Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, janeiro 23, 2021

Deixai, deixai cair uma palavra

 





Já disse em quem vou votar. Não quero que haja segunda volta. Penso que há protagonismos que devem ser negados e, para isso, nada melhor do que arrumar o assunto de vez. Depois, a votação é para Presidente da República, não para Primeiro-Ministro. Quando ouço as razões contra a pessoa em quem vou votar penso que confundem as eleições. E há que ser pragmático e não correr qualquer risco, por mínimo que seja, de haver segunda volta.

Se se pudesse escolher quem, nestas eleições, deveria ficar em segundo lugar, escolheria João Ferreira. Do que vi, penso que fez uma campanha inteligente e digna, de todas a mais inteligente e a mais digna. Do que vi, João Ferreira não foi populista, oportunista, facilitista. Mostrou saber qual o papel de Presidente da República. Se não houvesse risco de haver segunda volta (e há), seria nele que eu votaria. Não voto no PCP para as legislativas pois creio que nem todos no PCP têm a abertura de espírito que João Ferreira tem mostrado nesta campanha mas estas eleições são para as Presidenciais e, se tivesse possibilidade de exercer essas funções, estou em crer que ele as desempenharia com dignidade, respeitando a Constituição. Agora talvez ainda lhe falte algum mundo, alguma experiência de vida, talvez lhe falte perder alguma ortodoxia que ainda lhe enferruje as articulações mentais, não sei, mas, nas próximas eleições, não havendo riscos como este ano há, talvez ele consiga mostrar poder vir a ser opção para um primeiro lugar. Nunca se sabe. As pessoas inteligentes sabem evoluir. 

Quanto ao dia que passou, o que posso dizer é que passou. Fiz o que tinha a fazer, tive reuniões, fiz e recebi telefonemas. E fiz a minha caminhada. E nisto o meu dia se esgotou. 

Esteve muito vento. Tirando a caminhada à hora de almoço, apenas saí à rua por breves instantes. Saí de uma reunião e tinha que entrar noutra logo a seguir. Então, num ápice, saí para o jardim e fui apanhar as laranjas que tinham caído com a ventania. Comi uma, logo ali. Doce, doce. Não tive tempo de ir até à horta. Faço ideia as tangerinas caídas no chão... 

Há quanto tempo não vou ao lugar para mim mais especial à superfície da terra, aquele bocado de chão a que chamo heaven. Não se pode circular e nós obedecemos. Mas tenho tantas saudades, tantas. Nem quero pensar nisso.

Há pouco, antes de adormecer com a meia almofada de veludo a envolver-me a nuca, voltei a pegar em Acidentes, de Hélia Correia. Tenho que ler devagar, a cabeça limpa de tudo, toda eu entregue às palavras para que elas, se para isso tiverem sido cerzidas, me deixem perceber a sua toada implícita. Ler poesia, quando a poesia consegue tocar a minha alma, é, para mim, uma fonte de felicidade. Nessas alturas gostava de ter aqui ao meu lado quem me dissesse, baixinho, estas palavras -- mas lesse como eu acho que elas devem soar. Contudo, se eu ousar dizê-las, não consigo. A minha voz não tem a profundidade que me agrada quando ouço poesia.

Por exemplo, o início de Almofada de Andorinhas:
Poucos, alguns, têm na mão o tempo.
E, como que sem esforço, simplesmente
porque podem fazê-lo,
alteram tudo: os ciclos lunares,
as estações,
as sequências brandas a que o dia,
o entardecer, a noite,
se submetem.
(...)
Gosto.

Tirando isso.

Esforçamo-nos por não termos uma overdose de covid. Evitamos notícias catastrofistas mas todas elas agora o são. Se o meu marido aqui estivesse já teria mudado de canal. Estou a ver a fila de ambulâncias à porta de Santa Maria e os médicos a descreverem  aquilo que eu, por outra via, já sabia que estava a passar-se. Terrível. O que se passa arrasa toda a gente: em primeiro lugar os que estão doentes e a precisar de apoio hospitalar mas, e segundo, os profissionais de saúde. E as famílias. E toda a gente que assiste a isto.

Hibernar. Hibernar até que o tempo passe e as coisas voltem a estar controladas. Não sei quando.

Hibernar os que o podem fazer, claro. Tem razão Chevrolet. Não podemos nunca esquecer-nos dos que continuam a expor-se para que os que hibernam e todos os outros consigam sobreviver.

Bem. 

Com tudo isto nem me apetece falar de uma coisa que, noutra ocasião, me traria transbordante de alegria: a lufada de normalidade, racionalidade e decência que varre a Casa Branca.

Limito-me a partilhar um vídeo com Amanda Gorman, a jovem que encantou o mundo com a graça das suas palavras na tomada de posse de Biden, e com Jon Batiste, o músico que conheci no programa de Colbert. Há qualquer coisa neste vídeo, como noutros que tenho visto recentemente, e talvez tenha a ver com a força das palavras ou com a beleza da música ou com a diferença ou com a modernidade ou com a elegância ou com o sorriso, não sei, não sei mesmo dizer, que me faz acreditar que não devemos abandonar a esperança num mundo que talvez possa ser um pouco melhorzinho do que aquele em que agora vivemos. 

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As pinturas são, de novo, de Georgina Ciotti e vêm pela mão de Jacob Collier interpretando The Sun Is In Your Eyes
O título deste post é parte da parte III poema Esmola do mesmo livro

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Um bom sábado.

Saúde. Ânimo. 

O amor incondicional de Boncuk

 

Boncuk é aquele amigo que todos nós queremos ter, aquele que não regateia afecto, que não nos escasseia com cuidados, que está sempre disponível para esperar por nós, que, haja o que houver, não desiste de nós e que está pronto para nos receber quando estamos disponíveis. Amor assim é coisa que não é comum. Quem o vive é, certamente, feliz.

Boncuk é o cão que seguiu a ambulância quando Cemal Senturk, o seu dono, foi levado para o hospital e que, enquanto ele esteve internado, foi todos os dias, sozinho, para ficar, de manhã à noite, em frente do hospital. A filha de Cemal Senturk tentou levá-lo de volta para casa mas ele voltava para lá. Não entrava, apenas espreitava.

E, no dia em que Cemal Senturk teve alta, aí foi a alegria que se pode ver abaixo.

Nestes negros dias de peste, é bom ver coisas assim.


Uma ternura

sexta-feira, janeiro 22, 2021

Covid -- previsões, apreensões.

Contra isso, falo com as árvores.
E vejo como se voa e encanto-me com a toada das palavras.

 



Quando se tem na família quem esteja ligado ao sector da saúde parece que as notícias chegam mais depressa e que, antes de as coisas serem notícia, já a gente antecipa os problemas que estão por vir. É preciso desligar um pouco para não ficarmos mentalmente reféns dos problemas presentes e futuros. Acresce que, quando temos um certo gosto pelos modelos, mal a gente vê uma sucessão de números, logo a intuição desata a fazer contas de cabeça. 

Depois chegam as notícias. E a gente vê que o que os profissionais de saúde temiam e o que os números antecipavam já aí está. E a gente vê as curvas que sabe serem temíveis e pensa que as rédeas já não estão na nossa mão. A besta anda à solta.

Antes, por alturas do verão e outono, eu dizia: 

Isto é fácil, há um limite: o número de vagas nos cuidados intensivos. É o fim da linha. Sabendo-se qual a percentagem estatísticas dos que chegam a esse ponto de gravidade, é fácil calcular qual o número máximo de infectados que o sistema comporta (não esquecendo, claro, de levar em linha de conta o tempo médio de permanência de um doente ali internado e a velocidade de crescimento do contágio). Sabendo esse número máximo, vai ser fácil saber o ponto em que o travão de mão tem que ser puxado. Confiava eu.

