Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, agosto 23, 2017

A Secretária de Estado Graça Fonseca, em entrevista a Fernanda Câncio no DN, assume a sua homossexualidade.
E eu, no Um Jeito Manso, assumo a minha heterossexualidade.
E a minha miopia e calçar o 37 (e, no caso dos sapatos de modelo apertado, o 38) e o gostar de iscas e de gostar de escrever e ser dextra e mais umas quantas coisas.
So what...?





Logo no Duas ou Três Coisas eu percebi que devia haver coisa. Dignidade e a fotografia da Secretária de Estado Graça Fonseca e mais nada. Já tinha visto a entrevista no DN mas muito por alto. Fui ver com mais atenção. Então era aquilo? Tinha-se assumido publicamente como homossexual e isso era visto como um acto de coragem ou de dignidade. Depois foi o Eduardo Pitta no Da Literatura, escrevendo Honra a Graça Fonseca.  Diz sentir orgulho e agradece-lhe.


E eu fico até um bocado incomodada porque na primeira vez que vejo uma entrevista a esta senhora que exerce funções governativas, e a entrevista até é interessante e ela até parece ser uma mulher consistente nas suas ideias e atitudes, tudo o que ela diz parece ser canibalizado por um facto que é da sua vida pessoal, coisa com que ninguém tem nada a ver e que, de repente, parece a coisa mais importante de tudo.


É como se eu, que escrevo aqui que me desunho, que aqui falo do que gosto e do que não gosto, que ficciono, que mostro fotografias minhas ou alheias, partilho músicas e o escambau, de repente fosse falada apenas porque calhou revelar que calço o 37. Caraças. O que é que o tamanho dos meus pés teria a ver com o que é feito aqui no blog? O blog pode ter piada ou ser uma estucha mas é pelo que é e não pelo facto de eu calçar o 37. O meu pé é o que é, fazer o quê?

Claro que não posso fazer-me de extra-terrestre pois sei que, para muita gente, uma pessoa ser homossexual ainda é um aleijão para o qual se olha de lado. Mais: sei que algumas pessoas que, pela sua natureza, o são não o assumem por receio do estigma social. Mais: sei que essas pessoas, para disfarçarem, são das que mais gozam e mais anedotas contam sobre gays. Mais: sei como se pode passar uma vida inteira a fazer-se de conta que se é hetero, casando, tendo filhos, forjando uma inclinação que notoriamente não é a sua. Sei. Sei e lamento.
É que, caraças, se a pessoa não é capaz de agir de acordo com a sua natureza e estraga toda a sua vida apenas com receio da opinião alheia, que podemos sentir por ela senão pena...?
Claro que ser homossexual é estar em minoria. Mas estar em minoria não significa ser marginal, pôr-se a jeito para ser escorraçado ou gozado, ou ser desprezível. Significa apenas isso mesmo: a maioria das pessoas tem preferência pelo sexo oposto e eles, os homossexuais, uma minoria, preferem parceiros do mesmo sexo. Nada de mais nem de menos. Nada de mal nem de bem. É o que é. 

Sou como sou e não preciso de coragem para me assumir assim mesmo. E isto deveria ser o normal para toda a gente. Gordos, magros, feios, bonitos, cabeludos, carecas, canhotos ou dextros, narigudos ou narizinhos, comilões ou fuinhas, habilidosos de mãos ou uns pés, sorridentes ou carrancudos, brancos ou pretos, homo ou hetero, sensíveis ou calhaus, inteligentes ou broncos -- todos são seres de direitos iguais e todos têm direito a fazer parte, por igual, deste habitat que é o nosso.

Graça Fonseca é homossexual e a verdade é esta: estou-me nas tintas para isso. Que seja competente na sua função é o que me interessa. Quanto ao resto, é lá com ela e que seja feliz. Se a revelação pública da sua orientação sexual for um incentivo para quem viva vidas de mentira, pois tanto melhor. Mas, ora bolas, não nos foquemos na sexualidade das pessoas como se isso fosse o factor principal da sua identidade nem negligenciemos as qualidades que têm, em especial quando exercem funções públicas.


Entretanto, vejo que o assunto saltou para outros jornais e que as redes socias, especialmente as ligadas às comunidades LGBT, estão ao rubro, como quando um elemento de uma agremiação ganha uma medalha e há festa rija. Não sei, não. Olho para estas reacções com algum desconforto. Muitas vezes parece-me que são estas associações que cultivam o gheto ao auto-tratarem-se como pessoas diferentes, com direito a atenção especial. Tal como eu não tenho orgulho em ser hetero, por que raio de carga de água é que um homossexual há-de sentir orgulho em sê-lo? Esforçou-se por isso? É mérito seu? Ou é porque é e porque não pode senão ser -- e ponto final...? 

Tenho uma colega que é lésbica e que, na sua vida pessoal, vive como tal. Profissionalmente nunca o revelou e eu serei das poucas, senão a única, a sabê-lo. É uma excelente profissional e em momento algum me passa pela cabeça que seja relevante ela assumir-se como tal perante os colegas, tal como em momento algum me passa pela cabeça ajuizar o seu desempenho profissional em função da sua orientação sexual. Não faço ideia o que pensará ela deste fuzuê em torno da entrevista da Graça Fonseca. Provavelmente pensa o mesmo que eu, que a Secretária de Estado foi revelar uma coisa sobre a qual ninguém tem nada a ver. Mas imagine-se que lhe dava uma travadinha e, inspirada pela dita Graça Fonseca, aparecia no trabalho a dizer: 'Oi, meus amigos, querem saber a melhor...? Sou lésbica.' Disparate. O que é que a malta lhe haveria de dizer: 'Ah, sim..? Pois, que lhe faça bom proveito'. 


E é isto. Nada mais tenho a dizer. Só que espero que apreciem algumas evidências artísticas de que a homossexualidade existe desde sempre (desde Michelangelo a Courbet, passando por muitos outros, suas as obras estão aí para o testemunhar -- e isto para não descer às profundezas da Grécia Antiga, de Roma e de tutti quanti)

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Olha... desci.
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Sobre os cavalos azuis que passam aqui in heaven falo no post que se segue.

Sobre uma bola de pedra tatuada, falo ainda mais abaixo.

Em ambos os casos falo, de novo, do meu dia como camponesa-lenhadora -- e não só.

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Cavalos verdes não vi. Mas azuis, sim. Estavam ao pé dos que dançavam em roda, todos nus.



