sufoco e para oxigenar a beleza por debaixo. Um ovo de colombo.

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7. Rodinhas para aprender a andar de saltos altos.

Como se fossem rodinhas para aprender a andar de bicicleta, este presente é ouro sobre azul. Acresce que impede que os tacões se introduzam nos interstícios da calçada o que é uma mais-valia não negligenciável. Há é que desmistificar: não é a isto que se chama 'levar um par de patins'. Um par de patins foi o que os portugueses puseram à Cristas e é vê-la, calada e sonsa, na bancada, assistindo à extinção da espécie centrista. 

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8. Colher para quem está de dieta

E nem preciso de explicar porque é self-explaining. Os gulosos e, lá está, as gulosas, não precisam de se fustigar para ingerir menos calorias. Bastará usar esta colher que só leva metade das coisas à boca. Claro que deverá complementar a toilette com um babete ou, então, esquecer as regras de etiqueta e colocar a boca bem na direcção do prato. 

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Há muito mais ideias aqui, todas saídas da cabecinha pensadora do Matty Benedetto que conta com a colaboração de Violeta Draseikaitė. Ele, em especial, gosta de criar objectos que resolvem problemas inexistentes e isso parece-me do mais meritório que há.

A ruiva lá de cima é da perigosa raça das sedutoras e quem a fotografou foi Roeselien Raimond.

A Astanova, como qualquer Lola que se preze, atira-se ao Natal com ímpetos que não se podem confessar e dá-lhe com o Carol of the Bells num arranjo muito próprio e não sei se totalmente recomendável. É o que temos. 

Mas lindos os dois lobos brancos (embora não tanto como os do J).
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E sem conseguir agradecer comentários ou responder a mails, vou, pela segunda vez no prazo de poucas horas, sair de fininho. É que ou é isto ou daqui a nada nem consigo chegar à cama.

E um bom dia a todos, está bem?

quarta-feira, dezembro 04, 2019

A maldade levada a um extremo *



Tenho um amigo que, de um dia para o outro, se tornou vegan. Digo vegan um pouco na dúvida mas penso que seja isso já que também não come ovos. Contudo, sei que, se a ocasião se proporciona, é capaz de se lamber com um belo queijo da serra. Tirando isso, nada que provenha do reino animal. Diz que pensa nos animais quando vivos e que pensar em comer a sua carne, depois de mortos, lhe causa repulsa. Acredito. Se me vierem à cabeça pensamentos mórbidos dessa natureza, capaz de nem ser capaz de olhar para o estufado de borreguinho que comi ao jantar com maçã e salada. 


Mas isto para dizer que, apesar de não ser vegan ou vegetariana, sou incapaz de fazer mal a um animal ou de permitir que, à minha vista, alguém o faça.


Tenho para mim que os animais são tão animais como nós, porventura mais inteligentes que nós. Que os cães pensam e sentem e reconhecem um significativo vocabulário penso que ninguém duvida, pelo menos alguém que tenha convivido de perto com algum.
Eu dizia: vai buscar a bola e ela ia buscar a bola grandinha. Mas se eu dissesse: onde está a bolinha?, aí já ela ia à procura e aparecia-me com a bola pequenina. Eu dizia: sabes do brinquedo? e ela olhava para mim, a cabeça de lado, a pensar, e depois aparecia com uma coisa a que eu não sabia dar nome e a que, por isso, chamava simplesmente brinquedo. Se eu dissesse: E, então, no outro dia o cavalo, hein...? ela rosnava, eriçada, furiosa. É que, lá in heaven, os vizinhos da ponta da rua volta e meia costumavam passar a galope até ao vale e ela, só de ouvir os cascos no asfalto ou por lhe dar o cheiro, saía a correr, desvairada, a ladrar ao longo da vedação. Chegava a casa ainda agitada, a resfolegar, enervada. A mesma coisa se fosse o gato. Na brincadeira, eu dizia: Escuta... Anda aí algum gato...? e ela passava-se, à procura, furiosa, a bufar. Se eu dissesse: vamos à rua? ela ficava numa alegria, corria, até derrapava na curva do corredor, e ia esperar à porta, fazendo barulhinhos a chamar por mim enquanto eu não me despachasse. E conhecia cada um de nós pelos nomes. E tantas mais palavras que ela sabia. 
Minha fofa, que saudades tenho dela. O que gostava dos meus mimos. Eu deitava-me ao seu lado, eu abraçada a ela, ela abraçada a mim, muito quentinha, a minha cabeça colada à dela, a sua pata em volta do meu pescoço. Enchia-a de beijos e ela gostava, ficava quietinha a receber os meus mimos. Com os meus filhos, então, era uma irmã, um ser querido a quem sempre tratámos como um dos mais queridos elementos da família. As saudades que sinto dela. Não passam com o tempo.
Presumo que os gatos também sejam assim, animais inteligentes e emotivos. Quem lida com cavalos diz o mesmo. E tenho a mesma ideia das gaivotas.
Não me quero repetir pelo que não vou voltar a recordar o dia em que uma ficou presa na minha varanda e em que eu, conversando com ela, consegui que acreditasse em mim e deixasse que eu a elevasse até poder voar. Mas não foi só essa. No outro dia, no Ginjal, a gaivota voava sobre o rio e pousava no gradeamento. Uma e outra vez. Eu a fotografá-la e ela a deixar-se estar, eu a aproximar-me e ela na dúvida, hesitante. E eu, cada vez mais perto, a falar baixinho, a dizer que não tivesse medo e ela, de cabeça de lado, a olhar-me com uma atenção humana, a ouvir-me, sem medo. Uma relação surpreendente que sinto que estabeleço com alguns animais.

