O Blogue da moda: actualidade, artes, literatura, jardinagem, família e muitas outras coisas

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domingo, abril 26, 2015

O carro que fez o pino no cais do Ginjal


Carro virado sobre parte do cais do Ginjal que se abateu.

Agora parece que os carros com guindaste não se arriscam a ir tirá-lo com medo de irem também parar lá abaixo
nem o barco também com guindaste lá consegue acostar porque o rio ali é baixo.

Mas acredito que não seja o novo Tollan, um Tollan em seco.



Cais do Ginjal antes do carro capotar.
Como se vê, parte do cais já tinha abatido (vedação provisória a seguir ao guindaste) e o espaço para circulação automóvel já era muito limitado


Tudo aquilo ali é periclitante. No Ginjal as paredes ameaçam ruir, os tectos quase não existem, os muros ameaçam abater, agora há lixo e um colchão na entrada que ao fundo tem uma escadaria que leva não sei onde, os gatos vadios andam a ser alimentados por senhoras que os enchem de ração e esparguete. Apenas as gaivotas se mantêm livres, em boa forma e felizes.




Mas o que eu gosto daquelas paredes gastas, esventradas, cheias de desenhos, de onde nascem flores, por onde por vezes entram pessoas ou sombras, onde há cães que meditam frente ao rio, onde os pescadores, habituados que estão a tanta beleza, já nem olham para os veleiros que deslizam, nem Lisboa ali tão perto, tão, tão bela.

E o que eu gosto daquela proximidade do rio, do cheiro a maresia, do fresco que se aspira e que traz uma leveza que me dá vontade de voar, e do azul de tantas cores que há nas águas, no céu, no ar que as gaivotas atravessam, dos abraços dos namorados que se sentem tão apaixonados perante tanta beleza, dos barcos pequeninos dos pescadores, dos veleiros silenciosos, dos cacilheiros, dos grandes navios, das pontes tão elegantes.








Mas tudo aquilo é instável. O cais do Ginjal abateu na altura em que o carro com um casal e uma criança ia a passar. Muitas vezes me interrogava se um dia isso não ia acontecer. O cais tem fendas, tem zonas em que se nota a vulnerabilidade. Por desconhecimento ou aventureirismo alguns carros afoitavam-se. Também há os que vão abastecer os restaurantes. Algum dia ia acontecer.


E há as varandas que parecem levitar de tão soltas estão, paredes que parecem desafiar a lógica dos materiais ao manterem-se de pé. Não há muito tempo, dentro de uma daquelas casas abandonadas, morreu um rapaz soterrado sob uma parede. Tudo tão frágil, ali.

Vamos ver o que vai acontecer. Li que interditaram agora aquele passeio mas ainda hoje de manhã lá passei. Tanta beleza deve estar acessível a toda a gente - mas em segurança.


Foi para isto...!






De tarde, como todos os fins de semana, fui buscar a minha mãe a casa e fomos as duas à clínica ver o meu pai.

Nos outros dias ela vai ou com o meu tio, irmão do meu pai, ou com uma amiga que foi colega na mesma escola e que mora perto. Essa professora é viúva, não tem filhos, já teve cancro em várias partes do corpo mas parece vender saúde e é de uma alegria e jovialidade inacreditáveis. Ela e a minha mãe fazem uma dupla que tem sido benéfica para as duas: trocam livros, confidências, fartam-se de rir uma com a outra. Quando não tem a companhia da amiga ou do cunhado, a minha mãe vai sozinha mas também não se importa.

Quando lá chegámos, o meu pai estava na sua cadeira de rodas, na sala, a cabeça tombada, a dormir. Custa-me ver o meu pai assim, parece que ainda não me habituei à ideia de que jamais voltará a ser o homem independente, enérgico, opinativo, bem conservado, que era antes do AVC.

À volta da sala estão outros convalescentes também em cadeira de rodas. À volta da mesa grande no centro da sala estão os outros, os que se locomovem por si. Hoje havia cravos encarnados em cima da mesa.

Acordámos o meu pai e começou logo a queixar-se, que queria descansar, ir para a cama. Como sempre, dissemos que não pode estar muito tempo na cama, que, se dorme durante o dia, depois não dorme de noite e que, se passa muito tempo na cama, perde massa muscular. E dissemos que íamos dar uma voltinha.

A voltinha foi a de quase sempre, para o piso de baixo, para a grande entrada que tem muita luz porque tem o tecto abobadado todo em vidro, e tem plantas e quadros coloridos. Mas ele não liga, diz que tem frio e que quer é descansar.




Depois a minha mãe faz-lhe a barba com a sua Philips portátil. Adquiriram esse hábito e têm-no mantido apesar dele estar internado e de as funcionárias poderem fazer isso. E depois dá-lhe um iogurte líquido que ele bebe de gosto. Depois volta a queixar-se, que se quer ir deitar. Então eu ando com a cadeira por ali, passo junto às flores, levo-o junto à porta e ele, como acontece com os bebés, acalma-se, dormita.

A maior parte das pessoas que lá está não tem visitas, a minha mãe diz que se calhar as famílias vivem longe.

Mas, ali, estava outra família: um senhor pequenino, magrinho, ar consumido, numa cadeira de rodas, e uma senhora da mesma idade, e um homem de uns quarenta e tal anos que era a cara chapada do pai e uma mulher que devia ser a sua mulher. A minha mãe diz que o senhor teve um AVC e perdeu completamente a fala. Percebi melhor porque é que o senhor tem sempre um ar tão triste.

Enquanto eu ando a passear com o meu pai, reparo que a mulher mais nova se levanta e se aproxima da minha mãe. A mulher fala, a minha mãe sorri, percebo que diz que não, a mulher continua a falar, a minha mãe a sorrir ao de leve, abanando a cabeça. Depois a mulher afasta-se da minha mãe e volta para junto da sua família.

Quando volto a sentar-me ao lado da minha mãe, o meu pai a dormir, pergunto o que queria a senhora. A minha mãe, em voz baixa não vão eles ouvir, diz-me que devia ser de uma daquelas igrejas, que veio com uma conversa do além, que podia levar uma peça de roupa do meu pai para a benzer e que a trazia benzida para a semana, e que lhe disse que ela não levasse a mal mas que não acreditava nisso e ela insistiu, que resultava mesmo. Mas depois lá desistiu.

Passado um bocado, levantaram-se, o filho a empurrar a cadeira do pai, a mulher atrás com um casaco de napa com franjas, umas botas também com franjas, umas calças justas, e, mais atrás, a mulher do senhor (que fazia umas quantas do marido, alta, gorda, possante, até andava de perna aberta, tal o volume). Em voz baixa, digo à minha mãe, Coitado do senhor, sucumbiu sob o peso da mulher. E a minha mãe desatou-se a rir e queria dizer que sim, que devia ter sido isso, mas nem conseguia, tal a vontade de rir.

Depois, passado um bocado, ficámos sérias e a minha mãe disse: 'A gente ri-se...', como quem diz que nada daquilo ali dá vontade de rir. E não dá. Qualquer um daqueles doentes podia ser uma de nós - mas fazer o quê?, temos isto de tentar espantar as tristezas com o riso.




A seguir levámos o meu pai para a sala do lanche. As empregadas tratam alguns doentes por tu. No outro dia o meu filho não achou graça a isso, achou que era infantilizar os doentes e que isso era falta de respeito. Mas eu não sei: não sei se aos doentes, dependentes, frágeis, não lhes sabe bem sentirem que são tratados com algum carinho, e aquele tratamento por tu parece-me ter carinho lá dentro.

Reparei que um dos senhores que eu nunca lá tinha visto não tem parte da perna. É um homem de meia idade e fez-me impressão, um ar saudável, e ali, numa cadeira de rodas com uma perna das calças quase vazia. Também lá está uma senhora sem uma perna. Da senhora a minha mãe sabe que sofre de diabetes.

