Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, dezembro 13, 2017

Raríssimas, mordomias e assessorias.
E, ao que me dizem, um grave défice de gestão.
E o drama das famílias em que há uma raríssima.




Ora, então, muito bem. Vamos lá a ver.

Conheço uma pessoa que tem muitos netos, um dos quais com uma doença raríssima. Nunca antes ele tinha ouvido falar de tal doença. Ninguém na família o tinha. Eu também nunca tinha ouvido falar. A criança tem muitas e severas limitações. Uma raríssima. E isto passa-se numa família de muitas posses. Read my lips: muitas posses. (O infortúnio, quando bate à porta, não anda a ver as contas bancárias de quem lá mora).

Ouço-o falar e fico admirada e, confesso, emocionada. Admirada de surpresa pois tudo o que rodeia aquela deficiência é muito estranho e, sobretudo, admirada pela forma contida e digna como ele me fala do assunto. Não há, nas suas palavras, vestígios de comiseração nem há qualquer tentativa para dourar a pílula. A deficiência é má para a criança e má para a família e, por diversos motivos, vivem permanentemente sobre o fio da navalha. 

Pergunto como é a ligação da criança aos irmãos, de como é o dia a dia. Ele responde com desarmante franqueza. É tudo muito difícil para todos. Muito, muito difícil. E não vai melhorar.

A criança anda parte do dia na escola pública. A escola tem apoios e ele diz que são excelentes. E diz, com reconhecimento, que é notável o esforço financeiro que o Estado faz. A seguir a criança vai para um centro de tratamento especial. Lá, conta-me ele, funciona uma residência pois há famílias que não têm como ter um filho tão deficiente em casa, têm que lá o deixar. Ouço isto e fico impressionada. Ele diz-me: 'Não faz ideia da gravidade extrema de algumas situações e do sofrimento daquelas famílias'

Apesar de tudo, apesar de poderem levar e ir buscar a criança a meio do dia (coisa que muitas famílias não podem, diz-me ele), e apesar de, por isso, a criança poder andar parte do dia na escola pública, gastam mais de dois mil euros por mês com ele entre aulas especiais e tratamentos. Ele diz: podem, está a perceber?, podem. E conclui com uma dúvida: E os que não podem? Emociona-se também. Diz que não consegue sequer imaginar o que é a vida de uma família a quem acontece um acidente destes, de uma raríssima, não tendo condições para fazer face às inúmeras despesas que são inevitáveis.

Para tentar ajudar, contribui generosamente para a associação. 

E diz que a filha, uma jovem corajosa e talentosa, com um emprego muito bom e no qual iria, certamente, progredir, se desempregou para trabalhar lá (pro bono). Diz que a gestão daquelas coisas é miserável. Recebem donativos e subsídios mas a gestão é péssima. Conta-me. Diz que a filha se vê e deseja para tentar pôr alguma ordem naquilo. Diz que as famílias precisam tanto, tanto, tanto de apoio e que aquilo é tão pessimamente gerido. Volta a acrescentar: a minha filha faz isso porque pode. A maior parte das pessoas não pode. Não podem e precisam de apoio e têm que trabalhar muito para conseguirem fazer face a tantas necessidades. 

E conclui ele: devia ser o Estado a cobrir todas estas necessidades pois as famílias não podem e estas associações desperdiçam tanto do que recebem, são tão mal geridas. E eu, ouvindo-o, penso que tem razão, penso que essa é a função do Estado: acolher todos, especialmente os que mais necessitam. Escolas, lares, apoios. Do Estado. Acabar com a cultura dos subsídios a instituições que, depois, tantas vezes, não fazem deles bom uso.

Não falo de deslizes ou de abusos, quando falo das raríssimas. De falatório (talvez justo) está a bloga e as redes sociais cheias. Eu não sei mais do que leio ou vejo na televisão e nunca se sabe se toda a história é dita ou bem descrita. Por isso, deste caso particular que se investigue. O que falo é da situação em geral. Não me parece que faça sentido que as famílias que sofrem na pele as dificuldades de um familiar deficiente tenham que andar a puxar pela imaginação para angariarem fundos ou que os donativos e subsídios vão parar a instituições em que, em vez de gestão, há puro amadorismo e, por consequência, descontrolo ou uso deslumbrado. É ao Estado que incumbe a responsabilidade de acolher os que não podem garantir a sua subsistência e autonomia. E tenho cá para mim que, essa mudança de paradigma não ia sair mais caro ao Estado do que a situação actual. 

Tirando isso, também acho que já vai sendo tempo de acabarem as prendas e prebendas de assessorias e tretas que tais que mais não são do que a manutenção de uma certa parasitagem que, nos tempos que correm, já não devia existir. (Na verdade, enojam-me os parasitas do circuito do filet mignon.)


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E, caso vos apeteça conhecer os primeiros votos natalícios da vossa Sta. UJM, queiram descer até ao post que se segue.

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Come on people and have yourselves a ball
Peace and love for all
Merry Christmas everyone.



