O Blogue da moda: actualidade, artes, literatura, jardinagem, família e muitas outras coisas

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quarta-feira, março 04, 2015

Um tigre azul deixou-me uma rosa azul


No post abaixo já falei de Passos Coelho, essa triste figura que nunca deveria ter sido Primeiro-Ministro. Mas foi e está à vista o que fez ao País. Portugal está hoje pior conforme todos os indicadores o comprovam. Mas, pior que isso, pior do que o drama da dívida, pior do que o colapso da economia, pior do que o desemprego elevado, pior do que a preocupante emigração, é a devastação na esperança, na moral, na honra dos portugueses.

Os últimos dados conhecidos revelam também que é um cidadão relapso, sem vergonha, despreocupado com os deveres. E a sua última actuação revela-o também cobarde.

Dificilmente os portugueses lhe perdoarão este tipo de comportamentos.

Mas, enfim, sobre isso falo no post seguinte. Aqui, agora, a conversa é outra. Rêverie de novo.

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Estou vestida de negro, apenas com uma capa de veludo azul escuro por cima. Tenho os cabelos presos. Tenho o coração apertado. Tenho a minha cabeça num outro lugar. Quando todos dormem e contra toda a prudência eu penso naquele que está num outro lugar, longe, longe. Contra toda a prudência quero responder ao chamamento silencioso que dele se desprende. 

Nada sei dele, não sei onde vive, não sei como se chama, não sei o que faz, nada. Mas sei que ele me chama.

Espreito pela janela. O rio corre, negro, lá ao fundo. Nem uma luz. A cidade dorme. Apenas eu vagueio, inquieta.

Então esgueiro-me e saio de casa. As ruas estão desertas, escuras. Sinto um frio, um tremor, e sei que é medo. Penso que é perigoso. A madrugada vai alta, o frio está húmido. Penso que deveria, talvez, correr. Mas não sei para onde.

Então vou andando, cosida às paredes, atravessando as ruas desertas, escuras, esperando que o chamamento silencioso que ecoa no meu coração me transporte.

Mas é para o rio que os meus passos me levam, o rio, sempre o rio. Lá chegada, assusto-me com as correntes de ferro que rangem, com as pancadas dos navios no cais. Estreito-me contra as casas em ruínas, sou uma sombra silenciosa que atravessa a escuridão. Por vezes parece-me ver sombras, vultos, e o meu coração bate, descompassado, e eu tremo, tremo muito. Tenho medo. Mas continuo.

Penso que estou cada vez mais longe, a noite não me deixa perceber até onde os passos já me levaram. O cheiro da maresia, o marulhar leve das ondas deixa-me perceber que continuo perto do rio.

Depois começo a perceber que os meus pés pisam terra macia, erva. Já não sei onde estou.

E, então, sinto respirar. Perto de mim. Arrepio-me. Ah mas arrepio-me tanto. Transida, a respiração suspensa, quase paralisada. Já não sei se estou parada ou a andar, a todo o momento espero ser atacada. Não consigo olhar para trás, tanta a inquietação. Uma respiração quente, um bafo. Não ouço passos, só sinto um respirar denso perto de mim. Arrepiada, sinto que os olhos se me enchem de lágrimas, e não é medo, é uma perturbação muito forte, é como se alguém pudesse entrar em mim, entrar na minha pele, tomar o lugar do meu corpo. A respiração aproxima-se, sinto-o, tão arrepiada.

Depois uma serenidade estranha começou a invadir o meu corpo, a respiração quente torna-se ofegante, inquieta e eu cada vez mais calma. Espero. Tiro a minha capa de veludo azul. Sem a ver, apenas pelo tacto, deito-me sobre ela. Não vejo nada nem ninguém. Apenas a respiração está cada vez mais próxima.

E então, arrepiada embora estranhamente tranquila, a pele emocionada, sinto que um vulto macio se deita ao meu lado. Aproximo-me e sinto a sua pele macia, muito macia, a respiração agora muito suave, e deixo que o seu corpo morno se encoste ao meu.

Não sei quanto tempo ali estivemos. Nem sei explicar que paz tão infinita invadiu o meu corpo. Como se nunca antes tivesse sentido uma felicidade tão absoluta.

Depois o dia começou a querer alvorear. Senti vontade de adormecer. E acho que adormeci. Sonhei então com um tigre imenso, assustador, sonhei com uma gruta negra por onde uma luz azul entrava escorrendo como água muito escura. Sonhei que o tigre medonho se tingia de azul e eu escondida, com medo, perseguindo o tigre e o tigre perseguindo-me a mim, espiando-nos, descobrindo-nos, assustados os dois, sentindo um desejo aflito, sentindo o perigo, querendo senti-lo. O olhar do grande tigre azul penetrava o meu, e o meu coração não aguentava tanta emoção, tanto medo, tanto querer e eu sentia que o meu olhar brilhava no escuro e que o tigre não desviava o olhar do meu. Arrepiada, assustada, sem vontade, com vontade.




Depois acordei. O céu começava a iluminar-se. Senti-me sozinha. Sentei-me e olhei em volta, procurando aquele que, na noite escura, se tinha deitado ao meu lado. Ninguém. Depois ouvi um rumor, um leve mexer de folhas, ou uns passos, ou um murmúrio. Procurei com o olhar.

E então pareceu-me ver. Ou imaginei, não sei. Era como se, de longe, um tigre azul me olhasse com infinita tristeza. Como se estivesse parado a olhar para mim. Fiquei em suspenso, a respiração parada, a olhar o olhar triste daquele que eu apenas adivinhava.

Senti que as lágrimas se soltavam dos meus olhos. Não sabia se estava a adivinhar uma separação, um amor impossível, se a percepção de que o perigo era um abismo do qual não poderia fugir.

Desviei o olhar, levei-o até ao rio que corria lá em baixo. A madrugada aproximava-se. Levantei-me. A capa de veludo estava húmida e eu gelada. O meu corpo tremia.




Coloquei a capa sobre os ombros. Olhei de novo. Por detrás de um arbusto, pareceu-me ver o tigre escondido, olhando-me. Tive vontade de me aproximar, saber se era mesmo, se era um sonho, se era loucura. Mas respeitei-o, respeitei o silêncio que senti que se desprendia do seu olhar inventado.

Quando comecei a andar, senti que os meus pés pisavam qualquer coisa. Baixei-me sem ver bem e tacteei o chão. Senti que eram talvez folhas, talvez pétalas lisas, macias. Apanhei-as, trouxe-as comigo. Pareceu-me que, de longe, o tigre azul me espiava, cúmplice.

Apressada, vim-me embora.

Cheguei há pouco a casa. A primeira coisa que fiz foi vir até aqui, acender a luz. Vim ver o que trazia nas mãos. E, então, comovida e trémula, vi que são rosas azuis, muito belas. São rosas que tenho aqui comigo, perfumadas, macias como veludo. Não sei se foi milagre, se foi magia, não sei quem as pôs junto a mim. Não sei, não quero saber, não quero encontrar explicações para tudo o que acontece na minha vida. Sei apenas que me sinto estranhamente feliz e, talvez pela emoção tão incompreensível mas tão intensa, sinta que os meus olhos se estão a cobrir de lágrimas. E vejo agora que, numa das pétalas da mais bela de todas as rosas, brilha também uma lágrima. Uma lágrima azul.




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Dame Kiri Te Kanawa interpreta "Vocalise" de Rachmaninoff

Jorge Luis Borges também passou por aqui.

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Caso queiram experimentar o efeito da sauna, passando do calor para o frio, permitam que sugira que desçam até ao post seguinte onde um verdadeiro balde de água fria vos espera.

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Desejo-vos uma bela quarta-feira.

