Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, junho 16, 2020

As casas dos escritores


La Villa Arnaga d'Edmond Rostand



La Maison d'Émile Zola

Já aqui falei várias vezes: tenho esta coisa de que, um dia que tenha tempo, hei-de sentar-me a escrever, a escrever a sério. Histórias, guiões, romances, cartas, macacadas, o que me der na bolha. Tudo menos poesia que a poesia pede recato e eu sou tudo menos recatada, pelo menos a escrever.

Para escrever a sério preciso de saber que consigo mergulhar no espírito da coisa e lá ficar até adormecer. Por isso, só escrevo de noite, quando sei que não haverá nada que possa interromper-me. De dia, em especial neste regime de teletrabalho em que tenho conseguido aguentar-me (vejamos até quando), não consigo escrever. Sabendo que a qualquer instante pode chegar mail a requerer resposta urgente, telefonema ou meeting dentro de pouco, não consigo que a mente se encarreire para aqueles caminhos em que deixa de receber ordens e em que fica por conta própria, as mãos descomandadas.

Le Château de Monte-Cristo d'Alexandre Dumas

Mas se preciso de tempo e sossego, há outra coisa de que também preciso mesmo. E disso também já aqui falei.
Repito-me, repito-me. Há tanto tempo a escrever aqui todas as noites que não consigo inventar coisa para ser todo o dia um enredo diferente. Repito-me, pois. 
É que preciso de um lugar especial. E esse lugar eu ainda não encontrei. Tem que ser lugar amplo, mesa grande e vazia, só uma jarrinha pequena de flores frescas. Talvez, em vez de jarra, um vasinho com uma orquídea. Nunca tive orquídea. Acho que tenho receio que não se dê e que, com isso, me traga desgosto. Mas a mesa grande deveria estar ao pé de uma janela. E ao pé deveria ter música. A música inspira-me.

La Maison de Balzac

Só que ao dizer tudo isto percebo que tudo são dificuldades. Que mesa? Deveria ser uma mesa rectangular, branca. Mas não a tenho nem tenho onde uma mesa assim ficasse bem. Nem sei já onde ouvir música. No computador, spotify, cenas dessas? Aqueles meus cds todos com sinfonias, concertos, jazz e blues, alguma vez os voltarei a ouvir?  Onde? Ou ter um pequeno rádio onde possa ouvir a antena 2? Mas ainda haverá rádios à venda? 

Tudo me parece difícil, intransponível. Uma logística impossível.

La Maison de Louis Aragon et Elsa Triolet

Penso também que deveria ter, por perto, um sofá macio ou cadeirão de reclinar para fazer uma pausa quando a cabeça pedisse descanso. Talvez num lugar onde entrasse a luz da tarde que é dourada e me envolve a alma em paz e emoção.

E há mais dificuldades: qual a hora do dia e o que fazer com os afazeres, como garantir a capacidade de conciliar com a culinária, a jardinagem, os telefonemas e os cuidados com a família.

E isto para não falar na cadeira. Não sei qual a ideal. Já experimentei várias e nenhuma é suficientemente neutra para não ser tema. Na escrita nada mais pode ser tema senão as palavras.

Mesa e cadeira: dois pontos chave no desbloqueio desta minha inibição. Uma vez arranjei uma secretária que achei que tinha tudo a ver. Uma secretária antiga, de nogueira, tampo de pele verde, gaveta grande a meio, gavetas dos lados. Para começar, pus um vidro espesso em cima. Tive medo que alguém sujasse ou rasgasse a pele. Depois não é confortável. O espaço para as pernas é um bocado apertado e volta e meia dava com a parte de cima da perna numa das esquinas das gavetas. Não. Falta-lhe largueza, simplicidade, silêncio. Teria que ser um espaço branco, silencioso. A música também deveria ser silenciosa, mais espaços do que notas. Claridade, o perfume da relva cortada ou das flores a vir da rua, os passarinhos a cantarem, a luz a vir pousar em mim.

La Maison de George Sand

Tudo muito difícil. Não sei como é que há tantos escritores. Se eu, mesmo só para me armar em pseudo, não consigo reunir as condições para, como é que os outros, os verdadeiros, o conseguem? Sou eu que sou picuinhas, cheia de esquisitices e nove horas? Se calhar sou. Se calhar os escritores de verdade pegam num guardanapo de papel e, mesmo no meio da confusão, constroem um personagem. Se calhar é isso. Não tenho alma de -- porque, sendo como sou, com tanto escolho, não sei como é que algum dia poderei dar largas a esta minha vocação escondida. 

E toda esta conversa para dizer que, tendo hoje o dia sido mais calmo, em vez de aproveitar a agenda mais bondosa e tentar a arte, não senhor. Ao fim da tarde, peguei na máquina e fui fotografar o mesmo de sempre. Depois fui pôr-me a cuscar cenas. E, logo a abrir, dei com uma que me agradou bué. Les maisons d'écrivains à voir en France. D'Émile Zola à Colette en passant par Victor Hugo et Jean Cocteau, tour d'horizon des plus belles maisons d'écrivains à visiter en France cet été.


La Maison de Jean-Jacques Rousseau à Montmorency

Até me deu vontade de me meter no carro e ir por aí, em passeio -- e o que eu gosto de passear de carro -- a conhecer a casa deles para perceber como é que tinham resolvido tamanha quadratura de círculo. E, agora que o escrevo, penso que, na volta, poderia era organizar um passeio assim pelas casas dos nossos escritores. Será que há várias abertas aos cuscos como eu?

La Maison de Marcel Proust à Combray
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Marnie Laird interpreta Clair de Lune de Claude Debussy e escolhi esta interpretação de uma música que me é cara por vários motivos, alguns dos quais muito poucos óbvios, sobretudo pelo décor. É que esta é outra: o meu sonho é poder ter uma área da casa coberta de livros, do chão quase até ao tecto, estantes brancas ou de cor neutra, um lugar a preceito. Hoje tenho estantes de várias nações e quase todas escuras. E até gostava de ter uma escadinha deslizante. Mas isso já seria um preciosismo.

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E uma boa terça-feira.

segunda-feira, junho 15, 2020

De um lado Armando Vara.
Do outro, João Paulo Correia, Mariana Mortágua e tantos outros.
E Valupi





Há quem, na blogosfera, pense que sou sectária, tendenciosa, devota. Que pensem. Tenho para mim que sou das ciências exactas, dos números, dos modelos, dos algoritmos, da razão. Não sigo credo, não pertenço a clube, não frequento grupo. Sinto-me bem como outsider. Penso por mim. Não sigo mandamento, não procuros likes. Pode o rebanho inteiro estar certo de que a direcção é uma que eu me manterei distante, indo para onde a razão me mandar. Poderei ser a única a ir noutro sentido que nem assim me sentirei coagida a encarneirar. E podem chamar-me mil nomes. Não os ouvirei.