Fui pesquisar a caixa de correio e vi que foi no dia 12 de novembro que um leitor me escreveu a dizer "Li agora o que anda a escrever nos últimos tempos e fiquei preocupado. Não pode deixar que esta intoxicação de estatística diária a afecte dessa maneira.". Pois é. Por essa altura, eu andava preocupada pois achava que se estava a levar tudo na boazinha, achava que não estavam a perceber os riscos que estavam à espreita, achava que estava à vista que a desgraça ia chegar. 

Se, ainda por cima, temos agora esta nova estirpe, mais acelerada, então o que posso dizer é o óbvio, o que toda a gente sabe, é o resultado que está à vista: muitos doentes não vão ter lugar nos cuidados hospitalares. O número de mortos vai aumentar não apenas em números absolutos mas, também, em números relativos. Se no hospital há lugar para acolher diariamente x doentes e na realidade há x+Δ à espera, então há fortes probabilidades de haver um acréscimo de cerca de pelo menos Δ mortos x nº de dias em que há sobreprocura.

Mas, com estas preocupações e estes raciocínios em mente, chega-se a um ponto em que já custa ver as notícias pois vê-se acontecer aquilo que achamos que teria sido possível evitar e percebe-se que agora, com os limites ultrapassados e com variantes novas em campo, é tarde demais. Muitas vidas se vão perder e muito sofrimento não vai poder ser evitado. E se isso, matematicamente falando, é o mero resultado de meia dúzia de cálculos, já do ponto de vista humano é um traumatismo profundo, uma dor para quem passa por ela, um medo para quem assiste.

Claro que a matemática pura só existe em laboratório, em salas bacteriologicamente limpas. É que há tudo o resto: os constrangimentos sócio-económicos, as pressões políticas e mediáticas, as confusões que muitos opinantes causam. Os governantes não são cientistas em laboratório. São pastores de rebanhos desgovernados no meio de contextos poluídos. Muito difícil ser governante numa altura destas. Não os crucifiquemos. Não quereríamos estar no lugar deles.

Mas, confesso, talvez porque tudo isto me custa, já estou a atingir o ponto de saturação. Por exemplo, não consigo ter paciência para quem convida pessoas para estarem presentes em estúdio para uma entrevista e, mal se apanha com o poder de fazer perguntas, desata a portar-se como um inquisidor-mor, um julgador sumário, um bárbaro castigador. Convidar um governante é algo que faz os entrevistadores terem impúdicas erecções e, acto contínuo, passarem à fase da violentação das indefesas vítimas. Com o poder de conduzir a emissão e a entrevista, agridem, fazem sorrisos de gozo, investem como umas bestas. Uma coisa a que se assiste com repulsa -- isto quando se consegue assistir. 

Assim, em televisão já só consigo assistir a programas em que o entrevistador se porta razoavelmente, por vezes como pessoa de bem, e os entrevistados estão ali não para apontarem o dedo a quem fez assim e devia ter feito assado mas para explicar o que, para a opinião pública, não é claro ou, então, a darem perspectivas para o futuro. 

Por exemplo, assisti a uma parte da entrevista que José Alberto Carvalho fez ao Secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales. Este, com uma calma olímpica e a paciência de um santo, conseguiu aguentar os ímpetos censores e punitivos do jornalista. Do que vi, a entrevista, por responsabilidade do mau entrevistador, nada acrescentou. Pelo contrário, incomodou. Em contrapartida, Vítor Gonçalves, na RTP3, fez boas e úteis entrevistas a médicos que estão no terreno, um a norte, Roberto Roncon, outro a sul de que não fixei o nome, ao belo Pedro Simas e a Carlos Antunes, matemático. A decência e o profissionalismo começam a ser coisas raras em televisão.

Durante o dia não vejo televisão e à noite pouco vejo. Durante o dia não tenho tempo e, à noite, saturada, já pouco suporto.

E tudo isto é para mim também um enigma. O tempo passa sem que eu consiga fazer qualquer outra coisa senão trabalhar e existir. Em tempos -- que me parecem longínquos -- eu tinha tempo para me aperaltar, deslocar-me de carro pela cidade, trabalhar, almoçar em restaurantes, ir a livrarias ou lojas de moda, trabalhar, voltar a atravessar a cidade ao fim do dia, depois caminhar. E existir. Agora todo o meu tempo pessoal é sugado. Nada sobra. E não encontro explicação para isto. Os dias passam, os meses passam. Caminhamos para quase um ano disto. Se há um ano eu sonhasse com tal, imaginaria que me sobraria tempo para coisas minhas, para ler, para escrever, para descobrir novos interesses. Mas nada. Por vezes olho para mim no espelho e penso que se, passar muito mais tempo assim, ainda me arrisco a começar a envelhecer. Perspectiva excruciante. 

No outro dia, ao falar com o meu filho ao telefone, mostrei alguma preocupação por uma coisa. Espantou-se, incomodou-se, que era aquilo?, preocupar-me com coisas assim até parecia coisa de velha. Calei-me logo. Quando eram pequenos, eles diziam-me que eu não era como as outras mães, parecia muito mais nova. Ainda me lembro de, eu própria, ao falar com outras mães, achar que não tinha nada a ver com o que elas pensavam, achava-as conservadoras, velhas. E, mais tarde, quando conhecia as mães das namoradas ou namorados deles eu, sem querer, achava que elas estavam mais próximas da minha mãe do que de mim. 

Agora, fechada em casa, a trabalhar em contínuo, vendo o tempo a passar debaixo destas ameaças terríveis, sem saber bem como é que isto vai acabar, sabendo de tantos casos, de tantas mortes, sinto que um dia destes, quando der por ela, estou igual às mulheres que antes achava que pareciam da idade da minha mãe. Se calhar é um estado de espírito típico de pessoas confinadas. 

Li um artigo sobre hobbies a que as pessoas se entregam durante estes tempos de fechamento. Com que curiosidade o fui ler. Mas parece que nada me interessa. Procurar vida selvagem e fotografá-la. Por exemplo, pássaros. Ou ir para um bosque e procurar bichinhos. Ir correr com o cão. Assistir a peças de Shakespeare via zoom. Fazer receitas antigas. Fazer uma biblioteca no bairro. Pintar. Ir para o campo escrever. Apanhar folhas e fazer um álbum. Fotografar a mesma coisa ao longo do tempo. Coisas assim. E parece que nada disso me interessa.

Já é sexta-feira. Dantes as sextas-feiras eram dia de coisa boa, passear e jantar na praia, andar perto do mar à noite, o luar reflectido nas águas, a música da rebentação, a véspera do fim de semana, coisa promissora. Agora é apenas mais um dia igual a todos os outros. 

Não gosto de pensar assim nem de me sentir assim. Sinto que estou a ficar aquilo que detesto: uma seca. Não há pachorra. A ver se me ocorre alguma maneira de me sobrar tempo para mim e a ver se descubro maneira de o usar com prazer, de me entreter de gosto com coisa nova, inesperada. A ver se volto a ser capaz de sonhar.


