Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, junho 22, 2017

Outros tempos.
Sem pena, sem arrependimento


Depois de um dia de ausência -- de novo uma ausência -- Lu saíu da abulia e voltou a si, à sua rotina. Durante todo o dia escrevia memórias, tentando localizá-las no tempo. Aos poucos, ia conseguindo cartografar a sua existência que dias antes lhe parecia vazia.

Agora, a rotina estava mais consolidada. Escrevia até estar exausta, os músculos doridos, a nuca em fogo.




De manhã, quando chegava à sala, relia o que tinha escrito na véspera. Espantava-se com o que ali encontrava. Era a sua vida, disso não tinha dúvidas, mas era como se se tivesse passado num tempo que não era o seu ou como se apenas tivesse sido espectadora do que se tinha passado.

Naquele dia, tinha acordado a pensar num episódio que, na altura, a tinha divertido. 

Tinham combinado que uma certa pessoa não era 'grande espingarda' e que, portanto, deveria saltar. Falavam assim: 'aquele não é grande espingarda, tem que saltar'. Há já algum tempo que ele a mantinha ao corrente do que fazia para que fosse o outro a querer sair de livre vontade: atribuía-lhe objectivos irrealizáveis, não lhe dava as condições mínimas para que ele conseguisse fazer alguma coisa, 'apertava' com ele dia e noite, em privado e em público. Ela lembra-se agora bem de como um dia, numa reunião com a grande mesa orlada de gente, ele ter interpelado o outro, perguntando-lhe como estava um determinado assunto. O outro queria explicar as dificuldades mas ele não o deixava. O outro era sucessivamente interrompido 'não quero desculpas, quero resultados', dizia ele com voz melíflua, sem levantar a voz mas deixando aperceber uma violência em crescendo. Ninguém ousava interromper aquela tortura. 'Não conseguiu fazer nada do que se pretendia. Avanços: zero. Certo?' e, quando o outro, uma vez mais, queria invocar a impossibilidade da missão, ele a interromper, voz seca, 'Sim ou não?'. O outro, quase sem voz: 'Não' e ele 'Ok, era o que eu queria ouvir', logo mudando de assunto, deixando o pobre homem humilhado, isolado naquela mesa cheia de cobardes. Lembra-se de assistir a isso sem emoção, sem compaixão, quase achando graça à crucificação do outro.

Dias depois, ele disse-lhe 'vamos ali falar com o gajo, vamos arrumar o assunto'. Ela não percebeu: 'E que tenho eu a ver com o assunto?'. 'Tens, vais ficar com a incumbência de o despachar e arranjar alguém para o lugar dele'. Aceitou sem protestar. Tudo aquilo lhe parecia normal. Era assim que as coisas se passavam. 

Na sala, grande e propositadamente desconfortável, uma mesa em U, aberta ao meio, ele e ela de um lado, o outro. longe, em frente. De novo um interrogatório feroz, de novo o outro a derrapar, a fraquejar e ele, sem dó, a apertar. De vez em quando, ele virava-se para ela, pedia-lhe opinião e ela, cínica, tão cínica, improvisava ali uma solução qualquer. Reparava que o outro abanava a cabeça, achando que o que ela dizia não fazia sentido mas ela respondia: 'Está a abanar a cabeça? Não concorda? Mas tem alternativas? Se tem, porque não as pôs ainda em prática?' E o homem, infeliz, a acabar por fazer aquilo que se esperava dele: 'Desisto. Estou a dar cabo da minha saúde. Não aguento mais isto. Demitam-me.' e ele, frio, 'Nós demiti-lo... ? Não senhor. Nós contamos consigo, ora essa'. E então, finalmente, a rendição total: 'Então, demito-me eu. Não aguento mais isto'.

E ele, frio, 'Muito bem, se sente que a saúde não está bem, não quero ficar com esse peso na consciência. É escrever uma carta e entregá-la à doutora, ela encarregar-se-á de tratar das coisas o melhor possível. A companhia tem esta tradição, tratar com humanidade todos os seus'.

E, quando o pobre coitado, arrumava os papéis, derrotado, amedrontado, ele encostou-se mais a ela e disse em voz baixa 'Nisto só vejo um problema' e ela, já solidária na preocupação: 'Sim... qual...?' Ele, voz sussurrada: 'É a mesa ser aberta, vê-se tudo. É que essas pernas estão um apetite'. Lembra-se de como teve que disfarçar, cheia de vontade de rir.

Mas, logo que o outro saíu, desforrou-se: provocou-o, vingou-se da maldade dele mas toda ela era malícia -- e queria lá ela lá saber da maldade dele ou do triste destino que esperava o outro pobre, era mais um assunto resolvido e o resto era conversa -- naquela altura já só queria era divertir-se. E, então, depois de muito o tentar, deixou que, ali mesmo, ele provasse o fruto proibido.

Enquanto escreve, e escreve com distanciamento, olha a mesa em frente e pousa o olhar no belo objecto de vidro que, um dia, ele lhe ofereceu. 


Foi outro daqueles dias. Fazia anos. Tinha querido ter um dia de férias, ir à praia, ao cinema, descansar. Na véspera, à noite, um telefonema dele. Era a atribuição de bolsas de mérito a jovens que se tinham candidatado. Apresentavam um projecto, havia uma comissão que fazia uma selecção e uma validação técnica, depois um júri que analisava as candidaturas seleccionadas e, então, havia uma sessão solene, com convidados e, no fim, era atribuído um prémio especial. Pelo meio havia música, projecção de filmes. Ela deveria estar presente, claro, mas, com antecedência, fizera saber que não ia poder ir. Pois de véspera, à noite, uma vez mais ele dizia que não podia ir, um compromisso de última hora, ela que o representasse. Ela que não. Não lhe disse que fazia anos, disse apenas que precisava de descansar, que tinha planos, que há que séculos ele estava avisado. Mas ele não sabia receber um não como resposta e ela não tinha paciência para o contrariar.


Foi. Contrafeita. Quando ao fim do dia chegou a casa, aborrecida, estava ele à porta do prédio, presente na mão. Foram a beijar-se no elevador preparando-se para festejar o aniversário. De vez em quando ele conseguia surpreendê-la: teria jurado que ele não se lembraria que fazia anos e, afinal, tinha aparecido com aquela peça tão bonita, a mesma que uma vez ela tinha desejado, num dia de verão, quando tinham ido à procura das obras do Pde Manuel Antunes. E ali estava ele, terno como um namorado, beijando-a, olhando-a nos olhos, pondo-lhe um chapéu sobre os cabelos despenteados, pedindo-lhe que se despisse para ele, que desabotoasse a camisa, devagar. E ela fazendo o que ele pedia mas não para prazer dele mas para seu próprio prazer. Gostava de ver o efeito que o seu desejo provocava nele.


Depois, mais tarde, corpo com corpo, ele foi o de sempre, convicto e falando indecências. E, só pela forma desprendida e obscena dele se entregar ao sexo, ela lhe desculpava tudo o resto.
O que também não era bem verdade pois, para ser completamente sincera, não lhe atribuía culpas nenhumas, de nada, já que ela, compactuando com ele, na prática era igual.
Depois, já tarde, nessa noite, ele sentou-a, nua, ao seu colo e puxando-lhe o cabelo para um lado, disse-lhe: 'Escuta. Fixa este nome: MyGodess. Era para ser para mim mas houve uma troca de mãos. Fica para ti. Tens lá um presente. Considera que é um bónus. Vou deixar aqui os dados.'. Ela olhou, sem grande interesse. ouviu palavras como 'o pêlo do cão', 'offshore', 'tudo certinho, limpinho'. Mexeu nos papéis. Viu um número com alguns zeros. Não estranhou. Era esse o mundo em que também se movimentavam.