Não que não mude quando percebo que não estava certa mas reconheço-me como uma pessoa de convicções. Uma para mim é inabalável: toda a gente é inocente até prova em contrário. E as provas têm que ser científicas, inquestionáveis. E tem que se ter a noção das proporções, tem que se colocar tudo em perspectiva.

E vou dizer uma coisa que muitos dos que me lêem pensarão que é contraditório com o que disse acima: confio muito na minha intuição. Até hoje nunca me falhou. E a intuição, não me canso de dizer, não é treta esotérica, a intuição é a inteligência a usar um short cut a partir de marcadores.

E vem isto a propósito de poder estar o país inteiro a bater no ceguinho, a comunicação social a saltar a pés juntos em cima, a justiça, cega, a cuspir-lhe, sem rebuço, na cara,  os justiceiros da Assembleia da República, armados em Grande Júri, a acertarem contas com quem está na mó  de baixo -- que eu seguirei a pensar da mesma maneira: a pensar como a intuição me diz e como, com mais lentidão e certeza, a razão mo prova.

E neste caso falo de Armando Vara.

O que se passou com ele é monstruoso. Sempre o achei. Se antes, quando ele estava na mó de cima, nunca foi alguém que me tivesse particularmente inspirado -- era, na realidade, alguém que não despertava a minha atenção -- a verdade é que fiquei a admirar a forma digna como foi conseguindo enfrentar a monstruosidade que foi enfrentando.

De todas as vezes que ouvi elencar as supostas provas do seu suposto crime sempre as achei ridículas. Nem é uma questão de serem ou não válidas. Achei-as, pura e simplesmente, absurdas, disparatadas. Uma vergonha. Pelo contrário, sempre achei criminoso o comportamento da canzoada que se atiçou cobardemente contra ele. E não apenas cobardemente: também estupidamente, também ignorantemente. Gente sem experiência do que é a vida nas empresas, gente sem experiência de vida em geral, gente parva, gente má, gente que se acha com o rei na barriga por deter pequenos poderes, gente que não se ensaiou nem por um instante por destruir a vida de um homem.

Devo dizer que se fosse dona e senhora de uma empresa ou se tivesse a meu cargo a responsabilidade de gerir uma qualquer organização, mais depressa eu quereria a trabalhar na minha equipa uma pessoa como Armando Vara, um tipo decente, digno, vertical, do que uma criatura que me leva a sentir vergonha alheia como o João Paulo Correia, uma criatura sem história nem respeito pela dignidade alheia, ou a Mariana Mortágua, uma criatura que a toda a hora dá mostras de uma atitude pesporrente, que a toda a hora revela uma arrogância que poderia ser apenas infantil se não revelasse tanta intolerância e maldade.

Não vou entrar em detalhes que não conheço nem deter-me em pormenores irrelevantes para o caso: digo apenas que seria bom que um dia a Justiça reparasse o erro e o abuso que cometeu e que os cobardes que trataram Armando Vara com desprezo, prepotência e maldade conhecessem na pele o desprezo da sociedade por terem feito o que fizeram.

Quero ainda dizer outra coisa. Se há blog que gosto de seguir é o Aspirina B e se há blogger que admire é o Valupi. Não é apenas por, de forma geral, concordar com ele. É também porque não se importa de ir contra a corrente, é porque pensa por ele, é porque se documenta, é porque é claro e estruturado na exposição das suas razões. E é porque escreve bem que se farta. 

A quem esteja interessado, recomendo a leitura dos seus posts: Quem tramou Armando Vara? Nós todos. Coloco o link para o último mas, em querendo, é procurar os restantes e, a seguir, parar para pensar. É bom usar a cabeça.


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E queiram, por favor, aceitar o meu convite e também descer até ao post seguinte onde o pitéu é mais doce.

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E uma boa semana para si que está aí desse lado

Kefir in heaven



Depois de uns dias a comer bem e mais do que devia, já ontem à noite me apeteceu aligeirar. E hoje, já apenas nós dois, enquanto ele comeu uns restos de arroz e carne grelhada, eu fiquei-me pela fruta comida ao mesmo tempo que o queijo e por um daqueles petiscos pelos quais me pelo. Aliás, devo dizer que adivinhei logo que a minha menininha mais linda ia gostar dele tanto quanto eu. E alguns dos meninos também. O meu filho e a minha nora também. Não convenci nem o meu marido nem a minha filha. Não são dados a mistelas das minhas. Sinceramente não compreendo porquê porque são uma delícia.

Conto.

Gosto de kefir de qualquer maneira. Mas há uma maneira de que ainda gosto mais. Como base, gosto do kefir puro, sem sabores ou geleias misturadas, sem açúcar. Gosto daquele que é relativamente líquido. E faço assim: coloco numa tacinha um bocado de kefir, misturo ou amêndoas ou outra coisa de que gosto muito e que compro no lidl, caju com arando, depois polvilho generosamente com canela e ponho um fio de mel. Misturo. E como com o coração adoçado, a boca ainda mais. Experimentem.

Para além do mais presumo que seja saudável. Talvez o mel ou os frutos secos não ajudem a perder peso mas uma coisa eu posso assegurar: ajudam a sermos felizes.

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E, para condimentar, sai um dos meus poemas preferidos (oh céus, porque é que gosto tanto deste poema?), um que cheira a canela.


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NB: Hoje andámos a apanhar orégãos. Uma farturinha perfumada. Há-os por todo o lado, viçosos, cheirosos. Amanhã talvez vos mostre a instalação que ali está armada na mesa da sala de jantar. Mas agora quero apenas dizer que, quando estávamos na colheita, um dos meninos, o mais novo, veio chamar-me para me mostrar uma flor. Pensei que era uma flor banal -- banal no sentido em que já vi mil vezes. Mas, quando a vi, fiquei pasmada com a sua insólita beleza. Ao fim do dia, já eles se tinham ido embora, resolvi ir vê-la de novo e fui munida. Tinha que fotografá-la. Primeiro contra o fundo verde em que estava, outra contra o fundo da pedra junto da qual estava. Maravilhosa. Há coisas extraordinárias nesta vida.

domingo, junho 14, 2020

Dia de Sto António in heaven





O calendário surripiou-me um feriado. Por pouco poderia ter sido uma semana folgada, com três feriados e, afinal, o Sto António foi calhar-nos a um sábado. Não está certo. 

