O Blogue da moda: actualidade, artes, literatura, jardinagem, família e muitas outras coisas

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sexta-feira, maio 22, 2015

A menina agressora, o menino assassino, o polícia mau, as famílias gatunas - pequenos espelhos que, em parte, reflectem os tempos que atravessamos nesta sociedade que parece estar a desestruturar-se


Vá lá, vamos lá. Este é o meu terceiro post desta noite e vinha com isto em carteira mas, vá lá perceber-se como funciona isto da mente, que me deu para tentar afastar este assunto dos dedos e pôr-me com frioleiras, rebaldarias e vestes descaradas.
Abaixo poderão ver um Papa que quer uma decoração clean, em tons nude, lá na igreja e um pintor inspirado que desperta pensamentos indevidos no Papa. E, mais abaixo, tenho o anúncio mais recheado de erotismo dos últimos tempos pelo que recomendo que as almas mais sensíveis se aproximem de óculos escuros e que as senhoras mais dadas ao pudor desçam um recatado véu sobre o olhar.
Mas, enfim, isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa fia mais fino.




Espelho no espelho




Se o ano começa com mulheres a serem assassinadas de qualquer maneira, a tiro, à facada -- e outras vezes não são mulheres, são vizinhos, amigos -- a gente assusta-se e pensa que isto parece ser uma tendência em crescendo.  E pensa que é o desemprego, o álcool, factores que tiram os homens se si próprios.

Mas depois há as violações, padrastos e pais que engravidam filhas pequenas, e mães que levam as filhas menores a prostituírem-se e pensa que desgraças assim sempre as houve, agora é que se sabe mais.

E há os padrastos e pais e mães que agridem filhos menores, bebés até, e que de tal forma é a violência que as crianças morrem e já nos estamos a interrogar sobre que gente é esta, gente desalmada que faz sofrer e mata aqueles que tanto devia amar. Tentamos encontrar explicações para cada caso, talvez sejam vidas desestruturadas, droga, carências absolutas, casas onde os valores mais básicos já desapareceram, onde as pessoas já são pouco mais que animais acossados.

E depois são também os programas de televisão, aquela torpe exploração básica de sentimentos que resultam da troça, da humilhação, mesmo que as vítimas sejam adolescentes que depois ficam fechados em casa, incapazes de conviver com a vergonha pública.

E logo de seguida chega-nos um vídeo que mostra um rapazinho a ser passivamente esbofeteado por colegas enquanto os outros riem e filmam -- e o tempo passa e ele não se mexe, espera que o agridam e a miúda agride-o e ri; e depois vejo na televisão o miúdo de costas num quarto muito pobre e fico ainda mais triste porque tudo isto é muito mau, muito incompreensível e triste.

E logo depois é um outro rapazinho, franzino, problemático,  que mata à pancada um outro e que arrasta o corpo ensanguentado e o esconde e, ao que parece, se passeia com o casaco ensanguentado da vítima.

E, ainda em choque com isto, chegam-me ecos a mensagem da mãe, no facebook, a gritar que mais valia que o filho tivesse sido o que foi morto. Depois arrependeu-se, disse. Mas o grito de rejeição de mãe por esta cria que tem andado de casa de acolhimento em casa de acolhimento ficou a sangrar no meu coração e talvez no de todos que leram uma tal grito.

E ainda mal refeitos, logo nos chegam imagens de um polícia tresloucado a agredir num homem pacífico que está com o pai e com os filhos, e o pai, de idade, também foi agredido e os miúdos choraram de medo.

E na festa de Lisboa a coisa deu em violência, uma batalha campal, agressões a polícias, e em Guimarães gente normal, famílias normais, destruíram instalações e tornaram-se vulgares gatunos que tudo roubaram à passagem.

E perante tantos episódios tão aberrantes e tão frequentes eu não consigo virar-me para um dos agressores em concreto, não consigo concentrar nele, apenas nele, a minha rejeição.

E dou até por mim olhando-me ao espelho da minha consciência e interrogando-me:
Podia seu eu a estar ali, com as câmaras a filmarem, a roubar uma loja como se de uma vulgar ladra eu me tratasse? Aquelas pessoas parecem tão normais. 
Poderia eu, num momento de desnorte, desatar a agredir uma outra pessoa mesmo perante o olhar assustado dos filhos? Aquele polícia parece tão normal, até ia receber um louvor. 
Poderia eu, num momento de desatino, estando sem dormir, sem dinheiro, sem futuro, sacar de uma faca e desatar a golpear a pessoa que amo? De quase todas as pessoas que o fizeram, disseram amigos e família que nunca suspeitaram de demência ou distúrbio grave. 
Se calhar podia. Se calhar se a vida me golpeasse fundo, me desamparasse, se eu estivesse sem trabalho, sem ter como alimentar filhos, sem esperança em nada, talvez eu pudesse deixar de ser eu e tornar-me um monstro, uma ladra, uma demente. Como então culpar cada uma destas pessoas sem lhes conhecer a vida? E como não ver que não é uma pessoa a fazer mal mas, sim, muitas, muitas, cada uma à sua maneira?

As televisões e os jornais exploram ad nauseum as imagens de violência e eu acho mal porque não há nada pior do que a banalização do mal e porque, ao olharmos para um caso em particular, descuramos o olhar panorâmico e não percebemos que o mal é geral, é profundo, que algo se passa na nossa sociedade, que os laços ancestrais de harmonia que pareciam ligar as nossas células parecem estar a quebrar-se. E eu não sei se é o desemprego, a emigração, a falta de perspectivas, o manto de lama que foi lançado sobre nós (que éramos piegas, que éramos preguiçosos, que éramos gastadores), a desmotivação que se lançou sobre os agentes do sistema de ensino, o descrédito relativo ao sistema financeiro que achávamos intocável, a fraca qualidade dos políticos que introduziram a mentira como vulgar arma de arremesso, a comunicação social que se lança sobre tudo de uma forma primária, destruidora, e mais o medo e a insegurança que parece submergir toda a gente, ou se é tudo isto misturado num caldo infecto – mas o que sei é que se deveria repensar bem se é esta a sociedade que queremos. Por vezes é bom dar-se um passo atrás, pensar.

E, se necessário for, mudar de rumo.
.....oooooo....