Era já de madrugada quando ele se levantou, 'Tenho que ir. Reuniões de partir pedra, estas, as horas passam e não se chega a lado nenhum. Sorte tem a minha mulher que é artista, não tem que aturar estes gajos, chatos, que só estão bem a pôr areia na engrenagem. Estou farto de lhe dizer isso, a sorte que tens, sabes lá a seca que são estas reuniões que vão pela noite dentro'. Ela olhou-o de lado, divertida. Não que o achasse um bom malandro, talvez antes um belo sacana. Mas até por isso lhe achava graça.

E, escrevendo tudo isto, parecia-lhe que tudo se tinha passado há muito tempo. E, no entanto, pensando bem, não fora assim há tanto. E não sentia pena nem arrependimento pois parecia que as recordações eram de outra que não ela.

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Este texto que acabo de escrever vem na continuação daquele outro que escrevi quando me sentia mergulhada em tristeza: Numa noite sem palavras.

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E, não que tenha a ver com o que acima se escreveu mas porque sou dada à cultura geral e específica e gosto de partilhar o que julgo saber, queiram, por favor, saber as últimas sobre o clítoris -- para ver se acabamos de vez com a cliteracia

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Contra o obscurantismo... marchar, marchar!
[Afinal já estamos no século XXI, caraças. Como ainda tanta cliteracia...? Como, senhores...?]



O tema de hoje não é inédito no Um Jeito Manso. Mas não é de estranhar porque este é um lugar que é quase um gineceu. Bem, talvez não. Os homens são aqui muito bem vindos. Mas, enfim, não levem a mal, apenas como meros voyeurs. Observadores, em português. Ou, vá, como convidados.

Mas, portanto, é tema que me apraz. Por exemplo, faz cerca de um ano escrevi um post cujo título rezava assim: 

As mulheres devem pôr o seu clitóris em cima da mesa?

Ou devem começar por libertar os mamilos?


Pouco tempo depois reincidi e o título foi:




Não que o tema me excite a veia prosaica, muito menos a poética, mas tenho um lado dado à ciência que acha graça ao funcionamento das coisas. Portanto, o interesse é -- digamos assim -- científico. Não tivesse eu divergido no ramo da ciência e talvez a botânica ou a biologia estivessem mais vezes aqui presentes. Assim, limito-me aos bonecos, aos desenhos animados... Ou seja, quase poderia dizer que eu é mais bolos, pastelaria fina, bombons, por exemplo.

Ora bem.


Como não sei nada de história, não posso afiançar que seja mesmo mas li que na Grécia antiga o dito era celebrado. Aqueles gregos não eram parvos nenhuns. Depois, nas Idades Médias, o bichinho foi ignorado. A seguir foi a vez dos cientistas deitarem mãos ao assunto e, quais mineiros por grutas e labirintos, acabaram por descobri-lo. Eureka, eureka, ali estava ele -- um organito, um pequeno botanito. Depois, garimpando com atenção, perceberam que, afinal, o botanito tinha umas perninhas. 


E agora vem Lori Malépart-Traversy e resolve educar o pessoal e faz um filme que está a dar que falar. Para já, já ganhou vários prémios, entre os quais o Best Short Film Award no Festival Vues e o Best Documentary no Chicago Feminist Film Festival 2017.


O filme chama-se:

Le clitoris - Animated Documentary


E, como o nome indica, explica o que é, como é e como funciona o único órgão do corpo humano dedicado exclusivamente ao prazer. E que apareça aqui o primeiro machão a achar que é superior às mulheres que terei que lhe atirar com esta. Foram, por acaso, os homens contemplados com tamanha benesse do Criador ou de quem gizou o big plano desta coisa toda? É o foste...

Ora aprendam, se faz favor, que o conhecimento não ocupa lugar e, volta e meia, desce em mim o espírito do serviço público. Ou isso ou aquela inspiração que me faz sentir uma santinha, a vossa bem conhecida Sta UJM. Aprendamos irmãos (e irmãs, como diria o outro).



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Talvez até já.
E, vou já avisando, depois desta lição, quando regressar, espero encontrar-vos já mais instruídos. Bem.

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quarta-feira, junho 21, 2017

E a vida continua


Bombeiro exausto no incêndio de Pedrógão
[Foto de Nuno Botelho no Expresso]




Os jornalistas perseguem agora os sobreviventes e ficam sem reacção quando as pessoas comprovam que a vida continua. A vida sempre continua. Numa aldeia que já tinha pouca gente e onde parte agora morreu, a senhora tratava da sua vida e dizia à repórter de arribação que a ver se, para a próxima, não era pior já que desta tinha escapado. E ria, o ar saudável da floresta no sorriso franco.

Adele com os bombeiros de Chelsea a seguir ao incêndio da Grenfell Tower


Mais à frente, apenas por um momento o senhor se foi abaixo porque, de resto, continuou na sua lida, saudando a sorte que o tinha protegido.

Por muitos dias os jornalistas, tristes aves que gostam de se alimentar de carniça, procurarão por aquelas estradas mortas a lágrima persistente, o homem que chora amparado pelos vizinhos enquanto o carro funerário leva o seu familiar, a recordação sofrida, o idoso que dirá que nunca viu nada assim. Talvez tenham que percorrer muitos quilómetros já que a maioria dirá que já muitas vezes viu as serras num braseiro, chamas de um lado e do outro, nunca tanto como agora, é certo, que desta vez parecia que o demónio andava à solta, vomitando chispas -- mas que a vida continua. E sorriso na cara, enxada na mão, cesto de hortaliças na outra. E a idosa abrigar-se-á na paragem da carreira porque gosta de estar ali a ver quem passa, a paragem é quase a sala de estar da aldeia, e sorrirá com a própria ousadia.

Um dos looks do Royal Ascot deste quente mês de Junho
(um look que eu perfilharia de gosto)

A vida continua. 

Pode a Judite de Sousa afivelar um ar comedido e entredentes insistir na demissão da ministra, pode tentar não ouvir o que António Costa tem de sério a dizer, sugerindo-lhe culpas a eito ou apelando à falta de confiança na equipa que tenta dominar a besta, que a vida continua -- e das pífias intervenções dela e de outros que tais nada sobrará para além do registo do definhamento do jornalismo em Portugal.


Pedrógão, Penela, Rabaçal, Góis.

Aqueles lugares são lindos e quem por aqui me acompanha há algum tempo lembrar-se-á dos meus passeios por estes lugares maravilhosos que agora ardem, o fogo desvairado tudo consumindo à sua passagem, mas que irão renascer, verdes, viçosos, atraindo de novo as flores, os animais, as sombras graciosas.

Escola temporária para acolher crianças Rohingya (perseguidos em Myanmar)


Pode ter falhado alguma coisa. Em situações anómalas é normal que o que está pensado para situações normais apresente falhas. Seria desejável que nada disto tivesse acontecido e que a mãe natureza não tivesse sido malvada. As alterações climáticas têm tradução em factos concretos, não são mera fantasia. E não tenho dúvidas de que, por todo o lado, há coisas a melhorar. Sempre há. Melhor coordenação,  mais meios. Mesmo quando tudo corre bem, é sempre possível melhorar. Mas o que há a fazer é mais, muito mais do que sacrificar cordeiros na praça pública, sejam os cordeiros os técnicos da Protecção Civil, do IPMA, dos Bombeiros, da GNR, dos Operadores de Comunicações, das Autarquias, etc. O que há a fazer é imenso e requer muitas competências, muitos responsáveis, muita coordenação, muito planeamento, muita resiliência para meter mãos a um trabalho árduo, inglório, invisível, impopular. Não é coisa para as Judites de Sousa ou outras aves que tais irem depenicar para terem com que abrir telejornais ou alimentarem ad nauseam debates e trocas de galhardetes entre ignorantes cuja conversa é paga a metro.