As árvores crescem de forma pouco compreensível. Se eu descrevesse o que aqui se passa poderiam pensar que estava a arremedar o realismo mágico de alguns escritores sul-americanos. Mas Acreditem: prodígios a acontecerem de dia para dia, aos nossos olhos. Gostava de vos mostrar como era, vai para cima de vinte anos: uma pedreira a céu aberto em parte coberta por mato rasteiro. Agora um bosque, árvores gigantes. Não se percebe até onde onde vão estas árvores crescer. E reproduzem-se como coelhos (que aqui também os há): aparecem pinheiros, azinheiras, aroeiras, giestas, arbustos novos por todo o lado. E num dia estão a despontar, passado pouco já estão esgueirados por aí acima como adolescentes espigados.

Mas é tudo. O alecrim ganha um tamanho como nunca vi. A madressilva agiganta-se, faz moitas surpreendentes. As videiras trepam pela grande ameixeira e dos ramos altos desta pendem gigantes cachos de uvas.


O meu marido queixa-se: 'Não se dá conta disto'. Eu não me queixo. Presencio um milagre e abençoo a sorte que tenho por me ser dado viver um tal fenómeno. Claro que temos um trabalho imenso pois, para que a natureza não nos devore, temos nós que tentar controlá-la. O meu filho, no outro dia, pasmado com o crescimento das árvores desde a última vez, assustou-se: 'A natureza vai vencer'. Não creio porque estamos cá para lhe dar luta.


Braçal, tudo. A ver se encontramos a motosserra que queremos, que nos ia ajudar bastante. E estamos em dúvida sobre um triturador. Mas, para ser em conta, é eléctrico e não daria lá em baixo. Não faz sentido estender dezenas de metro de fio nem estar a trazer as coisas cá para cima. Portanto, o triturador está interrogado. 

Ao fim do dia, o cheiro a madeira cortada, o cheiro dos pinheiros ao entardecer, a rama aparada dos cedros, tudo me parece mágico. 


Revivo aqui, rejuvenesço, transformo-me. 

Quando falei com a minha filha, ela percebeu pela minha respiração que eu estava a meio da labuta e avisou: 'Daqui por uns dias nem vais conseguir mexer-te'. Bati três vezes num tronco de madeira e disse-lhe que so far, so good. Admiro-me com a minha resistência mas não posso atirar foguetes. De facto, pode acontecer que, daqui por uns dias, o meu corpo se ressinta porque, desta vez, o esforço está a ser bem maior.


Os pássaros cantam muito ao fim do dia. Devem estar abrigados do calor durante as horas de sol e, quando vem a noitinha, é ouvi-los num chilreio feliz. Eu também. Passeio, olho o céu, as árvores, fotografo, atraso a hora de vir para casa. 


Depois tomo um belo banho, ponho betadine nos arranhões (ao contrário do meu marido que se protege, eu ando sem luvas e de biquini; não é para fazer género, claro, mas é que não suporto o calor; felizmente não se vê da rua, senão, vestida, nem sei como me aguentaria), e vou jantar (o jantar são geralmente sobras do almoço, saladas, queijo, fruta).

Só depois ligo o computador. Mas, como abaixo já vos contei, ainda tenho trabalho para fazer e, portanto, este post, tal o que poderão ver abaixo, sobre a bola de pedra tatuada, são um mero amuse-bouche.


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Ontem, ao falar do bosque que é nosso filho, dizia que, para ser melhor só se visse passar, por entre as árvores, cavalos verdes. Daí o título deste post.

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Não são verdes, mas são azuis os cavalos que, por aqui, vejo. E andam entre o verde, no campo, e não no mar.


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E queiram continura a descer, caso vos apeteça continuar in heaven.

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Até já.

(Queria falar da entrevista da Graça Fonseca e das reacções mas, bolas, vi agora que a Estrela Serrano já me tirou as palavras da boca. Por isso, não sei se ainda falarei disso. Já vejo)

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Uma bola de pedra tatuada. Ou rendilhada, para condizer com os bailarinos.
Dance me to the end of love





Tenho algumas coisas para dizer mas como também tenho que fazer umas aprovações e enviar uns mails, ainda não sinto as mãos soltas para viajarem livremente sobre o teclado. É o que vos tenho dito: parece que apenas me sinto disponível para escrever quando todos os meus afazeres estão despachados. Deve ser aquilo de primeiro as obrigações e só depois as devoções. Parecendo que não, a matriz cultural de uma pessoa tem alguma importância.

Também tenho que me ir pôr mais à fresca que, há bocado, pensando nós que já estávamos aqui no nosso refúgio longe do mundo, ouvimos um barulho lá fora. O meu marido, com um big pau na pão, foi fazer uma ronda. O cão da casa lá do fundo, do outro lado da rua, só a ladrar. Fiquei dentro da casa, com o telemóvel na mão e procurei o número da GNR. Depois regressou, não viu nada. Passado um bocado, tocam à campainha no portão. Intrigados com aquilo. Visitas à noite num lugar destes, no meio do nada? Fui vestir-me. O meu marido foi ver ao portão. Era o vizinho do início da rua que vinha a pé, também com um grande pau na mão, da fazenda que tem lá em baixo. Passando pela nossa casa, resolveu vir saber se o canalizador que nos arranjou cá tinha vindo. Pois não. Disse que vinha de tarde para arranjar uma torneira em casa e ver o que é necessário para pôr uma torneira para mangueira na rua, lá do outro lado, para as bandas da capela. Com isto dos fogos, todos os cuidados são poucos. Mas não apareceu.

Portanto, agora, tenho que me ir desenfarpelar que isto aqui tem outra coisa: se se abrem as portadas para entrar o fresco, a luz atrai as melgas. Portanto, está calor. Também tenho que ir ligar a coluna refrescante. O meu marido está a ver futebol, nem dá pelo calor. 

Mas, antes disso, ainda quero dizer outra coisa. Portanto, até já.

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terça-feira, agosto 22, 2017

Verde, que yo te quiero verde.
Ode a um certo green god, quiçá a comer figos.
E outras coisas verdes igualmente indecentes. Ou talvez não.