Levantei-me alta noite, saí de casa ainda noite, fiz-me à estrada de noite, depois, já a caminho, começou a madrugar, um frio dos beleleu, a espaços os campos meio branquelinhos, o carro a avisar que cuidado, gelo na estrada. Depois meetings, almoçaradas, etc e tal, e, compromissos cumpridos, de novo mais umas centenas de quilómetros. Felizmente, conversa agradável, nem se dá pelas horas de caminho.


De regresso, já noite, fisioterapia com ela que o ombro ainda não anda grande coisa. Não se dá por ela porque ando em contenção, mas não é sistema. Sobretudo, é coisa boa estar ali no gabinete, na maca, sossegada da vida, uns ricoletozinhos picotados pikaki-pikaki (tens, ondas curtas) umas formiguinhas electrónicas, e mais um laserzinho, e eu ali, descansada, mais a dormir que acordada. Depois massagem e movimentação, puxar, rodar, levantar. Dói um pouco mas tanto o sono e tal o estado de descontração que me mantenho quase a dormir. Ela pergunta: 'Dói?' e eu mal consigo responder: 'Dói um bocado mas não faz mal'. No fim gelo. Ela vem a medo: 'Agora a maldade... com este frio...' e eu: 'Ponha, não me custa, até gosto' e, então, é que fico mesmo quase pregada no sono.

E amanhã, outra vez, madrugar -- e vai ser programa corrido a acabar com um jantar de natal. Ainda falta algum tempo para a o menino aparecer nas palhinhas e o Santa Claus descer pela chaminé mas tantas as cenas e tão reservados estão todos os espaços que a malta tem que se organizar cedo e ir distribuindo os festejos ao longo do mês.

Mas isto para dizer que ando para conseguir tratar de uns assuntos antes de ir trabalhar e... não consigo. Sempre mil coisecas circunspectas a meterem-se no caminho. Ontem à hora de almoço, numa tremenda ginástica, lá consegui tratar de mais uns quantos cadeaux, mas ainda não está tudo. E o meu marido já começou a querer que eu me sintonize com os comes do dia e, por vontade dele, íamos já ao supermercado aviar a coisa. Mas eu ainda não estou aí.

Com isto, não é que o esspírito natalício ainda não tenha descido em mim: desceu. E até já há um pai natal barbudo e com óculos do lado de fora da porta e um outro, a pilhas, que trepa por uma corda pendurada no hall. E uma árvore de natal que é um cone encarnado e à volta do qual piscam 60 nano-lâmpadas. Tudo no chinês. E mais coisas. E, para que saibam, até umas cuecas artísticas do mais natalício que há eu trouxe. Vi e pasmei. Depois o meu marido disse: 'Todas as mulheres que passam por elas, vão ver melhor'. Trouxe-as. 1,5 €. Fantastiques. Até pom-pons têm dos lados. 

Bem. Adiante.
(Que isto não são minudências que devam figurar num blog tão erudito). 
Agora mais a sério. A ver se um dia fotografo os enfeites de Natal. Quem sabe se até as cuecas
(mas num dia em que não as traga vestidas, bem entendido, que não tenho o traquejo do Marcelo, não me ajeito com selfies).
Mas não era disto que eu queria falar. Queria era falar daquilo das Raríssimas mas como é tema em que quero pegar com pinças e ainda não sei por onde, ando para aqui a procrastinar. Isto do natal é mais pretexto que outra coisa que eu, na verdade, é mais bolos. 
Bolos e chamuças. Hoje papei duas. Deliciosas. Quando me apanho com pitéus à frente, decreto que é dia da asneira. Nem me tenho pesado para não sofrer. Contudo, ainda estou no 40. Pretty girl. Resta saber até quando.
Mas, pronto, dizia que isto do natal é para encher enquanto me organizo mentalmente.

Não... Não é nada... É mesmo coisa do coração. E, para o provar, aqui estão, derramados ao longo do post, os meus votos. Trouxe-os em forma de gif que votos natalícios que se prezem devem vir com animação qb. Não se gastam. Duram até ao natal. Podem sempre aqui voltar que voltarão inexoravelmente a sentir o espírito de noël a descer por vocês abaixo (a descer ou a subir, tanto faz, só que, se for a subir é subir por vocês acima -- porque, sendo o christmas uma época de excessos, todos os pleonasmos devem ser wellcome).


E bora lá todos ensaiar a coreografia aqui abaixo. Pena que apareça aquele senhor tão estranho e com aquela boca tão desconcertante. Mas vá, a gente faz de conta que não o vê. Bora lá dançar.

(...)
Well let's all unite and share in this delight..
Christmas is a time to celebrate.. 

So get yourself together for Christmas weather 
and let the candle light the way
hey we're gonna share a lot of festive huggin'
yeah we're gonna post a lot of yuletide lovin'
there won't be any tears if we all open up our hearts..
(...)


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Votos da Santa UJM para todos os Leitores:

Curtir a cena.
And be happy. 

