Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, junho 20, 2018

'Entre as onze horas e a uma, obtemos muitos sorrisos' dizia a Enfermeira Beverly Whipple




Começo pelo fim: gosto de me chegar à frente, de me atravessar. Como no outro dia já contei, declararam-me (de papel passado e tudo e, por acaso, no primeiro ponto até contrariando o oftalmologista), sou de ver ao longe e movo-me bem é fora da caixa. Portanto, não querendo saber de riscos ou de ciências analíticas, às duas perguntas que se possam formular eu poderia arriscar e atirar-me já de cabeça para a dupla afirmativa. Sim e sim. Mas hoje estou de pianinho. Portanto, vou com calma.

E vou caminhando, mansinha, entre inocentes e vulvícas flores.


Retomo, então, o fio e dirijo-me para o começo. O post começa agora. E começa assim: não sou cientista. Já tinha dado para perceber, mas, para os mais distraídos, nunca é demais assegurar que as premissas estão bem entendidas: não sou cientista.

E mais: também não sou especialista, nem disto, nem daquilo nem daqueloutro. A ser alguma coisa, serei generalista, salta-pocinhas, maria maluca -- ou a bissectriz entre tudo isto, se é que se consegue traçar uma bissectriz entre coisas deste género.

Portanto, gostando eu de me poder aventurar pela temática que se me afigura de basto interesse público, sinto que me falta competência. Claro que poderia usar o truque que uso quando não tenho bases para elaborar um raciocínio bem sustentado, ou seja, poderia falar da minha experiência pessoal. Mas aí, algum daqueles eremitas que gosta de se esconder na moita com um barreto na cabeça, haveria de saltar para o palco e, com os guizos a saltarem-lhe dos miolos, haveria de decretar: 'Cá está, é narcisista, sim senhor'. Ora como eu hoje estou naqueles dias em que um diabólico cansaço se me apresenta disfarçado de santidade, tolhendo-me os dedos -- e, também, para não despertar maus olhados ou conclusões asininas -- deixo-me aqui estar, beatinha, no meu canto.


Podia até evitar o assunto que é tema que não interessa à comunidade bem falante, aquela comunidade que gosta de grandes causas e despreza as miudezas da raça humana. Eu também reconheço que, na escala das causas, esta é daquelas que não se vê.
Vejo assim a escala das causas: há as grandes até demais para serem abarcadas pela infeliz mente de nós outros, depois as grandes mas de tamanho comportável, depois as grandes mas invisíveis, depois as passageiras, depois as mixurucas, depois as merdices, lá no fim as paneleirices sem história e, no fim de tudo, as pequenas misérias humanas de que mais vale a gente nem saber.
Este tema que aqui me destraz hoje é daqueles de que não reza a história e que toda a gente prefere fazer de conta que é invisível.

E tanto assim é que meio mundo opina mas nada que fique assertivado em artigo da Nature ou que a Science perfilhe. Aliás, a Nature já por lá andou mas não consigo ler o artigo todo para poder aqui botar abstract conclusivo.

O que sei é que uns afirmam categoricamente que não existe, outros, mais cautelosos, não garantem que exista ou inexista e outros, a medo, dizem que parece que sim mas que está por provar.


A temática é dupla: por um lado, duvida-se da existência de um certo G e, por outro, da existência de múltiplos O's.

Para abreviar os preliminares, aponto para um artigo do The Guardian. Para a coisa ficar ainda mais robusta, deveria dizer: do insuspeito The Guardian. Reza assim: The search for the multiple orgasm - does it really exist?

E, introduz o tema, desta forma: On-screen depictions of sex show women coming again and again, yet in reality many women never climax during sex. Here’s what we know so far about the clitoris and G-spot


O artigo é extenso pelo que, recomendando a sua interessante leitura, me fico por um little excerto:
A recent documentary on the “super-orgasm” – actually multiple orgasms – found that women who had multiple orgasms had slower alpha waves than the average woman. Their brains were quieter, making more room for pleasure. “The thing about sex of all sorts,” says Martin, “is that sex takes place in the body. It’s very hard to think about pleasure if you are worrying instead of focusing on your body.”
What might you be worrying about? Probably whether you’re going to have an orgasm. Only about 20% of women can reach orgasm by penetration alone; the rest of us need clitoral stimulation. The vagina is marvellous, but it is not packed with nerve endings like the clitoris.
You may think differently about the vagina if you believe in the G-spot. Puppo has little patience with it, and labels anatomical illustrations with: “the invented zone for the G-spot”. It is named after Ernest Gräfenberg, who wrote a paper in 1950 about an erogenous zone on the vaginal anterior wall. This was launched into popular perception by an eponymous 1981 book written by two psychologists and a nurse, and by countless articles since. The nurse was Beverley Whipple, who told the Science Vs podcast that her team had investigated by inserting fingers into women’s vaginas and feeling around the clock. “Between 11o’clock and 1 o’clock,” Whipple says, “we got a lot of smiles.”
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E esta é a acima referida Enfermeira Beverly Whipple que parece saber do que fala e que explica algumas coisas -- entre as quais uma curiosa, que os homens são um linha (penso que deverei dizer um segmento de recta), enquanto as mulheres são um círculo (pelo desenho, penso que deverei traduzir por circunferência embora, com a riqueza sensorial das mulheres, talvez não seja demais deixar ficar o círculo)