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Para o post não acabar nesta onda down, bora lá:

Não é novo nem a primeira vez nem a segunda vez aqui mas, caraças, apetece-me mesmo ver. Tudo bom. Sergei Polunin dança "Take me to Church" de Hozier, uma realização do fantástico David LaChapelle para uma coreografia de Jade Hale-Christofi


E, por falar em Shakespeare, sem prestar atenção ao sentido, apenas pela toada, pela beleza das palavras

Patrick Stewart lê o 116


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Polvilhando o texto, pinturas de Georgina Ciotti

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Caraças. É sexta-feira. Saibamos aproveitá-la.

quinta-feira, janeiro 21, 2021

As máscaras de pano são suficientes para filtrar esta nova estirpe...?
Que máscaras são recomendáveis e que cuidados adicionais deveremos ter?
Uma besta descomandada como o corona-de-gema e, agora, o corona-bife não vão lá só com o fecho das escolas

[E -- a despropósito -- o bom que é a almofadinha para a cervical....?]

 

As escolas vão fechar e, com isso, muito mais pessoas vão ser retiradas de circulação. Numa altura de crescimento exponencial da curva de contágios isso é relevante. O factor multiplicativo é reduzido e numa altura em que o sistema de saúde está nos limites, a redução do crescimento ajuda. Não resolve mas ajuda. Ainda há pouco ouvi, e acredito, que a desgraça vai levar meses a retroceder. Só se resolveria se parassem de chegar doentes aos hospitais. Como nem tão cedo isso vai acontecer, apenas já se pode esperar que o número dos que precisam de apoio hospitalar se reduza. 

Portanto, é relevante que as escolas fechem porque haverá menos pessoas em circulação. Mas não chega. Contudo, quem leia ou ouça as notícias é levado a crer que isto do fecho das escolas é a solução. As pessoas são assim: arranjam uma coisa (uma de entre muitas), focam-se nela como se não existissem outras, fazem-se debates e mil notícias sobre isso, e parece que todos os males do mundo estão relacionadas com essa coisa.

Engano.

No caso desta maldita pandemia, neste momento há todas as outras pessoas que continuam sujeitas a contágio. São as pessoas imprescindíveis. Se essas falharem, falham as cadeias de abastecimento (supermercados incluídos), falham as reparações de equipamentos imprescindíveis (equipamentos hospitalares, redes de abastecimento de água, luz, telecomunicações, etc), ou seja, falha tudo aquilo sem o que as coisas poderão ficar verdadeiramente a doer.

Por isso é preciso ver um pouco mais longe: esta subida a pique dos contágios resulta de quê? Da nova variante? Mas o que significa a variante ser mais contagiosa? Significa que as máscaras que usamos não são suficientes? Que o vírus se mantém por mais tempo em suspensão no ar quando em espaços fechados? O quê? Que cuidados adicionais têm que ter os que estão dentro de fábricas, dentro de clínicas, dentro de supermercados? 

Onde é que toda esta gente está ser contagiada assim de repente? Sei de casos em que, no espaço de poucos dias, os trabalhadores de uma empresa começaram a aparecer contagiados. Não sabem como. Dizem que faziam o que sempre fizeram e nada lhes acontecia. Dizem que andavam sempre de máscara, que o distanciamento estava respeitado. Contudo, agora aconteceu e tem sido como fogo em palha. São os sistemas de ar condicionado? São as máscaras que deixam passar o vírus? É o quê? 

Alguma coisa é. E tem que se perceber o que é. 

Já vi que é tema em estudo e que em alguns países estão a emitir recomendações nesse sentido. Máscaras de pano feitas em casa podem não ser suficientes, em especial em espaços fechados. Mesmo algumas máscaras, de compra, podem ser insuficientes se não forem de três camadas. Por via das dúvidas, que sejam divulgadas recomendações de acautelamento. Mais vale prevenir do que remediar. Uma máscara simples de pano pode ser suficiente num passeio na rua mas pode não ser recomendável num transporte público ou num qualquer outro espaço fechado. 

Não é o facto de se fecharem as escolas que vai resolver estes casos. E que não se pense que não nos diz respeito. Diz. Sempre que trabalhadores, sejam da saúde, sejam de supermercados, sejam do que forem, aparecerem infectados, deixam de ir trabalhar. Deixando de ir trabalhar, o que eles faziam deixa de ser feito. E aí problemas muito sérios começarão a acontecer.

Daí o meu apelo. Não se pode andar atrás da pressão mediática. É preciso pensar em todos os factores relevantes e tentar arranjar solução para cada um.


Nota

Tenho andado a insistir na necessidade de haver regulamentação para os sistemas AVAC em especial para os locais frequentados por muita gente, em especial quando não se pode abrir janelas seja porque as não há seja para não entrar chuva ou frio (desde logo lares de terceira idade, mas também clínicas, centros comerciais, supermercados, etc). Hoje, ao procurar outra coisa, dei com isto no site da DGS:

Orientação nº 033/2020 de 29/06/2020

Sistemas AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado) nas Unidades de Prestação de Cuidados de Saúde

Portanto, menos mal. Contudo, não deveria ser 'orientação' mas regulamentação e não deveria estar numa lista geral no meio de uma página de um site mas, sim, ser amplamente divulgada e, de seguida, sujeita a inspecções. Há temas que deveriam ser levados muito a sério. Claro que os jornalistas andam sempre atrás dos ossos que lhes atiram mas os governantes têm que ver para além disso.

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O assunto covid é sério demais para eu me pôr para aqui com macacadas. Mas acredito que, no meio desta preocupação toda, precisamos de algumas válvulas de escape. Por isso, para além de aqui colocar umas fotos de Claudia Andujar em tons púrpura (para fazer pendant com o traje, todo cheio de mensagem, da Kamala Harris) permito-me terminar com uma coisa que, tal como as fotos, também não tem nada a ver com nada.


Conto. 

No outro dia, no supermercado, vi um daquelas almofadinhas que parece um meio arco ou uma ferradura em redondo, daquelas que se põem na nuca, em volta do pescoço. Deve ter um nome, qualquer coisa a ver com cervical, mas não me lembro. É de veludo, maciazinha. Então agora, quando estou aqui no sofá, ponho-a. E vem até quase a cada lado do queixo. E dá-se uma coisa. Não sei se é do conforto, da macieza ou se está impregnada de soporíferos. A verdade é que fico imediatamente a dormir. Não tenho conseguido responder a comentários nem a mails. Adormeço instantaneamente. Ainda há bocado, para evitar isso, escrevi o post sobre o fim da era Trump e o início da era Biden antes de me instalar confortavelmente. A seguir coloquei-a e, pimbas, tiro e queda. Agora, para conseguir escrever este post, tive que tirar a almofadinha -- acreditem. Moral da história: se algum dos meus leitores padecer de insónias, já sabe. Remédio santo. 

E, pronto, só mais uma musiquinha para animar as hostes. 

Yo-Yo Ma, Kathryn Stott - Ol' Man River

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Saúde

Morning in America

 

Esta quarta-feira foi um dia grande. A larva narcisista e cor de laranja foi corrida e saiu, pela porta pequena, na companhia da sua esfíngica e vazia viúva que, na hora da despedida, se mascarou a preceito, de negro mas com umas festivas solas em rouge Louboutin. Dizem que se exprime através das toilettes e, se a de hoje diz alguma coisa, é conversa para a qual me estou nas tintas. 

O psicopata Donald saiu não apenas com a viúva mas também com a sua corte de filhos, noras, filhas, genro e amigos, todos uns parvalhões de primeira. Saiu dizendo as alarvidades do costume. 

Agora aqui chegada é com gosto que vejo vídeos sobre o tema, resumindo, com números, o que foram estes quatro anos de vergonha mundial. Aqui fica pro memoria.


Interessante também este vídeo que ilustra bem o que foi a absurda era Trump, uma era desconcertante e ridícula em que valeu tudo.

