O Blogue da moda: actualidade, artes, literatura, jardinagem, família e muitas outras coisas

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quinta-feira, Novembro 27, 2014

Passos Coelho, o motorista, o alentejano e o porco


A propósito de porcos, acabadinha de chegar transcrevo uma anedota que Leitor atento, e a quem agradeço, me fez chegar. Quem não apreciar o estilo humor negro deverá abster-se de prosseguir a leitura.


A Morte do porco



O Passos Coelho e o seu motorista passeavam por uma estrada no Alentejo quando, subitamente, atropelaram um porco, matando-o instantaneamente.


O Passos Coelho disse então ao seu motorista que fosse até à quinta e explicasse o que tinha acontecido ao dono do animal.

Uma hora mais tarde, Passos Coelho vê o seu motorista a cambalear em direcção ao carro, com um charuto numa mão e com uma garrafa de uísque na outra. A roupa estava toda amarrotada.

- O que é que aconteceu!?? - perguntou o Passos Coelho.

O motorista respondeu:

- Bem... o dono da quinta deu-me vinho, a sua mulher, cigarros, e a sua charmosa filha de 19 anos fez amor comigo, apaixonadamente.

- Meu Deus! Mas o que é que lhes disseste?! - perguntou Passos Coelho.

- Disse: sou o motorista do Passos Coelho e acabo de matar o porco!


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[NB: Para que fique claro. Sou uma pacifista e nunca faria uma festa nestas circunstâncias, com ou sem equívocos.]


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Comunicado de José Sócrates a partir da prisão de Évora, "há cinco dias fora do mundo". O animal feroz que enjaularam e que dá pelo nome de Preso 44 está a acordar e, pronto para a luta, diz que "este processo só agora começou."


No post abaixo já falei das notícias que dão conta da fortuna que a família de José Sócrates tinha numa conta numa offshore e, supostamente, à pala da qual estão sob investigação no âmbito do Processo Monte Branco. Fiz as contas e retirei as minhas conclusões. (Os vasos comunicantes entre a investigação e o jornalismo linha branca continuam em grande estilo mas, enfim, nem foi sobre isso que falei).

Mais abaixo ainda, apresentei as minhas explicações aos Leitores que têm deixado comentários e que eu, mal agradecida, tenho deitado fora. E, em contrapartida, deixo-lhes um desafio.

Mas tudo isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


Desde que cheguei ao computador que estou com vontade de espairecer e tinha aqui uma na manga que era uma gracinha. 

Mas pus-me a ver os comentários, a varrer alguns, a proceder à devida desinfestação e o tempo foi passando.


Quando agora, finalmente, vinha fazer o gosto ao dedo, dou uma espreitadela pelas notícias e toda eu sorri. Ah menino lindo!


Mas, porque não há machado que corte a raiz ao pensamento, vamos com música, por favor.




E que vi eu?

Pois bem: um comunicado de José Sócrates ditado ao bacano do seu advogado, o Dr. João Araújo enviado à TSF e ao Público.




Li as palavras e o que me ocorreu foi que um lobo saído da noite uivou e uivou bem alto.

O que eu gostei de ler o que ele escreveu... E, também, o que eu gostei que ele o tivesse escrito!

Há quem os prefira mansarrões, cabeça baixa, sempre batendo com a mão no peito, sempre dizendo ámen, nunca levantando cabelo, sempre nas tábuas. Eu não. Eu gosto de gente que não se acobarda, que vai à luta, que se levanta, ergue a cabeça, olha sem medo, marra de frente. Assim, acho eu, são os líderes, os que têm carisma, os que sabem o que querem e não se deixam ficar pelo caminho.

Transcrevo pois, embora as suas inesperadas palavras estejam por todo o lado, não quero deixar de as ter aqui no Um Jeito Manso - embora preferisse que estivessem escritas sem respeitar o malfadado Acordo Ortográfico (mas, enfim, isso agora não interessa).



«Há cinco dias "fora do mundo", tomo agora consciência de que, como é habitual, as imputações e as "circunstâncias" devidamente selecionadas contra mim pela acusação ocupam os jornais e as televisões. Essas "fugas" de informação são crime. Contra a Justiça, é certo; mas também contra mim.

Não espero que os jornais, a quem elas aproveitam e ocupam, denunciem o crime e o quanto ele põe em causa os ditames da lealdade processual e os princípios do processo justo.

Por isso, será em legítima defesa que irei, conforme for entendendo, desmentir as falsidades lançadas sobre mim e responsabilizar os que as engendraram.


A minha detenção para interrogatório foi um abuso e o espetáculo montado em torno dela uma infâmia; as imputações que me são dirigidas são absurdas, injustas e infundamentadas; a decisão de me colocar em prisão preventiva é injustificada e constitui uma humilhação gratuita.



Aqui está toda uma lição de vida: aqui está o verdadeiro poder - de prender e de libertar. Mas, em contrapartida, não raro a prepotência atraiçoa o prepotente.


Defender-me-ei com as armas do Estado de Direito - são as únicas em que acredito. Este é um caso da Justiça e é com a Justiça Democrática que será resolvido.

Não tenho dúvidas que este caso tem também contornos políticos e sensibilizam-me as manifestações de solidariedade de tantos camaradas e amigos. Mas quero o que for político à margem deste debate. Este processo é comigo e só comigo. Qualquer envolvimento do Partido Socialista só me prejudicaria, prejudicaria o Partido e prejudicaria a Democracia.

Este processo só agora começou.

Évora, 26 de Novembro de 2014

José Sócrates»

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Poderia eu agora pôr-me a tecer comentários às palavras de José Sócrates mas, dado que já passa e bem das 2 e meia da manhã, limito-me a partilhar convosco as palavras de Proença de Carvalho no programa Pares da República na TSF sobre a Detenção de José Sócrates. 


Peço que ouçam. Peço que ouçam a comparação que ele faz com a Justiça antes do 25 de Abril, achando que regredimos. Proença de Carvalho não é socialista, não é soarista, não é um perigoso esquerdista, não é uma carpideira ou uma viúva de Sócrates. Muitas vezes me tenho referido a ele como uma eminência parda do regime mas, senhores, como gostei de o ouvir. Maria de Lurdes Rodrigues também fala, e fala muito bem mas, enfim, para os meus leitores mais cépticos pode não ser tão interessante, podem achar que não é isenta, que fala assim porque também passou por uma do além e porque foi ministra dele. Mas, então, ouçam, por favor, as palavras de Proença de Carvalho. Quem não tiver muito tempo, depois das suas palavras que vão mais ou menos até ao minuto 10 e picos (que são imperdíveis!), salte, por favor, ali para o minuto 18 e picos e deixe-se ficar a ouvir.

Carreguem aqui por favor e ouçam com atenção. As nossas opiniões são formadas com melhor conhecimento de causa quando ouvimos a opinião de quem sabe do que fala.


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A música lá em cima é Manuel Freire interpretando a Livre com letra de Carlos de Oliveira e música dele próprio. É acompanhado pelo mestre Fernando Alvim.

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Relembro: descendo há mais dois posts e eu tenho agora tanto sono que nem vos vou maçar a dizer sobre o que são.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.



"Família de do ex-primeiro-ministro José Sócrates tem 383 milhões em offshores". "O número, astronómico, é o somatório dos movimentos bancários de uma empresa" cujos gestores são o tio, uma tia e primos do ex-primeiro-ministro José Sócrates", dizem notícias antigas postas outra vez a circular. Ora bem, então vamos lá outra vez a ver se a gente se entende.


Como referi no post abaixo - no qual deixei uma sugestão aos comentadores que não têm visto os seus comentários aqui publicados - tenho tido a caixa dos comentários a deitar por fora, uma coisa nunca vista. Muitos vão direitinhos para o lixo e, daí, no post a seguir, ter uma explicação para os lesados.

Mas há uns comentários que, de tão repetidos, merecem aqui uma resposta em post autónomo. Refiro-me a uns que transcrevem notícia antiga do Correio da Manhã e que hoje teve um refreshment no Sol e que já ouvi papagueado na TVI. Uns repetem outros, que repetem outros, que repetem outros, até que toda a gente repita como se de uma verdade inquestionável se tratasse. Assim funciona a boataria, a coscuvilhice. E depois ainda há quem venha, com ar de quem tem muita experiência na vida, dizer que onde há fumo, há fogo

Eu já transcrevo a notícia mas antes deixem que vos conte.


