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sexta-feira, junho 21, 2024

Trabalhar muito

 

Já fez um ano que deixei de trabalhar. Gostava de ter conseguido reformar-me mais cedo mas um dos meus colegas mais próximos de quem eu era backup e vice-versa adoeceu com gravidade e quis que não se soubesse pois uma das empresas estava a atravessar um processo em que a sua doença poderia cair como uma bomba e criar uma desestabilização desnecessária. Por isso, trabalhei mais uns quantos meses para além do que tinha previsto. Foi um esforço enorme pois, por um lado, já me tinha preparado mentalmente para fazer o corte e, por outro, foi um período muito conturbado e atravessado por grandes preocupações, em que, ainda por cima, tinha que ocultar das pessoas com quem lidava diariamente toda a situação.

Muitos colegas achavam que eu ia estranhar muito a inactividade da reforma por comparação com a  minha sobreocupação permanente. Achavam que eu não conseguiria parar, que não saberia viver sem a adrenalina de resolver mil problemas por dia. Mas eu sempre soube que iria adaptar-me lindamente. Trabalhava muito não por vício ou por prazer mas porque parece que os problemas caiam em cima de mim. Trabalhava horas a mais e tinha férias a menos apenas porque não conseguia furtar-me ao que esperavam de mim e a que eu, por um sentido de responsabilidade que devo ter herdado dos meus pais, nunca tive habilidade para escapar.

Conheci muitas pessoas que diariamente estavam na empresa até às quinhentas ou que marcavam reuniões que começavam às cinco ou seis da tarde sabendo que iam prolongar-se até às tantas não se importando com o sacrifício que isso implicava para a vida familiar dos participantes e que, mesmo quando eram reuniões improdutivas, as prolongavam para além do aceitável. Em especial muitos homens pareciam querer chegar a casa fora de horas, provavelmente dizendo em casa que o trabalho a isso obrigava.  E, com isso, obrigavam as secretárias ou as pessoas que convocavam a também saírem tarde. Um egoísmo imperdoável. Quando os confrontava com isso ficavam indignados, por vezes pareciam até magoados como se eu fosse a última pessoa que poderia condená-los por fingirem que trabalhavam quando, notoriamente, eram uns escravos do dever. Treta. Faziam render. Se calhar já nem davam por isso ou já não sabiam fazer de outra maneira. 

Nunca fiz nada disso e se ficava a trabalhar até tarde era porque tinha mesmo muito que fazer ou porque havia empatas que eram um atraso de vida para todos, incluindo para mim.

Durante grande parte da minha vida acumulei funções, trabalhei simultaneamente em empresas diferentes (embora do mesmo grupo), aceitei liderar projectos complexos ao mesmo tempo que mantinha funções correntes. Gostava disso. Sempre gostei de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, de preferência de cariz distinto, com diferentes equipas, com 'chefes' distintos. Esse stress, que para a maior parte das pessoas seria insuportável, para mim era muito motivador. Desafiavam-me, pediam-me, e eu aceitava. Por isso é que tinha tanto trabalho.

Ou seja, poderia ter tido uma vida bem mais fácil. Como, ao mesmo tempo, sempre quis estar presente para a família, em particular quando os meus filhos eram pequenos, o meu dia a dia era uma luta. Mas realizava-me puxando a minha capacidade ao limite.

Mas sempre tive muito claro que seria assim, velocidade ao máximo até ao último dia mas, quando parasse, seria de vez e numa boa.

E assim foi. Não me arrependi nem por um minuto de ter deixado de trabalhar antes do que poderia (por exemplo, muitos colegas meus trabalham até aos setenta), não senti nem por um minuto saudades daquela tremenda azáfama. Não. Adoro a minha vida de reformada.

E, não sei como, parece que continuo sempre atarefada. Mas não tenho horários, não tenho a agenda preenchida de manhã à noite, faço o que quero quando quero. 

Não tenho conselhos a dar. Cada um que faça aquilo que lhe der mais prazer mas desde que com isso não esteja a estragar a vida dos outros. Ou seja, se uma pessoa gosta de sentir a adrenalina de ter muito que fazer pois que lhe dê bom uso. Mas se simplesmente gosta de chegar tarde a casa, arranjando pretextos para parecer que está muito atarefado, digo-lhe que acho que alguma coisa não está lá muito bem nessa cabeça. E, se não consegue  deixar de fazer coisa tão parva*, pelo menos então que o faça sem empatar a vida dos outros.