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terça-feira, março 03, 2015

Passos Coelho tem que se demitir. Pior que não pagar as contribuições para a Segurança Social, pior que dizer que não sabia como funcionava a Segurança Social, pior do que a falta de vergonha que tem demonstrado é o que tem feito a Portugal e aos portugueses. Mas, enfim, tudo isto é imoral demais, atenta contra a nossa inteligência, atenta contra a nossa paciência.


Pelo que tem vindo a lume, fica-nos a ideia que entre fazer carreira na Jota, ser deputado e o que se seguiu, Passos Coelho viveu, até ser Primeiro-Ministro, nas franjas do decoro. Organizava cursos para costureiras, formação em aeronáutica no Alentejo, abria portas para o senhor da Tecniforma, recebia em géneros, e, sabe-se agora, não fazia descontos para a Segurança Social. 


Ansioso por ser Primeiro-Ministro, ajudado pelo saudoso Relvas, acossado pelo cão com pulgas e apadrinhado por Ângelo Correia, derrubou o Governo de Sócrates e, sem mais - sem competência, sem conhecimentos, sem curriculum para o cargo que veio a ocupar, aluno burro e marrão, sem perceber a causa dos problemas, sem saber como resolvê-los, indo na conversa de outros, sem medir consequências, sem dó nem contemplação, julgando os outros à sua medida, imaginando que todos são caloteiros, relapsos, oportunistas, e, pior, estupidamente armado em moralista - tratou os portugueses abaixo de cão, mostrou falta de educação, falta de consideração.

E, mesmo agora, dá-se ao desplante de pedir castigo do grosso para a Grécia, armar-se em bom, portar-se de forma vergonhosa.

E, como se isto fosse pouco, Passos Coelho agora vem vitimizar-se, achar que está a ser objecto de uma cabala e, pior, bem pior, compara-se pela positiva com Sócrates que ainda não foi condenado nem sequer acusado e, como muito bem refere Estrela Serrano, está preso e não pode defender-se. É de uma cobardia que incomoda. Não tem um pingo de vergonha na cara. E faz-me sentir envergonhada por viver num país governado por tão fraca e relapsa figura.


Ainda ele não tinha sido eleito, já eu via nele uma única e perigosa qualidade: uma boa colocação de voz. Sendo alto, com boa figura (embora desagradável de cara), bem falante, sem vergonha, e com uma voz bem colocada estava criado o boneco que facilmente iria iludir os incautos. E muita gente ele enganou.

Ao longo da legislatura, tenho vindo aqui a irritar-me até mais não poder com a grosseria das suas análises, a burrice das suas medidas, a falta de vergonha na forma como se dirige aos portugueses e, sobretudo, com a devastação que tem causado no país, nada lhe escapando.

Preferia mil vezes que tão insolente criatura fosse varrida da história pela destruição de toda a ordem que causou a Portugal e pelos malefícios que causou a tanta gente, pela miséria que espalhou*.

Mas será certamente pelos casos que comprovam que não tem sido sequer um bom cidadão - cumpridor da lei, respeitador - que provavelmente vai cair em desgraça.

Deveria sair pelo seu pé. Por todos os portugueses que pagam todos os seus impostos e contribuições, por todos os que, por não conseguirem pagar, viram os seus bens penhorados, por todos quantos perderam a casa, a guarda dos filhos, por todos quantos se sentiram humilhados por se verem numa situação crítica e de necessidade, Passos Coelho deveria sair do Governo. 

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* - Do DN: Bloomberg põe Portugal como o 10.º país mais miserável. 

Pior do que a Indonésia, a Eslováquia, o Brasil, a Colômbia ou Itália. O índice Bloomberg das economias mais miseráveis coloca o nosso país na 10.ª posição de um 'ranking' de 51 países liderado pela Venezuela.


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NB: Há no sistema informático (creio que do AT) um mecanismo de alerta que desencadeia avisos de cada vez que alguém acede à situação fiscal e contributiva de um conjunto de cidadãos, os chamados cidadãos VIP. Desta forma, vários responsáveis foram alertados de que os inspectores do fisco tinham consultado os dados fiscais de Passos Coelho. Tenho ideia de que, por isso, esses funcionários estarão a ser alvo de processos disciplinares. Se assim for, não me espanta.

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O que é a arte? O que é a beleza? - que questões difíceis me coloca, Rosa Pinto. A verdade é que não lhe sei dizer, posso apenas falar de algumas coisas de que gosto.


Eu não sei o que é arte nem sei o que é belo. Sei apenas o que me toca e, então, eu não sei explicar porquê. O que a mim me parece belo muitas vezes não o é aos olhos de outras pessoas. Não sei o que é mas sei o que não pode ser: não pode ser perfeito. Não gosto do excesso de perfeição. A perfeição absoluta atinge-se com muito esforço, com depuração, com a perda da espontaneidade, e esse esforço, essa depuração, a mim parece-me quase um ornamento e eu não gosto muito de ornamentos. 

Quando eu fazia tapetes de Arraiolos, aquelas complicadas réplicas de tapetes do século XVII que aqui tenho em casa, eu bordava com todo o preceito. Os mais exigentes, ao verem os tapetes, viravam-nos logo porque pelo avesso é que se vê se é um verdadeiro Arraiolos e nunca encontraram defeito nos meus, eram perfeitos. Milhares de pontos e nem um ponto em falso. E, no entanto, não há um único tapete em que eu não tenha deliberadamente trocado um ponto. Tinha que ter um pequeno toque de imperfeição senão não seria meu.

Às pessoas de feições muito perfeitas eu acho monótonas. Às pessoas muito bem comportadas eu acho umas chatas.

Da mesma forma, aquilo que eu acho belo ou que me toca como sendo arte tem que conter assimetria, desconcerto, desequilíbrio, tem que haver algures o chamamento para o abismo.




Emocionei-me uma vez perante uma grande tela de Caravaggio e talvez o que mais me tenha impressionado tenha sido a sujidade das mãos, das unhas. Ou o ar de deboche e de noites mal dormidas dos rapazes que ele pintava.




Ou o excesso de injustificação que existe nas telas de Rothko. A vontade de me misturar nas cores sem motivo, de me perder no azul, de me incendiar com os encarnados cheios de luz. Ou os encarnados densos, sombrios, contendo a perdição da noite mais profunda. Ou o nada banhado de cor, a oração mais sentida.







Ou cavalos azuis. Gosto de cavalos azuis cruzando os espaços que habito, sonho que atravessam a noite transportando sonhos, ouço-os passar sedosos, silenciosos, apenas a sua corrida deixando um rasto de corpos suados no ar. De manhã encontro-os em repouso, passeando tranquilos entre caminhos onde o alecrim floresce.




Ou corpos nus que dançam em roda, e a música une o sangue que neles corre e o coração une-se para que a dança em roda se feche como um anel o desejo que os percorre. E junto-me a eles e festejo os perfumes suaves e o som dos pássaros e o prazer que o meu corpo sente quando dança ou quando vê outros corpos livres, elevando-se em desequilíbrio até onde os deuses permitem.







Na escultura também procuro o imprevisto, a imperfeição dos corpos. Ou a ausência de explicação, o desenho da luz, as sombras, os corpos abandonados, os corpos sem forma, ou a erosão do tempo.

Na música eu gosto do que me transporta nem sei para onde, para o desconhecido, porque o que me atrai é o que não conheço. Ou melodias que me embalem. Ou que me tirem para dançar, ou que me levem até às portas de jardins cheios de perigo.