Tento encarar tudo isto com algum distanciamento porque me faz muita impressão. A minha mãe não, cumprimenta todos, fala com as pessoas já com alguma proximidade.
A semana passada estava lá uma senhora que eu nunca tinha visto, numa cadeira de rodas, toda entre almofadas. A minha mãe explicou que ela pouco sai do quarto. Magra, magra, magra, só pele e osso, aspecto cadavérico, acho que nunca antes tinha visto uma pessoa naquele estado. Nem consegui perceber se era nova ou nem por isso. A minha mãe pôs-lhe a mão no braço e perguntou-lhe como se sentia. Ela nem conseguiu falar, apenas pestanejou, e a minha mãe fez-lhe uma festa.
Depois, fomos deixar o meu pai na sala de estar, despedimo-nos, eu disse 'até para a semana, pai', e beijei-o, e a minha mãe, como sempre, disse que eu ia para a semana mas que ela ia amanhã, todos os dias, e deu-lhe muitos beijinhos, fez-lhe festas na cara, ajeitou-lhe o cabelo. Sinto que fica sempre com pena de o deixar lá ficar, por ela já o tinha levado para casa há que tempos. Mas já falta pouco, daqui a nada faz três meses que lá está internado (e, infelizmente, os progressos são escassos).

Quando íamos a sair da sala, a entrada estava barrada por uma cadeira de rodas onde estava um homem ainda relativamente novo, uns quarenta e tal anos talvez, muito moreno, bigode, e com um cravo cujo pé estava preso atrás da orelha, a flor encarnada tombando-lhe sobre o rosto. E tinha um ar irónico. Eu e a minha mãe a queremos sair da sala e ele ali, aquele meio sorriso, cravo atrás da orelha, e então, quando eu disse: 'Dá um jeito, dá?', ele sorri e diz com aquele ar meio zombeteiro, 'Foi para isto...!' e nós ficámos a olhar, à espera que ele desenvolvesse mas não, limitou-se a rir, ajeitou o cravo, e disse de novo 'Foi para isto...!'. E depois deu um toque na cadeira, chegou-se para um lado e deixou-nos passar. A minha mãe perguntou-me 'o que é que ele quereria dizer com aquilo?' e eu disse que, às tantas, ele estava a interrogar-se se foi para isto que se fez o 25 de Abril.

(Ou, então, - penso agora - se é para isto que nascemos)



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  • A música é de Chopin: Nocturnos nr. 8 and 19, numa interpretação de Maria João Pires
  • A primeira e a terceira fotografias são de Mikko Lagerstedt, a segunda é de Andreas Athan e a última de Meshari Aldulaimi e referem-se a 'Céus estrelados' e descobri-as no sítio do costume, ou seja no Bored Panda.
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Permitam que vos diga que abaixo há um vídeo muito bonito com a Índia como pano de fundo e, mais abaixo, um vídeo da Porta dos Fundos sobre o vício das redes sociais e do uso de smartphones.

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Apesar de toda esta chuva e deste tempo tão cinzento, desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo e luminoso dia de domingo.


Uma viagem à Índia


Nunca fui à Índia e não sinto falta disso. Ainda há pouco tempo uma conhecida minha lá esteve e contou sobre a barafunda nas ruas, a confusão do trânsito, a comida que ela achou intragável, a pobreza extrema e escancarada. 

Uns colegas meus passaram lá temporadas e contam que os miúdos lhes sujavam os sapatos e logo apareciam outros para os limpar (a troco de dinheiro). E que, uma vez, um jogou uma cobra ao pescoço de um deles e depois pediu dinheiro para a tirar. E tantas outras peripécias. 

Claro que o património arquitectónico deve ser fantástico e claro que, quem saiba, pode lá ter estadias memoráveis. Mas, a mim, não me atrai, este tipo de ambientes caóticos não me seduz. E, no entanto, gosto de ver filmes ou séries lá passadas*. E, no entanto, acho que a Índia tem uma magia que não estará ao alcance de qualquer um - ou seja, acho que o problema não deve estar na Índia mas em mim.

O filme abaixo, feito para a Vogue Hommes é muito bonito. A sua divulgação tem escassos dias pelo que, à data em que aqui o ponho, ainda nem 50 visitas teve..




Louis Vuitton - Vogue Hommes - Un voyage en Inde avec Kim Jones et Peter Lindbergh


Inspiration militaire, accents Seventies, couleurs de l’Orient et démarche allurée, lorsque le dernier look de la collection printemps-été 2015 fermait la marche cadencée des mannequins sur le runway, l’hommage sonne comme une évidence : Kim Jones, le directeur artistique de Louis Vuitton homme, s’est inspiré de l’Inde. Un condensé d’influences, une ode au voyage, interprétée avec brio par le directeur artistique. Rencontre au Rajasthan.

Réalisation : Fred Pruchon; Journaliste : Hugo Compain; Model : Manu Bora

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* Estava a escrever aquilo e a lembrar-me de Passagem para a Índia




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E, permitam que vos informe que, já aqui abaixo há o humor da Porta dos Fundos. 
Dependência de telemóveis e de redes sociais, é o tema.


Grandes descobertas que a gente agarrada pode fazer quando fica sem bateria


As pessoas andam muito vidradas nos seus smartphones. Nossas relações interpessoais são mais significativas através de redes sociais que frente a frente. Mas, na boa, já parou pra dar uma olhadinha a sua volta? Pra começar, tem um monte de gente feia na sua frente, sem filtro, fazendo barulho com a boca e você não consegue pausar. Além do mais, como se faz pra mostrar que você gostou do assunto ou daquela pessoa? Falem o que quiser, mas um sentimento não pode ser verdadeiro se não vier acompanhando de uma hashtag.




Sem bateria - Porta dos Fundos


sábado, abril 25, 2015

E onde é que a autora de Um Jeito Manso estava no 25 de Abril...?







Em 74, quando foi o 25 de Abril, já o devo ter contado, estava numa residência universitária. Não nos deixaram sair e a rua estava cheia de tropas. Ao lado havia um quartel e ao fundo o Rádio Clube. Tropas e creio que chaimites por todo o lado. A guerra na rua e para nós, de janela, numa excitação, aquilo era uma festa. Ouvíamos a rádio e tínhamos vontade de sair mas tanta tropa na rua iniba-nos um bocado. Eu era uma miúda mas toda eu estava orientada para o reviralho. O meu namorado da altura era todo de esquerda, os meus amigos também, os meus pais moderados mas a favor da democracia, um dos meus tios o mais possível, uma das minhas avós tinha um verdadeiro espírito de comuna, um irmão dela avó esteve deportado e depois vivia na clandestinidade e, portanto, embora fosse tenra a idade, toda eu ansiava que viesse o perfume da liberdade.




E estávamos naquilo, de janela, todas a combinar sairmos de qualquer maneira, mesmo contra as ordens, quando, às tantas, toca a campainha da residência, um susto, o que seria? - isto deviam ser umas dez da manhã. A directora, a medo, foi ver e nós todas a ver se eram os militares que nos vinham prender, quase todas ainda de pijamas ou de calçõezitos de dormir. E nisto abre-se a porta da sala onde estávamos e vejo a minha mãe. Tinha vindo a Lisboa nesse dia, quando saíu de casa não sabia que havia revolução, tinha vindo de autocarro e, quando chegou, viu que havia sururu, a custo lá arranjou um taxi e a custo lá o convenceu a ir para aquela rua pois o taxista dizia que estava cercada. Mas ela, talvez temendo que a filha se visse no meio da guerra, tanto pediu que ele lá a levou para me ir resgatar. Eu, quando a vi, parecia que estava a ver uma aparição, ali, no meio da guerra, a minha mãe!