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terça-feira, dezembro 12, 2017

Estejam à vontade, troquem-me as voltas que eu gosto




Já o disse, não disse? Na beleza eu gosto de uma pitada de insólito, na perfeição eu gosto de encontrar um grão de imperfeição, na harmonia eu gosto de perceber a fractura possível.
Em mim, eu gosto de sentir a vontade para, quando menos se esperar, ser capaz de me portar mal. 
E em si, Caro Leitor, gostaria de lhe sentir a vontade de que eu, a despropósio, fosse capaz de coisas verdadeiramente escaroladas. Mas, pronto, se não for esse o caso, não faz mal. Como diria a grafómana mais criativa do espaço virtual, gosto de vocês na mesma.
Mas vá. Por exemplo. E estou a falar mesmo a sério. No outro dia tive vontade de arranjar um mé-mé de louça ou de cimento para o colocar no meio do meu petit bois. O meu marido não me deu ouvidos. Mas, vocês escrevam: tenho a certeza que ainda hei-de tratar disso. Será uma coisa tão disparatada que mal vejo a hora de ir a passear com os meus filhos, por entre os cedros e pinheiros, o chão atapetado de caruma, os caminhos ladeados por alecrim e madressilva e, de repente, um ingénuo carneirinho de faz-de-conta ali no meio. Imagino o escândalo!  
Mãe!!!! O que é isto?!?!?! Pai!!! Como é que deixaste?!?!?!
Ainda estão na idade de quererem compreender tudo e, claro, um mé-mé naturalista, de cimento, no meio da natureza mais pura não faz qualquer sentido. É que eles terão que adquirir mais alguma maturidade para perceberem que, no inusitado e inexplicável, residirá a graça da ovelhinha. Mas os pimentinhas de certeza que hão-de adorar não lhes ocorrendo a descodificação da opção. A lógica por vezes não é facilmente desvendável, mas eles ainda têm as mentes suficientemente abertas para aceitar sem racionalizar.


Ah, sim, a propósito. Ainda não vos contei.

Há pouco tempo, o vizinho que, lá mais para baixo, tem vacas e rebanhos contou que arranjou uma burra para ela o ajudar a guardar as ovelhas, protegendo-as das raposas. Isto já vos contei. Na altura fiquei estupefacta: raposas por ali...? Sim, sim. Raposas. Só não sei se ruivas se prateadas. Terei que perguntar. 

Pois bem. Agora mais novidades. Contava ele que os cães, pela noite, ladravam, ladravam. Ele e os restantes habitantes do casal (nome que dão ao aglomerado de casas a que eu chamaria quinta) intrigados com aquilo. Levantavam-se e ouviam como que uma correria. E já não viam nada. Até que descobriram: javalis. Javalis correndo estrada abaixo. Diz ele: vêm da serra, vão beber água ao rio. E diz que, pelas pegadas, comprovam que são bichos grandes. Está espantado, ele. E eu ainda mais. Javalis...? Como é que é possível? Que mais ainda vamos nós descobrir que por lá anda...? O urso pardo, afinal não extinto...? Imagine-se que, um belo dia, me aventuro a espreitar para dentro da gruta e me sai de lá o último exemplar do urso-pardo...


Bem. 

E já no outro dia disse: ali tudo aparece. Já mil vezes o contei: era um terreno pedregoso de mato rasteiro e é agora um bosque frondoso. Passarada que só ouvida. Coelhos. Gatos. Por lá perto (espero que não lá dentro), agora raposas e javalis. E um dia. Escrevam. Um dia, um rio. Um dia veremos uma nascente. Depois um regato, depois o regatinho engrossando, virando um ribeiro a querer fazer-se rio. Depois os peixes. Talvez a seguir cheguem os patos.

Uma vez plantei um chorão. Não se deu, precisa de muita água. Pois talvez um dia, à beira do rio que vai nascer lá, nasça também um belo chorão com as delicadas ramagens mergulhadas nas águas. E depois virão as elegantes garças brancas. 

Nessa altura deverei deixar crescer o meu cabelo até bem abaixo da linha da cintura para, quando andar por lá a passear toda nua, poder minimamente condizer com o luxuriante da paisagem. Claro que levarei atrás de mim, voando, umas vinte de borboletas exóticas mas, ainda assim, acho que precisarei de algo mais para não destoar naquele deslumbrante paraíso. Talvez fique bem o meu marido a tocar uma harpa portátil.  E, se estás a ler isto, baby, não te arrelies até porque uma harpa portátil não vai ser difícil de transportar. Pior será o muito que vais ter que aprender para te fazeres um emérito harpista que atraia ainda mais aves canoras e quiçá, também, trovadores.



E que entrem agora os destoantes virtuosos
-- e, atenção, este vídeo é mesmo para ser visto até ao fim.
OK?



E agora tu, Bobby, põe-nos a cantar: mostra o poder da escala pentatónica na criação do espontâneo coro universal.