Não sou de ter preferências. Se me perguntam qual o autor preferido, não sei dizer. Acho que nem tenho que saber porque o que é melhor varia com o tempo e com as circunstâncias e tantas vezes desvalorizei o que, anos mais tarde, me fez cair de joelhos perante a elegância e surpresa da sua escrita. Sobre o compositor preferido, também não sei. Se disser um, di-lo-ei por desfastio, para não ficar calada. Mas estarei bem ciente que estarei a ser vulgar. Bach, por exemplo. Di-lo-ia só por dizer porque, para mim, há outros, tanto como ele. Ou o livro da minha vida. Não tenho. Tenho montes deles. Ou o beijo que não esquecerei. Tantos. Incapaz de escolher só um. Ou um sunset especial. Tretas. À sua maneira, são todos especiais. A canção da minha vida? Que pergunta fajuta! Os casais parece que costumam ter uma. A mim não me ocorre nenhuma em especial. Talvez algumas mas qualquer delas por razões inconfessáveis pelo que, para isso, mais vale estar calada. Um prato? A mesma coisa. Para mais, sou de boa boca. A árvore preferida. Está bem, está. Umas por isto, outras por aquilo. E para quê escolher uma se andar num bosque é dos maiores prazeres que há? E se o bosque tiver nascido das nossas mãos? Ah, que prazer tão absoluto. Eu, mãe de um bosque. Para ser ainda melhor, só se por ele passassem cavalos verdes. Ou nele habitassem pássaros verdes que tocassem harpa ao entardecer. Ou um blog? Ou um blogger? Não posso dizer. De uns gosto disto, de outros daquilo e de uma pequena minoria gosto de tudo mas dificilmente saberia dizer porquê. Não digo, portanto. 


Uma cor preferida, claro que também não sei dizer. Penso logo em encarnado porque toda eu sou paixão mas, se o pensamento durar muito, sou capaz de começar com derivações. Talvez mais do que paixão, a sedução. E qual a cor da sedução? O silky dark and hot rosa, com shadows em suaves tons secretos? Qual a indizível cor do mistério? Nao sei. Direi, então, talvez o branco que é puro, limpo, simples, a origem de tudo. Mas sou também capaz de dizer azul, ou porque me apeteça nele mergulhar, ou deitar-me sobre ele, blue velvet, as mãos a deslizar no macio, ou o olhar a buscar o infinito que é azul, cada vez mais azul, mais atraentemente intangível. Ou a luz do amarelo, o amarelo feliz, a alegria de todas as formas de amarelo, ouro, terra quente, ameixas carnudas e amarelas, o sumo doce a escorrer-me da boca. E o verde, verde que te quero verde, os bosques, os musgos, os fetos, o verde que me rodeia e impregna.


Penso em verde e ocorre-me em simultâneo o Green God e o Tyson Ballou (e que me perdoem as tias da gramática das cinco que não suportam uma fotografia de um homem prosaico no meio de um poema mas é por demais sabido que aqui, neste salão, homens carnais são bem vindos; e se quase desnudos tanto melhor)


Trazia consigo a graça 
das fontes quando anoitece. 
Era o corpo como um rio 
em sereno desafio 
com as margens quando desce 



Andava como quem passa 
sem ter tempo de parar. 
Ervas nasciam dos passos, 
cresciam troncos dos braços 
quando os erguia no ar. 

Sorria como quem dança. 


E desfolhava ao dançar 
o corpo, que lhe tremia 
num ritmo que ele sabia 
que os deuses devem usar. 



E seguia o seu caminho, 
porque era um deus que passava. 
Alheio a tudo o que via, 
enleado na melodia 
duma flauta que tocava. 

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Os dias vão quentes e eu, no meu primeiro dia de férias de verão, desbastei árvores, abri espaços de estar entre bosques que se se tinham adensado. Penso que os meus braços têm a força de um lenhador. Serro grossos troncos, sinto o odor que se desprende da madeira enquanto os serro, olho e vejo a elegância das árvores depois de retiradas pernadas que encobrem caminhos. E não me canso.

Já perto da noite, passeei por entre pinheiros, cedros, aroeiras, azinheiras. Ia satisfeita com o tanto que tinha trabalhado e o tanto que tenho ainda para fazer. 


Enquanto passava silenciosa, de uma árvore, um rumor, um bater de asas, a folhagem num sobressalto, e um grande pássaro, talvez uma rola, levantou-se e voou quase à altura das minhas pernas. Branca e cinza platinado, uma ave distinta. Também encontro muitos bichos pequenos, talvez pequenas lagartixas. Ontem à noite coloquei os restos da corvina cozida do jantar com alguns restos de batata doce, num dos canteiros perto de casa. Hoje nada. Espero que tenha sido a mamã gata branca e o filhote branquinho que sobreviveu. Ontem ouvi um miado muito ténue e fiquei preocupada. Tanto calor para um gatinho sobreviver. Deixei um recipiente com água.

Os figos, com tanto calor, estão a amadurecer depressa demais. Indecentes de tão doces. Nem crescem, tanta a pressa de agradar. Oferecem-se. E eu aceito o convite.


As uvas estão quase boas. Passo por uns e outras e, como um pássaro, vou debicando. Mesmo morna a fruta, tanto me faz. Aos figos, como-lhes até a pele. Não sigo a etiqueta. Não abro em quatro, pétala a pétala. Não. Gosto muito de figos, muito, muito. Por isso, não condescedo na deferência. Bicho-animal mesmo. Também gosto de uvas e de todas as frutas, mas os figos são especiais. São os figos e as memóras que trago deles. Há neles uma carnalidade que me agrada e que vem de muito antes.
[O acúcar da fruta há-de trazer-me o peso que perdi, mas, com trabalho tão árduo, talvez compense. Aqui, felizmente, não tenho a balança que não me deixa pôr o pé em ramo verde.] 
Verde que te quero verde. 


Hanging cabinets: detail of a naked figure -- Duilio Cambellotti 1912


Figos verdes e dourados por dentro ou verdes com a carne roxa ou escuros por fora e apenas doces por dentro. Tenho-os aqui de todos. Pingo de mel. Do olhinho, escorre, brilhante, o suco do fruto.

[E as tias-beatas e literatas que se benzam de novo que mais uma heresia está para entrar, fazendo eu minhas palavras alheias: D. H. Lawrence, em Women in Love, descreve a forma como se come um figo. E eu, depois de descrever a forma gulosa como os como, nem aqui deveria pôr isto, pois ainda alguma mente perversa me atribui tendências que não me assistem. Mas, a bem da literatura e da cinefilia, aqui fica
The famous "fig" scene from Ken Russell's 1969 film "Women in Love," adapted from the 1920 D.H. Lawrence novel. 
The explicit sexuality and eroticism of the film (including nude love scenes, male frontal nudity and homoerotic wrestling) broke new ground and challenged long-held cinematic taboos about depicting sex on celluloid. 
In this clip, Alan Bates as Rupert Burkin compares a fig to a woman's vagina, describing the "proper way" to eat it before shocking his audience by "taking out the flesh in one bite," or, the "vulgar" way. ]



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As fotografias foram feitas in heaven

(A do Tyson Ballou é que não é minha porque não o apanhei por cá. Senão a ver se também não o fotografava, ai não, não.)

Lá em cima Ana Belen y Manzanita interpretam Verde que te quiero verde, poema de Federico García Lorca

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E queiram seguir para o vermelho molhado do tomate do post abaixo.

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Olha... tantos tomatinhos...!