Mulheres chinesas a fazerem ioga entre campos em flor (em Jiangsu)


Organizar um país e mudar as possessivas mentalidades (de quem é capaz de rachar a cabeça ao vizinho por uma disputa incompreensível numa extrema da horta), expropriar terras abandonadas, promover a troca entre proprietários, valorizá-las justamente, planear a sua utilização, etc, aldeia a aldeia, serra  a serra, estabelecer jurisdição, afectar recursos a tão invisível e moroso trabalho, delimitar áreas de actuação entre o poder local e o poder central -- tudo isto, como num outro post já o referi, é trabalho de sapa, de persistência. Trabalho para muitos anos.

Uma das praias onde gostaria de voltar: a maravilhosa praia de Saint Malo


E, enquanto isso se fizer, a vida vai continuar. Chorar-se-ão os familiares tão horrivelmente perdidos, lamentar-se-á a casa tão amorosamente reconstruída (como a do Mário, cuja carta hoje me chegou), sofrer-se-ão os pesadelos que voltarão recorrentemente durante muitas noites. Chegarão apoios para a reconstrução, para a reflorestação. E a vida continuará.

Las Cuevas de Mármol  entre o Chile e a Argentina, onde apenas se vai por barco.
As cores da água mudam ao longo do ano

A vida continua. O mundo é diverso. Incêndios, inundações, tornados, suaves brisas, neves, majestosos horizontes onde o sol nasce, onde o sol se põe, Cidades e florestas, rios e grutas, mares e gentes e bichos e árvores e flores e pedras. 

Há que amar a natureza, respeitá-la, honrar a vida, amar a beleza de tudo, há que perceber as coisas a fundo, dar tempo ao tempo, recusar a cultura do efémero, do imediato, da superficialidade, há que pugnar pela verdade, pelo rigor, pela qualidade. Há que aprender alguma coisa com as grandes lições com que a natureza tenta ensinar os insignificantes homens.

Estas casas onde vivem monjes e freiras na província de Sichuan na China faz parte da Academia Budista Larung Gar, agora lugar de conflito


E a vida continua. Ainda bem que continua. Na sua extraordinária diversidade e beleza, a vida continua.

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Vida e Morte -- Rumi



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A primeira foto é do Expresso e as duas últimas são do National Geographic.
As restantes são fotografias do dia do The Guardian


A soprano Hana Blažíková com o Ensemble Tourbillon interpretam 'Il Goder un bel sembiante” de Pietro Baldassare

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Um dia feliz a todos quantos, aí desse lado, me fazem companhia

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terça-feira, junho 20, 2017

Numa noite sem palavras



Depois de muito escrever, um dia viu-se sem palavras. 

Não se assustou. Limitou-se a aceitar a triste condição. 

Fechou as janelas, apagou as luzes e deitou-se no chão. De olhos abertos, fixando a leve penumbra. Quase sem pensar.

Depois fechou os olhos. Sem palavras que acompanhassem a desistência.

E, no entanto, do chão, como que subindo da terra, chegavam-lhe sons, talvez súplicas, talvez preces, talvez apenas silenciosos lamentos. Silenciosos lamentos subindo da terra. Ou, talvez, descendo das estrelas.

Não tentou percebê-los pois bastava-lhe senti-los. Olhos fechados, os braços cruzados sobre os seios nus, um abraço imaginário que, de longe, lhe chegava, um sussurro longínquo que parecia tentar serená-la, a ela, abandonada, sem palavras.

Ouvia uma música mas não sabia se a ouvia, se a sonhava. Alheada, atenta apenas ao silêncio que adivinhava subindo do coração de quem, lá longe, abrindo as mãos, soltava na noite palavras transparentes, generosas como pássaros cantando na suave madrugada.

Mas nada a consolava porque ela estava como que sem vida. 

Tinha ouvido de estradas da morte, de vidas perdidas, de casas queimadas, sabia da cinza que tudo cobria, dos escombros onde as memórias se tinham desfeito, de um homem que sofridamente falava da mulher e das filhas perdidas para o fogo, da avó que quis salvar a neta e com ela se perdeu, sabia de todas essas aflições sem retorno. E, apesar de, nesse momento, lhe parecer que nada mais poderia haver no mundo, impedia as lágrimas, como se as suas lágrimas não fossem dignas da dor alheia, como se não pudesse sofrer por eles, sobretudo porque se sabia cobarde ao não perceber como poderiam aquelas pessoas voltar a viver depois de tamanho sofrimento. As palavras como que tinham sido sugadas por aquela desmesurada inclemência. A compaixão que sentia não era nada face à coragem dos que sabiam continuar de pé. Ela não. Ela caída, exangue, quase sem respirar. As palavras tinham desaparecido e as que, de longe, lhe chegavam em vão tentavam acordá-la. Em vão. Em vão. Um sono pesado parecia abater-se sobre o seu corpo derrotado. Ouvia-se dizer, como se o dissesse sem palavras, apenas com um olhar triste como nunca ninguém o tinha visto: deixa-me chorar.

Lascia Ch'io Pianga, ouvia como que num sonho emudecido, perdido entre pesadas nuvens. Lascia Ch'io Pianga. 

E, então, as súplicas pararam, a música estancou, a penumbra escureceu. E, como que perdida num imenso vazio, entre silêncio e sombras, deixou que as lágrimas corressem, sem palavras, inundando a desolada noite.

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Não sei se o texto que acabei de escrever vem na continuação de Um coração negro como a noite

E continua em Outros tempos. Sem pena, sem arrependimento

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segunda-feira, junho 19, 2017

Com parte do meu país caído num inferno em chamas, não quero perder tempo a perguntar:
de quem é a culpa?
[E, depois de se mostrar junto a um corpo queimado (e, vá lá, tapado), o despropósito de Judite de Sousa junto da Ministra Constança Urbano de Sousa perguntando-lhe se não se demite se o número de mortos ultrapassar o da Ponte de Entre-os-Rios]


Estou na minha casa na cidade. O ar condicionado está ligado. A temperatura aqui na sala é agradável. Na televisão vejo carros queimados, ouço pessoas contando a sua angústia. O calor dos incêndios que ainda lavram não chega aqui. O cheiro a cinza e desolação não perturba a tranquilidade que me rodeia.


Limito-me a sentir o calor do inferno através das imagens que a televisão não se cansa de mostrar. Começaram a chegar os comentadores mas, felizmente, pelo menos do que tenho visto, têm tido a decência de chamar gente que sabe de florestas. Engenheiros, gente que fala uma linguagem técnica, que parece fazer sentido.

Não deslizo facilmente para as conversas de efeito, não adiro instantaneamente a movimentos de massas em que todos choram ou gritam ou cantam em uníssono. Não sou de andar em procissões com velas na mão e orações na boca ou em manifestações com bandeiras e palavras de ordem. Tendo a pensar por mim e tento guardar algum distanciamento das situações em que a exponenciação emocional facilmente tolda o discernimento, tentando que a racionalidade sobreviva à efervescência imediatista que, não raramente, é péssima conselheira e, frequentemente, produz efeitos nenhuns ou efémeros.


