Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, outubro 19, 2017

Assunção Cristas, Constança Urbano de Sousa, Hugo Soares, António Costa.
Culpas, desculpas. Responsabilidades, alarvidades.




De mim ninguém poderá dizer que sou insuspeita.

Sou suspeita, sim. Assertivamente afirmo a minha opinião e sabido é que, nas legislativas, regra geral, voto PS. Mesmo se não me apetece, voto PS. E faço-o não por masoquismo mas porque, na altura de votar, olhando à volta, não vejo melhor opção. Portanto, sou suspeita, sim.

Mas não é apenas uma questão de afinidade ideológica: é também racionalidade. É o resultado da avaliação do carácter dos personagens, das suas ideas e dos seus actos face ao que observo.

Portanto, ao pronunciar-me sobre esta crise, sobre a demissão da Ministra Constança e sobre o que se passou esta terça-feira na Assembleia, não pretendo fazer passar-me por distante e insuspeita. Sou suspeita, sim. E não sou humildezinha. Não. E é, pois, com consciência do que sou que também afirmo que não sou burra. 

E é sendo como sou, falando de frente, que defendo que não se deve transformar o desempenho governativo num guião de telenovela, a puxar ao sentimento, a cavalgar a onda para agradar à audiência. E é sem rodriguinhos que afirmo que, não sendo praticante de likes e dessas tretas a la facebook, espero que o governo não governe a contar likes, a distribuir abraços e beijinhos para a selfie. Portanto, sou suspeita, sim. Mais. Afirmo peremptoriamente que a mim o que me enojava era ver Passos Coelho a fazer porcaria todos os dias e, com aquela sua insuportável cara de pau, insultar a inteligência das pessoas, querendo convencer as pessoas que o mal que fazia era para o seu bem.


Portanto, sou suspeita, sim. Suspeita de sentir intolerância para com os papagaios e abutres a quem as televisões pagam para andarem a debicar na dignidade de quem se esforça por fazer o melhor, intolerância para com os avençados pagos para saltarem a pés juntos sobre quem está na mó de baixo. Tolerância zero para com essa gentalha que inunda as televisões. Tolerância zero para actuações de verme como a que acabei de ver a Vítor Gonçalves explorando a dor de Nádia, a senhora de Pedrógão que perdeu o filho, querendo que ela diga como soube que o menino estava morto, querendo que ela diga como foi que o menino morreu. Uma vergonha. Intolerância para com a fulana da SIC que anda a abrir o frigorífico das pessoas que, nas aldeias, estão sem electricidade, exclamando que já se sente o cheiro. Intolerância. Não suporto tanta estupidez.


E sobre a actuação de Assunção Cristas face aos incêndios, ela que foi ministra da Agricultura e nada fez, sobre o aproveitamento mediático que tem feito dos desastres e a guerra quase cruel que moveu à Ministra Constança Urbano de Sousa, a palavra que me ocorre é asco.


E sobre o seu apelo insistente, a quase exigência, de um pedido de desculpas por parte de António Costa, no que foi secundada por esse bronco feito deputado e chefe da bancada laranja que dá pelo nome de Hugo Alexandre, a palavra que me ocorre é a mesma: asco.


Democracia, humildade, sentido de dever, honestidade intelectual -- tudo isso é outra coisa, coisa que talvez apenas pessoas com alguma maturidade democrática e sentido de decoro consigam saber o que é. Assunção Cristas, Hugo Soares e seus comparsas não o sabem.


Quando vejo, no Parlamento, o friso do Governo a ser enxovalhado por badamecos desqualificados como o Hugo Soares ou a Assunção Cristas sinto pena. Pena. Pena por eles, rostos cansados e tristes, a serem insultados por gente que não tem categoria nem para varrer o chão da assembleia -- e pena pela democracia. A democracia carcomida por dentro por esta gente.


Não desvalorizo a dimensão da tragédia. Sinto uma dor de alma, que é muito minha, pela morte das pessoas, pela devastação da floresta, pelo fim de tantos animais. Mas porque assim sinto, mostro respeito pelo que se passou.

E naqueles dois pafiosos e nos seus correlegionários o que vejo é um indecente desrespeito. Sobre a complexidade dos problemas e sobre a dor dos que perderam familiares, casas, animais, árvores, aqueles dois o que fazem? Exibem impudor, alarvidade.

Eu, porque tenho perfeita noção da dimensão e diversidade das razões que levaram a que os incêndios fossem tão devastadores, não os desvalorizo nem sou estúpida a ponto de pensar que o que se passou foi culpa da Ministra.

Portanto, se querem que vos diga, hoje voltei a pensar que é uma pena que, para se entrar para deputado, não haja provas de aferição e testes psicotécnicos, entrevistas, avaliação da personalidade. Se tudo isso é necessário para desempenhar funções banais, como é que qualquer desqualificado pode ser deputado e decidir sobre a vida da população?

Gentinha com um baixo coeficiente de inteligência, sem moral, sem vergonha na cara e sem competência não devia poder ser admitida para exercer a função de deputado. Gente destas não representa o povo: pelo contrário, envergonha o povo.


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Pinturas do período escuro de Mark Rothko. De Profundis de Arvo Pärt.

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quarta-feira, outubro 18, 2017

Marcelo versus Costa -- o rei do Povo e o governante do País.
[Mas, antes, permitam-me umas coisas minhas, coisas de nada (mais para disfarçar do que outra coisa)]





Não que o dia tenha sido espectacular mas estou com vontade de estar bem disposta. Não foi espectacular mas também não foi deplorável. Um dia normal.

Se calhar devia dizer antes: vontade de estar mais bem disposta do que estou. A verdade é que ando um bocado impaciente. E exigente. E muito frontal. Alguns acharão que demasiado. Paciência. Vieram uns lá do norte do mundo para uma reunião e logo aos poucos minutos verbalizo aquilo que penso e que vários outros andaram a não querer ver durante meses, e logo um gelo se abate sobre a sala, e logo os outros se põem a falar baixinho uns com os outros. A coisa resolveu-se logo ali e não precisavam de ter vindo de tão longe. 

Ao fim do dia, por telefone, do carro, digo a outro que, se é para fazer só aquilo, mais vale não fazer nada. Silêncio do outro lado. Depois, pelo pigarrear, sinto-lhe o nervosismo. Fui dura. Mas é o que penso e não tenho paciência para meias palavras. Depois ouço que talvez eu tenha eu razão.

E, antes de sair, a dizerem-me que um outro anda triste, que acha que quase não lhe dou atenção. Confirmo. Mas é isso ou pôr-lhe um processo disciplinar. Silêncio, alguma inquietação. Depois reconhecem: 'Pois, de facto'.