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O primeiro desenho é de Olimpia Zagnoli.
As vaginais flores (desculpem o lapsus: queria dizer as virginais) são de Georgia O'Keeffe
A última pintura é de Júlio Pomar
E, lá em cima, Nina Simone interpreta I wish I knew how it would feel to be free



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E por aqui me fico, mas não sem antes sugerir que desçam à descoberta dos mais lindos chapéus do mundo e sugerir, também, que vão em busca das respostas (conselho extensivo a Leitores de todos os sexos)

Nem sei se são eles que são ousados ou se são elas que os usam de forma ousada





Para que saibam. estou a pé desde muito cedo. Noite, noite. Quando estava a sair, estava o sol, provocantemente encarnado, a erguer-se do seu leito de água, deixando no rio um reflexo luxuoso. Se eu fosse outra, levantar-me-ia todos os dias a esta hora para assistir a tão deslumbrante visão. Se não estivesse com os segundos contados, tê-lo-ia fotografado com a minha mini-mini-máquina. Assim, só tenho a minha palavra. 


Depois disso já fui e vim, uns seiscentos quilómetros a correrem sob os meus pés, mais reuniões e calor. E ainda tenho que ir ver um trabalho para uma reunião amanhã, depois de outra reunião que começa ao rebentar do dia. Portanto, o dia começa bem e assim irá até ao fim, tal como todos os abençoados dias desta semana magana.


Portanto, estou assim como talvez consigam imaginar. Sem vontade de ainda ir trabalhar a estas lindas horas, com preguiça e a inventar pretextos para aqui estar. Enquanto isso, estou a ouvir a Norah Jones, que, sinceramente, não suporto grande movimentação -- e, feita cabeça de vento, a deliciar-me com chapéus. Quem por aqui me acompanha sabe que I love, love, love chapéus e só tenho pena de não conseguir ocasiões para poder apresentar-me com altas produções como as que aqui vos mostro








Quando Portugal ainda não tinha sido tocado pela febre das grandes superfícies comerciais, se calhava ir a uma cidade mais 'avançada' (e antes ia com assaz frequência), não resistia a dar uma circulada no Printemps, nos grandes armazéns Lafayette, no Selfridge ou, mesmo, no El Corte Ingles. Queria trazer sempre coisas para os meus filhos e ali encontrava sempre. Tinham roupinhas lindas da Mothercare quando por cá não havia nada que se comparasse. Agora até estou a lembrar-me de uma vez que trouxe coisas fantásticas de Londres para a minha filha. Perdi a cabeça. Pois, conservadora como era e na idade em que as miúdas querem andar iguais umas às outras, para meu super desgosto e absoluta incompreensão, odiou aquilo tudo e acho que nunca vestiu nada. O meu filho não ligava patavina e vestia o que calhava. Mas, para rapaz, as coisas eram sempre mais normais.


Onde eu inevitavelmente encalhava, quando ia a esses grandes arnazéns, era nos chapéus. Caraças, que loucura. Adorava. Se o meu marido estava comigo, ficava desatinado, já queria que eu trouxesse um qualquer e saísse dali para fora. Mas eu não estava ali para comprar mas sim para me ver com eles. Experimentava os mais espampanantes, a grandes capelines, os discretos com púdica rede.

E, quando chega esta altura, não podendo estar em pessoa naquele sagrado lugar onde todas as ousadias são bem aceites, desloco-me até às fotografias dos mais espectaculares chapéus do mundo, os de Ascot.

E este ano, depois de muito escolher, optaria por este aqui abaixo. Mas, lá está, nem sei dizer se seria por achá-lo o mais lindo de todos ou, apenas, por achar que ficaria lindamente com uma expressão desafiadora como a desta lady que tão bem o sabe usar. Até porque, para quem o não saiba, uma expressão humilde atrofia qualquer chapéu.


