Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, fevereiro 25, 2018

O juiz em cuja casa passava tudo, até quatro ramalho eanes.


Em vez de se incomodarem com a vida das pessoas andam a chatear a vida de um porco. Tudo tachistas, como esse requerimenteiro que apanhou boleia na revolução e agora é juiz. Eu ao menos não apanhei boleia nenhuma. Em casa dele passam ovos, dendém, carne e ontem quatro ramalho eanes*. 



[in 'Quem me dera ser onda' de Manuel Rui]

* Ramalho Eanes: garrafão de vinho, na altura em que se retomou a importação de vinho português

Coisas simples



Esta pequena mesa aqui ao meu lado está uma bagunça. DVDs: House of Cards que o meu filho nos ofereceu,  o Scoop dado pela minha filha e o documentário sobre a Paula Rego feito pelo filho dela. O meu telemóvel. O comando da televisão. O meu molho de chaves. O livro que acabei e ler e que adorei, 'Quem me dera ser onda' e outro que comecei no outro dia, depois esqueci-me dele cá pelo que ficou interrompido, 'Alguns preferem urtigas', uma folha branca com desenhos e carimbos, obra dos meninos, um dedal de plástico.

Temos andado lá por fora e a arrumação cá dentro acaba por ficar descurada. Só quando saímos é que varro, limpo e arrumo para, quando regressarmos, não darmos com uma casa desarrumada.

Durante a tarde trabalhámos tão intensamente que o meu compagnon the route, que ainda por cima se levanta quase de madrugada, já dorme a sono solto. E eu própria, há pouco, dei por mim a acordar. Durante quanto tempo estive a dormir nem faço ideia. 


Quando as nossas árvores eram mínimas, tínhamos que comprar lenha. Íamos a uns lugares por vezes estranhos. Estou a lembrar-me de um, no fim de uma aldeia aqui perto. Num sítio alto, havia uma espécie de barracão, e era um barracão muito grande e alto, cheio de lenha. Havia lenha também cá fora, coberta por oleados. E, em volta, uma espécie de jaulas onde uns cães ferozes pareciam querer atirar-se a nós. Quando lá chegávamos não víamos ninguém. Era um lugar um bocado assustador. Depois, vindo de trás das jaulas dos cães, aparecia um homem muito mal encarado. Não me tomem por preconceituosa mas a sensação que eu tinha era que esse homem encarnava a figura do mostrengo. Uma corcunda acentuada, todo ele torto, meio coxo, muito feio, de poucas falas. Por cima das roupas velhas, usava um avental grande e mal feito do mesmo oleado preto. As mãos eram rudes e nunca esboçava o mais leve sorriso. Havia uma balança antiga, uma espécie de plataforma. Ele ia buscar lenha num carrinho de mão, depois passava-a para essa balança. Não dizia nada. No princípio é que nos perguntava se era azinho ou sobro. Pedíamos tanto de uma como de outra. Depois, enchia-nos o porta-bagagens e dizia quanto era. Mais tarde passámos a comprar ao vizinho lá da ponta da rua. Esse vinha na sua camioneta e descarregava um monte de lenha. O meu marido perguntava quanto era e pagava. Era a olho, não havia pesagens. Mas era mais lenha e mais barata do que a daquele lugar sinistro.

Agora acontece-nos o contrário: deveríamos era vender lenha.


Tanto desramamos as árvores que não sabemos o que fazer a tanta lenha. E como o meu marido, ao fim de horas de desbastes, acaba por já nem ter braços para cortar mais lenha, pomos para a fogueira ramos inteiros, alguns cujos troncos dariam bons bocados para a salamandra e para a lareira.

Tirando isso.

Este inverno está outra vez sem vergonha nenhuma, todo ensolarado. Dizem que vem aí alguma mudança de tempo mas, para já, o que vi foi sol, temperatura amena e flores arrebitadas como se já fosse primavera.


Agora estou a ver um filme português, The Kiss. Aqui as alternativas não são muitas. Acabo por ver coisas que, de outra forma, não veria. 

Aliás, passo o tempo todo a ver coisas que, por pouco, não via.

A vida pode ser simples. 

E eu encanto-me com coisas simples. Flores perfeitas, cores primárias, os cheiros da natureza, o canto dos pássaros, um gato que se esgueira, um fumo branco ao longe, a tranquilidade de uma consciência limpa.


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Abri o YouTube e, como sempre, é com curiosidade que vou à espreita do que ele tem para me sugerir e, como sempre, há sentido de oportunidade nas escolhas do meu amigo : um bailado com Polunin e logo com uma coreografia fantástica. 

Não sei se é coisa que deva dedicar a todos os meus Leitores ou a um em particular. Enfim, cada um de vós que o tome como seu.

Narcisse


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O mundo em guerra e nós continuamos a dançar


Não é que goste especialmente da Lana Del Rey ou que ache as canções que ela canta umas obras de arte. Mas acho que os as montagens a partir de filmes estão bem feitas e que a sua conjugação com as canções está interessante. Eu, pelo menos, agora que estou aqui a descansar depois de mais uma tarde de árdua labuta campestre, estou a gostar de ver. O fogo na salamandra dá um calorzinho bom, vesti uma roupa também quentinha e, enquanto estou nisto, vou deitando uma espreitadela ao noticiário.

E é bem verdade: passam na televisão imagens tenebrosas do que se passa na Síria e eu, aqui, serenamente ouvindo música e vendo vídeos.

O planeta Terra é habitada por esta espécie que é contraditória, pouco solidária, fútil e louca. Mas talvez haja alguma inteligência nisto tudo.

Mas não sei se há se não há nem me parece que este seja tema que deva ser chamado para aqui.
Portanto, ficamos assim.



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sábado, fevereiro 24, 2018

O conselho a reter é este: não comam o vigário


Os restaurantes todos cheios. Liga-se a reservar e a resposta é sempre esta: Lamentamos mas já não nos é possível, estamos cheios, já não aceitamos reservas para hoje. Todos cheios. É bom sinal. Mas é uma maçada. O do peixe: cheio. O japonês: cheio. O tradicional: cheio. O de street food: cheio. É certo que era sexta-feira à noite mas ser sexta-feira à noite desculpa tudo? 

E é bom que se saiba: restaurantes cheios é bom sinal. E o dinheiro a girar é coisa boa e coisa e tal. E isso tudo. Mas sai uma pessoa da fisioterapia, depois de uma coça na cicatriz e de reestruturexes daquelas em que até o sangue corre em direcção à sargeta, e pensa: sexta-feira que é sexta-feira é cheia de desobrigações e bora lá mas é dar uma esticada e tudo no relax e numa de zen mood... E, na volta, é isto.