De tarde, recebi convocatória para uma reunião. No texto, às tantas, esta pérola: '...para pudermos dar cumprimento a ....'. 


Fechei os olhos, numa de rejeição. Como: não, não quero ver. Pensei: vou rejeitar e explico que não poderei aceitar participar numa reunião em que o organizador não sabe escrever. Depois pensei: é um bom tipo, coitado, não vou envergonhá-lo desta maneira. Mas sei, ah se sei, que não perde pela demora. Erros ortográficos desta monta não digiro pelo que também não engulo. Portanto, na primeira ocasião, terei que dar-lhe uma aulazinha. 

Mais: fui convocada para outra que sei de antemão que não vai correr bem. Estou já a ver-me a fazer como se não soubesse o que estou ali a fazer e, na primeira oportunidade, a perguntar: 'Mas o que é isto? Estamos aqui a fazer o quê? Esperam que me pronuncie...? Como, se não percebo o que se está aqui a passar...?'.

Falta-me a paciência. Metade do dinheiro que se perde (ou se deixa de ganhar) nas empresas resulta da falta de jeito e/ou da falta de competências dos gestores. E estou a ser simpática para os meus congéneres porque, se quiser ser isenta, direi que é praticamente tudo. E só não é tudo porque uma parte tem a ver com a sorte ou a falta dela. 

Caraças, que falta de pachorra para tanto totó que não sabe o que anda a fazer.

Claro que também há os malucos, que não fazem coisa que se aproveite e que se acham os maiores e vá lá a gente dizer-lhes qualquer coisa, ficam a achar-se perseguidos e injustiçados. E aqui refiro-me aos malucos que há em todas as funções e não apenas na gestão. Falta de pachorra também para eles. Vontade de mandá-los para casa, para se tratarem. Mas como? Para começar, não reconhecem que estão malucos, acham sempre que os outros é que são maus e ingratos. Devia haver à entrada das empresa um detector de malucos. Aos que fossem detectados, a porta não se abria. Que felicidade que ia ser.

Enfim. 

Penso muitas vezes que isto da vida é uma mecha que se vai esgotando. Já não sou uma criança, já não tenho todo o tempo do mundo pela frente. 


O que falta é cada vez menos, pelo que há cada vez menos tempo redundante. Não me apetece gastar o tempo com tretas, com meias palavras, com enrolanços que não dão em nada. Prefiro fazer muitas coisas e despachar cada uma em três tempos. 

No outro dia estive com uma colega de quem gosto muito e que há bastante tempo que não via. Diz que está farta e a pensar atalhar a sua vida profissional. Gosta de viajar pelo mundo. Apetece-lhe isso e estar com a família e só fazer o que lhe apetece. Percebo-a tão bem.

Há aquilo dos velhos se marimbarem para a censura interna. Se calhar estou a ficar velha porque tenho cada vez mais prazer em dizer, às claras e em poucas palavras, o que penso. Percebo que a imprevisibilidade do que digo perturba um bocado. Mas tenho uma coisa a meu favor: acham que sou inteligente e, portanto, podendo o que digo deixar de queixo caído alguns dos que me ouvem, sinto-lhes o desconcerto por acharem que tenho razão.

Penso assim: 'Se não gostarem, ponham-me a andar'. E esse pensamento dá-me uma ainda maior sensação de liberdade.

E há outra coisa: enquanto aqui estou, chove copiosamente e este som refresca-me a alma. Tenho o estore de uma das janelas projectado e o vidro ligeiramente aberto. Fui até à janela. Cheira a chuva. 


Há bocado, ao jantar, o molho salpicou o top que tinha vestido. Não era um jantar de saladinhas mas, sim, um jantar apaladado. Depois de uma sopinha de legumes, tinha um gostoso osso buco estufado com abóbora, courgette, batata doce, alho francês, cebola e feijão verde. A sério: ficou muito saboroso -- não desfazendo. Mas, então, o caldo salpicou a blusinha. Nódoas. Quando acabou o jantar, pus a blusinha em detergente com tira-nódoas. Depois deu-me a preguiça de ir buscar outra e fiquei apenas de calçõezinhos. E assim estou, em topless, nesta noite chuvosa.


Então, quando fui ali à janela, senti a frescura da noite chuvosa directamente na pele e soube-me mesmo bem. Que saudades de sentir o ar fresco e molhado. Se estivesse no campo, saía porta fora e ia apanhar chuva. Bem, se calhar não porque é capaz de estar frio demais. Mas agora que falei nisto acho que vou ali pôr o braço de fora para sentir a chuva no corpo.

Já fui. Tão bom. A rua toda molhada, a água a correr no asfalto. Há quanto tempo. É bom estar aqui a escrever, a ouvir música, a ouvir a chuva. As terras precisam de água. Estão sedentas, queimadas. Penso que o ar já estava saturado de calor, a precisar de um refresco bom, limpo. E todos nós também.


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E num dia como o de hoje sei que este é um post que, provavelmente, não é o que deveria ser escrito. Mas não vi o discurso do Marcelo tal como não tinha visto a comunicação de Costa que agora vejo criticado por não ter mostrado emoção. Também não vi, senão agora mesmo, a observação infeliz da ministra na qual referiu que, se fosse demitida, iria fazer as férias que ainda não gozou. Não vi mas, se tivesse visto, também não viria para aqui pregar contra. Que a ministra tem sofrido com tudo isto não tenho dúvidas e o que me espanta é a capacidade anímica e física desta gente para, naturalmente aflita e triste, e sempre debaixo de fogo cerrado (ainda que um fogo metafórico), se aguentar. E compreendo que, num momento de descontrolo emocional, uma pessoa possa sair-se com uma frase infeliz. Também não tenho dúvidas que António Costa sente o peso da responsabilidade e sente tristeza pelos mortos e pelos feridos e não posso criticar se a forma que ele melhor encontra para se manifestar é assim, com secura, como leio que se mostrou. Cada um arranja as defesas que consegue. Deveria ter aparecido com a voz embargada, exibindo humildade e sensibilidade? Não sei responder. Cada um é como é. Não creio que alguém sinta menos apenas porque guarda para si o que é demasiado. profundo . 


Claro que Costa agora terá que fazer alterações, terá que fazer a vontade ao povo e aos políticos que preferem viver sobre a espuma dos dias a fazer trabalho sério. E terá que fazer a vontade a Marcelo, o rei do povo, que quer que alguém seja sacrificado pois sabe (é intuitivo, Marcelo) que isso aquietará a raiva popular.

Mas compreendo. São tempos difíceis em que muita gente, para melhor suportar a dor e melhor aceitar o imenso desastre, acha que é encontrando um culpado que melhor expiará a perplexidade e o sofrimento. Compreendo. Somos humanos, frágeis, temos destas coisas.

