ano novo 2014

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sábado, Setembro 20, 2014

Alegrias, surpresas. Essa de que assim fala sou eu, Senhor Patrão da Barca?


Depois de no post abaixo ter falado de Magia ao Luar, de mentes divididas e de ter contado a história do meu amor à primeira vista, aqui, agora, falo de outra coisa.

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Li o comentário e não percebi logo.

«Devia calar umjeitomanso.blogspot.com, porque já lá recebi louvores, mas a senhora é incomum no estilo, na linguagem, na interpretação de informações e, last but not least, no erotismo gótico das suas histórias.»
              *** do fabuloso PATRÃO DA BARCA- J.Rentes de Carvalho: Tempo Contado




Fui conferir e percebi. Em registo epistolar, suculenta prosa, o fabuloso Patrão da Barca respondia ao Pipoco mais Salgado e incluía-me no enunciado. Mais do que com alegria ou arrepiozinho de lisonja, surpreendida fiquei a ler a ver se me reconhecia: incomum? E depois ri: erotismo gótico?





Deu-me logo vontade de sair com uma história muito pouco gótica.

Mas meteu-se jantar fora, cinema, a farrinha do POETS day, cheguei a casa muito tarde e acho que, a esta hora, já não vou conseguir.

Contudo, daqui quero dizer que me senti agradada, gosto de não ser comum, e que fiquei agradecida, o reconhecimento vindo de quem veio deixa-me muito feliz.


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Magia ao Luar. A mente intuitiva e a mente racional.


Um Woody Allen em versão soft, alguma falta de densidade mas, para uma noite suave que quase parece de outono, uma comediazinha romântica não sabe mal.

Desta vez, em minha opinião, brilha com todas as letras a Tia Vanessa, Eileen Atkins, divertida, um humor delicioso, permanente diálogos de uma inteligência irónica, induzida.

O argumento do filme faz reverter a importância da racionalidade, do raciocínio lógico, a favor da emoção, da intuição, da magia. Essa é a moral da história. 



Magia ao Luar, de Woody Allen com Emma Stone e Colin Firth






E, curiosamente, vem bem a propósito de um vídeo que Leitor que partilha comigo o interesse pelas coisas do cérebro me enviou.


A mente intuitiva é uma dádiva sagrada, e a mente racional é um fiel servo. Criámos uma sociedade que venera o servo e que esqueceu a dádiva.



The Divided Brain


Renowned psychiatrist and writer Iain McGilchrist explains how our 'divided brain' has profoundly altered human behaviour, culture and society. 





Já contei aqui que, depois de, em pequena, querer ser cabeleireira, a minha escolha para profissão a seguir recaíu em Psiquiatria. Não sabia de Neurologia, nunca ninguém me falou nisso, mas também não ia adiantar. A mente sempre foi, para mim, o primeiro e o último dos mistérios. Mas, quando soube que primeiro tinha que fazer Medicina (com Anatomia e corpos frios, abandonados, esventrados, e essa desgraça toda pelo meio) desisti. Depois ainda pensei em Psicologia mas não era a mesma coisa e, na altura, o curso não tinha grande reconhecimento, o curriculum pareceu-me pouco sólido. Desisti. Mas a curiosidade e o gosto mantiveram-se. Sempre se hão-de manter. Queria poder ver ao espelho o meu cérebro tal como vejo o meu rosto. Se rio, choro, se me zango ou me preocupo vejo-o na minha expressão, se me vir ao espelho. Mas sei que, ao mesmo tempo, dentro da minha cabeça, muitas ligações se estabelecem e isso eu não vejo nem sei de que se trata, o que lá se passa, não depende da minha vontade.

A mulher de um colega meu teve há uns anos um AVC. Teria na altura uns quarenta anos. Perdeu a fala e o andar. Depois recuperou, mas apenas mais ou menos pois não dizia coisa com coisa, era como se falasse uma língua inexistente. Eles olhavam-na com estranheza enquanto ela dizia palavras incompreensíveis com a naturalidade de quem diz coisas normais. Aos poucos foi aprendendo mas ainda tem lapsos, só que aprendeu a dar a volta, faz a descrição das coisas, ou, de vez em quando, troca disparatadamente as palavras. Mas quem não saiba achará apenas que por vezes parece deslocadamente rebuscada ou que é despistada, daquelas que se trocam todas. Apesar de totalmente desaconselhado, continua a fumar e, querendo o cinzeiro, pede 'passas-me o relógio, por favor?'. Claro que faço de conta que nem dou por nada, passo o cinzeiro com naturalidade. Diz que coxeia ligeiramente mas ninguém dá por nada, também disfarça. O cérebro aprendeu a obter o pretendido através de outros caminhos.

Mas o tema dos filmes nem é sobre isso, só estou a falar nisto porque é tema cativante para mim. Somos aquilo que o cérebro nos faz ser mas o cérebro não é fundamentalista nem ortodoxo, sabe adaptar-se. 

Quanto à magia e à intuição, claro que me são conceitos caros, toda eu alinho por esse diapasão. Antes de ser racional (e sou), sou intuitiva. Já contei: casei com um homem por quem senti um violento amor à primeira vista. Não sei se deverei dizer amor ou se era atracção, mas também não sei se era atracção global ou se era apenas atracção física. Não faço ideia. O que sei é que faria (e fiz) qualquer coisa para me acercar dele, para fazer com que ele me viesse parar às mãos. Tive sorte, não tive que me esforçar: a coisa foi recíproca, embora do lado dele a coisa fosse mais simples. Quando lhe perguntei porque me olhava daquela maneira quando se cruzava comigo, contou-me que o seu pensamento era mais focado, queria digerir-me, digamos assim (tenho que ter cuidado com o que digo porque os meus filhos lêem o que escrevo). Tal como ele não me conhecia, também eu não fazia ideia de quem era e, no entanto, confessei àquele com quem namorava na altura: conheci o homem da minha vida. Claro que esse tal meu namorado ficou siderado, gelado. Mas eu sabia que era tão verdade que não poderia escondê-lo. Não sabia quem esse tal era, como era, nada, nada, nada. E, no entanto, senti no coração, no corpo e na alma que toda eu queria aquele homem, então ainda tão jovem quanto eu. Contei à minha mãe que ficou enervada: mas quem é? Via que a filha estava disposta a trocar um namoro sério, com quase três anos e já envolvendo as famílias, por alguém que lhe era totalmente desconhecido. Eu não sabia nada, apenas intuía que era um tal que estava de caso com uma minha colega e de quem ela falava como se falasse do Brad Pitt. Mas isso não me interessava nada, era-me indiferente, só sabia que não ia descansar enquanto não ficasse com ele para mim. Por ele e com ele fiz o que nunca tinha feito antes com os dois outros namorados, por ele senti a magia do amor irracional, total.

Coisas do cérebro, magias, cenas involuntárias - que há-de uma pessoa fazer?


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sexta-feira, Setembro 19, 2014

Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz em modo 'Perdoa-me', Stock da Cunha, o senhor muita bom (' melhor não pode haver', cacarejaram logo os arraçados de papagaio) que veio substituir o filósofo anti-patriota Vítor Bento, diz que tem como missão fazer o que não deixaram o filósofo fazer; o Luís Filipe Menezes sob suspeita de corrupção e parece que o Passos Coelho também, coisas do tempo em que estava deputado em exclusividade e dizem que a receber dinheiro da Tecnoforma, e mais uma tal agência, a WeBrand, por onde rolavam milhões do PSD. E que mais?, ora deixa cá ver...


Agora vai ter que ser a despachar porque já são duas da manhã e daqui a nada tenho que estar a pé. 