Anda, vai-te vestir, vamos ver se conseguimos ir para casa!, disse-me ela. Nem pensar, devo eu ter respondido. Todas de roda dela, ela a contar a sua aventura, a dizer que não queria aparecer em casa, ao meu pai, e sem mim e eu que era o que faltava eu ir-me embora a meio da revolução e as outras que ela me deixasse ficar. Não sei como, lá se convenceu a ir-se embora e a deixar-me para trás, provavelmente sob promessa de eu não sair de casa.

Está bem, está. Podia lá perder-se uma festa daquelas. Foram dias de alegria e liberdade. Havia uma efervescência no ar como não há explicação. Na faculdade desataram a fazer saneamentos, coisas às quais não achei muita piada. Uma vez quiseram expulsar uma rapariga, que eu não conhecia, apenas porque namorava um rapaz que diziam que era de direita ou colaboracionista ou sei lá o quê. Ela manteve-se digna e corajosa e eu votei contra a expulsão dela. Depois acho que a coisa amainou.

Na residência, a directora foi à vida e acho que devemos ter arranjado uma comissão. Ou nem isso. Aquilo passou a ser uma casa franca, só quem não tinha namorado é que não o levou para lá. Não é que aquilo se tornasse um antro de vício e perdição mas era normal haver rapazes na sala, na biblioteca, na cozinha. Uma vez, meses depois, houve lá um barulho anormal qualquer a meio da tarde, e eu saí do quarto e quase todas as portas se abriram e de quase todos espreitaram cabeças de raparigas e rapazes.




Por essa altura havia muitas RGAs, nem sei bem o que lá se discutia, eu pasmava como aparecia aquela gente toda que fazia moções a propósito de tudo. Uma dessas vezes, RGA ou Plenário, nem sei, numa sala de um pavilhão, uma sala apinhada de gente, eu estava sentada num parapeito de uma janela, que no chão mal havia lugar, quando vi entrar um revolucionário, barbudo, guedelhudo, misto de ar de desportista e de guerrilheiro, talvez de cristo, lindo de morrer. E ele parou junto à porta, girou o olhar pela sala e o seu olhar deteve-se no meu. Foi tiro e queda - embora só um ano e tal depois a coisa se tenha concretizado pois eu nada sabia dele nem ele de mim e apenas raramente nos cruzávamos. Soube depois que tinha vindo de Coimbra e tinha pousado ali antes de transitar para outra escola.

No meio dos meses conturbados que se viveram na faculdade, numa cadeira em que meio mundo tinha chumbado, votaram para que houvesse passagem administrativa. Foi a única passagem administrativa do curso. Eu tinha tido 18 nessa cadeira e fiquei com 10, é minha nota mais baixa, e logo uma cadeira a que eu tinha achado tanta piada, toda ela bolas fechadas e bolas abertas. Não me importei embora tenha ficado com uma certa pena porque, em vez de ter beneficiado com isso, levei foi uma tareia. Mas nunca daí veio mal ao mundo. De qualquer forma, sendo um curso de gente marrona, acho que mal se deu pela revolução (tirando essa excentricidade da passagem administrativa), toda a gente continuou aplicada, a fazer trabalhos, a pôr o dedo no ar e a ficar no fim para tirar dúvidas com os professores. Eu não, nunca me encaixei naquele espírito, tinha muita revolução para curtir, teatro que não acabava, filmes uns atrás de outros, uma agitação boa, uma festa constante e muito amor no ar.




E depois veio a Alameda, o 25 de Novembro (outro dia animado na minha vida), e, aos poucos, a festa foi perdendo o perfume da revolução, as coisas aquietaram-se, perderam alguma graça, e, aos poucos, os burocratas começaram a instalar-se, e mais tarde veio o cavaco e foram vindo uns e outros e agora ainda estamos longe de ser uma democracia desenvolvida, somos ainda um país com os pés presos ao antigamente, muita gente pequenina, invejosa, mázinha, muita falta de golpe de asa, muito servilismo, muita gente a viver mal, na pobreza, na ignorância mas, ainda assim, a gostar de quem a maltrata e impede de voar.

Talvez ainda tenham que passar mais uns quantos anos para que aquele espírito de liberdade se volte a sentir de novo trazendo promessas de futuro no ar e que venha para ficar. Mas não sei. Cada vez parece que sei menos disto tudo. Mas sei que burocrata, apática, inerte, indiferente e egoísta isso não serei - nunca.

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As fotografias foram feitas há pouco. Os Ganhões de Castro Verde cantam "Grândola, Vila Morena"

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Permitam que vos diga que o relato do meu 24 de Abril deste ano está já aqui abaixo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia 25 de Abril. 
E viva a liberdade!

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sexta-feira, abril 24, 2015

Véspera do 25 de Abril


Levantei-me às cinco e tal da manhã, centenas de quilómetros para lá, duas reuniões com almoço de serviço pelo meio, centenas de quilómetros para cá, cheguei pouco antes das oito da noite, depois fiz arroz, salada de tomate, alface, rúcula, tomate cherry, mozarrela fresca, e temperei com azeite, e vieram entregar duas pizzas com meio metro de diâmetro cada, uma de frango, queijo de cabra e nozes e outra com limão, salmão e manjericão, e comprámos ainda frangos assados. Às oito e tal já cá tinha as tropas em peso, e os miúdos desataram, de imediato, a correr uns atrás dos outros. Finalmente lá se conseguiu que todos lavassem as mãos e se sentassem. Coloquei um bocado de mel de urze na minha salada e creio que houve quem o pusesse nas pizzas, fica bem. Comeu-se e bebeu-se, a animação do costume, toda a gente com um daqueles apetites que parece ser contagioso.

No fim, veio a fruta e vieram as sobremesas e a minha filha trouxe um pão de ló. Disseram que parecia um jantar de festa mas que ninguém fazia anos. Eu disse que sim, que a revolução fazia anos e, por isso, em vez dos parabéns a você, cantámos, cada vez mais alto, a Grândola, Vila Morena. Os miúdos admirados por sabermos todos cantar aquela canção e a cantarmos tão animadamente. Depois ainda nos deu para tentar a Internacional mas aí a sapiência não foi extraordinária e a coisa não saíu famosa.

Um bocado depois, um dos bandos foi à sua pois tem que estar de madrugada no aeroporto. O outro está cá em casa, acampado, andam aqui à minha volta, espertos e sem sono. Daqui a nada vamos ver da janela o fogo de artifício e, se conseguir que alguma fotografia fique boa, ainda aqui a porei.

Enquanto escrevo, está a dar o Expresso da Meia Noite e parece que o Mário Centeno está a falar bem mas a confusão reinante não me deixa ouvir uma frase inteira. A minha filha conseguiu ouvir um bocadito e disse que gostou dele, que parece gente normal, disse ela.

E agora vou ver se consigo perceber como é que nos vamos instalar para ver o fogo de artifício. 

Entretanto, agora os dois rapazinhos quiseram comer Cerelac e a minha filha foi a correr preparar isso para à meia noite estar despachada.

E é isto. Um simples episódio da história da minha vida.


O fantástico José Gomes Ferreira que gostava de ser Ministro da Economia ou quiçá Primeiro-Ministro foi ao '5 para a meia-noite' dar música ao Nilton. Mas a quem ele não deu música nenhuma foi a um Leitor do Um Jeito Manso que ficou altamente indisposto apesar de estar do outro lado do mundo


Depois dos dois posts abaixo com o humor da rapaziada da Porta dos Fundos, outro assunto:


Wonderland


O  Um Jeito Manso aproxima-se do milhão de visitas e eu, que jamais pensei chegar aqui, hesito sobre a sua continuação ou, pelo menos, na continuação nos mesmos moldes.

Sempre gostei de escrever e de partilhar, e este é o espaço que tenho aproveitado para diariamente opinar ou falar do que gosto ou divulgar o que recebo. Faço-o como sempre o fiz: sem pretensões, sem querer provar nada a ninguém, sempre consciente de que tudo é efémero, muito mais um veículo como este, um entre muitos milhares ou milhões, em que, a toda a hora, posso decidir fechar a porta.