Mas pronto, não me queixo que estou de barriga cheia. Manuris e gyros e petisquinhos bons. Nada de maîtres fru-frus, é verdade, mas que importa isso?
O maître grego é para cima da minha idade, usa cabelo comprido em tom de platina, é agordalhado, usa um avental grande muito pouco alinhado e no fim da noite vem sentar-se à porta, de perna aberta, a fumar um cigarro, a pensar nas ilhas distantes e a aspirar o ar fresco que vem do mar.
Mas este foi-me o segundo do dia. No ginásio da fisioterapia, eu a puxar elásticos e aparece-me ao lado um outro igual mas em tronco nu. Olho e nem quero acreditar. Pêlo de alto a baixo e em todo o perímetro. Grande, quase gordo e ostensivamente peludo. Eu a puxar elásticos e ele a fazer o mesmo, naquele descaramento capilar. Tenho que falar com a chefe do serviço a dizer que não devem aceitar pacientes naquela condição. Ou se depilam ou vestem uma bata. Pêlos parciais ainda vá que não vá. Agora uma de tony ramos assim, ali, a despropósito, uma coisa frondosa daquela boa maneira... ele era costas, ele era ombros, ele era peito e barriga, ele era braços... e nas axilas...? -- nunca vi coisa daquela proporção... Parece-me muito impróprio, pronto. Eu a tentar ser boa aluna, concentrada nos movimentos, e com o fisioterapeuta a mandar-me olhar para a frente, para o espelho, e aquele macacão, naquela exuberância pelórica, ali quase ao meu lado a fazer o mesmo. Que confusão que aquilo me fez.
Já, no outro dia, outra situação. Sento-me numa cadeira a fazer roldanas e em minha frente uma senhora muito marquesa e muito donzela sai-se com esta: Até que enfim tenho uma companheira de roldanas... E fez um sorriso beatífico. Depois, enquanto um braço levantava e outro baixava e assim alternadamente, semi-cerrava os olhos como se aquilo a deleitasse. Depois entreabria-os e sorria-me com ar cúmplice. E eu, tentando corresponder e a pensar: deverei sentir-me irmanada...? deverei sentir-me um bff dela? Depois levantou-se, semi-cerrou os olhos para se despedir de mim, fez um sorrisinho angélico ou ternurento, nem sei, e afastou-se como se fosse nas nuvens.
Mas, pronto, voltando ao grego. Ao restaurante, mais concretamente.

Não me apareceu nenhum frangote oferecido, nenhum galaroz tentador, nenhum pato bravo, nenhum peru emborrachado, nenhum porco amansado, nenhum boi de estimação. Nada disso. Muito menos servidos em travessa com o pó mal limpo. Certo que há arquitectos na família mas a verdade é que não seja por isso e, de resto, frescuras não é comigo. Tiropitas, manuris, frutos secos, licor de vinho doce, carne grega (não sei de que bicho e prefiro nem pensar nisso). E depois iogurte com mel e nozes. Tá-se. Ou melhor: Teve-se. Do verbo tar, bem entendido.

Na mesa atrás de mim, dois belos exemplares masculinos mas só com olhos um para o outro. E eu só os tinha para quem estava à minha frente pelo que não sei quem mais lá estava. Vigário não vi nenhum. Mas, se estivesse, já sabia que não devia prová-lo. Ouvi bem o conselho. Mas, de qualquer forma não me tentaria. E não porque pudesse estar fora de prazo mas porque, a mim, padres só dos que cantam canto gregoriano. Gostos.

E pronto. Por ora, nada mais a acrescentar. Só que, ao contrário da senhora do restaurante abaixo, acho que não é provável que eu volte a engravidar. De um vigário, pelo menos, não. 



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E queiram, por favor, descer para testemunharem uma conversa privada entre dois ilustres juízes
Nao é coisa que se faça mas, em tempos de voyeurismo, q s f.

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Conversa privada entre dois juízes


Numa era em que a justiça é das áreas mais mediáticas da sociedade, com juízes a contas com a dita, ex-bastonárias a assombrarem as alegrias alaranjadas, ex-ministras da justiça todas louras e revoltadas, guardas prisionais sob suspeita -- e isto já para não falar das barraquinhas quotidianas da procuradoria -- o que tenho a dizer é que se percebe que esta malta, quando se encontre em privado, tenha muito desabafinho a fazer, muita fofoquinha a desfiar. Pudera, tanto o stress no exercício da função, tantos os telhadinhos de vidro e tanta miúfa de cair em desgraça junto de alguns dâmasos desta vida que, mal largam o expediente, logo soltam a franga que têm dentro deles -- e o primeiro profissional da área que nunca o tenha feito que atire a primeira pedra.

O caso que aqui se refere não se passa cá mas juraria que a situação não conhece geografias e que o que aqui se vê, se vê em todo o lado. E a mim só não me dá o que pensar porque há muito que me deixei disso. 

Juízes diferentes

(Não percebo. Diferentes em quê? Diferentes de quem?)



sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Afinal acabo sempre por falar de ti


No balanço geral poucas coisas ficarão. Poucas. Claro que depende do tempo que haja para as enumerar.

De vez em quando lembro-me daquele momento um bocado assustador e do qual já aqui falei. Tinha saído da autoestrada e, para entrar numa estrada nacional, descia-se uma estrada de inclinação considerável até uma rotunda e da rotunda saía-se, então, para a estrada.

Quando iniciei a dita acentuada descida, percebi que tinha ficado sem travões. Eu a carregar no pedal e nada. O carro era daqueles todos cheios de electrónicas e com travão de mão inexistente pelo que fiquei sem saber a que me agarrar. Tudo aquilo se passou numa ínfima fracção de tempo. O carro descia desabaladamente e eu só tive tempo para pensar que a coisa ia acabar mal já que a rotunda estava sempre cheia de carros e camiões. Quando o carro chegou à rotunda percebi que podia passar entre carros desde que entrasse para dentro da rotunda. Passando desenfreadamente pelo meio do trânsito, galguei a rotunda, que era alta, e, nesse instante ocorreu-me que ia entrar pela chapa do monumento que estava a meio e que, se calhar, ia ser degolada. E pensei que podia estar a viver os meus últimos instantes e, nessa infinitésima fracção de segundo, pensei que nem tinha tempo de pensar capazmente nos meus filhos e no meu marido. 

O tempo que durou não se compara com o tempo que estou a levar a fazer a descrição. Foi um tempo de nada. Ínfimos segundos. Tudo tão rápido e, no entanto, deu para acontecer tudo o que aconteceu. Quando o carro embateu no alto passeio da rotunda, dispararam os airbags e foi um estrondo mas coincidiu com o estrondo do carro ter ido de encontro ao monumento e a uma árvore que estava ao lado, ficando entalado, inclinado, quase ao alto. Entretanto, encheu-se de fumo. Tudo ao mesmo tempo e a coincidir com aqueles breves pensamentos.

Não senti medo. Talvez porque não tenha tido tempo. Apenas constatei: Se calhar vou morrer. Ponto. E nem tenho tempo de pensar nos meus amores. Ponto.

Mas logo a seguir, com o carro ao alto, cheio de fumo, pensei: Olha. Não morri. 

E a seguir: Estarei bem?

Mas de imediato: Se calhar é melhor sair não vá este fumo querer dizer que o carro vai explodir.

Com dificuldade consegui sair do carro.

Olhei para mim, olhei para as minhas mãos, e pensei: Olha, parece que estou inteira.

E estava. Por uma sorte milagrosa, estava bem. 

A seguir fiquei com o peito dorido, as mãos e os pés também doridos, tenho ideia que roxos. Mas nada de especial. E isso foi depois. Naquela altura não tinha nada.

Começaram a parar carros, pessoas a virem a correr ter comigo, toda a gente a dizer que eu devia ir ao hospital. As pessoas deviam achar que o meu bom estado era aparente, que, se calhar, por dentro estava desfeita. Sosseguei-as, estava bem. Mas o carro não. O carro estava completamente espatifado (o seguro declarou perda total). E eu, ali ao lado, no meio da rotunda, inteira e de saltos altos, também inteiros. E só pensava: Ainda bem que não morri. É que nem tempo tinha tido para pensar capazmente nas pessoas de quem, em condições decentes, deveria fazer uma despedida mental como deve ser.

Mas agora imagine-se que, um dia com calma, me ponho a enumerar os momentos bons da minha vida, aqueles que quereria que estivessem sempre frescos na minha memória.