Mas não fez mal. Se o Dia de Portugal, que, certa vez, o outro evocou como o dia da Raça, foi o dia em que aqui tive a descendência reunida (e digo descendência para não dizer 'os que me são arraçados'), o Dia de Sto António foi o dia em que conseguimos arrancar a minha mãe de casa. O meu filho foi buscá-la logo cedinho e um bocado depois já a carrinha estava aqui a apitar, ao portão. Meia dúzia. Todos de máscara -- e percebe-se. Acabou o confinamento mas não acabaram os cuidados a ter, em especial num espaço fechado como é um carro. E trouxeram carne e peixe e uma caixa de cerejas e uma sacada de carvão. E massa para pão pronta a enfiar no forno. E a minha mãe bolo de cenoura com cobertura de chocolate.


E assim foi que hoje voltou a ser dia de festa. Os primos felicíssimos, uma brincadeira e uma alegria que desconhece distanciamentos. Novas cumplicidades, novos interesses, uma estima que se reforça, uma energia transformada em alegria, inocência e graça.

E há quanto tempo a minha mãe cá não vinha. Espantou-se com o tamanho das árvores. Até eu, que cá estou, me espanto. De vez em quando, dentro de casa, ia dizendo: 'olha, esta mesa que o pai arranjou.' ou, na rua,  'olha, este não foi o banco que o pai fez?'. Numa das vezes, disfarçou mas eu vi. Fiz que não vi. Depois, quando conseguiu falar, disse: 'Fazia estas coisas, ficavam perfeitas'. E é verdade. Aquela mesa tinha sido a máquina de costura de uma das minhas avós. Em vez da cabeça da máquina ele colocou um tampo com azulejos e vidro. Um trabalho difícil que, de facto, foi executado com perfeição. 


Quando se sentou no cadeirão numa das cabeceiras da mesa, reconheceu-o: 'olha, estou a conhecer'. Tinha sido da mobília da sua sala de jantar de quando eu era miúda. Depois trocaram de mobília e aqueles cadeirões foram para casa dos meus avós paternos. Quando o meu avô morreu e a casa teve que ser esvaziada, os cadeirões foram para casa da minha avó materna. Quando ela morreu, eu quis ficar com eles. Mas desde essa altura a minha mãe não tinha voltado cá. 

Eram de madeira escura mas levei-os ao marceneiro de uma aldeia aqui perto e ele limpou-as, tirou-lhes o tingimento. Estão agora da cor original da madeira, mais bonitas. Mas ela reconheceu-os. Disse: 'Olha, o estofo ainda é o mesmo'.


Quando estávamos lá em baixo, no lugar a que chamamos campo de futebol, nós duas sentadas num banco de pedra que está sob uma aroeira, disse-me que se costuma dizer que a vida passa a correr e que isso é mesmo verdade, que não percebe como é que já tem a idade que tem, que ainda lhe parece que não foi há muito tempo que era miúda e que, afinal, a sua vida já está perto do fim. Não disse com fatalismo, disse como uma mera constatação. Respondi-lhe que é bom sinal a vida passar assim, na boa, que a vida é boa quando não se arrasta, quando não custa a passar. Mas disse isso como poderia ter dito outra coisa pois, por dentro, estava a pensar que é mesmo isso, uma coisa absurda isto da vida, uma coisa aparentemente sem grande lógica, a gente saber que vai acabar quando tem ainda tanta vontade de aproveitar o que há de bom para viver. Mas, como o momento não era para filosofias, desviei a atenção para o resto do pessoal que brincava ao 'mata', a tentarem acertar uns nos outros com uma bola, correndo e dando saltos e rindo e, acto contínuo, já nos estávamos as duas a rir, divertidas com as brincadeiras deles. 

Para mim foi um dia ainda melhor porque o almoço esteve a cargo do chef. O meu filho tem mão para a culinária e sai-se bem em grandes quantidades. Tudo no ponto, saboroso, guloso. As sobremesas estiveram a cargo da minha filha que fez tarte de pêra em massa folhada, uma delícia, e um leite creme que também desapareceu rapidamente.


A casa rapidamente ficou com aqueles cheiro bom do pão feito em casa, dos doces com canela, dos assados no forno ou no barbecue. Toda a gente tem um apetite que quase prega rasteiras a quem planifica as doses. Por acaso chegou e ainda sobrou um pouco, quer ao almoço quer ao jantar, mas nada como o que se supunha ao ver a sacada de carne ou o tamanhão absurdo do peixe que eles trouxeram.


No fim, foram apanhar algumas ameixas que já começam a estar doces e depois, já a noite a cair, todos de máscara posta, lá partiu a carrinha. O bebé já coloca a dele sozinho, com mestria, e não protesta, para ele a covid é coisa com a qual facilmente aprendeu a conviver.

A minha filha e os miúdos ainda cá estão a aproveitar mais um pouco a largueza do campo pois se o irmão vive numa casa com jardim onde os meninos podem ter alguma liberdade de movimentos, ela vive num apartamento em plena cidade o que, em teletrabalho e com os meninos com aulas por computador, não é fácil.


Algum tempo depois da carrinha ter largado, enviei uma mensagem a perguntar se estava tudo bem. A minha mãe tinha chegado há poucos minutos a casa, ia lavar-se e enfiar-se na cama. Deve dormir como um bebé tanta a agitação e animação do dia.

E eu a ver se também durmo bem. Prefiro não pensar muito, nem na finitude da vida nem nisto tudo que me espera nos próximos tempos nem no quanto me apetecia poder continuar in heaven, rodeada de flores, de passarinhos, borboletas e lagartixas, nesta santa existência onde tudo é paz e harmonia.


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A todos desejo um belo dia de domingo

sábado, junho 13, 2020

Um nano UFO cintilando in heaven





Ontem, ao passearmos pelo campo, tive uma epifania. Íamos pé ante pé. Pouco tempo antes, tinha aparecido mais uma cobra. Grande como a outra. Uma cobra rateira. Eu ia a andar e, a dois passos de mim, senti no chão aquele movimento que me faz estremecer. Parei. Ela parou também, estacada, a olhar para mim. A olhar ou a perceber o que iria eu fazer. Depois esgueirou-se por entre as pedras. O meu marido já tinha vindo a casa avisar. Na curva lá ao fundo, no lugar onde se começa a descer, uma cobra. Tinha-se levantado na sua direcção. Deve ter percebido que dali poderia vir perigo.