Episódios climatéricos extremos e conjugados dificilmente se controlam com meios dimensionados para situações normais. Esquecer isto é esquecer a luta contra o aquecimento global e a favor da defesa sustentada do planeta. É do domínio da bipolaridade ser um defensor do ambiente e de outras causas nobres e justas e, ao primeiro sinal de que o aquecimento extremo começa a aparecer com alguma frequência, atribuir culpas à ministra ou ao senhor que atira foguetes na festa da aldeia.

Também de nada serve olhar para o mato na beira da estrata e querer tirar consequências que são banalidades mil vezes repetidas. Ordenar territorialmente um país composto por pequenas parcelas não é coisa sobre a qual se fale com ligeireza, camuflando a ignorância com pedidos de demissão ad hoc. Falar à boca cheia da incúria de quem não cuida do seu mato é não saber que grande parte dos pequenos proprietários é gente que herdou parcelas mas que vive longe, nas cidades, gente remediada, sem dinheiro e sem conhecimentos para saber como melhor limpar ou organizar os pedaços de terra que, mais do que riqueza, são um peso e uma fonte de problemas.

Não posso falar do que não conheço mas sei o suficiente para poder afirmar que parte do mal do meu país é ter sido governado, vezes de mais, por gente impreparada, ignorante. E refiro-me não apenas ao governo propriamente dito mas também às autarquias, frequentemente nas mãos de interesses partidários do mais primário que se possa imaginar, gente viciada em jogos de interesses de baixo calibre, caciquismo iletrado e estúpido.


Ordenar territorialmente um país não é coisa para meses, sequer para meia dúzia de anos: é coisa para uma geração, talvez até mais. E requer inteligência, liderança, conhecimento, amor ao país, elevação de espírito -- e persistência, muita, muita persistência. Não é coisa para ser discutida nas redes sociais onde se pede a demissão de alguém entre selfies e fotografias de saladas, para comentadores que comentam tudo o que vem à rede, para jornalistas que fazem reportagens orgásticas no meio de escombros e famílias apavoradas. Organizar territorialmente um país e, nomeadamente, pensar a gestão de florestas e de baldios é assunto sério e muito pouco mediático.



Tomara que este Governo e este Presidente da República percebam isso e saibam transmitir a um país em estado de comoção que não é apontando o dedo a um ou outro bode expiatório que se resolve o que quer que seja: é, por uma vez, introduzindo seriedade e ponderação na reflexão que é preciso levar a cabo, com vista a traçar um plano plurianual que coloque o interesse de Portugal acima do interesse dos partidos.


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As fotografias provêm do Público. A última é de Adriano Miranda.

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Post scriptum

Não tenho vontade de comentar a atitude de alguns jornalistas que exploram ad nauseam os sentimentos de perda da população ou o efeito de devastação que um incêndio desta dimensão forçosamente deixa para trás. Vi imagens patéticas que diminuem a já de si débil imagem do jornalismo que se pratica em Portugal e apenas posso dizer que lamento que as estações não transmitam instruções aos seus funcionários para respeitarem a situação e não se portarem como abutres à solta. 


No entanto, apesar de não me apetecer falar nisso -- porque me incomoda demais e porque penso que esta comunicação social desenfreada na busca de shares tem sido em grande parte culpada pela mediocridade que se instalou na maneira de pensar das pessoas -- não posso deixar de me referir, ainda que brevemente, a Judite de Sousa. 


[Vídeo mostrando Judite de Sousa junto a um corpo queimado 

-- o exemplo de quão baixo o jornalismo pode descer]



Depois de a ter visto de microfone em punho mostrando que vale tudo, junto de corpos sem vida e sobre amontoados de paredes ruídas e a andar, histericamente, de marcha atrás pela fatídica estrada, sempre a puxar à reacção emotiva, vi-a, num absoluto despropósito e com total insensibilidade, a fazer a contabilidade comparativa de mortos face ao caso da ponte de Entre-os-Rios, perguntando à exausta ministra Constança Urbano de Sousa se, caso o número de mortes aumente, não faz como o Jorge Coelho e não se demite. Acho que a falta de ética, de decoro, de respeito pela situação e pela sua própria dignidade atingiu, nesse momento, um nível demasiado baixo. 


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domingo, junho 18, 2017

Horror



A minha mãe ligou de manhã. Achava melhor nós virmo-nos já embora, viu na meteorologia o calor que aqui faz, tem medo das árvores perto da casa. Depois, embalada pelo medo, já receava o mato no fim da rua dela e interrogava-se sobre o que fazer numa aflição assim, com o meu pai sem andar. Nestas ocasiões assusta-se, tudo se transforma em drama e riscos aterradores. Perguntei-lhe se também não tinha medo de tornados, inundações, e toda a espécie de acts of god. Diz que sim, também.  Insiste: 'Mas numa situação assim, com o teu pai, o que faria eu?'. Digo-lhe que a única maneira seria arranjar bombeiros que o transportassem. Volta a insistir: 'Mas a terem que apagar o fogo, tinham lá tempo para ir buscar uma pessoa a casa, transportá-lo de maca?'. Interrompo-a: 'Se não aconteceu nada convosco, para quê isso de estar a querer immaginar toda a espécie de desgraças?' Digo-lhe que uma pessoa pôr-se a ter medo de coisas que não controla é pura perda de tempo. Reconhece que talvez seja. 

Ontem à noitinha, quando falei com ela, queixava-se que o tempo estava estranho, muito calor, um vendaval, as árvores do quintal quase a quererem voar e os relâmpagos assustadores. Dizia que estava com medo, que tinha medo das trovoadas secas. Que ia cedo para a cama, que o tempo assim estava a assustá-la.

E, de facto, também aqui, ontem, ao cair da noite, o tempo quase metia medo. Um calor insuportável e, de um lado, o céu que parecia em chamas (conforme se vê nas fotografias) e, do outro, um céu carregado, anunciando tempestade.


Hoje, por aqui, o céu está meio encoberto, uma névoa cinzenta que sabemos ser fumo e cinza e há um leve cheiro ao incêndio que lavra ao longe. 


Estamos a ver na televisão a situação na zona dos incêndios e a tragédia é de uma dimensão assustadora.


Dizem as notícias que os mortos contados já são 61 e os feridos, alguns em estado grave, são muitos. Se os números assustam, o que se sabe sobre as circunstâncias da morte assusta ainda mais.


O que viveram as pessoas daqueles sítios, o sofrimento e o terror dos que sobreviveram e dos que perderam a vida é qualquer coisa de inimaginável. Face a essa desmesura, todas as conjecturas e todos os medos pessoais me parecem frívolos. 

A consciência da fragilidade da vida em todas as suas dimensões deveria ser permanente em nós. Não há vitórias, sucessos, não há certezas absolutas, não há nada que não pereça perante um golpe de pouca sorte ou perante uma imprevista conjugação de factores aleatórios e descontrolados.

Perante uma tal calamidade e tragédia não consigo apontar o dedo a quem quer que seja. A única coisa que consigo é admirar a força e coragem dos que enfrentam as chamas e o terror, tentando vencer a indomável besta. E sentir uma pena sem palavras pelas pessoas que perderam familiares, casas, animais. Uma pena condoída pelos que viram devoradas pelas inclementes línguas de fogo as próprias vidas ou parte da sua vida.