E parece que, polarizando a raiva contra a ministra, alivia mais quem sofre ou quem está solidário do que dirigir a raiva contra os criminosos que atearam os fogos. Contra esses não se ouve uma palavra. Compreendo. São muitos, não têm rosto, não nos são familiares. A ministra tem, está à vista, é um alvo fácil. É o cordeiro que deve ser sacrificado. Mas estranho. Não se vê vontade de compreender as motivações de quem atenta contra a natureza, contra a vida de pessoas e animais. A mim o que me intriga e que acho importante perceber (para melhor se tentar evitar) é o que leva tanta gente a andar pelos campos a atear fogos. Mas, lá está, isso sou eu.

E, a ser verdade o que leio e ouço agora, desagrada-me que Marcelo -- que, repito, não ouvi -- tenha alinhado com o facilitismo e a emoção primária. Se o fez, desagrada-me. Quer ser rei e tem alguma graça quando lhe dá para agir enquanto tal. Mas ser rei exige alguma elevação. A menos que queira ser o rei do chinelo no pé, a ampliar o que a rua diz, a explorar a emoção das massas, um rei de faz de conta, de carro alegórico.


Enquanto escrevo, agora, vejo a televisão a mostrar a terra coberta de cinzas, árvores cinzentas, campos esfacelados, casas derrubadas. E gente a chorar, a dizer que perdeu tudo, a descrever o medo e o horror. O sofrimento de quem viveu o horror explorado até à náusea para atiçar ainda mais o fogo da raiva. Contra isto também não vejo ninguém insurgir-se.

Mas, por não ter visto os discursos e a frase infeliz da ministra e porque, mesmo que o tivesse, pouco saberia dizer, aceitem que não me pronuncie e que me deixe, antes, estar para aqui a desfiar estes meus pequenos nadas. A mim a inquietação e tristeza não me dá para ter vontade de esbofetear aqueles que acho tão vítimas de tudo quanto as outras vítimas -- a mim dá-me para disfarçar (enquanto, cá por dentro, me recolho, num recolhimento só meu)

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In Flanders Fields de John McCrae é lido por Tom O'Bedlam

As fotografias provêm da Vogue parisiense.

A música é dos The Dead South - In Hell I'll Be In Good Company e está aqui porque a ouvi e vi o vídeo e achei piada

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terça-feira, outubro 17, 2017

Harvey Weinstein ou o fim da era dos machos-fornicadores





Nos Estados Unidos, como tema recorrente dos dias que correm -- para além dos que decorrem da estupidez e do narcisismo permanentemente exibidos por Trump -- há o escândalo que resulta das denúncias em catadupa de mulheres do mundo do cinema sobre o assédio sexual de que foram alvo por parte de um dos maiores produtores de Hollywood. 

Harvey Weinstein era o magnata da Academia que financiava generosamente as campanhas eleitorais dos democratas e que era sempre visto na companhia de belas actrizes, uma das quais a sua jovem mulher. Dir-se-ia que era tudo dele.

E, de repente, o céu do seu mundo veio abaixo e não há uma voz que se levante para o defender. 

Os casos sucedem-se e o comportamento apresentava um bizarro padrão: parece que convidava as jovens aspirantes às luzes da ribalta a irem até ao seu quarto de hotel, para discutirem aspectos contratuais ou para as aconselhar. Depois aparecia-lhes nu, pedia uma massagem, persuasivo, como se fosse normal. E muitas vezes, com receio de que, se se negassem, o seu sonho de carreira acabasse ali, elas acediam. Falam também de violações. Outras vezes fugiam. Fugiam até de Hollywood. E não o denunciavam pois sentiam vergonha. De alguma forma, sentiam-se envergonhadas, talvez envergonhadas por terem acedido a ir até ao quarto de hotel.


Até que o dique da auto-censura se rompeu e, de repente, todas falam nem que seja para dizerem que se envergonham por não ter falado. O irmão, seu sócio, abandonou-o, a mulher divorciou-se, foi saneado da sua empresa, França vai retirar-lhe a condecoração, os testemunhos sucedem-se, os cartoons gozam-no, a opinião pública despreza-o. O predador Weinstein é agora um bicho acossado. Ser um touro desembolado, um marialva desencabrestado, um fornicador incontinente já não é medalha que se exiba. A sociedade já não gosta de acolher no seu seio homens descompensados que tratam as mulheres como gado pronto para ser coberto.


E eu, vendo este homem, lembrei-me da única vez em que me senti francamente incomodada com a manifestação de interesse por parte de um homem. Penso que já o contei. Das altas instâncias veio a recomendação, oriunda do Ângelo Correia, para que recebêssemos um argelino, importante homem de negócios. Calhou-me a mim fazer as honras da casa.

Na altura, os gabinetes eram muito amplos. O meu tinha bem para cima de trinta metros quadrados, sofás de pele, bons quadros, um belo tapete turco de lã, uma mesa redonda pequena junto à janela, e uma sumptuosa vista sobre o rio.

A minha secretária trouxe-mo: era gigante, forte como um urso. Não gordo mas, todo ele, corpulento. Moreno, cabelos curtos encaracolados. Um homem de aspecto possante. Nitidamente não estava à espera de ser recebido por uma mulher e não escondeu a surpresa. O normal neste mundo é que, quem ocupa lugares destes, seja homem. E, desde o início, não despegou os olhos de mim. De forma insistente, fixava-me. Eu tentava levar a conversa para o que o trazia ali mas dir-se-ia que ele se tinha esquecido disso. Estava-se nas tintas para os seus negócios. Pediu para tirar o casaco. Transpirava. Tinha uma camisa branca sem gravata, aberta em cima. E transpirava como um touro. Limpava a testa impudicamente com um lenço que, por fim, deixava pousado sobre a mesa, quase como se fosse normal fixar uma mulher daquela forma e, enquanto isso, transpirar em bica. Uma coisa desconfortável. Não tirava os olhos de mim mas de uma forma mais do que insistente. E dizia: 'Vous êtes une femme très interessante'. Comecei a querer ver-me livre dele, a dar a conversa por acabada. Mas ele parecia hipnotizado. Levantei-me, liguei para a minha secretária e pedi que me mandasse uma outra colaboradora para me interromper, para inventar uma desculpa qualquer. Passado um bocado ela entrou, chamou-me, disse que estavam á minha espera. Em francês, expliquei-lhe que tinha que dar a nossa reunião por terminada. Ele nem se mexeu. Corpulento, o corpo inclinado na minha direcção. Ela disse-me: 'Credo, parece prestes a saltar-lhe para cima'. 