Por isso, quando, mais tarde, ia com a minha filha e com os meninos, íamos devagar, auscultando os sons, temendo que a bicha se levantasse para nos desafiar. 


A dada altura, estando nós a observar já nem sei o quê, talvez alguma flor, já não me lembro se foi um dos meninos se foi ela, um deles gritou: 'Ali! Ali! O que é aquilo ali?'

Pusémo-nos a olhar. Nada se via. Tal como as partículas elementares que apenas podem ser apercebidas pelo rasto que deixam, também neste caso o que era apenas se via quando se movimentava.

Aquilo era como que um pequeno filamento brilhante que se deslocava na horizontal. Muito fininho, talvez em esverdeado prateado, talvez um centímetro de comprimento mas fininho como uma agulha. Não lhe vi mais nada, nem antenas nem patinhas ou asinhas. Apenas um pequeno, quase invisível filamento brilhante que se movimentava de uma forma invulgar.

Eu disse que era um ovni. Os meninos não perceberam. A minha filha traduziu: 'UFO'. Perceberam. 


Fiquei a pensar: quem nos diz que não há extraterrestres entre nós e nós não os vemos? Quem nos diz que os extraterrestres não são nano criaturas? Imaginamo-los à nossa semelhança ou, quanto muito, pequenos robots, pequenos seres. Mas... e se forem serem ínfimos, ínfimos, ínfimos, super-inteligentes, super-observadores? E se um dia, quais coronas, resolvem virar o nosso mundo do avesso? Claro que podem ser malta do bem e simplesmente gostem de andar por aí a divertir-se vendo a bizarria deste mundo. 

Estive a ver agora se poderia ser o bicho-pau mas não, não, não tem nada a ver.  E, de resto, agrada-me a ideia de, por aqui, para além de toda a bicharada que aos poucos se vem chegando, cada vez mais -- agora até os pássaros já deixam que eu os veja de perto -- também possa haver extraterrestes, seres menos do que microscópicos, menos do que minúsculos pontos de luz, intangíveis, invisíveis. Gostava que, apesar disso, ouvissem as músicas que eu aqui, â noite, gosto de ouvir, que também gostem de poesia, de flores, de luz, de paz, de silêncio. Ou que gostem de outras coisas, muito diferentes, coisas com as quais nem sonho, coisas muito novas, coisas que um dia me deixem conhecer. Gostava de saber que há todo um outro mundo, coisas absolutamente outras, impensáveis. Gostava que, um dia, uns seres de um outro mundo, invisíveis, arranjassem maneira de me dar a conhecer o que de melhor existe no seu mundo.


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Fotografias de Nick Knight ao som de Love me por Yiruma

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A todos desejo um bom sábado

sexta-feira, junho 12, 2020

Ajustar contas com estátuas ou com filmes antigos -- ou o problema da carneirada




Não apenas continuo sem ver noticiários como a minha cabeça anda por outras paragens. Tempo de decisões, tempo de mudanças. Aquilo que vinha antevendo, talvez desejando, começa a aproximar-se. Mas, como geralmente acontece, nem tudo acontece como se espera e os imprevistos, volta e meia, convergem e tudo se junta e atropela deixando pouco tempo e pouca disponibilidade mental para processar tudo, para avaliar se há margem para algum recuo (ou se tal é desejável) ou se o melhor é não pensar e mergulhar de cabeça. Por norma, sou dada a atirar-me sem pensar duas vezes mas, neste caso, estou em crer que tenho que avaliar bem as decisões, tenho que acautelar algumas situações. Mas tudo a mudar ao mesmo tempo e tudo na sequência de meses de confinamento é uma verdadeira overdose.


Portanto, os dias correm rapidamente e, dentro deles, há vários turbilhões, alguns completamente independentes uns dos outros mas que, por coincidirem no tempo, se influenciam reciprocamente e me deixam exausta. Talvez por tudo isso e talvez por outras coisas ainda, anda a acontecer-me uma coisa nova em mim e da qual já aqui falei: dormir mal. Adormeço mal, acordo a meio da noite e não volto a adormecer rapidamente, acordo cedo, com sono e cansada, e passo o dia a pensar que seria bom se conseguisse dormir um pouco.


Ainda por cima, o dia esteve cinzento, ventoso, frio. Voltei a vestir um casaco. Os meninos também pouco saíram, estava mesmo mau tempo. A minha filha fez umas pulseiras muito bonitas e dá boas ideias. Do lado do meu filho chega-me também apoio, incentivando-me no sentido que eu andava a querer mas que agora, à beira de se concretizar, dada a proporção -- que se agigantou -- me traz apreensiva.

E, quando aqui chego, espreito as notícias e, pelo meio do mais do mesmo, vejo a parvoíce a ganhar terreno, a malta feita carneirada, rebanho de cabeçudos e palermas que berram porque o primeiro da fila berrou, Como sempre, há, depois, os do costume a vestir a asneirada de nobres causas e a insultarem os que não se revêem na carneirada. 
Por exemplo, por eu estar a dizer isto, já sei que o mais certo é que me apareçam os comentários do costume com afirmações estúpidas, acusações ou sugestões alarves. Já no outro dia o disse e volto a dizer: só publico o que revele ter sido escrito por pessoa de bem. Comentários escritos por gente malcriada, embirrante ou estúpida vão rapidamente para o lixo. 

Isto a propósito de agora ir tudo de arrastão, estátuas deitadas a baixo ou vandalizadas e, soube há pouco, até o E tudo o vento levou saíu da lista do HBO. Coisa mais parva.

Gente ou coisas que foram importantes no seu tempo, um tempo em que a consciência das coisas era outra, em grande parte gente que hoje já ninguém sabe bem quem foi, vê-se agora apeada do seu pedestal, atirada às águas, pintalgada, ofendida. Dizem que foram racistas, colonialistas, esclavagistas. Não sei, em parte dos casos não faço ideia nem tenho curiosidade em ir perceber. O que acho é apenas uma coisa: absurdo. Se vamos por aí, apagamos a história, apagamos a memória, transformamos o passado dos países em buracos negros. Gente que se monta a cavalo em ondas mediáticas, que vai para as ruas fazer justiça pelas próprias mãos, gente que concentra a sua energia não a construir um futuro inteligente mas a encarneirar e a vandalizar símbolos do passado é gente que é um atraso de vida. Não gosto de censores póstumos, ajustadores de contas póstumas, vingadores póstumos -- gente que desvia a atenção dos problemas presentes e que se esquece de ajudar a construir o futuro, concentrando esforços a desenterrar a memória de seres de que a história não guardou grande registo ou, pior, a deformar ideias ou a olhar para elas à luz dos tempos presentes. Não gosto nem tenho paciência.