Um coração negro como a noite







Tinha agora o costume de se sentar no chão, os vidros das janelas completamente abertos. Descobriu uma agenda antiga e um lápis e ia tentando recordar, ano a ano, alguma coisa que, na sua vida, tivesse sido relevante. Como não o conseguisse, passou a fazer ao contrário: tentava recordar algum acontecimento marcante e tentava perceber em que ano tinha isso sido.

De início não se lembrava de quase nada mas, aos poucos, parece que a memória começava a despertar. 

E sentia que esse exercício mental lhe fazia bem, parecia que até lhe trazia apetite. Um dia viu que já não tinha em casa quase nada que comer. Vestiu-se de forma descuidada; mas, antes de sair de casa, voltou atrás, pôs a t-shirt por dentro dos calções, colocou um cinto e um colar -- reminiscências de quando, uma eternidade atrás, não saía de casa sem se sentir irrepreensível (e irresistível). E foi ao supermercado. Soube-lhe bem. O ar da rua, a sensação de liberdade, a simplicidade da situação, tudo lhe foi agradável.

Quando voltou, arrumou tudo, tomou outro duche para se refrescar, e com gosto, dirigiu-se à sala. Escolheu uma música e pôs-se a pensar e a escrever. Não podia falar, dissra-lhe ele, mas podia escrever.

E os dias foram passando. E, aos poucos, foi adquirindo uma nova rotina: pegava num copo de sumo de laranja, em miolos de amêndoa, sentava-se no chão, pegava num banquinho que lhe servia de mesa e, muito concentrada, preparava-se para o exercício. Não sentia emoção ao trazer para o tempo presente acontecimentos que julgava ter esquecido. Encarava isso com a disciplina com que sempre se entregara a todos os trabalhos.

E portanto, era assim que os dias iam passando: de manhã tomava banho, ia para a cozinha já a pensar em episódios que tinha recordado, comia um queijo fresco ou um iogurte e uma peça de fruta -- mas estava absorta e, logo de seguida, como se fosse hábito antigo, dirigia-se para a sala. De facto, quase se sentia motivada. 

Um dia, lembrou-se da ida à Argentina. Tinha-se entusiasmado com a perspectiva de ir para um país lá tão longe mas, de facto, não era pelo país, era apenas porque tinha imaginado que ele ia aproveitar para ir com ela, quase como uma lua de mel. Afinal não conseguiu. Ou disse que não conseguiu. Nunca conseguia. Provavelmente o medo de andar de avião tinha falado mais alto. O homem tão corajoso nos negócios deixava de dormir e tinha que tomar ansiolíticos de cada vez que tinha que andar de avião. Frequentemente, à última hora, inventava uma desculpa e arranjava maneira de ir alguém por ele. Tantas horas de voo para nada. Uma viagem tão difícil, mau tempo no ar, passageiros com ataques de pânico. Depois reuniões complicadas, demoradas. Muitos do outro lado e ela sozinha, apenas com o advogado local. Gente que parecia afável e afinal tão enganadores. Supostamente já estava tudo combinado, ia lá apenas para firmar o acordo e eles, sem que nada o fizesse prever, traiçoeiramente, davam o dito por não dito e queriam introduzir cláusulas que desvirtuavam o acordo.

Podias ter lá ficado mais uns dias, dissera-lhe ele, tom de censura. Talvez. Mas tudo aquilo lhe trazia impaciência. Tinha ido contrariada por ele não ir. E aborrecia-se por ter que, uma vez mais, atravessar o mundo sozinha. E sempre de cara alegre. Até que, naquela vez, não conseguiu manter a aparência, fartou-se. E regressou. De mãos vazias, sem acordo, cansada. Podias lá ter ficado. Não devias ter desistido tão facilmente. As palavras dele naquele seu tom superior, blasé. Fosse ele, pensa ela ainda, tanto tempo depois.

Outra vez. Há quanto tempo? Seis, sete anos? Fez passar a ideia de que estava ali para desenvolver a empresa que tinham comprado a preço de salto. Era a CEO. uma mulher na administração de uma empresa praticamente toda masculina. Os trabalhadores confiantes. Depois de tanta incerteza, finalmente novos donos, finalmente, na administração, alguém que apostava na empresa. E ela sabendo que não, a fingir. Sem preocupações morais, como se estivesse apenas a cumprir uma missão, cínica, cínica todos os dias. Mas, na altura, nem pensava nisso. Decidiu o fecho de delegações, a rescisão de contratos. Emagrecer, ganhar o direito à sobrevivência - dizia. Insensível a casos pessoais. Depois, quando os custos estavam mais equilibrados, nova fase: conquistar quota de mercado. E repetia os clichés todos, o empowerment, a leadership, e decidia formação para todos, e apregoava a felicidade na organização, a motivaçao, vamos todos vestir a camisola, remar na mesma direcção. E, quando os resultados melhoraram, quando a noiva se tornou apetecível, vendeu a um fundo, sabendo que no pacote ia mais uma sangria, o despedimento de mais de metade daquela gente motivada e feliz.

Aquele que tinha sido o seu braço direito, um que orgulhosamente dizia que fazia parte da mobília, ingénuo e dedicado à empresa, sentiu-se traído. Ela sabia que ele seria o primeiro a ser contactado para se ir embora mas não apenas não o avisou como, a partir do momento em que realizou a operação, lavou as mãos das consequências. Sabia que os novos donos não tinham rosto e, portanto, também não existia vestígios de compaixão -- e os trabalhadores identificados como excedentários ou iam a bem ou iam por despedimento colectivo. E ela sem querer saber disso para nada. O encaixe foi excelente. A operação rendeu-lhe um bónus e pêras. Soube que o tal se tinha suicidado. Paciência. Cabeça fraca, disse. Lembra-se da conversa no gabinete do Mr. Big Boss, ela encostada à mesa de reuniões, sedutora, indiferente aos danos colaterias da sua gestão eficaz. Era bem sucedida, conseguia sempre avultadas mais valias para o accionista, e isso era a única coisa que lhe interessava. E ele, olhando a vertiginosa mulher que gostava de o desafiar: 'És perigosa, não és? Não queria ser teu inimigo...' e olhava-a, ar malicioso -- e ela gostava de o tentar, gostava de lhe mostrar que era capaz de o ultrapassar pela direita e pela esquerda.

E, com afinco, Lu escrevia todas estas memórias.

Sem auto-complacência, sem falsos moralismos, páginas e páginas. Escrevia tudo aquilo de que se lembrava. De repente, as recordações -- que dias antes pareciam estar a esvair-se -- voltavam. E voltavam com toda a nitidez.

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Este texto que acabo de escrever vem no seguimento de Sou aquela que transgride o abismo da paixão. Faz parte de um folhetim a que ainda não dei nome. Continuo agarrada a um nome muito inconveniente. Três letrinhas apenas. Mas não pode ser.

Não sendo esse, só se fosse Lu, uma mulher muito perigosa. Mas não sei.

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De ananases
-- ao som de Kiss of fire





Não sei como é que esteve por aí mas, por aqui, esteve um calor marroquino. Uma brasa, um forno. Acima dos 40º.  Até o bebé tivémos que pôr de molho dentro de um alguidar. Se fosse de mostrar fotografias, mostrava-vos. Sentado, os braços apoiados no rebordo, todo consolado.

Tanto calor, tanto, tanto. O resto do pessoal, todo o santo dia, debaixo de água. Ou então cá dentro. A casa, como tem paredes muito largas, conserva-se relativamente fresca.