Não me lembro de tudo o mais tive que fazer para correr com o bicho. Fingi sempre que não percebia e tentei falar da empresa, dos produtos e serviços que poderíamos exportar para a Argélia. Pediu-me então que lhe arranjasse amostras. Obviamente não as tinha ali comigo mas disse que lhas arranjava, que esperasse noutra sala que alguém lhas levaria. Que não. E, então, descarado, escreveu o nome do hotel e o número do quarto, queria que eu fosse ter com ele. Respondi taxativamente que não e pu-lo fora do gabinete. Fui até ao elevador, seca, incomodada. Cruzei-me com um colega que ainda o viu com pouca vontade de se enfiar no elevador, especado a olhar para mim e a repetir que eu era uma mulher muito interessante. Mal me vi livre dele, disse a esse meu colega: 'Nunca mais me meto numa destas. Sempre que me apareça mais algum animal destes, ou alguém com origem num país destes, chamo-o para fazer de meu bodyguard'. E assim foi, com marroquinos, sírios e até, uma vez, com um chinês com ar suspeito, eu cravava sempre algum colega para ali estar a fazer figura de corpo presente. E simpáticos, eles acediam sempre a fazer esse papel.

E se isto me aconteceu uma única vez e já foi tão mau, uma sensação tão incómoda, imagino o que é passar por isto numa situação mais confinada, com menos escapatórias.

Por isso, acho muito bem a repercussão que este caso está a ter. Penso que pode ser que tenha um efeito pedagógico não negligenciável na sociedade ainda tão machista. Pode ser que os homenzinhos que se acham muito homens ao assediarem sexualmente as mulheres aprendam que isso já era.

Trogloditas no more!


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Sobre os incêndios deste fatídico dia 15 de Outubro falo no post abaixo.

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Tristeza e preocupação. E esperança.


Burning Oil Well at Night, near Rouseville, Pennsylvania
James Hamilton   ca. 1861


Há tantas e tão cruzadas causas -- há tanto acaso misturado com maldade com causas naturais extremas.

Há uma tal improbabilidade potenciada por elementos incontroláveis, há uma tal dimensão num desastre que se multiplica e projecta -- que é impossível, com meios humanos dimensionados para o provável, conseguir deter a besta sobre-humana que, como uma hidra de mil cabeças jorrando fogo, devorou algumas zonas do país.

Quando foi de Pedrógão já o disse e mantenho a opinião. Anos de incultura de toda a espécie, anos de abandono de terras, anos de redução de custos públicos, anos de laxismo e de más políticas, excesso de divulgação mediática dos incêndios num registo apoteótico, porventura um sistema judicial que não intimida os criminosos, porventura muito mercantilismo em áreas que deveriam estar ao abrigo de apetites espúrios, porventura estruturas pouco adequadas a situações limites, etc, etc, etc - não se resolvem de um dia para o outro, não se resolvem com a demissão de uma ministra, não se resolvem com uma competição entre comentadores a ver quem se sai com a tirada mais bombástica, não se resolvem com rostos piedosos e frases incendiárias.

Não vou, pois, alinhar em nada disso.

O momento é de consternação, desgosto, apreensão. E é de esperança de que tamanha mortandade e tamanha devastação sirvam para se parar para pensar, para equacionar de forma inteligente e equilibrada, o muito que há para fazer.

Não é tempo de atender à pressão mediática ou tempo de refregas partidárias. É tempo de seriedade e de mostrar que se ama, de verdade, o País.

de Mark Rothko

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E está a chover.

Enquanto escrevo, ouço a chuva. Ao fim de tantos meses de secura, finalmente a bênção da chuva.

Que bom. 

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segunda-feira, outubro 16, 2017

Carta aberta a José Sócrates


Caro José Sócrates,

Na tarde deste sábado, em família, houve acesa discussão em torno de si e do processo Marquês. Tratando-se de gente que considero informada e bem formada, devo dizer que tenho que encarar com seriedade as opiniões dos meus familiares e a convicção que já formaram sobre a sua culpabilidade.

Ao mesmo tempo tenho que constatar que a sua personalidade continua a polarizar opiniões extremadas que, facilmente, tendem para alguma irracionalidade.

Em concreto, enquanto a mim me acusam de cegueira por não querer ver o que para eles é óbvio, eu a eles vejo-os a misturarem opiniões de índole moral sobre o seu comportamento, opiniões sobre o regime que, às tantas, envolvem a relacionamento de Ricardo Salgado com Bava ou Granadeiro, a gestão da PT ou do GES, o compadrio endémico que sempre se soube existir entre certas castas -- ou seja, a misturarem assuntos que são periféricos em relação àquilo de que é acusado. 

Mas, porque dão por consistente o que se vai sabendo e cruzam informação que vai saindo na comunicação social com o que vai sendo confirmado em entrevistas (e, às tantas, já tudo aparece meio distorcido e já afirmam com convicção, por exemplo, que o seu amigo, de uma forma ou de outra, já lhe passou para as mãos vários milhões), consideram que é incontornável que a fortuna do Engº Carlos Santos Silva é, na verdade, sua e que toda aquela circulação do dinheiro entre contas foi urdida por si, e que, sendo aquele dinheiro seu, só pode ter resultado de corrupção.

Acresce que toda a gente conhece as escutas onde se ouve como as suas amigas lhe pedem dinheiro e se ouve a sua voz num registo que deixa poucas dúvidas de que a casa de Paris e o dinheiro seriam, de facto, seus.

Eu contraponho que é aos tribunais que incumbe provar se o dinheiro é seu pois tudo pode ser uma teia de conjecturas em que umas justificam as outras e em que parte delas pode ser ficção.

Contudo, apesar de me forçar a não querer formar juízos pois não estão provadas as linhas de raciocínio que o Ministério Público seguiu e não quero correr o risco de embarcar em falácias, tenho que confessar que gostava de ver esclarecidos alguns pontos.

Assim, penso que a bem da sua defesa (porque, como deve estar farto de saber, a comunicação social já o condenou e, portanto, a opinião pública também) e a bem da consciência de quem não quer juntar-se ao coro de acusadores, o meu Caro deveria esclarecer o seguinte:

1 - Ao todo, quanto é que o seu amigo lhe emprestou? E pode explicar minimamente isso? Ou seja, pode explicar porque é que, se o meu Caro não tinha dinheiro, pedia empréstimos para depois andar a passar férias à grande e à francesa (passe o trocadilho), a frequentar bons restaurantes, a comprar quadros ou decoração dispendiosa? E, ao ritmo a que gastava, como pensava poder alguma vez pagar ao seu amigo? Compreenda que, mesmo que o dinheiro não seja seu e que todo este processo gire em torno de um embuste, a ser verdade tudo aquilo dos empréstimos, fica o incómodo perante um comportamento que parece pouco transparente ou pouco razoável.