E hoje nada mais tenho a acrescentar. Só se for que é curioso que Espanha tenha desistido de tentar encontrar o crocodilo do Nilo nas águas do Douro e que, às tantas, até já se admita que não é crocodilo, é lontra. Na volta ainda é apenas alguém que se deixou engordar durante o confinamento e que aproveitou para ir banhar-se no rio.

Também posso acrescentar que não consigo imaginar-me a, diariamente, voltar a perder horas no trânsito ou a ficar horas fechada em espaços sem janelas. Pode acontecer que, estupidamente, isso tenha que acontecer. Mas será com angústia e raiva que o viverei por constatar que se estará a desbaratar um capital de aprendizagem que deveria ter acontecido. O pior de tudo é a gente que passa pelas coisas incapaz de aprender as lições que a vida se encarrega de lhes enfiar pelos olhos adentro.

Mas, enfim, já chega. Vou descansar, bem preciso.

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As fotografias acima foram algumas das finalistas do concurso de fotografia The Independent Photographer’s Portrait

Natalie Merchant, de quem já estava com saudades, interpreta Ophelia

E não me perguntem porquê pois não saberia encontrar grandes explicações para a falta de relação que tudo isto tem entre si, nomeadamente, com a cereja em cima do bolo, o Defeat de Kahlil Gibran dito por Shane Morris


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Uma boa sexta-feira!

quinta-feira, junho 11, 2020

Desconfinar a la maison, em família e em festa, no Dia de Portugal




Começo a escrever quando o dia de Portugal e de Camões já virou a página. Não tive oportunidade de ver pingo de comemoração e aqui não tenho como pôr o tempo a andar para trás. Na cidade há uma magic box que guarda o tempo. Aqui não, aqui ou se vê na hora ou já era. Coisa que não deixa de ser boa. Mas, portanto, não tendo visto, só agora li que as imagens de Marcelo num espaço quase vazio e que as suas palavras algo cruas causaram impressão. Ou que as palavras de Tolentino Mendonça foram poéticas. Ainda bem. A poesia é do melhor que o mundo tem. O mundo ou a língua. Uma língua que se transforma para incorporar música e emoção, e para acolher a rendição da luz e do tempo é uma língua feliz. 

Não sei se as palavras de Marcelo são sinais de algum desejo de reorientação nas políticas sociais do país ou se são meras palavras de circunstância paramentadas de pias bolas de efeito. O que sei é que continuo a pensar que um grande debate público, chamando quem de melhor temos (embora, lá está, quem decidiria quem seriam os melhores?), me pareceria de grande utilidade. Pelo menos nestes próximos dois a três anos significativas quebras vão acontecer em alguns sectores. Pode acontecer que, estruturalmente, sejam quebras que venham para ficar. Parece-me, pois, indispensável pensar em que sectores -- úteis para o país numa perspectiva não apenas imediatista -- se deverá apostar para empregar todos quantos já estão e virão a entrar no desemprego. Identicamente, a nível do ensino e, em especial, da academia, se deverá perceber quais as valências necessárias para dar corpo a uma reorientação estratégica. O mundo mudou. Está a mudar. E, se não está, deveria estar. Cabe aos líderes apontar o sentido da corrente. E Marcelo deveria ser capaz de mobilizar a sociedade para este debate e para a apresentação de propostas.


Não sou muito de me entusiasmar com movimentos marginais que têm mais de lírico do que de racional e sustentável. Ir para o interior para viver de zero lixo ou de hortas para plantar e vender meia dúzia de alfaces ou umas cenourinhas atrofiadas em mercadinhos biológicos pode dar para fazer blogues com piada, postas no Face ou histórias no Insta -- mas não resolve a vida dos milhares de pessoas de pessoas desempregadas face a quebras incontornáveis no turismo, no comércio, na restauração. E etc.

Mas hoje não vou falar nisto. Vou é contar porque é que só agora estou a ver televisão. 


Este Dia de Portugal foi para mim dia grande, dia feliz. Tive cá a maltinha toda em casa. Desde meados de Março que não passávamos um dia todos juntos. Ora estava com uns, ora com outros. Mas todos juntos, os meninos todos juntos na maior farrinha, todos na conversa ou à volta da mesa, isso só neste abençoado Dia de Portugal.

A ideia ainda era manter a distância. Nada de grandes proximidades. Mas durou, de novo, escassos minutos. Os meninos não se largaram. Felizes, felizes, felizes. Os dois mais crescidos já a quererem dar ares de se prepararem para entrar na pré-adolescência, alinhados no modo de falar, nos gostos, os dois do meio muito cúmplices, muito amigos, o bebé cada vez mais explicado, mais esperto, já a saber fazer jogos de computador com autonomia, incentivado pelos manos e pelos primos.

Consolei-me de os ver todos tão próximos, quase como se não tivesse havido interrupção. De vez em quando alguém ainda se lembrava do distanciamento... mas coisa de pouca dura. Estamos tranquilos quanto a isto pois temos estado todos tão confinados e tão cuidadosos que estamos certamente limpinhos da silva.

Antes de almoço, em cima da mesinha baixa da cozinha, o bebé viu uma cestinha de kiwis. Disse-me: 'Na nossa casa não temos kiwis. Posso comer? Estes já não têm covides?'. Garanti-lhe que não e preparei-lhe um. Menino mais querido.


A noite passada voltei a dormir mal. Não adormeci logo e, a meio da noite, acordei com calor e algumas preocupações e custou-me a readormecer. Quando o despertador tocou estava eu a dormir como se estivesse a começar a descansar. Mas tive que me levantar cedo pois o dia tinha afazeres sem tréguas de permeio. Portanto, com tudo isso e com a animação e a agitação aqui em casa, depois do lanche e estando os crescidos a conversar uns com os outros, os meninos na brincadeira, tudo na rua, a apanhar o sol brando, vim até ao sofá em que agora estou, reclinei-me e, cá para mim, devo ter adormecido de imediato. Por pouco tempo. Penso que nem cinco minutos Acordei com um dos meninos, o meu corajoso menino, mano do meio (do grupinho de três), a surpreender-se por me ver ali deitada a dormir e a dizer: 'Estás aqui? A descansar?' e, acto contínuo, debruçou-se sobre mim, abraçou-me e deu-me um beijinho. E, também acto contínuo, deu um salto para trás, 'Ah... não se pode dar beijinhos...'. Meu amorzinho querido. E lá saiu a correr. O que a porcaria de um corona da treta nos faz a todos. Mas menos mal. Estamos bem, de boa saúde e, se continuar como até aqui, talvez adquiramos imunidade sem sofrermos infecções de maior. Bicho mais estúpido do qual ninguém parece conseguir perceber o 'racional'.

