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terça-feira, junho 30, 2026

Madonna mostrou os objectos maravilhosos que tem em casa mas aquele em que eu mais reparei foi no seu novo rosto

 

Aqui há uns tempos, a propósito de coisas de nada, umas três ou quatro pessoas disseram-me: 'Não julgo o livro pela capa mas...' e continuaram, dizendo mal de alguém. Como em todos esses casos se tratava de pessoas que consomem mais Insta do que literatura, admito que tivesse sido expressão que tivesse estado viralizada durante essa altura.

Mas agora, ao ver esta menina aqui abaixo, no lindo estado em que agora se metamorfoseou, foi só o que me ocorreu. Parece mesmo que está a pedir que a gente diga: 'Não julgo o livro pela capa, mas benza-o deus, a menina mais parece um boneco de plástico... e que objectos maravilhosos é que um boneco de plástico pode ter...?'. 

Ou seja, sinceramente, tomada pelo preconceito, fiquei até com medo da bugigangaria que, na volta, invadiria a sua casa. Objectos especiais? Nem imaginava, vendo o que ela fez a ela própria.

Afinal tem uns Frida Kahlo que, caraças, não me importava nada de ter também. Não sei se não se perdem ali, mas, enfim, cada um albarda a casa à sua vontade.

Mas, tirando essas pinturas, em especial a primeira, e talvez a colcha que uma das filhas fez para lhe oferecer, acho que não houve assim nada que me desse vontade de também ter. As esculturas de pénis não me parecem nada de especial. Muito déjà-vu, nas Caldas é o que não falta. 

Tirando isso, nem sei que mais, digno de relato, lá vi. Mas, na volta, não vi porque estive foi a tentar decifrar o que é que ela fez a ela própria. Ruga, nem uma. Mas também não mexe. Os olhos parecem ter sido ali colocados, meios enviesados. O nariz parece um objecto externo. A boca também mal abre. E depois a toilette e o cabelo... Não sei que diga.

Era uma pessoa tão irreverente, tendencialmente autêntica, e agora parece sei lá o quê. O que é que passa pela cabeça destas pessoas para se deformarem a este ponto? Perdem a noção? E a sério que não estou a dizer isto numa de crítica destrutiva, é mesmo uma dúvida que tenho. Será que embarcam numa de se esticar dê por onde der e perdem a noção de que estão é a ficar uma caricatura de si próprias?

Ou sou eu que vivo num outro planeta e já estou orgulhosamente só no grupo em via de extinção das dinossauras que não se esticam, não se insuflam, não se injectam, não se liftam nem se peelam (peelam de fazerem peeling, tal como liftam de fazerem lifting)? Pois não sei.

Mas vejam se gostam. 

Na casa de Madonna em Londres, repleta de objetos maravilhosos | Vogue

A lendária artista e estrela da capa da Vogue Itália, Madonna, abre as portas da sua casa em Londres para a Vogue mostrar alguns dos seus objetos mais preciosos. Começando com um autorretrato de Frida Kahlo, Madonna conta uma história incrível sobre a sua primeira chegada a Nova Iorque e o sonho de possuir esta obra de arte. Exibe também um terço de madeira que pertenceu à sua mãe, uma escultura desenhada pelo seu filho, uma manta de croché feita pela sua filha e um polvo de peluche com um profundo significado pessoal.


Desejo-vos uma boa terça-feira

sábado, junho 27, 2026

Casas com livros

 

Hoje, por cá, foi dia de ponta. E, ao dizer isto, de novo, só me apetece gozar comigo. A mesma pessoa que tinha reuniões de manhã à noite, que tomava decisões com impacto na vida de muita gente ou relativas a negócios de milhões, agora chama dia de ponta a uma vulgar sexta-feita em que as tarefas se reduzem a ir às compras, arrumá-las, pôr a roupa a lavar e estendê-la, trocar parte da terra de alguns vasos e adubá-la, regar, cozinhar para hoje e para amanhã, ir ao ginásio, passear o cão, rever umas prosas -- tudo coisas deste simples calibre. Mas a verdade é que foi o dia todo a fazer isto, fazer aquilo, ir aqui, ir acolá, sem tempo para me sentar ao sol a ler nem por um bocadinho.

Continuo sem um pingo de saudades da minha vida profissional. Gostei muito, sentia-me motivada todos os dias mas, ao fim de décadas, senti que já chegava, que precisava de me libertar das amarras dos horários, das obrigações, do stress de ter que estar permanenetemente a tomar decisões, da prisão que a responsabilidade constituía. E continua feliz, deslumbrada mesmo, com esta minha vida actual.

Mas antes, durante a semana, não almoçávamos em casa, pouco estávamos em casa. Portanto, tinha muito menos compras para fazer, menos refeições para preparar. Agora é uma coisa que me espanta e que, de certa forma, me complica com os nervos: passo a vida a ter que comprar fruta, legumes, iogurte, queijo, peixe, carne. E mil outras coisas. Uma canseira. E, vivendo num apartamento, não havia nada dos trabalhos que hoje temos relacionados com o jardim, e que são permanentes. E não tínhamos cão. Se hoje não o tivéssemos não teríamos os nossos dias tão preenchidos (a todos os níveis) como hoje temos, e adoro, mas o pretexto que nos dá para ir passear com ele é, ao mesmo tempo, um hábito que consome tempo (e, desejavelmente, calorias). 

Resultado: agora ao fim do dia, o meu marido foi buscar o jogo de futebol que só tarde e más horas percebeu que tinha dado.... e, para mim, o som dos jogos de futebol é melodia para adormecer. Dormi profundamente. Só espero que agora não me faça ter insónia na cama.

Mas tinha ideia de ter começado um livro e não consegui. Já tenho várias pilhas de livros espalhadas por vários cantos. Aborrece-me arrumar nas estantes livros que ainda não li, tenho sempre a sensação de que livro arrumado é livro desaparecido, sugado pelos restantes. Mas isso traduz-se em desarrumação.

Estive a ver a casa que aparece no vídeo que aqui partilho e gostei imenso. É o oposto da minha. A minha casa tem cores, é pouco monocromática, e tem alguns pequenso focos de bagunça. Esta que aqui se vê é uma casa tranquila, elegante, muito organizada. A biblioteca é fantástica. Não há nada que dê mais vida a uma casa do que os livros. Uma casa na qual não se veem livros revela que lá dentro há pessoas com a cabeça um bocadinho oca. Acho eu.

Uma bonita casa de campo inglesa repleta de livros e achados vintage | Tour pela casa

Entre numa casa de quinta da década de 1750, maravilhosamente restaurada, na Cornualha, onde a jornalista que se tornou instrutora de Pilates e amante de livros, Christen Pears, criou um lar acolhedor e cheio de personalidade, com design vintage, tesouros colecionados e milhares de livros.

Após anos a viver no estrangeiro, Christen e o marido regressaram ao Reino Unido e transformaram esta histórica quinta de 1750 num refúgio acolhedor e cheio de personalidade, com mobiliário escandinavo de meados do século XX, materiais reciclados, tesouros colecionados e renovações cuidadosas.

Desde a icónica parede com livros de bolso da Penguin e a lareira original do século XVIII à encantadora despensa, ao jardim florido e à deslumbrante biblioteca no celeiro, cada recanto reflete um estilo de vida mais lento e intencional.

Situada na zona rural da Cornualha, a propriedade inclui ainda casas de férias, um estúdio de Pilates, hortas e espaços concebidos para encontros, leitura e para se desligar do ritmo frenético da vida moderna.


Desejo-vos um bom sábado

sábado, maio 23, 2026

Uma casa portuguesa, com certeza

 

Como muito bem sabe quem por aqui me acompanha, gosto de arquitectura, de decoração, de jardins e, em geral, de casas.

Esta que aqui poderão ver é uma maravilha. Mas é uma maravilha por muitas razões -- pelo espaço em que está implantada, pela reconversão do espaço, pela sobriedade, pela elegância, pela beleza de alguns apontamentos -- e ainda por mais uma: é em Portugal.

Os donos, que também são responsáveis pelo projecto de recuperação e pela decoração, já estiveram de visita aqui ao blog creio que mais do que uma vez. Talvez por isso, isto ainda chamou mais a minha atenção. É que o trabalho que já conhecia deles é por bandas bem longe daqui. 