(...)
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores; a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhando em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses o espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado
brilhando.



[excerto de 'a morte própria' de Herberto Helder in Photomaton & Vox]
  
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O vídeo mostra uma cena do Ballet Othello com música de Arvo Pärt, Spiegel im Spiegel, pelo Estonian National Ballet numa coreografia de  Marina Kesler. 

As fotografias fazem parte da série “Reflections” na qual Sebastian Magnani fotografa um espelho redondo em vários lugares. Surpreendido pelo silêncio e simetria que se desprende das imagens, Sebastian tem prosseguido em busca do contraste of structures, colors, moods and various lightnings.

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Para mudar de ambiente e aliviar a alma sugiro que mergulhem nos posts seguintes - humor, erotismo e ligeireza.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. 
E iniciemos o caminho em direcção a melhores tempos.

....

O Papa com alma de decorador e o Pintor com jeito para o negócio -- com vossa licença


Sim senhor. Já me sinto a entrar em modo Thanks God, it's Friday e vai daí, para esconjurar a canseira e as ralações da semana, só me apetece espanejar, esparvoar. Pode ser que daqui a nada já esteja mais concentrada mas, agora, ó valha-me a santa que me proteje e ampara, só me está a dar para a laracha. E, no entanto, estou aqui com uma coisa mais séria em mente. Mas, em vez de escrever, ficar mais tranquila e ir pregar para outra freguesia -- que é como quem diz, ir dormir e deixar-vos em paz -- não senhor, dou por mim a procrastinar, feita parva. Parece que quero afastar isso da mente, e, então, mesmo sem querer, dou por mim entretida só à procura de maluqueiras.

No post abaixo [spoiler alert] já vos mostrei o anúncio mais erótico dos últimos tempos, coisa feita para que os consumidores de economia, mal acabem de ver aquelas cenas, vão directos ao site encomendar toda a espécie de lingerie e, de passagem, um ou outro artefacto. Mas não me vou alongar para não estragar a surpresa. É ver para crer e para ajuizar.




Aqui, agora, a conversa também não é a mais apropriada a gente dada a reflexões atiladas, a dissertações sobre penteados, sapatos altos, cãezinhos inteligentes, políticas a martelo, angústias existenciais, pepineiras e outras maçadorias. Aqui é conversa mesmo para gente doida, cabeleireiras de mente simples, donas de casa endiabradas, super avozinhas, dançarinas de salão, filósofos desirmanados, autores de livros apócrifos, e gente com vocação. O tema é um Papa dado a decorações e um artista, coitado, que faz de tudo para pintar a obra que idealizou. 




Claro que a coisa me chega pela rapaziada da Porta dos Fundos e informam eles que a coisa é assim:

Muitos o conhecem como a Tartaruga Ninja da máscara laranja. Outros como a Tartaruga Ninja que usa nunchaku. O que poucos sabem é que, antes de dar nome a um réptil mutante, Michelangelo fez outras coisas bem legais como pintar paredes e esculpir estátuas de caras com um pau ridículo.


Michelangelo




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Mas pronto, vá lá. Para os meus Leitores nem comportados não se zangarem muito comigo, aqui deixo um vídeo a sério sobre o tecto da Capela Sistina e sobre esta obra extraordinária de Michelangelo..


Michelangelo, Tecto da Capela Sistina, 1508-12 (Vatican)



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E, já sabem, abaixo há um vídeo de se lhe tirar o chapéu.

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Erotismo vestível (ou despível, consoante a perspectiva)


Coco de Mer - Linha Aphrodite


Para que não venham dizer-me que tenho pancada por lingerie, erotismo, quejandos e arredores, informo desde já que o assunto é notícia na imprensa de referência.

Na área de Economia do DN, vi uma notícia com o título;

Este é provavelmente o anúncio com... mais erotismo dos últimos tempos


Espantada por terem colocado isto na secção de economia, fui espreitar. Rezava assim:

São 2 minutos e 30 segundo de imagens de intenso erotismo. Isso mesmo assumem os responsáveis do novo anúncio (online e cinema) para a marca britânica de lingerie e brinquedos sexuais Coco de Mer. Walter Campbell, criativo da agência TBWA Londres, e Rankin, fotógrafo e realizador, dizem: "definitivamente esta é a melhor coisa que fizemos. Tem camadas de significado e para o conseguir na publicidade é raro." Veja por si.


E saltava para o jornal Dinheiro Vivo, o que me deixou intrigada. 
Alguém, se faz favor, me explique a lógica de um vídeo com publicidade a lingerie feminina estar localizada num jornal de economia. 
  • Acham que mulheres que se interessam por economia não passam sem uma lingerie à maneira? Talvez tenham alguma razão. 
  • Ou será que pensam que economia é coisa para homens daqueles que vibram à brava com qualquer aplicaçãozita financeira e procuram as sensações extremas e, de testosterona sempre aos saltos, vão logo ver o vídeo -- e dali saltam directamente para o site da Coco de Mer (onde se vende toda a espécie de bric-a-brac para além de lingerie) para encomendar um conjunto para a namorada? Será?

Pois não sei. O que sei é que o vídeo é, de facto, engraçado e sugestivo. Ora vejam e escolham -- mas vou já avisando:  não se alarguem porque não é nada barato. Por exemplo, umas simples e rudimentares cuequinhas podem facilmente ultrapassar os 100€. Se por acaso tiverem um simples lacinho (e o sugestivo nome de Lascivious -- Sarah-Lou Ouvert Knicker in Midnight) já upa, upa, para cima de 150. Mas pronto, aqui fica a referência - para quem pode (pode do verbo poder, se faz favor escrito segundo o AO, como manda a lei).


Coco de Mer - Rankin - Walter Campbell


 

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Por acaso aquele modelito que ali aparece algumas vezes, o Persephone Frame Bra que pode ser encontrado também no separador dos must have, até está relativamente em conta (70€), pelo menos quando comprado com outras extravagâncias que por lá têm.


quinta-feira, maio 21, 2015

Negrão desmente Teresa Leal Coelho e dá-lhe uma desanda como não há memória: "A pior coisa que há na vida é desmentir a realidade", atirou-lhe ele - e eu, para que, de futuro, o clima não azede ainda mais, sugiro que lá tenham em permanência um grupo pago para rir e aplaudir como nos programas de televisão. A rapaziada da Porta dos Fundos exemplifica. E, em adenda, aqui deixo também uma lingerie para que Teresa Leal Coelho, que gosta de se armar em sexy, vestindo-a, se sinta verdadeiramente arrasadora.