Se o tenho feito com gosto tenho-o também, muitas vezes, feito com um sentimento de que isto invade demais o meu tempo: para estar aqui, reduzi em muito o meu tempo de leitura, deixei de fazer tapetes de Arraiolos, não consigo tempo para tentar escrever alguma coisa com mais substância e, verdade seja dita, tenho diminuído o meu tempo de descanso. Sempre me deitei tarde, é certo, não é de agora. Era eu ainda menina e moça, e em casa dos meus pais arranjava maneira de puxar o candeeiro da mesa de cabeceira para a cama, para o lado da almofada, e deixava-me ficar a ler até de madrugada. De vez em quando, se ouvia que algum dos meus pais se levantava, apagava a luz e ficava imóvel até que voltassem a deitar-se para, então, retomar a leitura. Outras vezes, eram eles que vinham pé ante pé e me apanhavam, zangando-se comigo por ‘estar a dar cabo dos olhos’ em vez de estar a dormir. Mais tarde, ainda os meus filhos eram miúdos, esperava que eles adormecessem e que toda a casa entrasse em modo de silêncio, para, então, eu ter o meu tempo.

Ainda agora, é depois de estar despachada do resto, que aqui me sento. Mas muitas vezes apetece-me pegar com tempo num livro ou fazer qualquer outra coisa de que gosto e penso que ou é isso ou o blogue.  No entanto, disciplinada como também sou – apesar de poder parecer o contrário – tenho sempre vontade de não defraudar as pessoas que sei que diariamente adquiriram o hábito de aqui vir espreitar que coisa terei eu colocado na véspera à noite.

Pode parecer alguma vaidade da minha parte dizer isto, convencida de que o que aqui ponho é importante para alguém, mas a verdade é que recebo mails que me dizem isso mesmo.


Sunrise Friends


Esta semana, por exemplo, recebi um mail.

Porque o mail continha uma escrita que me agradou, fluida, assertiva e divertida, e falava de um assunto que eu desconhecia mas que me merece reflexão, pedi autorização para o transcrever. Obtive-a e, por isso, vou fazê-lo.

De facto, a comunicação social está cheia de fazedores de opinião, gente que pouco préstimo tem mas que, pela forma afirmativa como fala, acaba por manipular a opinião alheia. O que é dito na televisão é como se passasse a ser verdade e isso é um perigo dada a falta de qualidade e, tantas vezes, de ética de quem passa pelo palco do comentário público nos meios de comunicação social.

Hoje, ao enviar-me o mail com a autorização para que transcrevesse o mail anterior, disse-me algumas palavras amáveis (por exemplo: Se algum dia se cansar ou não puder escrever tanto, escreva menos mas não deixe de escrever) – e senti essas palavras como o apoio de que algumas vezes me sinto necessitada para continuar a achar que ainda faz sentido aqui continuar. Mas, enfim, esse nem é o tema de hoje.


The Emperor


Passo, então, a transcrever o referido mail:


UJM, 


Estou no estrangeiro e tenho de engolir a pobreza da RTP internacional se quiser ir sabendo do País. Este meu desabafo vai à conta de um programa que vi ontem nesse canal, penso que com uma semana de atraso. Vai-me desculpar usar o seu e-mail para a minha catarse, mas sou seu leitor assíduo, e quando mais nada me alenta tenho-a a si, ao seu blogue.

Viu a miséria do 5 para a meia-noite do Nilton com o Gomes Ferreira? Uma criatura que a Sic-incumbadora deste Governo lá tem, e que de vez em quando finge criticar o Governo para parecer isento aos olhos dos muitos que o ouvem e “emprenham” com a sua autoproclamada sapiência. E que são muitos, devem ser quase tantos como a respectiva audiência. Um que tem cabeça de gnomo e pensa que é economista e dono da verdade? Foi um horror, pior do que ter ácido sulfúrico a corroer-me o estômago.


O homem nem se sentava de tão cheio de si. Parecia um pregador. Diz que o jornalismo é chegar a soluções para oferecer às pessoas, uma coisa do género, dizia que se podia criticar os caminhos que levaram aonde chegámos mas que o que interessa é o resultado, o mesmo que dizer que estamos em franca ascensão, que o Coelho merece uma medalha! Um nojo. A branquear o governo, sempre!

Jornalista é a última coisa que a criatura devia chamar a si próprio (ai, agora também se autodenomina ESCRITOR, imagine-se!). Ele faz política reles, verdadeiramente, e é isso que assume perante o caga-tacos deslumbrado do Nilton… desculpe a expressão, mas não lhe bastava o palanque da SIC, ainda o Niltonzinho o convida para, à conta do erário público, vender o lixo que escreve? E fazer a sua propaganda de direita?! Nem houve mais convidados, tal a imensidão da criatura. À conta de gente como eles que usa a coisa pública para fins particulares e sustento da prole é que a despesa pública cresce…

Enfim, é só um desabafo, uma catarse… Já agora acrescento que a criatura que lá canta “o Martim”- de que nunca tinha ouvido falar antes do grande Nilton o catapultar para a “fama”, acompanhou a última comitiva do Cavaco a Macau. Vale a pena vê-lo de boca aberta enquanto o pregador da Sic papagueia os seus dogmas. Ele de boca aberta e o Nilton com os olhos a faiscar de tanta excitação. Uma coisa…

O País podia lá passar sem aquele exímio músico a representar a Nação... quem devia ser ignorado pelo Cavaco? O Carlos do Carmo, pois. Uma vergonha. Supostamente veio acompanhar a Kátia Guerreiro, outra que não larga o escavacado.

Um pesadelo, mesmo vindo para o outro lado do mundo para manter alguma dignidade, a que não se consegue fugir. Uma afronta. O país está dominado por esses medíocres de campanha encarniçada, o PS que não se cuide, a esquerda que não atine…

Enfim, mais um cantinho fascizóide na TV pública… todas as sextas-feiras, com hora marcada. Raios partam o Nilton:




Cumprimentos cordiais e obrigado por arranjar sempre energia para escrever.


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E muito obrigada eu pelo mail e pela simpatia.

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Para ilustrar o texto usei fotografias que não têm nada a ver, apenas são bonitas. São de  Nadav Bagim (a.k.a AimishBoy) e obtive-as no Bored Panda.

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Relembro: Mais abaixo há dois vídeos da Porta dos Fundos, sempre aquela graça.

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Desejo-vos, a todos vós, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira. 

Felicidades para todos.

Uma reunião e mais outra reunião e ainda outra reunião - na Porta dos Fundos


Reuniões são vitais para o funcionamento de uma empresa. Só que nesse vai-e-vem entre uma e outra, é fácil não só perder o foco, como colegas e a si mesmo também.

E acertar a agenda da reunião, e preparar a reunião, e ir para a reunião, e estar na reunião e, depois, reflectir sobre a reunião. 

Tão bão.



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E sigam, por favor, para o post abaixo porque há mais.

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Ajudante de DR na Porta dos Fundos


Nem me vou pôr a inventar, transcrevo na hora:

Ganhar uma DR é complicado. Você pensa em fatos, bola uma estratégia, ensaia um discurso mas na hora ‘H’ dá tudo errado e você acaba tomando uma lavada. E a primeira derrota é como o primeiro gole, depois dela tudo desanda. Para os mais fracos e emotivos bem que poderia rolar aquela ajudinha na hora da discussão. Ou no mínimo considerar que alguns são café com leite.



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quinta-feira, abril 23, 2015

As mulheres odeiam-se? Sim, às vezes. Mas, de forma geral, adoram mesmo é divertir-se, rir à gargalhada, estar na boa. E se houver Vivaldi à mistura, tanto melhor.


