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terça-feira, junho 16, 2026

Luís Osório conversa com Helena Sacadura Cabral

 

Repito-me: gosto de conversar e de ouvir conversar. Mas não de quaisquer conversas. Por exemplo, durante o dia não consigo ver televisão. Já nem a ligo. Esmiuçar desgraças, ouvir falar de paranóias, tudo exacerbado, as pessoas parece que só se acham interessantes se se apresentarem como vítimas de qualquer coisa, parece que não há cão nem gato que não tenha sofrido de bullying na escola, ou que não tenham ficados completamente carentes para o resto da vida por terem perdido o avô ou a avó que eram especiais, e toda a gente faz terapia, e toda a gente anda a encontrar-se a si própria. Tudo um chorrilho de banalidades e parvoíces para as quais não há pachorra. Claro que tem tenha perdido um avô ou uma avó, ou todos, ou pai ou mãe ou ambos, sente um grande desgosto. Mas fazer disso a bandeira com que se anda na rua ou exibir tal facto como se fosse o alfa e o ómega da sua vida...? Achar-se especial ou digna de piedade por isso? Ou achar que os outros são todos maus e que só o próprio ou a própria é que é o bom, a vítima...? Pá, a sério, já não se aguenta. Não há entrevista ou podcast ou o raio em que alguém não acabe a chorar ou, igualmente pífio, a fingir que se faz de valente. 

E a gente, quando ouve isso, percebe que geralmente é gente parva, que não se enxerga, que põe a culpa de tudo nos outros, no cão e no gato, na prima, na mãe, no pai, nos irmãos, nos amigos, nos colegas, no sprofessores, parece que julgam que toda a sociedade conspira para não dar à prima-dona a atenção que ela acha que merece. Um saco. Dantes considerava-se que gente assim é irresponsável, gente que atira as 'culpas' para cima dos outros é gente em quem, de forma geral, não se pode confiar. Era assim. Agora não, agora põe-se uma medalha ao peito. 

E juntam-se em entrevistas e podcasts e para ali estão neste desfiar de palermices, de vacuidades, de parvoíces. Se calhar é gente que padece do mal de precisar de validação, parece que precisam que os outros andem sempre a dizer-lhes que são os maiores, que estão muito bem, que são muito lindos e talentosos, provavelmente contam likes e entretêm-se com essa contabilidade que, na prática, vale zero.

O mundo tem vindo a derrapar para a estupidez e esta vertente da carência, da vitimização e da necessidade de validação é uma das provas da fraqueza crescente da sociedade.

Posso ter esta visão um bocado crua por ser um caso diametralmente oposto disso. Não contabilizo likes, detesto bajulações, incomodam-me as conversetas de elogio e não preciso de validação de ninguém para me sentir confiante em mim mesma. Naquilo em que não me sinto confiante, se for tema que me interessa, preparo-me para adquirir o que me falta para estar na boa, segura de mim mesma. E, se não é tema que me interesse, passo adiante. Nunca, nem quando era criança nem quando era adulta, me interessou saber a opinião deste, daquele ou do outro a meu respeito. E mesmo que me chegassem ecos de discórdia ou desapreço era para o lado em que dormia melhor.

Claro que nem todas as pessoas são iguais e o facto de eu ser assim não faz de mim melhor ou pior. Uma coisa é certa: retira-me angústias, ansiedades, medos, sofrimentos. Gostem ou não gostem, estou sempre na boa. Por isso, posso não ser melhor ou pior mas sei que estou bem, não me queixo. Nunca me queixo. Nunca me queixei.

E gosto de conversar ou ouvir conversar pessoas que afinam por este diapasão. Gosto de ouvir gente desempoeirada, gosto de ouvir falar de boas memórias, de cenas divertidas, de bons projectos para o futuro. Gosto de me rir. 

(Aliás, gosto à brava de me rir. Ainda hoje, estava a ler um livro e desatei a rir-me à gargalhada. A cena do livro era simples. Mas deu-me uma vontade de rir que me fez rir à gargalhada por um bom bocado).

E falei do género dos coitadinhos, das vítimas, mas depois há os outros, igualmente insuportáveis: os que riem muito, os que se acham os mais engraçados, os mais originais, os que dizem disparates em catadupa achando-se divertidos, os que fingem que não se levam a sério mas que contam toda a espécie de frioleiras como se fossem happenings mas, ao mesmo tempo, fingindo que se auto-depreciam, e todos riem, riem muito, riem mostrando que têm a cabecinha mais vazia que um saco de vento. É outra fauna, mas igualmente insuportável. Se calhar, mesmo esses, se forem ao programa da Júlia, acabam na choradeira, mostrando que têm um coração em chaga. 

Não há pachorra.

Talvez porque penso assim estive aqui a ouvir, na maior leveza e boa disposição, a conversa entre o Luís Osório e a Helena Sacadura Cabral. 91 anos de leveza, ela: o que é mau, põe para trás das costas. O que aconteceu, está acontecido. Em alguns casos claro que houve e há dor, mas é uma dor com a qual convive bem. 