Contei-o na altura: estávamos a preparar a janta. Eu estava a fazer umas coisas, depois interrompi para deitar um olho ao mais velho que estava a tomar banho sozinho enquanto a minha filha ficou a tratar da salada, depois ele foi para o quarto para se limpar e vestir e a minha filha foi para a casa de banho, ajudar no banho do mais novo.

Voltei à cozinha e, vendo uma tigela com os tomates cherry, de lá gritei à minha filha: 'Olha lá, lavaste os tomatinhos?'.

Para nosso espanto, acto contínuo, responde o pimentinha mais velho lá do quarto: 'Claro!'

Desatámos as duas numa risota e ainda hoje, quando vemos 'tomatinhos', nos rimos.

Lembrei-me disto (confesso que a despropósito) ao ver, no The Guardian, a fotografia abaixo, uma fotografia magnífica. Explico o que é, transcrevendo:
Villagers put tomatoes under the sun, creating a blanket of deep red, to dry them in Hejing county in the Mongolian autonomous prefecture of Bayingolin. (Photograph: Xinhua)

Estamos na altura do tomate maduro e eu, que sou uma meditarrânica dos quatro costados (apesar de ter um avô que parecia nórdico e de um outro que sempre achei que tinha uns certos traços asiáticos), gosto de o comer de todas as maneiras: em salada com cebola temperada com azeite e orégãos, em sopa de tomate, em ovos mexidos com tomate, em arroz de tomate, em ensopado de enguias e sei lá que mais.

E se gosto de ver campos de tomates ou ir atrás de atrelados cheios de tomates... Lembro-me também do meu avô cultivar tomates alongados, uma coisa meio rara naquela altura, e entrelaçar com a rama umas résteas que não eram de cebolas ou alhos mas de tomates, que ele deixava suspensos numa casa pouco iluminada que havia no quintal e onde ele guardava alfaias, cebolas, alhos, batatas e onde tinha também as galinhas a chocar ovos. Lá se aguentavam os tomates ao longo de meses, tendo nós tomates frescos e maduros todo o ano. Também o meu pai, quando lhe deu para ter uma horta, entusiasmo que não durou muito, cultivou uns pés de tomateiro nuns canteiros. Armava-os com umas canas fininhas, tal como armava os pés de feijão verde. E eu gostava de ver as frutinhas a crescerem e gostava de os ir apanhar para sentir aquele belo perfume. Ainda hoje, se compro tomate de rama, quando os arranco, cheiro-os para ver se trago de volta aquele perfume tão bom dos tomates recém-apanhados.


Claro que, apesar de gostar imenso de tomate, não gosto a ponto de me imaginar mergulhada num banho deles como acontece em Espanha, Buñol. Mas, enfim, vendo a alegria dos banhistas completamente tingidos pela bela cor da tomatina não posso dizer que daquele sumo não beberei.


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E, por falar em encarnado (e já nada a ver com tomates, claro está), que entre a música do mestre Ernesto Lecuonano colada ao corpo do casal do Grupo Corpo que aqui interprta uma coreografia de Rodrigo Pederneiras




Ou o Encarnado da bela trilogia de Kieślowski


E os belos rouges de chez-moi ao  pôr-do-sol


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E uma bela terça-feira a todos quantos por aqui me acompanham

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segunda-feira, agosto 21, 2017

"Coisas de pele", cenas maradas, canja com patas de galinha, um cheiro a fumo no ar, o céu como que em fogo, o Henrique Monteiro que não atina, o Expresso que já era. E etc.




Mais um dia daqueles. Íamos para comprar uma coisa essencial, não havia, esgotado. Depois foi o mesmo programa dos últimos dias, com a diferença de ter sido em dose dupla. Depois de volta a casa. O meu marido já lá estava depois de um programa excatamente simétrico.

Arrumámos as coisas e pusemo-nos a caminho. Felizmente em boa hora decidimos ir aos gelados da Avenida de Roma. Salvou-me o dia aquele belo gelado de kumquat, a laranjinha ali toda, a casquinha e tudo. E o que eu gosto de doces com casquinha de laranja. 

Depois, já em marcha e sem necessidade de meter combustível, vá lá saber-se porquê, o meu marido resolveu entrar na na estação de serviço. Atestou. Quando íamos sair, tudo engarrafado. Um acidente no acesso à auto estrada. Não percebi como mas, ao passarmos pelo carro já em cima do reboque, vi como ficou danificado. Do que vi, um único carro. A verdade é que tamponou a saída da estação. Séculos ali parados, um mar de carros. 


Chegámos já anoitecia. Com fome, que o programa de festas mal tinha dado para almoçar. Pus logo o jantar ao lume e saí a fotografar o sol já posto. A serra envolta em azul, o céu cor de fogo, as árvores recortadas sobre a paisagem, quase apenas a silhueta. Numa árvore um pássaro cantava muito alto, um canto extraordinário, como o de alguém que se acha sem testemunhas, cantando Verdi no duche. 

Já nem fica bem dizer que estou cansada, para além de que a minha filha já me avisou bem avisada: não faz sentido, ninguém obriga a escrever, o cansaço cura-se com descanso, não com escrita. Mas, em abono de mim, direi o lugar mais comum de que há memória: cada caso é um caso. E o meu é este e é isto: um caso perdido.

Entretanto, tenho ainda que mandar um mail de trabalho e vai ter que ser na base do mandar brasa, uma coisa mesmo na base de lhes pregar um susto, a pensarem que, nem que momentaneamente, se iam ver livres de mim e afinal que nada, ela aí está e, como sempre, ao ataque. Parece que tenho um radar. Toda a gente a louvar, um ás, merece mais do que já tem, antes que a concorrência lhe faça uma proposta mais vale a gente segurar -- e eu, sem provas, só faro, a achar que aquele ali não me cheira. Cada coisa que diz, já por dentro de mim tocam todas as campainhas. Contam-me feitos e eu, feita embirrante, a achar que nada daquilo bate certo. Dizem-me como que para desculpar a minha irracional aversão: 'uma questão de pele'. Insurjo-me: pele nada, desconfiança pura e dura. Avisam-me: cuidado, não se podem fazer acusações com base em coisa nenhuma. Digo: não acuso coisa nenhuma, apenas não confio, ali há coisa. Até que, inesperadamente, talvez excesso de confiança, a pessoa revela uma intenção. Coisa feia. Diz que era hábito, que já aconteceu. Querendo desculpabilizar-se, enterra-se.


Tem mais. Acima dele há um. Meu par. O maior. Um herói. Medalhado. Feitos, feitos, ultra feitos, um homem de sucesso. E eu digo: são iguais, ele e o outro, iguais. Dizem-me: não seja assim, olhe que não, é mesmo o maior. Dou o troco: em nada do que ele diz eu acredito. Avisam-me de novo: cuidado com o que diz, não tem provas. Confirmo: provas não tenho mas tenho certezas.