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E agora vou trabalhar e a ver se ainda cá volto com um tema muito escaldante

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terça-feira, junho 19, 2018

Retrato de mulher com marido
[Ou quando o casal maravilha vai divertir-se à grande e à francesa para o Louvre]
>>>>>> Apeshit <<<<<



Dou-me lindamente com o meu marido apesar de já viver com ele há séculos e séculos. Na origem de tal fenómeno estará a atracção, o afecto mútuos mas, não menos importante, está o respeito pela liberdade e privacidade mútuas: um não invade (demais) o espaço um do outro. Cada um trabalha em seu sítio, cada um tem seus gostos, cada um tem seus horários. Coexistimos a espaços e, acho eu, de forma não intrusiva nem evangelizadora.

Já aqui falei de uma prima, bonita, elegante, altamente apaixonada pelo marido, e que, por ele fazia tudo -- e esse tudo incluía querer tomar conta dele, querer controlá-lo, fazer-lhe todas as vontades. Quando ele chegava ao trabalho, ela exigia que ele lhe ligasse a dizer que tinha chegado bem, se ele estava ao sol, ela ia a correr pôr-lhe um chapéu, se ele andava ao frio, ela ia a correr buscar-lhe um casaco. Claro está, que ele não descansou enquanto não arranjou outra. Agora vive com uma horrososa, mal encarada e mal disposta e que se está nas tintas para ele. E a minha prima vive ainda sozinha, incapaz de substitur o grande amor da sua vida.
Também já contei sobre a minha amiga vistosa, toda giraça, que era casada com um homem mais baixo que ela, meio encurvado, feio e mal jeitoso (apesar de simpático e bom coração). Pois bem, ela tinha uns ciúmes loucos dele. Fazia cenas, vigiava-o, controlava-o. Uma coisa sem explicação. A paciência que ele tinha que ter para aturar aquela maluquice não tem explicação. Claro que, depois de uma parte final tempestuosa, acabaram separados, inimigos, a espumar ódio por todos os poros.

Não sou exemplo para coisa nenhuma e nisto ainda menos. Mas o que queria dizer é que, volta e meia, quando estou com o meu marido muito tempo de seguida aqui na casa da cidade, acabo por me enervar um bocado e inevitavelmente alerto-o para o facto de que, um dia que estejamos ambos reformados, ele que nem tente disciplinar-me, educar-me, ou, de qualquer forma, condicionar-me. No campo esta é questão que não se coloca: há largueza e ocupação que chega e sobra para que não tenhamos que andar a encalhar um no outro. Mas, aqui nesta casa, a conversa é outra e presta-se a que ele ensaie tentar fazer de mim uma mulherzinha de bons hábitos, bem comportada e bem mandada. Coisa fatal. Tudo menos isso.


Mas há os casais estóicos que conseguem conviver airosamente, do levantar ao deitar, dia após dia, ano após ano, seja a nível pessoal, seja a nível profissional. Conseguem fazer uma equipa sempre bem articulada, sempre tolerante e sempre prontos para mais. Quando penso nisso, não sei porquê ocorre-me que, quando isso acontece, na volta acabam mais companheiros, quanto muito amigos coloridos, do que amantes. Mas não sei. Sabe-se lá da vida de cada um.


O que sei é que o vídeo que a Beyoncé e o marido, Jay Z, acabaram de lançar é qualquer coisa de espectacular. Nem um nem outro fazem o meu género (aliás, acho que é a primeira vez que vejo um vídeo que qualquer um deles do princípio ao fim) mas, a sério, tiro-lhes o chapéu. Para dizer a verdade nem foi à letra nem à música que prestei mais atenção. Nem à interpretação. Foi mesmo ao vídeo. Espectacular. Ela linda, hot, uma deusa parideira, toda sinuosidades e convites, ele todo dengue, malandrice, disponibilidade. E há ali cumplicidade. Vê-se que se divertiram, que há criatividade, empatia e convergência de vontades, de estilos, de vida. Ousaram e ousaram em grande. Ousaram em grande estilo. Com arte. Com muita pinta.


A coisa dá-se no Louvre e, vão por mim: é espectacular. Vou ouvir outra vez a ver se me dá vontade de dançar. Ou de ir até ao Louvre.


Beyoncé e Jay Z em "Apeshit"  do álbum"Everything is love"



François Hollande, o saudoso macho alfa da política francesa


Juro que há coisas que não consigo entender. Mesmo que passem anos, eu continuo a não perceber.

Quando se vê um casal em que não se aproveita nem um nem outro, a minha mãe comentava: há sempre uma meia rota para um pé coxo. Portanto, até aí tudo bem. Por exemplo, se o François Hollande se tivesse tomado de amores por uma matrafona ou por uma zinha qualquer eu não teria nada a dizer.

Assim, não é que tenha -- porque não tenho -- mas não consigo deixar de comentar que não entendo. Do que lhe conheço politicamente, não me parece alguém capaz nem de vender uma coca-cola no deserto quanto mais convencer um céptico a votar no Partido Socialista. 