Imagine-se, pois, a maldade que é preciso transbordar de um corpo humano para se ser capaz de humilhar um animal de grande porte, mais humano que os humanos, um animal forte e digno. 

O grande urso apareceu numa região ainda não identificada na Rússia e tinha sido graffitado. Uma coisa impensável.

T-34, o nome de um tanque da segunda guerra mundial. Os cientistas dizem que o animal deve ter sido sedado para ser tão vilmente vandalizado.  E dizem outra coisa: que dificilmente vai conseguir caçar já que a pintura anulará o efeito de camuflagem.

E eu vejo estas imagens e fico assustada com a capacidade de fazer mal de algumas pessoas. Humilhar um animal...?! Usá-lo com um intuito panfletário...? É medonho, é sinistro, é ultrajante, é criminoso. Nem consigo sequer pensar nisto.


* Coloquei um asterisco no título do post pois esta maldade é um extremo, sim, mas a verdade é que há tantos outros extremos, tantos, tantos que já é difícil saber qual é o limite.

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terça-feira, dezembro 03, 2019

Desvendado o mistério das meias desaparecidas.... e o da concha da sopa também.




Contei há umas duas semanas que, num mesmo dia, me desapareceram duas meias, uma de cada par  -- e ambas de forma inexplicável. Fiquei maçada e intrigada mas não preocupada. Não acredito em vudus ou magias macacas e, de resto, estou beige de saber que estas coisas, cá em casa, tão depressa desaparecem como aparecem.

A preta com as pintinhas brancas foi a primeira a aparecer. No fim de semana seguinte ao desaparecimento, na sequência da minha menininha ter estado aqui a maquilhar a tia, desapareceu-me um gloss cutâneo. Pensei que só podia estar aqui na sala. Na demanda, espreitei por todo o lado, revirei tudo, incluivamente arrastei o pesadíssimo sofá que é muito baixo e para debaixo do qual raramente vão cenas porque não cabem. Então, ao afastá-lo da parede... pimbas... lá estava o baton e... a meia preta. Ora... como? Como é que uma meia, que é coisa que não rebola, para ali se esgueirou...? Não encontro explicação. Mas nestas coisas eu não tento explicar, limito-me a aceitar. Com o tempo estou a tornar-me crente.

Subsistiu o desaparecimento da meia felpuda cor de rosa e branca. Já tinha desistido. Pensei que era um daqueles casos de sublimação que exemplificam as maravilhas da ciência. Claro que gostaria de ter assistido ao processo, uma meia felpuda a evaporar-se, mas pronto, foi-se, foi-se. Tem-se sabido de fenómenos ainda mais inexplicáveis.

Até que hoje...

Não fui directamente para o escritório pelo que coloquei o computador no porta-bagagens. Quando,  ao início da tarde, no parque da empresa, abri o porta-bagagem e me debrucei para puxar o computador, vi, para meu espanto, uma coisa cor de rosa a vir arrastada. Puxei mais. A meia. Disse alto: 'Ai... não acredito...' e desatei a rir. Ali sozinha, como quem assiste a uma aparição mas em cómico.

A meia, num daqueles tão vulgares movimentos de telecinesia, voou do quarto directamente para o porta bagagens do carro, uns pisos abaixo, na rua, e, certamente, uns metros adiante. 

Agora à noite, quando fomos caminhar, contei ao meu marido que a meia cor de rosa tinha aparecido. Ele não foi capaz de adivinhar. E eu vi-me aflita para contar, a rir à gargalhada, quase sufocada. Ele olhava para mim antevendo que dali vinha coisa.

Quando consegui articular palavra, ele encolheu os ombros. Como sempre, disse que não se admirava. Mas depois, pensando melhor, quis saber qual a explicação. Depois de muito pensar só posso admitir que, a não ser uma meia telecinética, só pode ter ido no meio de qualquer coisa. No outro dia, quando começou a esfriar, lembrei-me de levar para o carro, para um just in case, uma capinha de lã. Será que, antes de pegar nela para a levar, a capa pousou em cima da meia e a meia, com aquelas bolinhas anti-aderentes de repente aderentes, se agarrou à capa? Pois não sei. 

Nisto das coisas muito científicas ou transcendentais deixo para entendidos. Eu limito-me a aceitar. A meia ressuscitou e eu, sem a pretensão de querer questionar, só posso festejar o facto.

Esta, a fofa pink, e a outra, blackinha com pintinhas, quais gatas vadias, foram dar as suas voltas e agora que tiveram saudades dos quentinhos da mamã resolveram dar as caras e cá estou eu para as acolher.