Claro que aí constaria o nascimento dos meus filhos que, por eu não querer anestesias nem cesarianas e por serem partos complexos, foram coisas do caraças pelas quais passei cheia de dores e exausta mas que acabaram em bem, proporcionando-me o presenciamento maravilhoso do milagre de assistir a duas pessoazinhas a saírem de dentro de mim. E constaria o casamento dos meus filhos, momento emocionante, eles, cheios de boas esperanças e de futuro, a iniciarem o seu percurso de vida. E constaria a suprema e redobrada alegria de os ver felizes com os seus próprios filhos, meninos queridos do meu coração. Mas constariam também as paixões intensas que vivi. E teria lugar de relevo o primeiro beijo trocado com aquele que se instalou feito um posseiro dentro do meu coração. O primeiro e tantos outros, tantos loucos momentos de paixão.

No balanço geral o que fica de verdadeiramente importante são os momentos bons passados com aqueles que amamos, os momentos em que a emoção nos envolveu de forma positiva e feliz, os momentos de carinho, de partilha, de motivação e realização. Fica o amor. Fica a paixão. Fica o sonho. 




Aqui de novo estou, cantiga, neste
lugar de eleição onde retomo a escrita.
É um vagar premeditado, no regresso ao corpo,
em demorado gosto de bebida dupla. Reparo: a carga
das palavras, canga difícil para quem
deste modo quer fazer o mosto. A poesia
já regressa, por entre cortinados e veludos,
e o quarto, a sala, os corredores, o vão
da escada, ressoam com os seus passos,
afinal tão leves -- a neve no soalho,
difícil no silêncio. Dizia do regresso: assim
desfaço os nós do medo: floresta e engano,
areal distante. Sorris e tudo é novo.
Sim: acabo sempre por falar de ti.



O poema é Afinal acabo sempre por falar de ti de Eduardo Guerra Carneiro in 'Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos', organização de José Mário Silva

A primeira fotografia provém do The Guardian onde dela consta a seguinte legenda:
  • Elinor Carucci’s Kiss, 2017
This image was commissioned for the viral New Yorker article Cat Person by Kristen Roupenian. Carucci is an Israeli American photographer whose previous work on motherhood gained her much acclaim
Photograph: Elinor Carucci/Courtesy of the artist and Edwynn Houk Gallery, New York and Zurich
A segunda e a terceira: 
  • Flores
Fotógrafo: Robert  Mapplethorpe


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A minha filha, logo que acabei de escrever, enviou-me uma sms perguntando-me porque ando a falar tanto de morte. Disse-me para eu bater na madeira. 

Não me tinha apercebido.

Mas hoje não é de morte que falo. Falo de balanços. Balanço geral. Não de balanço final. E balanços gerais a gente pode fazer todos os dias, mesmo sentindo-nos cheios de vida. Balanços a gente pode fazer para deitar fora da cabeça o que não presta e deixar florir o que é bom. Balanços a gente pode fazer apenas para pôr as coisas numa linha do tempo e perceber que tem que relativizar o que não interessa. Hoje é disso que falo. Do que é importante na vida.

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E a propósito

Façamos amor, não muros -- segundo David LaChapelle, com Sergei Polunin



E viva a vida.

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quinta-feira, fevereiro 22, 2018

O grande amor da vida de Alejandra Fierro Eleta, aka Gladys Palmera



Cheguei à fisoterapia e, na fase das máquinas e antes da tareia que o fisoterapeuta me deu, foi uma luta para não dormir. Momentos houve em que cedi e deixei mesmo de sentir passar o tempo. Ainda com a toalha do calor húmido no ombro e nas cervicais, apercebi-me que ele estava a chegar com pezinhos de lã e, deitada na marquesa, dei um pulo. Na verdade, acordei sobressaltada. Ele riu-se: 'Não queria assustar... vim pé ante pé...'. A seguir atirou-se-me à cicatriz do tendão que rompeu e fez-me sofrer até mais não. É a falta de elasticidade dessa malvada que me provoca restrição e dor em alguns movimentos. Num momento em que eu quase guinchava, riu-se de novo: 'Estou a tentar fazer amizade'. E eu, entredentes: 'Não da forma mais convincente'.

Agora estou outra vez dolentemente vendo os vídeos que o meu querido algoritmo do YouTube tinha para me sugerir e mal me tenho acordada. Devia ir dormir, eu sei, mas é uma forma de ter este bocado de dia para mim depois de ter tantas horas a contrariar a minha vontade e a dar de mim mais do que, por vezes, penso que tenho para dar.

Mas, então, com isto de estar meio a dormir, pareceu-me que era a história de uma mulher que tinha 100.000 peças de latim. Pensei: deixa cá ver como é uma verdadeira maluca encartada que isto de passar a vida atrás de coisas em latim é do além. Pensei em livros, em folhetos antigos, em cânticos -- e, às escondidas, a ideia agradava-me. Pensei num namorado que, em tempos, tive. Andava a aprender latim, ele. Eu encantada com a racionalidade das calculatórias e ele no latim. Imagine-se. Mas, para ele, aquilo acabou por ser um castigo. Ensarilhava-se nas declinações, foi até para um explicador. Não sei se hoje ainda saberá ler trechos em latim mas essa ginástica deve ter-lhe sido útil para as declinações do alemão e para tudo o mais que fez a seguir e que envolveu toda a espécie de poesia em todas as línguas possíveis e imaginárias.

Fui, portanto, atrás deste engodo. Falso engodo.

Mal vi com atenção, percebi: tratava-se de música latina. Nada a ver, pois, com o que eu tinha imaginado.


Ainda assim deixei-me ficar a modorrar na contemplação de tão grande pancada. Mas gostei. Tudo organizado, toda a casa estruturada em volta deste gosto. E que casinha... É preciso ter-se um confortável desafogo financeiro para se ter tal casa, tal colecção. E que coisas engraçadas ela tem pela casa. Há pessoas que, de facto, conseguem encontrar um motivo de interesse que as mobiliza de forma absorvente, passando a sua vida a girar em torno desse prazer. São forçosamente pessoas felizes.
Alejandra Fierro Eleta, aka Gladys Palmera, has had an affinity for Latin music ever since she was a little girl. After spending a year in Panama at the age of 18, she took her love of music to the next level, beginning to collect LPs from some of her favorite musicians. Today, the Gladys Palmera Collection has grown into one of the largest, most comprehensive libraries of Latin music in the world, containing over 100,000 pieces of music.

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E queiram, por favor, comprovar que, apesar de ter comemorado hoje o seu 85º aniversário (nada de mais: quase isso tem a minha mãe e mais do que isso o meu pai), Nina Simone está viva e bem viva.

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E eu assim: "Caraças. Mas afinal ainda está viva...? Mas como...? Do além, isto..."


Ia no carro. Nada de mais: parte dos meus dias são passados dentro do carro. Mas a gente habitua-se a tudo e tem dias em que acaba por ser bom. Vou deslizando na cidade, ouvindo música. De vez em quando, como que acordo e penso: 'Não dei por nada. Apanhei trânsito? Vim em piloto automático?'. Olho em volta: tudo normal. Se vim a dormir acordada, pelo menos não fiz estragos.

E vou andando. Antena 2. Agora também o Fernando Alves nas manhãs da TSF. Se a coisa amorna num ou noutro, espreito a Smooth, pode calhar uma boa onda.

E isto para dizer que, de manhã, ia andando num pára-arranca, ajeitando o retrovisor para ver se o esfumado das pálpebras superiores estava devidamente subtilizado, depois a ajeitar o cabelo que tinha saído de casa ainda meio molhado, quando ouço que a Nina Simone fazia 85 anos. Só não dei um salto real porque estava com o cinto de segurança apertado mas um salto mental dei: Caneco! Mas ainda está viva...? 

Dei voltas à cabeça. 

Estarei a fazer confusão com alguma que já esteja do lado de lá há que carradas...? Mas com qual...? Mas que coisa... Juraria que se tinha finado vai para cima de uma data de anos...