No post abaixo, a propósito da escolha do João Tiago Silveira para apresentar a proposta de programa eleitoral do PS (um betinho com um penteado daqueles que nem a minha mãe usa, uma espécie de mise que parece feita à força de rolos, secador e muita laca), já dei mais um ou outro conselho ao António Costa.
Tudo pro bono e na melhor das boas intenções -- é que, não apenas estou à espera que me provem que tenho boas razões para votar no PS, como quero ter a esperança de que o PS consiga maioria absoluta e que a maltosa do PSD/CDS leve uma corrida em osso que lhes sirva de lição. 
A questão é que, com a falta de jeito e sentido prático que os socialistas têm andado a demonstrar, começo a recear. E, por isso, daqui lhes lançarei lancinantes apelos até que os dedos me doam.

Bem, adiante, que isso é no post a seguir.

Agora, aqui, a conversa roda para outro quadrante. Com vossa licença.




Depois de mais um dia levado da breca, cansada, a ver que nem para fazer a minha caminhada teria tempo, metida no trânsito de regresso a casa, eis que um diálogo entre a sexy Teresa Leal Coelho e o judicioso Fernando Negrão me faz acordar de imediato.

O tom do Fernando Negrão era o de alguém que já não suporta a colega nem com molho de tomate: irado, fora de si. Pensei: coitado, como o compreendo.

Se eu, que apenas vejo a peixeira-mor na televisão de vez em quando e já fico passada, imagino o que o pobre sofre, a ter que aturá-la durante rores de tempo... Nem o Bava, esse descarado, o conseguiu irritar desta maneira.

Transcrevo do DN:

A votação na especialidade estava agendada e o presidente da comissão de Assuntos Constitucionais, Fernando Negrão (PSD), pediu à deputada do PSD Teresa Leal Coelho as conclusões do grupo de trabalho criado para tentar conciliar posições entre os diferentes grupos parlamentares acerca da criminalização do enriquecimento ilícito e começou aí uma discussão longa e dura.

Na resposta, Teresa Leal Coelho disse que não tinha sido criado nenhum grupo de trabalho porque PSD e CDS-PP se tinham oposto e que tinha ficado apenas estabelecido que seriam efetuados "contactos informais".

Fernando Negrão dirigiu-se a Teresa Leal Coelho num tom particularmente duro, afirmando que "a pior coisa que há na vida é desmentir a realidade", sublinhando que um "grupo de trabalho informal" tinha sido criado há duas semanas, envolvendo a indicação de elementos pelos grupos parlamentares e uma coordenadora, precisamente Teresa Leal Coelho.


"A deputada Teresa Leal Coelho disse que estava muito honrada por coordenar o grupo de trabalho e agora veio negar a realidade, o que me deixa muito preocupado porque temos trabalhado nesta comissão com grande seriedade", afirmou.



Lindo. Grande Fernando Negrão. Não teve papas na língua.

Mas imagine-se o que ele, mais que tarimbado para ouvir toda a sorte de despautérios sem se alterar, teve que aturar àquela irritante criatura para chegar ao ponto de exaustão emocional a que chegou. Deve ter estado a aguentar, a aguentar, a ver se conseguia ir acumulando a pressão sem se manifestar, até que não aguentou mais: saltou-lhe a tampa cá com uma força...!
Sempre nutri simpatia por Fernando Negrão: é um homem bem formado, honesto, rigoroso. Em boa verdade vos digo que é assim desde pequeno. Gente boa. Tem este defeito de estar ligado ao PSD mas, enfim, ninguém é perfeito e tenho para mim que um dia ainda vai cair em si e perceber que estaria melhor se saísse daquele saco de gatos, tantos deles tão desqualificados. 
Ora bem. Imaginando o clima tenso daquelas comissões, pensei que, a bem do bom ambiente, seria boa ideia que houvesse qualquer coisa que desanuviasse os ares. Por exemplo, quando alguém chamasse mentirosa à colega, que logo uma plateia desatasse a rir e a bater palmas. Ou que, quando ela, a sexy Coelha, traçasse a sua sexy perna, logo se ouvisse um assobio, suspiros e, depois, um entusiasmado aplauso.

Claro que o conceito também seria útil nas discussões entre o Passos Coelho e a Catarina Martins ou o Ferro Rodrigues. Ou mesmo nas empresas, naquelas reuniões em que o ambiente é de cortar à faca.

Para exemplificar o conceito, tenho aqui a turminha da Porta dos Fundos, rapaziada cá muito de casa.

Apresentam eles assim o vídeo (mas é sabido que a apresentação também não é para ser levada a sério):
Já reparou como todo programa de humor meio merda acaba em risada? É a claque. Rir de uma piada ruim é quase como um viciado que desce a ladeira e se engana no dia-a-dia. Não importa quão ruim seja o produto, quantas vezes você já passou por aquilo ou se os envolvidos são indecentes ou não. Você pode acabar jogado no sofá, quase em transe e rindo sem saber de quê.

Claque


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Com uma cena destas, tudo passaria a ser levado na descontra e o próprio Negrão, apesar de furibundo com a Leal ao Coelho, rebolaria a rir à gargalhada depois de a ter enquadrado a varapau.

...

Entretanto, para que a sexy Leal Coelha se sinta sexy todos os dias e para que esse sentimento lhe venha dos interiores, deixo-lhe já em cima a sugestão de um modelito à maneira. Não vem que não tem. Se é para cultivar a imagem da peixeirona sexy, então que o seja a preceito e a coisa comece logo na lingerie. Um bustier em demi-balconette, por exemplo, é coisa que resulta sempre bem.

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E, por hoje, aqui me fico que já estou cansada de dar tantos conselhos.

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Permitam que relembre: descendo até ao post seguinte, poderão ver a minha opinião a propósito da vozinha sorridente e, sobretudo, do penteado artístico de João Tiago Silveira.

E, para que a vossa visita não seja em vão, tenho a seguir o último vídeo do Cine Povero, a maravilha do costume.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira. 
Que seja um grande dia, com abraços e boas notícias ou, pelo menos, com boas perspectivas (seja lá do que for).