Mas, ao fim do dia, começou a toldar-se. O céu foi ficando coberto, escuro, cada vez mais escuro. Não do lado da serra que, aí, continuava limpo. Aí, o céu cor de fogo, esplendoroso. Mas do outro lado, a sul, começaram a rebentar relâmpagos e a ameaçar tormenta.

Entretanto, o meu pessoalzinho já chegou a casa e dizem que apanharam tempestade pelo caminho.


Eu não gosto que saber que eles vão pela estrada debaixo de chuvada e trovoada mas estava com vontade que, aqui, caísse uma carga de água para molhar as árvores e a vegetação. Com este calor tenho um medo. Aliás já por aqui passou um helicóptero com um balde, deve ter havido fogo não muito longe. Mas parece que não vai chover.

Depois de todos terem saído -- já jantarados e as crianças supostamente prontas para dormirem que nem umas pedras, tanto brincaram -- fui dar um passeio lá por baixo e estava tudo com umas cores quentes-quentes maravilhosas. Na verdade, um cenário quase irreal. 


Regressámos a casa. A noite foi caindo sobre a serra, debaixo daquele céu on fire. E agora estou com uma ventoinha apontada para mim que é a única maneira possível de estar.

E, como sempre acontece nestes dias, estou cheia de fome. Aliás, mal eles saíram, deu-me a fome. E isto quase a seguir ao jantar. Ao almoço foi a mesma coisa. Acho que, no meio da agitação, o meu cérebro nem dá conta de que estou a comer e dá-me sinal como se fossem horas de refeiçoar (esta do refeiçoar ficou-me da entrevista do outro maluco). Mas já com o meu marido é a mesma coisa. Jantou que se fartou e, quando andávamos a passear lá em baixo, já a querer escurecer, queixava-se que estava cheio de fome. Só visto.

Bem. 

Vou ali agora arrumar mais umas coisas e a ver se é desta que regresso ao meu folhetim. Mas também estou com vontade de ir ler as notícias, ou de ir ler o livro que trouxe. Ou de ir ver o Versalhes. Mas a ver se regresso. Até já.

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(Entretanto, agora que acabei de escrever o post do dito folhetim, acabo de saber da tragédia. Um incêndio brutal em Pedrógão Grande e já 24 vítimas mortais. Que coisa mais horrível. Que coisa mais, mais, mais horrível.


Aliás, vi nas notícias que, este sábado, houve cento e tal incêndios. Os bombeiros exaustos debaixo de um calor inclemente. Que bravos são os bombeiros.

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sábado, junho 17, 2017

No fim do dia





Pode ser difícil de acreditar para quem viva uma vida muito diferente da minha mas, como é bom de ver, não teria interesse nenhum em estar para aqui a inventar. Uns dias ficciono, outros divago, outros divirto-me e outros digo apenas a pura verdade.

Dias longos, com múltiplos afazeres, os meus. Compras no supermercado ao fim do dia. Um carrego.

Agora ainda tenho carne a estufar para amanhã de manhã, antes da abalada, a picar e guardar. Já pus o despertador não vá deixar-me agora aqui dormir e aquilo ainda esturricar tudo. O meu marido, no sofá da outra parede, já dorme a sono solto. Depois já lá, in heaven, de tarde, faço arroz e com a carne picada faço um empadão para o jantar. Pincelo com gema de ovo, ponho ripas de bacon e levo ao forno. E acompanho com salada. Ainda tenho é que ver como hei-de fazer para mim.
Já ontem, dia de festa rija, festa de anos e grande animação (só crianças eram nove) -- mas não foi cá em casa, estava como convidada -- foi um abuso: comi de tudo, incluindo arroz doce, pudim e bolo de anos. E hoje não quis saber de elegâncias e também já comi batatas fritas. Portanto, a ver se durante o fim de semana consigo não tocar em nada dessas coisas (batatas, arroz, massa ou pão). Nem em doces. Portanto, a ver se não me esqueço de levar feijão verde e courgettes para acompanhar o peixe do almoço e a carne do jantar. Uma seca, isto. Está a saber-me lindamente já vestir o 40 ou o M, blusas mais justinhas, sainhas e etc, mas caraças, que disciplinada tenho que ser (e logo eu que sou completamente avessa a sacrifícios).
Bem. Dizia que vou levar a carne já cozinhada e picada. Se não levo estas coisas mais demoradas já adiantadas, lá é quase impossível. Sempre que o pessoal se junta todo, é tanta a gente, tanto o reboliço, o entra e sai e a necessidade de prestar alguma atenção aos mais pequenos que não mais será possível estar descansada na cozinha (ou em qualquer outro lugar). Lá, só o que for rápido, simples, quase imediato. 

O almoço, por exemplo, pode ser feito lá porque é rápido.

Seja como for, a largada vai ter que ser cedo para dar tempo a abrir, lá, a casa, para arrumar as coisas no frigorífico e ter tudo minimamente organizado antes que comecem a chegar. Como sempre, iremos carregados que nem os pretos da Casa Africana (que nunca cheguei a ver mas que os havia consta que os havia) e isto, claro está, sem desprimor para os pretos em geral. Parece que é sina nossa, andar a carregar coisas de um lado para o outro.

Oferecem-se para levar 'os morfos' mas eu não quero, prefiro assim, não me oriento com 'morfos' alheios. De resto, apesar de chegar a esta hora meio a dormir, a verdade é que gosto de ter a casa cheia e de ser eu a organizar e confeccionar o catering. Dizem que é coisa de caranguejos.

Mas, portanto, é isto -- durante o dia, o trabalho que não abranda e, à noite, o que vos conto (e ainda por cima com este calor de ananases). Chego aqui à sala a esta hora e dá-me uma soneira desgraçada. As vezes que eu agora já aqui me passei para o lado de lá. Sono, sono.

À hora de almoço, para ver se me refrescava, fui a um lugar fresquinho de onde vim com uns recuerdos e com uma vontade de chegar a casa mais cedo para lhes dar uma vista de olhos com algum vagar. Impossível. 

E isto já para não falar de um telefonema para a minha mãe que começou comigo a entrar no elevador e eu a dizer que ia ficar sem rede e ela, 'o quê? não ouço nada' até que a chamada caíu, continuou comigo a entrar no supermercado e eu a dizer que ia ficar sem rede e ela 'o quê? Diz lá outra vez, estou a ouvir aos soluços' e, quando voltei a ligar, já eu no parque de estacionamento, estafada, bloqueia-se-me o diabo do telefone -- que inteligência, volta e meio, ele tem pouca. Tive que desligá-lo completamente, voltar a ligar, lembrar-me de qual o pin, e ela: 'então? mas o que é que está a acontecer que não consigo perceber nada do que dizes...?'. Enfim.

Bem. O despertador está a tocar (para isto, ao menos, o telemóvel ainda serve) e vou à cozinha desligar o fogão.

A ver se, quando regressar, consigo ter esperteza para continuar o meu folhetim.


Portanto, talvez até já. Ah, sim, a ficha técnica disto aqui acima: as fotografias provêm do National Geographic e Tinsley Ellis interpreta Early In The Morning.

E ainda estou em dívida para com a minha filha que anda a querer que lhe mande fotografias do fim de semana passado e da festa de anos mas ainda não fai ser hoje, senão é que o meu folhetim perde a embalagem. Talvez amanhã faça isso, ela própria. Se estiver muito, muito calor, vai estar bom é dentro de casa e assim escolhe ela as que quer. São para aí umas trezentas fotografias e ver uma por uma é uma seca do além. Gosto é de fazer fotografias, não de escolher. É como escrever, gosto é de escrever. Agora organizar ou catalogar está quieto...