Portanto, por elán intelectual, arroubo mental, ou entusiasmo partidário não é. E, do que salta à vista, enquanto homem, acho que nem um piropo ele seria capaz de arrancar às profissionais dos ditos, como, por exemplo, às vendedoras do Bolhão, quanto mais a mulheres normais. E mesmo que estivessem em estado de carência total, naquele estado de que se diz que estão capazes de matar cachorro a grito, nem assim eu consigo antever que alguém normal resolva suprir lacunas com um coisola como este pobre
coitado do Hollande.

Conta anedotas, dizem. Tem sempre uma adequada a cada circunstância. Ok, boa. Humor é fundamental. Mas, caneco, não basta. 

Um homem sem sentido de humor é tão grave como ter maozinhas de boneca como o Trump ou outras coisas igualmente grave. Mas se o humor é necessário, uma coisa garanto: não é suficiente. Se, tirando as anedotas, for um chato, se tiver a inteligência de uma galinha desmiolada e se fisicamente não passa de um galarucho emproado, então esqueçam.


E, no entanto, três mulheres inteligentes, bem informadas, independentes, giras, com tudo em cima -- Ségolène Royal, Valérie Trierweiler, Julie Gayet -- apaixonaram-se perdidamente por François Hollande.

E eu não percebo. Não per-ce-bo. Não mes-mo.


Na entrevista Thé ou Café, ele diz que as separações são dolorosas e faz o número do tadinho mas, que eu saiba, foi sempre ele que causou o rompimento por já andar enamorado por outra, causando cenas de ciúmes que me fazem pasmar. Não sou de fazer jura, de fazer aposta ou de me atravessar com afirmações que, mais tarde, me possam condenar mas caraças se não posso afirmar a pés juntos que nem que ele me aparecesse nu (ah, nu ainda deve ser pior), revestido a ouro (havia de ser lindo) ou habilitado a dar massagens dia e noite intercalando-as com recitais de poesia do mais fino recorte, nem assim eu me sentiria tentada a retirá-lo dos braços da agora Julie Gayet. 


segunda-feira, junho 18, 2018

Para que ela saiba que continuo a escutá-la


[Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida]

Quando a visitava e estava sozinha, ela, assim que me via, abria um sorriso que me deixava prostrado de felicidade e de remorsos por a visitar tão menos quanto devia e queria ou podia. Mas ela nunca reclamava, sabia e compreendia. 

Ao princípio, falava muito, queixava-se do país, da política, disto e daquilo, do mau tempo, da falta de sol e de luz. 

Depois, se eu estava de regresso de alguma viagem, queria saber tudo. Embora me tenha dito uma vez uma frase que já citei algures ('Miguel, viajar é olhar'), não queria ver fotografias algumas, que eu não levava, aliás: queria apenas que eu lhe contasse o que tinha visto, como se ela pudesse então ver também. 

[Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas.

Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem]

Mais do que tudo, intrigavam-na as minhas frequentes viagens ao deserto:

- Mas o que há no deserto, Miguel?

- Nada, mãe.

- Nada?

- Nada. Areia e pedras. E, à noite, há estrelas.

Calava-se, então. Essa era uma das suas características mais pessoais: podia calar-se a meio de uma frase de um interlocutor e ficar assim, como se tivesse partido para outro planeta, sem aviso.

[Devagar, devagar, em frente à luz,
Carregado de sombras e de peso,
Arrancando o seu corpo da raiz.

No extremo dos seus dedos nasce um voo
No vértice do vento e da manhã
Uma asa vai perdida dos seus dedos]

Quem não a conhecia bem, ficava sem chão, sem saber o que fazer. Mas eu sabia, também aprendi com ela que saber partilhar o silêncio é a forma mais íntima de estar com alguém. E, na verdade, por maior que seja o silêncio, nunca deixou de falar comigo. Quanto mais não seja nos poemas que deixou nas páginas dos seus livros, alguns dos quais escrevi nas paredes da minha casa para que ela saiba que continuo a escutá-la.

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Não é primeira vez que aqui tenho estes vídeos mas, se puderem, mesmo que também já os tenham visto, por favor vejam




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Excerto do livro Cebola crua com sal e broa, da infância para o mundo, de Miguel Sousa Tavares
Fotografias feitas este domingo in heaven onde se podem ver poemas de Sophia escritos em azulejos
Primeiro vídeo: "Sophia de Mello Breyner Andresen -- O Nome das Coisas"
Segundo vídeo: Sophia de Mello Breyner Andresen de Joao César Monteiro 

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Uma mole muito pouco humana



No outro dia li um artigo muito perturbante. Pensei aqui falar nele mas não estava com a disposição no ponto certo. De resto, é tema recorrente nas minhas preocupações -- refiro-me à conjugação de dois factores: a desregulação em que operam os desenvolvimentos tecnológicos e o alheamento em relação a isso em que vivem os poderes públicos e a classe política (a nível internacional).