...

Ou o João Tiago Silveira do PS corta aquele cabelo ou passa à clandestinidade ou assim o PS não vai a lado nenhum.


Com o dia que tive, não consegui ouvir, ver ou ler o que foi apresentado pelo PS. Apenas vi agora de raspão nas notícias o João Tiago Silveira que foi a pessoas escolhida pelo PS para o momento de grande visibilidade mediática. 


João Tiago Silveira fala do projecto de programa eleitoral do PS
- e parece que deixou que as cabeleireiras da TVI ainda lhe armassem mais o cabelo, por pouco não ficava uma autêntica menina do Velasquez, por amor da santa...!.



E neste momento começo a vê-lo na TVI com o Paulo Magalhães. Fala bem e o discurso é articulado (como não poderia deixar de ser), é convincente, as propostas são boas, fazem sentido. 

Mas, ó senhores do PS, ele já de si tem aquela voz de betinho que não me parece a mais indicado para credibilizar uma proposta que se queira impor ao País -- mas aquele cabelinho...? Não pode ser... tenham dó.

Pode ser normal num escritório de advogados ou numa universidade. Mas como porta-voz de um partido da oposição que se queira fazer respeitar no País, ou o PS escolhe alguém, homem e mulher, que tenha, de alto a baixo, um aspecto mais comum, mais gente normal, ou a coisa estraga-se logo na imagem.

Não faz sentido colocar à frente das câmaras de televisão ou das objectivas dos fotógrafos alguém cuja imagem nos distrai do que diz. Deverá ser alguém carismático mas minimamente sóbrio no aspecto. Não assim, quase só faltou fazer totós...!

Estou a ouvi-lo: fala da área da Saúde, fala bem. Mas com esta voz de betinho, este sorriso de menino bem, este cabelinho obnóxio.... será que os operários, as cozinheiras, os jovens desempregados, os agricultores, pescadores, os reformados, gente quadrada como eu e etc, o levam muito a sério?

Tenho dúvidas, mas é que tenho mesmo muitas dúvidas. O PS ainda não terá ouvido dizer que a imagem conta...?

E já nem quero falar na evidente falta de jeitinho que Ferro Rodrigues tem nos debates com o Passos na Assembleia da República. Levar ao tapete o Passos Coelho com um sopro deveria ser brincadeira de crianças. Mas não, a tropa fandanga da coligação sai de lá sempre a rir. E as noticias mostram sempre aquelas tiradas (sérias, honestas, bem intencionadas) do Ferro Rodrigues mas que se prestam a segundas leituras se extirpadas do contexto. 

António Costa, se quer soltar as amarras e partir para uma maioria absoluta ouça o que lhe digo: não sacrifique a qualidade, não sacrifique a honestidade intelectual, a lealdade, o carácter mas, por favor, arranje uma equipa que impressione favoravelmente o País. Rodeie-se de homens e mulheres que falem alto e bom som, com clareza, com sentido de modernidade, com visão humanista, etc, etc, mas, please, please, que tenham bom ar, que sejam claros na voz e no raciocínio, e se vistam e penteiem com sobriedade. E que tenham carisma, caraças, que as pessoas lhes fixem a cara, a voz, as ideias. Será assim tão difícil...? Façam um casting, senhores.


Vídeo novo do Cine Povero -- Um pouco só de Goya: Carta a minha filha


(...)
A vida, minha filha, pode ser

de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

Ana Luísa Amaral :: Um pouco só de Goya: Carta a minha filha






“Um pouco só de Goya: Carta a minha filha” in Imagias, Gótica (2002), recitado pela própria. 
Produção audio: Literaturwerkstatt Berlin (2008). Disponível na base de poemas online LYRIKLINE

Audio: Arcade Fire, “Morning Talk Supersymmetry”. «Her» OST (2014)

Videos retirados da Internet.

..

quarta-feira, maio 20, 2015

Há um pássaro azul no meu peito e eu escuto na palavra a festa do silêncio


Num dia de canseira e ventania, estou mais para ser embalada do que para dissertações ou regabofes. Cansada, com sono, a precisar de dormir. Que dias estes, de manhã à noite, senhores, e o trânsito um horror. E o vento.
Durmo de janela aberta, gosto de sentir a aragem fria sobre o corpo. Por vezes acordo de madrugada com as gaivotas: gritam, gritam. Não sei se são lamentos, se é um choro sofrido, se é gozo, festa, dança, namoro. Não sei. Acordo e ouço-as, tento manter-me acordada, perceber quantas serão, o que fazem na relva àquelas horas escuras. Mas logo adormeço. Levo-as e às suas longas asas brancas dançando no escuro da noite para dentro dos meus sonhos. 
Mas a noite passada não foram elas que me acordaram. Foi o vento arrastando coisas pela rua, tudo batia, tudo fugia na rua escura. Custou-me adormecer. E depois o dia, todo, todo.

Chego a esta hora e o corpo pede-me descanso.

Pois que descanso tenha.

Que me desculpem os meus Leitores mas hoje estou em modo piloto automático, a cabeça a funcionar nas margens do sono, incapaz de pensamentos conscientes. Funciona apenas uma parte de mim, uma parte pequena, a só me pede silêncio, imagens de outros mundos, palavras que me tragam notícias de lado nenhum, e que chegue até mim qualquer diferença, preciso de diferenças, estou farta da normalidade, da mediania, quero ver o que nunca vi, quero palavras que não façam sentido à luz dos preceitos vulgares, estou farta, farta, de racionais, de conversas alinhadas, encenadas, na verdade quase vazias. Ou que venham até mim corpos que se movam como eu, em sonhos, gostaria de me mover, fora de mim, para longe de mim.

Afasto de mim as sombras, não as quero. Ou então não, que venham - mas venham macias, sibilinas, sussurrantes, dizendo-me segredos perigosos, olhando-se sem medo, aliciando-me. Ou que a luz me ofusque, me desarme, me desequilibre.

Fecho os olhos e puxo a estranheza que me é irmã, deixo que me abracem os sons que me trazem labirintos, galerias perdidas no fim do mundo, barcos abandonados nas praias ao sabor do vento e das areias. E que me tomem em suas asas os pássaros de escamas de fogo, que me levem, que me levem para as nuvens, para os castelos em ruínas habitados por espíritos azuis, por poetas, por músicos loucos, por cavaleiros perdidos, por sonhadores sem rumo, por deusas, por rastos de luz.