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Lá em cima, a interpretar a Sonata para Piano, No 13, D 664. 3rd Movement de Schubert, Radu Lupu.

E aqui em baixo, o fantástico Encore / L'Arpeggiata: Soprano - Nuria Rial; Mezzo-soprano - Giuseppina Bridelli; Male alto - Vincenzo Capezzuto; Countertenor - Jakub Józef Orliński; Ensemble - L'Arpeggiata / Christina Pluhar

E a seguir Bobby McFerrin demonstrates the power of the pentatonic scale, using audience participation, at the event "Notes & Neurons: In Search of the Common Chorus".

As fotografias mostram flores congeladas (em água gelada) e claro está que não têm nada a ver com o texto -- uma coisa na base do mé-mé de faz-de-conta a passear no meio dos cedros, não sei se estão a ver. É como o título... nada a ver.

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E, caso vos apeteça agora um toque de beleza breve, queirem descer um pouco mais.

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Beleza breve


Quando os beaux esprits se encontram, a gente sente que um sopro de felicidade passou por ali.

Nederlands Dans Theater (NDT) | Schubert 



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segunda-feira, dezembro 11, 2017

Como uma estrela explodindo, eterna e sem duração






Eu era fã dos Livros do Brasil. Aquela editora era um guião cultural para mim. Uns livros puxavam outros. Uns autores abriam-me a porta a outros. Quando ia à Feira do Livro era lá que a colheita era mais segura. 

Steinbeck veio, certamente, assim. E o que eu gostava daquela prosa crua. Livro após livro. Não sei se hoje, relendo, acharia o mesmo. Mas é o que guardo: uma escrita viril, palavras que me traziam a dureza, os sentimentos crus, uma rectidão que eu aprendia a respeitar, uma secura de prosa que continha a vida inteira lá dentro. 

Procuro na Paris Review. Não chegou a dar a entrevista que tinha em mente. Adiou, adiou até que se esgotou o tempo. O que leio são extractos, apontamentos, cartas.

Da introdução a essa resenha feita por Nathaniel Benchley em 1969, retiro isto: 

Há muito tempo, atribuiram-lhe uma citação segundo a qual o génio seria um rapazinho a perseguir uma borboleta por uma montanha acima. Mais tarde afirmou que o que dissera relmente fora que o génio é uma borboleta a perseguir um rapazinho montanha acima (ou uma montanha perseguindo uma borboleta por um rapazinho acima, não me lembro bem) e acho que, de muitos modos, se sentia incomodado por ter apanhado a sua borboleta tão cedo.
Acho extraordinárias estas definições e variações em torno do intangível conceito de 'génio'.

E agora a palavra a John Steinbeck:
O dever do escritor é elevar, ampliar, encorajar. Se a palavra escrita contribui alguma coisa para o desenvolvimento da nossa espécie e da nossa cultura em expansão, foi isto: a grande literatura foi um apoio a que recorrer, uma mãe a consultar, uma pedra de toque para identificar os tropeções da insensatez, uma força na fraqueza e uma injecção de coragem para a cobardia doentia.
(...)

Quando escrevo, às vezes sinto que estou muito próximo de uma espécie de inconsciência. Nessa altura, o tempo altera-se e os minutos desvanecem-se numa nuvem de tempo que é uma só, tem apenas uma duração. Já pensei que se fosse possível desligar a nossa preocupação com a duração, o tempo poderia não a ter. Nesse caso, toda a história e pré-história poderiam efectivamente ser um clarão sem duração, como uma estrela explodindo, eterna e sem duração.


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O discurso de Steinbeck ao ser agraciado com o Nobel em 1962



John Steinbeck, biografia de um escritor americano



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E, por falar em genialidade, lá em cima, numa gravação de 1932, Schnabel interpreta Beethoven Sonata 30 E Major 1st Mov Op 109 

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E caso não se importem de continuar no mesmo comprimento de onda, queiram, por favor, descer ao encontro do monge budista que engoliu um canário: Henry Miller.

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Um monge budista que engoliu um canário


Em 1962, para a Paris Review,  em Londres, George Wickes entrevistou Henry Miller que tinha, então, setenta anos. (Viveria até 1980).


Sobre ele escreveu, na altura, o entrevistador:
Aos setenta anos, Henry Miller lembra um monge budista que engoliu um canário. Transmite imediatamente a sensação de ser uma pessoa calorosa e bem disposta. Apesar da cabeça careca, rodeada de um halo de cabelos brancos, não há nada de velho nele. O seu corpo, surpreendentemente ligeiro, é o de um jovem; todos os seus gestos e movimentos são jovens. 
A sua voz é magicamente cativante, um baixo sonoro mas calmo, com grande alcance evariedade de modulação; Miller não pode ser tão inconsciente como parece do seu fascínio musical. Para perceber todo o sabor e honestidade do homem é preciso ouvir as gravações da sua voz.
Numa daquelas minhas coisas que não se explicam mas que estão comigo desde que nasci, teria eu uns catorze ou quinze anos, resolvi oferecer um livro aos meus pais, presumo que pelo Natal. 