E na escrita eu gosto que as palavras tenham vida própria e criem histórias impossíveis, teias imprevisíveis onde os corpos não escondam a carne, onde os olhos não escondam as lágrimas, onde os corpos não escondam o riso e o voo, onde os sexos não tenham pudor nem limites. E gosto de cartas e de diários e gosto de sentir que está ali a essência de quem os escreveu, sem véus, sem rodeios. Ou subtilezas que mal se percebam. Ou confissões pagãs, ou segredos sagrados ou a semente da loucura.

E gosto da leveza da poesia. Ou do peso esmagador da poesia. Ou da música da poesia. Ou do sangue quente da poesia. Ou do brilho ardente que se esvai do coração dos apaixonados e se transforma em poesia. Ou das cinzas e sombras que se ocultam na poesia. Ou da terra fértil e húmida que cheira a poesia.




E nas flores eu gosto que elas nasçam e vivam por si, selvagens, livres, delicadas, efémeras. Perfeitas e imperfeitas como o amor, como as palavras não ditas, como o desassossego que se adivinha.




E nas árvores eu gosto de tudo. Do tronco que fica mais largo como o corpo de uma mulher que amadurece, da pele que se solta como memórias perdidas, de como se enlaça em flores e alegrias, dos cheiros que se misturam como seivas, espermas, salivas, beijos.




E na fotografia eu gosto do que não é óbvio, do que se adivinha por detrás do olhar de quem fotografou e gosto de sentir a aragem que fazia flutuar a flor ou o silêncio que envolvia uma orquídea na escuridão, ou um rasgo numa parede ou na pele de um homem.

E...

E podia continuar e estaria de gosto. Ainda não falei de arquitectura, por exemplo. Ainda não falei da representação. Mas a noite já envolve as minhas palavras e eu tenho que me ficar por aqui.




Vou sonhar que sou uma mulher feliz, mergulhada em espantos azuis e vou ouvir o canto dos pássaros e a música do vento nas ramagens e vou esperar que passem os cavalos azuis para eu me misturar com eles e partir à descoberta dos mistérios da noite.

Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredores magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.

[Herberto Helder]

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Permitam que vos convide a visitar o meu Ginjal e Lisboa. Hoje tentei redimir-me da minha ausência por lá: 

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Por aqui tenho tanto sono que já nem consigo colocar legendas nas imagens. As minhas desculpas.

E permitam ainda que vos convide também a descer até ao post seguinte onde dedico uma música ao láparo: A mula da cooperativa. Ai és tão linda.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

Passos Coelho não sabia que tinha que descontar para a Segurança Social. Aguiar Tinto já veio dizer que o Primeiro-Ministro é um exemplo. Como presente por serem tão lindos, daqui lhes envio uma linda música: 'A mula da Cooperativa'. Ai és tão linda...!







Dúvidas sobre a omissão de rendimentos por Passos Coelho: a voz a João Ramos de Almeida no blogue Ladrões de Bicicletas



Posso estar enganado, mas parece-me que é bem mais complicada a verdadeira razão do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho para não ter pago as contribuições à Segurança Social.

E por duas ordens de razões. Primeiro, recorde-se que, segundo o Público e ao contrário do que afirmou o porta-voz do PSD, quando tudo aconteceu não havia qualquer confusão com a possível acumulação de remunerações, como assalariado e independente.

"Entre o dia em que terminou o seu mandato de deputado, em Outubro de 1999, e Setembro de 2004, data em que recomeçou a descontar como trabalhador por contra de outrém, no grupo Fomentinvest, o então consultor da Tecnoforma não pagou quaisquer contribuições para a Segurança Social. Nesse período, além da Tecnoforma, onde era responsável pela área da formação profissional nas autarquias e auferia 2500 euros por mês mediante a emissão de recibos verdes, trabalhava também, sujeito ao mesmo regime, na empresa LDN e na associação URBE. Nos dois primeiros anos em questão foi igualmente dirigente do Centro Português para a Cooperação, organização não-governamental financiada pela Tecnoforma. Foi esta organização que esteve, em Outubro passado, no centro de uma controvérsia sobre o carácter remunerado ou não das funções que Passos Coelho aí exerceu, e sobre uma fraude fiscal que então teria praticado no caso de ter sido remunerado, como alegavam as denúncias então surgidas e por si desmentidas."


Ou seja, Pedro Passos Coelho recebia algo que sempre considerou ser, não remunerações, mas "despesas de representação" - "Não se trata de rendimentos", disse no Parlamento sobre a sua situação como deputado em exclusividade - e que, pelos vistos teria continuado a receber quando deixou o lugar de deputado. 

Por outras palavras, o que se trata é de algo um pouco pior do que não saber se eram devidas contribuições sociais. Tudo indicia ser, pois, uma ocultação de rendimentos.




(...)


No fundo, o que se passou - segundo Edmundo Martinho, ex-presidente do Instituto da Segurança Social (ISS) entre 2005 e 2011, a situação em que o primeiro-ministro confirmou encontrar-se entre 1999 e 2004 "corresponde aquilo que tecnicamente se chama, e é assim que é definida internacionalmente, uma situação continuada de evasão contributiva".


(...)
.....

Ai... tanto crocodilo...!

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Os sublinhados e engrandecimentos ilícitos no tamanho de letra são de minha responsabilidade. As quatro imagens provêm do blogue 77 Colinas. A canção que o Um Jeito Manso dedica ao ilustre Passos Coelho, o Rei dos casos mal contados e dos esquecimentos oportunos, e ao Aguiar Tinto, ao Trocas-e-Motas, ao Núncio do Microfone e aos outros que por aí andam entretidos a espatifar o País é, com vossa licença,  A Mula da Cooperativa numa inesquecível interpretação do grande Max. 

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segunda-feira, março 02, 2015

Carta para ti, Leitor desconhecido


No post abaixo confesso a minha infoexclusão, conto uma história verídica que mete o Face, mostro alguns dos últimos trabalhos de Banksy e, ainda, respondo ao desafio da Leitora Rosa Pinto mostrando algumas obras de arte, belas, intemporais, universais, uns gatos à maneira. Ou seja, um post que mostra o Um Jeito Manso no seu melhor: uma verdadeira caldeirada.

Mais abaixo ainda, falo de dois ladrões que deram que falar nos últimos dias e, por sinal, pelos melhores motivos: devolveram o que tinham roubado. Podia ter cedido à tentação de trazer o láparo à colação mas, noblesse oblige, deixei-o fora disso.

Mas isso é nos dois posts seguintes. Aqui, agora, a conversa é outra. Devaneio de novo pois gosto de me ir deitar indo já perto das nuvens.


Se querían.
Sufrían por la luz, labios azules en la madrugada,
labios saliendo de la noche dura,
labios partidos, sangre, ¿sangre dónde?
Se querían en un lecho navío, mitad noche, mitad luz.





Permitam que me dirija a vós, como se vos escrevesse. A cada um de vós em particular.

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Leitor que estás longe, que não vejo, que não conheço,


Deixa que te conte. Deixa que me aproxime um pouco mais de ti.

Sabes, atravesso os dias por vezes tão difíceis - por vezes é o tempo que não passa, outras as agruras da vida que chegam, ou a tensão de conflitos latentes, ou o tédio, ou a vontade de estar noutro sítio - mas atravesso-os porque de travessias se faz a nossa vida.

Os meus dias são, pois, muitas vezes longos, complicados. Mas eu aprendi a abrir uns corredores na minha vida. São secretos, caminhos que ninguém vê. Sento-me e, à minha volta, a mesa está cheia e eu discuto e analiso e dirijo e delego e controlo e, ao meu lado, uma outra que sou eu, espreita para além da neblina, aspira o ar em busca da fresca maresia. Não posso viver longe da água, do mar revolto ou do suave rio.