E, quando nada mais fizer sentido, eu fecharei os olhos e dormirei descansada, dentro de um mundo inventado onde os abraços que me envolvem são quentes e íntimos, onde as palavras me acariciam como se fossem deuses saídos do fundo do mar, transparentes como poesias infinitas, e com olhares longos e húmidos como a boca do meu amor.


Duck feather dress, The Horn of Plenty, AW 2009-10, Model Magdalena Frackowiak, image : firstVIEW




turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos

menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia


Nu au chapeau de plumes ©Isabel Munoz
[Isabel Munoz part quant à elle en Colombie avec "Eros y Ritos, Eros et rites". Avec ses portraits de danseuses sous des masques rituels, elle révèle l'essence de l'être humain, à la recherche de ses craintes et de ses passions.]



Sim. Eu tenho o coração tomado de amor. Sou dessa gente que vai com tudo, caminha na brasa, mergulha na lava, se joga no fogo louco do encontro. Da vida, quero nada senão viver assim. Em chamas. É daí que vem todo o resto.

Comigo, essa história de pé atrás não funciona, não. O amor chega e entra com os dois pés e o que mais há em volta.(...) Contenção no amor é desperdício, sonolência, anticlímax, chateação. Quem sente amor tem a pele fustigada por um raio, voa baixo, treme de susto.

E que o diga o casal feliz de outro tempo em suas histórias de encanto e seus quarenta anos de namoro e sonho, suas viagens pelo mundo, seu olhar de cuidado aos mais jovens: o amor é ou não é um susto, um abalo, um assombro, um sobressalto? Decerto que é. O amor é o inesperado, o carro que quebra na padaria, a água que falta, o gás que acaba. (...)

“Ah! Mas isso não é amor, é só paixão”, dirá o ser impecável, perfeito, em sua fúria por rotular a vida e quem nela esteja. E eu respondo: que seja! A paixão é minha e eu dou a ela o nome que eu achar que devo. Inclusive amor, esse palavrão que incomoda tanto a tanta gente. (...) Mas que ainda assim, quando se tornar robusto, maduro, corajoso, conserve em si o frio na barriga, a saudade, o riso fácil, o jeito simples e as declarações de apreço com os olhos brilhando de ternura.

Assumo e declaro: meu amor não tem pudor. Amo em total descaramento. Vergonha eu só tenho na cara, não no coração. (...) Fazer o quê? Uma hora eu aprendo. Com tempo e trabalho e coragem, eu aprendo a ter menos vergonha e ainda mais amor.


Tahitian pearl neckpiece, Shaun Leane for Alexander McQueen, Voss, Spring Summer 2001 ©Anthea Simms 


há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?



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Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

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  • Pela segunda vez aqui, a música é Epilepsy Is Dancing numa interpretação de Antony and the Johnsons  -- e o vídeo deverá ser visto pois é qualquer coisa de irreal.
  • O primeiro poema é um excerto de Poema Sujo, de Ferreira Gullar
  • A prosa é um excerto de Deixemos de coisa. O que mata mesmo é abrir mão de viver de André J. Gomes na Bula
  • O penúltimo poema, transcrito (numa tradução de Pedro Gonzaga) e lido (por Tom O'Bedlam), é O pássaro azul de Charles Bukowsky
  • O último poema é A Festa do Silêncio de António Ramos Rosa
  • A primeira e a última fotografia fazem parte da exposição Savage Beauty relativa à arte feérica de Alexander McQueen que vai estar até 2 de Agosto no Victoria & Albert Museum 
  • A segunda fotografia, de Isabel Muñoz, integrou a exposição 6 artistes pour 6 "Regards de femmes" que decorreu na Galerie Hegoa (França)
  • O ballet é  'Chroma' chor. Wayne McGregor, numa interpretação de Artem Ovcharenco e Anna Tikhomirova (Bolshoi Ballet)
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    Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira mesmo muito feliz. 
    Divirtam-se, aproveitem bem a vida, está bem?

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    terça-feira, maio 19, 2015

    O senhor subcomissário bateu no adepto benfiquista à frente dos filhos? Pois não vou falar disso. Sou contra a violência. Sou a favor do amor. Diz André J. Gomes, um verdadeiro pipoco nestas coisas do amor: O amor é para os atrevidos, deixe de coisa e vá buscar o seu. Ninguém sofre de amor, a gente sofre é quando ele falta. Quanto mais amor a gente tem, mais medo a gente sente.


    Os media andam doidos, cheira-lhes a confusão com futebol à mistura, coisa do melhor que há.

    À falta de tremores de terra, naufrágios ou atentados bombistas, descarrilamentos ou atropelamentos, roubo de esticão, provocações passistas, sms para maria-amélias,
    (e andando a ministra-loura de bico calado, o c-rato tão disfarçado de bom menino e todos os outros tão caladinhos, tudo na moita a ver se a gente se esquece deles; 
    e sendo já um déjà-vu que o Super-Judge Alex esteja em todas tal como que o Prof. Marcelo comente sobre tudo e apresente livros em todo o lado, ambos a comprovarem que a ubiquidade é um dom com que foram abençoados, mais omnipresentes que Deus nosso Senhor) 
    atiram-se como cães a bofe à confusão armada no fim do jogo do Benfica. Os polícias bateram nos adeptos, os adeptos bateram nos polícias e o frenesim que isso gera nas redacções é uma festa. Mas não é só nas televisões, é também nos jornais online. Já nem é tanto aquilo do Benfica ter ganho o campeonato que interessa, é mesmo o furdunço que houve a seguir.

    O momento mais épico aconteceu quando a polícia bateu num senhor à frente dos filhos e do pai. O BE já pediu explicações, o senhor sub-comissário diz que o pai das crianças ameaçou cuspir-lhe, a criança já não quer jogar futebol, toda a gente esqueceu o menino que apanhou estalos ou o outro das orelhas grandes, agora toda a gente se concentra na tareia que o senhor levou. 