Perguntava-se o autor se a tecnologia já estava a ganhar controlo sobre nós e dava vários exemplos de como os humanos já estavam a ser vítimas dos avanços desregulados que se verificavam aos mais diversos níveis desde o que se passa nas redes sociais (Facebook, agora WhatsApp e o que mais aí virá) até a casos chamados 'estranhos' envolvendo machine learning e inteligência artificial. 

É tema que me é caro e muito gostaria de ser capaz de transmitir o receio que tenho face aos riscos que sei serem mais do que muitos.


Digamos que estou crente de que a maior parte dos receios mais propalados e sobre os quais se debruçam as redes sociais ou a comunicação social são coisa nenhuma quando comparados com os riscos enormes que podem advir de um uso indevido e desregulado dos algoritmos que estão na base da dita inteligência artificial e que, quando conjugados, com a capacidade, ubiquidade e baixo custo das tecnologias se podem tornar uma real ameaça para a humanidade.

Assusta-me ver o avanço progressivo de tudo isto perante a indiferença colectiva de toda a gente. Assusta-me ver como a troco de selfies, de frivolidades sem sentido, de partilha de likes ou da volúpia do exibicionismo ou do voyeurismo as pessoas fecham os olhos a todos os riscos. 

Hoje, depois de um dia de calor e depois de trabalhos diversos, continuo a não ter grande disposição para me alongar no tema mas vi uma notícia sobre um trabalho em preparação que remetia para trabalhos anteriores do mesmo autor. Trata-se de Spencer Tunick cuja arte se traduz em grandes instalações e respectivas fotografias de nus humanos. Junta muitas pessoas nuas e fotografa-as.


Uma que me impressionou bastante, consistiu em juntar uns milhares de pessoas pintadas de quatro tons de azul. Como um rebanho de avatares, as pessoas caminhavam na rua. Depois deitavam-se no chão, amontoavam-se na rua. 

Sempre que vejo coisas assim sinto como que uma agonia interior, como se estivesse a constatar que, a troco de coisa nenhuma, as pessoas mansamente se predispõem a ser meros corpos sem vontade, corpos ao sabor de quem os comande.


Como se o futuro não precisasse de vir porque o presente já é assustador que baste: as pessoas já se prestam a tudo.

Podia passar um máquina trituradora por cima que, para aparecerem na fotografia, as pessoas o permitiriam. Não é por delicadeza que se deixam matar. É por mera futilidade, por mera estupidez.

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Falar de amor parece quase coisa de revivalismo. 


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domingo, junho 17, 2018

Primeiras memórias





E depois fomos a casa dos meus pais e daí ala moço que se faz tarde, a caminho deste meu lugar na terra onde eu sou mais eu. É aqui que agora estou, in heaven

Tarde de calor. Roupas de verão, cheiros de verão. À vinda, tinha começado a ler o último livro do Miguel Sousa Tavares. Como sou da contra-corrente, não li o Equador nem o que se lhe seguiu. Em contrapartida, tinha lido e gostado do Não te deixarei morrer, David Crockett. Gosto de livros de memórias, gosto de diários, de cartas, de blogs. Este livro também é de memórias. Mas, como sempre acontece, adormeci.

Chegada cá a casa, voltei a ele e, desta vez, não adormeci. Estou a gostar. Comecei pelo fim. Depois li a meio. A seguir, convencida que já estava, fui para o princípio. Miguel tinha feito seis anos na véspera, quando a mãe o chamou para lhe dizer que ia mandá-lo para casa da madrinha. Porque os pais não tinham dinheiro que chegasse para educar todos os filhos, enviaram-no a ele e a outra irmã para casa de quem se dispôs a ajudar. A irmã não sei para onde foi. Ele foi para aquela Quinta no norte. Aí esteve ano e meio e, durante esse ano e meio, apesar de estar longe da mãe, da casa e das irmãs, foi feliz. 


Começa o livro com a evocação da primeira memória de si próprio. Estava na copa e viu um raio de luz.

Pensei nas minhas primeiras memórias. Muitas vezes penso que, se calhar, invento as minhas memórias. Ouço ou leio que as pessoas apenas guardam memórias do que se passou quando já tinham idade que se visse. Eu não. Eu recordo coisas de quando era quase bebé mas recordo-as de tal forma que não me parece que sejam produtos da minha imaginação. Por exemplo, lembro-me muito bem de quando fiz um ano. Lembro-me de ter ido a casa dos meus avós maternos e de os meus pais me terem deixado à porta com um menino um ano mais velho que eu e de quem eu gostava muito. Eu já andava. Era verão e eu tinha um vestidinho branco e uns sapatos brancos. E lembro-me do sítio onde estava e lembro-me de ele me ter ido levar a casa dos meus avós e ter dito 'ela fez chichi'. E a vergonha que tive. Muita vergonha. Era uma menina crescida, tinha feito um ano e, no entanto, tinha feito chichi nas cuecas.