Promenando por entre as estantes, o Sexus chamou a minha atenção. Folheei como sempre o fiz (e faço) e devo ter achado que era mesmo aquilo que era adequado para uma jovem púbere oferecer aos seus pais. Imagino a perplexidade deles ao receberem um presentão daqueles. Mas nunca se deram por achados, nem com isso nem com nada. O que sei é que o esconderam. Lá o descobri e li às escondidas. 

E o que também sei é que tudo o que lia me parecia natural. Tanta coisa tão cedo li que nunca nada me pareceu impróprio. Hoje posso dizer que muito do que sou, resulta, sem dúvida, de toda a incrível mescla que papei em menina e moça.

Depois desse livro, ainda li mais um ou outro dele mas, de repente, aqueles livros já não me traziam nada de novo. Talvez fosse jovem demais para perceber algumas subtilezas. Um destes dias hei-de tentar retomar o pulso àquela escrita. 

Há pouco, preguiçando aqui no meu sofá e continuando a leitura das entrevistas da Paris Review -- e lendo, em particular, a que acima referi -- apeteceu-me ir ouvir a voz de Henry Miller. 
Sou muito sensível ao timbre e a tonalidade das vozes, em especial das masculinas. Acontece-me desiludir-me de um homem apenas pela sua voz. Não sei se há explicação racional mas é assim mesmo. Exemplifico com um caso muito recente: há uma pessoa de quem tenho ouvido incontáveis e encomiásticas referências -- que é um furacão, que é super inteligente, que é corajoso, mesmo fisicamente corajoso. Pois bem: ouvi-o no outro dia e a minha expectativa, de imediato, caíu por terra. Uma voz frágil, uma voz que quer agradar. Um desapontamento

Portanto, Youtube com ela, à procura da voz de Henry Miller. Estou aqui há que tempos a ouvi-lo, há numerosas entrevistas, algumas conversas entre ele e Anaïs Nin. 


O texto seguinte refere-se ao vídeo que escolhi para aqui partilhar convosco:

Filmed when Henry Miller was 81 years old, Henry Miller: Asleep & Awake is an intimate documentary in which the author speaks about writing, sex, spirituality, and New York. 

The film opens in Miller's bathroom, a shrine covered with photos and drawings, where Miller graciously points out the highlights of his "gallery." 
His voice is raspy as he talks about philosophers, writers, painters, and friends. The unique and prolific life of a singular American artist are beautifully captured in this film.

Henry Miller: "Asleep and Awake" (aka. Bathroom Monologue) 1975



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domingo, dezembro 10, 2017

Keeping up with Marcelo
[The Kardashian' show is coming to town...?]
Oh Oh Oh






Em Portugal, digno sucessor das Kardashians, Marcelo Rebelo de Sousa está de grande. Dado o cargo que ocupa, com a comunicação social sempre à disposição e com a imaginação titilante que se lhe conhece, ele tem guião para 24 horas por dia à frente das câmaras.



Ele alerta para ..., ele apela a ..., ele envia recados a ..., ele distribui afecto a ..., ele visita os ..., ele pendura a roupa a ..., ele vai fazer a barba ao ..., ele ensina os ..., ele teme que ..., ele chama a atenção para ..., ele ouve as ..., ele abraça os ..., ele vai engraxar os sapatos a ..., ele dá beijinhos a ..., ele tira selfies com ..., ele explica o ..., ele antevê o ..., ele ri com ..., ele faz festinhas na cabeça de ..., ele serve a comida a ..., ele arruma os caixotes de..., ele está sempre pronto para ..., ele faz adeus a ... ..., ele entra no carro, ele sai do carro ..., ele faz muitos smiles ..., ele está sempre lá, ele está sempre nas nossas casas. Ele é... the only and only Mr. President, o único, o fantástico, o sempre acordado,  o sempre disponível, o ubíquo Marcelo. 


A Presidência transformada num reality show -- 24 hours with the President -- e nós seguindo-lhe os passos vinte e quatro horas por dia. Marcelo na Quinta, Marcelo e a Secret Story, Marcelo e o Desafio Final, Keeping up with Marcelo, Marcelo em Belém.



Não que sejamos mal agradecidos. Eu, pelo menos, não sou. Não mesmo. Fez-nos esquecer o Cavaco, introduziu algum cosmopolitismo na política (que se tinha enfiado num bueiro pafiento), trouxe de volta a Belém os bons modos, limpou o mau olhado da Dona Cavaca, deu um chega para lá no Láparo, afastou-se dos cães com pulgas que antes pululavam na política nacional. E isso é bom. Devemos-lhe isso. Não é coisa pouca. Obrigada, Prof. Marcelo. A sério.