    Note-se que não estou a sub-valorizar o episódio -- que acho a todos os títulos lamentável -- mas sim a desviar-me da forma histérica como a comunicação social repete até ao enjoo imagens de violência, quase a banalizando, quase banalizando a forma como toda a gente é levada a manifestações de repúdio instantâneas que apenas duram até à próxima.

    E agora, enquanto escrevo, já estão os comentadores todos num excitex, animadésimos, uns contra uns, outros contra outros, advogados, ex-ministros, tudo opina minha gente, tudo disserta sobre leis, sobre moral e sobre costumes - e já ninguém quer saber das crianças que assistiram à violência sobre o pai ou do pai que assistiu à violência sobre o filho.

    Ora quem sou eu para me pôr a competir com tão ilustres opinadores...? Ninguém.

    Viro para a RTP1, Prós e Contras, a Fátima Campos Ferreira tão dramática, invasiva e grandiloquente como sempre. Falam da desregulação do trabalho. Até poderia ser interessante mas a esta hora estou sensível, ouvidos sensíveis, alma sensível, toda eu a precisar de paz e sossego, vozes em pianíssimo. Por isso mudo-me.


    A seguir é o FMI que quer mais austeridade, parece. Não se sabe se é a Lagarde -- o Blanchard não é de certeza -- talvez seja o Subir, quiçá até o careca. Mas não vou comentar, que aqueles lá gostam é de jogar aos jogos de soma nula, um diz uma coisa, outro diz logo a seguir o contrário. Uns brincalhotos.


    E aí vou, eu, portanto, tentando em vão descobrir alguma coisa que se aproveite. Mas qual quê? Só disto.

    Por isso, com vossa licença, vamos mas é dar uma voltinha ao jardim dos amores.


    Pipoco e uma namorada no metro - a arte antiga nos tempos modernos


    Descobri, na Revista Bula, um cronista mesmo à maneira: sabe do amor à brava e partilha o que sabe, nada destes nossos experts, mais doces ou mais salgados, que gostam de se armar em bons, apregoando conhecimentos, conquistas aos molhos, e, com ar displicente falam de decotes assim, decotes assado, e, como se desdenhassem, vão deixando cair umas dicas de quem supostamente é grande connaisseur na matéria, minhas senhoras para aqui, minhas senhoras para acolá - mas de onde nunca sai ensinamento útil ou dissertação que possa fazer escola.

    Pois este André J. Gomes parece saber do que fala e escreve com aquele torrãozinho de açúcar nas palavras que faz a prosa rolar gostosa, não se limitando ao título ou a duas ou três frases soltas que chamam clientela mas que insinuam mais do que fundamentam. Não, aqui o André percorre com sabedoria todos os caminhos do amor: a insegurança, o medo, a persistência. Tudo. No que abaixo transcrevo limito-me a extractos de três crónicas mas tem lá para um tratado das paixões da alma.

    E não estou a brincar, concordo com tudo aquilo que ele diz. Capaz de toda a gente concordar que, quando a prosa é solta, a gente gosta mesmo que seja só por gostar e, enfim, nisto também já não há muito a inventar.







    O AMOR É PARA OS ATREVIDOS. DEIXE DE COISA E VÁ BUSCAR O SEU



    Então fica assim. Para o bem de todos os amantes, para a saúde de todo ser amado, quem quiser um amor verdadeiro vai ter de ir buscar. Esse negócio de esperar no sofá, a TV ligada, o olhar perdido, a vida em estado de suspensão por longos fios de baba enquanto a pessoa perfeita não vem, tudo isso fica revogado até segunda ordem. Desista que do céu não vai cair.

    Quer amor? Levante e vá buscar. Não tem delivery, compra por catálogo, encomenda, disque-pizza. Não se pode pedir pela Internet. Faça por merecer!

    Aos distraídos de boca aberta, os encalhados na correnteza, os pesos mortos e os zumbis sentimentaloides só chegam moscas, mariposas, lesmas, vermes e outros pequenos bichos. O amor é para quem sabe o que quer e, sobretudo, para quem sabe o que oferecer.

    É para quem se atreve, se arrisca e se lança. Para os que ousam devolver o prato mal feito e o que mais não serve, para os insubordinados e os insatisfeitos, aqueles que procuram sem fim. Procuram até achar. E se acaso encontram e perdem de novo, retomam a busca sem frescura.




    NINGUÉM SOFRE POR AMOR. A GENTE SOFRE É QUANDO ELE FALTA



    Quem já andou de amores por aí sabe bem do que se trata. Entende como funciona. Sentir amor é a maior sorte que a vida nos dá. Do sentimento amoroso brota um mundo inteiro de possibilidades novas, vontades honestas, intenções felizes, projetos abençoados. Do amor vem todo o resto.

    O amor nos empurra para a frente, nos leva adiante. Faz nascer em nós razões irresistíveis e toda sorte de desejos, ímpetos e motivos para romper amarras mesquinhas, vencer torcidas contrárias, superar encalhes derrotistas, evoluir, melhorar. E merecer mais amor.

    Aos sortudos escolhidos na roda dos acasos, o amor chega trazendo fortuna. Melhora a pele, desopila o fígado, clareia a vista. Amor jamais segura, não atravanca e nem atrasa. Amar faz bem e ponto.

    Sentir amor faz de nós bombas atômicas ambulantes, reagindo em cadeia aqui e ali com outros seres amorosos, varrendo a terra de ternuras. Quem sente amor o espalha pela vida, transborda o mundo de festa. É o que nos salva da sanha dos patifes, invejosos, cretinos, estúpidos e patetas tão dedicados a distribuir descaso e apatia e desamor.

    Amar o ser amado, um ofício, uma ideia, um sonho, não importa o quê. Amar faz bem e só. Sempre! Quando faz “mal”, como acontece a quem ama e não se sente correspondido, já não é amor. O que machuca quando o amor não é recíproco é a frustração, a carência e esses sentimentos decorrentes da indiferença do outro. Não o amor.

    Isso também acontece com o amor não declarado, não vivido: o que castiga é a ansiedade, a aflição, a espera do que nunca vem. Não o amor. 

    (...)

    Ninguém sofre de amor, não. A gente sofre é da falta dele. Amar nos dá sorte. Enche os olhos de sonhos e os dias de esperança. Quem ama não faz jogos. Ama simplesmente. Jogos são para apostadores. Amor é para os amantes.