Fui muito, muito amiga desse menino até aos meus dez anos. Inseparáveis. Foi seguramente o meu melhor amigo até essa idade. Lembro-me muitas vezes dele. Lembro-me de passar horas e horas com ele, conversávamos muito. A inteligência dele fascinava-me bem como a sua contenção e paciência. Nunca se zangou comigo, apesar de eu frequentemente fazer de tudo para tentar tirá-lo do sério. Tinha um coração de ouro. Trabalhou na banca, tendo chegado a um lugar de relevância. Mas aquele não era o seu mundo. Contou-me a minha mãe que arranjou uma depressão, depois negociou a saída antecipada. Vive no campo, a maior parte do tempo sozinho. 


Lembro-me também de umas meninas gémeas que tinham um irmão mais crescido. As meninas eram mais velhas que eu e gostavam de tomar conta de mim como se eu fosse uma boneca. Tinham um gato. Gostavam de costurar vestidos para as bonecas e para o gato. Lembro-me do gato miar muito e de uma segurar no gato enquanto a outra o vestia. Depois vinha o irmão e zangava-se com elas e, no meio da confusão, o gato fugia e elas ficavam furiosas com o irmão. Não me lembro dos pais deles, só mesmo deles e do gato.

Lembro-me de um outro menino que tinha o mesmo nome que o primeiro. Uma vez esse meu amigo não estava e eu fiquei muito triste, sem saber o que fazer. Lembro-me da minha avó me dizer que fosse brincar com o outro mas eu não quis, não tinha graça aquele, não sabia tantas coisas, não conversava comigo, só fazia parvoíces sem jeito. Fiquei em casa, triste, à espera que o meu amigo chegasse.


Também me lembro de odiar leite, aquele leite morno, que me sabia a leite gordo e que, se arrefecia, criava umas natas que me davam vómitos. De manhã, a minha mãe não sabia o que fazer para o meu pequeno-almoço. Juntava ovomaltine mas, apesar de mais suportável, não conseguia beber de seguida. Também não gostava de pão da véspera, seco, sem graça. Mais tarde, a minha mãe viria a descobrir que, se fizesse papas de aveia a que juntava ovo, casca de limão, e que decorava com canela, eu gostava. Mas, tirando isso, eu não gostava de nada. Só já adolescente percebi que se o leite fosse magro, sem açúcar e frio até gostava. Também adolescente percebi que, se a minha mãe me tivesse dado iogurte e fruta e frutos secos, eu comeria tudo. Mas não. Quando era pequena, ela queria que eu me despachasse e eu não conseguia. Então, combinava que, quando chegasse à escola infantil, a educadora me daria pão que a padeira ia levar ainda quente e eu gostava muito daquele cheiro a pão quente que era barrado com manteiga e a manteiga logo derretia e, para me convencer a beber leite, a educadora juntava-lhe uma pinga de café mas nem assim, só gostava mesmo do paozinho quente. Nunca gostei de garotos, galões ou essas coisas mornas e doces.


E lembro-me, também na infantil, de haver um menino terrível, que gostava muito de mim e eu dele. Portava-se sempre mal e eu gostava cada vez mais dele. Por exemplo, comia formigas. Os outros meninos e meninas ficavam escandalizados. Mas eu não queria ficar-lhe atrás e também as comia. As meninas, então, ficavam chocadas mas eu gostava de chocar as meninas bem comportadas. Tinham um sabor agudo, ácido, as formigas. Não gostava mas também não era completamente horrível. Soube mais tarde que era ácido fórmico. Quando a minha mãe soube, passou-se, proibiu-me. Mas as formigas que eu já tinha comido... Se tinham que fazer mal, já fizeram, paciência. Por essa altura, também nos davam lá na escola óleo de fígado de bacalhau. Não me lembro se o tomávamos todos pela mesma colher mas tenho ideia que sim. Fazíamos fila e havia um frasco grande. Sempre ouvi dizer mal do óleo de fígado de bacalhau mas eu nunca tive razão de queixa. Aliás, gostava. 

E lembro-me bem de tudo isto.

Também me lembro de entrar um menino mais novo que eu. Ele tinha quatro e eu cinco. E ele apaixonou-se por mim e, de vez em quando, saía da mesa dele e vinha ter comigo e punha-se de joelhos abraçado às minhas pernas, como que querendo fazer isso às escondidas. A educadora pegava nele por um braço e dizia: 'olha o maluco do rapaz, para o que lhe havia de dar'. Eu não ligava porque ele era dos pequenos e eu já era dos grandes.