Mas mais curioso foi o que aconteceu à concha verde da sopa. Há uns dois ou três meses, nem sei. Tenho um conjunto de utensílios de cozinha, comprados no IKEA, a que dou muito uso. Uma big pinça, uma colher de servir, uma espátula e uma concha de sopa. Tudo verde-alface. Até que um dia a concha desapareceu. Pensei logo que o meu marido, por algum motivo, a tinha deitado fora. Incriminei-o. Ele não gostou. Eu não quis saber: só podia ter sido ele. Procurei por todo o lado, na esperança de descobrir que ele não tinha cometido tão indesculpável acto. Mas nada. Claro que achou que eu não estava boa da cabeça: porque haveria ele de deitar fora uma concha da sopa? Não encontrei motivo mas só podia ter sido ele a dar-lhe sumiço.

Depois suspeitei da senhora que, meio dia por semana, cá vem limpar a casa. O meu marido ficou chocado com a minha suspeição. Tentei racionalizar, encontrando um motivo para justificar a suspeição. Mas não me ocorreu. Obviamente tive a decência de não a deixar perceber a minha suspeição.

De vez em quando, intrigada, voltava a revirar gavetas, a espreitar para dentro de armários. Mas nada. O meu marido, quando me apanhava naquela demanda, dizia: esquece a porcaria da concha. Fiz por isso. 

Até que no domingo, de manhã, quando acordei, o meu marido nem esperou que eu saísse da cama: Lembras-te da concha da sopa?

Tive vontade de o corrigir: da defunta concha da sopa. Mas a curiosidade impediu-me de perder tempo. Então? 

E então diz ele: achei a concha, uma afiador de facas, uma pinça de inox da salada, um quebra-nozes, uma pega, um pano das mãos. Estava estupefacto. E eu ainda mais fiquei: Onde? Conta.

Diz ele: resolvi afiar uma das facas mas não encontrei o afiador na gaveta onde estava, a última, a de baixo. Estive à procura na gaveta e, quando fui fechá-la, ela não fechava. Então puxei-a para fora e, lá atrás, estava tudo aquilo. Perguntei-lhe como foi isso possível. E o que se passa é que os carris daquela gaveta não vão até ao fundo, deixando aquele alçapão secreto.

Portanto, tudo está bem quando acaba bem.

Quando as coisas se perdem de mim, acabam por voltar para mim. As pessoas também.

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E tendo estes invulgares eventos a reportar, ainda não foi hoje que distribuí presentes: livros ou objectos úteis. Talvez amanhã.

As fotografias que mal-empreguei aqui, dispondo-as por entre meias usadas e conchas da sopa, são da autoria de Nick Knight, homem talentoso para além da conta.

Para acompanhar, só podia aqui ter Bruce Springsteen não por ser o Boss mas porque canta como gente grande e há dias assim, em que me sabe bem ouvir gente grande. Também podia ser uma marcha militar que uma vez, por entre anjos perdidos, me maravilhou. Infelizmente há rastos que teimam em esvanecer-se. Mas talvez sejam como as meias ou a concha da sopa e um dia voltem.

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E dias felizes para todos que aí estão, desse lado, a ouvir a minha respiração

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Seria eu um outro bicho se a minha casa fosse outra?







Os dois manos agora têm uma brincadeira nova, mais maluca ainda do que as anteriores. Chama-se Espasmo. A todo o instante levantam o braço, batem no outro ou alçam da perna e dão uma sapatada e, acto contínuo, dizem: Espasmo. Como é óbvio não percebi que brincadeira era aquela. Afinal era mesmo óbvio: faz de conta que temos um espasmo. A minha filha confirmou: é isso mesmo que parece: uma estupidez. A verdade é que com isto estão sempre às brigas. Tudo amistoso mas sapatada pede sapatada de volta e, às tantas, os espasmos estão acesos. Mas tudo na base da risota.


Estava era muito frio, escuro, a querer piorar. Apesar de tudo, linda a beira do rio, as gaivotas a rasarem a pala do Maat, a rasarem as águas, a elevarem-se em contrluz, a deslizarem sobre o vento. E a luz a passar pelas nuvens. 

Mas mesmo muito frio. Tivemos, pois, que nos abrigar e foi bom irmos lanchar um lanchinho bom, conversando em família. 


Antes de almoço tínhamos estado, só os dois, junto ao mar. Tínhamos pensado caminhar na praia mas, uma vez lá chegados, desatou a chover e levantou-se uma ventania. Saímos do carro mas não por muito tempo. O mar estava francamente revolto e o frio e o vento tornavam a tarefa quase impossível. Tinha levado o meu chapéu de feltro e estava a saber-me tão bem ter a cabeça protegida mas, para não correr o risco de ficar sem ele, tive mesmo que abrir mão do conforto. E o que aconteceu é que, com alguma pena minha, nem chegámos a descer até ao areal.