2 - Ao todo quanto é que emprestou àquelas três amigas? E pode explicar o contexto em que lhes emprestou dinheiro (porque, reconheça, não é normal uma pessoa andar a emprestar sistematicamente dinheiro a amigas a menos que seja um generoso benemérito com fundos quase ilimitados)? E, se os não tinha, qual o sentido de pedir dinheiro emprestado para depois o emprestar a elas?

3 - Há verdade naquilo de ter emprestado ou dado dinheiro a amigos e amigas para andarem a comprar livros seus (dinheiro que, ainda por cima, pedia emprestado ao seu amigo)? Se for verdade, isso foi o quê? Uma incontrolável vontade de aparecer como um 'vencedor' aos olhos da opinião pública? Agora que se sabe, arrepende-se? E aquilo de pagar a um blogger, ao Miguel Abrantes? Confirma? Ou é tudo mentira?

Não interprete estas perguntas como uma ingerência em assuntos pessoais seus. Tudo isto caíu na opinião pública e tudo isto causa perplexidade,  fazendo com que se levantem dúvidas sobre a sua idoneidade ou, de uma forma mais geral, sobre a sua maneira de ser.  E toda a acusação (pública) assenta em cima destes factos (factos ou conjecturas). Portanto, perceba que ajudaria à compreensão deste 'romance' se respondesse, com franqueza, a estas perguntas.

Não espero que me responda directamente a mim mas acredite que gostava que ver estas dúvidas esclarecidas. 

Resta-me desejar-lhe que a Justiça seja rápida e justa e que a sua dignidade seja sempre respeitada.

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Verão ao rubro em Outubro
[Reportagem fotográfica à beira-mar]



Um calor abrasador. Ouço que é o pior dia do ano em termos de incêndios. Vi imagens aterradoras na televisão. Continua a desgraça dos fogos postos. Alguma campanha terá que ser feita e algumas medidas deveriam ser postas em prática pois não é possível ter tanto maluco ou criminoso a fazer isto.


Felizmente, por aqui, a realidade foi outra. Dia quente de verão. As praias repletas. Como habitualmente, em dias assim, preferimos a caminhada. Levo a máquina fotográfica e, enquanto respiro a maresia, vou registando. O meu marido chama-me, diz que caminhar não é isto, que devo imprimir ritmo e não parar. Então, vou tirando fotografias enquanto ando mas, claro, tenho que abrandar. Ele aborrece-se: 'Isto assim não é nada'. Corrijo-o: 'É, é o prazer de fazer aquilo de que se gosta'. Encolhe os ombros: 'Não vale a pena...'


Estamos a meio de Outubro e o calor perto da hora de almoço é quase irrespirável. Rente à rebentação há, em alguns sítios, uma certa bruma. De resto, na maior parte do areal e cá mais acima, o ar está seco.


Novos e velhos, gordos e magros, atletas ou balzaquianas, pretos e brancos, louras e morenas, ciclistas e surfistas, tudo aqui coexiste neste espaço franco em que toda a gente parece felizmente despreocupada.


Dir-se-ia que estamos no pino no verão. Não há cheiro a castanhas assadas nem vestígios de Outono. Há o bulício das manhãs de domingo como se em Agosto estivéssemos. Faz impressão isto.


Felizmente parece que esta semana as coisas vão mudar. Já estive a preparar a minha vestimenta para amanhã. Tenho uma reunião bem cedo, não posso estar com experimentações de manhã. Terei que esquecer as minhas várias calcinhas brancas, companhia assídua, no verão. Terei também que esquecer as blusinhas descapotáveis. Tempo de finalmente nos podermos ajustar à estação do ano.


Mas, entretanto, enquanto o amanhã não chega com a temperatura mais baixa, estou a rever as fotografias desta quente manhã de praia.












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Até já.

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domingo, outubro 15, 2017

Breve apontamento sobre isto





Longe vão os tempos em que eu via crescer, um a um, o número de leitores do meu blog e ficava intrigada: quem serão? como deram comigo? Tinha, então, a vontade de atingir o número simbólico e que me parecia quase inatingível das 100 visitas por dia.

Uma vez li no Vida Breve um agradecimento por ter recebido, na véspera, 400 visitas. Nessa altura eu acompanhava uma meia dúzia de blogs e desconhecia, mesmo de nome, os mais visitados da blogosfera portuguesa. 400 visitas parecia-me uma coisa espantosa, um objectivo que nunca estaria ao meu alcance. Atribuí-o ao mérito do seu autor e à qualidade que eu lhe reconhecia, apesar de tantas vezes discordar do que ali lia.

Enquanto isso, aos poucos, as visitas ao Um Jeito Manso iam crescendo. Até que um ano e oito meses depois de ter criado o blog, o impossível aconteceu e atingi o surpreendente número de 100.000 visitas. Fiquei tão contente, tão agradecida. Nunca tinha imaginado tal feito.


O tempo tem passado. Há sete anos que já por aqui ando. Quando comecei esta aventura, havia um pimentinha, ainda pequenino. Depois dele mais quatro chegaram. Os leitores também foram chegando e ficando. Os números foram crescendo. Nunca deixei de me surpreender nem de me sentir agradecida mas agora já não reparo quando passo por números redondos. Contudo, hoje vi que já tinha ultrapassado 2.300.000 visitas e voltei a ficar admirada. Em Abril tinha chegado aos dois milhões e, agora, em cerca de seis meses, já se somaram mais 300.000. Provavelmente não é nada de mais e o que não faltarão serão blogs que recebem mais do que isto por mês ou por dia. Não sei, não faço ideia. Mas eu tenho consciência das minhas limitações e, por isso, é sempre com alguma estupefacção (e contentamento) que vejo que as minhas palavras despertam algum interesse. No outro dia, um Leitor, por mail, referiu que o que o tinha feito permanecer era também o que eu juntava aos textos, nomeadamente os vídeos. Cada Leitor terá as suas razões.



E talvez, de vez em quando, eu desiluda alguns. É impossível agradar sempre, é impossível agradar a toda a gente. Mas pode ser-se sempre verdadeira. Tento ser sempre verdadeira.

O tempo passa e nós talvez nos vamos modificando. Talvez eu hoje seja diferente de quando aqui me estreei. E há dias e dias. Tantas vezes, enquanto aqui se está, escrevendo palavras cheias de despreocupação e riso, num corredor subterrâneo dentro de nós, caminham as nossas preocupações, as nossas mazelas. 

Mas quem aqui está é uma pessoa tão pessoa quanto quem nos está a ler. Contradições, fraquezas, paixões, desilusões, esperanças, prazeres, tristezas. De uma forma explícita ou implícita, tudo por aqui tem passado.