E agora, se não se importam, fico-me por aqui. Não vou dizer que estou a dormir para não ser repetitiva para além da conta mas vou ter que tentar chegar até à cama porque esta quinta-feira vai ser outro dia com animação. 
                                                                                

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Fotografias de  Keyezua, participante num dos LagosPhoto Festival

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Um bom dia feriado. Saúde e boa disposição.

quarta-feira, junho 10, 2020

Mário Centeno, Mariana Mortágua, Cecília Meireles, Duarte Pacheco, etc.
E Chaplin, António Silva, Duarte Pacheco, Beatriz Costa.


Um dia que tudo isto se resolva talvez eu possa contar o que têm sido estes meus dias. São tempos de mudança. Mudanças a vários níveis. Só me apetece mudar e assalta-me uma vontade quase incontrolável de desapego. Não é fácil explicar-me nem é fácil, sem ser descritiva, transmitir até que ponto estou nesta disposição de virar costas a coisas que, dir-se-ia, me são intrínsecas. 

Mas isto para dizer que são tão preenchidos e intensos estes meus dias que chego a esta hora avançada, a sentir-me cansada, incapaz de me pronunciar a sério sobre o que quer que seja. 

O pior é que, tarde e más horas, quando sossego, ligo a televisão a ver se me distraio e vejo meio mundo a comentar, a dar palpites, a agourar, a sentenciar, a arengar sobre uma coisa que deveria ser a mais normal do mundo -- a saída de Centeno do Governo. E ouço que agora querem impedi-lo de poder vir a ser governador do Banco de Portugal. Arranjam mil razões, inventam argumento, dão testemunho, põem ar de doutores. Sabem tudo. Se alguém se distingue por ser competente logo há quem salte para os balcões da televisão com uma infinita e repetitiva converseta da treta. Circulam entre telejornais, noticiários, programas de debate de pechisbeque, repetem o que já disseram e escreveram noutros lugares -- e mostram que isto é uma terrinha de vizinhas, de comadres, de intriguistas, de gente de olho gordo. Em vez de quererem que gente competente esteja em lugar onde a inteligência seja uma mais valia, parece que querem é que o lugar seja ocupado por morto-vivo, múmia cega e surda, carlos costas de rabos pelados que deixam que tudo aconteça debaixo do nariz sem nada verem, sem que de nada saibam e elencando argumento para desfiar desculpas. 

São deputados e ex-deputados, advogados, ex-directores de jornais. Sempre os mesmos, sempre os mesmos trejeitos superiores, sempre aquela pseudo-sabedoria encardida a armar ao pingarelho. Não quero já nem saber se são competentes ou o escambau. É a atitude. Quando entrevisto candidatos para virem trabalhar para as minhas equipas o que eu quero perceber é se são gente boa, gente com boa atitude, gente franca, gente humilde, bem formada, gente que goste de trabalhar em equipa, que seja tolerante. Não quero gente cagona, de nariz empinado, gente com o reizinho na barriga, gente que pensa que sempre estará por cima da carne seca, gentinha armada ao pingarelho.

Mas esses não são os critérios de quem escolhe comentadores e comentadeiras. A televisão está cheia de gente que eu não queria nas minhas equipas nem pintada. A Mariana Mortágua, por exemplo. Não há pachorra. Arma-se em sabichona, em putativa madre superiora disfarçada de vingadora dominatrix. Ou a Drago. Versão délicatesse da Mortágua. Ou o cardeal, o Louçã. Acha-se superior. Mas superior a quem? Em quê? Não sei. Não aguento arrogância. Não digo que por vezes não tenham razão. Digo que são insuportáveis. Uma sociedade em que intragáveis destes estivessem em maioria haveria de ser pior que viver num convento de freiras do século passado, com castigos, maus tratos, sevícias de toda a espécie.

Ou a Meireles na Assembleia, porta-voz. Sempre com cara de má, sempre roída de azia. Ou aquele super-músculos que, para além dos músculos, só tem cabeça mas, infelizmente, oca, o Duarte Pacheco. O que ele diz, senhores. Parece daqueles pintas de província que se encostam à porta da taberna, armados em bons, faço e aconteço, mas que não passam de uns coitadinhos.

Mesmo dos outros, dos que são supostamente não políticos, na televisão, já não os aguento, um enxame de comentadores que só mastigam e remastigam o regurgitado uns dos outros. Nenhum quer ficar atrás dos outros. Inventam desgraças, antevêem desaires, antecipam litígios. Cada um vê mais problemas, vê antes dos outros, adivinha-lhes, antes dos outros, a gravidade. Aves agoirentas, urubus, papagaios. Não tenho paciência. Espremido é zero.

Só desejo é que o Governo tenha arrojo, visão e arte para dar um piparote em velhos hábitos e para levar o país para melhores caminhos. Para mim, ao contrário do joker pintarolas, Portugal está bem quando os Portugueses também o estão. E é isso que tem que acontecer durante o período que aí vem. E que Centeno continue a ser bem sucedido por todo o lado por onde ande e que continue a ser útil ao País.


Tirando isso, depois dar nomes a alguns bois, pena tenho é que não possa mesmo pegá-los pelos cornos. E agora apetece-me é ver vídeos como estes aqui abaixo. Com vossa licença, deixe que os partilhe convosco.