Quando vinha no carro, debaixo daquele mau tempo, a ouvir uma bela música, lembrei-me que debaixo daqueles grandes pinheiros mansos que nascem do areal fizemos, em tempos, vários picnics. Éramos cinco casais e, na altura, uns sete ou oito miúdos. Depois vieram mais, um por adopção e outros por nascimentos imprevistos, quando as respectivas mães pensavam que já tinham fechado a loja. Uma andou a tratar-se do estômago até a criança já ir para aí nos seis meses de gestação. Depois ficou em pânico com medo que os medicamentos lhe tivessem feito mal, isto já para não falar de ser mãe tardia e nem ter vigiado o início da gravidez. Felizmente, veio sem problemas de maior.

Mas, na altura, aquele primeiro lote de crianças tinha idades muito afins. E era uma paródia pegada.


Depois acabámos por perder aquela ligação próxima. Os miúdos ganharam vida própria e um tinha testes, outro tinha uma festa de anos, outro tinha um jogo. Eram muitos e conseguir agenda livre em simultâneo era um totoloto. Entretanto, quando vieram os bebés, os outros já adolescentes e com amigos e programas autónomos, estavam as mães a ter que 'guardar' em casa os bebés com viroses, com dentes a nascer. E isto, quando passa um mês e não se consegue e outro e não se consegue, o hábito vai-se perdendo. E depois, pelo meio, aconteceu uma coisa fracturante. Um dos casais que era central, até pela animação que proporcionava (animação, frequentemente, no mau sentido) separou-se. Foi muito complicado. Não era fácil estar com um e deixar o outro de fora das combinações. Resolvemos 'ficar' com ele porque ele existiu antes dela, já que, anos antes, ela apareceu no grupo como a namorada dele. Só que ele nos desnorteava pois, de cada vez que nos aparecia, vinha com uma namorada nova. Uma coisa louca. Para nossa surpresa, constatávamos que a ele, low profile, fisicamente até nada de mais, lhe caíam namoradas no colo como se fosse um galã. E não avisava. Combinávamos ir jantar e, por exemplo, encontrar-nos em casa dele e, pelo caminho, já íamos a pensar se seria a mesma. E nunca era. E ele, sempre o mesmo tímido, irónico, falinhas baixas e elas derretidas, olhando-o como se estivessem frente a um Brad Pitt desta vida. Embora, pensando bem, ele faz é lembrar o Al Pacino. Quando era casado, a mulher mais alta que ele, giríssima, interessantíssima, roía-se de ciúmes embora dissesse que o tinha escolhido por ele ser feio (e dizia-o à frente dele) e, assim, não ter que ter medo que as mulheres se perdessem de amores por ele. Enfim, umas cenas que nos divertiam e ajudavam a tornar o grupo ainda mais coeso em torno daquele casal meio disfuncional, sempre na corda bamba. E o que se passou foi, portanto, que aquele divórcio ainda mais ajudou a separar o grupo. 

Ao passar por ali, pensei que há tanto tempo que não íamos para aqueles lados, como se os lugares estivessem associados às pessoas que os frequentam.


Tive vontade de lá voltar para, com melhor tempo, ver melhor. Já deu para ver que o que antes eram umas aldeias esparsas são hoje condomínios e condomínios, vivendas e moradias e, pareceu-me, uma certa confusão. Mas talvez andando a pé fique com uma ideia mais benevolente. 

Ao passarmos de carro, vimos um casal que vinha da praia, a pé, à chuva. Vinham a conversar. Provavelmente tinham uma casa ali perto. Pensei na Isabel e no seu gosto em vir a ter uma casa ao pé da praia. Como a compreendo. Também eu, em tempos, o desejei. Desejava ter uma casa como a que que havia encavalitada nas rochas, salvo erro entre a Figueirinha e Galapos. Tinha uma escada que descia directamente para a areia. Talvez hoje não autorizassem a construção de uma casa assim. De resto, não faço ideia se tinha sido autorizada. Era uma boa casa e era uma casa de sonho, mesmo sobre o mar. Tinha um passadiço da estrada para a casa. Imagino como deve ser bom estar numa casa assim, ouvindo-se as vagas, a dança das ondas, o rugido das marés em dias de tempestade. Ou descer para a praia, a meio da noite, em dias de calor e lua cheia. E o cheiro da maresia, tão bom.

Quando andávamos à procura de uma casa no campo, isto há mil anos, chegámos a equacionar ser também perto da praia. Ouro sobre azul. Mas eram muito caras.


Depois de muito procurarmos e de vermos inúmeras, encantámo-nos por aquela ali, triste e escura, ainda com os móveis dos proprietários (também divorciados) que diziam que lá deixavam tudo, no meio de pedras e mato e rasteiro. Qualquer coisa ali nos atraíu irresistivelmente. Os miúdos puseram-se a correr pela casa, num entusiasmo, e a minha filha disse este é o meu quarto e o meu filho disse e este é o meu. E eu pensei tiro este móvel escuro e triste daqui e mudo o sítio dos móveis e tudo vai ficar diferente e o meu marido disse também de sua justiça. E eu pensei e vou plantar árvores porque aqui vai haver um bosque. Quando se riam, eu doseava a expectativa: um petit bois. O pior foi quando o meu cunhado lá chegou a olhando para aquilo de que nós já começávamos a gostar tanto e, naquele gesto tão típico dele, deslizou a mão pelo ar a meia altura, como que varrendo o espaço, e disse: 'deitam abaixo esta merda toda para conseguirem uma leitura diferente do espaço'. Bem conhecedora daquelas suas soluções que passavam sempre por deitar abaixo, fui taxativa: nem pensar, não vai nada abaixo, era o que faltava. Nem era só pelo acto em si, era também o dinheiro que aquilo que ele estava a idealizar ia custar. Mas aí o meu marido teve outra ideia, fez outros desenhos, unir aquilo com aquilo, rasgar uma grande janela, dali nascer um telheiro virado à serra. O irmão desaprovou: solução mediana quando poderia ser uma coisa fantástica. Paciência.


