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terça-feira, setembro 26, 2023

Stefanos Kasselakis --- qual o espanto...?
É simples... está à vista....

 

Parece que há agora um novo líder no Syrisa. E meio mundo ficou de queixo caído por ter aparecido, do nada, um manganão que vivia nos States, empresário, que trabalhou no Goldman Sachs e sei lá que mais. Ou seja, tal como se tivesse sido gerado e alimentado pelo sistema capitalista, apareceu esta ave rara. E muita gente, muito justamente, veio dizer que já não se percebe nada disto: afinal onde é que está a linha que separa a esquerda da direita.

Eu não sei responder a nada disto. Nunca tinha ouvido falar no Stefano. Agora uma coisa eu sei. Tal como é sabido e consabido desde os tempos em que Harry Selfridge organizou os seus armazéns no início do século passado, colocando na entrada o que agradava às mulheres (maquilhagem, moda, chapéus, luvas, etc), quem decide como vai ser são as mulheres.

E as mulheres, santa paciência, simpatizam de caras com o Stefanos. Virão advertir-me que o safado é gay. Pois, bem sei. Mas mesmo que não fosse, o que é que eu e as muitas mulheres que votaram nele íamos fazer com ele..? Nada, certo...? Olhar... Ouvir... Acreditar... Ora, se é para olhar e ouvir e acreditar... que diferença faz que seja gay...?

Portanto, se é para ver e ouvir (coisa forçosamente platónica, digamos assim), não é melhor que seja um giraço com um sorriso lindo, fofo, queridésimo, simpático todos os dias...?

E isto sou eu, hetero, a falar. Agora, se a mulherada se encanta, imagine-se o que não pensarão os homens gays lá do burgo...? Tudo a votar no menino... Ora não.

Mas se acham que isto é conversa da treta -- e claro que é -- deixem que transcreva o que o Guardian diz (tradução às três pancadas do artigo Stefanos Kasselakis: ex-banker who lit up Greek politics to lead Syriza):

Ao meio-dia de segunda-feira, Stefanos Kasselakis, um executivo do setor marítimo e ex-negociador do Goldman Sachs, caminhou pelos corredores do parlamento grego para ser coroado chefe do Syriza, o outrora partido radical de esquerda do país.

Ninguém poderia parecer mais fora de sintonia com uma força política tão mergulhada na turbulência da sangrenta história do pós-guerra da Grécia. Mas Kasselakis, com um sorriso aparentemente permanente nos lábios, desafiou todas as probabilidades. Depois de iluminar os céus da sóbria cena política do país com uma campanha no alto do vigor das redes sociais, o greco-americano de 35 anos não só emergiu como o vencedor da corrida de duas voltas para liderar o Syriza – ganhando 56,69% dos votos – mas provou que é muito mais do que uma estrela cadente.

Há apenas seis meses, Kasselakis era um desconhecido político arrancado da obscuridade pelo líder cessante do Syriza, Aléxis Tsipras, para se apresentar como candidato expatriado nas eleições estaduais do partido nas eleições nacionais de Maio. Desde que deixou a Grécia, ainda adolescente, com uma bolsa de estudos num prestigioso internato de Massachusetts, depois de vencer uma competição de matemática, ele não olhou para trás.

Se os roteiristas tivessem tido a chance de escrever o roteiro, eles poderiam ter tropeçado. E não só porque o antigo “Garoto de Ouro” – apelido dado a Kasselakis pelos colunistas – vem dos EUA com um currículo que nenhum esquerdista que se preze poderia endossar.

Num país mediterrânico mal preparado para eleger uma mulher como primeira-ministra – e muito menos um homem assumidamente gay – ele chegou à Grécia com o seu marido, Tyler McBeth, um enfermeiro norte-americano que conheceu e por quem se apaixonou em Miami.

McBeth, que assim como Kasselakis, começa o dia malhando na academia, apareceu sorrindo ao lado dele desde o início da corrida pela liderança – o casal entrou na união civil há quatro anos. “A minha mãe”, disse recentemente o novo líder do Syriza, “nada mais quer que nós tenhamos filhos e possamos vir ajudar-nos”.