E, de repente, as desconfianças parecem materializar-se. Começam a dar-me razão. Não me basta.

No fim da outra semana, outra coisa que não me cheirou bem. Pedi a outros algumas informações. Quero cruzar. E agora vai um mail a confrontar. Mas não a confrontar de qualquer maneira porque não pode ser pega de caras. Tenho que ter elementos e vão ser eles a entregar-mos. Vai, portanto, de cernelha, com jeitinho, para nem perceberem que estão num processo em que vão denunciar-se. Ou melhor, para ficarem inquietos, para sentirem que vão ser apanhados. 

Se há coisa que não tolero é a desonestidade, mesmo que apenas intelectual. Tolerância zero. Gente burra é difícil de aturar mas a gente faz um esforço, coitados, não nasceram favorecidos. Gente parva também não é fácil mas a gente tenta contornar. Agora gente pouco séria eu não suporto mesmo. 

Tirando isto do mail que vai já a seguir, tenho o forno para desligar que tenho um frango a assar para com ele amanhã fazer uma salada fria. Com os miúdos do dito, mais a parte de dentro, as patas e as asas do dito frangão do campo também já fiz também uma canja que não é bem canja porque cozi junto uma cebola, um pedaço de abóbora, uma cenoura e um chuchu. Amanhã trituro os legumes e faço um caldo espesso como base da canja. Devia lá ter escalfado um ovo mas esqueci-me. Também não é preciso, já tem proteínas que cheguem. A nutricionista disse: para ter boas articulações, nada como a gelatina natural. Faz canja e põe as patas? Desatei-me a rir: credo, gosto de canja mas não ponho as patas. E ela: ponha. Devia até fazer um caldo com muitas patas e depois congelar em porções para ir misturando na comida. Esse caldo tétrico ainda não fiz mas agora, quando faço uma canjinha ou um guisadinho, junto as patas do frango quando é do campo. Se calhar é tanto do campo como eu mas deixa estar, tenho esta fé.


Esqueci-me de dizer que há outra vez um cheiro a fumo no ar e, já a noite tinha tombado, passou um helicóptero. Mas vimos no site dos fogos que não há nada aqui perto. Portanto deve ser o fumo de bem longe que está a ser trazido. Coitadas das pessoas que têm tido estes tremendos braseiros à sua porta. E corajosos bombeiros que não têm tido descanso. O que me deixa perplexa é o retrato de alguns incendiários. Uma coisa na base dos Twin Peaks, gente aparentemente normal e, na volta, lá no meio, alguns verdadeiros psicopatas. Hoje soube daquele com 78 anos que já tinha pegado ou tentado pegar uma meia dúzia de fogos e que, quando apanhado, não apenas confessou como tentou subornar os polícias. Acham isto normal? Ou a outra marmanjona que estava piursa por ter sido preterida pelo namorado e, para afogar as mágoas, não arranjou melhor do que meter-se nos copos e, quando bem bebida, pegar um fogo. De loucos, isto.


Não sei que coisinha má me deu mas ontem, para ler no carro, comprei o Expresso. Logo me arrependi, claro. Se amanhã me der para isso, passo-o aqui em revista para fundamentar a decisão acertada de não querer saber daquilo para nada. Penso que é o doente do Henrique Monteiro que atira as culpas dos fogos postos para a pobre da ministra Constança. Quanto muito atirava-as para o ministro da Saúde que tanta gente com pancada desta, da grossa, é mas é um mal de saúde pública. Caraças.



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Depois das minhas faenas que se seguem, talvez ainda cá volte. Isto se não cair para o lado, claro. 

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Entretanto, depois da boa acção acima referida e das minhas obrigações culinárias, deixei-me estar a ver o Adore na RTP 1 (Paixões Proibidas, na versão traduzida), e, claro está, agora já ninguém me apanha a fazer rapapés bloguísticos que o adiantado da hora e o estado de espírito não dão para tal.


Desejo-vos, pois, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, agosto 20, 2017

Fotografar
-- desenhar com luz e contraste --





Este sábado foi, então, Dia da Fotografia. Não sabia que havia tal dia mas, afinal, porque não haveria de haver se há um dia para cada coisa?


Não sei se as rádios e as televisões deram a notícia. Se deram, certamente ficaremos  a saber que, para além de metade da população ser diabética, dois terços terem problemas mentais, três quartos padecerem de alergias, setenta por cento terem problemas de pele, e etc (tudo coisas que ficamos a saber nos respectivos dias), também oito nonos da população se dedica à prática da fotografia. Ou seja, há forte probabilidade de que algumas pessoas sejam simultaneamente asmáticas, diabéticas, depressivas, autistas, canhotas, carecas... e fotógrafas. Não é, felizmente e tanto quanto sei, o meu caso. Acho que não sou nada disto. Contudo, gosto muito de fotografar.

O meu primeiro contacto com a fotografia foi através de uma máquina que o meu pai tinha. Uma Kodak, um dos tais casos citados quando se refere o caso de marcas que têm tal relevância que passam a dar o nome ao produto. Fazia muitas fotografias, ele. Gosto especialmente de ver as fotografias de quando eram jovens, um grande grupo de amigos que passeavam juntos. Tinham um ar moderno e elegante. Depois, quando nasci, passou a fotografar-me e a ideia que tenho é que passou a ser esse o seu único foco de atenção a nível de fotografias. Provavelmente também porque, tendo quase todos eles arranjado família, deixaram de passear tanto em conjunto e desapareceu a ocasião para aquelas fotografias. Não sei. 

Assim que tive voto na matéria quis eu ter uma máquina.

Quando íamos de excursão, já era eu que levava máquina e fotografava os meus colegas. Estou a lembrar-me de nós na Serra da Estrela. O meu namoradinho da altura fotografou-me. Ele era o mais maluco e talvez por isso eu gostasse tanto dele. Eu tinha uma camisola encarnada tricotada pela minha mãe e um gorro igual e os cabelos compridos espalhavam-se pelos ombros e pareciam iluminados por luz que só ali se via já que o resto da paisagem era branca. E os meus colegas, que fotografei, aparecem abraçados, a rir, uns a fazerem cair os outros. Andávamos em pequenos trenós, brincávamos a escorregar, caíamos, ríamos. É engraçado como se vê pelos rostos que fixei no tempo quem haveria de vir a transformar-se em adulto sisudo e quem haveria de permanecer divertido e jovial.