Então penso que podia estar lá, à beira da água, mergulhada em azul, levada pelo voo das gaivotas, enrolada no pano fresco das velas, ir para longe, muito longe, para castelos no ar, para grutas perfeitas de tão frescas e íntimas.


Se querían de día, playa que va creciendo,
ondas que por los pies acarician los muslos,
cuerpos que se levantan de la tierra y flotando...
Se querían de día, sobre el mar, bajo el cielo.



Sabes que gosto de fotografar. É como se quisesse comprovar que a beleza que vi existe mesmo. Guardo, pois, as provas. E quando, fechada numa sala, penso em lugares muito belos, nem sei se é neles que penso ou no que os meus olhos viram e a máquina registou.

Dizia eu que, nessas alturas em que me evado, penso, então, estou aqui e estou também ali, e estou perto de ti porque as minhas palavras voam e os meus pensamentos chegam até ti. Estás a lê-los agora, Leitor.

As vozes à minha volta traçam caminhos, avaliam cenários, e uma dessa vozes é a minha.

Mas ouço-te também, Leitor, ouço a tua voz que me diz que o silêncio é uma outra forma de me dizeres palavras que apenas sonho.

Estou assim, sentada à volta de uma mesa e, ao mesmo tempo, caminhando rente ao rio, contigo ao meu lado, Leitor, e o silêncio que me dizes acompanha os meus passos e os teus. E mais ninguém, senão nós, sabe como estamos próximos quando assim caminhamos por estas estreitas veredas secretas.


Mediodía perfecto, se querían tan íntimos,
mar altísimo y joven, intimidad extensa,
soledad de lo vivo, horizontes remotos
ligados como cuerpos en soledad cantando.



E se eu me desdobro e desvendo recantos em que os segredos se escondem, e vou mostrando as máscaras que não são máscaras, são a minha pele, sabe, Leitor, que o faço para que percebas que as minhas palavras são para ti, Leitor, para ti que não conheço, que estás longe.

E, no entanto, ao leres estas palavras, Leitor, talvez sorrias, talvez penses que é doida esta mulher que assim te fala, trazendo-te palavras feitas de silêncios, inundadas por azul, flutuando nas águas de um rio que é quase mar. Talvez sintas que há quase intimidade nas minhas palavras. Mas como intimidade se eu não te conheço, se tu não me conheces, se eu não te vejo sorrir, se não conheces o brilho do meu olhar?


Amando. Se querían como la luna lúcida,
como ese mar redondo que se aplica a ese rostro,
dulce eclipse de agua, mejilla oscurecida,
donde los peces rojos van y vienen sin música.



Depois alguém me faz perguntas e eu tenho que responder e eu própria questiono e o tempo avança e o dia vai-se cumprindo e o meu olhar vai deslizando e lembrando Lisboa, tão bela, e o rio, tão azul, e os barcos, tão a brincar, tão brancos, tão limpos, tão pequenos, e as casinhas coloridas, brinquedos, imaginação minha. e até o rio se enfeita de cores para me mostrar que não é de verdade, que sou só eu a sonhar, que nem eu sou de verdade nem tu, Leitor, és de verdade.

E então, pensando nisso, o chão desaparece, o ar desaparece, tu desapareces e eu fico sozinha no meu caminho inventado. Apenas o silêncio permanece.


Día, noche, ponientes, madrugadas, espacios,
ondas nuevas, antiguas, fugitivas, perpetuas,
mar o tierra, navío, lecho, pluma, cristal,
metal, música, labio, silencio, vegetal,
mundo, quietud, su forma. Se querían, sabedlo.



Escrevo-te de noite, quando o silêncio é mais nu, quando as casas adormecem, quando a cidade mergulha na vastidão de um céu feito de escuras sombras, de saudades, apenas iluminado por fragmentos de sonhos, de segredos, de devaneios. 

Pode alguém sentir afecto por quem não conhece, por quem talvez nunca conheça, por alguém feito de palavras, de silêncio? Talvez. Não sei. Sei tão pouco da explicação de coisas inventadas.

Poderia continuar a noite toda aqui a conversar contigo e, no entanto, sei bem, Leitor, que isto é conversa nenhuma. Soubesse eu cultivar o silêncio e apenas me deixasse ficar aqui à tua beira, Leitor, ouvindo a música que se solta da tua presença aí desse lado, tão perto de mim.

Mas agora vou despedir-me. Tenho que ir.

Recebe, Leitor, um abraço meu. E volta sempre, traz-me a tua companhia, traz-me o silêncio das palavras que eu o ouço aqui, deste meu lado, o silêncio que se desprende da tua respiração.

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É tardíssimo, distraí-me com as horas. Não vou reler pelo que peço que, por favor, relevem as gralhas que devem ter vindo em bando.

As fotografias mostram Lisboa, linda como só ela, mergulhada em azul, e o Tejo que a abraça. Fiz estas fotografias durante este fim de semana.

Melody Gardot canta Our love is easy.

O poema (que não está completo) é  'Se querían' de Vicente Aleixandre

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Relembro que, a seguir, há mais dois posts e eu tenho tanto sono que já não sou capaz de os anunciar.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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Infoexcluída me confesso. Nem Facebook, nem Twitter, nem Instagram. Nem gatinhos. Só gatos. E, de preferência, tal como Mario Testino os regista, nuzinhos, só com uma toalhita. Alô, alô Rosa Pinto: concorda que estes são de uma beleza universal, intemporal, obras de arte perfeitas?


No post abaixo já falei de dois ladrões honestos. Ou arrependidos. Ou amedrontados. Ladrões que, voluntariamente, devolveram o fruto do seu furto. Não foi ao Passos Coelho que me referi, é claro, longe de mim. Referi-me, sim, a dois ladrões cujos actos darão certamente filmes. Ora, como é sabido, Passos Coelho para artista não tem jeito (lembremo-nos da nega que recebeu do La Feria).

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Se ontem confessei alguns dos meus segredos, hoje continuo numa de confissões e falo das minhas debilidades cognitivas. 

É que ele há coisas que eu não percebo. E são muitas.


Cauã Reymond por Mario Testino


Do filme The Great Gatsby, numa interpretação de Lana Del Rey: Young and Beautiful


Por exemplo, não percebo: 

  • Porque é que a maioria das pessoas quando está a ser fotografada se põe de lado, abre a boca e, não raramente, levanta uma perna, quase como se simulasse que está a cair?
  • E porque é que tanta gente acha graça a fotografar-se a si própria? Mais: porque é que tanta gente acha graça a divulgar fotografias de si própria? 
  • E, mais intrigante ainda, porque é que é tão importante para as pessoas e para as empresas terem likes no facebook? Se nas pessoas eu ainda posso atribuir a uma questão de carência afectiva, já no caso das empresas acho que é entrar num registo de futilidade quando seria expectável que se funcionasse num registo de seriedade.
Marcelo Boldrini por Mario Testino
  • E porque é que há tantas tricas em volta da utilização do facebook?
No outro dia, num dos espaços de open space que não fica muito perto do meu gabinete, ouvi vozes mais altas que o costume. Pensei que naquele dia haveria mais efusividade do que o costume já que, em regra, nada se ouve. Mas depois a coisa foi subindo de tom, já parecia uma altercação. Intrigada, assomei à porta e vi duas, alteradas, a discutirem e os outros em volta a tentarem acalmá-las.
Quando, algum tempo depois, fui à copa buscar um dos meus múltiplos chás diários, vinha uma outra ainda corada. Perguntei: Então o que é que se está a passar? Ela respondeu: Nada que interesse Doutora, parvoíces, coisas que não deviam acontecer no local de trabalho, mas deixe, elas agora já estão mais calmas. Eu não disse nada mas ela deve ter percebido que eu não estava a ver o alcance da coisa pois clarificou: É a M que se passa com coisas de que ela é a única culpada.
Nikolai Danielsen por Mario Testino