Na rádio continuavam a traçar-lhe a biografia e, mais à frente, Nina Simone que é isto e aquilo, que é uma defensora de não sei o quê -- tudo no presente. Para me aquietar, pensei: Na volta, isto é daquelas modas jornalísticas. Agora, na volta, dá-lhes para pôr tudo no presente

Continuavam passando músicas, contando peças: E no dia em que Nina Simone, nascida Eunice Kathleen Waymon, faz anos, etc, etc, etc. 

E eu, sentindo-me embrutecida, pensava: Mas será isto alguma forma de demência, senhores? A mulher mais do que viva e eu a achar que já estava morta há para cima de uma dúzia de anos.... Caraças.

Até me ocorreu uma coisa horrível: 'Na volta um dia descubro que o Bernardo Sassetti também está vivo...' e lembrei-me do dia em que, também no carro, ouvi que tinha caído de uma ravina, que tinha morrido. Nesse dia, o meu espanto e desgosto foram imensos. Pensei: 'Não, não vai acontecer. O Bernardo não... Mas, quem diria?, a Nina Simone viva...'

Pois foi equívoco de perna curta. Vinha eu, à noite, de novo dentro do trânsito mas desta vez um trânsito fluido quando ouço: 'Faria hoje 85 anos'. Levantei as orelhas. Confirmei: Faria. Já não faz.

Afinal, estava com os anjos fazia tempo. Pior para ela mas menos mal para mim que, afinal de contas, ainda não estou maluca de todo.

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Mas agora aqui em casa, tranquila, ouvindo Mr Bojangles, percebo aquilo que de manhã, ainda mal acordada, não tinha percebido: Está viva, sim. Nina Simone está viva e bem viva.

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quarta-feira, fevereiro 21, 2018

O porco mais bonito do mundo


Carnaval da Vitória é o porco mais bonito do mundo. Meu pai que lhe trouxe no sétimo andar onde a comissão de moradores é reaccionária porque não quer porcos no prédio e o camarada Faustino tem kandonga de dendém e faz kaparroto a cem kwanzas cada búlgaro. Primeiro o nome dele era só Carnaval. Depois que a gente ganhou a vitória contra o inimigo o nome ficou Carnaval de Vitória. O inimigo é um fiscal fantoche ladrão de porcos que lhe denunciámos no prédio onde ele ficou na vergonha. Carnaval da Vitória é o porco mais bom do mundo porque quando veio na nossa escola a camarada professora deu borla.

O meu pai é um reaccionário porque não gosta de peixe frito do povo e ralha com a minha mãe. Ele é que é um burguês pequeno mas diz que Carnaval da Vitória é um burguês. Por isso lhe quer matar só por causa de comer a carne. Carnaval da Vitória é revolucionário porque quando meu pai bateu em mim e no meu irmão Zeca ele lhe quis morder. Nós não vamos deixar matar Carnaval da Vitória porque a luta continua e o responsável da comissão de moradores não sabe as palavras de ordem que os pioneiros é que lhe ensinam. E a camarada professora é muito boa porque deixa fazer redacções que a gente quer e até trouxe na escola o primo dela Felipe que veio tocar viola dentro da nossa sala. 

Ruca Diogo


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Antes do Seckou Keita a tocar Mikhi Nathan Mu Toma, o que se viu foi um excerto de 'quem me dera ser onda' de Manuel Rui, a incrível paixão de dois miúdos sonhadores por um porquinho numa Luanda em guerra (e que tem na capa uma daquelas ondas a la Malomil)

A fotografia do porquinho a enfeitar o texto é, obviamente, coisa minha: como é sabido padeço de pyctorica aguda pelo que post sem imagens é coisa rara, só acontece quando receio ferir a sensibilidade ocular de algum supositício esteta.


NB: Só aqui # links = 3  (lá está: mereceram)

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Já é coisa datada, coisa muito do blogo-fricote e, pior, tão déjà-visto que não se aguenta, mas, para quem esteja virado para o registo Maria, queres saber das últimas fofocas no eremitério?, permito-me sugerir o post abaixo, de seu nome Faz de conta que é uma tentativa light de exercício de restauração da homeostasia no egossistema de uma ignorante birrenta [Por uma vez sem exuberância pictórica]

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Faz de conta que é uma tentativa light de exercício de restauração da homeostasia no egossistema de uma ignorante birrenta
[Por uma vez sem exuberância pictórica]


Enquanto vejo na RTP 1 a conversa entre dois bacanos, o MEC e o Bruno Nogueira -- no momento, a falarem da diferença entre betos, queques e os aristocratas (com o Pedro Santana Lopes à mistura) -- aproveito para despachar o expediente do dia. 

Ora bem, vamos lá.

Penso que há por aí, pairando no éter, algumas magnas e perturbantes questões. Não carece. Cá estou eu, Sta UJM, para as diluir: 

1. Não recebe links quem quer mas quem merece. Li por aí, a um blogger que agora se apresenta com um vistoso carapuço enfiado, que gostava de receber um link meu. Terá que se esforçar muito mais para merecê-lo. Apesar de detectar nele um um certo estilo vidrinho que chega a ser ternurento, estilo esse que, não raro, anda associado a uma baixa auto-estima, acredito que consiga lá chegar. Força!

2. Homeostasia é capaz de ser prática inócua tal como dizem que anestesia também é. Mas eu até de epidural tenho medo pelo que está bem, está. Só se tiver mesmo que ser mas, para já, não vejo que seja fundamental.

3. Pseudo-intelectualismo ou elitismo são território acolhedor para pseudo-intelectuais e elitistas. Estão lá como peixe na água. Acho eu de que. Pelo menos, vejo-os todos felizes da vida a debaterem cenas e a babarem-se com as tiradas de uns e outros. Como não sou nada disso, estou fora. Só se fosse com alguém verdadeiramente maluco. Capaz de isso ainda ter alguma graça. Agora não é por andar aos tiros nos pés e de carapuço enfiado que se é verdadeiramente maluco pelo que repito: estou fora.

4. Exuberância pictórica soa-me bem e se associado ao que faço ainda melhor. Se puder ser apenso a isso que escrevo o que me sai à primeira, sem amadurecimento nem consulta, num exercício diletante e narcisista* então é que nem ginjas. 

[* Li por aí que, de acordo com Sigmund Freud, o narcisismo é uma característica normal em todos os seres humanos. Está relacionado com o desenvolvimento da libido (com o desejo sexual, eros). E mais não digo.]

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E penso que é tudo. Qualquer dúvida mais, cá estou.

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terça-feira, fevereiro 20, 2018

Logo hoje havia de acontecer isto. Caneco!



Por razões que não vêm ao caso, estou num local onde não consigo escrever livremente e em condições. Praticamente nem luz nem rede tenho. E juro que estou a falar a sério. Caraças, estou mesmo. Os deuses resolveram conspirar contra mim. Só pode. Ou não. Às tantas é uma medida prudencial. Na volta é isso... Sabendo-me danadinha por uma boa brincadeirinha, devem ter resolvido impedir-me de me manifestar até ter tempo de contar até dez triliões. E eu já estou a fazer de conta que conto: um, dois, três, quatro, cinco... mil, mil e um... dez mil, dez mil e um, dez mil e vinte... (estou a saltar umas casas a ver se chego lá mais depressa). 

Não dá. Logo hoje.

Cá para mim isto que me aconteceu é aquilo de deus pôr a mão por baixo dos marroezinhos e dos burrinhos. Os santinhos zeladores devem ter achado que eu estava naqueles meus dias de me atirar à jugular dos incautos que se me atravessassem pela frente (sem ser por mal, claro, just for the fun of it) e, não fosse fazer para aí alguma vítima, arranjaram maneira de me pôr encostada às boxes, apeada, sem meios.