Jared & Ivanka: No Credentials Necessary 

The Daily Social Distancing Show


Tantos vídeos de The Lincoln Project aqui partilhei que hoje não posso deixar de partilhar um segundo, o da celebração, da esperança, tão contrário aos da série Mourning in America que em tempos também partilhei:

Morning in America


Donald Trump is out. President Joe Biden is in. It's morning in America, again.




E a palavra ao novo presidente dos Estados Unidos

This is democracy's day': Joe Biden urges unity in inaugural address


Que novos dias voltem a trazer alguma esperança

quarta-feira, janeiro 20, 2021

Só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar

 

No meio da desgraceira pegada que é a escalada do número de infectados, internados, ventilados e mortos e da torrente de dúvidas e de notícias escabrosas, só mesmo um break, um nada a ver, uma escapulida, uma respirada, uma espreitadela pela janela. Ora, sabido é, a esta hora a minha janela é o youtube. Fui ver. E logo mais uma lição de amor. Eu que sou passageira de longo curso mas que, ainda assim, pouco sei da poda, quando vejo lição fico logo curiosa. Cada vez mais ando a ver se aprendo. O título  é: só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar. 

Fiquei curiosa, claro. Qual a pergunta...? Puxei pela cabeça e ocorreram-me umas quantas, qualquer delas imprópria para figurar aqui. Então fui ver e fiquei furiosa por não ter pensado nisso. Óbvio. É mesmo. O tempo passa, a gente muda. Mas há uma coisa que não pode mudar nunca: senão não dá.

 

Terei prazer em conversar com esta pessoa daqui a 30 anos?
- esta é, pois, a pergunta chave

Penso em todas as pessoas cujo romance ficou pelo caminho. Tanta gente separada. E é isso: chegam a um ponto em que já pouco ou nada têm a dizer um ao outro. Claro que os corpos também se vão desabituando, vão deixando de precisar um do outro, a coisa vai ficando mais espaçada, a distância vai ficando normal. E as conversas sempre mais do mesmo, sem novidade, sem interesse, uma coisa só mais para encher vazio. Não há curiosidade na opinião do outro, já nem se sente falta do interesse do outro. O outro é um vulto que se vai esbatendo. Os espaços em branco e o vazio vão alastrando. Até ao dia em que se percebe que já não vale a pena. Aí, haja coragem: mais vale enterrar a história e seguir em frente, cada um para seu lado.

Agora se a gente não passa um sem o outro, se bom, bom mesmo, é estar junto, conversar, rir e fazer rir, fazer e receber carinho, aprender com o outro, passear abraçado ou de mão dada, conversando, sempre com assunto, a gente a pensar que tem assunto agora e vai ter sempre, e sempre projectos a dois, a vida sempre nessa doce interacção, então, sim, então se calhar a coisa tem pernas para andar. 

E depois é isto: as palavras têm muita malícia, muita duplicidade, muita capacidade de encantamento. Quando há conversa -- conversa boa, com cheirinho a coisa nova, com sabor a indispensável, uma conversa temperada com palavras com private jokes escondidas lá dentro, palavras que nascem umas das outras -- o resto vem por acréscimo.


[Trinta anos...? Bahhh.... trinta anos passam num instante...]

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Pinturas de Portinari, Caillebotte e Renoir

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Saúde. Um dia bom.

COVID
Esperar que morram muitos mais para perceber o que há a fazer...?
Faz sentido? O que se passa?
Caraças.
[Permitam que, para desanuviar, partilhe convosco uns vídeos que me fazem sorrir]

 

Como em tudo na vida, há quem queira antecipar-se a problemas maiores e há os que querem ter a certeza que há desastre para, só então, agir. Há muitos anos que lido com pessoas de ambos os tipos. Como a minha natureza é a do primeiro grupo, fico sempre numa angústia quando vejo a calma com que os do segundo tipo aguardam que elas aconteçam para então reagirem.

Claro que, ao fazer-se tudo para prevenir as desgraças, se corre o risco de, a posteriori, face a elas terem sido evitadas, aparecerem uns quantos a dizer que são alarmistas os que se preocupam em prevenir acidentes para nada.

Seja. Acho que o esforço é melhor expendido a evitar desgraças do que a sará-las. Não se trata de exercer futurismo ou artes divinatórias. Tendo os modelos matemáticos como tema de afeição, não me parece difícil antever a trajectória de algo em movimento, veículo ou pandemia, quando se conhecem todos os dados para traçar as funções e as tendências e para efectuar previsões.

No caso da pandemia, com uma evolução conhecida e inequívoca, com os números a confirmarem todos os dias as piores previsões, não há que esperar muito mais. Esperar para saber o quê? Que o número de mortos vai continuar a aumentar? Que as vagas hospitalares vão continuar a escassear? Que o pessoal hospitalar está a rebentar de exaustão e a escassear porque também infectado ou em quarentena? Esperar mais o quê? Que tudo piore de uma forma ainda mais traumatizante?

O que se aguarda para proceder a inspecções à qualidade do ar nos locais onde as pessoas caem para o lado como tordos (lares, por exemplo) ou ficam infectadas aos molhos (empresas, por exemplo)? O que se aguarda para verificar se há as condições de distanciamento e/ou arejamento recomendadas em locais em que várias pessoas respiram o mesmo ar?

Por que raio de carga de água se focam nas pessoas que andam ao ar livre e nada dizem sobre as pessoas que adoecem às quarenta e cinquenta de cada vez no mesmo local?

E o que se aguarda para fechar escolas, resguardando um número muito maior de pessoas?

Caraças.

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Salve-nos a graça de Charlie Chaplin, a deliciosa matreirice do miúdo e a ternura inocente (e carente) dos enamorados




😉

terça-feira, janeiro 19, 2021

COVID à solta: a culpa é dos Portugueses, do Governo ou do Presidente da República?
[Alô, alô António Costa! Que se passa consigo? O que é que não está a perceber...?! Olhe que assim não vamos lá...]

 

A análise não pode ser precipitada ou simplista. A pressão mediática é uma coisa. A honestidade intelectual e a racionalidade de análise é outra.

Reduzir tudo a 'culpa' do Governo é tão absurdo quanto reduzir à 'culpa' das pessoas, individualmente.

Por exemplo, a culpa pode ser dos portugueses em geral e de alguns em particular quando uma dezena de trabalhadores vai apinhada numa carrinha, indo todos sem máscara. Creio que é da responsabilidade da entidade patronal assegurar os meios de higiene e segurança para os seus trabalhadores. Não assegurou? Mas quando, à hora de almoço, vão beber café, de quem é a responsabilidade? Aí talvez já seja dos trabalhadores. Mas saberão eles os riscos que correm? Aí, talvez a responsabilidade seja da falta de inspecção. Ou da falta de comunicação.

E quando numa Residência de Terceira Idade ficam todos ou quase todos infectados? De quem é a culpa? É dos próprios? Não creio. Talvez seja de quem ainda não percebeu que locais fechados, sem arejamento assíduo do exterior e sem ares condicionados que injectem ar novo, são armadilhas para quem lá vive. Aí talvez a responsabilidade seja do Governo que não legislou nesse sentido nem criou condições para que quem não tem como investir, tenha apoios para tal.

Talvez tenha também a ver, como o Paulo aqui disso no outro dia, com a gestão amadorística que é praticada em parte desses estabelecimentos, não dando formação aos técnicos, não tendo plano de contingência, não tendo equipas espelho de reserva. Mas há gente disponível e habilitada para isso? Se calhar, não. Aí a responsabilidade se calhar é de quem não traçou um plano pragmático de inspecção e formação acelerada para evitar que os lares sejam ratoeiras contra vítimas indefesas.