Mas, para melhor contextualizar e para perceberem o meu espanto quando percebi que têm esta casa tão incrível em Portugal, e, sobretudo, quando um deles diz que é português e que os pais são portugueses, fui pesquisar. E transcrevo a informação que o Gemini compilou para mim :

Nate Berkus e Jeremiah Brent são dois renomados designers de interiores americanos, personalidades da televisão e, além de parceiros de negócios, são casados. Tornaram-se um dos casais mais famosos do mundo do design e da cultura pop, conhecidos por transformarem casas com um estilo elegante, funcional e cheio de história.

Aqui está um resumo sobre quem é cada um e o trabalho que fazem juntos:

Nate Berkus

Nate Berkus (nascido em 1971) ganhou fama internacional nos anos 2000 como o designer de interiores queridinho da apresentadora Oprah Winfrey, aparecendo regularmente no The Oprah Winfrey Show.

Estilo: Seu trabalho mistura o clássico com o contemporâneo, incorporando muitas peças vintage, antiguidades e objetos que coleciona em suas viagens pelo mundo.
Carreira: Além de gerenciar sua própria firma de design (fundada aos 24 anos), ele lançou linhas de produtos de grande sucesso para lojas como Target e Living Spaces, e escreveu vários livros bestsellers sobre decoração.

Jeremiah Brent

Jeremiah Brent (nascido em 1984) começou sua trajetória na moda antes de migrar definitivamente para o design de interiores. Ele ganhou destaque na TV ao trabalhar com a estilista Rachel Zoe no programa The Rachel Zoe Project.

Estilo: Seu estilo é conhecido por ser altamente Texturizado, focado na arquitetura do espaço, misturando o minimalismo com o luxo de forma acolhedora.
Carreira: Ele fundou a Jeremiah Brent Design (JBD) com sedes em Los Angeles e Nova York. Em 2024, ele alcançou um novo marco na carreira ao se juntar ao elenco de designers do aclamado reality show Queer Eye, da Netflix.

O Casal e Projetos Juntos

Nate e Jeremiah começaram a namorar em 2012 e casaram-se em 2014, no prestigiado New York Public Library (sendo o primeiro casal do mesmo sexo a se casar ali). Têm dois filhos: Poppy e Oskar.

Juntos, eles transformaram a parceria de vida numa marca poderosa na televisão e no mercado editorial:

Programas de TV: Estrelaram juntos vários programas de reforma de casas, incluindo Nate & Jeremiah By Design (no TLC) e The Nate & Jeremiah Home Project (na HGTV). Também competiram no reality Rock the Block. 

Mas aqui fica o vídeo em que, para além de gozarem com a sua própria homossexualidade e de se divertirem com picardias mútuas, fazem uma visita guiada pela propriedade.

Por dentro da quinta portuguesa de Nate Berkus e Jeremiah Brent | Porta Aberta | Architectural Digest

A AD é recebida por Nate Berkus e Jeremiah Brent para uma visita à sua quinta restaurada com muito carinho em Portugal. Quando o casal de designers de interiores comprou esta quinta com 400 anos, esta estava em ruínas, mas, com muito amor e dedicação, transformaram-na na casa dos seus sonhos para várias gerações da família, ligando-os às raízes portuguesas de Jeremias. Combinando o design rústico com interiores modernos, a quinta é agora um paraíso europeu completo, com cabras, ovelhas e pavões.


Desejo-vos um belo sábado

sábado, abril 18, 2026

Velharias? Ou antiguidades?

 

Por vezes sinto saudades de quando não me preocupava com encher a casa de tralha inútil. 

Sempre gostei muito de decoração, de ter a casa à minha feição, de me rodear de objectos que me parecem especiais.

Aquela lojinha de velharias que havia não muito longe do meu emprego era uma tentação. Comprei lá vários objectos que me encantavam. Um leque antiquíssimo, uma caixinha para guardar cartas. Até uma cadeira que foi arranjada pelos meus pais, até um espelho grande que está agora no meu quarto, até um candeeiro. Ou o galo pintado numa madeira que descobri num antiquário em Amesterdão. Ou objectos que descobria em lojinhas que vendiam peças artesanais. Ou uns copinhos de vidro que desencantei em Les Halles, em Paris, e que levaram o meu marido ao desespero pois não apenas achava que não faziam qualquer falta (e tinha razão, nunca foram usados, continuam o que sempre foram, lindos e apenas decorativos), como não queria andar com peças que se partissem e que obrigassem a muitos cuidados no avião. 

Via peças que me agradavam muito, achava que ia ser mais feliz se me rodeasse delas. E era verdade. Mas depois veio um tempo em que percebi que não podiam estar todas expostas senão a simples operação de limpar o pó tornava-se um inferno. Passei a ter móveis com portas de vidro. 

Quando nos mudámos para esta casa, foi feita uma grande limpeza. Alguns móveis ficaram na cave e, com eles, muitas peças. A minha filha, que é muito mais minimalista que eu, deitou mãos à obra e simplificou o quanto pôde. 

Nunca mais comprei nada. Aliás, só uma muito bonita talvez há mais de um ano. De cada vez que me deixo tentar, penso: 'Vou pôr onde?". E como não quero ter nada ao monte, desisto.

Contento-me em ver vídeos como este que abaixo partilho. Em lugares assim, eu ficaria mil vezes tentada, coisas tão bonitas. Não são velharias, são peças com alma, com uma beleza intemporal.

O que um designer profissional compra nos melhores mercados de antiguidades de Londres | Architectural Digest

Hoje, a AD acompanha o designer de interiores Ross Cassidy pelo Mercado de Portobello Road e pelo Mercado de Antiguidades Alfies, em Londres, enquanto partilha dicas de especialistas sobre como encontrar joias escondidas e tesouros vintage como um profissional experiente. Descubra como comprar antiguidades, decoração vintage e peças únicas para a casa que cabem na sua mala e aprenda dicas de estilo de especialistas usando prata, bronze, arte e iluminação para elevar qualquer divisão.


Desejo-vos um bom sábado

terça-feira, março 24, 2026

Mostra-me a tua casa, dir-te-ei quem és

 

Se no post abaixo abaixo falo da natureza, tão múltipla, tão vibrante, tão divinamente perfeita, e da tocante afinidade que Sir David Attenborough reconhece na expressão de sentimentos entre os macacos, aqui falo de algo muito distante, bem mais comezinho: os objectos que uma pessoa tem na sua casa e que, de certa forma, revelam a sua natureza.

Já falei muitas vezes no assunto. Para mim, estar em casa de alguém pode ser uma experiência simpática mas também pode ser muito hostil. 

Casas escuras em que o pavimento é escuro, as portas escuras, os móveis e os sofás escuros, os azulejos das cozinhas cor de café com leite ou com motivos escuros, tudo é escuro (excepto a casa de banho que é cor de rosa ou verde reluzente), deixam-me atrofiada. Ou casas em que as paredes são maioritariamente vazias e depois, a meio, geralmente mais acima do que devia, está um quadro, por vezes pequeno, por vezes (a meu ver) de mau gosto, ali perdido, deixam-me desconfortável. Ou casas com colchas com folhos e cortinados de cetim, tudo às cores, com almofadas de cetim, também com folhos, em cima da cama, deixam-me incomodada. Nem falo no terror que é ter uma boneca em cima da cama, mas isso, felizmente, ao vivo nunca presenciei. Não consigo conceber como se consegue viver numa casa assim, imagino que isso torne as pessoas infelizes. Ou, então, é porque são infelizes que têm a casa assim. Não sei.

Nem consigo imaginar como se consegue viver numa casa cheia de tralha, carradas de objectos, uma casa impossível de manter arrumada ou limpa. 