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As fotografias são de Patrick Demarchelier

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E um bom dia de Camões, da Língua e de Portugal.

terça-feira, junho 09, 2020

Miguel, filho de Mirtes que trabalhava para Sari


Escreve Élida Ramirez, sobre a primeira dama de Tamandaré, Sari Corte Real, que, no outro dia,  tinha manicura em casa a fazer-lhe as nails e se impacientou com o menino Miguel que não parava de chamar pela mãe que, entretanto, tinha ido passear a cadela da patroa:
Tente se colocar no lugar da cearense Mirtes Renata, mãe de Miguel. Reforçarei os maus tratos óbvios porque ‘pensar perturba’ como disse Martin Luther King. Ainda mais sob a ótica do discurso do absurdo daqueles que governam atualmente o país. Cenário de pandemia de Coronavírus. Apenas serviços essenciais devem funcionar. Porém, a empregada doméstica Mirtes precisa trabalhar. Ela ‘poderia’ ficar em casa. A tal liberdade custaria o salário que não seria pago. Não tem com quem deixar o filho, Miguel Silva, de 5 anos. Com a autorização da patroa Sari Corte Real e do patrão e prefeito de Tamandaré, Sérgio Hacker, a mulher pobre e negra sai, diariamente, da segurança do isolamento social com uma criança. Pega dois ônibus lotados, espremida e em pé para dedicar seu dia ao conforto dos outros. Não usa máscara dentro de casa dos patrões. Precisa ter contato com entregadores que não param de chegar. Passeia na rua com o cachorro. 
Sem o direito à proteção, Mirtes pega o novo Covid-19 do patrão. Passa para o filho e para a mãe idosa. Enquanto o os familiares abastados se recuperam na casa de campo — também mantida limpa por outros empregados — Mirtes segue na labuta se arriscando pelo pão. Todos sobrevivem.  Ela lava, passa, cozinha e passeia com o pet, porque ‘bicho também é gente’. Final feliz? 
Em um dia desses, Mirtes prefere não levar Miguel para a rua. Ele fica no apartamento com a patroa Corte Real enquanto a empregada cuida do animal, aparentemente sem nenhuma estimação. Daí, a criança quer atenção. O máximo que consegue é ser desovado, sozinho, em um elevador pela mulher do prefeito. Miguel é pequeno, se perde e cai do nono andar. Morre horas depois no hospital. Acidente?

Diz Eberth Vêncio, sofrendo com isto tudo:
Durante os meus exercícios diários de sobrevivência no caos interior, especulo que as relações interpessoais e a comunicação instantânea, globalizada, estão adoecendo a humanidade em patamares impensáveis. Insanidade mental é uma pandemia obscura. Ansiedade. Depressão. Pânico. Suicídio. Parece que o estilo de vida contemporâneo nos atropela com informações e velocidade. Por consequência, uma régua imaginária nivela, por baixo, a inteligência e a capacidade de discernimento e de indignação de muitos, frente às famigeradas mazelas cotidianas. Aprisionados em redes sociais da web, consumimos informações várias, às vezes relevantes, quase sempre supérfluas, inverídicas, cruéis, carregadas de intolerância e de falta de empatia.   
Há um desconfortável fetichismo pelo mau gosto e pelo mórbido espetáculo de notícias escabrosas que nos chegam pelos telejornais, pelos canais da internet, pelos instrumentos viciantes de Mark Zuckerberg, que testam a nossa capacidade mental para amortecer as tragédias diárias que ribombam em todos os cantos do planeta. O filho da empregada que caiu do nono andar em Recife. O adolescente fuzilado, dentro de casa, por militares no Rio. A transmissão, on time, on demand, do sufocamento, até à morte, de um homem negro, por policiais de Minneapolis. 
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Nos dois casos, trata-se de excertos de textos publicados na Revista Bula. No primeiro caso, do artigo A morte do menino Miguel não é acidente. É crime de negligência! de Élida Ramirez e, no segundo, de O menino que havia em mim pulou de um prédio e voou de Eberth Vêncio

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Um bom dia a todos

segunda-feira, junho 08, 2020

Quem é o bunker boy, quem é?
Randy Rainbow responde.
[Mas só depois de contar como foi o meu dia]


Estou a começar isto mais tarde do que é costume e, portanto, vou já directamente ao assunto.

Bem, directamente, directamente não, não faz o meu estilo. Deixem que faça um intróito.

Tive um dia super-hiper preenchido. De manhã grande limpeza à casa, tudo varrido, lavado, esfregado, cobertas de sofás, tapetes e almofadas tudo sacudido e pendurado ao sol, a casa toda rescendendo a lavado, tudo limpo de dar gosto. Enquanto isso o almoço no forno. Depois banho, almoço tardio e ala que se faz tarde, para casa da minha mãe.

Tem o jardim que é uma maravilha, rosas brancas e rosas vermelhas, e uma buganvília em fúcsia frida kahlo e outra, igualmente linda embora em laranja tez-trumpiana. E malmequeres e nem sei que mais. Nascem-lhe flores das mãos.

Ah, levei-lhe ramos de louro, de orégãos, de alfazema, de alecim e um com diversas florzinhas multi-coloridas. Se ela não quer ir para o campo vem o campo até ela.

Estivemos à conversa. Depois lembrei-me de lhe mostrar a Grace e Frankie para ver se a convenço a ter a Netflix (olha para mim...).

À saída, bye, bye -- todos de máscara, os visitantes descalços, os sapatos à porta, todo um protocolo contra natura, e rebéu-béu, pardais ao ninho, tudo coisas que me desconcentram -- pego no computador e bora que já estamos atrasados. Tínhamos um compromisso, às dezanove, num sítio ainda a quase uma hora dali. Na autoestrada dá-me vontade de um magnum ruby. A carência em que ando por gelados leva-me a estar por tudo e estes até que não são maus. À entrada na estação de serviço, vou à carteira tirar os dois euritos... qué dê a carteira...? Queres ver que a deixei em casa da minha mãe...? O meu marido, claro está, a fazer um ar furioso. Liguei à minha mãe. Foi ver à outra sala. Lá estava.

Já que ali estávamos, ele atestou e eu fui a correr comprar o gelado.

Quando vinha a sair, estava ele a vir na minha direcção, ar ainda mais irritado, a apontar-me para a cara. Não percebi. Se já estivesse a comer, ainda pensava que estivesse lambuzada e ele a chamar a minha atenção. Mas não, ainda vinha com ele na mão (ele, o gelado, bem entendido), pronta para me desinfectar antes de não sei o quê. 'O que foi agora?', perguntei, também já maçada com tanto controlo operário. E ele: 'Foste sem máscara...?!'. Mais tinha ele visto que sim. Nem de tal me tinha lembrado. Que não tenho cuidado, que não me esforço -- os remoques do costume. Saímos da autoestrada e ala para trás. Mais de meia hora perdida. Avisei o nosso compromisso que ia chegar atrasada. Ao meu lado, impaciente, ele não se conformava: 'Custava-te muito pensares no que fazes? A esta hora agora termos que voltar para trás...'. Pois, de facto, uma chatice mas fazer o quê?