No domingo, Kasselakis fez de tudo para garantir que a sociedade socialmente conservadora da Grécia soubesse exatamente quem era o seu marido, chamando McBeth para se juntar a ele no seu discurso de vitória fora da sede do partido.

Além disso, a ascensão de Kasselakis surgiu do nada.

O escritor de esquerda Dimitris Psarras, evocando a ansiedade que o súbito aparecimento do greco-americano desencadeou entre os quadros do que outrora foi uma aliança de marxistas, ex-comunistas, ecologistas e social-democratas, disse: “É como se a Netflix tivesse entrado, assumido o controle do party e agora está transformando-o em uma série. As pessoas não têm ideia do que se trata a sua política, ou se ele tem algum programa. É claro que eles estão em choque.”

(...)

Em retrospectiva, o anúncio poderia ter sido escrito por psicólogos comportamentais – o recém-chegado político falou publicamente sobre fazer terapia para lidar com a sua sexualidade.

Pesada na história de vida e na verdade, a declaração começa: “O meu nome é Stefano e tenho uma coisa para vos contar. Nasci em Maroussi [um subúrbio de Atenas] em 1988, num país com primeiros-ministros hereditários; numa família com pais que se criaram por conta própria. A minha mãe, dentista, trabalhou dia e noite para sustentar o meu pai enquanto ele abria sua empresa.”

No final do vídeo, Kasselakis falou sobre o colapso económico de sua família, como foi parar aos EUA “sozinho com bolsa integral”, cursou a Universidade da Pensilvânia, conseguiu um emprego no Goldman Sachs, entrou no mundo do transporte marítimo – ganhando uma pequena fortuna no processo – e conheceu “o sopro de liberdade” na sua vida, Tyler.

A sua decisão de aderir à corrida pela liderança do Syriza – permitida a qualquer membro assalariado do partido – nasceu, disse ele, do desejo de “construir o sonho grego”.

“Tenho consciência de que não tenho experiência partidária. A minha experiência é no trabalho e na vida social”, disse Kasselakis aos ouvintes, insistindo que com o seu melhor inglês, melhores competências empresariais e melhores diplomas, poderia não só derrotar o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, mas também expulsar o centro-direita do poder. “Para que o sonho grego se torne realidade, temos de derrotar aqueles que beneficiam de uma Grécia que é um campo árido e não da Europa na prática”, disse ele.

Quer quisesse ou não, Kasselakis fez o que nenhuma outra pessoa conseguiu fazer: transformar a política grega num pseudo-reality show televisivo em menos de um mês.

Mas o que ele também mostrou tão acertadamente é que quatro semanas é muito tempo na política, o suficiente para apagar o passado e para “redefinir” um partido.

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 Uma boa terça-feira

Saúde. Boa disposição. Paz.

segunda-feira, janeiro 26, 2015

Vitória do Syriza na Grécia. Um abanão dos valentes na apatia burocrática da Europa. Quanto tempo é que Passos Coelho, Paulo Portas, o cão com pulgas e todos esses de quem a gente se lembra bem do que têm andado a dizer, vão demorar até mostrarem contentamento com a vitória do Syriza e dizerem que 'Somos todos a Grécia'? Cá para mim, descarados como são, não vai faltar muito.


A propósito do post abaixo em que falei de pessoas que mentem com todos os dentes, mentem descaradamente, mentem sem se darem ao trabalho de disfarçar que são mentirosos e em quem, surpreendentemente, meio mundo acredita, a Leitora Rosa Pinto deixou o seguinte comentário:

A mitomania é uma distúrbio de personalidade onde o paciente possui uma tendência compulsiva pela mentira. Esta doença é também conhecida como mentira obssessivo-compulsiva.
Uma das grandes diferenças do mentiroso esporádico ou "tradicional" para o mitómano, é que no primeiro caso o indivíduo não tem resistência em admitir a verdade, enquanto o portador da compulsão por mentir usa a mentira em proveito próprio ou prejuízo de outro de forma imoral e insensível sem sentir necessidade de desfazer o engano.
O mitómano é o indivíduo que mente compulsivamente. Algumas vezes são pequenas mentiras, enquanto que outras vezes são pitorescas, elaboradas detalhadamente, que induzem o próprio mentiroso a acreditar nelas. Na mitomania o paciente usa a mentira de forma consciente para enganar pessoas e tirar vantagens, ele nunca admite suas mentiras embora tenha plena consciência de que são histórias imaginárias, e também não se constrange quando suas mentiras são descobertas.