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Comentário pós-post escrito entre preparativos a 100 a hora

Ontem à noite já não consegui acabar o dito capítulo do folhetim. Adormecia de palavra em palavra. Portanto, talvez hoje à noitinha consiga deitar mãos à coisa.

Até lá, portanto.

Tenham, meus Caros Leitores um sábado muito bom.

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sexta-feira, junho 16, 2017

E a Agência do Medicamento vai para...





Bem. Agora que já troquei umas confidências convosco, inclusivamente mostrando-vos o que vou vestir para enfrentar a canícula, vou dedicar-me a assuntos sérios.

Não é que me apeteça. 
Por mim ia era continuar a escrever o meu folhetim (ainda não lhe dei nome porque só me ocorre um nome mas é um nome tão inconveniente que vou continuar a aguardar até que me ocorra um nome politicamente corrrecto). Mas, enfim, noblesse oblige, cá vou eu mergulhar na pós-actualidade. 
A questão é que não quero que achem que sou uma alienada de meia tigela, uma pipoca que nem sponsorizada consegue ser, uma pseudo putativa ficcionista que o mais que consegue é parir folhetins mal arraçados, uma dondoca só dada a frioleiras, felicidades e outros irritantes estados de espírito, uma zinha qualquer que se alheia das polémicas que incendeiam as redes sociais, os balcões televisivos e as bancadas parlamentares. Não, senhores. Esta que aqui vos serve está sempre com um olho no burro e outro no cigano. Por exemplo, não há uma jericada do láparo que me escape. Posso é ter pena e deixar passar. Ainda ontem ou antes de ontem, coitado, com uma conversa tão indigente sobre aquilo da dívida, a querer colar-se à boa gestão da dívida que o governo do Costa anda a fazer, como se o Costa andasse a fazer o que ele diz, ele que, quando no governo, fez tudo ao contrário. Coitado. Completamente maluco. Mas não falo nisso. Não me agrada bater em defuntos (neste caso, defuntos políticos mas, ainda assim, uma criatura que já não faz parte da vida; da vida política, quero eu dizer). Também não me passam ao lado os ciganos. Por exemplo, fartei-me de rir com as palermices do cão com pulgas. 
Eu sei que há leitores que se incomodam com os meus epítetos e compreendo-os. Também não acho elegante tratar um cão com pulgas por um nome próprio humano. Aliás não sou dessas modas. Cão é cão, não é Xavier, Marco ou coisa do género. Portanto, para ir de encontro à vontade desses leitores, não vou chamar-lhes nomes, vou limitar-me a tratá-los pela espécie. Quanto muito, e é se souber, pela raça.

Mas, dizia eu, que vi há pouco um nosso conhecido cão com pulgas a dizer que votaram por unanimidade a candidatura de Lisboa para a Agência do Medicamento mas era uma coisa na base do 'mais coisa, menos coisa' e que quem dizia Lisboa, dizia outra coisa qualquer. 


Também vi a célebre galinha careca toda esgalfinhada a dar no coco do Marcelo, que descentralização não é andar com ela na boca (ela descentralização, não ela galinha-macacuda) ou a bater perna por aí e, qual catavento, a fazer o 10 de Junho por terras de aquém e além mar. Não, senhor. Descentralização é querer uma Agênciazinha-inha-inha em cada Junta de Freguesiazinha-inha-inha.


E até vi o eterno putativo candidato a secretário geral do PSD, aquele que funciona na base agarrem-me senão candidato-me, também com ar enxofrado a dizer não sei o quê mas que Lisboa é que não. E até a Catarina e a Marisa, com aquele seu pendor para a chinela populista, saíram à liça a defender que se deve é mostrar perante o exterior que em Portugal reina a divisão, ou melhor, a confusão.


Ah, e também vi aquela mazona do CDS (deve ser tão má aquela mulher...!), com aquela sua cara embaciada sempre enfurecida, a insultar não sei quem, como se não tivesse sido uma das votantes ou como se fosse uma pobre deslembrada e já não se lembrasse do que votou há um mês.

Todos uns pândegos. Ou será do calor. Neurónios derretidos, quiçá. A inteligência fundiu, escorreu para fora da escabeça e só lá ficou o provincianismo.

Mas eu, eu-zinha, não quero ficar de fora de tão insigne discussão. Também tenho uma palavra a dizer. Se o que foi aprovado por unanimidade pela soberana Assembleia da República é que a candidatura se refere a Lisboa, então Lisboa será. Mas calma aí.


Calma aí porque, sendo eu de vistas largas, entendo que não é a Lisboa-pequena-Lisboa mas a Lisboa-grande-Lisboa. 

E, assim sendo, o meu voto vai para o Ginjal! O lugar mais lindo do mundo, de frente para Lisboa-a-bela, o Tejo correndo a seus pés, alongando-se oceano adentro. 
Que se reabilite com senso e sensibilidade aquele lugar mágico, que se preserve parte da beleza da decadência que por ali reina, que se valorizem os vastos horizontes, que se mostre à cinzenta Europa o que é trabalhar e viver no meio do azul, ao sol, respirando a limpa maresia.

Nem Porto, nem Braga, nem Coimbra, nem a Damaia, nem a Reboleira, nem Olhão nem a Praia dos Tomates: Ginjal, Ginjal, Ginjal! Ginjal! Ginjal! Ginjal!


Registem bem que só vou dizer mais uma vez: 

Agência do Medicamento para o Ginjal.
E não se fala mais nisso.

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Em dia de calorão, o que hei-de vestir amanhã...?
[Isso e mais uma ou outra coisita]


Só para dizer que se hoje já esteve um calorão, amanhã nem sei. Já estive a ver o que haveria de vestir que me deixasse arejada e já descobri. Este aqui abaixo parece-me bem. Ponho-me ao lado do ar condicionado e deixo que o ar flua.


Só isto. Com este calor nem consigo ter inspiração para mais nada.

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Bem. Melhor não, melhor juntar mais qualquer coisa para não correr o risco de me pedirem a devolução do dinheiro do bilhete de entrada aqui neste espectáculo.

Junto um poema de Maria Teresa Horta, justamente intitulado 'Fogo': E que ela me desculpe por trazer as palavras dela ao seio de um post tão prosaico e destituído. 


Este é o meu labor
de fogo
nesta avidez insensata

de existir

entre a lírica
e o corpo
pela fundura do poço

a navalha da paixão
a rosa do alvoroço.

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E, já agora, a propósito de calor e paixão, mais uma coisita

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És de luz e também
rosto
de redondilha e paixão

imagética
do corpo
no prazer e no suposto

ou rasura e harmonia
de perdimento o oposto

Elegia e fogo posto

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E, depois do 'Fogo posto', termino como comecei: com um vestido. E com uma dúvida. Não sei se aquele vestido lá em cima não será um bocado arejado demais. Estou capaz de levar, antes, este aqui em baixo. É mais discreto, talvez mais adequado ao trabalho em ambiente de escritório. Tenho é que ainda ir fazer-lhe uma bainha que, assim comprido, é capaz de me fazer calor nas pernas.


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Então, até já.

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PS

É verdade. Sobre aquilo da Agência do Medicamento acho mal que seja em Lisboa, no Porto, em Coimbra, em Braga, em Faro, em Évora, em Beja, em Viana do Castelo e do Alentejo, etc, etc, etc.

Já volto para dizer para onde vai o meu voto. E atenção que o meu voto é quente. Só voto em hipóteses ganhadoras. Follow me.