Imaginem um pequeno restaurante que, continuemos a imaginar, seja de tios e primos meus. 

Suponhamos que, por dia, são servidas 50 refeições a uma média de 10 euros cada. Teremos então 500 euros todos os dias, isto é 15.000 por mês, que entrariam na conta bancária

Mas todos os dias é comprado peixe, carne, legumes, fruta, etc, as matérias primas para confeccionar os pratos. Vamos supor que gastam 250 euros por dia. Teremos, pois 7.500 por mês. E há que pagar a renda do restaurante, e água, gás, electricidade, telefone, suponhamos 2.000 por mês para tudo isso, e mais os modestos ordenados, vamos supor 1.500 por mês. E há que pagar IVA e demais contribuições e há que pagar seguros, limpezas e sei lá que mais e, para facilitar os cálculos, admitamos que tudo isso fica em 4.000. Ou seja, no total teríamos 15.000 euros de despesas que sairiam da conta bancária.

Conclusão: coitados, a trabalharem todo o santo mês e são uns tesos, chapa ganha, chapa gasta, ou seja... saldo zero.

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Mas admitamos que alguma criatura avessa a matemática (ou de má fé) pegava no extracto bancário da conta do restaurante dos meus tios e primos, somava os movimentos bancários todos (os de entrada e os de saída) e concluía que essa conta tinha movimentado 30.000 euros (= 15.000 + 15.000). Não estaria errado de todo dizer isso, de facto, ao todo teriam sido movimentados os 30.000 euros, mas, se atendermos que uns eram movimentos de dinheiro a entrar e outros de dinheiro a sair, quem não prestasse atenção, concluiria Eh pá! gente rica! 30.000 euros por mês, ou seja 360.000 por ano! 

Se quisesse impressionar, até poderia pegar nos movimentos de 3 anos, chegando à linda quantia de 1.080.000€, ou seja, uma pequena fortuna! Poderia dizer: Os tios e primos daquela ali do blogue Um Jeito Manso têm uma empresa que movimenta autênticas fortunas! A soma dos movimentos bancários ultrapassa um milhão de euros!

E, no entanto, lá está, nem um tostão de saldo.

E mais: se a conta é de uma empresa dos meus tios e primos, por que raio tenho eu de ser metida na conversa? É que nem pouco mais ou menos. Sei lá eu das contas dos meus familiares. Era o que faltava.

Mas, sobretudo, somar todos os movimentos de uma conta bancária e chegar a um número bombástico pode dar parangonas no Correio da Manhã mas, de facto, apenas revela burrice, descredibilizando quem produz e divulga notícias destas.

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Finalmente transcrevo a notícia que Leitores - que querem pôr à prova a minha sanidade mental - me têm enviado e que está na base de notícias recentes do Sol e que há pouco ouvi na TVI:

O Correio da Manhã conta hoje que a família de do ex-primeiro-ministro José Sócrates tem 383 milhões em offshores. Os documentos foram entregues por Mário Machado. Acrescenta o CM que a empresa criada em 2000 no paraíso fiscal de Gilbraltar movimentou autênticas fortunas. Gestores são tio, tia e primos de Sócrates.
O número, astronómico, é o somatório dos movimentos bancários de uma empresa com sede em Caimão, cujos gestores são o tio, uma tia e primos dos ex-primeiro-ministro José Sócrates. A escritura da empresa foi feita em Gibraltar em 2000 e os documentos bancários relativos à mesma encontram-se no Departamento Central de Investigação e Acção Penal do Ministério Público, conta o Correio da Manhã.

Lá está, 380 milhões que resultam do somatório de movimentos. Linda coisa. Assim se faz o jornalismo em Portugal: imprecisões, manipulações, parvoíces. E assim se alimenta a coscuvilhice acéfala de tanta gente que por aí anda à cata de milho para pardais.
 

Como é óbvio sou totalmente contrária às contas em offshores, não conheço os tios e primos de Sócrates de lado nenhum nem faço ideia das verbas que têm nas contas bancárias, nem sei, nem me interessa se o dinheiro vem da herança da família ou se encontraram uma carteira debaixo de uma pedra. O que sei é que, se se quiser saber a riqueza de alguém ou de uma empresa, tem que olhar para o saldo e não para o entra e sai. 


Gosto que me enviem notícias, informações mas, por favor, não me enviem lixo, palermices. Sou pessoa dada a números, não é fácil deixar-me ir na cantiga de quem não respeita a lógica, o rigor, a verdade dos números.





Se o que está em causa é a honorabilidade de Sócrates, que a Justiça cumpra o seu papel, julgando com imparcialidade e verdade. A Justiça - não aqueles que não percebem sequer que não se soma alhos com bugalhos, nem percebem que uma pessoa não pode ser julgada pelos actos de outros.

Please.

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E agora desçam por favor para verem o conselho aos Leitores que me andam a enviar coisas como as que acima referi, ou conversas que metem insultos, porcos, maçonarias ou descortesias. 

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Oh meus Caros Comentadores que gostam de escrever sobre porcos, maçonarias, carros de alta cilindrada, contas bancárias e outras coisas do género, vamos lá a ver se a gente se entende, ok?


Como já no outro dia aqui o disse, isto agora, desde a detenção de Sócrates, é um ver se te avias de comentários impróprios para consumo.


Há um comentador que tem verdadeira pancada por porcos, uma coisa que nem sei se não será caso para concorrer à próxima Casa dos Segredos ('o meu segredo é: eu tenho um fétiche por porcos').

Há outro que gosta de se fazer passar por um habitual Leitor que antes se assinava por Bob Marley e eu a esse também aconselho que consulte um psicólogo que isso de querer assumir a identidade de outro também me parece uma coisa assim para o estranho (porque é que foi embicar com o Bob Marley? porque é que, em vez de copiar o nome do seu vizinho, não inventou um nome mais adequado a um tuga estiloso, uma coisa tipo Quim Barreiros, por exemplo?). 

Depois há outro que envia longos textos sobre a maçonaria como se estivéssemos a viver debaixo da alçada de sociedades secretas (e eu nem digo que não, sei lá, mas, com tanta convicção até me admira que não tenha também uma teoria sobre a Trilateral ou o Bilderberg, coisa mais em grande).

E há os que enviam palermices, coisas que nem se percebe a que propósito vêm ou insultos a este, àquele e ao outro.

Volta e meia, apesar do descabimento, acho a coisa tão divertida ou aberrante que até publico mas, outras vezes, esses comentários vão direitinhos para o espaço.

Por isso, porque não gosto de as fazer pela calada, aos que não têm o prazer de ver as suas palavras plasmadas no Um Jeito Manso, quero deixar uma sugestão: porque não fazem um blogue vosso onde destilem o vosso humor, a vossa criatividade, a vossa falta de chá, o vosso mau feitio, o que quiserem? 

Vá lá, tentem, vão ver que são capazes. Guardem o vosso mérito e talento para blogues lindos feitos por vocês, está bem? Força!

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Ou seja:


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quarta-feira, Novembro 26, 2014

Sócrates e as suas personas






A noite passada dormi mal e, durante o dia, por mais do que uma vez, me senti profundamente triste. Ver um homem que já teve tanto poder, um homem orgulhoso, batalhador, agora assim, exposto como um animal aprisionado, vê-lo num carro da polícia ou com um saco de plástico na mão, cercado de polícias, parece-me de uma violência excessiva. Não me parece aceitável que se sujeite uma pessoa a tal humilhação. Atentar contra a dignidade de uma pessoa é sempre deplorável e saber de Sócrates nesta situação entristece-me mesmo.

Li há pouco, no Público, um artigo de José António Cerejo (que tenho por jornalista persistente) no qual ele descreve suspeições antigas de que Sócrates facilitava negócios aos amigos na zona da Covilhã, já lá vão quase 20 anos. Estar-se-ia então nos áureos tempos dos grandes investimentos públicos, das facilidades, das euforias. Não me lembro de Sócrates dessa altura. Teria ele trinta e tal anos e olho para as fotografias dele, de então, e não tenho grande ideia. Era Secretário de Estado, vejo na wikipedia. A ser verdade o que Cerejo refere, seria ele, então, um facilitador, alguém bem posicionado que agilizava contactos? 