Ficou assim e acabou por reconhecer que foi uma boa solução.

E aos poucos foram nascendo os caminhos, os murinhos, as árvores foram crescendo, os pássaros foram chegando, as flores aparecendo, as borboletas, os cogumelos, a terra ficando atapetada de carumas, de musgos, de orvalhos. E eu tornei-me o bicho que tão bem conhecem.


Por isso, penso que, se calhar, as casas também nos fazem a nós. Talvez se, em vez daquela casa, nós tivéssemos descoberto uma outra que não nos permitisse mudá-la e, com ela, mudar a paisagem, talvez não fossemos o que hoje somos. 


Mas acordar de manhã e ir caminhar à beira do mar também deve ser uma coisa boa, talvez eu aprendesse a descobrir conchas, algas, pássaros e outros bichos que moldassem também a minha maneira de ser. Sabe-se lá.

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Já aqui partilhei este vídeo pelo menos mais duas vezes mas gosto tanto que me arrisco a partilhar uma vez mais.


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E só para vocês verem como é a minha fraca cabeça: quando comecei o post a minha ideia era olhar para os livros que aqui tenho quase ao colo e dizer qual ofereceria a cada um dos bloggers aqui do lado ou Leitores que conheço por comentarem ou me enviarem mails. Mas, se isto dá para perceber..., distrai-me e segui pelo caminho que viram. Se isto fosse na estrada, a esta hora estava a caminho do Porto.  (E estava muito bem que já estou é com saudades de lá ir dar uma volta.)

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Desejo-vos uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
E muito obrigada pela vossa companhia aí desse lado.

domingo, dezembro 01, 2019

Palavras chuvosas






Não são horas de começar um post. Daqui a nada são duas da manhã. Presumo que grande parte das pessoas que habitualmente aqui vem espreitar a esta hora steja a dormir. Por vezes tenho uma certa pena de não conseguir seguir horários mais consentâneos com o ritmo da maior parte das pessoas. 

Para além de ter estado com a família, estivemos no campo, caminhei por entre as árvores, li muito, fomos às compras para a casa. Tudo coisas normais e simples. 

No campo, voltei a ficar espantada com os cogumelos que voltaram a aparecer. Tantos, tão bonitos, tão diferentes. Encanto-me, já o disse mil vezes. Parecem-me milagres mas ainda mais milagrosos por haver tantos, todos tão perfeitos e improváveis. Como saem, espontaneamente, da terra estas pequenas obras de arte? Não consigo perceber.


Comecei a ler os dois livros que comprei ontem. Leio um bocado de um, depois do outro, volto ao primeiro, volto ao segundo.
Não sei porque o faço. A minha vida e o ritmo da cidade criam em mim um certo sentimento de urgência, uma vontade talvez absurda de fazer várias coisas ao mesmo tempo, não vá não ter tempo para cada uma individualmente. 
Li que a idade da reforma aumentou mais um mês e isso é uma ideia que me incomoda. No outro dia, estava a falar com a minha mãe que, até há uns anos, os meus colegas mais velhos aproveitavam a vontade que as empresas sempre têm de renovação e aceitavam ir-se embora mais cedo. Ali pelos sessenta e dois anos, levavam uma indemnização, iam para o desemprego e pouco depois estavam reformados. E antes dos sessenta e dois anos já eles andavam a fazer contas ao tempo que faltava, desejando ir para casa. E eu, depois de ter posto de parte a ideia de um dia ainda ser presidente de uma câmara, sempre pensei que faria como eles. Agora tudo se complicou. As empresas têm, na mesma, vontade de renovar o seu quadro de efectivos mas a idade da reforma é um alvo em movimento e tudo se complica. 

Então, vendo o tempo do muito tempo ainda longínquo, mesmo involuntariamente dou por mim a querer rentabilizá-lo ao máximo. 

Talvez por isso, agora à noite, enquanto na televisão passava aquilo dos Casais à Primeira Vista, 
uma coisa inenarrável em que não dá para perceber se os 'especialistas' são nabos todos os dias, não acertando uma ou se o objectivo é mesmo o de juntar gente que se odeia
estive a ler, a pesquisar umas coisas que andam a interessar-me e, como se não fossem horas de estar a dormir, fui esticando o tempo até chegar até aqui.


De vez em quando sinto um certo cansaço também nisto. Não é que esteja a cansar-me de escrever -- porque isso se mantém intacto e cada vez com mais vontade de ter mesmo tempo para me entregar ao que escrevo -- mas é alguma frustração por, algumas vezes, por inabilidade, por desatenção ou saturação acumulada, o que escrevo transmitir ideias contrárias às que são as minhas. Posso, por exemplo, sem querer, magoar alguém.