Gostava de ter fotografias de quando fomos ao Gerês mas, nessa altura, já era namoro mais a sério, não me sobrou motivação para fazer reportagens. Só tinha olhos para um mas estava a ser disputada por outro e, portanto, foi uma excursão emocionalmente intensa. À chegada, franca como sempre fui, contei aos meus pais algumas dessas peripécias e o meu pai ia-se passando comigo e com a minha mãe, já que tinha sido uma guerra para me deixar ir, ele querendo preservar-me dessas 'cenas' e a minha mãe não querendo causar-me o desgosto de me impedir de ir. Nem uma fotografia desse passeio tão bonito e tão marcante.

Mais tarde, já casada, um dia o meu sogro apareceu-nos com uma máquina extraordinária. Tinha ido lá ao escritório alguém com uma máquina russa e ele lembrou-se de a comprar para nós. Já não me lembro exactamente das circunstâncias. Ele trabalhava na Baixa e a ideia que tenho é que, volta e meia, gente dos navios que ali atracavam vendia coisas do género. Mas a esta distância já não sei dizer mais que isto. Era uma Zenit. Tinha uns truques e fazia umas belas fotos. Pesava que se fartava. Foi uma descoberta. Passei a não poder passar sem fotografar.

Quando nasceram os meus filhos, foi uma festa. Fotografias, diapositivos (agora que escrevi diapositivos não me lembro se era este o nome) aos milhares. Mas não os fotografava apenas a eles. Na realidade, o fascínio pela atenção aos pormenores ou a uma forma diferente de ver foi alargando os meus interesses. Para onde quer que fossemos, eu ia impreterivelmente com a máquina. Nessa altura ainda a fotografia não era digital. Tínhamos que comprar rolos, escolher a velocidade, a definição. Depois tínhamos que os mandar revelar.

Depois vieram outras máquinas, as lentes compradas à parte, criteriosamente escolhidas pelo meu marido. Havia uma loja em Alvalade, íamos lá muito. Tenho ideia que ele conhecia o dono, discutiam modelos, mandavam vir de fora. E era lá que deixávamos os slides para revelar -- iam para a Agfa na Alemanha e depois recebíamo-los em casa, por correio.

Mais tarde passámos a revelá-las em casa. Equipamento específico que ainda está no móvel da despensa. Líquidos reveladores, fixadores. Papel próprio para isso. Pinças com pontas de borracha. A câmara escura pela noite adentro. Esperávamos que os miúdos adormecessem. Havia uma lâmpada encarnada que não danificava o nosso trabalho. Era um fascínio ainda maior. O cheiro dos líquidos, a magia das imagens a aparecerem no papel dentro dos tabuleiros, com o líquido revelador.

Eu gostava e gosto de fotografar o mundo, o meu marido gosta de me fotografar a mim. A diferença é que o mundo está sempre dsponível para se deixar fotografar enquanto eu nem sempre o estou e, portanto, eu nunca tenho razão de queixa enquanto ele tem. Mas, enfim, a conversa agora é sobre mim enquanto agente fotografador e não enquanto objecto fotografado.

O que gosto mais de fotografar é gente. Gosto mesmo muito. Mas, porque a legislação não me é clara e porque, para ser objectivamente permitido, deveria ter a autorização expressa e, como é bom de ver, nem sempre faz sentido pedir autorização porque o momento se perderia e porque, sobretudo, as pessoas haveriam de me mandar uma grande volta, opto por não divulgar fotografias em que apareçam pessoas que possam ser facilmente identificadas.

Já tive um blog de fotografia de rua. Chamava-se Street Photo & Co., nome dado pelo meu marido. Ainda cheguei a publicar cerca de 300 posts com outras tantas fotografias e fazia-o sempre com grande prazer; mas depois temi ainda arranjar sarilhos e retirei-o do ar. Estive agora a revê-lo e devo aqui confessar que tenho pena de o ter escondido pois acho que é uma galeria do dia a dia português com alguma piada e, na verdade, gostaria de partilhá-lo convosco. Mas paciência. Nem sempre se pode fazer aquilo de que se gosta.



Assim, limito-me a mostrar-vos motivos mais inócuos. Recantos da minha casa in heaven, o livro que estou a ler, o brinquedo que os meninos deixaram sobre a mesa de azulejos, ou a natureza que tenta dominar-nos, ou as vicejantes uvas que estão a ficar maduras, o escultural tronco das árvores, a folhagem seca e a caruma que fazem uma manta que me encanta. Coisas assim, simples.

Ou os veleiros, o Tejo, Lisboa a bela, o deslizar da luz sobre a cidade, as águas picadas que dão ainda mais vida ao magnífico rio.


Ou o vulto da mulher que, em vez de contemplar passivamente a beleza do entardecer que dourava as casas, os barcos e o céu, se fotografava a si própria nas mais sugestivas poses, sorrindo, arqueando-se ou esticando-se, uma coreografia ridente para se fixar a ela própria na bela paisagem.


Ou a quietude azul do mar ao fim do dia quando, na sexta-feira, para lá fomos depois do trabalho encontrando o nosso grupinho de alegres veraneantes, todos ainda com o sal nos cabelos e leveza bem disposta nas vestimentos e nos gestos.


Ou a alegria do cão que entrava e saía da água, brincando, alegre como uma criança, sem saber que, lá em cima uma mulher o olhava com alguma inveja.


Ou a queda do sol no horizonte, pronto a mergulhar no fundo do mar, e a gaivota em largas danças num vasto plateau com um pano de cena tão espectacular.


Ou o voo suave das gaivotas quando o sol se tinha já posto e o forte do Bugio e o lado de lá eram apenas uma vaga sugestão, a noite quase a tombar sobre a praia.


_______________Fotografar______________


11 Artistas falam de fotografia



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Da Wikipedia:

Fotografia (do grego φως [fós] ("luz"), e γραφις [grafis] ("estilo", "pincel") ou γραφη grafê, e significa "desenhar com luz e contraste").


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E tenham, meus Caros Leitores, um feliz dia de domingo.

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sábado, agosto 19, 2017

Táctica e Estratégia
(para salvar a honra do convento)





Tinha fotografias da praia ao anoitecer e penso que capazes até de estarem bonitas. O pôr do sol na praia, neste verão quente que ajuda a projectar céus em fogo sobre as águas, vem com cores maravilhosas. E tinha 'cenas' para contar que foram relembradas ao jantar, causando gargalhar geral, os miúdos a quererem mais, mais 'piadas', e nós a dizermos que não são piadas, são situações reais.

Mas, acreditem, estes meus dias têm sido tudo menos fáceis. Cansada, cansada.