E quando, numa empresa, todas as pessoas que trabalham num mesmo sector, por exemplo num open space sem janelas e sem acrílicos e dependente do ar condicionado, ficam infectadas? A culpa é das pessoas? Não me parece, não me parece mesmo nada. O Governo criou regras claras sobre a qualidade do ar e sobre o distanciamento e tem feito inspecções a ver as condições concretas em que as pessoas estão? Não me tenho apercebido.

Claro que já pode ser culpa das pessoas quando almoçam juntas ou vão para a porta, ao pé uns dos outros, fumar ou beber um café, obviamente sem máscara. Mas tem havido comunicação pública, clara, evidenciando os riscos nessas situações? Não tenho visto.

Resumindo. Há que perceber com rigor a natureza dos contágios e, com base nisso, perceber o que está a falar. As causas são frequentemente mais profundas e complexas do que discussões na televisão sobre 'postigos' para servir café. 

Não conheço estatísticas por local ou por natureza de contágio pelo que, em concreto, pouco posso adiantar. 

Por exemplo, acredito que grande percentagem dos infectados, deve ter ocorrido em lares. E disso já falei acima. Mudar e inspecconar os sistemas e a qualidade do ar, dar formação aos técnicos, ter equipas de reserva -- é o que é necessário.

Acredito que, a seguir, talvez venham os surtos localizados em locais de trabalho. Já falei acima. É a mesma coisa.

Talvez uma parte seja em contacto familiar. Aí a responsabilidade é de escasso confinamento ou da falta de cuidado dos que levam o vírus  para casa.

Contudo, creio que mais do que andar à caça de gambozinos, a responsabilidade disto é da falta de visão sistemática de quem nos governa e do Presidente da República. Não é só por cá. Excesso de carga de trabalho e de pressão mediática retiram capacidade de raciocínio.

A comunicação social cria factos que nada têm a ver com a realidade, com as reais causas dos problemas. Focam-se todos nas excepções e nas tretas, sem se focarem no essencial: na qualidade do ar que tem que ser garantida nos espaços fechados, nas regras claras que têm que existir para garantir a qualidade do ar e os distanciamentos sobretudo em contexto profissional, nas inspecções que têm que ocorrer.

E na formação, informação, exemplificação ubíqua, inequívoca, à prova de burros que tem que haver.

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Ouvi António Costa com 'novas' medidas. Continua a passar ao lado. Assim não vamos lá. Claro que com mais gente em casa, melhor. Retirar gente de circulação é bom (e exigir declarações para os casos em que o teletrabalho não é possível talvez surta algum efeito) mas, apesar de não conhecer estatísticas detalhadas, arrisco dizer que o que ouvi não chega. Quem está nos lares, em clínicas, em espaços fechados em contexto profissional (e creio que será aí que ocorre parte substancial dos contágios) -- esses vão continuar a ocorrer. 

Identicamente, se as crianças ou os jovens ou os professores estiverem a ser veículos de transmissão, deixá-los nas escolas também não ajuda. Não seria preferível que, pelo menos até final de Fevereiro, estivessem em casa? 
Transcrevo: "Estes dois grupos (13 aos 17 anos e dos 18 aos 24) foram os que mais viram a incidência crescer desde o início do ano", alertou o matemático em declarações à Lusa, com base em dados atualizados no domingo.
Mas, enfim, faltam-me estatísticas para opinar com propriedade. O que posso dizer é que estas medidinhas me pareceram mais do mesmo. Fiquei desiludida e muito apreensiva com o rumo da pandemia em Portugal. Muito apreensiva.

E o Presidente da República em funções? Não tem nada a dizer...? Nada a acrescentar...? Acha que estamos na trajectória corecta? Acha mesmo que o problema está apenas nos comportamentos individuais?

O que é que ainda não perceberam? Estão à espera de quê para porem os neurónios a funcionar?

segunda-feira, janeiro 18, 2021

Um pouco menos de dinheiro na família e tê-los-iam internado a todos

 



Devo dizer que as notícias da pandemia são péssimas mas não me deixam admirada. Quando a curva avança empinada -- leia-se: aos pinotes -- há que ter-lhe respeito. Facilmente a gaja fica desencabrestada, difícil de a pôr com dono. Isto é matemática mas a matemática é temperada pelas circunstâncias. Quando as circunstâncias fazem de mortas, uma pandemia é matemática pura e aí, santa paciência, qualquer previsão só traz más notícias. 

Ora falou-se na 1ª onda, na 2ª e agora na 3ª como se o vírus tivesse comportamentos diferentes. Não. A menos que deixe de ser um vírus para passar a ser um vírus mais uns quantos clones não exactamente iguais, e aí a coisa piora, o pensar-se que há ondas só revela o mau entendimento que as pessoas têm disto. De cada vez que há maior exposição ao contágio, a curva sobe. Se se refrear, ela desce. Ou seja, o que muda é o comportamento das pessoas. Mas não se pode esperar grande coisa do comportamento das pessoas quando sabemos que parte da população não sabe informar-se, bebe das redes sociais e de uns e outros, e outra parte raciocina com as patas. Portanto, quem tem que conduzir o rebanho em que parte são asnos, parte são carneiros, parte são galinhas, parte são onças e apenas uma minoria é gente que sabe ler e escrever, é o governo. E, sendo o caso um caso grave, há que dirigir o rebanho com mão pesada. 

Em Março e Abril conteve-se a coisa pois estava com valores baixos e pôs-se maioritariamente a malta em casa. Na prática, o Governo quebrou as cadeias de transmissão. Depois veio o pré-verão e o verão. Quando o tempo está bom, a malta junta-se mais ao ar livre, nas praias, em picnics, em caminhadas, em esplanadas, em espaços fechados as janelas estão abertas -- e aí o corona está diluído no infinito e, portanto, as probabilidades de contágios são diminutas. A partir do momento em que se manda regressar a malta às lojas e escritórios, às escolas, e à medida que se fecham as janelas porque está frio e chuva, branco é, galinha o pôs: a curva volta a subir. E à medida que escasseiam as campanhas de sensibilização, a malta convence-se que o bicho neles não pega, que só as meninas é que têm medo, que homem que é macho não quer cá saber da máscara para nada, ou malta que é amiga confia uma na outra, não quer cá a desconfiança das máscaras... e depois a malta farta-se da monotonia de sempre covid, covid, covid, e quer é voltar a curtir, e bora mas é beber um cafézinho ou um copo, e bora mas é beber uma meia de leite quentinha e pôr a conversa em dia, e bora lá almoçar uns com os outros... e, quando se dá por ela estamos como estamos: não há camas nos hospitais, não há ambulâncias, não há médicos nem enfermeiros... e doentes com mais de oitenta pois, coitados, azarinho... E os doentes não-covid que aguentem mais um bocadinho que agora a gente não tem tempo para frescuras mesmo que as frescuras sejam coisas bem graves.

Por isso, a coisa basicamente entregue à consciência e ao entendimento de cada um dá nisto. Ou seja, o aumento que se desenhou em Setembro e a ligeireza com que se encarou a coisa, só podia dar nisto. Lembro-me que, por esses dias, recebi um mail de um Leitor a dizer-me para não me preocupar tanto. Pois, pois.