No dia a dia, sou naturalmente irónica. Mas, obviamente, a ironia funciona bem se for acompanhada de um sorriso ou de uma expressão facial ou corporal que demonstre que há uma discrepância entre o que se diz e o que se pensa. Na escrita, falta esse descodificador. Para ajudar, pode pôr-se um smile ou um piscar de olhos. Mas, não o pondo -- e eu embirro um bocado com emojis no meio dos textos --, tem quem lê que adivinhar que quem escreve, quer dizer outra coisa que não a que escreve,
Por exemplo, no outro dia, um colega disse-me que tinha tomado uma determinada decisão e que, aliás, não era apenas decisão dele, era colegial. Eu respondi-lhe: 'E foi certamente uma decisão bastante acertada'. Ele riu e disse: 'Está a querer dizer que foi uma decisão errada?'. Eu mantive: 'Não, estou a dizer que, se tomou essa decisão e se o colégio a ratificou, por definição é acertada'. Ele, que me conhece bem, disse: 'Como se eu não conhecesse essa sua ironia e não soubesse que não apenas discorda desta decisão como acha que tomamos frequentemente decisões erradas'. Mantive: 'Nada disso. Acho que as decisões que tomam são sempre exemplares'. Ele riu-se e eu também. Estávamos entendidos. Mas se ele não me conhecesse bem e se alguma expressão facial minha não denunciasse o contrário do que eu estava a dizer e ele ainda poderia pensar que eu estava a lisonjeá-lo.

Mas, escrevendo aqui, escrevendo para quem não me conhece, para quem não me vê, pessoas com experiências de vida ou personalidades muito diferentes da minha, como conseguir transmitir aquilo que, de facto, penso ou sinto? Não sei. 

E depois há os temas: posso estar preocupada com um assunto mas não ter paciência para, à uma ou duas da manhã, me pôr a dissertar sobre ele e, pelo contrário, apenas me apetecer falar de frioleiras, disparatar, chutar para canto ou atalhar razões. Mas, quem me lê, não sabendo das minhas circunstâncias, se calhar vem à espera de consistência, de elevação, de tino e há dias em que, pelo contrário, só encontra desconcerto e parvoíce. E eu interrogo-me sobre se faz sentido, apenas porque gosto de escrever, escrever seja sobre o que for, mesmo que seja sobre coisa nenhuma, estar a causar estranheza em quem me lê?


Por isso, há dias em que penso que mais valia não escrever nada no blog e escrever apenas para mim.

Mas, depois, tal como hoje, deixo-me levar pela inércia e ponho de lado cuidados e indecisões e, uma vez mais, escrevo à vista de todos, a céu aberto, sujeitando-me a sentir em cima de mim vendavais, aguaceiros, trovoadas. O pior é que se há dias em que, quanto maior a tempestade melhor a mim me sabe, outros dias há, dias em que estou mais sensível ou cansada, não sei, em que me custa um bocado sentir a força dos elementos a fustigarem-me as mãos, a pele, o coração.


Enfim.

A verdade é que há alguma inclemência generalizada. Pela leitura dos blogs, por vezes surpreendo-me com a dureza das palavras que ali estão, muitas vezes ajustes de contas, ameaças veladas, juras de vingança. Dá ideia que há alguma revolta que se vai sedimentando e que, a todo o momento, está pronta a explodir. Quando leio palavras que denunciam um grande azedume penso que as pessoas se esquecem de quão transitória é a sua passagem por cá, que se esquecem da sua condição de animais efémeros. Não sei o que esperam para desperdiçar a sua vida dessa forma. Mas, enfim, também não estou certa de eu própria saber viver a vida da melhor forma. Provavelmente, com esta minha maneira de ser e sem a arte de saber transmiti-la da melhor forma, causo desagrado ou mágoa em quem me lê. E isso custa-me um bocado e é uma das razões que me levam a, por vezes, ter vontade de me deixar disto.


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E é isto. 
Espero que, ao menos, se salvem os cogumelos.

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E a todos desejo um belo dia de domingo.

sábado, novembro 30, 2019

Só se for um hipopótamo...


Não sou dada a black fridays. Esta sexta-feira fugi do comércio e até, para almoçar, fui a um sítio em que não há lojas ou, se as há, são tão discretas que nem por elas dou. Não que não goste de pechinchas. Gosto. Mas incomoda-me muito a confusão. Se pudesse ter as lojas à minha disposição sem ter que me desviar para não levar encontrões, sem ter que esperar para entrar para provar alguma coisa, sem ter que estar na fila para pagar, ainda vá que não vá. Mas isso não existe.