Mas, antes, deixem-me que vos diga que, no post já a seguir a este, falo de uma descoberta fascinante por parte de neurocientistas ligados à Fundação Champalimaud e mostro um vídeo onde uma outra neurocientista fala da forma como a meditação muda a configuração do cérebro. Um tema que me deixa à beira de uma sucessão de epifanias, coisa quase da ordem dos êxtases místicos. Quase.
A seguir há dois posts deliciosos. Coisas de gajas...? Pode ser. Mas é das boas. E é ver para crer.

Mas, atendendo a que isto agora - e, caraças, era sobre isto que eu vinha com intenção de me alongar - é para atar e pôr ao fumeiro, vou já direito ao assunto.

Na quarta feira vi um casal de criaturas sinistras, pareciam desenterradas, um que parecia que não dormia há mais de um ano e que não percebi bem o que queria e a sua patroa, farripas amarelas escorrendo ao longo da cara igualmente mal encarada, dizendo que pediam desculpa pelo transtorno. Falavam do Citius, assunto que me arrepia só de pensar. 

Gente incompetente que não faz ideia do que é gerir, pensam que isto vai tudo na base das bocas e dos cortes e o improviso. Os juízes andam doidos e imagino a felga que por lá vai, sem saberem a quantas andam. 

A Teixeira da Cruz, ar de mulherzinha pedante, como se estivesse a ter uma atitude corajosa, veio, pois, pedir perdão pelos transtornos. Não sei o que é que ela acha que resolve ou ganha com isso mas gente desatinada é assim mesmo, faz o que lhes vem à cabeça.


A seguir, na quinta, vejo uma reprise: o Crato, cada vez mais com ar de rato, na mesma cena, a pedir desculpa. Pediu desculpa aos pais, aos alunos, aos professores, aos deputados, ao País, e provavelmente aos restantes ratos da bancada. A fórmula de cálculo na colocação dos professores da bolsa de colocação de escolas estava engatada como toda a gente lhe andava a gritar aos ouvidos. Entretanto, o director-geral já se demitiu. O Crato, que só tem feito porcaria desde que foi para ministro, agora deu nisto, pede desculpa. E gaba-se de estar a pedir desculpa. Esta gente não tem vergonha na cara; como se as cavalices se resolvessem com desculpas. Mas mais: ao desculpar-se, arranjou uma expressão que podia ser usada por qualquer vice-irrevogável, trauliteiro ou pequeno arauto de serviço ou papagaio analfabeto, nunca por um matemático de quem se espera um mínimo de rigor: disse que tinha havido incongruência na harmonização da fórmula. O que será isso?


Vale tudo para esta gente.

Parece até que o Marques Mendes anunciou que a Alexandra Lencastre vai voltar a apresentar o Perdoa-me, agora  em versão governativa. Um a um vão sentar-se-lhe no sofá a pedir perdão a alguém.

Ai minha mãezinha, que ninguém me poupa. A ver quem é que esta sexta feira nos aparece a pedir desculpa. Talvez o vice-Portas ou o próprio Nóia por terem insinuado que o ex-incensado Vítor Bento é anti-patriota.

Ai.

Não são bons da cabeça, é o que é.

Mas é que parece mesmo que anda tudo doido. Ao vir para casa, debaixo de chuva e no meio de um trânsito engaiolante, ouvi na rádio p comunicado do rei dos bifes, o génio dos bancos, o melhor possível (assim o declararam os papagaios do costume e não cito nomes para não pecar por defeito), o Stock da Cunha. Dizia ele - e eu vinha pasmada - que queria criar valor para o banco, angariar clientes, e que não tinha pressa, que a prioridade era valorizar o Novo Banco. Como estava sozinha no carro, soltei umas interjeiçoes jeitosas. Mas não foi por ser esta a sua ideia, uma ideia desalinhada com os accionistas, que o Bento se foi embora? Não foi por defender isto que deixou de ser abençoado para passar a ser um excomungado? Raios partam estas alimárias que não sabem a quantas andam, nem o que querem nem o que dizem.


E comprei a Visão com a face Oculta do PSD e nem tive tempo de a ler. Primeiro saí tarde, já quase de noite, num pára arranca que não dá para ler nem nada, depois caminhada, depois jantar, depois macacadas aqui, e, com isto, ainda não sei que moscambilhas andou a maltosa do PSD a tramar, gastando dinheiro à tripa forra à custa do pagode. Parece que passa ou que a desconfiança começou com uma tal Cristina Ferreira (outra, não a da TVI) de uma agência amiga do PSD, a WeBrand. Mas tenho que passar dos primeiros parágrafos para perceber onde está o cabeludo da história.



Já para não falar do ilustre gaia-caloteiro Menezes que parece que tem milhões de património quando não teria rendimentos para isso e que, portanto, já está a ser investigado por corrupção para enriquecimento pessoal. Logo ele, o choramingas, esse paladino da moral e dos bons costumes. Dá para acreditar?


E, como se não bastasse, leio que o Láparo, esse outro modelo de virtudes, a criatura do seu criador Relvas, também está sob suspeita, ó que admiração, por causa de uns trocos que recebia da Tecnoforma quando estava como deputado em regime de exclusividade (segundo a Sábado, qualquer coisa como uns 150.000 euritos). Mas diz ele que está de consciência tranquila, que não pisou o risco. A ver vamos como diz o ceguinho.


E eu só pergunto: mas o que vem a ser isto? Os anjinhos afinal têm pezinhos de barro e segredos cabeludos? Mas não eram todos tão santinhos? Competentes, inteligentes, cultos... e santinhos? Não eram eles que iam cortar gorduras, sanear as finanças, reduzir a dívida, equilibrar as contas, moralizar a política? E não houve tantas virgens que rasgaram as vestes por eles? E tantos papagaios que repetiram que eles eram bons, ai tão bons, e que vinham para pôr ordem na piolheira?

Não me venham agora dizer que era tudo treta... Não façam com que eu deixe de acreditar no Pai Natal. Se faz favor.


Bem, assim como assim, e já que daqui a nada são mas é horas de me pôr a caminho do trabalho, fico-me por aqui - mas não sei antes ver o legítimo Perdoa-me da SIC quando a Alexandra Lencastre ainda era morena e as maminhas ainda não lhe tinham crescido.






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Relembro que por aí abaixo há mais três posts, espero que aproveitem algum.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.

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Não é uma qualquer força invisível e misteriosa que determina se nos sentimos ou não confiantes. Não, é o cérebro mesmo, uma certa zona do cérebro. E outra: é possível modificar a configuração do nosso cérebro e a meditação é uma boa ferramenta para isso. Zachary Mainen, director do Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud e Sara Lazar, neurocientista do Departamento de Psiquiatria no Massachusetts General Hospital e Professora de Psicologia no Harvard Medical School, falam nisto.


Bem, depois de nos dois posts abaixo me ter dedicado a elegâncias, modelitos, belezuras, fotografias, revistas de beleza e, até, a anúncios de gajas boas, aqui volto ao tema de ontem: o cérebro.








Sou naturalmente bem disposta, optimista, activa, primária, essas coisas todas que, quem aqui me acompanha, já tantas vezes presenciou.

Sei bem que estas características me menorizam aos olhos dos que, por serem sofredores, amargos e quezilentos, acham que quem ri, brinca e gosta de estar na boa é gente simples da cabeça, irritante e, até, digna de desprezo.

No entanto, nada posso fazer pois é assim mesmo que sou. Nasci assim, cresci assim e não consigo ser de outra maneira.

Vejo-me nas fotografias da minha infância: estava sempre a brincar, a rir, cheia de luz que dourava ainda mais o ondulado do meu cabelo.