Devo ter sorrido com ar de quem, sendo assim, já estou mais descansada mas, se sorri, fiquei-me pelo sorriso. 
Mas toda a gente devia saber a causa de tal situação insólita pois, nessa tarde, uma pessoa veio dizer-me, com naturalidade, Ela comenta o que não deve junto de outras pessoas, de que é que ela estava à espera?
Não percebi. Explicou-me: Põe-se a fazer comentários sobre o que as outras escrevem ou sobre as fotografias, e isto tudo se sabe. Limparam-na do Face. De que é que ela estava à espera? E depois foi tomar satisfações? Claro, ouviu umas verdades.
Continuei a não perceber. Limparam-na do Face?
Ela deve ter percebido que a minha insuficiência intelectual era severa e, portanto, traduziu: Sim, do Facebook.
Romulo Neto por Mario Testino

Pensei: ó caraças, que mundo paralelo este que, como o próprio nome indica, me passa todo ao lado. 
E a que foi limpa deve ser mulher para uns 60 anos, imagine-se! E, portanto, pelos vistos, toda aquela gente tem conta no facebook, e devem lá colocar pensamentos, selfies de boca aberta, e todas se devem comentar umas às outras e, às tantas, pelos vistos, zangam-se, amuam-se, entram em despiques. 
Ou seja, isto do Face pelos vistos até pode transformar mulheres urbanas em vizinhas de bairro, daquelas que se pegam umas com as outras por causa do diz que diz que, feitas fofoquentas, mariazinhas.
Claro que não será toda a gente assim, se calhar a maioria mantém o nível e sente-se mais acompanhada ou realizada tendo muitos amigos no Face e muitos likes, e sente que está mais em cima do que interessa. 
Com esses e outros argumentos, muita gente me tem incentivado a arregimentar-me. Mas eu não, obrigada, prefiro sentir-me outsider, quase como se quisesse preservar o lado de boa selvagem que ainda subsiste em mim.

Cara Delevingne por Mario Testino

  • Mas depois ouço que toda a gente acompanha as fotografias de um e outro também no Instagram e até pelo DN fico a saber que o Mario Testino divulga fotografias no Instagram e eu, que gosto tanto de fotografias e tenho milhares delas, não tenho conta no Instagram, não sei bem qual a diferença entre pôr fotografias lá ou pôr aqui e receio que, se aderir a isso e a tudo o resto, às tantas não dê mãos a medir que tempo é o que já me falta; mas, se não aderir, parece que estou cada vez mais à margem do mundo que a maioria das pessoas já habita.

Tanta coisa da qual passo ao lado.

  • E a história dos gatos? Em tempos li que o tipo de imagem mais visto na internet é o que se refere a gatos. Fiquei perplexa. Gatos? Porquê?


A propósito das novas pinturas de rua de Bansky em Gaza, em que pintou um ternurento gatinho a brincar com destroços de guerra, ele explicou que o fez porque as pessoas adoram imagens de gatinhos, parece que se deixam prender sobretudo por imagens de gatinhos fofos.

Under the photograph of the large mural, Banksy wrote on his website: “A local man came up and said ‘Please – what does this mean?’ I explained I wanted to highlight the destruction in Gaza by posting photos on my website – but on the internet people only look at pictures of kittens.”

by Banksy

(e eu sei que não deveria misturar a destruição de Gaza com frioleiras mas, que querem?, Levezinha é o meu nome do meio)

É certo que já fotografei alguns gatos vadios no Ginjal mas, enfim, faço-o porque acho eu que são animais que, naquele contexto, têm um potencial estético interessante. Mas daí até perceber porque é que os gatos são o principal motivo de interesse global no visionamento de imagens na internet já vai um grande passo. Tanta gente fotografa os seus gatos e com eles enche páginas e páginas de sites, blogues, facebooks e instagrams, porquê? Porque tem procura? Meio mundo anda à cata de gatos na internet?
Todas essas imagens estão armazenadas em computadores algures por aí (nas nuvens) e, se um dia alguns seres extraterrestres tentarem perceber que mundo é este, vão ficar surpreendidos, provavelmente vão achar que os gatos são os seres dominantes na Terra. (E, de resto, quem sabe não são mesmo? Sábios têm eles ar de ser).


Enfim, coisas que vão para além da minha compreensão. Presumo que, por isto, quase me possa considerar infoexcluída e estou certa que, muitos de vós, a maioria talvez, tem conta nessas coisas e só vê vantagens nisso. E talvez saibam tudo antes de mim, porque as redes sociais propagam a informação de forma viral e tudo isso.

Mas, de cada vez que leio como estas empresas seleccionam as informações a divulgar nos murais de cada pessoa de forma a manipular a sua disposição emocional, ou adoptam políticas moralistas, puritanas, mais me convenço a deixar-me de fora do maravilhoso mundo novo em que todos sabem tudo, todos divulgam tudo, todos consomem tudo.

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As beldades desnudadas fazem parte da Towel Series de Mario Testino (assim até eu não me importava nada de ser fotógrafa profissional).

Ilustram este texto como forma de resposta à Leitora Rosa Pinto que, num comentário ao post abaixo, me desafiou: Beleza, aquela que é universal não deve depender de gostos pessoais e de modas. Desafio UJM para pensar e partilhar algumas dessas belezas.


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Relembro: no post abaixo falo de dois ladrões honestos ou enfastiados que, nos últimos dias, deixaram meio mundo de queixo caído. 

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Ladrões honestos ou ladrões desiludidos? Um Picasso e um Calvin Klein. Não sei porque é que Robert devolveu 'La coiffeuse' mas o ladrão que tinha roubado o vestido de Lupita achou que, por pérolas falsas, não valia a pena a maçada.



La Coiffeuse





Isto da arte é uma coisa relativa. Por mais que se tente perceber o que é a arte e o que distingue o que é do que não é arte ou que se tente perceber qual o justo valor de uma peça, está quieto. Cada um diz a sua. E se os há entendidos a opinar sobre tão esotérico assunto...! Ele há-os historiadores, filósofos, sociólogos. Por vezes gosto de passar os olhos pelas teorias que explanam. Conversa, claro, porque ciência não há.

Se há coisa que me assusta é ir pela primeira vez a casa de pessoas que acham que têm uma casa muito bonita, com boas peças decorativas ou com quadros autênticos, de pintores reconhecidos, e eu, ao chegar lá, olhar para aqui e ficar bloqueada, por mais que queira dizer uma palavra simpática, quase não me ocorre nada. Digo então que a casa é grande, boa, espaçosa, que é simpática, coisas assim. 

Quando andava à procura desta casa em que agora vivo, vimos muitas outras. Coisas de susto. Casas escuras, quadros que por pouco não são colocados perto do tecto, sofás de pele escura ao lado de móveis escuros sobre carpetes escuras. Mais parecia que as pessoas ali estavam quase enterradas vivas. Agora que escrevo, lembro-me de uma moradia fenomenal. Belo jardim, belas divisões. A senhora, elegante e com bom ar, estava desolada. Quase de lágrimas nos olhos, contou-me que o marido a tinha deixado e tinham que vender a casa pois não tinham chegado a acordo para poder ser de outra forma. A senhora falava-me da casa como se fosse uma beleza, um palácio, e toda ela enaltecia a decoração, os quadros, tudo coisas valiosas, dizia ela e, infeliz, contava que não chegavam a acordo sobre a forma de as dividir entre eles. Lamentava-se, 'Uma vida...'. E eu olhava para aquilo e só me apetecia fugir.

Tudo tão relativo.