E lembro-me do irmão mais novo daquela que viria a ser minha tia e que morava ao lado da escola ter tido um grande acidente e ter ficado muito mal, paralisado, e eu ficar tão impressionada, tão aflita, que não queria ir para aquele lado do recreio com medo de vê-lo. Acho que não suportaria a ideia de vê-lo tão diminuído, numa cadeira de rodas. Aliás, durante anos tive pavor, absoluto pavor, de pessoas com ferimentos ou doenças. Penso -- mas não sei se foi mesmo -- que tenha a ver com aquilo de que já aqui falei, do meu avô materno ter morrido num acidente e de terem tentado ocultar de mim, e de a minha mãe e a minha avó terem ficado muito perturbadas e de me terem mandado para casa da minha outra avó para tentarem preservar-me. Tal como nessa altura fiquei gaga (não sei durante quanto tempo, mas creio que uns meses), devo ter ficado de tal forma traumatizada que não apenas não me lembro de nada relacionado com isso como ficava aterrada quando via alguem ferido ou doente.


Mas tudo isto são memórias de bem novinha, tudo isto de que falei se passou antes de chegar à primária, ou seja, antes de fazer seis anos.

E há ainda uma coisa de que eu acho que me lembro mas essa, a ter acontecido mesmo, teria sido anterior a ter feito um ano e, por isso, admito que seja apenas memória do que os meus pais contavam. E, no entanto, aquilo de que me lembro é da parede, do candeeiro, de uma senhora vestida de escuro e de uma casa muito sombria. 

Já contei: fui fenómeno. Comecei a falar aos seis meses. A primeira palavra foi cão e dizia-a quando, na rua, o cão ladrava. A minha mãe assustou-se. Chamou a vizinha. O meu pai chegou e encontrou as duas assombradas. Mas a seguir a cão vieram outras palavras. Uma vez, contam, foram a casa da madrinha do meu pai. E, quando a madrinha acendeu a luz, eu disse luz e preguei um susto à senhora. E eu acho que me lembro desse dia pois lembro-me de estar ao colo da minha mãe e de não gostar daquela casa nem daquela senhora mal encarada e lembro-me de todos a quererem tirar a limpo e que eu repetisse luz mas eu não dizer porque não queria estar ali. Mas, se calhar, é efabulação minha em volta da descrição dos meus pais.

Não sei.


Penso que se me puser a recordar, as memórias, como cerejas, começam a surgir.

Por exemplo, lembro-me de que, quando o meu primo estava para nascer, teria eu uns cinco anos ou quatro, já que ele tem cinco anos de diferença para mim, fui com os meus tios e com a minha avó convidar essa madrinha do meu pai para madrinha também do meu primo. Deve ter sido numa altura de férias e eu devia estar em casa da minha avó. E essa madrinha disse que, se fosse menino, gostava que fosse Luís e a minha avó disse que gostava que, se fosse menino,  tivesse o nome do meu avô que tinha morrido uns dois ou três anos antes, e, ao dizer isso, desatou a chorar. E os meus tios ficaram comovidos mas disseram 'Então, agora o que é isso...?' mas ela chorava sem parar. Lembro-me muito bem disso. Era de noite e estávamos numas cadeiras debaixo de um caramanchão de flores. E o primeiro nome do meu primo é mesmo o nome desse meu avô.

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Já escrevi demais. É tardíssimo. O meu marido dorme a sono solto. Daqui a nada levanta-se e vai desbastar árvores. Hoje esteve a cortar pés de azinheira ou aroeira que estavam a crescer na barreira. É madrugador e eu sou noctívaga. Quando me levanto ao fim de semana já ele está a pé há horas. Ele lastima eu não ver o nascer do sol e eu também lastimo não ouvir o despertar dos pássaros. Mas nada a fazer, sou assim, bicho da noite e do silêncio.

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As fotografias foram feitas esta tarde aqui, in heaven, e Nelson Freire interpreta 'Melodía de Orfeo y Eurídice' de Gluck

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Um lugar privilegiado




Há um restaurante sobre o rio azul de onde se avista a cidade que contorna a mais bela baía do mundo e também a península solar que se estende como uma língua de areia rematando o outro lado do horizonte.

Nesse restaurante há um relvado que tem, pousado nele, um piano que não sei se é um piano ou algum dia já foi uma espécie de piano ou, talvez, um musical coração de ferro.


E há uma esplanada sobre um chão de madeira com árvores que fazem uma sombra rendilhada e boa, que tomba sobre o azul das águas e do céu.