Entretanto, vou fazer de conta que já vou no milhão e um, milhão e trinta e cinco, dois biliões e quarenta e nove... para ver se os deuses que estão ali na moita a conspirar acham que já estou suficientemente zen para não sair por aí a dar cabo de algum indefeso burrinho. 

Ah, espera lá, aquilo do ditado não é com burrinhos, é mesmo é com deus pôr a mão por baixo das crianças ou dos borrachos. Lá está. Deus deve estar com medo do que eu possa fazer a algum rapazola que por aí ande tentando armar desacato. Engano. Engano dos deuses. Qual mal... eu? Eu não. Eu sou pacífica, light, very light, e estou sempre cá na minha, uma miradinha ao espelho de vez em quando a ver se a maquilhagem está no ponto, uma receita de culinária de quando em vez, umas larachazitas inócuas a propósito de uns eruditozitos que por aí andam pavoneando o rabiosque, uma desanda aqui e ali num Láparo, num Valtinho, num ou outro cagãozito de meia tigela. De resto, qual quê? Zen, tranquilinha, toda dada a cortar mato e a podar árvores, musiquinhas celestes, coisinhas assim.

Vá lá, Santa Susana, Santa Cecília, Santa Copélia, Santa Doménica... liberem-me, deixem-me escrever. Preciso de luz, preciso de rede em condições. É que, aqui, nem velas tenho para chamar todos os anjinhos a ver se me deixam ter condições para brincar como me apetece. Caneco. Até parece que vim parar a um eremitágio. Não dá para acreditar. Só visto. É o que dá eu ser uma pecadora. 

Mas pronto. Vá, confesso. Confesso tudo. E estou arrependida. E prometo passar a trabalhar, a estudar, a só voltar aqui quando for para mostrar muito estudo, muito trabalho, muita citação, muita cultura da pesada. E a bater a bolinha baixo. E a nunca mais me meter com os delicocoisos de pacotilha. Vá, confesso, prometo. Vá...

Dois biliões trezentos e cinquenta e sete mil e um, dois biliões trezentos e cinquenta e sete mil e catorze...


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NB 1: Se eu tivesse um fio de luz que não apenas o que provém do ecrã desta coisa, uma rede que não fosse mais do que a pedal e tivesse condições para escrever com um mínimo de condições, explicava a que propósito vem isto já que a maioria dos meus Leitores não deve ser como eu que perco tempo a ler toda a espécie de  infantilidades. Assim, limitada como estou, poupo a pouca energia desta gaita apenas para me lamentar de não ter condições para o fazer em grande estilo. Se é que o grande estilo neste caso não seria mal empregado... Mas, enfim, noblesse oblige. É que, de vez em quando, parecendo que não, a nossa alma caridosa sente-se confortada por atirar uma ou outra perolazita.

NB 2: Claro que isto não é nenhuma resposta. Caso alguém ache que o carapuço lhe serve e se apresente com ele enfiado, só faz é bem pois ficará, certamente, mais composto.

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Aquela lá em cima, no meio de espelhos -- que se vê a milhas que é uma exibicionista e uma narcisista com um insuportável ar de chata -- não sou eu, é a Kate Moss. Lamento. 

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segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Dois momentos que me marcaram




Contei-o uma vez e, deliberadamente, tentei fazê-lo de uma forma vagamente abstracta. Decorreram uns anos. Sinto-me mais apta a contar agora com maior objectividade, pelo menos tanta quanto a minha memória o permita.

Estávamos a fazer uma caminhada à beira-rio. Era de noite, estava frio e vento, as águas eram ruidosas ao bater contra as muralhas e as correntes que prendiam os barcos ao cais rangiam furiosamente.

Eu fotografava os reflexos das vagas luzes nas águas batidas e as pequenas luzes tremeluzentes nas casas ao longe; e o meu marido, não querendo estar parado, foi seguindo. Faz isso muitas vezes: ganha-me distância e depois volta atrás para me apanhar e puxar por mim. Nessa altur,a eu tinha deixado de vê-lo. Não estava ninguém por perto naquela noite fria. 

Então, quando começava a afastar-me do cais, pareceu-me ouvir uma voz vinda do rio. Assustei-me pois a voz parecia-me vir das águas, de um lugar onde não havia sequer barcos.

Olhei em volta, procurando o meu marido mas não o vi. Um pouco a medo, aproximei-me da muralha de onde me parecia vir a voz. Ouvia-se mal, as ondas batiam com força. Ali a muralha é inclinada. Fui-me aproximando. Ouvi, então, distintamente: 'Ajude-me...'. Uma voz de mulher. Aproximei-me, baixei-me. Com dificuldade consegui perceber, então, lá em baixo, dentro de água, uma mulher, a cabeça tentando manter-se fora de água mas sendo permamentemente submersa pela força da ondulação. Estendia os braços para a muralha, tentando segurar-se. 

Disse-lhe: 'Estou aqui. Vou ajudá-la'. Olhei em volta a ver se via alguém. Ninguém. Tentei ligar ao meu marido. Não atendeu. Com o telemóvel no bolso e com o barulho do vento não ouviu. Debruçada, disse à mulher: 'Tente agarrar-se. Vou à procura de ajuda'. Fui a correr ver se descobria alguém junto aos barcos, a ver se alguém tinha cordas. Ninguém. Até que vi dois homens. Pedi-lhes ajuda: 'Está uma mulher dentro de água. Preciso de ajuda'. Os homens foram a correr comigo. Entretanto, vinha o meu marido que veio também logo ver o que se passava. Tentaram ver se conseguiam descer a muralha mas era impossível, escorregavam. Ela chorava. Durante todo esse tempo fui falando com ela. 'Estou aqui, não tenha medo, vai tudo ficar bem'. Algum deles ligou para os bombeiros. E eu: 'Já aí vêm os bombeiros, tente agarrar-se, força, estamos aqui, não lhe vai acontecer nada, não tenha medo'. Por entre o barulho da água contra a muralha ouvia-se o seu choro. 

Chegaram os bombeiros. Atiraram cordas, ela não tinha força, devia estar exausta. Os bombeiros desceram pelas cordas e trouxeram-na. Era uma mulher de uns quarenta e tal anos. Encharcada, enregelada, tremia, chorava. Deitaram-na na maca, envolveram-na. Perguntaram-lhe por alguém da família. Chorando, trémula, falou no marido. Não se lembrava bem do número. Fui eu que liguei. Enervada com a situação, sentindo-me atrapalhada por não saber como dar uma notícia daquelas: 'Já está tudo bem mas a sua mulher caíu à água mas está tudo resolvido, já foi resgatada e vai ser levada para o hospital'. O homem não mostrou nem surpresa nem grande preocupação. Pelo menos foi o que me pareceu mas, claro, posso ter-me enganado. Afinal, o telefonema durou um breve instante. Disse: 'Está bem. Vou para lá'. Enquanto os bombeiros faziam as manobras de a virar, de a auscultar, tapar, registar o meu contacto, etc, ela esteve sempre de mão dada comigo. A mão estava gelada e toda ela tremia. Perguntei-lhe: 'Mas como aconteceu...?'. Ela apertando-me a mão e chorando ainda mais disse: 'Sou tão infeliz...'. Depois pediu-me: 'Venha comigo... não me deixe... ajude-me... sou tão infeliz'. Fiz-lhe uma festa e disse-lhe: 'Vai tudo ficar bem'.

Não me deixaram ir na ambulância.