Mas o pior é o resto. O pior é a dose, é a falta de foco, é a sensação que nos fica de que o que quer é 'canal', que tudo fará para manter a atenção das câmaras para que os seus passos, as suas 'bocas', os seus sorrisos e abraços estejam sempre, sempre, sempre a ser filmados, noticiados, comentados. Cria suspense dando a entender que vem aí o bicho mau, insinua temores para poder aparecer como profeta ou como candidato a salvador da pátria, deixa uns alertas para criar caso e alimentar primeiras páginas. E, a toda a hora, nos aparece: ora porque vai ver os sem-abrigos, ora porque vai ajudar no Banco Alimentar ou a feiras de Natal ou a barbeiros no Intendente ou a Lares de terceira idade ou a escolas de meninos, ou porque vai ver apagar fogos, apadrinhar cervejas, vai ver avionetas que caíram, vai ter com advogados, juízes, recebe professores, enfermeiros, médicos, responde a funcionários do infarmed e de onde calhe, vai apanhar a vacina da gripe, vai tomar banho à praia, vai aqui, ali, acolá -- mas tudo isso em contínuo e sempre com a comunicação social a dar notícia, muitas vezes, já nem se percebendo o propósito.


É demais. Acaba por desgastar a sua imagem junto dos portugueses mais exigentes e menos carentes. E dá argumentos ao Láparo que, em tempos de má memória, lhe chamou catavento. 


Dir-se-á que o target de Marcelo são, sobretudo, os desvalidos, os desempregados, os reformados, as domésticas, as dondocas solitárias: ou seja, sobretudo, a malta que está muito tempo em casa a ver televisão e que já está por tudo -- habituados a apresentadoras aos gritos, a ex-polícias armados em investigadores com pedigree, psicólogos de meia tigela, primas que não sabem dos tios, filhos que não se dão com as madrastas, patrões que não pagam a empregados, senhoras que ligaram demais para as linhas de valor acrescentado e que se admiram com a conta de telefone, ou seja, pobres coitados que já papam de tudo o que lhes apareça na televisão. Portanto, aparecer-lhes um presidente sempre sorridente a dar beijinhos, abracinhos e a fazer selfies a torto e a direito já parece coisa mais que normal. É uma companhia. É a Cristina Ferreira e o Goucha e os seus convidados, a Júlia Pinheiro e os seus entrevistados, o João Baião e os seus amigos, a Teresa Guilherme e as caras larocas da quinta e ... o Marcelo e os seus velhinhos desdentados que o babam com beijinhos e as suas senhoras mamalhudas que lhe dão apertados abracinhos.


Contudo, tirando esse público-alvo, depois da operação de limpeza que levou a cabo em Belém e depois do efeito surpresa junto do eleitorado, o que começa a sobrevir aos olhos dos portuguesas é o cansaço por tão omnipresente figura e algum feeling de que estamos a assistir a algo que começa a roçar o ridículo.


Inteligente como é, estou certa que Marcelo há-de perceber que, se quer continuar a merecer a aceitação de grande parte da população, deverá calibrar a sua actuação. A menos que seja mais forte que ele ou a menos que o novo assessor, o datado Zeca Mendonça, não o saiba demover, nem mesmo à canelada, estou certa que Marcelo se esforçará por não nos maçar mais do que a conta.



Daí que daqui lhe deixo um pensamento que deverá ter sempre em background e que os que lhe querem bem deveriam colar-lhe nos vidros do carro, no ecrã do computador, em post-its espalhados everywhere, em bilhetinhos deixados nos bolsos das calças e dos casacos: Less is more.













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Keeping up with the Kardashians




Keeping up with Marcelo -- alguns exemplos


Marcelo na Graciosa



Marcelo na Feira da Agricultura




Marcelo ao banho no 1º dia do ano



Marcelo 112



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Less is more, Mr. President. Do not forget.

Não queira ficar para a história como o membro português do clã Kardashian.

E olhe: quem avisa seu amigo é.

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sábado, dezembro 09, 2017

Um Rondino de Alma a acompanhar as levezas de Miyoko Shida com imagens feitas in heaven e devidamente lunapicadas





Só para dizer que hoje em casa estava mais frio do que lá fora. Agora, aqui nesta sala, já não. A madeira já crepita na salamandra. Podíamos acender a lareira na outra sala, na sala grande que fica a meio da casa, mas não vale a pena, só cá estamos os dois e, se não estamos na rua, estamos maioritariamente nesta saleta que dá para o sol e onde o calor da salamandra basta. Se cá estivesse mais gente e se tomássemos as refeições na sala de jantar, então, acender-se-ia também a lareira.

Lá fora, ao sol, está morno e húmido mas o céu está a toldar-se. Neste momento, está cá um senhor que veio pôr uma porta nova numa casinha. Pedimos-lhe sempre que faça os arranjos quando cá não estamos mas ele prefere vir quando tem companhia. Quero pedir-lhe que, proximamente, arranje uns canteiros que estão a rebentar tal o corpo que deitaram os cedros, mas o meu marido não está nada a favor, diz que isso 'é a maneira do gajo nunca mais de cá sair'. Mas têm que se arranjar.