Lembro-me de mim no liceu: sempre no meio de amigos e amigas, rindo, dançando, dançando muito, namorando, beijando, feliz, aventureira.

Vejo-me nas fotografias do meu casamento, vinte anos, corpo e rosto de menina, rindo, beijando aquele que o meu coração tanto amava (e ama).

Vejo-me hoje, sem paciência para dramas, com vontade de aprender, com prazer em viver, de gargalhada fácil.

Como todas as outras pessoas, tenho momentos de susto, de preocupação, de dor.

Mas, pelo menos até agora, tenho tido a capacidade e a facilidade de colocar o que é mau para trás das costas, de seguir em frente, de olhar para o que está para vir e relativizar o que passou.

Tal como nasci com esta cor de olhos, pele clara, cabelo farto, tal como tenho mãos pequenas, carnadura franca, nasci também com esta maneira de ser.

É o meu cérebro. A personalidade é fruto da forma como o nosso cérebro funciona.


Li hoje uma notícia que me deixou entusiasmada: 

Descoberta zona do cérebro que controla a confiança nas decisões.



Esperar ou não esperar, eis a questão quando decidimos. Num estudo publicado na revista científica "Neuron", cientistas do Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud, em colaboração com investigadores do Cold Spring Harbour Laboratory, em Nova Iorque, descobriram que o sentimento de confiança é codificado numa área específica do cérebro de ratos.



Os investigadores conseguiram demonstrar matematicamente que esperar mais tempo, quando se está confiante, é a opção certa para otimizar a relação custo-benefício do ato de esperar por um resultado incerto.

A equipa da Fundação Champalimaud conseguiu ainda identificar a área do cérebro onde é codificada a confiança. Assim, quando desativaram uma zona do cérebro dos ratos chamada córtex orbitofrontal (COF), o seu comportamento foi alterado e perderam a capacidade de saber quão confiantes estavam na sua decisão.


Não há coisa do além nisto, há mesmo é circuitos informativos a funcionarem de uma ou outra maneira. A experiência foi levada a cabo com ratos mas quem diz ratos diz gente, isso é sabido.




Ontem à noite já tinha estado a ouvir Sara Lazar, neurocientista do Departamento de Psiquiatria no Massachusetts General Hospital e Professora de Psicologia no Harvard Medical School, a demonstrar outra coisa curiosa. Evidencia ela, com as suas imagens do cérebro, que a meditação pode efectivamente mudar o tamanho de algumas áreas chave do nosso cérebro, melhorando a nossa memória e tornando-nos mais capazes de empatia, compaixão e resiliência sob stress. 


Esta da plasticidade do cérebro e da forma e do modo como funciona, capaz de influenciar o modo como somos e nos comportamos é coisa que me fascina. A sério.

Coloco aqui o vídeo relativo à sua intervenção numa conferência TED em Cambridge porque o acho bastante interessante.


O que somos, porque somos. E nada de etéreo, de misterioso, apenas a matéria concreta que nos habita e que aos poucos, muito lentamente, vamos conseguindo perceber como funciona.





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A música lá em cima era Fly interpretada por Solveig Slettahjell


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Relembro: no post abaixo tenho a Sarah Jessica Parker numa sessão com Mario Testino para a Vogue, vestidos lindos, um luxo, uma maravilha.

Mais abaixo ainda, há uma colectânea de anúncios com mulheres muito sexy, uma coisa que poderá incomodar as feministas mais chatas.


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Sarah Jessica Parker e Carrie Bradshaw - o sentido do estilo [Mario Testino fotografa e a Vogue banca a produção]. Coisas de gaja, reconheço.


No post abaixo já confessei que o algoritmo do YouTube é que me topa bem. Para provar, mostrei um dos vídeos que hoje me aparecia como coisa que eu era capaz de apreciar. Imagine-se: um vídeo cheio de gajas e das boas. E eu gostei.

Mas isso é a seguir. 

Aqui, agora, continuo na mesma onda mas, noblesse oblige, subo um pouco a fasquia e avanço para uma que bebe do fino, a elegante Sarah Jessica Parker (aka Carrie Bradshaw). A sessão fotográfica tem dois anos mas, ó meus caros, a elegância é intemporal. O fotógrafo é Mario Testino num trabalho para a Vogue. A superlativa Anna Wintour quer, Grace Coddington  sonha e a obra nasce. 


O local onde a coisa acontece é irreal, os vestidos um luxo (o Galliano que aqui coloco na fotografia é sumptuoso), a alegria de Sarah dá saúde e, portanto, está tudo certo. 

Ou seja, em tempo de falatório sobre gajas e mais gajas, eu, gaja, me confesso e, sem sombra de culpa, me confesso uma invejosa do caraças: gostava de ter um corpinho fininho para qualquer trapinho me ficar a matar, gostava que alguém arranjasse maneira de ter à minha disposição um escândalo de vestido como aqueles, gostava de frequentar uma casinha podre de patine como aquela onde a sessão decorreu, gostava que o Testino me pusesse a parecer uma princesa a caminho de ser coroada.

(Como não tenho nada disso, vou ficar aqui a roer-me e, para sublimar as raivinhas, a ver se a seguir me concentro e, qual pipoca agridoce, me atiro a coisas sérias e maçadoras.)





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Relembro: para aviões ao serviço do comércio, é descer um pouco mais.

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A sensualidade das mulheres é um bom argumento comercial? Ah pois é. E, para dizer a verdade, até acho graça a estas sexy girls aqui em baixo. É como se gozassem com a imaturidade dos homens.


Com tanta coisa sobre a qual quero falar e estou nisto, a ver os vídeos que o algoritmo do YouTube acha que eu vou apreciar. 

Se isto não fosse um programa informático mas sim uma pessoa que, a partir do que me conhece, me sugerisse coisas que acha que têm a ver comigo, ficava um bocado admirada, talvez achasse que a pessoa não estava a captar bem a minha essência.

Explico. Aparece-me arte, imensos documentários sobre pintura, música, escultura, exposições, museus, e os grandes costureiros e marcas de perfumes, e, depois, palhaçada de toda a espécie. E a verdade é que me ponho a ver e gosto e me farto de rir. Sou criatura simples e cheia de contradições - isso fica amplamente comprovado com isto.

Mas depois o tempo passa e eu na pândega em vez de me entregar ao trabalho. Bem, adiante. Vou aqui colocar um dos vídeos para não dar o tempo por perdido. Até a belíssima Padma Lakshmi (ex-mulher de  Salman Rushdie) aqui aparece, sexy, sexy, sexy. 


Funny and sexy girls. Gajas boas. Compilação de anúncios que dão nas vistas.







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quinta-feira, Setembro 18, 2014

Um AVC descrito na primeira pessoa por uma neurocientista que, além do mais, tem a grande vantagem de ser uma excelente comunicadora: a Dra. Jill Bolte Taylor. E uma amiga minha, médica, e a sua condição actual.


No post a seguir a este já partilhei convosco um vídeo humorístico antigo que um amigo me enviou, um vídeo sobre o Eterno Masculino. Olhem, foi aquele amigo de quem no outro dia falei, o que tem vontade de se desfazer de toda a tralha que herdou e adquiriu ao longo de anos para ir viver num andar mínimo na zona do Chiado.

É um amigo de longa data, um pândego, e costumava enviar-me toda a espécie de maluquices.  Volta e meia ainda manda. Grande parte delas eram os colegas da mulher, minha amiga também, que lhe enviavam a ela, ela enviava para o marido e para mais umas quantas pessoas incluindo para mim mas, se ela se esquecia ou se achava que era coisa too much, encarregava-se ele de assegurar o broadcast geral.