Por isso, vade retro black friday, fui mas foi almoçar tranquilamente e, a seguir, fui à livraria onde há que tempos tinha encomendado o livro que a JV me recomendou: da Herta Müller, O rei faz vénia e mata. Tanto tempo já tinha decorrido que já daí tinha tirado o sentido. Afinal, a semana passada recebi uma sms a informar que estava disponível mas que, se não o levantasse até meio da semana, o poriam à venda. Ora como desde a semana passada os meus dias têm estado indisponíveis para mim, hoje ia preparada para que a ameaça se tivesse concretizado. Mas não. Por isso gosto tanto desta pequena livraria: a livreira é civilizada e simpática e tudo tem dimensão humana, ainda não excessivamente mercantilizada. O livro lá estava. Quando o paguei, percebi que o desconto era de 20% e que, portanto, a friday estava a passar por ali mas em versão soft.


Quando estava a sair, reparei num livrinho pequeno, de capa discreta e cujo título me fez parar para o descortinar. Depois reparei que era do Mexia, Pedro Mexia. O último. Achava graça aos blogs do Mexia, gosto das suas crónicas no Expresso e felizmente nunca vejo o Governo Sombra pelo que as suas intervenções certamente contaminadas pela parvoíce sempre ali reinante não anulam a boa ideia que tenho da sua escrita. Voltei atrás e fui pagar. Reparei, então, nuns pequenos caleidoscópios. Espreitei e recordei o que eles sempre me intrigaram e encantaram. Trouxe dois, um para cada grupo de pimentinhas. Habituados a toda a espécie de tudo, na volta não acham piada nenhuma a uma coisa tão simples. Mas trouxe. E quando fui pagar surpreendi-me outra vez pois também tiveram os 20% de desconto. Portanto, em consciência não posso dizer que não tenha ido aos saldos. 

Ah, e, com a velocidade a que isto corre, já estamos outra vez, como dizia certo caleidoscópico Leitor, na feliz quadra consumícia.

Nem consigo pensar em ter que entrar outra vez na maluquice das compras de natal. Que suplício. Mesmo aos miúdos já me custa encher de coisas. Têm coisas a mais. Parece que acabam por não se ligar a nada. Gostam de brincar uns com os outros, gostam de jogar à bola, gostam de ler. Tralha a mais é contraproducente. Mesmo que os pais peçam para não os encherem de brinquedos, como as famílias são grandes, acaba sempre por se encher a casa de tralha nova. Tem que se arranjar uma alternativa a este consumismo.

Eu, então, quando me perguntam o que quero, digo que nada. Nada. Só se for também um daqueles pequenos caleidoscópios. Hoje ia a pensar nisto. Quando eu era pequena, numa era em que não havia excessos, era bom receber aquelas bonecas lindas ou aqueles livros que me encantavam. Depois, na era adulta, quando ainda queria qualquer coisa pelo Natal, tive que aprender a lidar com a decepção que quase sempre sentia. Se falava num anel de ouro com dois pequenos corações em marfim, o que recebia era um anel em ouro branco e com um rubi. Se pedia uma moldura de vidro, clássica, o que recebia era uma prateada, moderna. Sempre tudo ao lado. Até que me habituei a não querer nada e a ficar contente com tudo. 

De resto, Natal à parte, estou numa fase em que só me apetece é desfazer do que tenho a mais. Roupa que não me serve e relativamente à qual já perdi a esperança de lá conseguir voltar a enfiar-me, tenho dado à minha filha. E não vejo a hora de ter tempo para uma reformulação profunda de tudo. Nunca serei uma minimalista pois isso não está na minha natureza. Mas incomoda-me o que me parece um excesso. Tal como também não vejo a hora de ter a gaveta das echarpes arrumadinha à maneira da Kondo. Ou o armário onde há dossiers cheios nem sei de quê ou gavetas cheias de papéis que não faço ideia o que sejam, tudo isso está mesmo a pedir reciclagem. Mas como não vou deitar fora à toa, terei que arranjar tempo para ver tudo com cuidado e esse tempo não sei quando será. Mas há-de ser.

Mas, voltando ao tema dos presentes: como presente de Natal, só mesmo se for um hipopótamo. Ou isso ou qualquer outra coisa de inesperado. 



E um bom sábado.

sexta-feira, novembro 29, 2019

Transformar água salgada em água potável, transformar luz do sol em energia. Nada de mais.
[E um breve esclarecimento sobre doutoramentos]


Não é que já esteja tão flexível como antes do mau jeito mas acho que já estou um pouco melhor. Não sei se foi do ben-u-ron, se do brufen, se do omega 3, se de tudo junto que eu, se posso evitar andar empanada, não facilito. Ben-u-ron de madrugada, que nem conseguia mexer-me ou, quase, respirar, duas balas de omega 3 ao pequeno almoço, brufen ao almoço e, agora ao jantar, mais duas balas do omega 3. E a coisa parece que já está a resultar. Se mais daqui a nada perceber que subsiste algum ensarilhamento muscular, vai outro ben-u-ron e, expectavelmente, a coisa ficará resolvida. Talvez amanhã já possa voltar a fazer a minha caminhada e isto já para não falar nas minhas piruetas acrobáticas.

Tenho ideia de que quando apanho uma constipação (como apanhei na sexta-feira da semana passada, depois de ter passado o dia com os pés gelados), tendo a ficar com alguma debilidade que leva a que os músculos se mostrem mais sensíveis a coisas pesadas ou a movimentos invulgares. Nem sei se também não fico mais atreita a tendinites ou contracturas quando ando mais cansada. 