Oriundo de uma família com posses, neto de um avô muito rico, filho de um arquitecto, Sócrates não precisava de sujar as mãos para ter dinheiro já que ele lhe viria parar às mãos por via da família.

Devo até confessar que, sendo a mãe dele uma mulher com posses, filha de um dos senhores do volfrâmio, me fazia espécie que (agora, infelizmente, sem outros filhos que não este) não pusesse já parte do dinheiro e dos bens em nome do filho. Não percebia que tivesse ele que se endividar quando teria dinheiro que poderia ir herdando ainda em vida da mãe. Mas, enfim, coisas de cada família.


Por isso, também sempre achei que, sendo ele um lutador a favor do desenvolvimento do país, um homem de convicções tão fortes e tendo uma fortuna considerável a herdar, não iria nunca macular a sua reputação a troco de dinheiro.

O que se veio a saber durante a sua governação - os projectos de moradias que assinava, as cadeiras que fez de forma talvez apressada para passar de engenheiro técnico a engenheiro (depois de entre um diploma e outro ter frequentado Direito e Engenharia no ISEL) - tudo me parecia coisa menor, ligeirezas que não aprecio mas às quais fechei os olhos pois entendi como coisa do passado, de uma altura em que se sabia ser isso algo que se fazia a pontapé, sem grandes preocupações morais.
Uma vez um amigo meu muito de direita gozava com o Sócrates e dizia-me que se espantava por eu, de moral tão estrita, não saltar a pés juntos em cima do então primeiro-ministro. Lembro-me de lhe ter respondido que não queria o Sócrates nem para meu marido nem para marido da minha filha (até porque tem idade para ser pai dela) e que, para se ser um bom governante, não tem que ser o nosso melhor amigo ou um candidato ao nosso coração.

Contudo, se, até ele ir para a frente do PS e do Governo, eu mal tinha dado por ele, depois fui ganhando apreço pelo seu desempenho. Não posso dizer que o achei excepcional em todas as áreas mas achei-o francamente bom em várias. Sócrates tinha e tem uma visão de progresso para Portugal e mostra, nas suas opções, ter respeito pela dignidade humana  e, melhor ou pior, andou para a frente, foi à luta, entregou-se de corpo e alma.

Cometeu erros, e como poderia não os cometer se é humano?, mas o primeiro governo foi muito bom. A economia deu um salto no sentido da industrialização, apostou no ensino, apostou e muito na investigação, a ciência e o conhecimento em Portugal passaram a ter grande prestígio, não desprezou a cultura, apostou e ganhou a batalha da modernização administrativa. Conteve o défice e não se atirou para fora de pé no que à dívida pública diz respeito. Infelizmente, a seguir veio a crise financeira internacional que afectou especialmente os países com uma base económica menos robusta, veio a queda da Grécia e, a seguir, a da Irlanda, vieram as indecisões da Europa, veio a instabilidade por ser um governo de minoria cercado por uma união espúria entre a esquerda e a direita - e Sócrates perdeu o pé.

Cercado, acossado, sem qualquer apoio (incluindo por parte de Cavaco Silva), esmagado por insinuações torpes, calúnias permanentes, e querendo resistir, resistir até à última, Sócrates portou-se como um animal feroz, atirou à esquerda e à direita, incompatibilizou-se com jornalistas, comprou guerras. Muitos não lhe perdoaram e fizeram-lhe a vida ainda mais negra.

Até que perdeu a última batalha, perdeu a guerra. Retirou-se, saíu do País. Foi viver com um dos filhos e foi, também ele, estudar. Os que o odiavam não lhe perdoaram. Por algum motivo acharam que ele era um pé rapado, alguém que deveria viver como um pobrezinho, alguém que não teria o direito a viver em Paris, muito menos a estudar Ciências Políticas. Se ele tivesse continuado em Portugal seria espezinhado e, qualquer trabalho que arranjasse, serviria para dizerem que estava feito com a empresa. Ora, afastando-se e indo estudar, já não o poderiam atacar - e, portanto, entretiveram-se a gozá-lo, a desprezá-lo, a desvalorizar o mestrado que fez (e que terminou com a melhor nota naquele domínio), a tentar perceber de onde lhe vinha o dinheiro. 




Ao longo dos anos em que o fui observando no governo, fui achando que ia ganhando maturidade, alargando horizontes, sedimentando uma visão mais sólida e abrangente da vida. Provavelmente ele próprio olhará para esse outro que foi no século passado com algum distanciamento. Contudo, leio que não esquece amigos e, portanto, mantém a amizade aos conterrâneos de juventude.




Ficarei muito triste e desolada se se vier a provar que aceitou dinheiro de que não precisava ou que escondeu dinheiro para não pagar impostos, e tenho esperança de que tudo o que se está a passar não passe de um equívoco ou coisa estúpida de um passado longínquo, quando era imaturo, ainda não homem feito.

Seja como for, enquanto vou ficar à espera que a Justiça seja rápida, justa, humana e que se prove tudo o que houver a provar ou, preferencialmente, que se prove que não há nada, vou ter esperança que os que irracionalmente já se precipitam sobre o que tomam por cinzas de um homem morto caiam em si, percebam a injustiça, a inclemência da sua atitude perante a detenção de José Sócrates, percebam o quão primária e indigna é a sua atitude justicialista perante um homem que ainda nem acusado* foi e que, do que lhe conhecemos, estará longe de ser um homem morto.


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* Sobre a questão da pré condenação na praça pública por se admitir que se alguém foi detido é porque alguma coisa há, permito-me transcrever parte de um texto que me chegou às mãos, um texto muito bem fundamentado, escrito por quem sabe do que fala. 

Conviria que alguém reconstituísse a história do Ministério Público no pôs-25 de Abril, de como ele assumiu algumas prerrogativas da polícia política e que prerrogativas são essas. 
Ou de como o DIAP de Lisboa gosta de evocar a sua taxa de sucesso, sempre acima dos 97% de eficácia, esquecendo-se de precisar que essa percentagem se refere ao números de inquéritos sobre os quais se deduz acusação e não ao número de acusações do DIAP de Lisboa que vencem em tribunal judicial: menos de 3% !!!!

E, nem de propósito, pode ler-se no DN, a propósito de Rosário Teixeira, que dirige as investigações do Caso Marquês que:


À volta de Jorge Rosário Teixeira já foram criados quase todos os tipos de mitos: um dos homens mais poderosos do país (chegando a integrar uma lista do Jornal de Negócios), especialista em crime económico, um "monge" que passa os dias e as noites no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), um investigador meticuloso... Porém, o magistrado de 52 anos tem contra si a sempre desconfortável estatística: nos últimos anos, não há memória de uma condenação em tribunal de um processo, sobretudo mediático, por si investigado.

Pois.
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O inominável insecto de Kafka.
A barata esmagada de Clarice.
No mar de rosas, a gilete escondida
no sabonete do filme de Ana Carolina.
Tudo tão íntimo assim, insistente
formam o refrão aflitivo
retido dentro do pensamento.
Nunca mais deixa de tocar:
obsessivo obstáculo, moto-perpétuo
inesquecível metamorfose.


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E agora, porque preciso de desanuviar, um momento de quase silêncio




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Lá em cima Leonard Cohen interpreta The Partisan

O poema é Na pedra repetente do poema de Armando Freitas Filho in Relâmpago Nº 34

O bailado é um pas de deux com coreografia de Uwe Scholz numa interpretação de Maiko Oishi e Rémy Fichet sobre Concerto para Piano de Mozart (3º movimento)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira.