Para ajudar, estávamos a chegar a casa, dei por falta da sacola de pano, bordada com missanguinhas, que uso a tiracolo e que tinha lá dentro a minha carteira dos cartões (carta de condução, de cidadão, de crédito, de seguro, da fnac, de tudo o que se possa imaginar) -- e com algum dinheiro. Ao sairmos do restaurante, no meio da confusão, agarrei no telemóvel, na máquina fotográfica, no poncho de renda que uso para me proteger da aragem do mar e, parecendo que nada me faltava, lá vim. Beijinhos, beijinhos, vão com cuidado, portem-se bem, beijinhos, e mais beijinhos. O meu marido, sabendo do que a casa gasta, ainda alertou: 'Trazes tudo? A máquina fotográfica?' Passei a mão pela máquina, 'Sim, tudo'. Sim, sim--. Já estacionados, a sair do carro, pego nos óculos escuros que tinham ficado no carro, no telemóvel, na máquina, e... a sacolinha...? Susto. Liguei logo para lá. Sim, senhora, está cá. Lá fomos de volta. O meu marido: 'Já não digo nada...'. Cansado também. 
Acho que é a sacolinha que se presta a isto. Já na outra vez, na Zambujeira, ficou num restaurante. Dessa vez, só dei por ela às quinhentas da noite. Quando lá chegámos, estava o restaurante fechado. No dia seguinte, chegámos lá: fechado para férias. Foi o bom e o bonito. E isto no dia em que supostamente regressaríamos a Lisboa. As peripécias para conseguir entrar num restaurante fechado para férias, com os donos abalados para o Algarve, nem vos conto. Lá a resgatei. Pois hoje a sacana da maleca pregou-me a mesma partida.
Aqui chegados, cada um espapaçado em seu sofá, ele adormeceu de imediato. E eu também.

Queria falar do anibálico-canibálico Banner que talvez ainda venhamos a ver a ajudar no processo gangrenatório do trumpismo mas, senhores, as vezes em que caí a dormir... Vi jeito de não conseguir chegar ao fim. Nem sei como, a duras custas, lá o desentupi de dentro de mim.

E, agora, estou a ver se acordo para me deslocar até ao quarto e o esforço esgota-me as energias, deixando-me incapaz de ir buscar as fotografias da praia ou de deitar mãos às 'cenas' maradas que nos divertiram ao jantar.

Portanto, desculpem-me a falta de assunto, mas isto hoje é um caso perdido mesmo.

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Sobre a flor lá em cima: 

A begonia radiates in the fine weather at the Southport flower show. The event is the UK’s biggest independent flower show, attracting 80,000 visitors a year. Photograph: Christopher Furlong/Getty Images [The Guardian]

Sobre a música:

Linkin Park - Numb for cello and piano (COVER). Arranged, played and filmed by GnuS Cello

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Queiram mas é fazer o favor de descer até ao post seguinte que hoje, por aqui, não passa disto. Ou melhor, se calhar é melhor não, que que aquele animal ali não é flor que se cheire.

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Mas antes -- para  tentar que não maldigam completamente este pobre convento que hoje tão poucas virtudes tem para oferecer -- deixem que partilhe convosco um poema lido pelo autor


Táctica y Estrategía na voz de de Mario Benedetti


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Steve Bannon foi corrido da Casa Branca -- o que só prova a falta de inteligência do palhaço Trump.
Quem é que depois de ter enfiado uma besta canibálica dentro de casa, comete o tremendo erro de correr com ela?
Consta que o animal já anda a reunir tropas para preparar a vingança... e quem é que duvida disso?


BANNON’S TROLL ARMY GEARS UP FOR WAR -- leio e não me admiro.



Se eu soubesse o que se passa na cabeça de gente maluca talvez soubesse dizer quais as verdadeiras razões para a corrida em osso que Trump deu no estrategista Bannon. Ou talvez pudesse jurar a pés juntos se foi Trump que correu com Bannon ou se foi este límpido ariano que não suportou os negros e outros mal arraçados que andam lá pela Casa Branca e bateu com a porta. Assim, não sei.

O que sei é que gente sinistra, do calibre do cara-de-canibal Bannon, deve ser guardada debaixo de olho em vez de afugentada e deixada à solta a preparar das suas. Mas isso era se Trump fosse normal e se a cavalhada trapalhona a que se assiste na Casa Branca fosse a excepção e não a regra. Assim, no meio daquela permanente bandalheira, vê-se mais esta jogada e já mal se leva a sério. 

O que assusta, mas assusta mesmo, é pensar no poder imenso que tem uma cavalgadura como Trump, uma cavalgadura que não sabe falar, que não diz coisa com coisa, que toma decisões de forma errática, inconsistente, imatura, que forma equipas com gente problemática, gente que alguém de bom senso quereria longe das esferas do poder.

Mas afinal quem é Bannon, o estranho homem que enriqueceu investindo em Seinfeld...? Vejamos.


The turbulent story of Steve Bannon – video profile

[The Guardian]


 

Steve Bannon has been a naval officer, an investment banker, a film producer and an executive at Breitbart News. He was made Donald Trump’s chief strategist and was arguably the most influential man in the White House, but has now been removed, ending his highly contentious career at the center of the Trump administration


Já agora, se me permitem, para ilustrar melhor quem é o homem de quem se fala, opto também por dois vídeos made in Colbert.

As músicas do banho de Steve Bannon



Os diários de Steve Bannon




E alguns comentários à situação:

Steve Bannon out at White House




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E eu, que nada sei, o que antecipo é que a quantidade de gente que Trump já descartou é gente mais do que suficiente para dar cabo dele, tanto mais que são de idêntico calibre e lhe conhecem as paranóias, os vícios, os pontos fracos, os narcisismos, os passos em falso e etc. E isso não seria mal pensado.

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Um bom sábado a todos quantos por aqui passam.

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sexta-feira, agosto 18, 2017

Para onde vai o tempo





Sempre fui muito de me rir. Ria-me com tudo. Ria para as pessoas. Dizia-lhes adeus se as via ao longe, enquanto sorria rasgadamente. Diziam que era uma menina simpática. Muitos anos depois, quem me conhece desde essa altura e são cada vez menos essas pessoas, ainda recorda a minha contagiante alegria.

E traquinas. Era traquinas, as minhas preferências iam sempre para as companhias ainda mais traquinas que eu. Nunca fui de me deixar controlar. Brincar na rua era o que mais gostava. Mais crescidinha era isso ou ler. Mais crescida ainda, era namorar e ler.

Comecei a ler e escrever muito cedo e sei que os meus pais se orgulhavam disso mas disfarçavam e, por isso, aprendi a disfarçar o que sabia para além do me parecia ser normal. Ainda hoje tenho essa preocupação. Muitas vezes, mesmo sabendo faço que não.