Ela trabalhava num dos grandes hospitais de Lisboa, geralmente os grandes acidentados iam parar-lhe às mãos. Encarava tudo na maior descontracção e ainda bem senão andaria sempre em colapso emocional.

Ela conta imensas histórias que nos fazem rir imenso. Por exemplo, conta que tinham uma brincadeira muito divertida: que quando fazia bancos e lá aparecia algum doente-homem armado em parvo, chico-esperto ou em pintas, ela chamava uma colega, falavam em voz baixa com ar preocupado como se desconfiassem de um problema grave e depois comunicavam que lamentavam mas que ele tinha que ser examinado, um toque rectal. O sujeito começava logo a vacilar. Elas, então, diziam que tinham que ir chamar um colega especialista da área. E iam. Iam chamar creio que um enfermeiro ou médico, não me lembro, mas sei que era um negão, um calmeirão preto. E então o negão punha-se a calçar a luva com todo o vagar, a espetar o dedão como que para ganhar balanço. E elas a gozarem com a aflição do pintarolas, que se encolhia todo. Depois lá inventavam uma desculpa e diziam que ficava para outra altura.

Muita história engraçada ela tem para contar. Sobre casos, isso não tem conta. Diz ela 'Há lá muita cama, percebes...'

Afinal, um dia destes sentiu um incómodo, não ligou, até que falou com um colega de imagiologia. O colega examinou e descobriu aquilo que ninguém quer descobrir. Foi um susto muito grande. Fez quimio, Parece que está tudo controlado, tomara que sim, há muitos casos em que a coisa se cura. Mas reformou-se, acho que aproveitou este programa de reformas antecipadas, ainda não me lembrei de perguntar como foi possível quando lhe faltam tantos anos para a idade estipulada. Sei que tem um corte enorme na reforma mas isso não é problema, têm outros rendimentos; e já não tinha energia para fazer bancos, muitas horas de stress, situações complicadas. Além disso, tendo que lidar com desastres e casos terminais a toda a hora, dada a sua presente circunstância, deve ter perdido aquele distanciamento que sempre lhe conheci.


Os vídeos abaixo mostram a apresentação de um caso que sempre me interessou desde que o meu pai teve os pequenos AITs e depois um AVC extenso e grave. Uma neurocientista vê-se um dia confrontada com um acidente vascular cerebral no seu próprio cérebro. Sendo o cérebro a sua área de estudo, ela descreve com clareza e até com um certo sentido de humor o que lhe aconteceu. 


Jill Bolte Taylor com a mãe,
o seu anjo da guarda



Ouvindo as suas palavras eu percebo melhor o que aconteceu ao meu pai, apesar da área lesada no cérebro do meu pai ser simétrica em relação à dela. 


O meu pai, ao contrário do que aconteceu à Drª Jill, ficou a prender-se na lógica das coisas, empreende em assuntos irrelevantes, preocupa-se com tudo. Com ela foi o oposto, passou a ser tudo peace and love, na boa. 


Mas no caso dela, foi susceptível de ser operada e ficou óptima. No caso do meu pai não.


Sempre me interessei por conhecer o funcionamento do cérebro, e isto já vinha de longa data. Sendo leiga, é como curiosa que leio, ouço, tento perceber. No fundo, acho que quero compreender melhor o que sou e o que os outros são.

E sei também agora - e antes não sabia - que o cérebro se pode 'reformatar', pelo menos em parte, que pode descobrir novos caminhos quando os anteriores ficam destruídos. Mas isso será tema para outro dia.



[As legendas, como verão, não são extraordinárias mas, enfim, não retiram a compreensão do que é dito por Jill Taylor. A sua apresentação no TED está aqui dividida em dois vídeos.]










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Relembro: sobre o Eterno Masculino é descer até ao post já a seguir.

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Volto aqui, um bocado depois de o ter terminado. Estava a começar um outro post mas, para o fazer como queria, precisaria de mais tempo e já passa da uma e meia da manhã e amanhã tenho que me levantar muito cedo. Por isso, agora fico-me por aqui.


Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira!


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O eterno masculino





quarta-feira, Setembro 17, 2014

Quando a guerra é um jogo, um vício


No post abaixo, já cometi a ousadia de provocar um diálogo improvável: J. Rentes de Carvalho e Adélia Prado. Andava com esta em mente. Foi hoje: escolhi as passagens do livro Montedor recentemente publicado e depois abri ao acaso o Solte os cachorros e dei com um texto que me parecia pedir a proximidade do outro. É a atracção das palavras.


Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.










Quando o meu filho era adolescente jogava no computador. Até eu, ao princípio, gostava de jogar a um que era um miúdo que saltava e encontrava obstáculos, o Prince of Persia, e a outro em que se construíam cidades, SimCity, salvo erro. Quando cresceu mais, fim do secundário talvez, jogava a jogos de estratégia, combates, nem sei bem. Tenho ideia de que um de que ele gostava muito tinha a ver com a II Guerra Mundial. Penso que, por causa experiência adquirida nesses jogos, quando fomos a um museu numa daquelas praias do desembarque na Normandia, ele esteve a pegar nas armas pois já as conhecia todas dos jogos.

Sei que, neste tipo de jogos, jogavam vários ao mesmo tempo, cada um em seu sítio, tinham nomes de código, comunicavam entre si durante os jogos. E tinha um joy stick penso que para simular melhor uma arma. Não gostava nada daquilo, eu, mas, desde sempre os rapazes gostaram de jogar aos polícias e ladrões, cowboys e xerifes, um certo instinto bélico, talvez e, portanto, tolerei. De resto, não tinha como já que parte do dia não estava com ele e, além disso, educar não pode ser apenas proibir já que, na adolescência então, a proibição é mais um desafio do que algo que se aceite bem. 

O meu filho sempre foi muito bom aluno e praticava desportos vários e namorava e tinha muitos amigos e, por isso, isto dos jogos de computador era coisa de importância relativa. 

No entanto, aconteceu uma coisa com um dos seus grandes amigos.

Eles eram quatro grandes amigos. Três entraram para o mesmo curso ao qual se acedia com notas altas e o quarto não conseguiu entrar, foi para outra universidade. Contudo, a um dos dois amigos que estavam com ele, aconteceu uma desgraça. Um dia de manhã, o pai teve um ataque cardíaco fulminante e morreu em casa, ao pé dele. 

Claro que isso transtornou todo o núcleo familiar e, aparentemente, mais a ele que aos outros. Durante esses dias não foi às aulas. Entretinha-se, então, nesses jogos. E a coisa foi ganhando proporções de vício, jogava noite fora. Ou chegava tarde às aulas, com sono, ou não ia. Logicamente quando chegaram os exames, ou não fez ou chumbou. No entanto, não quis preocupar a mãe. No outro semestre a mesma coisa. Jogos e mais jogos, sempre agarrado ao computador a jogar aqueles jogos de estratégia e de guerra. Novos chumbos, novas mentiras.

O meu filho e o outro amigo muito preocupados com ele. Quando iam a sua casa, ficavam ainda mais preocupados pois a mãe, a irmã e a namorada dele continuavam convencidas que ele estava bem no curso, que ele estava a par dos outros dois amigos. Muitas vezes eu insisti com o meu filho para que falasse com a mãe dele, que contasse a verdade para que o rapaz se tratasse. Contudo, sempre acharam que isso seria trair o colega e não contaram.

Elas saíam de manhã para a sua vida e ele dava-lhes a entender que saía a seguir e que ia para as aulas. Enganou-as durante anos, completamente agarrado aos jogos no computador.

Não me lembro dos pormenores mas sei que ele, já quando seria suposto estar a acabar o curso, arranjou coragem para confessar. E acabou por mudar de curso e fazer outro de raiz. Não sei qual a vida dele agora mas tenho ideia de que a coisa terá entrado na normalidade. Teve sorte.