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quinta-feira, junho 15, 2017

Sou aquela que transgride o abismo da paixão





Todos os dias, por mera rotina, se pesava mas, também todos os dias, se esquecia de reparar no peso. Reparava, isso sim, que a magreza avançava mas isso estava longe de a preocupar. Era como se vivesse desligada dos assuntos normais, incluindo o da necessidade de se alimentar. Foi consumindo o que havia no frigorífico e na despensa, mas cada vez comia menos porque o organismo parecia precisar de cada vez menos alimento.

Era raro o dia em que não ouvia tocar à campainha mas nunca abria a porta ou, sequer, perguntava quem era. Se era de manhã, pensava que devia ser o carteiro, se era de tarde, pensava que devia ser distribuição de publicidade. Também o telefone tocava várias vezes mas apenas falava com a mãe. Eram sempre conversas breves mas a mãe não estranhou pois nunca a filha tinha tido tempo para cortesias ou carinhos. Um dia acordou a pensar que tinha que voltar a ligar para o trabalho e assim fez mas não prestou atenção às palavras preocupadas da secretária, nem atendeu aos seus conselhos. Limitou-se a dizer que tinha sucedido um imprevisto e que ia gozar férias antigas, ela que a avisasse quando os dias estivessem quase a acabar. E agradeceu e desligou. Parecia não conseguir suportar a sua vida de sempre.

Um dia resolveu esvaziar a estante onde guardava os discos e os cd's. Tudo espalhado pelo chão. Não se lembrava de ter comprado grande parte do que via. Nem sabia de que se tratava. Pensou que, se calhar, alguém que lá tinha morado os teria comprado. Pensou: a viver aqui durante muito tempo apenas um. Mas, depois desse, vários por lá tinham ficado algumas vezes. Talvez não vários mas alguns. Não tentou lembrar-se de todos. Economizava energias. Ou talvez tudo aquilo, ou quase, tivesse sido recebido como presente. Provavelmente não tinha tido tempo, sequer, para os ouvir uma única vez.

Um em especial parecia-lhe ali completamente deslocado, em contramão. Pô-lo a tocar. 

Depois encostou a cabeça à janela. E aos poucos foi escorregando até ficar deitada no chão, braços e pernas abertas, a olhar fixamente o tecto. E as lágrimas voltaram a correr.

Nessa noite, estava ela ainda nua, tocaram à campainha. O telefone também já tinha tocado várias vezes. Não prestou atenção. Depois ouviu bater com a mão e ouviu gritar o seu nome.

Continuou indiferente.

E, então, ouviu a porta a abrir-se. Estava ela sentada num banquinho baixo a ver fotografias e a tentar decifrar o significado de umas palavras escritas num papel 

Sou aquela que trangride
o abismo da paixão

Ora corpo que se entrega
ora escrita no seu voo

entre o fogo e a razão

quando ele se aproximou. Ela olhou-o sem curiosidade. Ele baixou-se, segurou-a pelos ombros, levantou-a. Perguntou-lhe como que com raiva: 'Mas o que é isto? O que se passa? Não atendes o telefone, não dizes nada, não respondes aos mails, não respondes quando tocam à campainha. Não te ocorre que nos preocupamos contigo? Estás doida ou quê? Ou doente? Que magreza é esta? O que é isto? O que se passa?'

Ela olhou-o nos olhos, indiferente.

Ele abraçou-a. Ela manteve-se como morta.

'Já foste ao médico? Aconteceu alguma coisa?', perguntou ele várias vezes.

Ela respondeu com uma voz que não parecia a sua. 'Não aconteceu nada. Apenas me apeteceu arrumar a casa'

Ele olhou em volta. A casa estava caótica. Livros, discos, molduras, papéis, objectos indistintos, tudo espalhado pelo chão.

'Tu não estás bem, Lu. Tens que ir ao médico. Veste-te, vou levar-te às urgências.'

Ela disse com uma voz muito tranquila: 'não. Estou bem'. 

'Mas aconteceu alguma coisa? Conta. O que foi? Alguma coisa deve ter sido', insistiu ele.

Então ela sentou-se, séria e formal como se não estivesse nua e desamparada, e falou com uma voz que parecia, de novo, a sua. 'Estiveram cá. Remexeram tudo. Levaram coisas, pastas, papéis, o portátil da empresa.' 

Ele sentou-se. 'A sério...? Também aqui? E não disseste nada? Falaste com o Manel?

Ela respondeu: 'Disseram que não podia falar contigo nem com ninguém. Deves saber disso. A ti devem ter-te dito o mesmo. Não sei o que estás aqui a fazer.'

A voz ansiosa, as mãos nervosas, ele estava mais velho: 'Mas com o Manel devias ter falado, é o teu advogado.' 

Fria, indiferente, ela: 'Não quero saber de nada. Nada faz sentido. Preciso de descansar. Olho para trás e nada faz sentido. De tudo o que vivi, não sobrou nada. Tudo se confunde, não consigo encontrar uma linha condutora, parece que foi tudo um equívoco.' 

Ele, cada vez mais preocupado: 'Tu tens que ter cuidado com o que dizes, tens que te tratar, não podes falar.'

Ela olhou-o longamente, sem emoção. Não reparou como ele ficava cada vez mais assustado. Depois disse-lhe: 'Já é tarde, vai-te embora antes que a tua mulher te faça uma daquelas cenas.'


Ele encolheu os ombros e tentou abraçá-la mas ela rejeitou-o. Fez o gesto de o acompanhar à porta. Depois, quando ele estava a dirigir-se para a saída, chamou-o: 'Olha, lembras-te de quando fui a Marrocos, as temperaturas tão altas, eu não queria ir, e tu quase impuseste que eu fosse, uma oportunidade de vida ou de morte, dizias...?'. Ele olhou-a, sem compreender. Ela continuou: 'Lembras-te de como me dizias que eu andava bonita? E eu dizia que não queria ir, que naquela altura não?'. 

Enquanto falava, segurava um leque rendilhado em azul turquesa. 'O primo do príncipe ofereceu-me este leque na segunda vez que foi ver-me ao hospital, estava tanto calor lá'.

Ele olhava-a sem perceber. 'Ao hospital? Mas que hospital?'.

'Resolveu-se por si. Eu não sabia o que fazer. Melhor para todos. Estava sem coragem para acabar e sem coragem para continuar. Aquele calor, a violência daquelas viagens e daquelas intermináveis negociações resolveram o assunto'

Ele estava encostado à parede: 'Nunca falaste nisso. Devias ter-me dito.'

'Para quê? E as negociações correram bem. Era o que te importava. Mas sabes o que percebo agora? Que, disso tudo, o que sobrou foi o leque. Até o prémio chorudo que recebi na altura se evaporou. Belos investimentos que fiz na minha vida...'.

Ele não disse nada. Deixou que ela o levasse até à porta. Iam em silêncio.

Ela não soube que, logo que chegou à rua, ele deitou a mão à cabeça, esfregando o cabelo, preocupado. Ela não soube que ele ia telefonar mas que logo se arrependeu. Ela não viu que ele era agora um homem acossado. Ela não viu que ele ia curvado, magro também. Ela não viu que, quando arrancou no carro, por uma vez ele ia devagar, como se não soubesse qual o seu destino.

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[O poema que plantei no meio da prosa é, uma vez mais, da Maria Teresa Horta in Poesis]

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Este texto que acabei de escrever vem na continuação de Sem rasto
e continua em Um coração negro como a noite

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