Por baixo desse restaurante há uma pequena praia. Não me lembro de, antes, haver essa pequena praia. Se calhar havia, eu é que não a frequentava. Não me lembro. A partir daí há umas pedras que fazem uma barreira sobre o mar. Aí, na fase em que o meu pai, nos seus tempos livres, experimentou ser pescador à linha e em que gostava de ir para lá, às vezes eu e a minha mãe íamos com ele. Não queriam que eu andasse em cima das pedras, podia escorregar e cair. Lembro-me que levávamos cadeiras desdobráveis e eu levava um livro e a minha mãe talvez levasse revistas ou um tricot. Não me lembro de a ver a ler livros quando la estávamos. Aquilo de que me lembro é da atenção que eu prestava ao acto de pescar. Gostava de ver o isco, por vezes era eu que escolhia aquelas grandes minhocas que, por vezes, também ajudava a apanhar na praia do outro lado, na areia entre as rochas. 
Andávamos curvados, atentos, à procura de bolhinhas a sair da areia. Sinal de que havia ali, enterrado, um casulo. Púnhamos umas pedrinhas de sal no mal percebido buraquinho e os dedos em volta, com as costas da mão para baixo, encostadas à areia. Passado um bocado, lá despontava a minhoca que, com rapidez, apanhávamos e puxávamos para fora. 
Mas o meu pai não deixava que eu as prendesse no anzol -- quer ele, quer a minha mãe tinham medo que eu enfiasse o anzol nos dedos.


Depois o meu pai atirava a linha para longe e ficava à espera. E eu ficava também a olhar para a ponta da cana. Mal estremecia ou vergava, logo eu estremecia também, na expectativa do que aí vinha. Peixinhos bons. Enquanto lá estava, o meu pai punha água do mar num balde e, quando os retirava do anzol, os peixinhos ali dentro. Quando 'dava' robalo ou massacote ou bodião, calhava render um balde deles. A minha mãe maçava-se um bocado com isso, especialmente quando ele ia pescar sozinho, por vezes até ser de noite, e chegava a casa, já tarde e carregado de peixes para escamar e amanhar. Sempre que eu podia, amanhava-os eu. Adorava amanhar peixe, jogar as mãos às vísceras e puxá-las para fora, ensanguentadas. Tentava sempre aproveitar o fígado, sempre gostei muito de fígados de peixe.


Agora já ninguém deve ir para ali pescar à linha. Nesse lugar, há agora um eco-parque de campismo cuja localização é privilegiada.

Também ali houve uma discoteca. Acho que, na altura, se deveria chamar boîte. Era mesmo em cima da praia. Lembro-me de uma passagem de ano que lá passei com os meus pais e com o meu namorado da altura. Achei uma coisa meio parva. Aquilo não fazia bem o nosso género mas, face à minha vontade de passar a virada do ano com o meu namorado, os meus pais lá se lembraram de combinar aquele número com uns amigos. Lembro-me bem de achar aquilo despropositado.

A Gávea era um lugar a modos que mítico entre os jovens e não jovens da altura. Lembro-me de um amigo, ainda não há muito, dizer que não tem conta as vezes em que saía de lá de madrugada, e que tinha que ir muito devagarinho para não sair da estrada já que a bebida, condimentada pelo sono, não era propriamente um anjo da guarda muito confiável. Hoje é apenas memória e dá nome ao restaurante do Cais onde se come bem e se está ainda melhor.


E eu, em lugares assim, é como se estivesse de férias. Podem ser curtas, podem ser de tipo rapidinha, pode ser o que calhar, mas sabem-me a férias e eu não quero saber, nem que não sejam de verdade nem que sejam de curta duração. Mindfulness também é comigo.

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PS: Com a minha máquina fotográfica de estimação irremediavelmente lesionada (o arranjo da lente é quase o preço de uma máquina nova), ando agora com uma que, há uns anos, ganhei de oferta (oferta, não presente) não faço ideia de quê nem a que propósito. Estava em casa e nunca me tinha sentido tentada a dar-lhe uso pois uma coisinha assim, para mim, não é aquele objecto de prazer que uma máquina a sério é. Só dá um zoom de oito, é ínfima, cabe-me na palma da mão, pouco ou nada posso fazer dela. Mas, enfim, em tempo de guerra não se limpam armas, quem não tem cão, caça com gato e branco é, galinha o pôe. Ou seja, não havendo mais nada e havendo este vício de fotografar, foi mesmo com ela que fiz estas fotografias. Enfim.

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Quando eu era miúda, foi com muito orgulho que comprei o primeiro disco com o meu próprio dinheiro: Daydream dos Wallace Collection -- e lembrei-me agora disso ao ver o que o José Ricardo Costa postou.