E as minhas causas. A defesa dos mais indefesos, a defesa da política inteligente e humanista, a defesa do conhecimento e da ética, o fascínio pelas artes, pelas palavras. A necessidade de afecto, de beleza e de elegância -- em tudo.


Hoje trago aqui o vídeo que fala da luta pela dignidade das meninas. Está lá em cima, para acompanhar a leitura deste texto.
This new film from director MJ Delaney featuring ‘Freedom’ by Beyoncé, calls for action on some of the biggest challenges girls face like access to education, child marriage and the threat of violence´
Já o confessei algumas vezes: tem acontecido pensar se me apetece por aqui continuar. Isto absorve-me o pouco tempo livre de que disponho e impede-me de me dedicar a outras aventuras ou a velhos prazeres. Mas depois há isto: o ter onde escrever e saber que alguém me lerá, o poder partilhar vídeos que me agradam, o poder abordar temas que me são caros, o poder mostrar fotografias que faço (como estas que fiz este sábado, in heaven) ou que vejo. No fundo, o poder ter este espaço de liberdade e partilha. O poder chegar até vós, o poder sentir-vos aí desse lado.

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Muito obrigada.

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E queiram continuar a descer. Aí a seguir fala-se de mulheres.

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Onde estão as mulheres?




Fomos, por pouco tempo, até à nossa casa no campo. Éramos para almoçar num restaurante onde, volta e meia, paramos. Estava fechado. Fomos então até a um outro numa pequena aldeia lá perto. Quando o dono do restaurante nos veio atender, com duas ementas na mão, naturalmente devo ter-me mobilizado para a receber. Não senhor, muito respeitosamente entregou-a ao meu marido e, só depois, a outra a mim. Quando ele se afastou, o meu marido riu-se: 'Pensavas que te ia dar a ti... querias...'. De facto. E foi assim durante todo o almoço. Depois reparei que, nas outras meses, a regra era sempre essa: primeiro os homens.

Também já aqui referi a impressão que me faz quando, nas aldeias do país profundo, vejo os cafés cheios de homens, grupos de homens conversando nos passeios, e nunca nenhuma mulher. Se uma pessoa quer um café ou uma água tem que penetrar, não sem alguma ousadia, naquele exclusivo espaço masculino. Disse ousadia mas não. Quando o faço, não é ousadia que sinto. É curiosidade. Mas penso: se eu não fosse uma turista acidental mas sim uma habitante local, talvez tivesse que ser ousada para ir contra os hábitos da comunidade.


Habituada que estou a que nenhum espaço me seja vedado, a frequentar espaços em que não existe qualquer diferenciação de género e a que me seja dada a primazia de passagem, de atendimento, etc, fico sempre admirada quando me acontece o contrário.

Ainda no outro dia, por exemplo, estávamos num grande almoço numa certa guest house. Na minha mesa, era eu e mais onze cavalheiros. A comida estava em travessas numa bancada. Estávamos sentados à mesa, na conversa, tasquinhando azeitonas, pão, azeite, queijo. Às tantas, ouvi chamar o meu nome. Era o dono da casa que me chamava, dizendo-me: não é serviço à mesa, é self-service. Se não pára de falar e não vai servir-se, temos que ficar todos aqui à sua espera. Estava tão distraída que nem tinha dado por isso. Mal me levantei, logo todos os outros me seguiram. E, para mim, isto é o normal.

Contudo, o que hoje me aconteceu não foi inédito. Especialmente nas pequenas terras de província, a prioridade da deferência é, muitas vezes, reservada aos homens.


Mas, se falo em gestos de elegância que me são reservados nos meios mais cosmopolitas, também é verdade que, em cargos de gestão, sou uma mulher entre uma larga maioria de homens. E quanto mais se sobe na hierarquia mais rareia o género feminino. Estive, no outro dia, numa reunião na qual participavam os mais altos responsáveis de um grande grupo empresarial. Numa sala imensa, equipada com a melhor tecnologia, com belíssimas pinturas nas suas paredes, à volta de uma mesa da melhor madeira e de uma dimensão imensa e sentados em belos e confortáveis cadeirões de pele, era eu e mais catorze homens. Conhecendo-os como os conheço, percebo: uma mulher ia desestabilizar aquele discreto equilíbrio em que ninguém ousa dar um passo dissonante ou pronunciar uma palavra desalinhada.

Ou seja, diga-se o que se disser, apesar de tudo, é ainda um mundo de homens.

Aquilo de que no vídeo abaixo se fala não tem a ver com a sociedade rural ou com o misógino mundo dos negócios. Tem a ver com mulheres artistas e do longo caminho que têm percorrido para poderem afirmar-se como mulheres.

Na pintura como na literatura ou na música, quantas mulheres anularam a sua identidade para que a sua obra se pudesse impor? E quantas não ficaram pelo caminho? Quantas não viram a autoria da sua obra atribuída a homens, nomeadamente aos homens com quem viviam?

Os tempos têm vindo a mudar, é certo. Mas, infelizmente, não em todo o lado e não tão celeremente quando devido.

Mas aqui fica o vídeo.

Jemima Kirke – Where Are the Women? | Unlock Art

Girls actress Jemima Kirke (known as Jessa Johansson in the HBO series) addresses the topic of women in art (or the lack them). She looks at the changing role of female artists in a male dominated art world over the centuries - and how some of them eventually took on the establishment in the 1970s.


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Uma mulher artista

Yayoi Kusama – Obsessed with Polka Dots


The nine decades of artist Yayoi Kusama’s life have taken her from rural Japan to the New York art scene to contemporary Tokyo, in a career in which she has continuously innovated and re-invented her style. 
Well-known for her repeating dot patterns, her art encompasses an astonishing variety of media, including painting, drawing, sculpture, film, performance and immersive installation. It ranges from works on paper featuring intense semi-abstract imagery, to soft sculpture known as ‘Accumulations’, to her ‘Infinity Net’ paintings, made up of carefully repeated arcs of paint built up into large patterns. 
Since 1977 Kusama has lived voluntarily in a psychiatric institution, and much of her work has been marked with obsessiveness and a desire to escape from psychological trauma. In an attempt to share her experiences, she creates installations that immerse the viewer in her obsessive vision of endless dots and nets or infinitely mirrored space. (...)

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sábado, outubro 14, 2017

Vítor Gonçalves entrevista Sócrates e entaipa-o com resmas de folhas do processo Marquês.
[A Inquisição Espanhola e outras cenas]





Ora, então, muito bem. Não vi em directo. Andei passeando à beira-mar, respirando o ar fresco da noite, ouvindo o rebolar manso das ondas. Depois, aqui chegada ao meu sofá de estimação, encostei-me e, de imediato, adormeci.