Uma vez contei aqui que tinha ido a casa de uma pessoa, um familiar que tinha mudado de casa, tinha mudado de mulher, tinha mudado de vida. A casa foi desenhada por ele, enorme, com múltiplas divisões, algumas ocupadas com os seus objectos de colecção. E vim de lá perdida. Nessa noite quase não dormi, tal o pesadelo. Por todo o lado coisas. Imaginem (e vou dar um exemplo): colecção de relógios. Uma sala enorme, mas mesmo enorme, com relógios de toda a espécie e feitio: de pé, de parede, de móvel, de bolso, de pulso. Muitos, de vários estilos, de várias épocas, de várias marcas. Expositores, vitrinas, tudo cheio. Até relógios de estações de caminho de ferro. Uma coisa inimaginável. Ele feliz da vida. E eu a pensar: mas como é que se limpa isto? Não limpa, é impossível. Ou, lá está, um daqueles pensamentos peregrinos e escusados: um dia que morra, como é que os filhos dão conta de tudo isto? Não dão. Impossível. E, contíguo a esse espaço, havia um ainda maior com outra colecção, peças vindas de todo o mundo, uma coisa que mais parecia um museu. E não vou aqui entrar em detalhes e falar de todas as colecções e de toda a vastidão que é aquele espólio porque, enfim, é um familiar, pessoa estimável, e há sempre o risco de alguém o identificar e achar que estou a ser injusta. Se calhar estou. O dinheiro ali investido nem dá para imaginar e, até por isso, há que valorizar. Mas eu gosto de espaço, de ar que circule, de oxigénio, de luz. Sentir-me-ia apavorada se tivesse que viver ali ou, pior, se estivesse incumbida de manter aquilo limpo. Eu que detesto limpar o pé porque quando limpo é peça a peça, tudo tirado para fora, para limpar por trás e por baixo, não saía dali com vida. No entanto, nitidamente isso não era tema de preocupação nem para ele nem para a mulher. Dá ideia que quem tem muita tralha, colecções infinitas, só pensa em descobrir a peça alemã (é um exemplo), tecnologia xpto, feita no ano de mil novecentos e troca o passo, modelo raro, e vai fazer de tudo para a arranjar, custe o que custar. Não pensa que não precisa dela, que já não tem onde pôr tanta coisa especial, que qualquer dia haverá zonas em que não vai conseguir-se meter um pé e que nem vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, dariam para limpar tudo como deve ser.

Mas isto para dizer que sou muito sensível a uma decoração equilibrada, com apontamentos alegres, talvez inesperados, pontos de cor, espaço para circular, espaço para descansar, espaço para ler.

De manhã, abro as minhas janelas, deixo que a luz entre, deixo que o ar circule. O meu marido, no inverno, zanga-se: 'Queres que a casa fique gelada?' e vai fechar os vidros. Mas as persianas ficam até acima. E todos os móveis estão dispostos de modo a que não haja obstáculos: o ar, a luz, as pessoas e o cão -- tudo pode deslocar-se à vontade. E há cor e, espero eu, beleza.

Bella, pintada pelo pai, Lucien Freud, em 1987
[Note-se que agora, tantos anos depois, parece mais jovem e mais leve do que quando o pai a pintou]


A casa de Bella Freud, que o algoritmo do Youtube hoje me mostra, é, sem surpresa, uma casa muito agradável. Espaçosa, bonita, com elementos que têm uma história, com contornos de boa disposição. Gostei de ver e espero que também seja do vosso agrado.

Por dentro da casa eclética desta designer em Londres, repleta de objetos sentimentais | Vogue

A residência da estilista de culto Bella Freud, no oeste de Londres, está repleta de detalhes divertidos que refletem o seu círculo eclético de amigos e colaboradores. Enquanto nos guia pela casa, Bella fala sobre o seu falecido pai, o seu bisavô (o lendário Sigmund Freud), exibe uma miniatura dourada da mão de Nick Cave e muito mais
.


E queiram descer um pouco mais caso queiram conhecer a história do Pablo

terça-feira, março 03, 2026

Shibui

 

Há muitos anos comprei um blusão de pele. É forrado a cetim e tem um feitio intemporal. Sempre gostei imenso de o vestir, sinto-me bem, não é quente nem frio, não é justo nem é largo. Nem é desportivo nem clássico. Portanto, sempre o vesti em qualquer situação.

No entanto, não sei se foi o maluco do cão que, quando era mais pequeno, num daqueles saltos festivos, ferrou o dentinho ou se foi qualquer outro acidente: rasgou-se atrás, um pouco acima do cós. Fiquei passada. Não passada no sentido de zangada, já que acidentes acontecem, mas triste. Pus cola, tentando disfarçar, colando a pele ao forro. Não ficou grande coisa. E acabou por se deslocar e rasgar um bocado mais. Quando o visto, o meu marido diz que já não está capaz. É que, para além do rasgão, o cabedal também já está, em várias zonas, um pouco coçado. Tenho ideia que já a minha mãe também me dizia que o blusão já tinha visto melhores dias e que, se calhar, estava na altura de me desfazer dele.

Contudo, parece que gosto ainda mais dele. Parece que está cada vez mais afeiçoado a mim e eu a ele. E vejo beleza no passar do tempo sobre aquela pele.

Ocorre-me ainda uma outra coisa: há um lugar, in heaven, em que o terreno desce e se encosta à propriedade vizinha, vendo-se para lá e de lá para o nosso lado. Há uns anos imaginei um grande muro que estabelecesse uma barreira visual. Alto e comprido, com várias faces, quase como um grande livro aberto, com folhas desdobradas. A minha ideia era fazer pinturas em cada folha do muro. Poderia ser uma história que se desenrolasse ao longo da superfície ou poderia ser um deslizar de cores em movimento, formas abstractas, subtis. Sonhei com o que lá iria desenhar e pintar. Antecipei o prazer que era, para mim, pintar à mão livre em grandes superfícies. 

Para começar, houve que aplicar primário e, a seguir, umas camadas de tinta branca para que, com a superfície devidamente selada, pudesse, então, partir para as minhas rêveries.

E o que aconteceu é que me apaixonei pelo muro branco. As sombras que lá se desenhavam, as árvores ao lado, os arbustos por detrás, tudo aquilo, na singeleza de um grande muro branco, me parecia muito belo. 

Andei naquela dúvida durante algum tempo: persistir na ideia que me tinha levado a construi-lo ou abdicar dela e aceitar a surpresa da inesperada beleza de uma superfície branca. Ficou assim. Agora a perder cor, com alguns musgos, com aquela patine que acrescenta beleza ao tempo.

E depois há aquelas outras imperfeições que me parecem embelezar e enriquecer os objectos. Vou dar um exemplo do qual já aqui falei algumas vezes. Uma vez fui sozinha, para poder andar com tempo e à vontade, à FIL Artesanato. Já foi na FIL no Parque das Nações mas deve ter sido pouco depois da Expo 98. Saí do trabalho e fui para lá. Tínhamos mudado de casa pouco antes, havia muito por decorar. A feira enorme, cores, criatividade, tudo muito apelativo. Vi coisas giríssimas e fui comprando. Claro que não trouxe tudo aquilo de que gostava mas, ainda assim, muita coisa. Pior: coisas muito pesadas. As coisas mais pesadas, eu pedia para ficarem no stand enquanto ia passarinhar por outros stands. Antes de me vir embora, fui fazer a recolha. Tenho ideia que já eram umas dez da noite, senão mais. Quando me vi com aquilo tudo, percebi o disparate. Pensei que não ia conseguir. Quilos e quilos e quilos. Muitas peças em terracota, espessa, pesada. E peças muito grandes. Não podia deixar cair, senão partiam-se. E quase não conseguia dar passo. Aliás, dava dois passos e parava e pousava tudo. Depois mal conseguia retomar. O carro tinha ficado numa rua perto mas, com uma carga daquelas, era como se estivesse a milhas. Só me ocorria ligar ao meu marido e pedir que me fosse buscar. Mas já era tarde e não ia ficar no meio da rua, rodeada de tralha, assim de noite, para além de que não ia dar-lhe essa colherzinha de chá... 

Mas, não sei como, lá consegui. Cheguei a casa esbaforida, derreada, arrasada, apesar de ter deixado grande parte das compras no carro, para o meu marido lá ir buscar. Escusado será dizer que ficou até assustado com o despropósito de tamanho carregamento. Aliás, já tinha apanhado um susto pois eu nunca mais aparecia e não atendia o telefone. Lá dentro, com o barulho, não ouvia tocar. E, na rua, ajoujada como ia, não tinha mãos para pegar no telemóvel e depois, não sei como, deixei-o cair para dentro de um saco que ficou no porta-bagagem e nessa altura ainda não havia bluetooth. Aquela noite foi um stress do qual jamais me esquecerei

Uma das peças que trouxe é uma senhora a fazer tricot. Andando eu, naquela altura, sempre a fazer tapetes de arraiolos, isto depois do período do crochet e do tricot, achei que aquela mulher era uma bela piada para mim própria. E nessa mesma noite coloquei-a na sala do piso superior. 