Além disso, há isto de parecer não querer ver o óbvio: espaços fechados, sem ventilação regular e sem um caudal adequado de ar fresco, é uma ratoeira, é só até aparecer alguém infectado. Quem respirar esse ar, fica infectado (a menos que seja daqueles sortudos em quem a bala faz ricochete). Não haverá lar de idosos, escritório, sala de fábrica, clínica, loja sem porta aberta para a rua ou o que seja que não tenha as janelas sempre abertas ou um ar condicionado que retire ar respirado e injecte ar novo que, mais cedo ou mais tarde, não atire com a malta toda para casa (ou para o hospital; isto, claro, quando não para o lado de lá, o lado do já foste).

Solução? Travão às quatro rodas à força toda. Partir as pernas às cadeias de transmissão que estão por todo o lado, descontroladas. Fiscalização à séria. E comunicação com fartura. Formação, explicação, ilustração.

Vou dar um exemplo. A minha mãe preparava-se para ir hoje fazer dois exames de rotina. Não há qualquer suspeita de nada, é mera rotina. Quando lhe disse que me parecia opção arriscada, ficou toda incomodada. Iria e viria de táxi, estaria de máscara, disse-me ela. Respondi-lhe: uma clínica fechada com ar condicionado que sabe-se lá como funciona. Um táxi em que sabe-se lá quem lá andou antes. Disse-lhe que a opção teria que ser dela, conhecendo os riscos de cada situação mas que os dados de como isto é são públicos. Suspirou, aborrecida. Apetece-lhe cirandar, está farta de estar fechada em casa, sem programas. Ia à clínica, aproveitava para ir aqui e ali. Perguntei-lhe se não tem visto os noticiários. Ontem à noite lá me disse que ia desmarcar. Que, se calhar, ia marcar lá para o início de fevereiro. Disse-lhe que não está a ver bem. Até ao fim de janeiro vai ser uma desgraça pegada. Fevereiro é para ver se se achata a bandida da curva. Quanto muito, talvez lá para Março e é se tudo correr bem e se o tempo ajudar. Suspirou. Percebo-a. Fala-me de uma amiga que vai todos os dias passear à Baixa, buscar o almoço a um restaurante, diz que ela vai e vem de autocarro e que nada lhe acontece. Pois, não sei. Talvez seja daquelas pessoas que é geneticamente imune. Ou tem tido sorte e um dia destes terá uma má surpresa. Mas é isto. A minha mãe já quase nos noventa, a amiga com noventa e tais. A minha mãe tem medo, critica os abusos, mas depois, quando é para ela, acha que passará sempre ao lado do perigo. E acredito que o que se passa com ela e com a amiga passa-se com muito mais gente. Um misto de saturação, de vontade de aproveitar melhor o tempo, uma esperança de que com elas não aconteça nada, uma coisa já na base do 'que se lixe'.

Enfim. 

Quanto ao meu dia, normal. Nada de culinárias a reportar, foi o básico: bacalhau com todos -- batata normal, batata doce, cenoura, cebola, feijão verde, ovo e grão. 

Ao jantar, comi iogurte, laranja em calda, dióspiro, queijo. Uma espécie de dieta.

E durante a tarde estive um pouco ao sol. E a ler os poemas da Hélia Correia, do livro Acidentes. Alguns agradam-me bastante.

Por exemplo este excerto de Poiêtikê dedicado a Maria de Sousa e a Anabela:

E ela quer saber exactamente onde está o poema,
quer tocar
no nervo do poema, sem que exista 
frieza ou impiedade,
sem que exista
golpe de bisturi.
Porque é um toque de delicadeza,
a materna leveza que há nos dedos
de quem levanta uma raiz, tremendo
com tudo o que há ali de irreparável,
de precioso, de finito, como o verso,
com tudo o que ali há de 
desumano,
enquanto algo de fino,
de espantoso na sua vibração,
atinge o peito
e deixa as criaturas que nós somos
sob o encantamento do que ignoram

Está a começar mais uma semana. Passam uma a seguir à outra, sem história. É isto. Parece que vivo num compasso de espera. Tem que ser mas é uma mudança tão grande na minha vida. Nem sei se voltarei a ser capaz de viver como vivia antes. 

Aliás é das grandes curiosidades: como vai ser a nossa vida quando esta treta estiver controlada? 

E como vão suportar a angústia as pessoas que estão sem trabalho, sem rendimentos, sem perspectivas? 

E cá estou eu, uma vez mais, em volta disto, nesta conversa chata, meio desalentada... Bem posso enfeitar o texto com flores dentro de bolas de vidro que, nem assim, a conversa vai soar animada. Ai...

O que me vale é que abro o youtube e o meu amigo algoritmo sabe o que há-de fazer para me animar. Só pode ser bicha. Já contei que alguns dos meus amigos mais dilectos são bichas ou abichanados...? São empáticos, simpáticos, cuidadosos, atentos, conversadores. Uns queridos. 

Desta vez, um pequeno vídeo delicioso do Chaplin. Vejo-o e esqueço-me de agruras, sorrio.

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O título deste post não terá muito a ver com o conteúdo (mas porque haveria de ter...?): é a parte final do poema Otherwise que Hélia Correia dedica a Lucinda Canelas.

O poema termina assim:

(...)
Eva, Penélope,
mulheres com um tal excesso de beleza
que isso as tornava intransigentes e as punha
a salvo de ternuras comezinhas,
atacando o trabalho de tear
não por fidelidade, como a outra,
mas numa guerra à Belle Époque e ao século
que estava a começar.
Um pouco menos de dinheiro na família
e tê-los-iam internado a todos

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Uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira
Saúde.

domingo, janeiro 17, 2021

Alô, alô António Costa!
Vamos fazer com que toda a gente leve isto da Covid mais a sério...?

 

Lá ao fundo, no largo, há um café. Está aberto. Há mesas e cadeiras na rua. Estão cheias. Ontem, ao fazer a caminhada, perto da hora de almoço, parou uma carrinha. De lá devem ter saído pelo menos uns dez ou doze homens. Não sei como lá cabiam dentro. Pareciam homens das obras. Todos sem máscara. Foram para o café. Se algum estava infectado, o mais provável é que todos o fiquem. Porque não usam máscara? Temem que os outros gozem? Acham que por serem muito machos o covid não quer nada com eles? Não têm dinheiro para a máscara e o patrão não lhas dá?

E onde está a polícia que deixa que o café esteja aberto, com aquela gente toda ao pé uma da outra? Ontem. Hoje. Como se nada se passasse.

Hoje, ao chegarmos ao supermercado, ao nosso lado estacionou um carro, De lá saíram dois homens com ar de quem vinha das obras. A máscara no pescoço. Só quando entraram no supermercado a puseram. Não sabem que num espaço fechado, como um carro, se um está infectado o outro provavelmente também fica?

Na rua duas mulheres faziam uma caminhada. Quando se viram, pararam para se cumprimentar. Não se abraçaram mas puseram-se a menos de meio metro uma da outra. Uma fazia festas no ombro da outra, e tinha o nariz de fora da máscara. Porquê? Acham que só a boca deve ser protegida? Não sabem que tão perto uma da outra, o risco aumenta?

Volto a dizer: esta semana estive num sítio em que algumas pessoas tinham estado a ter uma reunião (presencial), demorada, numa sala fechada, sem janelas. Estavam de máscara mas se, numa sala fechada, estão várias pessoas, se uma está infectada, há grande probabilidade de que todos fiquem. Quando os questionei, ficaram até admirados. 'Estávamos de máscara', disseram.

Na empresa onde trabalha uma pessoa que me é próxima há uma orientação bizarra: grande parte dos directores faz questão de ir trabalhar presencialmente quando poderia trabalhar remotamente, levando, dessa forma, a que várias outras pessoas também tenham que lá estar. Não há outra razão senão não destoarem uns dos outros.