Vinha com a incumbência mental de, mal aqui chegasse, escrever um mail profissional da máxima importância mas, com o sono, esvaíu-se a importância. O costume. Penso que era a isto que Einstein se referia quando teorizou sobre a relatividade. E, se não foi a isto, foi a algo parecido. O sono dilata o espaço e, com a dilatação do espaço, minimiza-se o que tem dimensão limitada. Ou o tempo. Ou encurvam-se os planos em que nos deslocamos, tendendo tangencialmente para o infinito. E aí entrarão, quase divinas, os acordes das ondas gravitacionais. A poesia potenciada pela teoria das probabilidades. E, claro está, tudo isto é pseudo ficção. Ou talvez não. Tanto faz -- não interessa.


Mas para dizer que, agora que acordei, vi referências à entrevista por todo o lado. Sócrates tinha ido à televisão e parece que foi mais uma performance daquelas. Ora bolas. Gostava de ter visto. Lembrei-me: posso ver. Portanto, peguei no comando e, estremunhada, pus-me a manobrar a coisa. Vi-me e desejei-me para atinar com esta coisa de pôr a box a andar para trás no sítio certo.

Mas lá consegui. Já cá estão os dois. O tal jornalista que, segundo me contaram, um dia, numa reportagem algures, fora do país, se assustou de morte e, perante uma coisa de nada, se atirou de uma janela, partiu uma perna e fez cocó nas calças como um menino assustadiço -- para gozo de quem assistiu a tão ridícula cena. Não sei se é verdade mas garantiram-me que sim. No entanto, olhando para ele, estou capaz de o imaginar a atirar-se para debaixo da mesa, assustado com a banhada que está a levar de Sócrates.

Mas, então, Sócrates.

Admito. Se calhar sou eu que sou burra mas vejo Sócrates a falar e parece-me seguro no que diz. E vejo o Vitinho e até me dá pena. Fraquinho, fraquinho, fraquinho. 

E ouço as perguntas do dito Vítor e tudo aquilo que ouço (e que reproduz as acusações do despacho), me parece pífio, frouxo. Parece conversa de chacha. Mas pode o processo ser extraordinário e o Gonçalves é que ser um totozecas.


No entanto, se isto é para funcionarmos na base da fezada, então, cá para mim, aquelas perguntas e toda aquela acusação me parece coisa de crianças ou de detectives falhados, ou uma investigação na base dos meus amigos monty. E Sócrates, com uma perna às costas, desmonta aquela conversa em três tempos. 

Mas, com tanto inteligente a decretá-lo culpado, admito a hipótese de ser eu que sou burra. Admito. A sério.


No entanto, deixem que volte à mesma. É a minha matriz. A minha formação. O meu gosto pela Lógica. O prazer em dissecar raciocínios, o prazer em detectar falácias. O prazer em construir modelos rigorosos que reproduzem a realidade. Fui aluna de 18 a Lógica. E se aquilo era exigente. Mas também pode acontecer que fosse aluna de 18 aos 18 e que agora, com os neurónios desgastados, se me apresentasse a exame, não fosse além de uma valente nega. We never know.

Mas, então, numa de rigor contextual. Estamos a avaliar o quê? A moral de Sócrates? A capacidade política de Sócrates? A culpabilidade, em termos criminais, de Sócrates?

É que o primeiro cuidado a ter é o de separar as águas. 

Há vários anos, era Sócrates primeiro-ministro. Rodeada de direitolas, alguns muito meus amigos, ouvia-os dizer cobras e lagartos de Sócrates. Eu dizia: o governo está a ter um bom desempenho. Eles diziam: é irascivel, é arrogante. Eu dizia: não estou  dizer que fazia dele um best friend forever, estou apenas a dizer que está a fazer um bom trabalho no governo. Eles diziam: é uma pessoa intratável. Eu dizia: não estou a avaliá-lo do ponto de vista pessoal mas político. 


Isto. Durante anos. Misturavam planos, contaminavam os juízos que formulavam, misturavam a avaliação política com a avaliação pessoal. 

Agora não é isso. Agora avalia-se o carácter (com base no que a comunicação social divulga do processo) e mistura-se com um tema criminal.

Admitindo que é verdade que Sócrates tenha pedido dinheiro emprestado ao amigo e que fazia vida de nababo à conta dele, isso permitir-nos-ia formar juízo de índole moral. 

Ora, o que está em causa é matéria judicial. É crime usar dinheiro emprestado? Não creio. 

Claro que a suposição é que o dinheiro não era do amigo mas, sim, dele. Ou seja, está-se perante uma suspeita. Ele diz que é falso e di-lo com absoluta convicção e prova-o documentalmente. Mas é aqui que devem entrar os tribunais. É aos tribunais que incumbe a responsabilidade de avaliar se as suspeitas colhem, se as provas existem e se são robustas -- e, então, formar um juízo.

de Yayoi Kusama

Não é ao vulgar cidadão, que não tem os instrumentos de que dispõem os tribunais, que incumbe a responsabilidade de julgar e condenar. Mal fora. Talvez o tal Ventura de Loures, que defende a pena de morte, vá por aí, de dizer que não vale a pena esta coisa dos tribunais. Mas acho que era bom que as pessoas normais não alinhassem neste primarismo de fazer justiça pelas suas mãos.

Do que estou a ouvir, todas as 'acusações' são refutadas por Sócrates e parece que com fundamentação, deixando o dito Gonçalves com ar completamente apalermado.

Sócrates fala e parece deixar claro que tudo o que ali está mais parece uma palhaçada mal alinhavada. No entanto, os tribunais o dirão. Os tribunais. Os tribunais -- e não os zés da esquina que somos nós. Os tribunais e não quem se deixe impressionar pelo tamanho de resmas de papel colocadas numa mesa, ao lado do arguido, numa tentativa de o querer mostrar enterrado entre milhares de linhas acusatórias..

Quanto a acharmos que Sócrates pode ser convencido, assertivo, vaidoso, autoritário, de ser isto, aquilo ou o outro, é outro assunto, e aí entramos no domínio do subjectivo. Cada um pode achar o que quiser e cada um pode ser como quiser. Não é tema para ser misturado com temas criminais.


E eu, para concluir esta divagação, o que lamento é que a justiça seja tão lenta. Andar uma pessoa a ser investigada durante quatro anos -- a vida devassada, exposta nos meios de comunicação social, os queixumes da mãe de que está depenadinha a serem objecto de títulos de jornais, a vida inteira a ser pasto de comentadores, jornalistas a metro e redes sociais -- parece-me um abuso indesculpável. Pensar que agora ainda pode demorar mais uma mão cheia de anos até que isto se resolva parece-me uma autêntica barbaridade.

A Justiça não deve servir para poder destruir uma pessoa antes sequer de se saber se é culpada de alguma coisa.

Se se vier a provar que é inocente, quem lhe devolverá todos os anos que lhe terão sido roubados?