Há bocado, viemos para casa. Aquela cena toda: andar de elevador sem tocar em nada, abrir a porta, descalçar à porta, trinta por uma linha e, ainda por cima, sob vigilância pois, segundo ele, sou descuidada, indisciplinada. Passa a vida a dizer, irritado comigo: 'O teu problema é a indisciplina. Numa situação destas é preciso alguma disciplina e tu tens que levar tudo à tua maneira, não como te dizem para fazer'. Se calhar é mas, caraças, bardacovid para o corona. Lavei as mãos, desinfectei o telemóvel, despi-me, trá-lá-lá. Quando já estava desnudada e lavada, lembrei-me: 'Ah.... deixei a máquina fotográfica no carro...Tenho que lá ir'. O meu marido, furioso: 'Não vais nada, prefiro ir eu'. E lá foi.

E depois meteram-se outras coisas e agora, já duas da matina, o tanto que tenho para fazer esta segunda e agora é que aqui estou. 

Mas a sério: não tenho pachorra para a droga do coisa pequena. Sei que é preciso cuidado, claro que sim, mas habituada a andar descalça por casa ou a enfiar umas havaianas e sair para o campo onde não há covides de espécie alguma, uma pessoa chega à cidade e parece que não dá.

Além do mais, li uma notícia que me deixou vesga das ideias: há um crocodilo no Douro? Veio de Tordesilhas? Parece piada. Morde-me a vontade de ir averiguar a veracidade ou a plausibilidade da coisa, essa, sim, o acontecimento da década. E bem digo que um dia destes, lá in heaven, quando der por mim tenho um elefante ao lado. Com a quantidade de lagartixas, lagartões, cobras e animais do género que por lá andam, até o crocodilo do Nilo também lá pode aparecer, de tratado na mão, a dizer que quer negociar.


Enfim.

Peço desculpa por não responder aos comentários (tentarei fazê-lo durante ou ao fim do dia) e vou, agora sim, para o Randy Rainbow que goza a bom gozar com o boquinha de rosa.



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E uma semana a todos!

domingo, junho 07, 2020

Lift every voice and sing




Pouco evoluímos. É certo que estamos mais digitais e que isso é bom mas, na verdade, em concreto, não sei quantificar o aumento de felicidade que isso tem trazido à nossa vida. Ao longo de anos venho repetindo (em contexto profissional, claro) que o que não se pode medir é como se não existisse. Portanto, se não consigo quantificar o aumento de felicidade que a digitalização tem trazido às nossas vidas, mais vale nem dizer que é bom. Quanto muito, digo que é capaz de ser bom. No entanto, também não dizer bem dizer para quê. Ainda hoje ouvi umas pessoas sinistras dizerem, creio que na SIC, ufanas, que monitorizam por onde andamos e que conseguem prever tudo e mais alguma coisa. Tudo anonimizado, dizem. Deixámos, pois, de ser pessoas para sermos ID's, objectos que podem ser traceados -- rastreados, I mean --, meros dados que sustentam e validam algoritmos. Tão bom. Mas, enfim, há nisto da digitalização coisas mais poéticas. Por exemplo, estou a escrever e vejo que, neste preciso instante estão noventa e sete pessoas a ler o que por aqui vou escrevendo, setenta e sete das quais de Portugal. Mas também quatro da África do Sul, três dos Estados Unidos, dois do Brasil. Etc. Se não fosse isto da digitalização, estaria a escrever à mão, num caderno, e ninguém faria ideia do que eu estaria a garatujar. Mas em que é que ler o que eu escrevo traz felicidade a quem me lê? Eu gosto de ver que me lêem mas a verdade é que não sei quem são, não os conheço, não sei o que pensam do que escrevo. Algumas pessoas dizem que gostam e fico contente mas, também, de vez em quando, recebo comentários desagradáveis, gente que goza comigo, que me diz coisas ofensivas ou maldosas. Geralmente não publico essas coisas más. Não gosto de ser maltratada. Tento ignorar. Penso que se não gostam de aqui vir, porque vêm? Mas isto para dizer que, a bem dizer, também não posso concretizar de forma racional em que é que eu escrever aqui, à vista de toda a gente, é bom. É certo que há outros aspectos a reter nisto na digitalização: tudo desmaterializado, tudo circulando em cabos ou pelo ar, tudo ligado a tudo. É capaz de ser bom. Não sei é se, materialmente, isso tem contribuído para a nossa felicidade.


Também se tem evoluído na ciência. Mas um vírus da treta, uma variante de um corona que já por cá anda há que séculos, foi o suficiente para paralisar o mundo, para dar um coice em todo o sistema, para deixar toda a gente de máscara na cara e a ter medo de cada vez que alguém tosse perto do nosso cerco sanitário privativo. E uns dias isto cura-se com isto, outros com aquilo, e o brufen agudiza, o brufen cura, máscara não, máscara sim. Ninguém sabe. Um merdinhas de nada trocou as voltas à ciência toda, por junto. Até The Lancet, essa sumidade, meteu água e disse e desdisse que a hidroxicloroquina era e não era a solução ou parte dela. Portanto, ora abóbora.

E isto das supremacias, da religião disto e daquilo, crendices, seitas, grupos grupelhos -- tudo coisas que, por já terem provado ser atrasos de vida, burrices, crimes, já deveriam estar mortas e enterradas há séculos. Mas não, tudo vivinho da silva.


Um país como os Estados Unidos estar como está, nas mãos de um bronco que, por mais porcaria que faça, ainda continua a merecer o agrado de grande parte da população é coisa capaz de desmoralizar o mais optimista. Que tanta gente ainda seja tão alarvemente racista, tão alarvemente ignorante, tão alarvemente boçal, tão alarvemente abaixo de cão é coisa que me deixa doente. 

Não estamos a caminhar no bom sentido. Começo a achar que a democracia abriu demasiado as portas aos não democratas, que a liberdade abriu demasiado as portas aos seus inimigos, que os civilizados abriram demasiado as portas às cavalgaduras.


Não estamos a evoluir. Pelo menos não no bom sentido. Digo eu.... E, pior, não sei se ainda vamos a tempo de arrepiar caminho. O mal está muito espalhado.

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Por exemplo: há quanto tempo foi isto aqui em baixo gravado? Ontem?

Ou há décadas?

O que evoluímos desde então?



Por isso:

Lift every voice ando sing



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Fotografias de Robert Mapplethorpe ao som do piano de Nina Simone.

Excerto de "Ounce of Faith" de Darrell Grand Moultrie dançado por Khalia Campbell do Alvin Ailey American Dance Theater
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E é ir deslizando por aí abaixo. 
E um bom domingo.