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terça-feira, Novembro 25, 2014

José Sócrates em prisão preventiva. Três dias depois de ter sido detido e depois do incrível aparato mediático, aconteceu o que era quase inevitável. [No meio deste clima de transtorno emocional colectivo em que meio mundo acha que todos são culpados de tudo - incluindo Pinto Monteiro que, por ter ido almoçar com Sócrates e, pelo que ele diz, terem falado de livros, já é descrito como um mentiroso descarado]


O processo Marquês teve mais um episódio notável. Para um ex-Primeiro Ministro foi decretada prisão preventiva, como se estivéssemos a falar de um assassino, violador ou terrorista. Se antes, com o que os jornais e televisões divulgavam, já era difícil defender a presunção de inocência de José Sócrates, agora ainda o será mais. José Gomes Ferreira no Expresso, Helena Matos do Observador e certamente outros já andam a desenterrar suspeições antigas, boatos, desentendimentos políticos como se de crimes inquestionáveis se tratassem e já houvesse sentença transitada em julgado sobre todos eles.



José Sócrates em prisão preventiva - mais uma humilhação 


E se antes eu não percebia porque é que tinham prendido José Sócrates para o interrogar, agora fico ainda mais chocada com a decisão: prisão preventiva! Porquê?! 

  1. Havia perigo de fuga? 
  2. Mesmo depois das buscas já efectuadas, havia perigo de que destruisse provas? 
  3. Havia perigo de que continuasse a praticar crimes? 
  4. Havia perigo de que a população ficasse aterrorizada por ele ficar à solta?
  5. A sério...? Juram...? E são capazes de dizer isso sem que lhes caia um dentinho...?


A acusação é de corrupção, fuga ao fisco, branqueamento de capitais. Mas teria sido saudável para a democracia e justo para com a população - e isto já não dizendo que seria decente para com José Sócrates - que tivesse sido explicado de que se trata.

Em que âmbito esses presumíveis crimes ocorreram? Quando?
  • E foi enquanto cidadão normal? 
  • Ou enquanto primeiro-ministro? 
  • Corrompeu alguém? Quem? 
  • Ou foi corrompido? Por quem?
  • E em quanto? 

Ou seja, de que é que exactamente estamos a falar?
  • Da mãe lhe ter dado dinheiro? 
  • De ele próprio ter comprado livros seus para oferecer a amigos?
  • Ou será que estamos presente um ser alucinado, demente, que enganou amigos e correlegionários e que, esquecendo-se de todos os riscos que corria, escondeu dinheiro em contas de amigos, recebeu dinheiro em maços de notas, fez toda a espécie de irreflectidas tropelias como se de um mentecapto se tratasse? 
  • Ou, se não é nada disto, é o quê?

Nebulosa de Órion

Não deveria ter sido o Ministério Público a informar sobre que é que estamos a falar?

Fará sentido que seja o Sol e o Correio da Manhã a destilarem, gota a gota, informações que ninguém sabe se têm algum fundamento, crucificando o homem na praça pública?

Quem aqui me costuma visitar deve perceber qual o meu estado de espírito. Estou a escrever isto e estou chocada, incomodada, triste. 

Não sei de que se trata, não sei o que é que Sócrates fez ou deixou de fazer, e continuo a ter esperança de que ele esteja inocente. Mas, enquanto ouvia os comentadores durante o longo compasso de espera que decorreu até que se conhecessem as medidas de coação, fui ficando com a certeza de que seria esta a que caberia a José Sócrates. O meu marido também garantia que não podia ser outra a decisão, a Justiça seria ridicularizada e gozada se do interrogatório não escorresse o sangue de Sócrates. É que todos os jornalistas e comentadores diziam que, depois de tudo aquilo a que se vinha assistindo, era bom que os indícios fossem fortes, era bom que não tivessem feito tudo isto a um anterior governante por engano, era bom que se mostrasse que a justiça era igual para todos. Ou seja, toda a gente clamava por razões tremendas que justificassem tamanho espalhafato e, portanto, dificilmente a decisão poderia ser outra.

Nebulosa de Hélix

Face a isto, tenho que dizer que temo o pior. Custa-me admitir que uma pessoa vivendo sob escrutínio, sob desconfiança permanente, se fosse meter em trapalhadas. Do que lhe vi, aquando da sua actuação política, custa-me admitir que, às escondidas, Sócrates fosse um vulgar corrupto, um evadido fiscal. Ele tentará agora provar a sua inocência e tomara o consiga - mas não sei como tal vai ser possível com os cães raivosos à solta, com investigadores e jornalistas em conúbio, com a opinião pública a ser violentamente manipulada a toda a hora, em todo o lado.

A sociedade portuguesa está doente. Por qualquer ângulo pelo qual se olhe para a actualidade só poderemos concluir de que algo vai mal em Portugal. É triste viver em Portugal nestes dias de chumbo. É triste e começo a sentir que é perigoso.

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Nebulosa do Caranguejo

Enquanto agora escrevo, ouço na televisão comentadores a soldo a opinar sobre tudo e mais alguma coisa, incluindo sobre a entrevista de Pinto Monteiro na RTP 1. Disse o senhor que, durante o almoço com Sócrates (almoço amplamente divulgado pela comunicação social), não falaram de problemas de justiça mas, sim, sobre livros, sobre Lula, e sobre outros temas inócuos, podendo a conversa ser transmitida na televisão que veriam que não passou disso. Vi a entrevista na televisão e nada do que ele disse me pareceu merecer desconfiança. Magistrado toda a vida, Procurador Geral, Pinto Monteiro não é pessoa que possa dar-se ao luxo de ir a um canal de televisão dizer aldrabices.


Pois bem, por algum motivo que talvez Freud conseguisse explicar, agora também ele virou bombo da festa e, sem consideração nem respeito, toda essa gente insinua que o senhor disse mentira atrás de mentira. 

Como se Pinto Monteiro não soubesse que toda a conversa foi gravada e que, se outro tivesse sido o teor da conversa,  não era a notícia do almoço que tinha aparecido nos jornais mas sim a transcrição, tim tim por tim tim, da dita conversa. 


Só me interrogo de uma coisa: porque será que Sócrates desperta um ódio tão irracional em algumas pessoas? Que demónios desperta ele? Que transtornos emocionais? Alguém me explica?


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  • A propósito do papel dos jornalistas neste processo, se me permitem, agora a palavra a Fernando Alves cuja voz, nos seus imperdíveis Sinais, tantas vezes me emociona:


  • Recomendo também a leitura do texto Sócrates no blogue Vai e Vem

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E agora música, por favor. Ar puro.


Johann Sebastian Bach: Sonata for Viola da Gamba & Harpsichord in G minor, No.3, (BWV1029)

Jordi Savall & Ton Koopman




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E, caso queiram conhecer a minha resposta ao galanteio que um gentil Leitor me enviou, desçam, por favor, até ao post seguinte.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

(E vamos ver onde é que as centenas de polícias que agora saltam a toda a hora de debaixo de tudo o que é pedra vão escarafunchar desta vez? Ontem andaram, na Operação Remédio Santo, em farmácias e laboratórios; esta terça feira onde será? Em talhos e peixarias? No Banco Alimentar? No Palácio de Belém? Onde?)

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segunda-feira, Novembro 24, 2014

"Estamos de olho em si" diz um comentário num post aí abaixo. E eu não devia confessar mas confesso: gostei do piropo. Sempre ouvi dizer que o que é bom é para se ver e, portanto, olhem à vontade que eu não levo a mal.


Mas uma coisa me deixa apreensiva: a palavra 'estamos'. Estamos? Estamos, no plural? Isso é que é pior porque, se fosse só um, eu até estava capaz de antever algum perigo no ar. A coisa ainda podia dar em romance já que é sabido que muitas histórias de amor começam assim.

Agora, no plural, já não sei, não. Quantos são? Dois? Uma cena de ménage a trois? Ná....

Mas esperem lá. Tenho aqui uma rapaziada ao pé de mim e estão a dizer que alinham. Nada de orgias, não se animem. Mais uma cena de namorico inocente, até já os (e as) ouço falar em casamento colectivo. Que me dizem? Apontamos para o Dia de Sto António? 



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Chris Hemsworth foi considerado o homem mais sexy do mundo em 2014. Não sei quem é que o escolheu mas destes tenho eu às dúzias no meu caixote do lixo (virtual, claro!). E esta moda agora dos lumbersexuals também é de gritos. Não sei quem é que lhes disse que assim ficam giros mas, enfim, gostos não se discutem. (Claro que falo também na detenção de José Sócrates e noutras coisas e tenho música e tal, mas, enfim, acho que o tema principal é esta moda nova de os gays quererem parecer muito machos)


Pois. Escusam de me atirar à cara com a futilidade do tema que escolhi para hoje quando o país parece que está a cair de podre.