Mas sei de um outro caso que ainda vai a meio do drama.

Uma amiga minha sempre foi perfeccionista em tudo e portanto, por maioria de razão, foi-o também na educação do filho. Enquanto eu, logo que os meus tiveram idade para irem sozinhos para casa, pu-los numa escola oficial, ela não: colocou-os num dos mais exclusivos e caros colégios de Lisboa. O filho tinha que ter  o melhor possível. Depois protegia-o em tudo, telefonava-lhe para saber se já tinha feito os trabalhos, se já tinha estudado, nas férias do rapaz ligava-lhe para saber se já tinha almoçado, se já tinha feito isto, aquilo e o outro. Eu dizia-lhe que desse rédea mais solta ao rapaz mas ela não, que queria que ele estudasse, que ficasse com boas bases, que se aplicasse ao máximo. Apesar de todos esses cuidados e apesar de no colégio terem plano de estudos, não contente, colocou o rapaz ainda a ter explicações para ter a certeza que tinha notas altas para entrar para a faculdade. Queixava-se da fortuna que gastava com o colégio e com as explicações e com livros de estudo complementar que comprava porque lhe diziam que eram úteis. Eu achava aquilo um exagero e tantas vezes lhe dizia que era demais, que tanta protecção poderia não dar bom resultado. Mas era ela e o marido. Sempre os vi a tratarem o rapaz como se fosse um miúdo a precisar de cuidados especiais quando era um rapaz normalíssimo.

Agora diz-me que se lembra amiúde do que eu lhe dizia.

Entrou para o curso pretendido. O pai é que ia levá-lo à faculdade e ligavam para casa depois de almoço a saber se já tinha chegado e se já tinha almoçado. Até que o rapaz começou a soltar a franga e a fazer aquilo que nunca tinha tido oportunidade de fazer quando era puto, a sentir que tinha liberdade de escolha. Mas, desabituado que estava de ter vida social, virou-se para os jogos de computador. Conheceu por essa via ‘amigos’ e, de tarde, enquanto estava em casa sozinho, passou a estar permanentemente ao computador a jogar. Depois também à noite. Vieram os exames e chumbou. Os pais aflitos. Diziam que cortavam a internet e ele dizia que saía de casa. Discussões azedas que deixavam os pais de rastos, sem saberem como agir. Obrigavam-no a desligar o computador à meia-noite e o rapaz começou a tornar-se agressivo. Mais um semestre e novos chumbos. A noite inteira naquilo. De manhã não se conseguia levantar.

Até que a faculdade o impediu de se matricular durante um ano lectivo por ter excedido o número de chumbos sucessivos.

A custo conseguiram levá-lo um psicólogo. Faltava às consultas. Começaram a ir com ele.

Mal se alimenta, mal fala aos pais. Está permanentemente a jogar aqueles jogos de guerra com ‘amigos’ que os pais não fazem ideia quem sejam.

Este ano voltou a poder inscrever-se mas os pais não sabem se está a correr bem ou mal já que mal se falam. A minha amiga já anda a tratar-se também e tem sido uma luta pois faz o almoço para o filho, deixa-lhe a mesa posta, recados para ele beber leite, comer fruta, e o psicólogo não quer que ela continue a ser super protectora - mas ela não consegue pois vê a vida do filho a dirigir-se para um beco do qual ela não vê saída. Tentam, continuam a tentar. Ela vai bater à porta do quarto do filho para ele descansar, para dormir. O pai tenta arranjar-lhe programas, andar de bicicleta, coisas assim. Ele quase não lhes fala, têm dias sem se verem. nos dias melhores, através da porta o rapaz diz que sim, que vai pensar nisso e, claro, não faz nada. Os pais imploram-lhe que pense no futuro, já tem vinte e tal anos, tem que se preparar para vir a ter um modo de vida mas a única coisa na vida que o interessa são aqueles jogos de guerra. Custa-me muito quando ouço estes desabafos sofridos. Os pais investiram tudo no futuro daquele menino e agora vêem-se confrontados com uma preocupação destas e sem saberem o que fazer.

Quando leio que há muitos jovens ocidentais que aderem ao Estado Islâmico e que adoram, têm treinos, matam, penso que devem ser jovens assim, que antes deveriam ter como único objectivo de vida fazer jogos de guerra, passar para os níveis seguintes, níveis mais difíceis, com mais obstáculos, com mais variáveis em jogo.


Lembro-me dos jogos que via há uns anos atrás quando o meu filho jogava: eram incrivelmente realistas. Não tinham aspecto de desenhos. Não, pareciam pessoas, sangravam, caíam, cansavam-se. Os jogadores perseguiam inimigos, agrediam-nos, disparavam contra eles. 

Acredito que jovens viciados em jogos, desvinculados emocionalmente de amigos e família, cujos elos de ligação são apenas com ‘companheiros ‘ de jogos de guerra, que não têm outro objectivo na vida que não passar para o nível seguinte, experimentar jogos novos, uma guerra como esta, que mete treinos militares, decapitações, vídeos nas redes sociais, deve ser do mais apelativo que há. 

Li no Expresso que um jovem, que antes foi estudante universitário e que aderiu ao Estado Islâmico, diz que o que mais gosta de lá fazer é treinar e matar.


O Príncipe Harry
a jogar um video game
no Camp Bastion no Afeganistão



Li há pouco um artigo (que agora já não encontro) que falava também nisto e que tinha um link para um artigo no qual o Príncipe Harry também dizia, todo contente, que sim, na missão no Afeganistão em que tinha participado, tinha disparado e tinha matado, que era como jogar Play Station, bastava carregar num botão. 

Por vezes ao fim de semana, quando estamos no campo e a televisão só apanha os 4 canais generalistas, pasmo com os filmes que dão a uma hora em que devem estar muitos miúdos a ver televisão: perseguições, tiros a torto e a direito, agressões, uma violência fortuita.

Assim se vai banalizando a guerra, desde a infância: filmes, jogos, tudo à mão de semear, gratuito ou quase, na prática quase sem controlo por parte dos pais.

E ninguém pode dizer que está livre disto ou que, na sua família, nunca nada disto acontecerá. 

Esta sociedade - em que tudo se subverteu, em que parece que toda a gente perdeu o pé e perdeu o norte, em que tudo está acessível, a toda a hora, para toda a gente, de forma desregulada (desregulada por parte da sociedade, da família, do Estado) - acaba por gerar buracos negros, inesperados monstros, perplexidades, medos sem remissão.


Será que um dia ainda voltaremos a ser capazes de controlar a nossa própria vida? Será que um dia o mundo voltará a ser um lugar menos perigoso?


I need another place. Will there be peace? I need another world. 


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A música é Another World na interpretação de Antony and the Johnsons


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Relembro: se descerem até ao post seguinte poderão encontrar um saboroso desencontro amoroso que, afinal, não é mais do que um feliz encontro literário.

É a língua portuguesa d'aquém e d'além mar em diálogo e as palavras em festa.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira. 
Saúde, sorte e boa disposição é o que vos desejo.



Desencontros. Encontros.




Ela beija-me nos lábios. Parece que tem de ser, por causa do fotógrafo. Levantam uma discussão porque eu é que devo beijá-la. Beijo. Tropeço no vestido. Metade das flores fica no chão.



Querendo uma coisa, tem de se largar mão de outra? A minha boca arada é de inteiro que gosta. Quem existe pra me confirmar nos desejos do meu coração e dizer: 'Vai filha, que não obras em erro'? Se a responsabilidade é minha, me aperta. Gosto de agir com garantias, escasseadas neste nosso mundo agitado de teorias.