Nem de propósito. Conhecemos todos muito bem alguns, todos os dias nos entram pela casa dentro. Estou a ver o noticiário e estou a ver um deles.

Pois bem, esta introdução feita, e ainda sem saber os resultados das eleições da Grécia mas sabendo-se já que o Syriza obteve a maioria dos votos, só posso dizer que os Gregos mostraram que são gente que preza a liberdade e a democracia, e que os tem no sítio. Sempre os tiveram, mesmo quando lhes não restava outra alternativa que não vir para a rua gritar, encher as ruas, chorar a plenos pulmões. Foram roubados, humilhados, sujeitos a toda a espécie de espoliações. Mas não deixaram que lhes roubassem ou espezinhassem a dignidade.




Quando surgiu a crise que começou por afectar dramaticamente a Grécia, numa altura em que qualquer pessoa com dois dedos de testa o que deveria ter feito seria cerrar fileiras e formar um cordão de solidariedade em torno dos mais frágeis, os cobardes lavaram as mãos. Por cá, a seita de Passos Coelho e Paulo Portas demarcou-se, marcou ainda mais funda a divisão, deixou que os urubus quase devorassem os gregos. Nós não somos a Grécia! - gritaram. E passaram anos a dizer isto. Ainda há pouco tempo, o pantomineiro-mor aí andou a apregoar: Nós não somos a Grécia!

Estúpidos, não viram que isso era o pior. Com essa cobarde atitude, não foram apenas os gregos que ficaram isolados, entregues à sua sorte, a carne viva a ser debicada pelos que se aproximam mal lhes cheira a carniça: foram também os portugueses e todos quantos viriam a ser vítimas desta austeridade absurda.

Se, na altura em que os juros da dívida na Grécia começaram a disparar, a UE mostrasse que estava ali para defender os seus e o BCE tivesse feito o que agora anunciou que vai fazer, não teriam sido precisos todos estes biliões. Com muito menos, comprando parte da dívida grega, teriam afastado os abutres e nada do que se veio a passar nestes últimos quatro anos se teria verificado.




Por isso, hoje, numa altura em a Grécia uma vez mais mostrou o que é um povo livre, sempre quero ver se todos os apoiantes da actual coligação, PSD e CDS, - que nos últimos dias, quais descarados pirueteiros, vieram aplaudir a medida de Draghi - têm igual falta de vergonha na cara para virem também aplaudir a vitória do Syriza. Não me espantaria pois nada me espanta já naquela gente.





NB: Não conheço bem o programa do Syriza. Do que tenho lido, parece-me ousado e fracturante embora tenha vindo a observar o abrandamento nas opções, mostrando que, na política, a arte do equilíbrio é uma virtude. Vamos ver como vai Alexis Tsipras avançar para não defraudar as expectativas do eleitorado e, ao mesmo tempo, não dar passos maiores que a perna. 


Quem diria há uns anos atrás que Alexis Tsipras (40 anos, engenheiro civil, juventude formada nas fileiras comunistas,  dois filhos) ia estar onde está hoje?
A Grécia, uma vez mais, vai à frente e mostra que a Europa ainda não está morta


De qualquer forma é sempre positivo pois é um abanão no status quo europeu, um abanão nos acomodados desta vida, nos que vão na cantiga de qualquer pantomineiro, nos cobardes que se agacham de cada vez que a bardajona da Merkel arreganha o dente. 

Contudo, para não me acontecer a decepção que tive com o Hollande em quem depositei esperança e que veio, afinal, mostrar não ser mais do que um insignificante frango do aviário da Merkel, vou esperar para ver.

Mas, independentemente disso, mesmo que não venha a ser o motor de arranque de um grande movimento de mudança de rumo que eu desejo nesta Europa amorfa e decrépita, esta vitória já vale por si - nem que seja apenas para mostrar que, contra o desânimo e a coluna vergada, há sempre a possibilidade de levantar a cabeça, cerrar os punhos, manter a coluna bem direita, caminhar sobre os próprios pés, traçar os próprios caminhos, caminhar em direcção ao futuro. 


Democracia é isto.

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