[Um àparte*: no meio, fica a saber-se que o Paulo Portas é mais um que tem uma empresa com a mãe na qual mete todo o tipo de despesas... Provavelmente é através dessa empresa que factura à TVI o seu comentário dominical e, com este esquema da empresa, poupa-se a muito IRS-zinho. E falo em esquema como poderia dizer 'conceito', aliás um conceito que atravessa toda a nossa sociedade que cultiva o hábito de driblar, legalmente, o fisco. Posso estar a extrapolar erradademente e, se for o caso, já cá não está quem falou. Mas, como um amigo meu dizia, dando um toque no nariz, tenho um faro que geralmente não me engana.

Mas, enfim, foi uma sinceridade da mãe, e a mãe sabe que está a agir na maior legalidade (porque a lei portuguesa gosta de deixar nesgas de portas abertas para quem quiser fazer interpretações criativas), pelo que não me alongo. Acaba por ser apenas mais um triste déjà-vu.]

De resto diverti-me, foi uma conversa bem disposta. E a boa disposição em vez da lamúria, o assumir das responsabilidades integrais em vez de atirá-las para a mãe, para o pai, para o chefe, para o ex-marido, para o piriquito ou para a vizinha do andar de cima, é sempre uma lufada de ar fresco. 

E continua com boa pele, com bom ar, roupas alegres, belos anéis e adereços, e ri que é um gosto e certamente há de fazer a sua escola para crianças desfavorecidas e há de continuar a levar alegria a todas as suas conversas e a reconhecer a existência dos iões apesar de não os ver. 

Por isso, salve Helena Sacudura Cabral! Vida longa e feliz para si!

"Vencidos" com Helena Sacadura Cabral | RTP Antena 1

No final da entrevista, Helena Sacadura Cabral disse a Luís Osório: uma conversa perfeita, precisamente o que imaginava. A conversa passa agora a ser de todos. Não perca as confissões de uma das mulheres respeitadas do país.


Desejo-vos uma bela terça-feira
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*  Nota

Agradeço a vossa atenção para o comentário que a Caríssima Helena Sacadura Cabral teve a amabilidade de aqui deixar, referindo que não, a empresa não serve para o que eu acima aventava. Aqui fica a ressalva. 

domingo, setembro 28, 2025

Ansiedade, bullying, fobias sociais

 

Por vezes receio que pensem que estou a pintar uma versão ficcionada e melhorada de mim. Mas não é, limito-me a dizer as coisas como as penso ou recordo.

Estava a ver o vídeo que aqui partilho, no qual duas pessoas que admiro, uma há mais tempo, o médico Drauzio Varella, e outra mais recentemente, o influencer Felca, e dei por mim a pensar que, felizmente, nunca sofri bullying nem mesmo em miúda, nem me lembro de ir contrariada para a escola. Serei diferente do resto do mundo?

Mas, pensando bem, também não me lembro de saber que algum dos meus colegas o sofreu. Contudo, sabendo-se que quem o sofre muitas vezes o sofre em silêncio, será que eu é que não dei por isso? Ou será que, também sem dar por isso, algumas vez eu o pratiquei?

Do que me lembro sempre gostei de toda a gente, sempre me dei bem com toda a gente, gordos ou magros, altos e baixos, feios e bonitos. Mas também sempre fui distraída, indiferente à intriga, bem disposta, divertida. Sei lá se alguma vez não me desatei a rir por qualquer coisa e se o meu riso não foi entendido por alguém mais sensível como troça? Não sei. 

E lembro-me de uma colega muito doce, muito silenciosa, com um ar sempre vagamente triste. Porque seria? Não me lembro. Sentir-se-ia mal amada pelos colegas? Quando soube que já tinha morrido fiquei muito impressionada, fiquei a pensar que se calhar ela não tinha conhecido a alegria de viver ou que, se calhar, desde sempre ela tinha trazido a morte dentro de si (e, pensando isto, reconheço que não faz muito sentido pois se calhar todos a transportamos dentro de nós, sejamos tristes ou alegres).

E, depois, se calhar não posso pensar nestes assuntos tomando-me a mim por padrão pois nunca me desgostei especialmente com a minha aparência nem me lembro de alguma vez ter sido objecto de troça seja pelo meu aspeto físico seja pela minha maneira de ser. Se calhar fui e apenas não dei por isso. E sei lá se os meus colegas mais magritos ou mais gordinhos (ou magrinhas e gordinhas, porque isto tanto vale para eles como para elas), ou os rapazes que viam os outros a jogar energicamente futebol não tendo eles qualquer jeito ou gosto nisso, ou os que tinham o cabelo mais encaracolado ou os que tinham óculos mais graduados, ou que não conseguiam atinar com alguma matéria ou qualquer outra coisa do género, não se ressentiam quando pensavam que alguém os estava a discriminar ou a gozar.