Eu sei, eu sei. Deveria centrar-me no tema mais mediático do momento até porque não é apenas um tema mediático, é mais a ilustração dos claustrofóbicos tempos que correm.

Sócrates mais uma noite preso.  Amanhã conhecer-se-á o que decide o omnisciente Carlos Alexandre. Os jornalistas estão ávidos: quais as medidas de coacção que vão ser aplicadas? Terão já na box, prontos para entrar em estúdio, comentadores de todas as cores e feitios para as interpretar: Prisão preventiva? Menos que isso? Mais do que isso (decapitação sumária, por exemplo)?


Ouvi Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes comentarem que, depois de um aparato destes, já não há reversibilidade possível. Mesmo que se provasse que tudo não teria passado de um monte de equívocos e falsas suposições, o que ia a Procuradoria Geral da República dizer? Que se tinham enganado...? Não, não o fariam. Se o fizessem, seria o descrédito total da Justiça. Seria uma vergonha. A coisa ganhou tal repercussão mediática, aqui e no estrangeiro, que já não é possível senão ir em frente mesmo que não haja razão válida para isso.
Se havia razões de suspeição, que averiguassem com discrição, com reserva. Se se viesse a confirmar que havia razões, então avançaria o processo. Se não houvesse, também não teria havido aparato, ninguém perdia a face. Agora assim? Carros de polícia a apitar pela cidade, interrogatórios de dias inteiros, um ex- primeiro ministro já 3 noites a dormir nos calabouços do Comando Metropolitano da PSP (calabouços como fazem os jornalistas questão de frisar, reforçando o dramatismo da situação)... Como arrepiar caminho? Também não vejo que seja possível.

Venho escrevendo isto desta sexta feira: este assunto incomoda-me muito, de forma quase visceral. Tudo nisto muito incomoda, a começar pelo forma como decorre. Não sei porque é que Sócrates não pode dormir em casa e apresentar-se na segunda feira para responder a mais questões (mas a sua mãe deu-lhe dinheiro porquê? Porque é que a sua mãe não espera para morrer para você só ter o dinheiro através de herança? ...etc). E também não sei o que leva as estações de televisão e os jornais a colocarem no meio da rua, à noite e ao frio, os jornalistas de microfone na mão à espera que passe o carro com Sócrates lá dentro. Nem sei como arranja ele vontade de rir para as câmaras que aguardam ansiosamente a visão de uma lágrima, nem sei como encontra ele força anímica para sobreviver a tanto embate da vida. De resto, também não sei como é que os comentadores profissionais encontram conversa para tanta opinião, a toda a hora, sobre todos os assuntos. Sempre os mesmos, uma seca, sempre, a toda a hora. 
Os mesmos não, que apareceu agora um advogado que tenho ouvido com agrado, o advogado Manuel Magalhães e Silva. Claro, directo, desalinhado, parece saber do que fala ao contrário dos papagaios que lhe têm posto pela frente. De forma fundamentada e isenta (diz que nem tem simpatia pessoal ou política por Sócrates), tem referido que a prepotência e arrogância da actual Justiça são preocupantes.

Depois há outra coisa que é de nos deixar a todos de pé atrás: o advento para a ribalta de gente que se arroga o direito de opinar como se fosse muito douta mas que revela ser superficial, leviana, medíocre. Aparecem, põem-se de bicos de pés, dão-lhes ouvidos, dão-lhes poder e, aos poucos, vão ganhando influência. Com esta escumalha miúda se vem fazendo a história em Portugal. É esta gente que vem ocupando, aos poucos, os partidos, os meios de comunicação social, a gestão das empresas, os órgãos de decisão de tudo o que é coisa.

Portugal vai-se afundando, empobrecendo, esvaziando. Enquanto isso, gente como Duarte Marques, Nuno Garoupa, Felícia Cabrita, e tantos outros vão fazendo o seu caminho, as alas vão-se-lhes abrindo.

Muitas vezes me interrogo como é tal possível e chego sempre à mesma conclusão (e nem estou a referir-me agora aos citados em particular): é, geralmente, gente sem pruridos, que não tem pejo nem pudor. 
Pelo contrário, com frequência pessoas que têm outro nível intelectual e moral têm uma humildade intrínseca, não se vangloriam, perante ataques desleais aquietam-se, desmoralizam, desistem. Por delicadeza deixam-se vencer, por delicadeza deixam-se morrer. 
Acabam por ser os porcos a reinar, a ditar regras. Prepotentes, estúpidos, indelicados, os porcos gostam de se fazer passar por gente a sério mas são e sempre serão porcos. Mas porcos que mandam nas pessoas, nas pessoas que, aos poucos, se foram deixando vencer.


Mas, enfim, apetece-me arejar a cabeça, falar de outra coisa qualquer. 

Por isso, agulha mental: vou desviar-me para um caminho lateral a ver se começo a semana com boa disposição.



Chris Hemsworth foi eleito pela revista People o Sexiest Man Alive em 2014. 



Todos os anos a revista People elege o homem mais sexy do mundo. Costumo conhecê-los. Mas este ano tenho que ser honesta: nunca tinha ouvido falar em tal pessoa. Fui ver as imagens: nunca o tinha visto mais gordo, deve andar por filmes ou séries que não vejo. Mas pronto, não é feio de todo. Bonitinho, musculado, ar saudável. 

Contudo, em minha opinião (e, pelos vistos, ando fora de moda), para um homem ser sexy deverá perceber-se nele alguma sabedoria, alguma malandragem subtilmente destilada, e deve ser evidente alguma patine. Ora este Chris parece que só tem saúde, carinha laroca e corpinho bem feito. Pode ser que daqui por uns anos esteja lá, mas, por enquanto, diria eu que ainda tem que deixar a vida passar um pouco mais sobre ele.



Vídeo em que Chris Hemsworth explica como é que ele e a mulher reagiram à notícia de que tinha sido eleito o homem mais sexy do mundo em 2014 e, vá lá, onde ele mostra um pouco da sua gracinha.




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Não sei se este Chris encaixa na categoria dos metrossexuais de que o Cristiano Ronaldo é um dos mais badalados ex libris mas, embora eu não seja especialista na matéria, parece-me que sim. Os metrossexuais são aqueles homens que prezam muito a sua imagem, que se depilam, se enchem de cremes, que cultivam o corpo, que gostam de ter músculos bem desenhados. Geralmente dedicam a sua atenção ao cultivo do corpo, esquecendo o cultivo da mente.




Mas leio que agora surgiu um novo tipo, que é o que agora está a dar. Os lumbersexuals. Barbudos, aspecto de lenhadores, camisa de flanela aos quadrados, gorros mal escondendo cabelos descuidados, e nada de depilações, todos bem peludos.





Olho para as imagens e, no entanto, e desculpem se estou enganada, o que me parece ver são bichas de tipo muito macho. Não me tomem por preconceituosa. Não sou. Mas há coisas que não enganam. Homem que não é bicha não se encaixa nestas modas muito moderninhas: nem é aparadinho, depiladinho, mariquinhas, nem é urso, ornamentado com pelos, gorros, botas e outros maneirismos.




Na sexta à noite jantei naquele cantonês magnífico ali em frente da Portugália da Almirante Reis. Ao nosso lado estava um casal de bichas. Barbudos, à primeira vista muito straights. Mas depois, para escolher, estiveram mais de meia hora, hesitações, risinhos, escolhe tu, não, tu, vá lá, diz lá e olhavam-se nos olhos, riam, todos dengosos. Pela conversa percebi que trabalhavam em revistas, ou designers gráficos ou jornalistas. Uma converseta gay todo o santo jantar. Mas, lá está, barbudos, pretensamente muito fashion, muito machões. Não tem nada de mal, claro que não, cada um é como é e que um casal de gays sinta afecto e o demonstre ou que tenha os seus flirts parece-me coisa completamente normal.

Agora o que não posso deixar de achar graça é a estas modas. Aparecem-nos como um novo tipo estético e a gente vai ver e parece coisa apenas para gays.