Liguei para o hospital e disse que ia chegar uma mulher, e disse o nome dela, que eu suspeitava que tivesse tentado suicidar-se. Disseram-me que estivesse descansada, que teria acompanhamento especializado. 

Algum tempo depois, voltei a ligar e perguntei por ela e se o marido lá estava. Disseram-me que sim, que já estava com o acompanhamento que situações assim requerem e que sim, o marido já lá estava.

Não fui lá. Pensei que os técnicos de saúde saberiam lidar com a situação melhor do que eu e que a minha presença apenas poderia introduzir confusão. Mas a voz dela a chorar e a dizer-me da sua infelicidade não me sai da cabeça.

Pouco tempo depois, de noite, estávamos a atravessar da Ponte 25 de Abril, quando vimos um vulto sobre a vedação, notoriamente na posição de quem está a pensar atirar-se. Mas, dada a velocidade a que o carro ia, só o assimilámos já o carro estava bem mais à frente. Ficámos apavorados mas percebemos que seria preferível pedirmos socorro do que pormo-nos nós a correr na ponte, podendo assustar a pessoa e precipitar as coisas. O meu marido acelerou e, num ápice. chegámos à casa da Lusoponte. A funcionária estava ao telefone e eu gesticulei, gritei: 'Está uma pessoa em cima da ponte! É urgente!'. Ela com ar de quem lida com uma banalidade disse: 'Já foi accionado o alarme.' E eu, em pânico, 'E já foram para lá?' e ela, 'Sim, claro, descanse' E depois, com um certo enfado. 'Gostam muito de se empoleirar na ponte'. Pelo tom e pelas palavras percebi que não era coisa rara. E tudo aquilo me fez muita, muita impressão. Alguém atravessa a noite com vontade de pôr fim à vida.  Momento único e decisivo. E aquela outra pessoa que ali está todos os dias vê isso como um acontecimento banal e não fica em pânico, aflita como eu estava.
Agora, em especial à noite, quando passo a ponte, vou sempre com atenção. E durante muito tempo, sempre que íamos andar à beira-rio, passávamos por aquela muralha, com medo que estivesse lá alguém e que não a ouvíssemos.
Não sou dada a balanços ou a pensamentos muito aprofundados (especialmente porque intuo que não há maneira de atingir as profundezas da mente pelo que todos os esforços serão sempre escusados). Mas, às vezes, se me dá para aflorar, ainda que ao de leve, isto de se tentar perceber qual o sentido da vida, da minha em concreto, dou por mim a pensar que, para além daquilo da propagação da espécie e de ter ajudado a fazer um bosque frondoso onde antes apenas havia mato e pedras, se calhar devo acrescentar este facto -- que me emociona sempre -- de talvez ter ajudado a salvar duas vidas. E junto ainda as palavras simpáticas de Leitores que dizem que as minhas palavras os têm ajudado em momentos mais difíceis da sua vida. E, por tudo isto, acho que tem valido a pena viver.


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Lembrei-me de escrever isto depois de ter transcrito o prefácio de Agustina sobre o Al Berto (que não se suicidou mas em quem ela via a presença de um certo desacerto com a realidade).

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Elegante demais para viver




(...)

Nestas páginas vemos bem, como uma sombra clara, a figura desse rapaz elegante demais para viver.

Eu vi-o pela primeia vez, num sofá de hotel, em França, penso que foi. Tinha um ar infantil e doce de quem espera protecção. O cachecol branco acentuava a requintada pose sem ser pedante. 

Vinha de casas grandes, avós ríspidos e ricos, férias no parque, qualquer coisa assim. Era tão bonito e apaixonado que se via logo que nada daquilo ia ter qualquer arranjo com a realidade.

Para mais, faza poesia.

O espelho que o acompanhava sempre era como o caixão que a Sara Bernardt levava para toda a parte. Servia-lhe de moldura para a morte.

Há pessoas que contratam um suicídio logo que nascem. Há um prazo para comparecerem, seja pelo efeito duma doença, ou dum desastre. Não pensam sequer em faltar, dar desculpas, atrasar o relógio. Vê-se-lhes nos olhos que obedecem a um prognóstico perigoso, o prognóstico da infância perdida.

Basta ler os relatos de Al Berto, tão bem acentuado na biografia-tese feita por Golgona Anghel, para ver que a pele dele ficou em partículas arrancadas pelos espinhos das flores daquele jardim da avó inglesa. O que restou foi um corpo em carne viva que teve que suportar o crescimento e a idade adulta. Mas trouxe com ele as brutais alegrias da criança, as curiosidades obsessivas que o fazem seguir passo a passo o vulto de Genet, de quem ele esperava revelações obscuras, febres de desejos obscuros, práticas de um sexo alvoroçado e sedento. 

Essa infância persegue Al Berto, enrola-se-lhe nas pernas como um cão que corre doido de prazer. Ele não pode viver como um homem; não tem lugar no mundo, nem carreira, nem amor para com nnada; é um especto de si próprio, um espelho sem reflexo nenhum. É um Dorian Gray por dentro.

Eu própria fico aflita de o ver tão feliz chegar ao jardim inglês. A felicidade é uma coisa que começa mal; não pode ser servida em quantidades tão grandiosas, ter os perfumes das rosas e dos lilases, o sol nos olhos, nas tardes frutuosas de segredos como Al Berto viveu. Aí está tudo; depois é o caminho ligeiro para a morte.

(...)

Cativante e errante num mundo sujeito a outras versões da felicidade que lhe não serviam e que ele ignorou.


[Excerto do Prefácio de Agustina Bessa-Luís ao livro 'Eis-me acordado muito tempo depois de mim', uma biografia de Al Berto, de Golgona Anghel]

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eis-me acordado
com o pouco que me sobejou da juventude nas mãos
estas fotografias onde cruzei os dias
sem me deter
e por detrás de cada máscara desperta
a morte de quem partiu e se mantém vivo



[De Al Berto, O Medo]






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[Fotografias feitas este domingo in heaven]

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domingo, fevereiro 18, 2018

Recebi um mail da Autoridade Tributária a lembrar que o mato é para ser cortado mas, como aqui posso provar, já estamos a dar cabo dele.
Isto em dia de Congresso do PSD com as traições, bajulações e encenações típicas do mais do que ultrapassado mundo laranja.
E isto também em dia de confirmação do inqualificável Bruno de Carvalho à frente do Sporting.
[Este é mesmo um mundo cheio de coisas desencontradas, umas boas, outras burras e outras completamente malucas].


Senti que o meu marido se levantou ainda de noite. Voltei a adormecer. Passado um bocado veio dizer-me: 'O homem já lá anda'. Arranjei-me, tomei um rápido pequeno almoço e, armada com a máquina fotográfica, dirigi-me apressadamente para lá. 


Pelo caminho reparei no orvalho, fina rede de névoa sobre as folhas secas, entre ramos. Em Serralves, na véspera, tinha visto vários trabalhos de Marisa Merz cobertos por fina rede em tom acobreado. Pensei: mais bonito o acaso ou a ordem natural das coisas que depositou tão delicado e efémero tule sobre as folhinhas in heaven.

Quando cheguei lá ao fundo, ao pé do portão que dá para a serventia, tirei uma fotografia ao terreno do lado de lá, sabendo que provavelmente não voltaria a ver aquela barreira de vegetação. 


Fui ter com o homem. Ainda relativamente novo, alto e encorpado, e, percebi-o depois, cem por cento asssertivo. Disse-lhe: tente poupar as árvores. Resposta dele, com ar afirmativo: Vou tentar poupar as azinheiras maiores, algum carrasco que esteja mais enformado. Mas preciso de espaço para a máquina circular e para ir pondo o mato cortado. Andar a escolher árvore a árvore, só à mão e, para isso, vocês iam precisar de um ano. Ainda insisti: Mas tente não cortar o que puder ficar. Resposta dele: Vou fazer o melhor mas a lei diz 'árvores espaçadas de quatro em quatro metros' -- e lá foi ele à sua vida.