Numa outra que bem conheço, alguns administradores, imbuídos de um espírito peculiar, acham que devem estar presentes, como se, caso ficassem em casa, estivessem a abandonar o navio. Por algum estranho motivo, ainda não perceberam que, como 'comandantes', deveriam ser os primeiros a dar o exemplo. Assim, não apenas dão o exemplo oposto ao que deveriam dar como obrigam as secretárias e outras pessoas a também estarem presentes.

Onde está a fiscalização que não entra nas empresas para multar todos -- directores, administradores, incluídos -- que estejam nas empresas em vez de estarem em teletrabalho, quando sem prejuízo da actividade, o poderiam fazer? 

Vi a reportagem no noticiário da noite. Um jovem com ar desafiador dizia que estava a passear porque lhe apetecia. Ninguém lhe diz que, se infectar a mãe e a mãe precisar de ir para o hospital, provavelmente não vai ter vaga e vai ficar a arfar dentro da ambulância?

Também na televisão, várias pessoas passeavam sem máscara em zonas bastante povoadas. Porquê? Não sabem o risco que correm? Não sabem que podem ser multadas? Mas onde estava a polícia?

E onde estão as campanhas publicitárias claras, inequívocas, a explicar de forma explícita o que se não pode fazer e os riscos que se correm?

E onde as campanhas a divulgar as multas em que se incorre se se desobedecer?

Acho que é tempo de agir em força: na comunicação social, nas redes socias, nas ruas. Em força e a sério

Com parte da população a agir como se tem visto e com uma curva de contágio empinada da forma que está, estamos a caminho do desastre. E digo isto sabendo que no desastre já nós estamos. Mas podemos ficar bem pior.

Entre a culinária e o amor com jardins de permeio

 

Pouco a dizer. A casa está arrumada e limpa, não há muito que fazer. Pensei fazer sopa de corvina mas reparei que não tinha tomate maduro. Por isso, depois da nossa caminhada, fomos ao supermercado. Aconteceu o de sempre: vamos lá para uma coisa e vimos de lá carregados. É sempre a mesma lógica: já que ali estamos, aproveita-se para trazer mais coisas para não termos que voltar tão cedo. Mas depois, há-de faltar qualquer coisa que nos voltará a levar lá. Nunca fui fã de idas ao supermercado mas agora é praticamente ao que a minha vida social está reduzida.

Quando regressei a casa, pus uma máquina de roupa a andar e, de seguida, ala que se faz tarde, atirei-me aos tachos. 

Numa panela, coloquei azeite e cebola aos bocados, duas cebolas bem grandes. A cebola é um dos meus ingredientes de eleição. Quando alourou, juntei cinco tomates grandes, bem maduros. Envolvi-os na cebola. Depois juntei um alho francês mas apenas o talo branco -- não as folhas verdes, essas ficam para a sopa de legumes --, uma cenoura grande, umas batatas normais (poucas), uma batata doce e uma maçã. Juntei um pouco de água. Depois juntei um pouco de sal e uma generosa quantidade de salsa e de coentros. Depois de ferver, baixei e ali ficou uns minutos.

Num outro tacho, coloquei um pouco de água, uma cebola grande aos bocados, um pouco de sal, um fio de azeite e uma posta grande de corvina (devidamente escamada). Quando a água ferveu juntei 4 ovos descascados.

Quando vi que estava tudo devidamente cozinhado, desliguei os lumes.

Juntei o caldo de cozer o peixe e a cebola ao tacho da sopa. Moí tudo com a varinha, tudo bem moído para ficar um puré bem cremoso. 

Num prato, tirei as espinhas da posta da corvina. Depois juntei o peixe, aos bocados, bem com os ovos escalfados à panela da sopa. Envolvi tudo.

Digo-vos: bem boa, uma sopa bem gulosa e, creio, bem saudável.

De tarde, depois de estendermos a roupa, estive lá fora, ao sol, a ler. Estava-se bem. Às tantas, olhei para cima e vi uma rola, num ramo, a olhar para mim. Verdade: o pescoço curvado para baixo, a espreitar-me. Fiquei a olhar a ver quem desistia primeiro. Fui eu. 

Quando o sol se baixou e começou a esfriar fui apanhar laranjas.

Num tacho largo, coloquei açúcar mascavado. Cortei, para cima da cama de açúcar, as laranjas às rodelas largas, com casca. Cobri com mais um pouco de açúcar. Esqueci-me de trazer do supermercado paus de canela pelo que misturei canela em pó. Juntei um pouco de gengibre, casca de limão e um pouco de vinho do porto. O meu marido ainda apareceu com uma bebida de maçã, não reparei qual. Só um pouco. Juntei uma pinga de água. Tapei. Deixei que fervesse e depois envolvi as rodelas na calda. Baixei o lume e deixei ficar assim, tapado, durante talvez meia hora ou mais. No fim, deixei ficar a cozinhar por mais um pouco, o tacho destapado, para reduzir. Depois coloquei numa caixa de vidro.

O cheirinho que esvoaçou pela casa não vos digo nem vos conto. Bom, bom, aconchegante. Aquele perfume morno da laranja, do açúcar, da canela...

Comemos, de sobremesa, ao jantar. O meu marido, que nunca engraçou muito com casca de laranja, comeu apenas a parte da fruta. Eu não, eu comi tudo. Gostei. Na parte final, lembrei-me de comer ao mesmo tempo que chocolate preto. Ficou melhor ainda.

E, portanto, é esta a minha vida de agora. Não tarda o Um Jeito Manso vira um blog de culinária. Parece que pouco mais tenho para contar. Uma seca.

Tirando isso, só se for referir que tenho andado de roda do jardim, a pensar numas coisas. Gostava de ter mais isolamento visual em relação aos vizinhos do lado mas não sei como fazê-lo sem modificar a lógica destes espaços. E há a zona que era canil e que agora não é nada e está desaproveitada e podia ser reconvertida. Penso, repenso. Meço. Chamo o meu marido para trocar ideias com ele. Mas ele não tem grande paciência para o meu 'conservadorismo'. Para mim as árvores e as trepadeiras e as flores são sagradas embora reconheça que, se quero conservar tudo, dificilmente poderei fazer alguma alteração. 

Há uma amendoeira que não dá amêndoas. Há um pinheiro entre dois outros. Há uma árvore gigante que faz muita sombra. Mas a amendoeira se calhar fica linda na primavera. O pinheiro é o pinheiro, sagrado. E a árvore grande é óptima para os miúdos treparem. O meu marido desiste. Por ele, põe uns ferros não sei como, corta uma ou duas árvores, faz assim e assado e está resolvido. Eu, em contrapartida, não quero sacrificar arbustos, muito menos árvores, não quero sacrificar a zona de relva junto ao terraço, não quero um conjunto de coisas. E andamos num impasse. 

Mas, ao falar com o meu filho, que está a arranjar o seu jardim com projecto de arquitectura a preceito, pensei que, por uma vez, cá em casa, em lugar de querer que sejamos nós próprios a ter as ideias e a fazer o projecto, talvez possamos pedir uma opinião externa. O meu marido achou logo boa ideia. 

Enfim. Não se pode andar em frente se não conseguirmos abrir mão de algumas coisas mas, seja como for, ainda não estou completamente decidida. Tenho a sensação que, no dia em que chame uma pessoa de fora para ter ideias, se depois me aparece a dizer que temos que nos desfazer disto e daquilo, não poderei simplesmente dizer que me deixe em paz, que baze (do verbo bazar). A perda de liberdade que isso implicará deixa-me, à partida, de pé atrás.

E é isto. 