    (...)



    QUANTO MAIS AMOR A GENTE TEM, MAIS MEDO A GENTE SENTE



    Quem tem amor tem medo. Eu tenho. Todo mundo tem. É assim mesmo, sempre foi. Uns têm mais. Outros, menos. Outros tantos, quase nada. Tem ainda os que morrem de pavor mas vivem negando. De qualquer jeito, toda criatura que sente amor, toda alma que já amou alguém na vida também já sentiu medo.

    (...)

    É medo de ver o amor acabar como acabam a água, o leite, a comida da despensa. Medo de não ter para onde ir buscar mais. Medo da sombra que paira no olhar da pessoa amada depois do riso, medo de não ser aceito, medo das conversas pontuadas de silêncios tensos.

    Também tem o medo da insegurança que vira e mexe nos acomete e, por ironia suprema, nos afasta de quem amamos pelo simples pavor de perder.

    Há quem sinta medo de deixar o medo travar-lhe as pernas e endurecer-lhe o coração. Medo de se permitir paralisar. E tem aqueles que sentem medo de não perceber o óbvio: aos que amam, o medo é um aviso sublime. É o alerta divino para cuidar do amor. É a consciência de que o ser amado pode partir, de que o amor periga fraquejar ninguém sabe quando. Então é melhor amá-lo agora e amanhã e depois e depois e depois. Só assim o medo esmorece. E se esconde no escuro solitário do porão.

    Amor é sentimento irmão do medo. Quem tem um, tem o outro. Pode ser pouco, pode ser muito. Mas há sempre um medo repousando no coração dos amantes. Ou para que serviria a tal coragem de quem ama se não há medo nenhum a enfrentar?

    Então, que o amor nos venha cheio de medos inevitáveis. Que venha! É melhor viver com amor e sentir medo que morrer de medo e viver sem amor.

    (...)


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    O eterno ele-ela


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    • A música lá em cima é Fadinho de António Chainho com Marta Dias
    • A primeira imagem é photoshop puro, uma pintura de antanho transposta para uma estação de metro, da autoria do ucraniano Alexey Kondakov.
    • As restantes ilustrações são aguarelas de Elena Romanova
    • As crónicas completas, estas e outras, de André J. Gomes podem ser vistas na Bula.
    • O bailado está a cargo de The Nederlands Dans Theater, numa coreografia de Jiří Kylián
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    Desejo-vos, meus Caros Leitores, um dia muito feliz.

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    segunda-feira, maio 18, 2015

    Sou mãe de um benfiquista convicto* mas a verdade é que não nutro especial simpatia pelo Benfica. Nem especial nem sem ser especial. Para dizer a verdade, nem sou de vibrar com clube nenhum. Por isso, não é disso que vou falar. Vou antes falar de uma coisa muito diferente: de um fazedor de nuvens


    Há quem pegue em tintas e espalhe a cor sobre as telas, inventando flores, corpos, sombras, pontos de luz. Há quem trabalhe a pedra, a madeira, o metal e deles extraia formas abstractas, expressivos rostos, movimentos inventados. Há quem adivinhe acordes, reinterprete antigas sonoridades, traga melodia, ritmos e harmonia ou provocação à vida dos outros.

    E há os que absorvem a vida que os rodeia, que interpretam os olhares dos outros, as palavras não ditas, que sonham formas diferentes de tecer frases e, com elas, constroem histórias, crónicas, poemas.

    E tantos, tantos artistas de tantas artes. A dança, a fotografia, o teatro, o cinema, etc - tantos.

    De Berndnaut Smilde não sei dizer se é um escultor, se é sequer um artista - os mais entendidos que o digam, que o cataloguem, que o julguem. Eu, na minha santa ignorância, acho que sim; artista de uma arte do efémero, do intangível, do imprevisto. Faz nuvens.





    Eu vejo e acho lindo, acho o género de coisa que seria capaz de me comover se visse acontecer perto de mim. E, vendo as imagens, não olho para as nuvens que ele cria como algo de triste, aquele peso e negrume que tantas vezes se associa à nuvem. A mim parece-me uma impossibilidade sedosa, macia, branca - que se materializa. E que, depois, desaparece. 




    Pode parecer aos mais puristas da coisa - e eu reconheço que, em tudo o que se prenda com arte, sou impura, ímpia, mas que me perdoem os entendidos, percebam que é aquela inocência própria dos ignorantes - que fazer figuras improváveis que se movem com o vento ou fazer nuvens dentro de uma sala é mais técnica e habilidade do que outra coisa. Talvez, mas poderia dar-lhes para fazer motores ou produtos químicos e não para fazer coisas belas, irreais, coisas que nos levam para uma dimensão incomum.

    - É tão bom ser nuvem,
    ter um corpo leve,
    e passar, passar.

    - Leva-me contigo.
    Quero ver Granada.
    Quero ver o mar.

    - Granada é longe,
    o mar é distante,
    não podes voar.

    - Para que te serve
    ser nuvem, se não
    me podes levar?

    - Serve para te ver.
    E passar, passar.


    [de Eugénio de Andrade]


    A Vanity Fair dá-lhe destaque e, para quem sinta curiosidade, pode ver aqui o que lá é dito. 


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    * - No título, refiro apenas o meu filho como benfiquista quando originalmente a minha filha também foi manipulada para o ser. O meu cunhado, na altura ainda solteiro e bom rapaz, sempre foi benfiquista convicto, mesmo daqueles tinhosos. E então, quando apanhava o irmão de costas (sportinguista igualmente convicto), ensinava os sobrinhos, crianças de colo que ainda mal falavam, a responder à pergunta 'quem é o glorioso?' com 'benfica' levantando, ao mesmo tempo, a mão para fazer o V de Vitória. E, assim, cresceram os meus ricos filhos, sendo instruídos no misterioso culto do Benfica. Ela, pouco dada a futebóis, mais tarde tornou-se agnóstica, ao passo que ele se manteve fiel aos primeiros ensinamentos e festeja e vibra com ardor, como se uma vitória do seu glorioso fosse coisa importante na sua vida. (Que há-de uma mãe fazer...?)

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    Bem, mas que venha a nuvem de Berndnaut Smilde
    uma escultura feita de chuva imaterial - como que feita de luar, de lágrimas invisíveis e felizes.