Fui ter com o meu marido, preocupada: acho que se prepara para deitar tudo abaixo. O meu marido tranquilizou-me: deixa-o trabalhar, esta malta sabe o que faz, e é bom que fique limpo para ser fácil de manter.

Ele estava a cortar, em pedaços para a lareira, os troncos grandes que tinha cerrado ao cedro e, depois, a arrumá-los no abrigo que fica a meio caminho; e eu fui podar árvores.

Passado um bocado, foi ver como estava a correr a limpeza e, na volta, foi ter comigo para me dizer: o gajo diz que o melhor é ir-se já queimando mato, diz que com a máquina vai controlando. Fui espreitar. O mato cortado era já uma montanha imensa. Receei. E se aquilo se propaga? O meu marido, que já tinha dito que sim ao homem, voltou a tranquilizar-me: o gajo sabe o que faz.


E logo se ergueu uma enorme labareda que crepitava intensamente. E, ao longo de todo o dia (e foram mais de dez horas de trabalho, apenas interrompidas à hora de almoço), ele foi pondo mato na fogueira.

Aos poucos, o terreno foi ficando desarborizado. O vizinho lá de baixo, que tem um terrreno muito grande e muito bem cuidado e que confina em parte com o nosso, também tirou a semana de férias e andou todo o santo dia de roçadora ao peito, limpando o terreno dele e pondo o mato na nossa fogueira. O vizinho lá do fundo da rua veio ver algumas vezes. Andava entusiasmado. Nunca tinha visto aquele terreno tão limpo, nem sabia que era assim. E apareceram dois homens (separadamente) que tinham sabido que estava ali uma máquina a limpar o mato e que queriam contratar o destemido condutor para ir limpar o terreno deles.

E digo destemido porque é mesmo destemido: meteu-se com a máquina numa zona de acentuado declive e fez para ali umas manobras que eu reecei que a máquina desse uma cambalhota lá para baixo. E, no fim, fez cavalinho com a máquina para sacudir a terra das lagartas.


Já anoitecia quando se foi embora. Enviei uma fotografia aos meus filhos. O meu filho respondeu: parece um deserto. Mas a verdade é que não desgosto. Os meninos vão gostar de brincar neste bocado de terra que parece que cresceu in heaven

Tal como O Jumento, tembém eu recebi um mail com uma comunicação do Ministério da Administração Interna e do Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural sobre a necessidade de limpar os terrenos. Como somos donos de parcelas rurais, parece-me muito bem que seja emitido este alerta. Limpar os matos parece-me um dever cívico. Sempre o foi, não é de agora. Mas a verdade é que a falta de divulgação ou a falta de insistência pública ou a nossa pouca conscencialização colectiva, não sei ... parece que tudo convergia para que não nos apercebessemos do muito que temos a fazer. Tomara que toda a gente faça a limpeza dos seus pedaços. O pior é que, pelo que sei, metade dos terrenos não está cadastrada e, portanto, está ao deus dará. E é aqui que reside o problema. Ao contrário do que alguns débeis mentais pareciam pensar, as desgraças que aconteceram não foram da responsabilidade da Ministra Constança (que Marcelo forçou à demissão): os brutais incêndios do verão tiveram mão criminosa, foram fogo posto, e avançaram como lava sobre a vegetação ressequida num verão quente e seco como poucos, em terrenos de que, em parte, não se sabe a quem pertencem. Mas, enfim, a verdade por vezes é menos interessante do que novelas de tipo mexicano.


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Tirando isso, o Congresso do PSD. Caras gastas, ressequidas por muitos anos de caciquismo laranja. Do pouco que vi, várias figuras do pior que o cavaquismo e passismo tiveram continuam a ter todo o protagonismo. Até aquele insuportável Fernando Costa lá estava a botar faladura. Não se aguenta.


E os comentadores do costume a especularem sobre nulidades sem ponta em que se pegue. Tudo tão déjà-vu.

Montenegro a quem nunca se conheceu ideia que se aproveitasse resolveu fazer de conta que é um puro e, como se estivesse a bater a porta, avisou que vai ganhar a vida para outro lado. E logo ali se levantou um coro de espanto e, sobretudo, de tema para debate e comentário. 


Depois, oh suprema afronta, Rui Rio, essa fera, resolveu desafiar as hostes passistas e pescou a Elina Fraga para sua vice-presidenta, e isto depois de ela, quando bastonária, ter movido um processo ao Governo do Láparo e de ter feito a cabeça em água a essa ministra extraordinária que foi a exemplar Paula Teixeira da Cruz. Traição!, já gritou esta. E o inteligente Hugo Soares, apanhado de surpresa à saída da sala, mostrou que ainda nem está nele, até perdeu a pose de putativo estadista e, enquanto dava a entrevista, pôs-se a coçar a cabeça --  e a única coisa que lhe ocorreu foi dizer que a dita Paula foi do melhor que há. Então não, ó menino huguinho, inho, inho,

E isto tudo depois de Passos Coelho, ressabiado e mostrando que ainda não percebeu nada de coisa nenhuma, ter discursado sobre as vacuidades do costume e, de caminho, ter avisado que é difícil dizer mal da so called Geingonça. E depois de Santana ter elogiado Rui Rio, ao qual agora já detecta bastas virtudes e depois do dito Rui Rio ter elogiado o Láparo, que nunca houve tão grande e tão bom líder, que tudo o que fez fez bem feito,  e ter sossegado as virgens e as puras do seu partido, jurando a pés juntos que centrão nem pensar, que isso é coisa de anjos a pensarem em sexo. Talvez no encerramento da coisa até faça a vontade ao Hugo Alexandre Soares (a quem mimosamente gosto de tratar por Hugalex), e anuncie já que, ah leão!, vai votar contra o OE 2019. 


E, por falar em leão, parece que o inqualificável Bruno de Carvalho -- que envergonha todos os sportinguistas que conheço -- voltou a ganhar (não sei o quê) e que vai continuar a infectar o ambiente leonino. Não percebo nada nem de futebol nem do mundo do futebol. Diria eu, que conheço montes de sportinguistas e todos gente decente, que jamais uma criatura como este Bruno de Carvalho poderia ser presidente. E, no entanto, é.


Lá está: é bom a gente, de vez em quando, olhar para estas realidades para perceber que nesta vida tudo é relativo -- até as verdades. E que chatos, gente datada, burros, oportunistas, chicos-espertos e malucos é o que há mais.

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E pronto é isto. Permitam que vos recomende agora uma ida até à Flâneur, a nova livraria do Porto.

Flâneur, a livraria


Gosto de flanar. Sou do género turista acidental -- ver por ver, ao acaso, sem saber onde os passos me levam. Se vou passear para algum lugar, não sou do género de pessoa que, antes, se prepara exaustivamente, que estuda tudo o que há a ver, que sabe onde se come o quê e por quanto, que bate aos pontos os autóctones sobre a história de cada monumento ou edifício. Nada. Posso dar uma vista de olhos a vol d'oiseau sobre alguma informação mas não de modo a que, ao andar por lá, corra o risco de não estar disponível para ceder de improviso.

Flâner, em francês. Passear sem propósito, sem pressa.

Posso dizer que sou uma flâneuse. Com uma máquina fotográfica na mão para melhor atender aos pormenores ou aos ângulos de visão que proporcionam a melhor perspectiva, sem pressa, sem rumo, assim gosto eu de andar pelas cidades.