Sozinhos no escuro, hesitando, foi ela que teve coragem e acendeu a lâmpada da cabeceira. Pelo dia adiante, fora o sim da igreja, não tínhamos falado nem sabíamos que dizer.

Vejo-a despir-se sem recato, vir para mim, sorrindo, as mãos sobre o ventre:

- Aperta. Vê como já se sente.

Ponho as mãos atrás das costas, assustado, incapaz de mexer, e ela corre para a cama a soluçar, apaga a luz.



Quero o que se deve querer, já que, conforme o mandamento, somos todos chamados à perfeição: é por isso, é por estrito senso de dever que eu quero o mais custoso. Gosto de coisa boa. Falo assim, um pouco por literatura, força de expressão, porque sei que devo abrir o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e fazer tal e qual. Mas vigia, é nas pequeninas coisas que me estrepo. Por exemplo: gosto de passar brilho nos lábios e levantar as sobrancelhas com uma escovinha. Onde é que eu encontro permissão para isso nas Sagradas Escrituras? Onde?


Na cama era pior. A fala reduzida ao mínimo, ao que obriga a partilha dos lençóis, ternura nenhuma, como se o sacramento nos tivesse trazido a mudez e o veneno. Fel, quando os olhos se encontravam. Despíamo-nos no escuro e a cama era grande bastante para que os corpos não se tocassem. Uma luta.

Às vezes, acidente, surprendia uma perna nua,o seio a transparecer, crescia em mim um desejo que me nauseava a ponto de vomitar. E ela, ignorante, compadecida:

- Sentes-te mal?

Empurrava-a para que me deixasse.

- Bruto!


Tudo é de Deus, menos o pecado. Você que me escuta e tem coração maldoso, ri pra dentro pensando que eu sou fácil. Não sou. Eu sou muito pedregosa, caçadeira de chifre na cabeça de cavalo, caçadeira de indaca.
Invez de casar e cuidar de filhos, pôr espinafre moído na sopa deles pra eles ficarem fortes, pregar com linha dupla os botões na camisa do meu homem, eu fico teologando em latim, fico querendo um Romeu constantemente na minha janela, falando e tocando violão pra mim como se eu fosse a única mulher desta terra e a mais bonita, sem a qual homem algum pode viver. 



Ela chora e amparo-a sem carinho, só porque me dá pena o corpo disforme, sacudido.

- Se tu quisesses!

Que lhe respondo? A minha vontade é fugir, desaparecer, subir o Monte e caminhar para o outro lado, longe, sozinho. O sonho do menino que queria crescer.


Quero ser canonizada santa casada poetisa. Na minha imagem quero bem visível a aliança no dedo da mão esquerda, a coroa de louro reverdecente na minha testa. Assim, por catequese, para exemplo e conquista de quantos se afastam porque falo Teu nome, ó Senhor, com minha língua suja, mas com um desejo tão puro minando do meu coração, como resina em tronco machucado.


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Cá está: J. Rentes de Carvalho e Adélia Prado - ele dizendo 'Montedor' e ela, em itálico, 'Solte os Cachorros'. Les beaux esprits se rencontrent, é sabido.



O vídeo é Adélia Prado dizendo Para o Zé 
(...) Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno. 
Te amo com a memória, imperecível. (...)


As fotografias mostram Kate Moss e David Gandy.


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terça-feira, Setembro 16, 2014

A relativa importância da casa e das coisas da gente


No post abaixo já falei do admirável mundo invisível que vive junto a nós. É um dos temas que muito desperta a minha atenção: a natureza tal como geralmente não a olhamos, a beleza quase desmedida do invisível.

Não sabemos nada. Nem do que nos rodeia nem do que vive dentro de nós.

Ou o que somos sem percebermos porque o somos.

É o caso agora deste post. A história não é nova mas, no outro dia, Leitor que vive no meio de objectos que um dia foram caros a alguém e que, mais tarde, foram postos à venda, enviou-me referência a este caso que, na altura, deu que falar.




Mas vamos com companhia: Solveig Slettahjell em "Wild Horses" (que acabei de conhecer aqui)







Vivo rodeada de livros, de fotografias, de quadros, de objectos que me encantam, uns oferecidos outros adquiridos. Pode ser uma caixinha de música em madeira pintada em rosa velho e ouro, adquirida junto ao lago de Zurique, pode ser uma peça Armani em biscuit, pode ser um castiçal, pode ser um leque com bem mais de um século. Ou pode ser um pequeno galo de chapa pintada, de corda, comprado numa feira, que faz a delícia das crianças e que, por isso, passa temporadas desaparecido, para aparecer mais tarde onde menos se espera. Tantos objectos de que me rodeio. E livros. Tantos livros. Quando os vêem, perguntam-me sempre quando os vou conseguir ler. Tantos que nunca vou conseguir ler.

Estou a escrever e nesta mesa mal tenho espaço para o computador, cercam-me pilhas de livros, o Montedor de J. Rentes de Carvalho mesmo aqui ao meu lado. Vou folheando, lendo ao acaso, pois sempre é assim que tomo o pulso aos livros


A razão deste contar deve ser bem pequenina e sem importância, que mesmo quando paro e me pergunto a não encontro. Um passado assim, sem colorido, sem dor a que possa dar dimensão, os meses contados como horas, as horas arrastadas como anos, uma névoa, nada do que prometiam os livros, nada do que pediam os sonhos, 'os melhores anos da tua vida' nem esbanjados nem gastos, perdidos, como se perde uma bugiganga. Que quero eu?

Poderia ficar o resta da noite a espreitá-lo-lo, a tentar reconstituir o fio à meada através da leitura assim, solta, até não resistir a lê-lo a preceito, percorrendo-o então como se percorre uma casa já conhecida.

[Ando com vontade de ter aqui J. Rentes de Carvalho a dialogar com Adélia Prado - aqui comigo, aqui convosco. Acho que pode resultar numa conversa gostosa. É gente que anda em sítios altos, a sua escrita tem oxigénio. Um dia destes talvez.]

E as caixinhas de porcelana? De vidro? Tantas, sempre que via uma que achava muito bonita trazia-a para casa. Agora já evito.

Um dia quem ficará com tudo isto? Terão as suas casas, não terão onde pôr tantos livros, tantas caixinhas, tantas molduras.

Gostava que fossem como eu que quis ficar com coisas dos meus avós ou tias, coisas que mais ninguém queria. Lençóis bordados, copos de vidro coloridos, o cadeirão onde o meu avô se sentava, Mas eu tenho a sorte de ter duas casas.

E quando eu for velha e já não conseguir mover-me entre as duas casas?

Tenho uns amigos que também têm duas casas, duas casas enormes. Quando os pais dele morreram, mudaram-se para lá, uma moradia enorme, a casa da infância e juventude dele, na Linha, perto do mar. E têm a outra no campo, enorme também. Ela é como eu. Rodeia-se de tralha de toda a espécie. Mas acho que é pior pois vai muito a antiquários, tem peças enormes, oratórios, santos, jarrões, e tem a mania dos crucifixos, tem-nos de todos os tamanhos e feitios. No entanto, há tempos ele disse-me que estavam cansados de tanta coisa, que tinham vontade de se desfazer de tudo, que a filha não liga a nada daquilo e o filho odeia. Que estavam a pensar vender a casa da Linha, ficarem para já com a casa do Alentejo e, em Lisboa, comprarem um andar pequeno, um T1, no Chiado ou por aí. Fiquei chocada. E as coisas? Ele disse: Vendemos tudo. É o melhor. E para que é que aquilo serve?