E não o digo por ser Sócrates: digo-o porque é um cidadão português e porque uma tragédia destas, de alguém se ver enredada nas malhas da justiça, pode acontecer a qualquer pessoa.

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Tirando isto tudo, se é para haver inquisição, pois, então, que entrem os meus amigos:

Monty Python - Inquisição Espanhola


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As imagens que aqui usei provêm da Vogue parisiense e, claro está, não têm nada a ver com nada.

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sexta-feira, outubro 13, 2017

Homens-objecto. Homens que, em vez de apagarem fogos, os ateiam.
E Sophie, a quase mulher.
[E isto, se calhar, por causa do Relvas que me apareceu aqui todo prosa a dizer que, se a maioria votar no Santana, ele se calhar vai interpretar que também deve votar]



Lá está. Aquilo da reverência. Ou do politicamente correcto. Não sou. Tem que ter cuidado... depois dizem que é desalinhada... cuidado... -- recomendam-me. Azarinho. Não gosto de ter cuidado. Gosto mais de provocar ou de passar ao lado dos grandes movimentos de massas. Comoções de grupo, então, estou fora.

Isto para dizer que, em dia de relatório sobre os incêndios e depois de ouvir um senhor bigodudo que podia usar suspensórios para ficar ainda mais igual ao avô Cantigas, a dizer que, se calhar, se cá nevasse, fazia-se cá ski, e que, se os senhores que podiam ter feito diferente, tivessem feito diferente, as coisas podiam ter sido diferentes, eu não devia aqui trazer bombeiros.


Por isso, aceitem, para já, as minhas desculpas. Não quero ferir susceptibilidades. 

Mas a sério: não sei se aquele relatório pode ser levado muito a sério. Também é certo que apenas ouvi o abstract que a televisão passou. Mas, disso, basicamente, fiquei com a ideia de que tudo espremido, bem vistas as coisas, face às circunstâncias, naquele dia tenebroso, não era fácil fazer diferente. No entanto, confesso, apanhei-o meio de raspão -- e pensei que, depois de  um intróito enrolado, ele ia encher-se de brios e chutar à baliza. Mas não, a coisa acabou assim mesmo, meia ensarilhada. Dá ideia que a GNR não fez nada de mal, só alguém é que podia ter feito diferente mas que, se calhar, não era fácil fazer diferente. E esse alguém parece que é o da Protecção Civil mas, para dizer a verdade, do que ouvi, não fiquei certa disso.

Portanto, no meio de um texto cheio de ambiguidades, cá temos mais um banquete de carniça para os urubus da comunicação social e para os amorins desta vida que têm ali muito por onde chafurdar e encontrar novos pretextos para moer a cabeça ao Costa, a ver se é desta que ele despacha algum ministro. Namely a Constança, pois então. 


Mas isto para dizer que, a bem do equilíbrio emocional dos meus Leitores que deveriam ser deixados como estão, postos em sossego -- ora indignados com o senhor comandante que fez o milagre de suspender a fita do tempo, ora chorosos porque o Costa é teimoso como um burro e não deixa cair os ministros, quanto muito o tal da Protecção Civil (que, no meio de tanta coisa, já não sei se é o doutor por equivalências, ou outro qualquer) -- apareço eu aqui hoje com o bombeiral quase em pelota. 

Mas pode alguém ser quem não é?


Não pode. E, sendo eu como sou, e depois da subversão artística do post abaixo, o que me apeteceu trazer aqui foi a temática do aproveitamento sexual por parte dos produtores de moda ou de publicidade.

Uma coisa inadmissível. Mamocas, rabiosques. Fantasias sexuais que não se aguentam. Repudio. 

Coisas desse género só em sentido contrário... Aí, com franqueza, parece-me muito bem. Especialmente, porque sei que os homens gostam. Na verdade, acho mesmo que gostam de tudo.


Especialmente gostam de saber que despertam alegrias (de toda a espécie) nas mulheres. Só de pensarem nisso já ficam eles todos animados. 

Tratados como animais de estimação? Como mobília?... Nada de mais. Sempre às ordens. Todos nus? Porque não? Melhor ainda se as mulheres a quem querem agradar estiverem sem roupa interior. Objectos? Seja. Usem-nos a ver se eles se importam.


E mais, ponham-lhes uma quase mulherzinha à frente a ver se eles se importam. Mulherzinha ou humanóide, tanto faz. Desde que bem instruída (em sentido lato, if you know what I mean), no problem

Sophie ficava melhor se não tivesse os neurónios à vista? Oh pá, que importância tem isso? Enfia-se um saco que lhe tape o cocuruto e não se fala mais nisso.

Sophie num encontro sobre Inteligência Artificial e Desenvolvimento Sustentável
(Dá ideia que disse alguma piada que deixou o cavalheiro da esquerda todo surpreendido)

E mais não digo para não ficarem a pensar que não estou é boa da cabeça. 

Mas pronto. Se calhar estou assim, com as ideias meio desorganizadas, porque vi um excerto da conversa do Vai-Estudar-ó-Relvas a quem a SIC foi buscar porque deve estar com falta de gente que queira dar a cara pelo partido. Disse ele, com aqueles seus olhos argutos, que, se interpretar que muita gente prefere o Santana, então ele também, na hora certa, o vai preferir. E disse isto não com ar de maria-vai-com-as-outras mas, sim, com ar assertivo, de quem a sabe toda, de barão escolado. E o jornalista, aquele que parece que depois de entrevistar tanto saco de vento também já só tem ar na cabeça, não se desatou a rir. E o Relvas está com aquela barba que alegadamente lhe dá uma patine mas que, na verdade, não dá coisa nenhuma, só nos faz perceber que se está a sair bem nos negócios. 


E, com isto tudo, deu-me para escrever este post que é a verdadeira negação do que deve ser um post como deve ser. 

Mas é aquela tal coisa: pode alguém ser quem não é? Não pode. E eu sou a verdadeira anti-Relvas e, quando ele aparece, fico logo cheia de erisipela e a erisipela a mim dá-me para isto, para desconversar.

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Ah... que saudades do Relvas a cantar... Volta, Relvas, volta que estou capaz de te perdoar


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Os bombeiros estão um bocado longe para quem queira testar os seus dotes ao vivo: são australianos e aparecem no Calendário 2018. O gif lá de cima mostra uns de outro ano, não sei qual. Mas ainda bem conservados, benza-os deus.

Os homens objecto aparecem na polémica campanha Not Dressing Men

O Relvas feito Einstoino é obra do fantástico We Have Kaos in the Garden


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E queiram continuar a descer porque abaixo é arte desconstruída, digamos assim, e uns apontamentos recordatórios que metem a Nelinha.

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