Não vou falar da situação algo alarmante da covid pois imagino o sofrimento de tanta gente e a exaustão e pânico de outra tanta e pouco ou nada tenho a acrescentar. O que tenho a dizer sobre isso já disse no post abaixo -- e espero que se vá a tempo de travar desgraça ainda maior.

Portanto, para não dizerem que estou para aqui a falar sem dizer nada, vou partilhar um vídeo onde Krishnamurti explica o que não é o amor. Concordo com ele. De certa forma tem um pouco a ver com o que disse aqui no outro dia: o amor tem que ser inteiro. Não é amor se uma das pessoas não é capaz de se dar por inteiro, não é amor se uma das pessoas não ama por inteiro. Não que o amor seja uma coisa perfeita. Não é. E não é que seja uma ficção. Não, o amor verdadeiro é bem real apesar das suas contradições. Mas, na sua essência, tem que haver um núcleo em que tudo é absoluto. 

Krishnamurti - What love is not


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Os jardins foram pintados por Wen Zhengming.
Rita Payés & Elisabeth Roma interpretam Oración del remanso

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde

sábado, janeiro 16, 2021

Um montão de gente, um mar de fogueirinhas

 




¿Qué poemas nuevos fuiste a buscar?
Una voz antigua de viento y de sal
Te requiebra el alma y la está llevando
Y te vas hacia allá como en sueños

As calças são quentinhas, pretas. Umas meias pretas bem quentes a ver se mantenho os pés quentes. Não tenho pantufas. O meu marido diz: tens tantas porcarias... mas depois não tens as coisas mais vulgares. Nunca quis usar pantufas. Agora, nestes dias frios, sentada durante grande parte do dia, se calhar umas pantufas davam jeito. No outro dia, quando fui a decathlon andei a ver se descobria alguma coisa que pudesse servir de pantufas. Debalde. O meu marido sugeriu umas botas para a neve. Nem dei troco. O mais adequado que encontrei aqui em casa foi uma espécie de chinelos ou tamancas, nem sei classificar, em que a parte de cima é de feltro. Mão sei como vieram cá parar -- ou melhor: como foram parar à outra casa. Se calhar, alguém achou que era coisa de que eu precisava e me ofereceu, talvez há cinquenta mil anos. Guardei. Vieram, pois, da outra casa. Novas. Então é isso que tenho calçado. 

Mas isso é da cintura para baixo. Da cintura para cima é outra loiça. Cuido do que se vê na videoconferência. Faço um smoky nas pálpebras superiores, ponho um gloss nos lábios. Uma blusa quentinha, com gola larga, descaída. Toda branquinha. Por cima, uma espécie de túnica em jersey de lã, também branca mas com umas e outras flores em rosa e verde. E uns brincos brancos. 

A meio da tarde, estava sem reuniões e vi que estava sol lá fora. Então, peguei no computador e fui. Estava um calorzinho bom. Comecei por tirar a túnica. Calor ao sol. Tirei a blusinha de baixo. Fiquei só com o top de licra de alcinhas, branquinho, claro. E ali estive bem um quarto de hora. Soube-me que nem ginjas. E foi vitaminha d, directinha. Dizem que combate o corona. Pode ser.

E ainda fui a correr a casa buscar a máquina: as rosinhas em volta do pinheiro estavam radiantes, doidas de luz e alegria. De todas as cores. Um milagre ou uma coisa mágica, nem sei como definir. Perfumadas, perfumadas. 

E ainda há flores na buganvília, vibrantes de lindas.

Quando entrei em casa, tive que vestir tudo rapidamente, estava bem mais frio que na rua, ao sol. Fiquei rapidamente apresentável.

À hora de almoço veio cá a anterior proprietária. Ao ver a laranjeira, disse: São doces, não são? E contou-me que fazia laranjas às rodelas caramelizadas. Com açúcar mascavado, disse ela. Eu, que adoro tudo o que tenha a ver com laranjas, incluindo as próprias laranjas, fiquei logo com vontade de fazer. Mas não tenho açúcar mascavado. Nem pau de canela. Ela não disse mas imagino que fique melhor com pau de canela. E talvez com um cheirinho de ginja de óbidos. Não sei como dar a volta ao texto mas a laranja caramelizada não me sai da cabeça, em especial a casca. Casca de laranja caramelizada deve ser uma maravilha. E comer um pouco de chocolate preto ao mesmo tempo...? Caraças, deve ser insuportável de bom.

Estava sem saber o que fazer para o jantar. No outro dia, no supermercado, resolvemos trazer uma piza congelada. Ao escolher, vimos uma caixa que tinha duas. Vegans. Pensei que era bem pensado. Como deitámos fora a caixa, não vi que ingredientes tinha. De certeza uma base de espinafres e também cogumelos. Mas tinha outras miudezas. Então fiz assim. Aqueci bem o forno. Entretanto, sobre folha de papel de alumínio, parte brilhante em contacto com o alimento, coloquei a piza sobre. E mandei o vegan às malvas. Sobre o que estava, coloquei uma farturinha de mozarela ralada. Depois cortei a ponta de uma alheira e espremia-a colocando o recheio, aos bocados, sobre o queijo. Depois, tinha tomatinhos cherry e coloquei-os às metades. Polvilhei com orégãos, reguei com fio de azeite e fio de mel. Foi ao forno, na posição calor em cima e em baixo a 170º. Quando vi que já estava com ar quase cozidinho, mudei para a posição grill e dei-lhe o toque final. 

Digo-vos. Estava mesmo boa. Acompanhámos com salada de alface. No fim um diospiro. E, por cima, um quadrado de chocolate negro com caramelo. 

Quando acabar esta brincadeira da covid devo estar uma bolinha. 

O que me vale é que, quando cometo destes deslizes, intercalo com um jantar só à base de chá e fruta. Uma maçada isto de uma pessoa estar naquela idade em que tudo o que come de bom se transforma em peso a mais. Não sei quanto peso mas, cá para mim, já devo estar, outra vez, nos sessenta. Anos e anos a fio com cinquenta e um. Depois, mais tarde, cinquenta e cinco. Depois, upa, upa, cinquenta e sete. Cinquenta e oito, estaria bem. Mais do que isso, já há pneu no pedaço. Nem me peso para não ter dissabor.

Quanto ao resto, campanha presidencial, números covid, confinamento, nada a dizer: mais do mesmo. Tudo muito pouco entusiasmante. 

Pouco entusiasmante é também o estado em que estão os hibiscos e a trepadeira que no verão dá copos bonitos: tudo com as folhas murchas, cozidas, queimadas. Frios excessivos pela madrugada. Disse-me a anterior proprietária que, quando vinham frios assim, cobria arbustos e vasos com uma tela que deixa passar a luz mas protege do frio. São sensíveis estas belas flores. Claro. A beleza é sempre dada a sensibilidades. Tenho que tentar descobrir onde se arranjam essas telas. Ela arranjou-as no Jardim Botânico da Ajuda. Mas agora, confinados, duvido que esteja aberto. Será que no Leroy...? Tenho que explorar. Quando desconfinar.

A perspectiva de mais um fim de semana sem família, sem nada que fazer, é uma coisa muito estranha. A ver se consigo aproveitar o tempo livre. De tudo o que tenho dificuldade em aprender, isto é onde me estampo mais ao comprido. Não aprendo nem por mais uma. Pelo menos, a ver se consigo pegar num livro. Que coisa mais absurda.

Parece que não sei fazer a coisa mais básica: aproveitar o tempo. No fundo, aproveitar a vida por mim própria. Simplesmente isso.

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Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Eduardo Galeano - O mundo


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E que o sábado vos seja bom
Saúde. Alegria,