Ainda não o fizeram. Dá muito trabalho e ainda não tiveram motivação para o fazer mas ele diz que um dia o farão.

Eu acho que não conseguiria desfazer-me de todas estas minhas coisas, sinto necessidade de me sentir cercada pelos que me são queridos e pelas minhas coisas.

Mas também admito que possa chegar o dia em que não queira quase nada, só o afecto dos meus, e que tenha vontade apenas de levar uma vida simples, varrer a casa, ir à praça, fazer o almoço, passear, ver o mar. Mas sempre com alguns livros.

Mas, enfim, isto veio a propósito da tal história.


Uma mulher teve tudo o que quis, fama, amantes, riqueza. A sociedade reconhecia-a como uma entre as melhores. Não que fosse uma grande actriz. Mas era elegante, bela, espirituosa. Ciúmes, despeito, inveja, claro que tudo isso ela certamente despertou. Mas que interessam os olhares oblíquos quando se têm, frontais e sem pudor, os olhares de todos aqueles que se querem? O poder é afrodisíaco e a beleza desenvolta também. Na vida de Marthe havia de tudo isso. Bela, sedutora, actriz, conquistou presidentes, homens poderosos.

Depois um dia morreu. Herdou a sua casa no coração de Paris, uma casa tão cheia de histórias, a sua neta. Mas veio a guerra e a neta fugiu dos nazis, foi para o sul de França e nunca mais voltou a casa da avó, nunca se esquecendo contudo de pagar a sua renda e todas as despesas. Até que a própria neta morreu em 2010, já com 91 anos.

Um dia, o senhorio, porque a renda deixou de ser paga, foi ao apartamento. E foi como se tivesse entrado no passado. A casa estava intacta ao fim de 70 anos de abandono, pó, é certo, mas os objectos todos, parados no tempo como se Marthe pudesse voltar a qualquer instante.

Aliás, era mais do que isso: era como se ela própria ainda estivesse presente. Um belo quadro seu, pintado por Giovanni Boldini, um outro amante, quando ela florescia nos seus 24 anos, iluminava a casa, mostrava aquela que um dia ali vivera rodeada de espelhos, livros, quadros, muitos quadros, tantos queridos objectos. Marthe, nascida Mathilde, ainda ali vivia.



Transcrevo em inglês porque infelizmente é tarde e não tenho tempo para traduzir:

Madame Marthe de Florian (Paris, France; 9 September 1864 – France; unknown date) born as Mathilde Héloïse Beaugiron was a little known French actress and demimondaine (courtesan) during the Belle Époque. She was known for having famous lovers including Georges Clemenceau (before becoming the 72nd Prime Minister of France), Pierre Waldeck-Rousseau (the 68th Prime Minister of France), Paul Deschanel (11th President of France), Gaston Doumergue (13th President of France), and the Italian artist Giovanni Boldini. Her story resurfaced when in 2010 her belongings were discovered in a Parisian apartment, untouched for nearly 70 years, like in a time capsule.
Marthe de Florian lived in an apartment located in the 9th arrondissement of Paris between Pigalle red light district and the Opera very near the church of Sainte-Trinité, which apparently was eventually inherited by her granddaughter, presumably a daughter of Henri. At the outbreak of World War II her granddaughter escaped from the Nazis to the south and settled in the French Riviera, never to return, or at least never to come back to clear the apartment. The rent and expenses were paid regularly until her death in June 2010 at the age of 91. As a result, everything the apartment contained, including many paintings, furniture and all the usual elements of early 20th Century life remained intact for nearly 70 years. The identity of the granddaughter, as well as the date of the death of Marthe and the exact location of the apartment are all unknown to the public due to the current privacy protection laws of France.
Among the many paintings discovered in the apartment was a portrait depicting Marthe de Florian herself in a beautiful pink muslin evening dress, painted by one of her lovers, the artist Giovanni Boldini. The portrait had never been listed, exhibited or published, however a visiting card with a scribbled love note from the painter was found in the apartment, and a short reference found in a book from 1951 commissioned by the artist's widow Emilia Cardona also confirmed the provenance of the painting. According to the book, the work was painted in 1888, when the actress was 24 years old. 



A história da casa de Marthe de Florian, mais conhecida por Madame de Florian, uma casa perdida no tempo, entristece-me. Mas, ao mesmo tempo, torna bem evidente a irrelevância dos objectos por muito queridos que sejam. 


Ou será o contrário?

Será que são os objectos que interessam, que permanecem, e nós é que passamos sem deixar rasto, irrelevantes como partículas de poeira?


Não sei.


[Quem tenha mais cabeça ou menos sono que eu, que responda.]




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Relembro: no post já a seguir tenho um vídeo que não deve ser perdido, tem imagens surpreendentes e muito belas.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira.


O imenso mundo que desconhecemos, do infinitamente pequeno ao infinitamente grande


Por cima de nós, debaixo dos nossos pés, voando à nossa volta, pousados na nossa pele, vivendo dentro de nós há uma infinidade de seres ou fenómenos que ignoramos.

Muitas vezes aqui tenho abordado este assunto: não me sinto mais importante nem mais inteligente ou dotada do que um pássaro, uma árvore, sinto-me apenas um ser que se sente privilegiado por poder aqui estar durante algum tempo rodeada de mistério e milagre.

Tenho também dito - e se o relembro é porque sei que me estou a repetir - que não rejeito aquilo que desconheço nem ignoro aquilo que não compreendo. Sei que um dia saberemos interpretar aquilo que hoje temos como inexplicável; e não sou original neste pressentimento. A telepatia era vista como um dom paranormal e agora experiências científicas começam a provar a sua existência. 

Entre mim e a minha filha é frequente a telepatia, uma coisa por vezes estranha para quem assiste. Contudo, entre nós é normal. Talvez isso aconteça, com frequência entre mãe e filha pois também me acontece por vezes com a minha mãe. 

Muitas vezes me acontecem fenómenos curiosos. Uma vez, quase a chegar a casa, tinha ido buscar a minha filha à faculdade, lembrei-me de uma colega de quem ela nunca mais tinha falado. Tinham seguido cursos diferentes, há alguns anos que não se falavam. Estávamos nisto quando, ao meter a chave à porta, o telefone a tocar. Ela correu para o telefone e, para grande surpresa dela e minha, era a dita amiga.

Aqui há tempos um colega meu contava-me, com sigilo, que ia haver uma mudança, que uma certa pessoa ia sair. Não sabia quem o ia substituir. E eu, que estava a ser apanhada de surpresa, disse com certeza, Vai ser fulano de tal. O meu colega ficou muito admirado, pensou que, afinal, eu soubesse mais que ele. E eu que não mas que tinha a certeza que era isso que ia acontecer. E ele que não, que não fazia sentido, essa pessoa não. E eu não conseguia explicar porque, de facto, não fazia sentido.

No dia seguinte, toda a gente estava espantadíssima pois não apenas aquele administrador ia sair como, sobretudo, ia ser substituído por fulano de tal. Ninguém tirou da cabeça do meu colega que, afinal, eu tinha sabido antes dele.

Não vou para aqui agora pôr-me a exemplificar coisas que pressinto pois o que quero não é provar que tenho poderes divinatórios. Não tenho (embora, por vezes, pareça que sim). O que quero dizer é que acredito que o que agora pode parecer estranho, vai parecer normal no futuro.

Vivemos absorvidos por insignificâncias, o que a outra disse que nos desagradou, o que os jornais dizem, as pequenas e irrelevantes intrigas sociais ou familiares, e não dedicamos um minuto da nossa atenção ao mundo imenso, magnífico, que vive à nossa volta ou, mesmo, dentro de nós.