     

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    Estava a apetecer-me terminar com bailado. Aqui está.

    Moon water

    - numa interpretação do Cloud Gate Dance Theatre of Taiwan



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    Desejo-vos, meus Caros leitores, uma semana muito boa a começar já por esta segunda-feira.
    Saúde, sorte e amor é o que vos desejo a todos. 
    (E dinheiro para os gastos, claro.)

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    domingo, maio 17, 2015

    Noite dos Museus em Lisboa - Jantar no Jardim do Museu de Arte Antiga [1º de 5 posts]


    Este sábado à noite foi a Noite dos Museus. Visitei o Palácio da Ajuda e o Museu de Arte Antiga, ambos amores de sempre, em especial o segundo. Fiquei admirada por haver tanta gente. As pessoas gostam de cultura, assim se sintam convocadas. 

    Não têm conta as vezes que visitei estes dois espaços ao longo da minha vida. O meu marido, na brincadeira, disse que devíamos ter levado 'as crianças' para ser uma visita igual a tantas às quais foram sujeitos quando eram pequenos em que, a certa altura, já só queriam eram pirar-se dali para fora. 

    Nem têm conta, também, as vezes que estive no maravilhoso jardim sobre o Tejo, onde há uma pequena esplanada, onde se pode almoçar, onde se pode preguiçar o olhar, deixar que se espraie pelo rio, pela outra margem.

    Esta noite, ao ar livre, foi aqui que jantei depois de ter visitado, mais uma vez mas sempre com igual prazer, descobrindo tantos aspectos novos, o Museu de Arte Antiga.

    Se eu gosto de tomar as minhas refeições ao ar livre, muito mais gosto de esplanadas with a view ou assim, num jardim tão bonito como este. Numa noite quente como a que estava, uma brisa suave a subir do rio, as luzes, as estátuas no jardim, tudo tão agradável, estava-se tão, mas tão bem. Podia ter ficado ali até ser madrugada, a olhar as luzes do rio, a escuridão das árvores, a sentir a aragem, a pensar em coisas boas.




    A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra, 
    tu a colhes, mulher, a distribuis 
    tão generosa e à janela do mundo. 




    O sal do mar percorre a tua língua; 
    não são de mais em ti as coisas mais. 




    Melhor que tudo, o voo dos insectos, 
    o ritmo nocturno do girar dos bichos, 
    a chave do momento em que começa o canto 
    da ave ou da cigarra 
    — a mão que tal comanda no mesmo gesto fere 
    a corda do que em ti faz acordar 
    os olhos densos de cada dia um só. 




    Quem está salvando nesta respiração 
    boca a boca real com o universo? 




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    O poema é A luz que vem das pedras de Pedro Tamen

    Catrin Finch interpreta Clair de Lune de Debussy

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    Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

    Que se sintam felizes é o que muito sinceramente vos desejo.

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    Noite dos Museus em Lisboa - Obras marcantes [2º de 5 posts]


    Este é o papel singular da alegria 
    a lei errante do país 
    é o maior dos silêncios. 

    Caminhei por entre rios pontos de água 
    estações de novembro 
    pequena razão dos ventos da manhã. 




    Não trafiquei não porque seja forte 
    mas porque falo da alegria do estar sobre vós 
    nestes pontos de água 
    na acidez da flor 
    neste país frequentado 

    algumas coisas nunca mudarão. O rigor 
    da luz torna invulnerável o desejo de perder 
    esta pressa de verão. 




    Algumas coisas serão sempre as mesmas: manhã 
    encosta o teu ouvido sobre a porta escuta 
    era a voz os cavaleiros roubados a Ucello 
    longínquos. 




    (Profanamos a casa não o corpo 
    esta forma desenhada ruga a ruga 
    esta cor amarela sobre a praia.) 



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    A primeira fotografia mostra, no Museu de Arte Antiga, os Painéis de S. Vicente de Fora de Nuno Gonçalves.

    As duas seguintes mostram, no mesmo museu, partes de Tentações de Santo Antão do pintor holandês Hieronymus Bosch

    O poema é Este é o Papel Singular da Alegria de João Miguel Fernandes Jorge

    Lang Lang interpreta Serenade de Schubert

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    Noite dos Museus em Lisboa - Arte e Decoração [3º de 5 posts]


    Primeiro abre-se a porta
    por dentro sobre a tela imatura onde previamente
    se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
    a mãe para sempre morta.





    Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
    como uma foto que se guarda na carteira,
    iluminam-se no quintal as flores da macieira
    e, no papel de parede, agitam-se as recordações.




    Protege-te delas, das recordações,
    dos seus ócios, das suas conspirações;
    usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
    o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.




    Uma casa é as ruínas de uma casa,
    uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
    desenha-a como quem embala um remorso,
    com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.






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    As fotografias mostram salas do Palácio da Ajuda

    (A última mostra o grande salão dos banquetes oficiais oferecidos pelo Presidente da República)

    O poema é de Manuel António Pina de Como se desenha uma casa

    Yo-Yo Ma interpreta Bach Cello Suite No.1 - Prelude

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    Noite dos Museus em Lisboa - Mulheres que impressionam [4º de 5 posts]


    Há cidades cor de pérola onde as mulheres
    existem velozmente. Onde
    às vezes param, e são morosas
    por dentro. Há cidades absolutas,
    trabalhadas interiormente pelo pensamento
    das mulheres.




    Há lugares de um esplendor virgem,
    com mulheres puras cujas mãos
    estremecem. Mulheres que imaginam
    num supremo silêncio, elevando-se
    sobre as pancadas da minha arte interior.




    MuIheres que eu amo com um desespero
    fulminante, a quem beijo os pés
    supostos entre pensamento e movimento.
    Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
    com alegria.



    Subo as mulheres aos degraus.
    Seus pedregulhos perante Deus.
    É a vida futura tocando o sangue
    de um amargo delírio.
    Olho de cima a beleza genial
    de sua cabeça
    ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
    no meu pensamento quente.



    .....

    As mulheres fazem parte de pinturas expostas no Museu de Arte Antiga

    As palavras são excertos não sequenciais de Há cidades cor de pérola onde as mulheres de Herberto Helder

    De Chopin a música é Impromptus No. 4, Fantasie Impromptu, numa interpretação de Philippe Entremont

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