Uma vez, quando a empresa readaptou as instalações, procurava-se o que se pôr nas paredes de uma nova sala de reuniões. No resto  do edifício as pinturas são sempre óleos antigos, pinturas mais do que clássicas ou gravuras antigas, Aqui ou ali umas serigrafias mas tudo do mais convencional que há. Sugeri que naquela sala se pusessem uns grandes quadros de José de Guimarães que eu tinha visto numa galeria. Quem tinha a última palavra torceu o nariz. Pedi, então, ao galerista que os levasse lá para que se visse in loco. Eu achei uma maravilha. A sala tinha várias janelas, a luz enchia o espaço, havia umas plantas enormes num dos cantos, a mobília era clássica - e o contraste parecia-me altamente estimulante.

Pois bem, ele não gostou. Chamou colegas, juntou-se ali a equipa tudo e toda a gente torceu o nariz. Apenas um único achou bem. E, no entanto, eu achava as pinturas vibrantes e achava que ficavam ali mesmo a matar.

Tudo relativo.

Vem isto a propósito de quê? 

Bem. Um quadro de Picasso, La Coiffeuse, de 1911, tinha sido roubado em 2001 do armazém do Centro Pompidou. Tinha sido exposto pela última vez em 1998, em Munique. A obra está avaliada em $2.5 milhões. Pois bem. Eis que inesperadamente, chegou a Newark com um cartão cheio de ironia, “Joyeux Noel”. Tinha sido expedido por um tal Robert a partir da Bélgica como um brinquedo de artesanato no valor de $37.


Pablo Picasso quarenta e tal anos depois de ter pintado La Coiffeuse,
no seu estúdio com Brigitte Bardot, então com 21 anos

Imagine-se a surpresa.

Especialistas já atestaram a sua autenticidade.

O que teria levado o ladrão a desistir de ficar com La Coiffeuse? Adoraria saber. Quando alguém tem consigo um quadro roubado o que lhe faz? Pendura-o numa parede? Esconde-o? Há filmes sobre isto e a ideia que tenho é que ninguém nunca usufrui em felicidade de uma obra de arte roubada.

Mas houve um outro ladrão que, por estes dias, também devolveu o fruto de um roubo que deu que falar.

O vestido que Lupita Nyongo levou aos Oscares já era esperado com elevada expectativa antes da cerimónia e a expectativa confirmou-se: era uma jóia. E se deu nas vistas quando ela, negra e belíssima, avançou pela passadeira vermelha exibindo o vestido Calvin Klein, todo ele em pérolas, 6.000 pérolas cosidas à mão... O vestido está avaliado em $150,000. 


Será, talvez, heresia colocar ao mesmo nível, neste texto, um quadro de Picasso e um Calvin Klein. Mas, como acima referi, é tudo tão relativo (e, além disso, quem disse que não sou herege?).

O vestido tinha sido roubado do quarto do hotel, as notícias correram mundo e, então, quando menos se esperava, dois dias depois, eis que o vestido está de volta. Apareceu num saco do lixo preto numa casa de banho de um outro hotel.

O ladrão fez saber que retirou duas, tentou vendê-las e ninguém as quis, eram pérolas falsas e, portanto, assim sendo, não estava interessado.

A Calvin Klein está agradecida. Um golpe assim nem nos seus melhores sonhos. Um autêntico golpe publicitário, com a mais ampla repercussão mundial - e ainda por cima gratuito - era algo de que não estava à espera.

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Não faço ideia de quem é cada um dos ladrões e, tomadas as devidas distâncias e proporções, acho que não os deveremos comparar com Passos Coelho (que, à semelhança dos anteriores, voluntariamente, na véspera do Público noticiar o caso, resolveu também pagar a dívida que tinha acumulado por não ter pago a Segurança Social durante 5 anos).


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domingo, março 01, 2015

Estes são alguns dos meus segredos. Ssshhhhhh... ssshhhhhh...


Tenho segredos. E quem os não tem? Uma pessoa sem segredos é uma pessoa sem pele, sem um coração normal.
Tal como a pele tem várias camadas - e uma é aquela debaixo da qual se escondem os segredos mais tácteis - o coração normal tem vários compartimentos, um para a família, outro para os amigos, outro para a vida social (trabalho, vizinhos e assim), e um outro que é para os segredos mais profundos.

Eu tenho alguns segredos. Não posso falar neles senão deixavam de ser segredos.

Mas até podia falar porque eu não sou de verdade. Podia contar os meus segredos e fazer de conta que são verdadeiros e, mesmo assim, continuariam a ser segredos porque, quando desligo o computador, deixo de existir.

Vou fazer isso. Mas schiuu..., baixinho, vou falar muito baixinho, vou falar ao vosso ouvido e depois, por favor, não contem a ninguém, é segredo.


it's. oh. so quiet
it'a oh. so still
you're all alone
and so peaceful until...





Eu sou muitas. Esse talvez seja o meu principal segredo. Há quem pense que eu sou a romântica mulher que caminha à beira do rio e se encanta com veleiros e gaivotas. Há também quem pense que sou a mulher implacável que não tolera um passo em falso. Ou os que me sabem perdida por livros, vagueando entre livros, aqui metida entre livros quando à noite escrevo. E há os que sabem que sou uma mulher que se dá por inteiro à família, razão primeira e última para viver. E há os que conhecem a minha alma apaixonada por tudo o que é novidade, belo, inesperado, sempre disponível para aprender, para conhecer, para descobrir.

Mas eu sei que há mais. 

Há uma mulher que gosta de percorrer caminhos solitários nos quais a noite se perde, que gosta de se aventurar por jardins selvagens, sem bússola, sem destino, sem propósito. Há uma mulher que gosta de entrar na alma dos outros como outros se aventuram pelo ventre da terra, por arriscadas grutas. Há uma mulher que deixa que as asas se soltem com vagar e que voa, sem medo, para lugares tão longe da terra, lugares onde o oxigénio se rarefaz, onde a respiração é quase impossível, onde só o fulgor de um afecto muito puro consegue resistir.




Eu sei que há quem não compreenda como se pode ser assim, parecendo não ser uma mas muitas. Interrogar-se-ão sobre como se colam as partes entre si. Mas é que eu tenho um outro segredo. As partes não colam entre si. Quando sou uma, sou só essa, esqueço-me das outras. Sou eu inteira em cada uma. Uma não trai as outras porque cada uma desaparece quando dá lugar a outra.

Com as crianças, eu brinco, encho-as de beijos, abraço-as, dou-lhes colo, faço tudo por elas e o meu coração transborda quando se vêm encostar a mim, meigas, ouvindo-me. Conto-lhes histórias de sereias, de golfinhos que descobrem tesouros no fundo do mar, e comboios malucos que pregam sustos a meninos. E os meninos escutam, juntam pormenores às histórias, rimo-nos, vivemos dentro dessas histórias inventadas.




Nessas alturas desconheço a mulher que ainda agora andou por aí a percorrer casas adormecidas, a ler as palavras que outros soltaram no espaço. 

Gosto muito de ler as palavras dos outros quando a noite deixa o mundo silencioso. 

Leio palavras de solidão, palavras de espanto, palavras de dor ou raiva, palavras de dúvida. Muitos procuram nas palavras de outros a explicação para as suas perplexidades. Alguns tentam perceber que coisa é essa do amor e procuram nos poetas, nos santos, nos anjos o sentido verdadeiro desse sentimento primordial. Outros mostram-se perdidos.

E eu, voando, voando, silenciosa, com vontade de soltar flores, palavras, abraços, beijos, laços, abraços. 