Depois de, no post abaixo, ter Peggy Guggenheim, uma mulher fascinante, aqui dou o palco a mais quatro mulheres. Presumo que não ficarão para a história como ficou a boémia coleccionadora de arte mas que não seja por isso: o palco é delas na mesma. Entram e parecem despeitadas, parecem querer disputar a atenção mas, a seguir... a seguir é aquela festa que só as mulheres sabem fazer quando estão na onda da maluqueira e da boa disposição sem freio. Em qualquer dos casos, vejam, por favor, até ao fim.


Salut Salon "Wettstreit zu viert" | "Competitive Foursome"

Verão, Vivaldi


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Salut Salon "We'll Meet Again"

Uma risota pegada de dar gosto!

E, se não desatarem também a rir, mesmo não percebendo nada do que elas dizem, então é porque são mesmo uns maldispostões, é meus Caros Leitores...!




Estava a ver jeitos de alguma das abaixo referidas ainda fazer chichi pelas pernas abaixo...
(pernas abaixo porque pernas acima seria pouco provável)

Angelika Bachmann (violin),
Iris Siegfried (violin and vocals),
Anne-Monika von Twardowski (piano)
and Sonja Lena Schmid (cello)

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E, porque tristezas não pagam dívidas, que esta quinta-feira seja o melhor possível para todos vós, meus Caros Leitores.

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Como Peggy Guggenheim, uma mulher cheia de sex appeal (e de dinheiro), conquistou o mundo da arte


Marguerite "Peggy" Guggenheim (1898 – 1979) foi uma americana coleccionadora de arte, uma boémia e uma figura proeminente na sociedade. A sua vida foi um filme mas, mais do que a sua vida, foi a sua obra ao serviço da arte que ficou.

Sobre o vídeo publicado a 21/04/2015 e que se pode ver aqui abaixo, diz o texto que o acompanha:

In this exclusive clip from the Tribeca Film Festival documentary, the renowned art collector is remembered for her ego, her authority — and her sexuality.



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Já agora:

The Peggy Guggenheim Collection is among the most important museums in Italy for European and American art of the first half of the 20th century.


 It is located in Peggy Guggenheim's former home, Palazzo Venier dei Leoni, on the Grand Canal in Venice. The museum presents Peggy Guggenheim's personal collection, masterpieces from the Gianni Mattioli Collection, the Nasher Sculpture Garden, as well as temporary exhibitions. The Peggy Guggenheim Collection is owned and operated by the Solomon R. Guggenheim Foundation, which also operates the Solomon R. Guggenheim Museum, New York, and the Guggenheim Museum Bilbao.



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quarta-feira, abril 22, 2015

A década do PS. Finalmente o PS volta a entrar na vida política portuguesa e reentra pela porta grande. Aleluia, que já não era sem tempo.


No post abaixo já falei dos novos livros que aqui vieram juntar-se à babilónia que me cerca. Fiquei toda contente com eles, tão diferentes uns dos outros, trazendo-me tantas novidades, mesmo como eu gosto.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Vou falar do Partido Socialista e não vou falar mal. Aleluia que já estava farta de nada dali me alegrar.




E vamos com música que acho que é caso para estarmos bem dispostos. 
Fandango com castanholas. 
Olé.




Li o documento Uma Década para Portugal que aqui pode ser visto na íntegra e gostei. Está bem escrito, bem fundamentado, é um trabalho feito por gente séria que se esforçou por apresentar um trabalho limpo, cuidadoso, bem estruturado. E há uma fundamentação política, humanista, na orientação que conduz os raciocínios e enforma as medidas propostas.


Ao contrário das provas de indigência intelectual a que temos assistido nos últimos anos por parte deste grupo de incompetentes que nos desgoverna, nota-se que o documento do PS está feito com rigor e que há uma linha condutora que deixa explícito ao que vem.

Ouvi, entretanto, a reacção primária, igualmente indigente, por parte do PSD e do CDS, mas não me admirei: aquilo é mesmo gente sem noção de coisa alguma. Depois de terem imposto sacrifícios desumanos a grande parte da população e de terem destruído parte do tecido social e económico do país com o intuito de diminuir a dívida - acabando com ela mais alta do que quando começaram o seu exercício de burrice - aparecem agora armados em comediantes dando lições de moral aos outros.

Sinceramente, ao fim de todo este tempo, acho que ainda mais do que mal intencionados, eles são é ignorantes e incapazes. Destituídos das capacidades cognitivas mínimas. Não perceberam ainda o que aconteceu, não perceberam porque é que o que fizeram funcionou ao contrário e são bem capazes de ser corridos daqui sem perceberem nada de coisa nenhuma. Mas, enfim, desde há algum tempo que já não me motiva desancar neles, é gente que, para mim, passou à história.

Volto ao documento do PS: todas as políticas estão voltadas para uma aposta forte no relançamento da economia. 


Há medidas que se destinam a introduzir liquidez no sistema, outras que se destinam a que se volte a sentir confiança, outras que facilitam o investimento. 
Todas visam o respeito pela dignidade das pessoas, com especial preocupação pelos mais pobres,  ao mesmo tempo que incentivam a que parte da retoma se faça pelo lado do consumo interno. 
Mas há o outro lado: uma aposta forte na inovação, na ligação da universidade às empresas, na abertura para mercados externos e na internacionalização - e isso é vital e está lá muito bem evidenciado. 
E há apoio ao ensino em todas as idades e percebe-se que o conhecimento voltará a estar na ordem do dia. 
E todas estas medidas, quando conjugadas, permitirão, não tenho dúvida, um impulso relevante no clima económico. 
O desemprego baixará, haverá apoio ao regresso e integração dos que se viram forçados a sair do país. 
E há atenção os sistemas que dão corpo a um estado social e democrático quer a nível da saúde, da educação, da justiça, dos apoios sociais.

E as contas estão feitas e há fundamentação para as despesas e para as receitas e todo o documento é credível e sustentado.


Ouvi com satisfação António Costa dizer que não é uma bíblia. Interpreto que, com isso, está a dizer que é um processo aberto, que incorporará melhorias, que se adaptará às circunstâncias.

No entanto, com esta minha satisfação pelo que ali vejo, não quero dizer que me cole a 100% ao documento. Mas tenho esperança que, com a discussão que certamente agora irá decorrer, os aspectos que abaixo refiro e outros que muitas outras pessoas bem intencionadas formularão serão, de uma forma ou de outra, incorporados nas medidas para a década.

Explicito os pontos.

Há um aspecto que eu gostaria de ver ali mais desenvolvido e com uma força quase central. Tenho para mim que um dos grandes problemas do país é o da demografia. Claro que a demografia, mais do que causa, é também consequência das políticas do país. Mas, pela gravidade que a situação actual apresenta, penso que mereceria uma atenção mais forte.

Não tenho dúvidas que com um aumento dos níveis de emprego, de poupança, com casas mais baratas, com uma carga fiscal mais suportável, os casais tenderão a ter mais filhos.

Mas é preciso mais do que isso. Tem que haver uma política concertada e total de apoio à natalidade: têm que haver creches, infantários e escolas gratuitas (ou quase gratuitas) com horários alargados como o são os das escolas privadas. Os meus meninos andam todos em colégios privados porque os pais trabalham e os avós quase todos também e porque não há escolas públicas que recebam as crianças a partir das oito da manhã ou antes e que os tenham até depois das dezanove ou que tenham carrinhas para os levar a casa e que não fechem nas férias. Mas colégios privados são caros e não haverá muitos jovens casais que os possam suportar. E esta questão é determinante na decisão de ter ou não filhos ou de ter mais do que um ou de dois. Um investimento forte neste domínio é indispensável. 

E tem que voltar a haver postos médicos públicos com horários alargados e com urgências. No outro dia, no meu prédio, vinha uma senhora com uma miúda no elevador e disse-me 'agora, por causa de uma conjuntivite, temos que ir às urgências do hospital, horas e horas, uma pouca vergonha!'. Eu perguntei 'Mas já não há aquilo do SAP?' e a senhora disse, 'Agora... ? Acabaram com isso tudo'.