Tinha boas notas e via que eles ficavam contentes mas não evidenciavam muito e, sobretudo, nunca deixaram que me envaidecesse por tão fraco motivo. Por vezes encontrava algumas pessoas que mostravam saber dos meus feitos académicos e percebia que o meu pai lhes teria contado e, nessa altura, ficava muito surpreendida ao constatar que, afinal, isso o orgulhava a ponto de vencer a sua natural reserva nos elogios filiais.


Eu também tinha orgulho nos meus pais, pelo que eles eram e também porque os achava bonitos. A minha mãe louríssima e de olhos muito azuis, sempre boa onda, e o meu pai, cabelo muito preto, bem arranjado, todo desportivo. Por vezes, enfrentava-os. Muitas vezes. Queriam controlar-me, enquadrar-me e eu queria andar de outra forma, voar, as asas bem abertas, tinha pressa, queria conhecer o mundo. E queria arranjar-me de forma criativa, era engraçada, dava nas vistas, eu sabia que dava nas vistas, e gostava disso -- e eles temiam. E eu não queria saber dos seus temores. Mas sempre correu tudo bem. Temiam que as minhas aventuras, o querer começar a trabalhar cedo, o casar cedo, que isso me impedisse de estudar. Não impediu. E num instante já a família estava a crescer.

O tempo passa.


Há lugares em que a gente vê todas as idades da nossa vida. A entrada de um hospital é um desses lugares. Chega gente feliz, com flores nas mãos, beijam-se, há parabéns e votos de felicidade entre os abraços que se trocam, e sobem pressurosos a conhecer quem acabou de nascer. Ou saem mulheres que se vê que são as novas-avós, e vêm com sacos a acompanhar a filha que ainda traz um ventre dilatado e que vem com um bebé num ovinho.


Ou chegam pessoas em cadeiras de rodas, um sem uma perna, o coto à vista, outra com oxigénio, passam macas com velhos com as bocas muito abertas e que parecem mortos, ou passam velhinhas muito velhinhas com andarilhos, ou homens muito magros, excessivamente magros, uma cor que dá medo, ou mulheres demasiado inchadas, mal podendo andar. Ou crianças que vêm despreocupadas pelas mãos dos pais ou dos avós. E ouvem-se conversas. Uma dizia que o psicólogo queria que ela não pensasse mais nisso mas que ela não conseguia tirar isso da cabeça. E disse isto vezes sem conta a uma outra que não dizia nada, apenas a olhava.

O tempo passa. 


Quando eu era pequena, os meus pais não me levavam a hospitais. Eu tinha pavor de ver pessoas doentes ou acidentadas. Sempre tão alegre e despreocupada, ficava em pânico, incapaz de olhar, quase sem respirar, se via alguém com ferimentos, deformações ou se os sabia doentes. Penso que seria resultado de ter presenciado a devastação que a morte do meu avô materno causou na minha avó e na minha mãe. O que se passou nunca consegui recordá-lo. Na altura, talvez para me pouparem, puseram-me em casa da minha outra avó; mas, forçosamente, terei percebido o que se passava. Não guardo uma única memória dessa altura. Tanto que eu gostava desse avô muito alto, muito louro, de olhos muito azuis e tão bem que me lembro ainda de ele me levar às cavalitas e, no entanto, não recordo nada sobre o seu desaparecimento nem nunca fiz uma única pergunta sobre isso. Já aqui o contei: por essa altura fiquei gaga. Depois passou. Mas ficou-me o pavor por tudo o que me parecia que pudesse causar sofrimento ou prenunciar um desfecho triste. Talvez por isso, os meus pais passaram a preservar-me.


Com os meus filhos, logo tentei que tivessem a coragem que a mim me faltava. E em boa hora o fiz. E agora, dos mais pequenos, há um que parece um pequeno médico. Desde sempre que se interessa por perceber a causa das doenças, que aconselha tratamentos, que investiga tudo ao pormenor. No outro dia, quando percebeu que o avô não comia caracóis, a curiosidade que aquilo lhe causou. Os outros todos nem aí mas ele, cinco anos acabados de fazer, quis saber porquê, que reacções causava, se havia outros alimentos a causar alergias, como se tratava, a que médico ia, etc. Talvez seja uma motivação genética e venha a ser o digno herdeiro do avô. Do lado da minha filha, é ela que gostava que um dos filhos fosse médico mas parece que, no melhor dos casos, um deles sairá veterinário já que adora ver uma série que mostra um veterinário a fazer cirurgias e outros tratamentos a animais. Eu nunca quis saber de algum dos meus filhos querer ser ou não médico, e, de facto, nenhum o quis. Para se ser médico é preciso muita coragem ou muito desprendimento e, de certa forma, tenho a ideia que o ser-se assim pode abalar os alicerces da alegria inocente que deve existir na vida de qualquer pessoa e que resulta da real ignorância de quão efémeros, frágeis, dispensáveis somos.


Há pouco soube do que se passou em Barcelona. Vi corpos caídos naqueles passeios largos onde as flores reinam e os pássaros cantam. É bom passear nas ramblas. Mas hoje, não lá mas pela televisão, vi gente a correr assustada, outros debruçados sobre gente inerte. Não sei se mostraram de perto, espero que não mas, quando o fazem, desvio o olhar, não suporto ver como alguém que antes era feliz, de repente fica transformado num corpo tombado na rua ou num ser indefeso, estropiado, à mercê de tudo. Vidas felizes atalhadas sem um propósito. Do que li, para treze pessoas o tempo parou. Para muitas outras é agora uma luta de vida ou morte nos hospitais, uma tentativa de que o tempo continue o seu caminho. Não pode haver compreensão para os loucos que cometem actos assim.

Mas o tempo passa.

E enquanto o tempo passa é bom que passe devagar, que o vivamos com gosto, que amemos e respeitemos a vida, que sejamos generosos, solidários, honestos, honrados, que gostemos verdadeiramente dos outros, que saibamos ficar felizes com as cores luminosas e perfeitas das flores, do mar, do céu, das montanhas, dos pássaros, com a alegria, a ternura e a inteligência dos animais, que saibamos contemplar as esculturas que o tempo modela nas rochas ou nas árvores, que nos sintamos bem a ver o buliçoso riso das crianças -- e que gostemos de nos ver ao espelho, o tempo a passar por nós, e nós a reconhecermos, por entre os sinais do tempo, o nosso sorrriso inocente de crianças.


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Lá em cima os A Great Big World interpretam Where Does the Time Go


As imagens que usei são fotografias de Steve McCurry


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Seven Ages of Man - All the World's a Stage de William Shakespeare 
dito por Benedict Cumberbatch


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Saúde e alegria a si que aqui está comigo.

Uma sexta-feira feliz.

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