Na altura, a nossa cãzinha, a doce boxer cor de mel, estava na flor da sua idade. Dormia na sua caminha, na copa. Geralmente, quando acordava, subia a escada e vinha para o nosso quarto. Mas, na manhã seguinte, acordámos com ela a ladrar furiosamente, como quando alguém tocava à porta. Contudo, o ladrar vinha da sala. Não fazíamos ideia do que se passava, alguma coisa era. Fomos ver, intrigados. 

Estava, então, a ladrar, possuída, aos saltos, junto à senhora que, tranquilamente, fazia tricot. Fartámo-nos de rir. 

Por segurança, tivemos que pôr a nova habitante quase entalada entre um sofá e o móvel-estante, para a proteger, pois a raiva contra o abuso de invasão do seu espaço poderia levar a ex-pacífica cãzinha a atacar a pacífica senhora.

Sempre tive mil cuidados para que não se partisse. Quando mudámos de casa, quase a trouxe ao colo, entre espuma, com receio de algum acidente.

Pois bem... há algum tempo, ao passar por ela, o casaco de malha solto que trazia prendeu-se numa das agulhas de tricot e, pimbas, lá caiu a senhora. Desastre, desastre. Quebrou-se toda. Fiquei cilindrada. Mas por pouco tempo. Resolvi que ainda não tinha chegado a hora dela. Fui buscar cola e tentei recompô-la. Depois, ainda pensei tentar disfarçar as cicatrizes. Mas ficou assim. Acho-a ainda mais bonita, imperfeita, não escondendo as vicissitudes pelas quais passou. 

(ampliem a saia e os joelhos e verão as cicatrizes...)

Quem a veja, pensará que termos, num lugar de tanto destaque, uma peça que se vê que já se escaqueirou toda não tem grande jeito. Mas eu acho que tem.

E, com todas estas minhas particularidades, já concluí muitas vezes que, afinal, se calhar o que há em mim não será tanto uma valente pancada mas uma veia oriental. 

A minha casa não é nada como as casas que no vídeo abaixo se veem, pois resulta de uma vida inteira vivida segundo hábitos ocidentais. Não é uma casa minimalista nem monocromática. Mas, apesar de tudo, é uma casa que privilegia o espaço livre e a entrada da luz. Circula-se abertamente pela casa toda, sem obstáculos. 

E passo a vida a fotografar reflexos, projecções, sombras e luzes vogando sobre os objectos.

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Shibui é a estética japonesa que encontra beleza na simplicidade, na imperfeição e na passagem do tempo. Ao contrário do minimalismo extremo que se concentra no vazio, o Shibui cria riqueza através de materiais naturais, artesanato e uma elegância discreta que se torna ainda mais bela com o passar dos anos.

Principais Características do Shibui

  • Beleza Sutil e Natural: Valoriza materiais naturais (madeira, pedra, algodão) e formas imperfeitas, muitas vezes associado ao conceito de wabi-sabi.
  • Contenção e Moderação: O design é simples, funcional e sem adornos desnecessários.
  • Profundidade: A beleza não é óbvia; é algo que cresce com o tempo e o uso.
  • Cores Neutras: Preferência por tons suaves, apagados ou monocromáticos, como cinza, castanho e branco suave.
  • Elegância Discreta: É o oposto de chamativo; uma sofisticação tranquila. 

O Shibui aplica-se a artes, design de interiores, arquitetura e à vida quotidiana, focando-se no que permanece bonito ao longo do tempo.

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3 regras japonesas para um lar pacífico

Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, abril 08, 2025

A casa da Anitta

 

Como sabe quem por aqui me acompanha, gosto bastante de apreciar belas obras de arquitectura. Tenho tido a sorte de ter visto de perto o que a arte e o engenho dos (bons) arquitectos conseguem fazer. Não apenas sabem apreender o espírito do lugar como o sentir de quem para lá vai. De espaços pequenos, por vezes com 'morfologia' antiquada, conseguem criar espaços amplos, modernos. De espaços 'apáticos' e banais conseguem fazer nascer espaços únicos, marcantes. De espaços que pareciam sem vida e sem nada que os salvasse conseguem fazer lugares maravilhosos de lazer e convívio. E conseguem trazer a luz para dentro de casa em espaços acanhados e sombrios.

Temos a sorte de ter em Portugal grandes arquitectos e temos a possibilidade de poder admirar grandes obras de arquitectura quer a nível residencial ou empresarial quer a nível urbano.

A casa que aqui mostro não tem o tipo de decoração que mais aprecio pois, embora tenha a grande virtude de parecer de fácil manutenção, parece-me um pouco monocromática, um pouco monótona. Mas a arquitectura é qualquer coisa... E a implantação no terreno parece-me uma maravilha. Aliás, o exterior da casa parece extraordinário.

É da cantora Anitta, que não conheço de ver actuar mas apenas de nome. Parece-me humilde e simpática e gosto do painel de azulejos que está na entrada para  ilustrar a vida na favela, as crianças, os anjos que as protegem. E gostei de ver como ela descreve a interacção que teve com os arquitectos. Acomodar as suas pretensões e sugestões dela deve ter sido um desafio e tanto para eles.

A casa de Anitta na encosta da montanha do Rio de Janeiro

 | Open Door | Architectural Digest

quinta-feira, janeiro 23, 2025

Não tenho muito a dizer

 

Hoje haveria vários temas divertidos para abordar, desde a possibilidade de termos um deputado larápio, um upgrade dos que fanam carteiras no 28, até à graça de ter o delfim Musk a criticar no X uma das mega decisões do Trump.

Mas não estou muito para aí virada. Faz um ano que o telefone tocou à noite trazendo a notícia que eu mais temia. E ainda não consigo perceber como é que já passou um ano nem consigo passar por cima deste grande paradoxo que é a vida humana, tão efémera, tão destituída de lógica. E parece que ainda não há muito andava eu a tentar convencê-la a tomar os comprimidos para aquilo que afinal nem era o principal problema, a rebater os seus argumentos sobre efeitos secundários, efeitos esses que, de tão variáveis e tão erraticamente empolados, eu achava que eram fantasia mas que provavelmente era apenas a sua maneira de desviar a atenção do problema sério que ela escondia, provavelmente até dela própria.

E depois há as saudades. A falta.

Mas o tempo corre, a vida continua. É assim mesmo.

Neste momento, mais dois familiares próximos estão internados e eu espero, espero, que se ponham bons. Mas sei que bons, bons, bons como antes, dificilmente ficarão. 

Mas, ao mesmo tempo, novas crianças vão entrando na passadeira rolante, crianças que riem, que brincam, que aprendem. E adolescentes que se estreiam nas artes do amor. Jovens adultos que progridem na sua vida. 

Portanto, há que saber conviver com memórias, com perplexidades, com preocupações, com saudades e com expectativas e esperanças e com alegrias.

Apesar de estar bem consciente disso, hoje não estou propriamente inspirada ou motivada para grandes conversas.

Mas vi um vídeo que me agradou imenso e que aproveito para partilhar convosco. A dona da casa é artista que admiro e com quem simpatizo. E a sua casa é fantástica.

Isabel Teixeira expõe literatura, arte e história em sua casa! | Pode Entrar | GNT

O lar de Isabel Teixeira se resume à história. Seja de seus avós ou de sua própria caminhada, a atriz tem desde o piano de sua avó, passando pelos livros autografados de Guimarães Rosa de seu avô até a fotografia de seus bisavós❣️

Dias felizes.