Pois. Um jovem casal com crianças pequenas, que trabalhe e que ao fim do dia, porque as crianças estão com uma virose, tenha que ir para o hospital horas a fio, não é o melhor incentivo para que fique com vontade de ter mais filhos.

E tem que ser possível que, quem tenha filhos pequenos, possa dispor de dois a três dias por mês para poder ficar com os filhos caso necessário pois sei bem o drama que é para os meus quando os miúdos estão doentes e não têm quem fique com eles e nem sempre se justifica ir para o médico para obter atestados. Tem que haver um sistema simples que facilite a vida aos pais de crianças pequenas.

É essencial repor os níveis equilibrados de natalidade e só com medidas efectivas, pragmáticas e integradas é que se consegue que as pessoas se sintam confiantes para pôr mais crianças no mundo.

Também gostaria de ter visto alguma atenção à questão da terceira idade. Para quem trabalha nas cidades e tem os pais velhos longe, sem lhes poder prestar grande apoio e sem rendimentos sobrantes para ter apoio condigno, é um pesadelo. Conheço pessoas que vivem num tormento porque os pais não têm dinheiro que chegue para pagar um bom lar ou um apoio doméstico integral, têm que ser eles a apoiá-los - e a verdade é que se vêem aflitos para o conseguir. Com a maior longevidade das pessoas, isto tende a agravar-se e não apenas retira qualidade de vida a pais e filhos como retira liquidez do mercado. Com um apoio articulado e inteligente, com mais equipamentos e estruturas de apoio qualificado, não apenas se criaria emprego nesta área como toda a gente beneficiaria a todos os níveis.

Também gostaria de ter visto mais desenvolvida uma aposta forte na cultura. É certo que se vê atenção na recuperação de património histórico mas isso na perspectiva da construção civil que é um sector que, quando estimulado, é fortemente empregador - mas acho que deveria ter havido mais ênfase em tudo o que tenha a ver com cultura. A cultura não é apenas uma base matricial para a identidade de um povo, é também uma forma de abrir as mentes ao conhecimento, à vontade de aprender e caminhar para o futuro, é uma forma de estar em fruição de beleza. Mas é também uma fonte de rendimento não negligenciável. O turismo cultural poderá um dos pilares importantes de revitalização económica. Apoiar toda a cultura, formar um cluster económico em torno das actividades culturais deverá ser uma das vertentes a ter em atenção.

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Seja como for, acho que o PS e a equipa que desenvolveu este trabalho estão de parabéns e serão certamente capazes de incorpor novos contributos. António Costa deixou claro que isto é uma base de discussão, medidas de índole macroeconómica, não o programa de governo. E, assim sendo, a bem do País, sejamos construtivos, ajudemos quem quer ajudar a melhorar a vida dos portugueses.


(Se eu não fosse tão comodista, diria que podiam contar comigo. Assim, limito-me a deixar aqui estes apontamentos mas confesso que começo a sentir, volta e meia, uma certa vontade de me chegar à frente. O diabo é a minha alergia total às partidarites bacocas que estão por todo o lado...)

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As imagens representam obras de Ilda David.

A música é Fandango de Boccherini pelo The Carmina Quartet 


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Relembro que, se quiserem dar uma espreitadela aos livros que comprei ontem, poderão descer até ao post seguinte.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira muito feliz. 
Haja esperança.

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Livros novos cá em casa


É mais forte que eu e, agora que li a opinião de Umberto Eco, ainda mais legitimada me sinto para me atirar para fora de pé: é uma tentação, enfiar-me nas livrarias. Tivesse eu à mão um museu e se calhar também me ia lá enfiar à hora de almoço mas, como não tenho, servem as livrarias mesmo. 

Percorro a livraria, fujo dos best sellers, poupo a vista não encarando os que têm capas radiosas, não me detenho nos romances históricos, nos policiais, nos de suspense, de vampiros ou de códigos religiosos, nos de auto-ajuda, nos de mandamentos de economia e de sucesso à pressão, nem nos de dietas nem nos de banda desenhada - sou preconceituosa, eu sei - e procuro o que me parece ser mais marginal, mais próximo da minha própria realidade (sendo que a minha própria realidade é qualquer coisa em construção e que ando a tentar descobrir).







A carta de Lorde Chandos, Hugo von Hofmannsthal, introdução de Hermann Broch, Relógio D'Água


É bondade sua, muito estimado amigo, ignorar este meu silêncio de dois anos e escrever-me como me escreve. É mais do que bondade dar à sua solicitude para comigo, à sua perplexidade pela letargia espiritual em que lhe pareço ter caído, esse tom de ligeireza e ironia que é próprio apenas dos grandes homens marcados pelas atribulações da vida, mas que nem por isso se deixam desanimar.

Atelier, Diogo Freitas da Costa, Fundação Francisco Manuel dos Santos


Capítulo 1 - Ana Vidigal, A casa redonda
Ando há 30 anos a cortar e a colar coisas
Ao abrir a porta do atelier, Ana Vidigal estava ao mesmo tempo a abrir-me a porta da sua casa. Vive e trabalha numa típica rua de um bairro popular lisboeta: uma via estreita, ladeando uma encosta que se ergue frente ao rio. É um lugar com muita 'vida de bairro', como se costuma dizer, onde se sente que o quotidiano é feito da permanente fusão entre a vida doméstica e a vida social.

À porta do farol faz escuro, Simone Weil, Apostolado da Oração


O mais puro amor


Tudo o que em nós
é vil e medíocre
se revolta contra a pureza
e necessita,
para salvar a vida,
de sujar essa pureza.

Sujar é modificar,
é tocar.
O belo é aquilo
que não se pode querer mudar.
Exercer domínio sobre,
é sujar.
Possuir é sujar.

Amar puramente
é consentir na distância,
é adorar a distância
entre cada um
e aquilo que se ama.

Éter, António Cabrita, abysmo


Ainda não me saíram da pele os teus quatro tiros de caçadeira. É uma maneira de dizer que o seu eco ainda me perfura os tímpanos, devolvendo-me ao momento em que entrei no táxi e a rádio vomitou, Liquidou a tiro a mulher, o filho (que adoravas) e o gato, antes de virar o cano para si, deixando a boca descaída num esgar contido, bruto. Ainda não me saíram da pele.


How to design a Light, Design Museum


A light is a physical object, just as a chair is a physical object, the specifics of its design shaped variously by aesthetics, technology, materilas, engeneering anf function. But a light is not simply a three-dimensional form: it both occupies space and existis as a means of revealing and describing space. A light makes light, and light is a presence that can't be touched, although it is profoundly felt in an emotional sence.


Walden ou a vida nos bosques, Henry David Thoreau, Antígona (... este acho que já cá anda por casa...)


Quando escrevi as páginas que se seguem, ou melhor, a maioria delas, vivia sozinho, a mais de quilómetro e meio de qualquer vizinhança, numa casa que eu mesmo construíra à margem do lago Walden, em Concord, no Massachussets, e ganhava a vida apenas com o trabalho das minhas mãos. Aí vivi dois anos e dois meses. Actualmente regressei à civilização.

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A música é de Pedro Jóia que a toca com Ney Matogrosso - "Porta do silêncio"


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terça-feira, abril 21, 2015

Gente como nós



Clique, por favor, para ouvir

O que naufraga


[Sinais de Fernando Alves]


(...) o que é que vão fazer? Já sei que a resposta vai ser "lutar contra as máfias do tráfico de pessoas", que vivem à custa da exploração daquela pobre gente, com travessias de imenso risco. 