Com as mulheres isso não acontece, acho eu. Quando há modas que pegam, as mulheres aderem, sejam hetero sejam homo. Agora estão na moda as capas, os ponchos e, se a gente vê imagens, não nos passa pela cabeça dizer: olha, cá está, moda para lésbicas. Não: quando a moda é para mulheres e é das boas, todas aderem.


da Harper's Bazaar


Já agora. Este é o tipo de moda que me agrada: capas, écharpes largas. A minha mãe já me fez um poncho em castanho e creme, já fez um em cinza claro esverdeado com barra branca para a minha filha, agora está a fazer um azul e branco para a minha nora. São super confortáveis, quentinhos sem abafar.

Mas, enfim, esta conversa também não leva a lado nenhum. Estou para aqui a divagar apenas para fugir ao que me preocupa. 

Por isso, vou mas é ficar por aqui. Mas, antes, vou ouvir um pouco de música para ir mais confortada. Se me permitem, partilho convosco. Uma maravilha.



Daniel Müller-Schott interpreta o Concerto para Violoncelo de Dvořák com a Berliner Philharmoniker dirigida por Alan Gilbert





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E por hoje é isto. Desculpem-me por este post que não é carne nem é peixe, é mais o pot pourri possível numa noite em que a cabeça quer ir para um lado e eu, por outro, quero aligeirar (até para não vos maçar muito mais já que, como poderão ver pelos posts abaixo, ando, desde sexta feira, a falar neste tema que tanto me tem incomodado).

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda feira.
E a ver se o céu não cai de vez em cima das nossas cabeças.


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domingo, Novembro 23, 2014

Felícia Cabrita adora José Sócrates. Ela sabe que, sempre que ataca Sócrates, volta à ribalta. Não sei se há algum investigador ou juiz que ande a segredar-lhe todas as informações ou se é ela que informa os investigadores. Uma coisa me intriga: ainda há quem leve a sério a Felícia Cabrita? E, quem diz a Felícia Cabrita, diz o Dâmaso do Correio da Manhã. Se calhar estão bem para o Juíz Carlos Alexandre que, pelos vistos, não se atira ao ar com o que se passa com as investigações a seu cargo. Para limpar o ambiente, acabo com Mitsuko Uchida e Beethoven.


Chegada a casa vinda do campo, com dois dos pimentinhas a pernoitarem cá, mal consegui ver as notícias com o cuidado que a aberração mediática em curso justificaria.

Felícia Cabrita, a dama do jornalismo de sarjeta



Enquanto eles jantavam querendo a minha atenção, o meu marido fazia zapping e, às tantas, parou na TVI. A Judite Sousa com um cabelo ondulado, bastamente aberto e espalhado sobre os ombros, perguntou qualquer coisa que não ouvi à pessoa que tinha a seu lado. Então, para meu espanto, estava uma com um cabelo que a Judite parecia imitar e que aparece sempre que lhe cheira a tema que facilmente pode atear a fogueira do primarismo emocional: a pseudo-jornalista Felícia Cabrita.


Sempre ouvi dizer que Felícia é muito dada, que entre ela e alguns investigadores tende a haver uma empatia especial, um autêntico sistema de vasos comunicantes onde se trocam segredos de toda a espécie. Ela não investiga, não processa a informação, não pensa nem se esmera na escrita, ela limita-se a divulgar o que lhe chega aos ouvidos seja lá de quem for. Pessoas como a Felícia Cabrita têm abrigo certo em jornais como o SOL (tal como poderia alojar-se no Correio da Manhã). 

Não tendo ouvido a pergunta que a Judite fez à Felícia, mal consegui também ouvir o que esta respondia mas vi que ria com ar quase alarve, que estava eufórica, e apenas a ouvi falar em abrir champanhe. O meu marido retirou-a do ar e ainda bem pois gente assim não deve poluir o ar que os meus queridos pimentinhas respiram.

José Sócrates em bolandas pelas ruas da cidade, num carro da polícia,
à mercê de uma Justiça prepotente


(FOTO PAULO CARRIÃO / LUSA aqui)

Entretanto, vi que fizeram deslocar Sócrates num carro da polícia seguido por mais 3 carros com luzes e sirenes, coisa aparatosa, e, claro, com as televisões, os fotógrafos e demais jornalistas a apontarem as câmaras para a sua cara. 

E ouvi que, depois de estar detido há mais de 24 horas, ainda não foi ouvido e que está a passar mais esta noite na prisão.


E, agora que os meus meninos dormem descansados - depois de lhes ter contado histórias inventadas que meteram uma princesa que se chamava Margaret e vivia num castelo perdido no meio da floresta, esquilos marotos, e amigos brincalhões - dei uma vista de olhos pelos jornais. 

E leio coisas como que a mãe de José Sócrates transferiu dinheiro para a conta dele. E daí? Se a mãe tem dinheiro, e é sabido que sim, porque não há-de ajudar o filho? É proibido uma mãe transferir dinheiro para a conta do filho? A minha mãe passa a vida a dizer que está farta de chatices e preocupações com as crises dos bancos e que, um dia destes, se desfaz do dinheiro todo que amealhou ao longo de uma vida e o transfere para mim e para os meus filhos. Poderemos nós, eu e os meus filhos, vir a ser sujeitos a estas humilhações por isso, caso ela venha a levar a dela avante? Ora abóbora.

Felícia Cabrita, a biógrafa oficial de passos Coelho
grande especialista em casos mediáticos,
dos quais geralmente é mais a parra do que a uva


E li outras coisas igualmente surpreendentes tais como as que a dita Cabrita publicou e que exemplifico:
As autoridades foram a casa de Sócrates, no edifício Heron Castilho, no centro de Lisboa (na rua Brancaamp, ao pé da praça Marquês de Pombal) e a uma empresa em Alvalade, onde o ex-primeiro-ministro tem arrendada uma boxe de 12 metros quadrados e guarda documentação, pagando da sua própria conta 160 euros por mês.
Como é que ela sabe isto tudo? E sabe em tempo real, já viram? Alguém lhe passa todas as informações. Mas, à parte isso, que raio de informações relevantes são estas? O homem tem uma box numa garagem alugada onde guarda os seus papéis e que paga da sua conta. Mas que é que isso tem? Tem mal? Que devassa nojenta da vida pessoal do homem, credo, que coisa doentia, que obsessão.

Tudo o que leio me repugna. Agora, enquanto escrevo, vejo imagens na televisão, mostram os carros da polícia a entrarem no prédio onde Sócrates vive, os carros a apitarem, não sei quantos polícias na rua. O anterior Primeiro-Ministro a ser tratado como se de um perigoso assassino se tratasse... Que vergonha o estão a fazer passar, que vergonha a forma como esta Justiça se está a portar.


Face a isto o que tenho a dizer, uma vez mais, é o seguinte: 
  • Um cidadão foi preso para ser interrogado quando poderia ter sido simplesmente mandado apresentar-se para prestar declarações. Mal vai a nossa Justiça, mas mesmo muito mal, quando querendo ouvir um cidadão, o prende. E isto aplica-se a Sócrates, a Ricardo Salgado, ao director do SEF, a qualquer pessoa de quem se sabe à partida que se apresentará se a tal for instada. Imagine-se o Leitor na mesma situação. Imagine que alguém suspeita de si e que, com base em suspeições e escutas ou sabe-se lá de quê, a Justiça resolve que a coisa deve ser investigada. Acharia bem, o Caro Leitor, se um dia, em público, se visse cercado por polícias, levado num carro da polícia, com as televisões a filmar e isso não porque tivesse sido apanhado a matar ou a roubar mas apenas porque um juiz queria interrogá-lo sobre a sua conta bancária ou sobre a casa onde vive?
  • Ou seja, os investigadores, uma vez mais, em vez de mostrarem respeito pela pessoa que querem ouvir (que, ainda por cima, não está ainda acusada de nada), mostraram um desrespeito absoluto, chamando as televisões, humilhando-a perante o mundo inteiro.
  • A haver qualquer coisa de errado no comportamento da pessoa em causa, isso provar-se-á no decurso das averiguações e do julgamento. Aí e só aí. Não na praça pública, não no pelourinho, não no circo mediático.
  • Antes da Justiça ter feito o papel que se espera dela, só mesmo gente muito nhurra, estúpida e perigosa pode insistir na acusação de alguém com base em notícias veiculadas por pessoas como a Felícia Cabrita ou o Dâmaso.
  • É fácil à Justiça prepotente que temos atacar os direitos de um cidadão, deixando-o indefeso, à mercê da súcia que pulula nos jornais e televisões, à mercê da turbamulta que ulula de torpe prazer sempre que assiste à pública humilhação de alguém que já teve poder. Mal de nós, qualquer um de nós, se tem a infelicidade da cair nas malhas desta Justiça que envergonha a democracia e alimenta a gosto pelos julgamentos populares e linchamentos na praça pública.
  • Se é verdade que a Justiça deve ser para todos, então ela deve mesmo ser igual para todos. Não pode ter mão leve para uns e agir devastadoramente sobre outros. Não é por ter sido ministro, director da polícia ou banqueiro que deve ser tratado com prepotência, indignidade, desrespeito, tal como algumas bestas tratam os animais indefesos. 