E não nos esqueçamos que a vida é para viver.

segunda-feira, dezembro 16, 2024

Uma questão de ménage

 

Vou tendo notícias dos meus amigos e vou constatando o óbvio. E só não digo o óbvio ululante porque prefiro não me esticar no vocabulário. Vou manter-me comezinha. E não é que goste particularmente de me ver aqui comezinha mas foi o que me ocorreu. E o óbvio que vou constatando é que hoje é um que tem uma coisa, depois é outro de quem andávamos sem saber e que, afinal, teve uma cena e está internado, num outro dia é uma que é operada às cataratas, e depois é alguém que conta que vai começar a fazer tratamentos. E já nem falo na tristeza que é quando a gente se lembra de alguém de quem já não sabe há algum tempo e aparece alguém que diz, com ar compungido que essa pessoa, infelizmente, já cá não está. Pois é. Não vamos todos chegar aos 120 nem vamos todos de viagem no mesmo dia. Haveremos de ir aos poucos. Mas, felizmente, a maioria ainda está na boa. Mas isto de estar na 'boa' é relativo pois a verdade é que quando não dói aqui, dói ali. Claro que há dias em que não dói nada. Ou, então, dói um bocadinho e a gente cagua nisso (calma, comezinha me mantenho: educadamente interpus um u entre o g e o a -- ah, que sopinha de letras mais gira...).

Como hoje andava a doer-me um bocado o pé, o meu filho disse que eu deveria era fazer mais exercício, que cada vez lê em mais sítios que a massa muscular é fundamental. Não tenho ido fazer deep mix pois estou cada vez mais avessa a compromissos e a horários. Mas, se calhar, tenho que fazer mais do que caminhadas. A lida da casa não é suficiente para não perder massa muscular. 

E, agora que falo em lida da casa, fico a pensar em que mais é que poderei fazer que me fortaleça os músculos. Uma das coisas que me parece que é boa para os braços é varrer. E com aquela coisa que não é ancinho mas que também não é vassoura, raspo a terra onde a relva seca, e isso requer força. E ando com regadores de água. E gosto de lavar coisas. Mas passar a ferro, que também deve dar músculo, praticamente é coisa que já não se pratica cá em casa. E limpar o pó odeio. Mas isso não deve fazer nada à massa muscular. Andar a lavar casas de banho, o chão, roupa, tudo isso é bom para mim. Mas peçam-me para limpar o pó e fico doente. É que para limpar o pó sou meticulosa, reentrância a reentrância, por baixo, por trás, as pernas das cadeiras, das mesas, as traves. Tudo, coisinha a coisinha. E, por isso, levo horas. E odeio, odeio gastar horas de vida com uma tarefa tão sem graça.

Talvez por isso, quando chego a qualquer lado, uma das coisas em que reparo é se é fácil de limpar. No verão estive na casa de uma amiga onde ainda não tinha ido. Estupidamente em vez de louvar a graça dos objectos, o ambiente acolhedor ou a beleza das pinturas, o que me saiu foi: 'Limpar esta tua casa deve ser uma trabalheira...'. Ela riu-se. Acho que nunca tinha pensado nisso. Respondeu: 'Não sei, é a minha empregada que trata de tudo. Desde que me reformei só lhe peço é que não ande com os tarecos à volta enquanto eu estiver a dormir.'

Por exemplo, ao ver a casa aqui abaixo, sem dúvida uma casa fantástica, ainda por cima principescamente decorada para esta época festiva, o que penso é que é casa em que eu não poderia viver: ou teria que andar lá sempre gente a cirandar e a limpar ou, então, aquilo deveria estar sempre carregadinho de pó.

Mas vejam. E inspirem-se.

Inside Richard E. Grant’s Georgian House at Christmas | Design Notes

Richard E. Grant welcomes us into his London home at Christmas. Filled with an abundance of treasures, Richard’s house sits within a walled garden littered with the dark foliage of evergreen topiary and ivy-clad trees, all providing an atmospheric backdrop for the attractive façade of his Georgian house.

“It looks like something that, I suppose, I have fantasised about living in since I was a little boy,” says the Saltburn actor as he sits in the drawing room of his rectory. Watch the full episode of ‘Design Notes’ as we tour Richard E. Grant’s house in Richmond, which has been given a maximalist boost of lavish Christmas decorations for the festive season.


E uma boa semana para todos

domingo, dezembro 15, 2024

O tocante e digno testemunho de uma mulher sozinha

 

Passei todo o dia num virote. 

Os meninos não dão tréguas. Em especial, ela que que é toda líder, toda voluntarista e determinada, logo que chegou anunciou que vinha tratar das decorações de Natal, dentro e fora de casa. Foi ela para a cave e foi de lá trazendo caixas e baús. 

E foi buscar o escadote e depois, claro, precisou de ajudantes.

E desencantou pais-natais de que se lembrava de, quando era pequena, ver na nossa outra casa, bonecada de que eu já nem me lembrava. 

Mas ela estava feliz pois o rever estes enfeites despertou nela uma certa nostalgia. 

E contou a toda a gente, inclusivamente por telefonema, que tinha descoberto os pais-natais da outra casa, e adorou também encontrar as bolas grandes que ultimamente não tinham saído à cena.

E agora há bolas numa árvore, fitas noutras, uma coroa natalícia num portão e um laço no outro. E há de tudo um pouco e a casa está alegre e festiva, com luzinhas que são uma graça.

E para o jantar anunciou que ia fazer cebola caramelizada para pôr por cima dos hambúrgueres e, sozinha, cortou cebola, muniu-se de ingredientes e fez o que eu não sabia que se fazia assim: com manteiga, açúcar mascavado, vinagre balsâmico. E ficou espetacular. E ajudou a rechear os hambúrgueres feitos à mão com queijo da ilha ralado. Isto com o cão a chatear e a ter que ser posto fora da cozinha.

E depois de ter tomado banho, pediu para lhe secar o cabelo, coisa que faço de gosto e que sempre acorda em mim o gosto de ser cabeleireira.

Os rapazes estiveram mais sossegados, a guardarem-se para atacar à hora das refeições.

Agora já dormem pois amanhã dois deles têm programa bem cedo. E ao almoço já cá estão de volta, desta vez também com os pais. 

E se agora conto isto é porque esta é a minha realidade, diametralmente oposta à de Jenny Jackson. 

Esta mulher já apareceu noutros vídeos desta série e sempre me espanto com a sua franqueza, com a sua incrível humildade e, ao mesmo tempo, orgulho e dignidade. Vive sozinha. Habitou-se a viver sozinha. Gosta de viver assim. Sente-se independente. Mas, ao ficar com muitas dores nas costas, agora que a idade já avançou um pouco mais, sentiu que precisava de ajuda. A forma como ela fala disso, tão sincera, tão espontânea, é tocante.

O vídeo é, em minha opinião um testemunho fantástico, e talvez nos ajude a perceber como podemos ajudar os que estão sozinhos e têm receio de perder a sua independência (ou a sua dignidade) caso peçam ajuda.

Está legendado de origem em português pelo que se vê (e ouve) lindamente.

I OWE you my LIFE

There comes a moment in every life when the weight we carry feels too great to bear alone. In these moments, a choice appears: to keep struggling in silence or to open ourselves to the strength and kindness of others.

This story is about that choice — a journey of discovering the beauty in being vulnerable, and in finding that this simple act can transform not just ourselves but those who stand ready to help.

It’s not easy to let go of the walls we build to protect our independence, but when we do, something remarkable happens. Bonds, delicate yet enduring, can be forged; a quiet, gentle exchange of giving and receiving becomes a shared act of humanity, binding us ever closer to one another and reminding us that we are not alone.

Featuring Jenny Jackson.

Filmed in Hermanus, South Africa.


This is the fifth film that we have made together with Jenny.  If you've missed the others, you can see them here:

quarta-feira, dezembro 11, 2024

O charme discreto da burguesia

 

Como hoje, por aqui, está bastante frio, vesti uma camisola fininha mas quente, relativamente comprida, quase túnica, com bolsos, e com uma gola que pode estar dobrada e fazer um simpático e pequeno decote em bico mas que, na rua, em especial quando o sol deixa de agasalhar e o frio aperta, pode subir e, se eu quiser, fica até um capuz baixo. É muito confortável e flexível. É num tom neutro, mais cinzento clarinho que beige, e sinto-me bem com ela. 

Agora que aqui me sentei, não me apetecendo mergulhar no déjà vu que é o dia a dia do mundo com as suas contradições, umas arrepiantes, outras assustadoras e outras que, de tão boas, quase parecem que a malta anda in the sky with diamonds, resolvi ir de visita à Madame le Figaro. 

E eis que dou de caras com um artigo cujo título refere: "usar uma gola alta em vez de écharpe: o charme discreto da burguesia". Interessante. 