Até aí estamos todos de acordo. E depois? Está a Europa disponível para acolher no seu solo os muitos milhares de africanos que chegam às costas da Líbia (onde hoje não há Estado)? E quantos? E como os distribui? Ou será que se está apenas a aproveitar esta indignação para, através do pretexto da luta contra as máfias, tentar, afinal, evitar que os africanos entrem no continente europeu? Será que a Europa está disponível para dar uma solução de vida a essa gente? Ou será que apenas pretende um modelo como aquele que existe em Ceuta, com centenas de pessoas penduradas nas redes de metal que encerram a primeira praça da nossa expansão? Não será isso, lá no fundo, o "sonho" europeu?

A Europa tem de ter a coragem de dizer, alto e bom som, sem eufemismos, que não tem condições para receber milhares de cidadãos oriundos de Estados africanos (e outros) que se revelam incapazes de dar condições de vida decentes a essas pessoas. E tem de ter a frontalidade de dizer que, apesar dessa gente passar por lá fome, violência e imensas provações, não está disposta a abrir-lhes as suas portas. Mas tem de assumir isto, caramba! Andar com discursos piedosos a "fingir que faz" é de uma imensa hipocrisia política. 


O que a Europa podia fazer, e não faz, é promover políticas decentes e eficazes de cooperação para o desenvolvimento nos Estados emissores de emigrantes, que fossem estímulos para a fixação das populações. Basta consultar as conclusões das cimeiras entre a UE e os países africanos para se ter um completo e bem elaborado catálogo do que neles se proclamou, assinou e não se cumpriu.



[Excerto de 'Gente a sul da sorte' do blogue Duas ou Três Coisas do Embaixador Seixas da Costa]

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'Genocide' in the Mediterranean: ANOTHER migrant ship tragedy on Europe's shores as packed



 

'Genocide' in the Mediterranean: ANOTHER migrant ship tragedy on Europe's shores as packed boat washes up on Greek island - just hours after 900 died 'like rats in cages' off coast of Libya. Over 900 feared dead after boat overturned Libya in one of the worst maritime disasters since end of World War Two. At least three migrants killed when a vessel sailing from Turkey ran aground on the Greek holiday island of Rhodes Malta's. PM Joseph Muscat demands the EU tackle civil war in Libya that allows traffickers to operate with impunity. Compounded by rise of ISIS which has threatened to send 500,000 migrants to Europe as a 'psychological weapon' .'Genocide' charged as boat capsizes in Mediterranean (...)

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Another tragic day off the Italian coast: 400 migrants die, witnesses report


 

Tuesday (April 14, 2015) marked "another tragic day":http://www.euronews.com/2015/04/13/fr... off the coast of Italy. Migrants arriving in the port of Reggio Calabria, at Italy's southern tip, told the charity "Save the Children":https://www.savethechildren.net/ that some 400 people died when their boat capsized en route from Libya. Italy: Hundreds of migrants still missing off Lampedusa after latest boat tragedy


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Italy: Hundreds of migrants still missing off Lampedusa after latest boat tragedy




Dozens of bodies have been recovered from the Mediterranean Sea and brought ashore on Lampedusa after one of the worst tragedies involving African migrants trying to reach Europe. The mayor described the scenes on the quayside as "horrific, like a cemetery". Hundreds of people are missing after their boat sank about a kilometre from the Italian island. It is thought the boat capsized after migrants poured to one side of the vessel to escape a fire on board.

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Lampedusa: Way to Paradise or Hell for African migrants? 



As the turmoil of revolutions brought economic instability to many African countries, their citizens began to look across the sea, to Europe, for a chance to improve their lives. The Italian island of Lampedusa is often seen as “a gateway” to the EU paradise. Getting there, though, can be sheer hell. The journey is hard to arrange: it’s costly and travelers are at the mercy of boatmen, often unscrupulous traffickers. The waters are treacherous and have already claimed hundreds of lives. The authorities are determined to intercept would-be illegal immigrants before they can reach the EU border. Yet, in spite of all the hardship and danger, desperate African men and women continue to take their chances. Those who survive and reach the island for which they risked their lives, soon discover that, without papers or knowing the language, the future in a foreign country may be even more uncertain than in their own.

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Quem tem responsabilidades, directas ou indirectas, no estado insustentavelmente caótico a que chegaram os países de onde foge esta gente, gente como nós, que faça alguma coisa. E mesmo os que não têm qualquer responsabilidade que se unam para ajudar aqueles países de origem a ser um lugar bom para se viver, Não é humanamente suportável que se permita que tantos milhares de sonhos se afoguem no inferno da fronteira para o paraíso imaginado.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom dia.

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segunda-feira, abril 20, 2015

Umberto Eco rodeado de livros, signos e segredos








Rodeia-o a sua biblioteca. Está toda aqui.

Sobretudo aqui – perto de 30 mil volumes – mas também na minha casa de campo. E no meu escritório na universidade e num pequeno apartamento em Paris… Todos juntos devem ser à volta de 50 mil. (…)

Há por aí muita gente estúpida que quando entra no meu apartamento exclama: ‘Oh, tantos livros! Leu-os todos?'


O que responde?

Há três respostas. A primeira é: ‘Li muitos mais’. A segunda é: ‘Não li nenhum, senão porque os guardaria?’. E a terceira é: ‘Não, mas tenho de os ler na próxima semana’. Uma biblioteca não é um repositório dos livros que já lemos. É também o lugar onde guardamos os livros que iremos ler.


Então, tem a ver com o futuro?

Tem a ver com o futuro. Uma biblioteca é um mistério. Há livros que nunca tínhamos lido e um dia dizemos: ‘Deveria lê-lo’. E quando o abrimos percebemos que sabemos tudo sobre ele. O que aconteceu? Existe uma explicação mágica segundo a qual, ao tocarmos um livro, o espírito de todos os livros viaja para a nossa mente. Outra explicação é: pensávamos que não o tínhamos lido, mas ao longo de 30 anos fomo-lo abrindo e lendo partes dele. Existe ainda outra: pelo meio, acabámos por ler imensos livros que falam desse livro. É uma das surpresas que a biblioteca pode reservar. No meu caso, tenho muito boa memória. Sei onde está cada livro, mas se alguém da família encontrar um que deixei num determinado sítio e o mudar de lugar é uma tragédia. Perco-o para sempre.

(...)


Porque tem tantos livros sobre ocultismo?

Sou fascinado por eles, mais do que por livros 'sérios'. Peguemos num autor como Athanasius Kircher, um jesuíta do século XVII que escreveu imensos livros sobre todos os assuntos. À excepção do primeiro, muito difícil de encontrar, tenho-os todos. São livros maravilhosamente ilustrados, porque falam de coisas que o autor nunca viu e teve de inventar. As mentiras são mais fascinantes do que a verdade. A 'Ilíada' é mais atraente do que uma reportagem no Iraque. Não é por acaso que me dediquei à semiótica, a teoria e filosofia dos signos. O que torna os signos interessantes não é servirem para dizer a verdade, mas poderem ser usados para mentir ou falar de coisas que nunca vimos. Uma linguagem revela a sua importância quando é usada para referir coisas que não estão lá. Na minha colecção não vai encontrar Galileu, mas sim Ptolomeu, porque estava errado.

(...)

'A harmonia não está na extensão do fôlego, mas na regularidade com que se respira'. Num texto o ritmo é essencial?

Respirar é essencial. Ler o texto, lê-lo em voz alta, muitas vezes, para controlar o ritmo. O ritmo muda de livro para livro. Os meus romances anteriores, de 500 páginas, são como sinfonias de Mahler, enquanto este último, 'Número Zero', é como o jazz. Por vezes digo aos meus tradutores: 'Estás a explicar demasiado e a perder o ritmo'.

(...)


[Excertos de uma entrevista de Luciana Leiderfarb a Umberto Eco, publicada na revista E do Expresso de sábado passado]

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Já agora,

Signs & Secrets: The Worlds of Umberto Eco



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Para quem consiga tempo:

The Library as a Model for Culture: Preserving, Filtering, Deleting & Recovering


 This is a lecture by renowned Italian author and scholar Umberto Eco, which he delivered at the Yale University Art Gallery on Friday, Oct. 18, 2013.