Assim também a ler. Leitora não estudiosa, não sistemática, sem nunca anotar nas margens, sem nunca aprofundar temáticas, sem dissecar frases ou temas para descobrir influências, sem sacrificar o prazer da leitura ao rigor da análise, sem a disciplina de leituras completas ou não evitando leituras intercaladas. Flâneuse também na leitura.

Foi, por isso, com imediata empatia que soube da existência de uma pequena livraria no Porto com esse nome. Flâneur. Um nome feliz para uma livraria de bairro no centro de uma grande cidade. Que é ao pé da Casa da Música, que é de um casal muito simpático, que é uma livraria muito tranquila, com um ambiente de livraria de bairro -- isto foi o que me disseram.



Almoçámos no restaurante da Casa da Música, uma comidinha boa, jazz por companhia, num 7º andar onde se acede ao terraço dos azulejos que ontem mostrei e de onde se tem uma bela vista sobre a zona da Boavista.


E, de seguida, estômago confortado, lá fomos. Ruas de pequenas casas, de pequenos prédios. Por detrás de uma das zonas mais centrais e movimentadas do Porto, está-se numa zona de ruas quase sem trânsito, muito pacata

De fora, mal se vê. O meu marido: 'Eu não disse? Deve ser daquelas coisas...Estou mesmo a ver.'. Não comentei para não estimular as piadas.

Foquei-me, antes, num poema escrito no vidro da porta. Manuel António Pina (que também tem lá dentro o 'seu' espaço).

A livraria é um pequeno espaço (pequeno se se comparar com as Fnacs ou Bertrands desta vida) mas um espaço luminoso, muito agradável. Há largueza, bom gosto e há, sobretudo, boa visibilidade para as obras expostas.


Sentada a uma mesa, a jovem que presumo que seja a Cátia e, ao balcão, de pé, o Arnaldo. Sorridentes, afáveis. Um ambiente zen.

Éramos os únicos clientes. Depois chegou um senhor que conhecia a livraria de um anterior espaço e que estava todo contente por vê-los ali, que estavam melhor, e por ver bicicletas, uma novidade. Vi depois, no site, que se pode encomendar livros e que, no perímetro do Porto e arredores próximos, é o Arnaldo que os entrega de bicicleta.


Enquanto cirandava pelas estantes, a Cátia analisava encomendas e validava com o Arnaldo se seria de oferecer ou cobrar os portes. O ambiente é, pois, naturalmente informal.

Estava à espera que o meu marido começasse a segredar-me que estava mesmo à espera que fosse uma coisa assim e que só eu é que meto na cabeça fazer tantos quilómetros para ver uma pequena livraria de bairro. Não gosta de estar em lojas em que somos os únicos clientes e em que, sabe-se lá porquê, parece que temos que sussurrar para não perturbar os vendeores. Mas, curiosamente, não disse nada e esteve a ver os livros.


Trouxe os livros que abaixo vos mostro, presumo que se trate de fundos de colecção já que os preços eram muito baixos. Paguei pelos cinco livros creio que trinta e picos euros. E de uma coisa poderão os meus Leitores estar certos: se eu morasse no Porto ou por lá perto, não deixaria de passar assiduamente pela Flâneur.


E daqui desejo as maiores felicidades à Cátia e ao Arnaldo: que a Flâneur se torne uma livraria de referência no Porto.

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sábado, fevereiro 17, 2018

Um homem acariciava o grande peixe que tinha ao colo
-- Isto na casa do lago, perto do prado onde uma vaca pastava tranquilamente como se não estivesse no meio da cidade --



No meio do lago, uma casinha de vidro. Escura. Lá dentro o homem tem ao colo o peixe grande. Afaga-o. O peixe recebe as carícias, respirando com alguma dificuldade. O homem abraça o peixe com ternura.

Digo: 'Que coisa maluca. E o peixe nem se mexe'. O meu marido responde: 'Querias o quê? Fora de água.'


À volta do lago, o jardim cresce para os lados e para cima, jardim bonito. Em alguns socalcos ele é oriental, noutros ele é francês, noutros ele é muito british e é perfumado e íntimo.

E lá mais ao fundo há um relvado mas não é relvado, que relvado é frescura de golf ou de jardim de princesa: aqui é erva, é pasto. E ao fundo há um celeiro. E a vaquinha anda descansada. Ela não sabe de trânsito nenhum, não sabe de prédios altos e de barafundas. Nem sabe de pinturas, esculturas, instalações, não sabe de peixes grandes ao colo de homens carinhosos ou tarados, não alinha nisso de discussões sobre o valor da arte. Sabe só que se está bem. 


Explico melhor.

Antes do jardim, houve o museu.  A exposição. Fotografei mas afinal tinha deixado o cartão no computador, as fotografias ficaram na máquina, e agora não tenho aqui cabos nem nada que me permita tirá-las de lá. 

De resto, também não ia falar. Não sou crítica de arte. Se gosto, falo, gosto de elogiar. Se não gosto assim tanto, prefiro não dizer nada. Não sou entendida e tenho que admitir que, se os entendidos e o 'mercado' em geral valorizam, é porque algum valor tem. E gostei de um ou outro. E assim-assim de outros. E nada de muitos outros mas isso é problema que é meu.
Espanto-me com a a gastação de prosa com que alguns mimoseiam outros. O Alf do Elogio da Derrota, que escreve bem que se farta e tem montes de graça e que é insolente de dar gosto, gasta a sua inspiração e talento em textos longos a criticar os críticos e os maus escritores, com isso cansando a minha beleza. O agora incensado Luís Miguel Rosa escreve textos chatíssimos, daqueles que parecem os discursos de oito horas do congresso americano, em que diz mal de meio mundo e onde, pelo meio, tece considerações em que mostra que é letrado -- e meia bloga cai-lhe aos pés; mas eu não que, se acho que a minha vida é curta demais para gastar um dia inteiro fechada no Louvre, imagina se ia gastar essas tantas horas a ler longas e chatas prosas (e agora até em inglês) do jovem que faz babar os eruditas e os eremitas e faz ranger os dentes ao Alf que não gosta de concorrência. Nem pensar.
Portanto, olha lá se ia eu, leiga e rústica, desdobrar prosa frouxa e ignorante para falar da obra de Álvaro Lapa. 
Mas dos trabalhos de Marisa Merz gostei de alguns. De outros não. Uns quantos têm qualquer coisa de Chagall. O meu marido é menos polido que eu. Disse dela: 'Uma vida inteira a fazer coisas para as quais não tem jeito'. Censurei-o. Falta de alma sensível.

Mas pronto, o gosto é subjectivo. 

Fomos para o jardim, que o jardim nunca desilude. Aí tirei fotografias com o telemóvel. Tão bonito. Olho agradada, com vontade que o meu heaven um dia seja assim, árvores a roçar o céu, tudo muito frondoso, verde e húmido, com obras rodopiantes ao vento, com uma ordem discreta e elegante.


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E só depois fomos à procura da livraria. 

Como este sábado temos que madrugar porque o senhor da máquina ameaçou estar a postos para limpar o terreno lá ao fundo, do lado de fora da vedação, logo ao nascer do dia (e claro que tenho que estar disponível para me atravessar caso pretenda arrasar mais do que o suposto). Por isso, pode acontecer que apenas chegue à livraria durante o dia de domingo

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PS:

 Enquanto escrevia, passava na televisão a reportagem sobre o Rio Rio, o Passos Coelho e o Santana Lopes no congresso do PSD. Não vou comentar. E nem é uma questão de disposição. É que tudo aquilo me parece vazio, destituído de interesse, uma seca. Portanto, não estranhem que passe ao lado

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E caso estejam para isso, queiram, por favor, descer para verem parte do que os meus olhos viram durante o dia.

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