Para além do aspecto histórico das indumentárias com golas bem altas associadas à aristocracia, há agora também a elegância associadas à discrição, permitindo encobrir um pouco o rosto (e que pode ser conjugado com uns óculos escuros que, no conjunto, quase garantem o anonimato).

Victoria Beckham porte un manteau ceinturé au col montant tiré de sa propre marque. (Paris, le 13 novembre 2024.) Marc Piasecki / GC Images

Gosto francamente. 

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Interessei-me também sobre as astúcias de maquilhagem para um olhar de festa. É tema que me motiva (qb, claro...).

Pour les fêtes, on ose le regard œuvre d’art. Plume Creative / Getty Images

Li com atenção o artigo e dali até saltei para outros artigos que contêm tutoriais que ensinam a disfarçar olheiras, papos debaixo dos olhos, rugas e pele baça. Há toda uma longa literatura e talvez milhares de vídeos que ensinam truques e recomendam produtos que tapam, que iluminam, que chamam a atenção para outros pontos, que alongam, que prolongam. Um longo filão. 

Ora, depois de ter visto tudo isto, eis que passo para outro artigo em que uma escritora recomenda um livro. Não a conhecia a ela nem conheço o livro (que deve ser interessante). O que chamou a minha atenção foi outra coisa: as olheiras dela.

Anne Berest, romancière et scénariste. ©Assouline/opale.photo

No mesmo local em que se ensinam truques para que as mulheres tenham um olhar fascinante, aparece esta mulher que parece mal dormida. 

E a verdade é que, apesar disso, acho que é um belo olhar, acho que, apesar de despida de disfarces, tem imenso carisma. Para dizer a verdade, quem é BCBG é mais deste género do que quem tem olhares tão maquilhados que não deixam antever a alma de quem os possui.

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Entretanto, está na altura de se falar das ementas das festas, de como arranjar as mesas, de como levar o ambiente acolhedor e luminoso da época festiva à decoração, etc. 

Dans les chambres et les salons, vases, pampilles et potiches de Bernardaud sont sublimés par les fleurs et les végétaux choisis par Jean-François Boucher, meilleur ouvrier de France, et responsable de l’atelier floral du château. Franck Juery

Também gosto de ver mesmo que, na prática, quando sou eu a tratar do assunto, havendo por cá um bando de jovens ruidosos, alegres e esfomeados, não se consiga seguir a etiqueta dos momentos bem comportados. E é que às tantas uma pessoa até quase esquece de como é a verdadeira etiqueta. 

Nada, claro está, que também não se consiga relembrar:

Découvrons les bonnes manières avec Marie de Tilly

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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, novembro 06, 2024

Só não digo que os cogumelos in heaven são lindos de morrer, porque, enfim, andamos a apanhá-los à força toda para que não aconteça nenhum desastre.
Também há o tema da grande vitória do Sporting que é de gritos.
Depois há a expectativa do caraças sobre os resultados das eleições nos States.
Para me manter serena, vou antes ver a casa de Taís Araujo e Lázaro Ramos

 

Como tem sido hábito nestes últimos dias, o meu marido, depois de ter tomado o pequeno-almoço, foi para o campo com uma pequena pá e um balde apanhar cogumelos. Quando chegou, vinha a bufar, que estava farto da m.. dos cogumelos, que rebentam da noite para a manhã seguinte, que não se dá conta de tanto cogumelo.

Depois estava a chover e não pude ir andar por lá. 

Quando fui, para onde deitava o olho, via um cogumelo. Acho que nascem de hora para hora. 

Voltei para trás para buscar a pá e o balde e fui eu apanhá-los. O meu marido já me tinha dito: ao princípio, nos primeiros dias, apareceram os grandes cogumelos castanhos e os brancos, agora estão a aparecer cor-de-laranja e amarelos. Já ontem os mostrei. Pois, não imaginam. Hoje, quase só desses coloridos mas em tamanho pequeno. Uma gracinha de cogumelos. Parece que brotam a todo o instante.

Tirei uma fotografia a uns quantos já dentro do balde, a fotografia que está lá em cima. Não são tão lindinhos?

Na fotografia estão sujos pois quando enfio a pá, enterro um bocado para apanhar o pé e, portanto, depois trago também a terra, os musgos.

Tirando isso, posso dizer que o meu marido está contentíssimo com o resultado do Sporting. É obra.

Quanto às eleições nos Estados Unidos, espero mesmo que ganhe Kamala Harris e que ganhe por uma margem que não permita ao alarve-mor vir com as suas habituais e prometidas patranhas.

Neste compasso de espera, se me permitem, vou antes entreter-me a ver casas bonitas. E esta, aqui abaixo, é uma maravilha. Um apartamento amplo, luminoso, tranquilo, com móveis com um belo design.

Taís Araujo e Lázaro Ramos abrem o seu apartamento muito brasileiro 

| CASA VOGUE

[Por defeito, acho que vem dobrado em inglês. Para falar com a voz deles é escolher o português, no audiotrack nas definições]

E que os próximos dias nos tragam e confirmem boas notícias

Be happy

terça-feira, outubro 15, 2024

O primeiro cogumelo, um pesadelo, o stress de domingo de manhã.
E, para um momento simpático, a bela casa de Daniela Mercury e Malu Verçosa

 

Já vi um primeiro cogumelo grande e, por sinal, já um pouco danificado. Antes já tinha visto alguns pequeninos, surgidos com as primeiras chuvas. Mas este prenuncia que muitos mais estão para vir. Isso enche-me sempre de felicidade pois vejo como esta terra se fez mulher, parideira, fértil, generosa, dando vida a muitos seres.

E choveu muito. Estávamos na rua quando desabou uma carga de água. O cão chegou a casa feito um pinto. E depois foi a tourada do costume primeiro que me deixasse limpá-lo: tenta arrancar-me a toalha, salta, rodopia, põe-se de pé com ela na boca. Uma festa.

Mas, tirando esse momento de super energia, como em todas as segundas-feiras em que, no domingo, temos a casa cheia, o cão só quer dormir. Assim estou eu. É que, ainda por cima, acordei muito cedo com um pesadelo e depois não voltei a adormecer. Foi outra vez aquela cena em que desespero com o que tenho para fazer temendo não me despachar a tempo. Desta vez estava fora, tinha ido em serviço. No dia de vir embora, uma carrinha ia buscar-nos para nos levar ao aeroporto. E eu não dava a mala feita. As coisas não cabiam na mala. E encontrava camisolas e casacos do meu marido e não percebia como era possível, achava que tinha trazido, por engano, uma mala dele. Por isso, as minhas coisas não cabiam. Depois, para me maquilhar, ia a uma casa de banho no corredor pois tinha espelhos e luz. Mas estava cheia, tinha que desistir. Depois não tinha tempo para tomar o pequeno almoço e tinha visto uma mesa que devia ter sido de pequeno-almoço descentralizado, no hall junto aos elevadores, mas já só tinha pastéis de nata. Eu ao pequeno almoço só como fruta e iogurte mas não tinha outro remédio senão comer um pastel de nata. E já estava na hora da carrinha partir e eu ainda tinha a mala por fechar, queria lavar os dentes, arranjar-me minimamente e não conseguia. Quando acordei ainda estava nesta azáfama e a tentar perceber como é que tinha tanta roupa do meu marido na minha mala.

Enfim. isto deve ter sido porque no domingo, precisando eu do forno para os meus cozinhados, o meu marido, que tinha resolvido fazer uns bolos que viu no programa da Joana Barrios no 24 Kitchen, ainda estava de roda deles quando fui para a cozinha e mobilizou o forno para ele, fazendo com que os meus tabuleiros só fossem para o forno quase uma hora depois da hora que eu queria. Gosto de fazer tudo antes da hora para, quando o pessoal chega, estar tudo pronto, pratos, acompanhamentos, molhos, saladas, frutas, etc. E, portanto, fiquei em stress com os meus planos atrapalhados. E gosto de estar sozinha, a mexer-me de um lado para o outro e não tê-lo a lavar louça quando preciso de lavar legumes. Portanto, deve ter sido isso que me deu a volta ao miolo e, de noite, deu naquela confusão.