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A música lá é Pure & Simple - John Taylor

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Permitam que vos convide a descer até ao post a seguir para verem como as flores e as árvores estão em festa in heaven. 

Mais abaixo ainda mostro alguns rostos das ruas de Lisboa. Tudo ao som de Sara Serpa.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira. 
E que estes dias sejam dias de paz, harmonia, afecto. 
E saúde (e dinheiro para os trocos, claro).

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As flores e os frutos in heaven


Tarde de primavera no campo. As cores, as flores, os odores, a exuberância da natureza, a fertilidade da terra, os frutos que começam a ganhar corpo, tudo me parece ter uma existência transcendente. Não interfiro em nada, nada tem sido regado, cortado ou tratado, tudo existe por si, na sua imensa sabedoria, reproduzindo-se, renascendo, com um vigor feliz.

Logo à chegada, uma surpresa muito boa: uma nova ave do paraíso, indecente no seu colorido intenso, já tinha chegado. Ainda lá estava a sombra da do ano passado e eis que a nova já se ergue, tremendamente vaidosa.







E as flores estão por todo o lado, na terra, rodeando os caminhos, tombando dos canteiros, muito belas, cores alegres, puras.






E os pinheiros estão cheirosos, enormes, esgueirados, carregados de pinhas, verdadeiros cachos de pinhas. Serão preciosas para a salamandra e para a lareira quando vier o tempo frio.




Ainda não há muito o meu pai plantou este pinheiro aqui abaixo, teria um palmo. E agora já quer rivalizar com os montes ao longe, um adolescente espigado.




E junto das laranjeiras há um perfume intenso, doce, e não tarda as pequenas laranjas começarão a crescer e ganhar cor.




As nêsperas estão ainda bebés, com penugem, mas não tarda terão as cores do sol e o açúcar todo da terra.



Claro que me dá vontade de me virar para as pinturas, tentar passar para as telas as cores, a doçura, o calor bom que vem de dentro da terra. Mas o tempo não deu. Limitei-me a olhar para a mesa dos materiais e pensar que tenho que a arrumar - ou dar-lhe uso.




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A música é Vanguard - Sara Serpa & Ran Blake; e agradeço ao Leitor que me deu a conhecer este bom som.

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Descendo um pouco mais, do campo poderão circular em Lisboa.

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Lisboa, a bela - as faces da cidade e a realidade das coisas









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Sara Serpa e André Matos interpretam "A Realidade Das Coisas"



Letra de Alberto Caeiro, música de André Matos. Filmado em Villa Roma, Sintra

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domingo, abril 19, 2015

Assim dizia Wilde







  • Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.
  • A verdade raramente é pura e jamais é simples.
  • Não quero ir para o céu: nenhum dos meus amigos está lá.
  • Não sou jovem o suficiente para saber tudo.
  • Dinheiro é como adubo: só serve quando espalhado.
  • Desculpe-me, não reconheci você: eu mudei muito.
  • Ser natural é a mais difícil das poses.
  • É absurdo dividir as pessoas em boas e más. Elas são apenas encantadoras ou tediosas.
  • A única diferença que existe entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais.
  • Se for dizer a verdade aos outros, faça-os rir, do contrário eles o matarão.
  • Quando me acontece pensar à noite em meus defeitos, adormeço imediatamente.
  • Adoro os prazeres simples. Eles são o último refúgio dos homens complicados.
  • A vantagem de brincar com fogo é aprender a não se queimar.
  • Tenho gostos extremamente simples: só o melhor me satisfaz.
  • Às vezes podemos passar anos sem realmente viver, e de repente toda a nossa vida se concentra em um só instante.
  • Convém ser moderado em tudo, até na moderação.
  • Dêem-me o supérfluo, pois o necessário qualquer um pode ter.
  • A melhor maneira de livrar-se da tentação é ceder a ela.
  • Nada pode curar a alma, excepto os sentidos.
  • Para a maioria de nós, a verdadeira vida é a que não levamos.
  • É muito difícil não ser injusto com quem amamos.
  • Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que devo estar enganado.
  • Só podemos dar uma opinião imparcial sobre as coisas que não nos interessam; sem dúvida, por isso mesmo, as opiniões imparciais carecem de valor.
  • As desventuras são suportáveis porque vêm de fora, são meros acidentes. É no sofrimento causado pelas nossas próprias faltas que sentimos a ferroada da vida.
  • Quando a pessoa está apaixonada, começa por enganar a si mesma e acaba enganando os outros. Isso é o que o mundo chama de romance.
  • O que nos absolve é a confissão, não o padre.
  • A educação é algo admirável, mas é bom recordar que nada que valha a pena saber pode ser ensinado.
  • Amar a si mesmo é o começo de um romance que vai durar a vida inteira.
  • A cada boa impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular, é preciso ser medíocre.
  • O pessimista é aquele que reclama do barulho quando a oportunidade bate à porta.
  • A ilusão é o primeiro dos prazeres.
  • Qualquer um pode ter empatia com o sofrimento de um amigo. É simpatizar com o sucesso dele que exige uma natureza delicada.
  • Ela se comporta como se fosse bela. Esse é o segredo do seu encanto.
  • A sensação mais agradável do mundo é fazer uma boa acção anonimamente e ela ser descoberta.
  • Dê uma máscara ao homem e ele dirá a verdade.
  • Cada um de nós é seu próprio demónio e faz deste mundo um inferno.
  • A arte nunca deve tentar ser popular. O público é que deve tentar ser artístico.
  • A vida é apenas um tempinho horroroso cheio de momentos deliciosos.

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Publicado no Brasil pela editora Sextante, “Oscar Wilde Para Inquietos” é um pequeno manual que reúne 99 aforismos do dramaturgo, escritor e poeta irlandês. 




Filho de um médico e de uma escritora, Oscar Wilde nasceu em Dublin, Irlanda, em 16 de outubro de 1854. Adepto do esteticismo — arte pela arte —, suas principais obras são o romance “O Retrato de Dorian Gray”, considerado uma das obras-primas da literatura inglesa, e a peça “A Importância de ser Prudente”, que reúne alguns dos melhores aforismos de Wilde e faz uma contraposição a ideologia da sociedade vitoriana.

Por sua homossexualidade, Oscar Wilde foi alvo de um célebre processo — “por cometer atos imorais com diversos rapazes” — que o levou a cumprir dois anos de prisão com trabalhos forçados entre 1895 e 1897. Durante o cárcere, o autor de “O Príncipe Feliz”, “O Rouxinol e a Rosa” e “Salomé” escreveu algumas das obras que ajudaria a imortaliza-lo, entre elas, “De Profundis”, uma longa carta de recriminações a seu ex-amante, na qual Wilde explica sua conduta sem tentar defendê-la; o ensaio anarquista “A Alma do Homem sob o Socialismo”; e a célebre “Balada do Cárcere de Reading”, revelando as condições inumanas da vida na prisão.

Depois de ser libertado, Oscar Wilde foi morar na França e adotou o pseudônimo de Sebastian Melmoth. Passou seus últimos anos de vida em Paris. Morreu em dia 30 de novembro de 1900, vitimado por uma meningite, agravada pelo álcool e pela sífilis.




Este texto e os aforismos que escolhi de entre os 99 foram extraídos do artigo da Bula que, uma vez mais, me foi dada a conhecer por Leitor a quem volto a agradecer.

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E, a propósito de Wilde:

The Harlot's House de Oscar Wilde (lido por Tom O'Bedlam)



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"The Arrest of Oscar Wilde at the Cadogan Hotel" de John Betjeman (lido por Tom O'Bedlam)

 

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E, ainda. Wilde.



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Permitam que vos informe: no post seguinte poderão assistir a situações divertidas, algumas das quais poderão ser replicadas em casa.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.