Clara Ferreira Alves, jornalista 

Nos antípodas de Felícia Cabrita está Clara Ferreira Alves. Pode, por vezes, ser arrogante ou superficial mas nada, nada, nada que se compare com a mediania dos falsos jornalistas que por aí abundam. Li agora 'A Justiça a que temos direito', o seu artigo no Expresso em que ela fala de coboiada cinemática e em que mostra temer esta perigosa forma de fazer justiça e abominar a insuportável promiscuidade com o falso jornalismo.


Concordo, ponto por ponto, com o que ela diz.

Este domingo teremos novo circo mediático. Uma vez mais Sócrates se verá transportado, indefeso, exposto ao primarismo irracional de uns quantos fanáticos, exibido pelas televisões e jornais. Uma tristeza.

E o Um Jeito Manso receberá, certamente e de novo, vários comentários de uma violência verbal assustadora, comentários escritos por gente maldosa que fica feliz com a infelicidade e a humilhação dos outros.

Em relação aos posts anteriores publiquei alguns e apaguei os que continham ordinarices, insultos estúpidos. Assim continuarei a fazer. Confesso que o meu primeiro impulso é não publicar nenhum dos comentários que revelam que quem os escreve padece de um ódio irracional, de má formação ou falta de chá. Contudo, porque o mundo é mesmo habitado por gente de toda a espécie, publico alguns até para lhes poder responder. Quem não consiga controlar as suas emoções e queira vir para aqui destilar ódios fundamentalistas ou exibir falta de educação, já sabe que vem de carrinho. 
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Para não acabar mal, partilho convosco um momento que tem uma beleza que não se vislumbra em nada do que tem vindo a invadir a nossa realidade. Mitsuko Uchida interpreta o Concerto Nº 3 para Piano de Beethoven. Dedico-o a José Sócrates e a todos quantos se vêem esmagados pelo poder triturante desta nossa peculiar Justiça, pelos vistos praticamente toda concentrada nas mãos de um único homem, o Juiz Carlos Alexandre.






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Nos dois posts abaixo falo também da detenção de Sócrates, transcrevo o comunicado da PGR (o único documento credível que, até à data, existe) e divulgo uma opinião que importa ler, a de Eduardo Costa Dias.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo
(e desejo-vos também, meus Caros, que nunca tenham a pouca sorte de cair nas malhas da Justiça)


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sábado, Novembro 22, 2014

Sócrates foi detido no aeroporto tendo os jornalistas à espera, filmando o carro onde seguiu para interrogatório. Tem a ver com a casa em Paris e as suas contas bancárias ou é, antes, uma tentativa de branqueamento de crimes de outros? Tem a ver com corrupção dele ou é areia para tapar a corrupção de outros? Não sei. Mas acho que os tempos que vivemos, com uma torpe promiscuidade entre polícias e jornalistas, são tempos perigosos. É fácil a manipulação da informação, das emoções, das opiniões, tão fácil. E a opinião de EDUARDO COSTA DIAS.


No post a seguir a este, descrevi em directo, e à medida que ia recebendo mais inputs, o que ia sabendo sobre a prisão de Sócrates, no aeroporto, na sua chegada de Paris.


Estava chocada e incomodada com a humilhação a que o anterior Primeiro-Ministro foi sujeito. E estava muito incomodada também, por mais uma vez, se constatar a estudada partilha de informação entre a polícia, a justiça e a comunicação social. Provavelmente, um dia vir-se-á a saber que a política também esteve, uma vez mais, metida neste caldo infecto. Os momentos em que estas coisas acontecem levantam suspeição. Quando as atenções estão focadas em determinada matéria, invariavelmente é atirado para os olhos da opinião pública um facto de diversão que desvia as atenções do que não interessa.

Não sei nada sobre a vida privada de Sócrates mas, por intuição, tenho-o por homem honrado. É assertivo, é homem de convicções, durante os 6 anos em que chefiou o governo afrontou muitos interesses, foi politicamente incorrecto, despertou ódios, arranjou inimigos. Eu, contudo, sempre tentei avaliá-lo pelos seus actos (pelos frutos os conhecemos) e, por isso, tirando alguns aspectos em particular, sempre achei que fazia o melhor possível, sendo um bom Primeiro Ministro.

Se vier a provar-se alguma coisa contra ele, ficarei admirada e triste. Até lá, continuarei a tê-lo por homem sério e de carácter - e considero que a forma perversa e promíscua com que a opinião dos portugueses é manipulada por gente medíocre é uma vergonha e, sobretudo, é um perigo.

Enquanto agora escrevo, vejo imagens do Correio da Manhã com o carro da polícia em que seguia Sócrates, assinalando o seu rosto como se fosse um criminoso. E ouço a televisão descrevendo todos os indícios, com pormenor de contas na Suiça, valores na ordem de milhões, nomes (Carlos Santos Silva do Grupo Lena, em destaque), etc: tudo, tudo. E que agora estão a decorrer buscas na sua casa, o apartamento da R. Braancamp que parece que era da mãe e que agora é do tal do Grupo Lena. Pasmo. Que devassa. Quem passa todas estas informações para os jornalistas? Com que intuitos? Que desrespeito mais nojento pelos direitos dos cidadãos, como se o direito ao bom nome não fosse devido a todas as pessoas.


E, como seria de esperar, tudo o resto passou subitamente para a invisibilidade. Já não há vistos gold, muito menos Tecnoforma ou submarinos, nem há crise, nem há citius, nem atentado aos direitos dos professores: nada! De repente a única notícia passou para Sócrates preso! Sócrates suspeito de corrupção! E ouço os jornalistas falarem de perigo de fuga, destruição de prova. A leviandade dos jornalistas é assustadora.


De uma pessoa que muito prezo, recebi um mail dando-me conta da sua opinião. Por reflectir a minha opinião e expressá-la de forma exímia, com a sua autorização, permito-me divulgar.


Trata-se da opinião de Eduardo Costa Dias a quem dirijo os meus agradecimentos pela sua permissão.



O Marechal de La Palice quase de certeza que não se importava de reivindicar como sua a seguinte frase feita “ Quando a lama ameaça atolar tudo à nossa volta pensemos em coisas importantes e não deixemos o inimigo colonizar o nosso pensamento”. O que me ocorre hoje e dadas as circunstancias é o seguinte.

A primeira efectiva penetração dos fascismo e do nazismos foi a captura, primeiro ideológica e depois pratica, das policias pelas agendas da extrema direita e da direita. Depois num relâmpago passou para a justiça. Sempre, num caso como noutro, com grande apoio de publicistas ao serviço – termo eufemístico na época para designar os jornalistas.

Em Portugal nos finais dos anos 1920 e na década de 30 também foi assim. E os mandantes e acólitos, nas policias e nas magistratura ficaram, depois do 25 de Abril. impunes ... como não tivessem nada a ver com nada. 

Vivemos desde há poucos dias, porquê esconder, uma nova ofensiva da direita e da extrema direita para controlar as policias. A barraca com a medida fetiche do inefável Portas, o Visto Golden, foi ouro sobre azul. Jornalistas amigos e outros idiotas úteis fazem o resto: uns “informando devidamente” o povo, outros assinalando ao povo, se possível, com espectáculo, por exemplo que “a justiça funciona e que não distingue pessoas ”. Dado que pão não dão, dão só circo para distraírem o povo!