A ver se amanhã ou outro dia conto como fiz os rolos de carnes, um recheado com maçã e farinheira e outro com mozzarella fresca e transparências de bacon. E também os doces que o meu marido fez. Hoje estou cheia de sono...

Mas, antes de desligar o computador, deixo-vos com a simpática casa do simpático casal Daniela Mercury e Malu Verçosa. É sempre bom visitarmos uma casa bonita.

Tour pela casa repleta de afeto de Daniela Mercury e Malu Verçosa | CASA VOGUE


domingo, setembro 15, 2024

Há casas e casas...

 

Enquanto escrevo, estou a ver um programa fantástico na RTP 1, 'Em casa de Amália' em Elvas. Muita gente na rua a assistir a contagiantes momentos de partilha com o António Zambujo, o Buba Espinho e o Luís Trigacheiro, apresentado por um José Gonzalez que eu não conhecia mas que é um tipo bem simpático. 

Muito bom. Penso que o país caminha no bom sentido quando se fomentam momentos assim, de comunhão em torno de uma língua comum, em que as pessoas saem à rua para ouvir cantar, quase tudo canções que toda a gente canta, em que há sorrisos no ar. O cante alentejano é maravilhoso. 

Mas não tem que ser o típico cantar alentejano. Canções que muita gente conhece, melodicamente ricas, em que se toda a gente se junta a cantar, são uma riqueza cultural inesgotável.

E estes três jovens cantam lindamente. Estou impressionada. Por exemplo, não conhecia bem o Luís Trigacheiro e tem uma voz e um poder de interpretação extraordinários. Neste momento está a cantar uma que não é muito conhecida (digo-o pois não o acompanham a cantar) mas que é uma canção linda. Estou encantada.

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Mudando de assunto. Ontem à noite, sem querer, dei com um documentário tocante. Fiquei a ver até ao fim. Foi na RTP 2. Feito pela Charlotte Gainsbourg sobre a mãe, Jane Birkin, mulher de uma inocência e franqueza totais.

Se não viram, sugiro fortemente que ponha a box para trás e o vejam. Partilho o trailer só para se perceber o género. 

Jane by Charlotte - Official Trailer (2022) Charlotte Gainsbourg

Watch the trailer for Jane by Charlotte, a documentary by Charlotte Gainsbourg about her mother, Jane Birkin. It features intimate conversations between parent and child, as well as footage of Birkin performing onstage, and explores the emotional lives of two women as they talk about subject matter that ranges from the delightful to the difficult: aging, dying, insomnia, celebrity, and their differing memories of their shared past, which includes Charlotte's father and Jane's husband, Serge Gainsbourg. 

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Como estou com um olho no burro e outro no cigano (e espero não ser censurada pela utilização deste ditado popular), não me dá para me pôr para aqui agora com divagações. Vou já direita ao assunto.

A forma como as pessoas vivem por esse mundo varia de uma maneira que se calhar não julgamos possível. Eu, se fizesse programas educativos, incluía o conhecimento de hábitos, dificuldades, excentricidades e gostos ao longo de todo o planeta. Penso que é bom que tenhamos noção das disparidades, da diversidade. O que aqui podemos observar atesta a criatividade humana quer a nível arquitectónico, quer tecnológico, quer estético ou económico quer a nível da própria sobrevivência.

Pode ser difícil de acreditar, mas as pessoas realmente moram nestas casas


A tod@s desejo um belo dia de domingo

sábado, agosto 03, 2024

Depois dos caranguejos chegam os leões. Tempo de festas e pré-festas.
Isto na companhia de um cão e... de um rato...
Uma selva...

 

Por estas bandas, leões são também muitos. E como os há a irem de férias, fazem-se já as pré-comemorações. Depois se farão as comemorações. Hoje uma das leoas tentava fazer a contabilidade às vezes em que já estivemos juntos esta semana, uma das quais comemorando aniversários de caranguejos que já tinham festejado parcialmente mas não em conjunto. 

Estivemos até às dez da noite (ou mais?, não sei) até porque alguns ainda tinham muito que fazer antes de amanhã saírem para férias. Não cantámos os parabéns a você, claro, pois parabéns podem dar-se e festejar-se depois mas, ao que parece, não antes. Mas estivemos felizes da vida, à volta da mesa e à conversa.

Mas estou com muito sono. Deito-me sempre tarde pensando que compenso dormindo até mais tarde. Pois às sete da manhã, o telefone: alarme in heaven. Vistas as imagens, conclui-se que foi um insectozão a passar em frente da câmara. Mas espertei.

Passado um bocado, o meu marido levantou-se, foi passear com o cão. 

Estava agendada a vinda de um técnico da e-redes. Pelo horário referido, intuí que deveria vir lá para as nove e tal. Pensei que, antes disso, o meu marido regressaria. Portanto, com a pancada de sono com que estava, poderia eu dormir mais um pouco. Qual quê? Passado um bocado, a campainha da porta. Era o homem. Tive que me levantar à pressão e ir ter com o senhor. Ou seja, sono para que te quero? Devo ter dormido quatro horas e tal. 

Depois, quando cá estão todos, desperto. O pior é quando se vão embora. Sento-me no sofá e tenho que travar uma luta para não adormecer instantaneamente.

Nisto, noto o peso da idade. Dantes aguentava-me em forma, a trabalhar na maior, mesmo pouco dormindo durante dias e dias a fio e sujeita a pressões de todo o lado. Agora está bem, está... Os meus meninos têm uma energia inesgotável, saltam, correm, brincam horas a fio. Os rapazes já tinham estado de manhã a jogar à bola (rapazes dos sete aos quarenta anos) até chegarem a casa imundos e de tarde continuavam como se estivessem frescos e descansados. Esta energia permanente e esta capacidade de instantaneamente a reporem só pode ter a ver com a juventude. 

Tirando isso, devo ainda aqui deixar registo de um outro facto. Estávamos a jantar no terraço pois é onde geralmente preferimos estar. A mesa está colocada debaixo de um telheiro. Essa área tem um desnível. Na parte mais baixa está um sofá grande com zona de chaise-longue e cadeiras e cadeirões. E, por detrás, está uma vedação de treliça. Atrás dessa vedação há uma sebe alta. E, por detrás, um muro alto que separa da casa ao lado. Pois, muito bem. Eu não vi mas vários dos presentes viram: um rato a passear nesse muro. 

E volta e meia anda lá um gato. Mas, pelos vistos, não intimida o rato. Nem se intimida com o barulho de tanta gente ali tão perto. Claro que o cãobeludo, mal dá por ele, põe-se logo em guarda, a olhar muito sério. No outro dia, fez-lhe uma perseguição que vi jeito de haver ali uma chacina. Mas o rato não se torce nem se amolga. Pelos vistos acha que também é um pet da família.

Sinceramente, já não me incomodo nada, já sei que o rato deve morar ali para trás pois volta e meia dá as caras. Mas nem todos reagem tão indiferentemente. O meu marido diz que vamos ter que tomar providências. Não percebo porquê, pois o ratinho não faz mal nenhum. O meu marido diz que qualquer dia entra para casa e depois sempre quer ver o que fazemos.

Cenas.

Ah, é verdade. O meu marido tem andado a arrancar ervas do lado da horta (aliás, ex-horta, pois não a mantivemos e ela soçobrou) e veio de lá com dois marmelos grandes. E diz que há mais. Não sei como mas a verdade é que eu não tinha dado por eles. Mas fiquei com vontade de fazer marmelada (literalmente falando) mas o diabo é o pormenor do açúcar. Não sei se ficará boa se não se puser açúcar. Claro que poderei pôr mel, mas o mel tem açúcar na mesma. E já não bastam os bolos dos anos, os biscoitinhos que vão trazendo e que cá ficam..., a fruta... Como posso perder os quatro quilos que ando a perseguir há séculos e eles a correrem à minha frente...?

Bem.

Nada mais tendo a acrescentar, vou limitar-me a partilhar um vídeo que gostei muito de ver, muito inspirador.

Inside Cath Kidston’s Art-Filled Notting Hill Terrace | Design Notes

The house is nestled away and backs onto a large private garden square with views of a forest of old London plane trees filled with flocks of parakeets. “I have a theory that it takes seven years for a house to feel really lived in, and I feel very settled in here,” insists Kidston


Dias felizes

domingo, julho 21, 2024

Paz de espírito

 

Hoje era para ser outra vez dia de festejo mas, porque a covid voltou a atacar a família, a comemoração foi adiada. 