Mas há um fazedor de filmes ou fotografias que se dedica a descobrir e divulgar o muito pequeno, o muito grande, o que se move a grande velocidade ou o que parece parado: Louie Schwartzberg.


Não sei dizer se é um aventureiro, um curioso ou um artista. O que sei é que o seu trabalho é extraordinário.




Louie Schwartzberg: Os milagres escondidos do mundo natural








Quem tenha dificuldades em perceber o que ele diz pode carregar  AQUI  pois irá ter à conferência legendada (ponho-a assim, em segundo plano, apenas porque a imagem do vídeo não é famosa, apresenta algumas falhas)


As imagens que escolhi para ilustrar este post são, claro, de Louie Schwartzberg.


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Não falo do Novo Banco e do entra e sai de administradores porque Carlos Costa e Passos Coelho não sabem a quantas andam e, com o que fazem, só dão mau nome às borboletas que são sempre tão lindas na sua efemeridade. Não me apetece perder tempo com tão fracas rezes.


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segunda-feira, Setembro 15, 2014

Alexandra Lencastre dança na final do Dança com as Estrelas e, uma vez mais, pergunto: quem é que escolhe os vestidos que aquela gente veste? Um excesso (ou melhor: um disparate) mas, enfim, talvez esteja de acordo com a personalidade de quem os veste, sei lá. Ou de quem vê estes programas - mea culpa, mea culpa.


Depois de, no post abaixo, ter falado na magreza de Teresa Guilherme que talvez tenha justificado a escolha do mini-vestido que usou na actuação na final do Dança com as Estrelas, aqui agora falo de Alexandra Lencastre.



Alexandra Lencastre é naturalmente bonita, sensual e boa actriz. Contudo, não percebo porquê, tem optado por esconder tudo isso sob uma capa de artificialidade que a menoriza. 

Por exemplo, optou por modificar a fisionomia por forma a não evidenciar rugas nem descaimento mamário e tanto botox e silicone tem enxertado que, de bonita, passou a excessiva.

Mas não optou apenas por se quitar a nível físico. Parece que a nível de personalidade também optou por exponenciar a sensualidade, tornando-se brejeira, aparentemente oferecida.

Como se isso não chegasse, também tem tido algum desequilíbrio a nível de peso pois tanto nos aparece a transbordar dos vestidos como mais magra.

Provavelmente tudo isto é fruto de alguma instabilidade emocional já que a imprensa rosa vai noticiando romances, uns mais clandestinos que outros. Aqui há tempos davam-na como namorada de Fernando Alvim, coisa que eu acharia deliciosa. Mas, enfim, não temos nada a ver com isso.

Vestida como uma cheerleader,
Alexandra Lencastre na final do Dança com as Estrelas


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Este domingo, na final do Dança com as Estrelas, de mera jurada passou também a interveniente. Claro que a coreografia tinha que ter qualquer coisa de picante, mostrando-a entre quatro garbosos bailarinos. Tudo bem.

A questão é que, uma vez mais, a vestiram como se ela estivesse na fase magra, como se tivesse menos 20 anos, como se tivesse um palmo a mais. Assim, bem nutrida como está, também com uma cabeleira loura ondulante costas abaixo, baixinha e de bota alta, nem sei o que aquela Alexandra Lencastre me parecia dentro daquele modelito, toda franjas, mini-saia, laterais bem fornecidos à vista. Talvez uma cheerleader distraída da idade. Não poderia ter uma dança sensual, estar toda ela picante (para estar consentânea com a sua imagem de marca) e, no entanto, ser uma sedutora com algum nível, boa pinta, boa presença? Eu acho que sim.


Alexandra Lencastre
em mais um dos seus momentos 'atirou-se para o chão'


E depois não sei se é ela que influencia a escolha da roupa, se é também pela roupa que se torna ainda mais excessiva e descabida. 

No final, quando a outra exagerada da Cristina Ferreira fazia a festa naquela sua pose habitual de perna aberta, a Alexandra pareceu querer fazer uma vénia aos bailarinos mas, desconcentrada como sempre parece estar, deu ideia de que, às tantas, quis ir mais longe, pareceu querer pôr o joelho em terra, mas a coisa foi além e quase parecia ir atirar-se aos pés dos rapazes. Um desatino. Ver-se uma boa actriz, à beira dos cinquenta anos, e sempre nestes desmandos, a atirar-se aos bailarinos, a atirar-se para o chão, é coisa que não se percebe. É daqueles casos em que apetece repetir o Diácono Remédios: não habia nechechidade. 

Seria bom que alguém lhe desencantasse um papel diferente, marcante, alguma coisa que a afastasse da imagem de bomba sexy e que ela se sentisse estimada mesmo sendo baixa, tendo rugas, olhos castanhos, e que deixasse de sentir esta absurda necessidade de estar sempre a representar, a evidenciar os seios, a ser provocante, engraçada, aparatosa.

Mas, enfim, cada um é como é e se ela for feliz assim, também não sou eu que tenho alguma coisa a ver com isso.

Quanto aos excessos a todos os níveis do Dança com as Estrelas falo também no post abaixo. Aliás tenho ideia de que a TVI, quando a coisa toca a entretenimento, é toda nesta onda, uma popularice pegada.

Vê quem quer, é um facto. Mas a verdade é que, com bimbalhices a toda a hora, se vai moldando o gosto da maioria dos portugueses.

Uma palavra para o vencedor do programa, Lourenço Ortigão. Deve ser moçoilo conhecido pelos dotes corporais pelo que as coreografias puseram isso a descoberto. Pareceu-me que, mais do que dançar, fazia acrobacias e mostrava músculos. Aliás as próprias coreografias pareciam-me coisas um bocado criançolas, mais uma brincadeira que uma dança. Pareciam, de facto, encaixar-se no estilo infantilizado, brejeiro e apimbalhado do programa, em que a coreografia é um mero pretexto para evidenciar a característica dos intervenientes na dança. O rapaz é conhecido pelo seu cabedal? Então bora lá mostrar isso que as meninas desatam a votar desenfreadamente.


Os cínicos dirão: muita crítica, muito desdém, mas viu, não viu? 

Certo mas toda a gente precisa, volta e meia, de um brainwahing e ver um programa como este é uma das formas de o fazer.


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Bom. Já que estou numa de dança, mostro um tango dançado com uma entrega incrível no Dancing with the Stars 2014 pela dupla Meryl Davis e Maks. Dizem que é um tango argentino.







E, se falamos de tango argentino, não podia esquecer-me do Grupo Corpo. Eu, noutra encarnação, posso muito bem ter sido uma bailarina como estas. Sinto que fui. Esta forma de dançar e de sentir o tango corre-me nas veias.

Aqui é, como em várias outras vezes em que cá estiveram, uma coreografia de Rodrigo Pederneiras sobre uma música de Ernesto Lecuona.





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Isto hoje não deu para grande coisa, eu sei, mas, por um lado, o meu fim de semana foi tão preenchido e animado que não me sobrou cabeça para muito mais e, por outro, estou com o assunto Novo Banco na cabeça, coisa que me maça demais por evidenciar de forma exacerbada a irresponsabilidade e incompetência de quem nos desgoverna - e a verdade é que não estou com disponibilidade mental para me pôr de novo a falar nisso.

Por isso, hoje fico-me por aqui e deixo-vos na companhia da dança e da minha opinião sobre três mulheres que marcaram a final do Dança com as Estrelas deste domingo, mulheres cuja imagem se confunde com o entretenimento da TVI, três mulheres excessivas, desbragadas, que contribuem em muito para o lado popularucho da televisão portuguesa: Teresa Guilherme, Alexandra Lencastre e Cristina Ferreira.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda feira.