Por exemplo, havia um rapaz que era por vezes gozado por uma certa particularidade física. Não sei se ele se incomodava com o que diziam. Eu, por exemplo, achava-o o mais sexy de todos, se calhar até por isso mesmo. E era apaixonada por ele. E ele por mim. Se ele se molestava porque o gozavam nunca percebi até porque, para além do mais, ele sabia que isso não impedia que o seu amor por mim fosse retribuído. Mas, se agora o questionasse sobre o assunto, o que será que ele diria? Será que guardou mágoas? Que se sentia revoltado? Envergonhado? Será que aquela irreverência e rebeldia que lhe era tão peculiar resultaria em parte disso?

Hoje estamos todos mais sensibilizados para estes fenómenos. As pessoas já falam mais abertamente das suas ansiedades, dos seus medos, e todos já respeitamos o sofrimento alheio, sofrimento esse que se manifesta das mais variadas maneiras, podendo até ser recalcado ou sublimado.

Quando ouço testemunhos como o do Felca fico a pensar nisto. Quando ele, já com 18 anos, contou aos pais o que se tinha passado nos últimos anos, eles desataram a chorar. Compreendo-os bem. Queremos o bem, a felicidade, o melhor para os nossos filhos. Saber que eles sofreram em silêncio e que não fomos capazes de os ajudar deve ser muito doloroso.

Todo o cuidado é pouco na atenção a prestar aos outros, em especial se forem crianças ou adolescentes. Ter atenção a pequenos sinais, estar muito presente, querer saber, mostrar aos filhos que se está e estará sempre ali para eles é fundamental.

Quando o Felca, que tem milhões de 'seguidores', diz que ainda hoje tem fobias sociais, que ainda tem muitos medos, que, por exemplo, ainda tem dificuldade em ir ao mercado, percebe-se como tantas vezes algumas pessoas têm males profundos, difíceis de desenraizar, que, como ele, cristalizam dentro de si. E percebe-se também como tantas vezes as pessoas que vemos e que julgamos que conhecemos bem podem, afinal, guardar segredos de que jamais desconfiámos.

Felca fala sobre Ansiedade e Bullying com Drauzio Varella


Desejo-vos um belo dia de domingo

terça-feira, junho 21, 2022

Avery Dixon, o irmão mais novo de Terry Crews

 

Por vezes nem nos ocorre pensar no que sofrem os que nasceram com alguma diferença. Pode ser porque se é alto e magro demais, porque se é mais gordo do que os outros, porque se tem um cabelo que não cresce para baixo mas, antes, em caracóis que ficam agarrados à cabeça, ou porque se é estrábico, ou porque se é gago, ou porque se coxeia, ou porque se tem uma voz que não desenvolve... ou por qualquer outra coisa. Quem não passou por isso nem se lembra do que eles sofrem na escola, ridicularizados pelos colegas, atormentados com a crueldade das outras crianças. 

Sabemos que essas crianças não querem ir para a escola, ficam doentes só por antecipar a vergonha por que vão passar. Sabemos que há jovens que querem desistir, que há os que tentam o suicídio. 

Sabemos como crescem atormentados os que passaram por essa angústia quotidiana.

Nunca se fará o suficiente para que todos, crianças e adultos, aceitem e convivam normalmente com a diferença. Não será necessário fazer de conta que não se vê. Pode até comentar-se, com naturalidade. Sem superioridade. Com respeito.

Nessa pedagogia, o programa Tabu do Bruno Nogueira foi extraordinário. Ele ria mas de forma a que os próprios se rissem também. Os que são diferentes não são piores nem melhores, são apenas diferentes. E toda a gente se pode rir de si próprio ou rir dos outros e com os outros: desde que não humilhemos os que vemos como diferentes, desde que não os façamos sentir inferiores, desde que não exerçamos sistemáticas acções de bullying.

Avery Dixom nasceu prematuro, com menos de 700 gr. Tem agora 21 anos, não é muito alto, de acordo com os padrões não será especialmente bonito, tem uma voz estranha. Tem sido gozado, humilhado, quis suicidar-se.

Quando lhe perguntam o que faria se ganhasse o AGT, diz que gostava de ter um espaço para ele, a mãe e o irmão viverem e onde pudesse ensaiar. Diz que agora, quando toca, os vizinhos chamam a polícia e mandam-no parar de tocar. 

E é este jovem que, apesar de tudo por que tem passado, tem um sorriso meigo e que, quando pega no saxofone, se transforma dando-nos a conhecer um fantástico músico. Nessa altura, a sua aparência e a sua voz deixam de ser relevantes. Ele e o saxofone fundem-se e ele vibra e faz vibrar quem o ouve.

Depois da exibição no America's Got Talent, depois de pôr a sala a dançar, depois de emocionar o gigante Terry Crews que ofereceu a sua protecção de irmão mais crescido e depois do Golden Buzzer, certamente ninguém mais ousará apoucar o simpático e talentoso Avery Dixon.

Golden Buzzer: Avery Dixon's Emotional Audition Moves Terry Crews to Tears | AGT 2022

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Um dia bom

Saúde. Generosidade. Tolerância. Paz.