Quer o meu filho quer a minha filha, ao ligarem ao fim do dia, perguntaram o que tínhamos feito. Aparentemente nada e, dito assim, 'nada', temo que dê a ideia de vazio. Ora não. Foi um dia bom, muito agradável, preenchido de bons momentos.

Ao pôr-do-sol, sentada num banco de jardim que pouco tenho usado, a ler um livro de que estou a gostar bastante ('O meu pai voava' da Tânia Ganho), pensei que parece que só agora estou verdadeiramente a desfrutar o prazer de habitar esta casa.

Continuamos com os trabalhos de jardim. Dá ideia que agora que o jardim está, na íntegra, por nossa conta, é que o sentimos como verdadeiramente nosso. Olhamos em volta e há sempre o que fazer. Por exemplo, quando fui abrir a janela do quarto dito 'das meninas' vi um pássaro grande a andar ali em baixo e fiquei feliz, observando-o, mas reparei também que há, por baixo da janela, um arbusto que corta um pouco a luz. Amanhã iremos ajeitá-lo. Reparei também que há guias da glicínia que se estenderam até à armação do balouço e achei isso encantador.

Mas, ao sentir que parece que só agora estou a descobrir o grande prazer de andar aqui pelo jardim, fiquei intrigada pois a verdade é que está a fazer quatro anos que aqui moramos.

Fiz, então, o exercício de descobrir a que se devia isso. 

Não foi difícil. 

O primeiro ano foi o da mudança. Comprámos a casa no início de Agosto e logo de seguida, antes de nos mudarmos, a casa entrou em pinturas. Depois gastámos todas as férias com a mudança. Foi um verão estafante, estafante, estafante. Trabalhava, na altura, em duas empresas, não tinha tempo livre, não conseguia tempo para desfrutar a casa e havia sempre coisas para arrumar.

No ano seguinte, continuava afogada em trabalho, tanto mais que a pessoa com quem dividia a responsabilidade numa das empresas adoeceu, foi operada, depois fez uma bateria de tratamentos. E continuou a trabalhar salvo os dias de internamento ou os dias em que tinha exames médicos ou em que os tratamentos o deitavam abaixo. E, por sua opção, não quis que na empresa se soubesse. Por isso, desdobrei-me até mais não poder para que todos os assuntos dele mais os que eram dos dois continuassem a ser geridos sem que ninguém percebesse o que se passava. Não me sobrava disponibilidade mental para estar em paz a gozar a casa.

No ano seguinte, eu estava com responsabilidades acrescidas numa empresa que estava a atravessar um processo profundo de reestruturação e, no verão, esse meu colega, ao fazer novos exames, recebeu a notícia que mais temia: a doença tinha-se espalhado. Teve que fazer muitos exames, foi-se um bocado abaixo, e, finalmente, teve que se submeter a tratamentos muito agressivos. E continuou a não querer que se soubesse. Eu, que já tinha ideia de deixar de trabalhar, por solidariedade e amizade para com ele adiei os meus planos e desdobrei-me ainda mais, passando por períodos muito complexos, de quase exaustão (e sem querer que ele percebesse pois problemas de mais já ele tinha). 

A acrescer a isso, a minha mãe, por não tomar os medicamentos que devia (sem que eu o soubesse), foi internada pela segunda vez. A seguir, ao ter alta, quis ir para uma residência assistida. Mas foi ainda pior. Regularmente eu ia buscá-la e ia acompanhá-la às consultas de cardiologia e depois levava-a de volta. Foram quatro meses terríveis pois, como não queria tomar os medicamentos, todos os dias ia ao médico da residência com toda a espécie de sintomas na esperança que os médicos suprimissem a medicação a que ela atribuía todos os seus males e, nas consultas de cardiologia, descrevia como andava a passar mal por estar a tomar aqueles medicamentos. Como eu estava com ela, ouvia o que ela dizia, o que as enfermeiras e médicos diziam, desmontava as suas intenções para que se tratasse e percebesse que, se não tomasse os medicamentos, correria risco de vida. Era para ela (e para mim) um pesadelo. 

Todos os dias ela estava como estivesse em estado de emergência. Por fim, só queria voltar para casa. Falava da residência, que era um verdadeiro hotel de luxo, como uma espelunca. Queria ir para casa para não ter quem a controlasse. E voltou mesmo. Mas quase todos os dias tinha sintomas de qualquer coisa em que eu não sabia se era caso de chamar médico a  casa ou levá-la ao hospital. De início eu ia buscá-la e trazia-a para minha casa mas ultimamente já não queria, arranjava mil desculpas. Por vezes lá assumia que tinha medo que os miúdos a contagiassem. Nessa altura, ela já sabia o que estava a miná-la por dentro mas nós não. Pensávamos, na família, que sofria de ansiedade e de hipocondria (em relação a doenças e a efeitos secundários dos medicamentos) e convencemo-la a ter sessões com uma psicóloga mas não descansou enquanto não deixou de ir.

Por isso, esses tempos foram para mim tempos de permanente intranquilidade. Em momento algum eu sentia paz de espírito. No final do ano passado, o seu estado de saúde agravou-se e o desfecho acabou por ser tristemente rápido (se calhar, felizmente rápido) mas, pelas razões de que aqui falei algumas vezes, foi, para mim, um processo traumatizante, angustiante. 

Depois de tantos anos a sofrer o lento declínio da saúde do meu pai e sempre a recear o desfecho que esteve tantas vezes iminente e depois destes tempos de ansiedade e angústia pelo estado da minha mãe, não foi imediatamente que consegui tirar de dentro de mim o estado de ansiedade e medo que vivia permanentemente dentro de mim. Ainda agora, se me falam em ir a algum lado, involuntariamente acontece-me pensar que é melhor não, para não estar longe, não vá acontecer alguma emergência. Só depois me ocorre que esses meus medos já não têm razão de ser. E muitas vezes me vem à cabeça a preocupação em que eu sempre andava sem saber se alguma evolução nos sintomas aconselhava a cuidados médicos imediatos. Só depois penso que já não faz sentido sentir essa preocupação. Nessas alturas, sinto uma grande tristeza ao pensar que é tão estranho que a minha mãe, que tanto gostava de viver, já não exista.

Mas, enfim, aos poucos estou a conseguir assimilar que os meus pais, em especial a minha mãe que era uma presença constante na minha vida (por ser a cuidadora do meu pai e por ultimamente ter sofrido uma alteração tão abrupta na sua maneira de estar que tantas preocupações me trouxe), já cá não estão, já não estão doentes, e que, por isso, já posso viver mais tranquila.

E talvez por isso agora dê por mim a sentir-me admirada por sentir uma paz de espírito tão boa. Estou no jardim, olho para a copa das árvores, olho para o céu, ouço os pássaros, e sabe-me tão bem, tão, tão bem, estar aqui sossegada, a ler, a desfrutar o prazer deste jardim tão bonito, tão tranquilo.

Parece que, finalmente, estou a aproveitar a minha reforma, estes belos dias de ausência de turbulência profissional e em que os meus pais, libertos do seu corpo humano, também estão em paz. 

E isso é muito bom.

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E porque do prazer de estar em casa falo, penso que pode fazer sentido partilhar o vídeo abaixo sobre uma casa muito bonita em Melides, em que se sente que por ali paira uma grande serenidade. A casa tem uma decoração simples e, ao mesmo tempo, requintada, recorrendo a artigos de artesanato, alguns dos quais portugueses.

Inside Carolina Irving’s Coastal Retreat Secluded on Portugal’s West Coast | Design Notes

Carolina Irving welcomes us into her romantic retreat in an unspoilt coastal region of Portugal. When Carolina purchased the property nearly 15 years ago, there was barely one wall left standing from the previous structure. She accepted the challenge, undaunted, and has created a home that is perfectly compact, where nothing is unaccounted for. 

Not simply a weekend pied-à-terre, Carolina’s house had to function as a year-round escape from her home in Paris — for herself, her partner, French documentary producer Bertrand Devaud. Watch the full episode of ‘Design Notes’ as we tour Carolina Irving’s Portuguese home from home.


Desejo-vos um belo dia de domingo