A minha mãe preocupa-se, não gosta que eu tome medicamentos, tem medo que me façam mal. Digo-lhe que os tomo porque tem que ser e que é só por um ou dois ou, vá lá, três dias. Não se deixa convencer. Sugere que eu passe a beber chá de gengibre ou de curcuma, a comer maçãs e outras coisas que ajudem a reduzir inflamações e a tornar mais resistente o sistema imunitário.

Por isso, quando cheguei, fui ao supermercado e comprei um bocado de gengibre e uma caixinha de saquetas de chá também de gengibre. Também já o bebi. Não encontrei foi curcuma. Tenho que ver no Celeiro. Nem sei se curcuma é para fazer chá ou para temperar a comida. Tenho que me informar. E, por via das dúvidas, antes de jantar comi um bravo de esmolfe. Acredito muito nos saberes da minha mãe.

Bem, não interessa, até porque isto de ter uma dor aqui e outra acolá é tudo menos original. De resto, nem é bem nas costas.
Tirando isso, estou como a Ana: também não tenho adidas, não faço ideia se tenho ou não cento e vinte canais de têvê pois se vejo uma meia dúzia já é muito, não estou inscrita num ginásio, não tenho qualquer bicho de superior estimação, não tenho mau dormir, não tenho o sonho de uma viagem sem retorno, credo, cruzes, nem pensar, claro que quererei sempre voltar, não tenho suspeita de ser diferente, nem pensar, nem isso nem pitada de jeitinho para poeta, felizmente não tenho um rol de incompetentes e invejosos ao redor, nunca me passou pela cabeça aquilo de um ou dois mortos queridos merecerem mais a vida do que os outros, nem nenhuma culpa abandonada no altar, nem tenho quaisquer nobilíssimas intenções nem baú de rancores lá no fundo, muito fundo, do armário. 
Pronto, adiante, já chega destes trololós.

E a ver se hoje, que já não tenho aquele ferrete aqui espetado a doer-me para escambau e a tirar-me do sério, não me dá para provocar de novo uma certa pessoa com mais uma inocente private joke, já que ontem acabei foi a desencadear justas perplexidades junto dos demais Leitores. Portanto, dentro do género, acho que já bastou o que escrevi ontem.


E, falando muito a sério, claro que acho bem que as pessoas estudem, investiguem, se tornem doutoras. Claro que sim. Só se fosse burra de todo é que acharia que não; e posso ser burra mas, na minha inocência e auto-caridade, acho que não de todo. E claro que acredito que não é por serem estudiosas, especializadas num assunto e sabedoras a sério, que vão deixar de usar perfume. Ora essa, que é uma coisa tem a ver com a outra? Sou maluca mas não sou parva (acho eu). Mas é que há quem, à conta de se doutorar, deixe de viver, quem se esqueça de que há outros assuntos que também interessam, de que há dias com luz do sol, quem se esqueça de apanhar ar, de conviver e dar uso aos sentidos, etc. -- e o que escrevi foi, em especial, para uma pessoa assim. Uma pessoa, de facto, especial.

Mas adiante que o tema que aqui quero trazer também não é nada disto, é completamente outro.

...   &   ...   Mudança de agulha   ...   &   ...


No outro dia, ao ver o mapa das regiões de Portugal que estarão alagadas no prazo de trinta anos, involuntariamente dei por mim a pensar que idade terei se viver até lá. Pensei que, se fosse com outra coisa, era capaz de pensar que até lá não me doa a mim a cabeça. Mas esta não é uma coisa qualquer.

E tomara que não aconteça senão no prazo de décadas. O que se passa é que há fenómenos que desencadeiam outros e aquilo para que os cientistas cada vez mais chamam a atenção é que várias linhas vermelhas foram já ultrapassadas e que a emergência pode chegar mais cedo do que se pensava. E pode ser horrível.

Mas não penso apenas em mim. Tenho que pensar os meus filhos, nos meus netos e nos meus bisnetos, chegue eu a conhecê-los ou não. E penso não apenas neles mas em toda a gente. 

Sempre pensei, a propósito de tudo, que tenho como que a obrigação de deixar as coisas melhores do que as encontrei. No trabalho, por exemplo, penso isso frequentemente.

E, nisto do planeta, sinto que não vou cumprir. Aliás, acho que, colectivamente, estamos a caminho de falhar. E isso frustra-me. E preocupa-me, dá-me medo.

Mas é bairrista pensar apenas no que nos rodeia e esquecer os que já vivem com as dificuldades com que provavelmente nos vamos deparar daqui por uns anos. A falta de água potável é fatal. Nada medra: nem plantas, nem animais, nem gente. 

Por isso, conseguir que as populações tenham água limpa e energia é vital. E tudo o que possamos fazer para divulgar iniciativas como as que hoje aqui mostro ou, mesmo, para ajudá-las é pouco.


Permitam, pois, que divulgue o vídeo abaixo. Não o faço pela organização em si mas, em geral, pela necessidade de haver quem o faça. Um dia pode acontecer que sejamos nós a precisar de transformar água salgada em água potável.


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E, por ora, é isto.

A todos uma bela e white friday

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