Esta noite, dormi que foi um regalo. Acordei às dez e tal, à larga na cama, e ouvi logo o barulho da roçadora lá em baixo. Diz que se levantou às sete para dar cabo do mato. Até tremo. Com os óculos protectores postos ainda menos distingue o tojo do alecrim e ainda menos detecta pés de pinheiro que deveriam ser preservados. Paciência, não posso andar sempre atrás dele (nem ele quer). 


Quando fui ver, já ele tinha dado um desbaste considerável. Comprou um disco que esfarela o que corta e que, portanto, dispensa que se recolha o mato cortado pois fica tudo relativamente desfeito.

Cortou tanto que agora, apesar de ter umas luvas protectoras, tem uma bolha nas mãos.

Para o almoço fiz bacalhau com todos. Soube bem.

A minha mãe alertou para a tempestade Ana, diz que deveríamos sair hoje de cá para amanhã não a apanharmos pelo caminho. Não sei. Talvez. Está-se aqui tão bem que é pena não ficarmos para domingo.


O meu marido diz: 'Um dia que um gajo se reforme, aqui tem sempre que fazer'. Concordo: entre desbastar, cortar, limpar, serrar, varrer, arranjar, pintar, caminhar, fotografar, dormir uma sestinha, preparar as refeições, ler, escrever no blog, fazer tapetes de arraiolos, ir às compras, dar uma voltinha, etc, etc -- pouco tempo deve sobrar para usufruir de algum tédio que aflore. Ele diz: 'A deitares-te às horas a que te deitas, claro que tens que dormir a sesta'. O remoque do costume. Paciência: é o que é.  Nem toda a gente consegue ter o ritmo dele que é adormecer por volta das onze e tal e acordar antes das sete. Mas acrescento: 'E podemos ter uma hortazinha'. Ele responde: 'Não inventes'. Acrescento: 'E galinhas'. Mas depois lembro-me: 'Tinhas era que te instruir para conseguires matá-las quando fosse o caso'. Responde: Sim, sim. Vai esperando'. Ainda faltam uns quantos anos mas começa a bater esta vontadezinha de nos libertarmos das gaitas maçadoras de uma vida de trabalho de sol a sol -- a aturar toda a espécie de crises e a arcar com responsabilidades para as quais, muitas vezes, nem temos todos os meios para as resolvermos  -- para nos podermos entregar à simplicidade de uma vida saudável no campo.

Mas, enfim, vamos andando. É tudo uma questão de irmos conseguindo equilibrar as coisas.


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Já agora, a propósito na necessidade de mantermos o equilíbrio, permitam que partilhe convosco:

Miyoko Shida Rigolo e o seu notável exercício de equilíbrio



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As fotografias foram feitas hoje in heaven e foram alteradas no LunaPic, por influência da sempre inspirada Gina.

Como puderam ver e ouvir lá em cima, continuo com a extraordinária menina que compõe, toca violino e piano e canta como se fosse  gente grande e como se não houvesse amanhã: Rondino in Eb maj. composto por Alma Deutscher.

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A névoa branca, os enfeites naturais de noël e o calor bom da salamandra --
aqui, in heaven





Por vezes o grande portão está coberto de cachos de glicínias lilases, outras vezes está sob um tecto dourado de florzinhas amarelas das tipuanas que o ladeiam. Agora nada disso: agora está nu. Do lado de dentro, apenas se vêem as folhinhas que sobram nos choupos do outro lado da rua.

Os aloés arborescens começam a formar os seus foguetes de natal. Não tarda, estarão floridos, incandescentes. Já apontam ao céu a sua gloriosa erecção mas ainda ocultam a voluptuosidade rubra que ostententarão por altura das festas. Fotografá-los-ei de novo, nessa altura, como sempre faço, pois é uma forma de aqui ir assinalando a passagem do tempo. Vivemos em ciclos, adoráveis ciclos de nascimento, jubilosa primavera, matura idade com frutos carnudos, outonal suavidade, folhagens douradas, depois a invernal frialdade e, logo, de novo a primavera e tudo se repetindo -- mas inexoravelmente  caminhando na direcção da terra da qual nascemos e à qual todos regressamos.


Caminho. Feliz. Um casaco quente, um cachecol de lã. Muito frio. Uma névoa branca a envolver tudo. Os pássaros estão doidos de alegria. As árvores estão cheias deles. Não os vejo mas ouço-os e, ao contrário de outros dias em que, mal me sentem, logo partem numa revoada inquieta, hoje não, hoje continuam a cantar. Têm a inteligência de saber preservar o prazer do momento.

As árvores estão muito bonitas, muito verdes. Os troncos belíssimos. Ando em volta deles, encantada. A suave aragem, pesada de humidade, faz oscilar a pele seca que oscila, as ramagens que querem esvoaçar. Cheira a bosque em estado de imaculada pureza.