Mas, se calhar, sou ainda outras e não sei. Como me vêem os meus Leitores? Se calhar imaginam-me etérea, suspirando por poemas, sonhando com flores e tendo pensamentos brancos de tão piedosos. E essa eu acho que não sou. Outros imaginar-me-ão truculenta, faladora, subversiva, violenta e eu acho que essa eu também não sou. Ou sabedora de muita ciência ou de muita literatura e muito sabedora eu acho que também não sou. Ou contraditória, enfeitada com tolices, e isso eu não digo que não sou.

E tenho um outro segredo. Se calhar eu não sou uma mulher de verdade, se calhar eu sou apenas fruto da vossa imaginação. 

Posso, então, ser uma deusa, perfeita. Ou posso não passar de uma fantasia, excessiva, superficial. Ou posso der feita de muitas cores, de brilhos, de sorrisos. Ou posso ser uma sombra invisível que atravessa a noite. Ou uma partícula cuja presença apenas é perceptível pelo rasto de palavras que deixa à sua passagem.




E outro segredo: a verdade é que eu não sei definir-me nem acho que isso interesse. Deve ser por isso que também nunca tiro fotografias a mim própria. Prefiro não me conhecer, prefiro ir-me descobrindo ou, melhor, ir deixando que outros me descubram. Que me construam, me desenhem, me inventem. 

Por vezes sonho que alguém, aí longe, me desenha como uma mulher inventada, me transporta pelos céus, me escreve palavras azuis, hesitando, temendo despenhar-se. Perigosos são os abismos onde a sedução se desdobra, sedosa, atraente, irresistível, eu sei. Sonhos inofensivos porque sou, de facto, uma mulher inventada.

Outras vezes, imagino que alguém preso nos labirintos do temor, me estende a mão e que eu ouço, ao longe, a sua voz e estendo também a minha, entrego o calor da minha pele, a minha companhia, e sei dizer as palavras que aliviarão os seus medos, anseios. Ou que as pessoas fecham os olhos e, em pensamento, ouvem as palavras que eu lhes diria.

Não sou normal, eu sei. Deveria calar estes segredos. 

Mas, como sou uma mulher inventada, se calhar estes segredos são apenas sonhos, palavras que se soltaram e pousaram aqui sem nexo. Por isso, esqueçam, façam de conta que eu não disse nada.



ssshhhhhh...

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I love your eyes, my dear
Their splendid sparkling fire

When suddenly you raise them so
To cast a swift embracing glance

Like lightning flashing in the sky
But there's a charm that is greater still

When my love's eyes are lowered
When all is fired by passion's kiss

And through the downcast lashes
I see the dull flame of desire
...


As fotografias mostram Björk Guðmundsdóttir, mais conhecida apenas por Björk, 49 anos, uma mulher livre, um exemplo de modernidade. A primeira canção que interpreta é It's oh so quiet; a segunda, em conjunto com é Antony Hegarty, é Dull Flame of Desire

Entre 8 de Março e 7 de Junho uma exposição dedicada a Björk estará presente no MoMA.

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Permitam que vos alerte: sobre o homem nu apanhado a descer de uma janela do Palácio de Buckingham falo no post abaixo e, para que não se pense que é ficção, mostro o respectivo vídeo.

Mais abaixo ainda tenho 3 anedotas, a do Sr. Pereira, a do gato esfolado e a do láparo relapso.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

[E agora vou desligar o computador e evaporar-me]

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Homem nu é visto a descer por um lençol de uma janela do Palácio de Buckingham. Uma fuga aparatosa ou uma encenação macaca? A família real não comenta.


Depois das três anedotas mais abaixo (a do comestível Sr. Pereira, a do gato esfolado e a da não contribuição para a Segurança Social por parte do láparo), eis a quarta.

O vídeo está a tornar-se viral, os jornais especulam: é real ou falso?

Mas, confesso, não percebo a pergunta. O homem que desce por um lençol a partir de uma janela do palácio é um homem a sério, o palácio de Buckingham é mesmo o palácio de Buckingham, que o homem dá uma queda valente também parece que sim. Por isso, verdadeiro aquilo é. Agora pode ser o anúncio de um filme...? O homem um duplo? Ou será mesmo alguém apanhado com as calças na mão? Não se sabe. 



Mas tem graça.

Já andaram pelos hospitais a tentar saber se deu entrada algum homem nu, só com uma meia, que mostre ter caído de uma altura razoável - e parece que não. A família real também não se pronuncia.

E eu não sei que mais diga a não ser que me parece extraordinário e que gostava que acontecesse uma coisa assim cá no burgo. Um homem a nu a descer o muro do Palácio de Belém, depois a correr à frente dos pastéis de Belém, a entrar esbaforido pelo CCB. Gostava. 

Mas aqui, nesta piolheira, nunca acontece nada que tenha graça. Um presidente que parece uma múmia e que, quando abre a boca, é para nos indispor, uma ministra que encarnou no corpo de uma caniche, um primeiro-ministro que não desconta para a segurança social, isto depois de ter andado por ongs e tecnoformas e de ter como principal mérito abrir todas as portas, outro que dá cabo dos hospitais, outro que dá cabo do ensino, outro que se entretém a saltar em cima de linhas vermelhas e a dizer brincalhotices, outra que dá cabo dos tribunais, outro que vai ao parlamento parecendo que está com os copos. E é capaz de haver mais uns quantos tristes. Engraçado mesmo só me lembro do saudoso vai-estudar-ó-relvas mas até esse se fartou da piolheira.



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Já agora: sigam, por favor, para as três anedotas já abaixo.

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O eficiente Sr. Pereira, grande gestor. O gato esfolado pelas Finanças. E, do Público, a terceira anedota: "Passos Coelho acumulou dívidas à Segurança Social durante cinco anos".


O difícil mundo dos negócios exige gestores à altura. Reduzir custos é muitas vezes imperioso e sorte de quem nunca se viu nessa situação, seja em que lado da mesa for. 

O Sr. Pereira enviou a sua directora de Recursos Humanos avaliar qual o funcionário que deveria ser demitido.

Demitido - Área 58



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Primeiro-ministro afirma que nunca foi notificado da dívida, criada entre 1999 e 2004, e que ela prescreveu em 2009, facto de que diz ter tomado conhecimento em 2012. Apesar disso adianta que pagou já este mês, voluntariamente, cerca de 4 mil euros, depois de ser questionado pelo PÚBLICO.


O primeiro-ministro explica que, já em 2012, depois de estar a chefiar o Governo há cerca de um ano, foi confrontado — não dizendo por quem — com dúvidas sobre a regularidade da sua situação contributiva. Nessa altura, acrescenta, questionou o Centro Distrital de Segurança Social de Lisboa, tendo-lhe sido respondido que “estava registada a quantia de 2880,26 euros, acrescida de juros de mora à taxa legal em vigor”.

Independentemente do facto de a referida quantia corresponder aproximadamente à dívida que tinha em Agosto de 2002 — segundo os documentos obtidos pelo PÚBLICO — e não incluir a que foi gerada desde essa data até Setembro de 2004 (atingindo o total de 5016 euros), a resposta do gabinete do primeiro-ministro confirma que, pelo menos entre 1999 e o Verão de 2002, Passos Coelho nada pagou à Segurança Social.

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De um mail enviado por um Leitor:

É possível supor que somos governados por gente séria e que um qualquer Passos, que acumula casos atrás de casos, não tem vergonha na cara?

É sequer possível imaginar que um ministro “lambreta” não passa, desculpe a linguagem, de um cagalhão com duas rodas?

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sábado, fevereiro 28, 2015

One sleepy woman - que é como quem diz: se soubessem a pedrada com que estou depois do vendaval que houve aqui em casa...!