Como o comentário anónimo, detesto os biombos virtuais e a não explicação do motivo porque se escreveu o que se escreveu. Tudo uma questão de feitio!

Envio um abraço ao José Sócrates. Nunca troquei com ele muito mais do bom dia-boa tarde-boa noite - como vai?” e não fui nunca um seu seguidor contra ventos e marés. Não lhe devo nada, nem ele, naturalmente, a mim.

José Sócrates, foi, contudo, um bom 1º ministro. 

Na noite passada, cumprindo-se um desejo antigo da direita portuguesa e sectores afins, foi enxovalhado e preso. Preso em pleno aeroporto sob a mira das maquinas de filmar de tudo o que era televisão, rádio, jornal e bicho careta. O circo já foi desmontado do aeroporto e deslocado, creio, para os arredores das instalações do omnipresente juiz Alexandre.



"Croix de feu do Coronel François la Rocque
que, com os amigos, infestou a bófia francesa nos anos 1930/1931 e depois a partir de 1940,
no Partido Social Francês,  mão na mão com Laval e Pétain.
Durante toda a década de trinta os publicistas mais louvadores estavam acoitados no Le Figaro"
- de Eduardo Costa Dias


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E agora, caso queiram conhecer na íntegra o comunicado da PGR e o andamento dos factos conhecidos ao longo da noite (enquanto estive acordada), desçam, por favor, até ao post seguinte.


E, sobre a forma abjecta como o direito à privacidade e ao respeito está a ser espezinhado, sobre Felícia Cabrita e outros como ela e sobre quem lhe dá ouvidos, falo aqui.


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Sócrates preso? Uma casa em Paris? Mas a casa não era alugada...? E prendem-no no aeroporto como se o homem fosse um vulgar marginal?!?! Ou o céu está a cair em cima das nossas cabeças? Pelo comunicado da PGR, deduzo que isto tenha a ver com as outras 3 detenções relacionadas com o Grupo Lena no âmbito de suspeitas de crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. Olhem: vou acender umas quantas velas a pedir ao céu que nos poupe que isto já é demais.


Ainda no outro dia a minha filha dizia que mais valia que parassem de investigar antes que não sobrasse um.

Acho isto do além. Sempre tive Sócrates por homem sério e, até ver, vou continuar a acreditar. Mas isto é um vendaval. Só espero que tudo isto tenha alguma racionalidade. Prende-se um ex-primeiro ministro assim, numa sexta feira à noite, no aeroporto, como se fosse um marginal? Credo, minha mãezinha.

Entretanto, leio que o Grupo Lena também está a ser investigado e 3 pessoas detidas. Ainda há algum tempo um colega meu, vindo de uma reunião qualquer, me dizia que tinha estado com um administrador do Grupo Lena e que era um tipo com visão, um empresário arejado. Será que isto está relacionado? Tenho ideia que o Grupo Lena se expandiu na altura dos Governos de Sócrates mas daí não se infere directamente coisa nenhuma.


Estou em estado de choque. Tomara que não estejamos a ser varridos por vento justicialista do caraças.

E logo agora que estou no campo, sem televisão por cabo. O que é que se está a passar, alguém me diz?

E irão prender o Belmiro de Azevedo, e aquele do Pingo Doce porque puseram as sedes na Holanda e mais as empresas que têm sede no Luxemburgo?

E todos os gestores que contratam as majors da consultoria para fazerem optimização fiscal? Vai tudo dentro? E os consultores também?

Ou não tem nada a ver?

Parece que sempre que os holofotes da suspeição se apontam para um lado, há logo um balde lama que, pouco tempo depois, é atirado para cima do Sócrates.
Os submarinos do Portas? A Tecnoforma de Passos Coelho?  - Lá vai disto! Lama para cima do Sócrates!

Antes era com a Moderna e com mais não sei o quê. Se não é perseguição, parece. Pode ser coincidência, claro. Mas, caraças, afinal há mesmo coincidências?

Ou isto é uma sanha persecutória que se vem abatendo sobre meio mundo ou então não percebo nada disto. Já o outro desgraçado que oferecia robalos e mais uns trocos levou 17 anos, Maria de Lurdes Rodrigues, porque o companheiro conhecia o outro a quem encomendou o trabalho, levou 3 anos - tudo coisas que parecem descabidas, exageradas. Em contrapartida, toda a gente ligada ao BPN, aos submarinos relativamente aos quais houve prisão lá fora para os corruptores, agora ao BES e a tantas outras coisas cabeludas, continua por aí, flauteadamente.

E fazem isto na véspera da eleição do António Costa para Secretário Geral do PS e na altura do congresso do PS... Não parece armação para derreter de vez o PS? Derreter, queimar, atirar de vez para o quinto dos infernos...? Caraças.

Agora uma coisa também vos digo: se se vier a provar algum dia que Sócrates é corrupto, entro de vez para um convento, completamente descrente da raça humana. E vou para carmelita descalça, para o isolamento. (Enfim, mais ou menos; isolada, isolada, também não)

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A minha filha enviou-me, entretanto, um sms referindo a nota da PGR relativa à detenção de Sócrates por volta das 10 da noite no aeroporto de Lisboa:



"Ao abrigo do disposto no art. 86.º, n.º 13, al. b) do Código de Processo Penal, a Procuradoria-Geral da República torna público o seguinte:

No âmbito de um inquérito, dirigido pelo Ministério Público e que corre termos no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), e onde se investigam suspeitas dos crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção, na sequência de diligências, desencadeadas nos últimos dias, foram efetuadas quatro detenções.

Entre os detidos encontra-se José Sócrates.


Três dos detidos foram presentes ao juiz de instrução criminal durante o dia de sexta-feira, sendo que os interrogatórios serão retomados este sábado. Também este sábado, o quarto arguido será presente ao juiz de instrução.

Foram ainda realizadas buscas em vários locais, tendo estado envolvidos nas diligências quatro magistrados do Ministério Público, e sessenta elementos da Autoridade Tributária e Aduaneira e da Polícia de Segurança Pública (PSP), entidades que coadjuvam o Ministério Público nesta investigação.

O inquérito, que investiga operações bancárias, movimentos e transferências de dinheiro sem justificação conhecida e legalmente admissível, encontra-se em segredo de justiça.

Esclarece-se também que esta investigação é independente do denominado inquérito Monte Branco, não tendo tido origem no mesmo."


Então isto terá mesmo a ver com o Grupo Lena? Caraças. Qualquer dia enfronho-me mesmo de vez no campo porque isto não se aguenta. Até ver e até se provar o contrário, toda a gente é inocente mas, bolas para isto, que raio de clima é este onde toda a gente está sob suspeição e meio mundo vai dentro?


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Agora estou a ver a SIC generalista e, para meu espanto, está um repórter no aeroporto e estão a passar imagens de um carro onde seguia José Sócrates já detido a caminho de uma qualquer prisão. Ora como é que estava um repórter no aeroporto à espera dele? Quem é que os avisou?


País mais desgraçado este.

E acabo de ouvir que amanhã vai ser presente a interrogatório imagine-se conduzido por quem...? Pois... claro, sempre o mesmo, o juiz Carlos Alexandre. Será possível?! Só deve haver 1 (um!) juiz em Portugal. Santa paciência. Até nisto.


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Agora está o Ricardo Costa a dizer que nos últimos dias circulavam rumores de que algo estaria para acontecer e fala de que Sócrates teria trocado de voo na vinda de Paris. Como é que Ricardo Costa sabe disto? Os polícias já a bufar tudo para a Comunicação Social? Que fantochada é esta? E ninguém avisou o homem? Avisaram os jornalistas e não foram capazes de o avisar a ele? Ou avisaram e ele não teve como impedir um vexame destes? E por que raio de carga de água tiveram que ir prendê-lo ao aeroporto? Não podiam dizer-lhe que se apresentasse? Está tudo doido. Só pode.


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Este texto continua aqui (e inclui a opinião de Eduardo Costa Dias cuja leitura vivamente recomendo).


E, sobre a forma abjecta como o direito à privacidade e ao respeito está a ser espezinhado, sobre Felícia Cabrita e outros como ela e sobre quem lhe dá ouvidos, falo aqui.

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