Não chove de forma evidente. Talvez tenha chovido de noite pois encontro algumas poças de água na qual se refecte o céu, as árvores, talvez o espíritos dos poetas invisíveis que aqui habitam. Deve ser esta fonte de vida que traz tanta alegria aos pássaros. Agora é apenas uma neblina que deixa a terra macia e os ramos gotejantes. Por onde passo, vou espreitando as gotas cristalinas que decoram os pinheiros de noël. Fotografo. Sei que um dia vai ser possível captar também os cheiros e divulgá-los como hoje se podem divulgar as imagens e os sons. É que apenas com essa outra dimensão conseguerei transmitir a sensação boa com que este meu pedaço de natureza me envolve.


Mas encontro mais decorações de christmas. Bolinhas encarnadas dispostas em arcos e grinaldas enchem o campo de espírito natalício. São as bagas da piracanta. Há-as em amarelo torrado e em encarnado. Tão bonitas.


Continuo a caminhar devagar. O canto dos pássaros pontua o silêncio. Tão bom este silêncio. Cobre-me os sentidos de paz. Esqueço-me do que não gosto. O mundo, nestes momentos, é, para mim, todo assim: um lugar de paz, de silêncio, um refúgio de aves cantoras.

A terra está fofa. A folhagem e a caruma estão húmidas. O campo está verde e pleno de vida. As bagas outonais que guardam ainda as cores dos bem recentes dias de calor vão-se tingindo de púrpura. Não tarda -- com os crescentes frios, com as vindouras chuvas -- apenas os verdes, os quase azuis, os cinzas e brancos das rochas, ocuparão o espaço. Oa pássaros abrigar-se-ão, então, nas copas mais densas.


A entrada das grutas, em especial a da gruta grande, estão cobertas de heras. Lá dentro deve estar a temperatura adequada aos abrigos e, imagino, lá dentro os coelhos, talvez os gatos se aninhem, protegendo-se dos maiores frios. Talvez raposas. Nunca vi nenhuma mas, como já contei, o vizinho diz que, por aqui, as há.


À medida que vou andando, vou reparando que aqui tudo está mais coberto de gotas de água, como se uma nuvem tivesse descido e as plantas e eu estivessemos agora respirando a chuva, dentro da bolha de tule branco que parece ter descido sobre estes caminhos.

E uma surpresa: de sob uma rocha está a nascer um feto. Não sei como foi ali parar. Surpreendo-me com a transformação que se tem gerado neste pedaço de terra, antes árido e pedregoso e agora assim, frondoso, fértil. Talvez um dia aqui nasça um rio e se forme um lago. Talvez depois, também, espontaneamente, apareçam peixes.

Uma vez, num pequeno tanque, apareceu uma rã. Não sei de onde veio e não sei que magia é esta.


Só as laranjeiras estão tristes. Têm laranjas, sim, e laranjas bem doces, mas as folhas estão fracas, amareladas. Algumas parece terem entrado em declínio. Isso entristece-me. Penso que foi dos calores extremos de verão. Aqui nada é tratado, tudo é genuíno. Mas talvez devessemos acautelar as fragilidades das árvores de fruto.

Gosto das cores e dos sabores das laranjas, gosto do odor crítico que por aqui paira e gosto da delicadeza dos perfumes das flores das laranjeiras. Não quero pensar que poderei perder esta parcela de prazer.


Para o jantar fiz frango no forno. Estava muito bom. Aqueci ao máximo o forno antes de introduir o tabuleiro. Cá fora, entretanto, preparei-o: um fio de azeite no fundo, salpicos de sal, folhas frescas de louro, depois a metade do frango. Por cima, mais umas pedras de sal, alhos laminados, mais louro fresco e ramos de alecrim acabado de colher. Reguei com mais um fio de azeite. Quando introduzi o tabuleiro, baixei para 160º e, logo que vi o frango alourado, baixei para 100º. Depois de pronto, ainda ficou no forno, mas agora a 60º. Deve ter estado, ao todo, umas três horas. Estava saboroso, ultra macio, suculento. Acompanhei com legumes que cozi: uma cebola, uma batata doce, uma cenoura, uma mão cheia de feijão verde. Para sobremesa, dióspiro a rebentar de madureza e doçura. Comprei a fruta na senhora que tem uma tenda à beira da estrada.

Agora estou na sala, a salamandra ao rubro, um calorzinho muito bom. A lenha e as pinhas são de cá. Há alguns anos que não precisamos de comprar lenha. Alguns troncos trazem um perfume doce e bom que, com o fogo, se converte em bem-estar e memória. Está-se muito bem aqui. O sono começa a chegar-me mas está a vir devagarinho e eu gosto de lhe sentir essa subtileza. Tão bom.


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  • Fotografias de hoje, in heaven
  • Lá em cima: Slow movement from Alma Deutscher's new Piano Concerto. This is the 2nd (slow) movement from Alma's new piano concerto, which she premiered this summer in Austria with the Vienna Chamber Orchestra.
Alma Deutscher: piano concerto in E-flat major (composed 2017)
2nd movement: Adagio
Vienna Chamber Orchestra, Joji Hattori conductor.
Alma Deutscher, Piano
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