Two sleepy people by dawn's early light
And too much in love to say goodnight






Depois de um dia de trabalho, fui buscar dois dos pimentinhas e trouxe-os cá para casa. Juntou-se-nos a troupe completa do outro lado. Éramos oito num jantar preparado à pressão. 
Arroz branco a acompanhar cheese-burgers caseiros. Comprei na quinta à noite lombo que pedi para picar. Esta sexta à noite temperei com sal e separei em porções. Espalmo uma bola de carne, depois ponho um bom bocado de queijo ralado, quase uma bola, e faço uma tampa com outra porção de carne picada. Espalmo para ficar com formato de hamburger. Frito os hamburgers em azeite com dentes de alho e louro. O queijo por dentro fica derretido, bom. Entretanto, o meu marido tinha ido buscar duas pizzas grandes feitas em forno de lenha, uma com frango, queijo, nozes e rúcula e outra vegetariana com queijo de cabra e espinafres, deliciosas. Fiz salada com alface, agrião, rúcula, tomate, maçã e mozzarela fresca, temperada com azeite. 
Festa como sempre. Depois de jantar vão a correr para uma das salas e a brincadeira agora é que é dia de festa, têm que arranjar a sala, afastar móveis, reorganizar tudo para poder acomodar os convidados, cadeiras de um lado, zona da comida do outro. Claro que é ela que distribui os papéis e os os rapazes carregam puffs, cadeiras, mudam almofadas, afastam sofás. Uma coisa do além, em menos de um foguete fica a casa virada do avesso. Apesar de tudo, é preferível isso a irem buscar brinquedos e ficarem pecinhas por todo o lado, debaixo de tudo.




Depois saltam, brincam.

Mas hoje fizeram uma avaria terrível. Há que tempos que eu temia isto. Foram à cozinha perguntar-me se a festa a seguir era o Natal e eu respondi que era a Páscoa. Então, num ápice, a conversa virou para coelhinhos e caça ao tesouro e, em segundos, já andavam todos a esconder coisas para a caça ao tesouro. Avisei-os mil vezes que não queria que mexessem em caixinhas de louça ou peças de vidro. Mas, quando dei por ela, tinham escondido uma coisa dentro de uma caixinha da Vista Alegre e tudo muito à pressa porque era proibido, um levantou a tampa e a tampa escorregou e foi bater na pedra da lareira e a tampa fez-se em duas. Ficaram aflitos, e desculpa Tá, desculpa, claro, e eu desolada. Tenho que, este sábado, arranjar uma cola para cerâmica a ver se consigo que fique quase sem se dar por ela. Bolas. O meu marido acha que a culpa é minha, claro, tinha que ser. Que para que é que tenho porcarias por todo o lado? Mas vou pôr onde? Tudo encafuado? A pedra de cima da lareira está atafulhada, era um sítio onde não chegavam, fui pondo para lá tudo o que estava mais abaixo. Agora já lá chegam.

Enfim. Adiante. Todos os males fossem esses.

O mais crescido agora anda com umas cartas que parece que têm hologramas lá dentro, conhece aqueles animais ou monstros ou seres estranhos ou lá o que é aquilo pelo nome e lê os dizeres das cartas e depois vem colocar-me questões sobre o que lê. Não consigo esclarecê-lo porque nada daquilo me é familiar. Têm poderes, fazem coisas que não percebo. 

Ela ri-se à gargalhada, perdida de riso, com as brincadeiras malucas dos rapazes. Volta e meia lá consegue que eles lhe obedeçam naquelas suas organizações mas logo eles se tresmalham e já andam a dar saltos de cima das banquetas ou às lutas.

O mais pequeno trata o primo mais velho pelo segundo nome que é um apelido. Como têm os dois o mesmo nome próprio, ele adoptou, por sua alta recriação, essa estratégia. Imaginem que o segundo nome do primo era Medeiros (que não é, mas é do género). Mas então trata o primo por 'primo Medeiros', o que soa o máximo, um puto de dois anos a dirigir-se ao primo de seis como o Pimo Medeios. E a brincadeira preferida é bater no Pimo Medeios. Como se pode imaginar, o primo defende-se e, por isso, volta e meia dá-lhe com cada piparote que até dói. Por mais que a gente lhe diga para ter cuidado porque o outro é pequenino, numa de instinto de defesa, o outro quase voa. Claro que, habituado como está, ele nem se torce nem se amolga, levanta-se e está como novo, pronto para voltar a picar o Pimo Medeios.




O possante ex-bebé, autêntico carro de choque, continua na do outro dia. O avô perguntou-lhe: Então, pá, já comeste algum patinho? Pesaroso, disse que não. O avô diz-lhe que, para a próxima, vamos ter pato à Pequim para o jantar. Ele não deve fazer ideia do que é Pequim mas ouve pato e diz que está bem. Depois acrescenta: 'E piu-piu tamém, tamém gótu comê piu-piu'. Fico estarrecida. Confirmo 'Piu-piu...?' e ele diz que sim mas depois acrescenta 'Mas como vamo bujcá ó chéu? Os piu-piu andam no chéu...' Lá lhe digo que esses não se comem. Credo, para o que lhe havia de dar. No meio da semana saíu-se com outra. Disse à mãe que queria comê puquinos. A mãe admirada, puquinos? E ele, tipo hello..., disse 'Mãe... rhrh-rhrhr', fazendo o barulho dos porcos. E acrescentou 'Eu gótu comê tudo, as oêlhas, as patinas'. 

Deve ter sido porque no outro dia, quando comemos cozido à portuguesa, o tio mostrou-lhe que comia tudo isso, deu-lhe a provar e ele, muito admirado, e apesar do incómodo da mãe, comeu e gostou. E agora anda armado em carnívoro troglodita, a pensar em comer tudo o que mexe, credo. 

Enfim. 

E comem que nem uns lobos. Jantaram como se não comessem há dias. Pois bem, há bocado o dito ex-bebé quis comer pão. Os tios e primos já se tinham ido embora e eles os dois não queriam dormir, na perspectiva de ainda irem dormir à sua própria casa. O avô arranjou-lhe uma sandes enorme, um despropósito, com duas fatias grandes de pão saloio com manteiga. Quis também com queijo. E, quando a sandocha já ia a meio, perguntou-me 'E não há chaumão fuimado?' Salmão fumado à meia-noite? Que não, já não tinha, já tinham acabado com ele antes de jantar. Por isso, ficou-se por ali. O mais crescido estava era numa de um prato de cerelac. Provavelmente comeu-o quando chegou a casa. Não há explicação.

Resultado? Só consegui pegar no computador há bocadinho e, nem imaginam, estou completamente perdida de sono, mal consigo escrever, nem sei se o que acabaram de ler faz algum sentido. Vim aqui só mesmo para vos dizer que gosto que saibam que penso em vocês, meus Caros Leitores, que não quero deixar de vos dizer olá. Tenho vários mails para responder, um dos quais muito especial e ao qual quero responder com tempo e cuidado. A ver se este sábado ou no domingo consigo pôr as respostas em dia mas já não digo nada pois, quando penso que não tenho programa para cada hora do dia, logo, logo, alguém se encarrega de a preencher. Mas, como é sabido, não me queixo, tenho é uma sorte do caraças - mas, depois, aqui, enquanto escrevo, bocejo, fecho os olhos, deixo-me dormir.

Vou mas é para a cama a ver se durmo de olhos fechados, se sonho com música desenhada nos ares, com folhas voando como pássaros, com surpresas boas, com esperados e inesperados afectos, com letras que se desenhem no meu coração, com sorrisos verdadeiros, com abraços que me aconcheguem a alma.



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  • A música é Two Sleepy People por Silje Nergaard
  • As fotografias são de Anil Saxena (de Mumbay, India) que usa o photoshop para fotografar sonhos.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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