[Claro que estou a omitir deste raciocínio os que, para fazerem face às exigências da sua vida, têm que recorrer ao pluri-emprego ou têm que se sujeitar a fazer muitas horas extraordinárias. Aí é outra conversa, é uma questão de necessidade e não de gosto ou de patologia.]

E o que posso dizer é que, da minha parte, aqui chegada, depois de tantos anos de trabalho e pressão, sinto-me muito bem, tranquila, feliz da vida, tentando saborear bem cada momento, mesmo os de pura ociosidade.

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A quem apeteça uma reflexão sobre as razões para se trabalhar tanto, aqui fica um vídeo que pode dar uma ajudinha.

The Real Reason We Work So Hard

We work as we do because – of course – we need to; because nothing is cheap, because the bills are incessant; because of all the good and wise and sensible reasons that we’ve been highly aware of since mid adolescence at least. But that is too neat and we know it deep down; we know that there is also – alongside this – something more complicated that we use the idea of necessity to avoid. 


terça-feira, julho 12, 2016

Cleópatra, o Professor Marcelo que bate o Miguel-bate-Punho aos pontos, o idolatrado Mister Santos e os apoiantes que vão em peregrinação a Fátima e que talvez aproveitem para agradecer também aquilo das sançoezitas serem de brincadeirinha, e, ainda, qual cereja em cima do bolo, 'O que os homens simpáticos não dizem às mulheres simpáticas'





Muito bem, sim senhor.

À hora do almoço ia no carro a ouvir o discurso do Marcelo a parabenizar os jogadores. Empolgante, muito motivador. Aquele tal bimbo que dá pelo nome de Miguel-bate-Punho devia pôr os olhos no Professor para aprender como é que se inspira, motiva e galvaniza uma plateia. O nosso ubíquo presidente puxa o ego para cima, envolve-o em tule e benze-o com mel. Por pouco, uma lágrima não me toldava a visão. Ouvi palmas, presumo que dos próprios jogadores. Depois ouvi que foram todos para a varanda, que o povo agradeceu em delírio e que todos cantaram o hino. Eu no carro também cantei. Ora essa.


Quando à noite cheguei a casa, percebi que o ambidextro Prof. Marcelo, parabeniza com um hemisfério do cérebro enquanto com o outro já está a ensaiar a entrada discursiva no Conselho de Estado. 


Já lá vão os não-saudosos tempos em que, nada acontecendo em Belém, qualquer pequeno evento era transformado num happening. Se ia haver um Conselho de Estado, a comunicação social salivava, querendo saber que desígnios misteriosos ali se iriam discutir. Depois, no dia, aquilo durava horas e horas, de lá nunca saía nada e ficávamos todos a pensar que dali nunca valia a pena esperar nada. Quanto muito, antevíamos que, num próximo roteiro cavacal, talvez lá aparecessem referências oblíquas ao sucedido. E suspirávamos de tédio.

Agora, com o Prof. Marcelo, as coisas andam ao ritmo da luz. A gente nem dá por elas. Quando sabe que vão acontecer, já acabaram. Tudo na maior normalidade, como se fosse natural distribuir vouchers para comendas à hora do almoço, cantar o hino à varanda à sobremesa e, logo de seguida, discutir o futuro da desEuropa e elencar os advenientes riscos para o País. Puxa!

Como não vi as notícias, não sei de mais nada. Agora, enquanto escrevo, passam reportagens sobre o menino com ascendência portuguesa que consolou um francês em lágrimas e que se tornou viral (o vídeo, não o menino) e agora estão em casa dele a entrevistá-lo e o menino fala com uma fluência que tomara eu. Se o Prof. Marcelo tem sabido disto, tinha-o trazido até Belém para o ter ao lado daquele menino Tiago que escreveu uma carta à Selecção. Que isto o Prof. Marcelo não é um catavento qualquer -- não senhor, é um catavento com um radar de última geração: nada lhe escapa. 


Agora estão os comentadores do costume: desta vez não discutem. Obra de São Marcelo que apazigua todos os adversários, eles agora consensualizam sobre o quão excelsas são as virtudes do engenheiro Fernando Santos ou como foi ainda melhor Cristiano Ronaldo lesionado, no banco, a moer a cabeça ao Mister, do que a jogar. Os três de acordo. Ele há milagres que a gente nem imagina.


Pelo telefone, a minha mãe já me tinha prevenido: 'Sabes lá o que tem sido... Uma multidão... E na televisão, psicólogos, sociólogos, tudo a dizer que isto é bom para o país.'

Acredito. Somos uns heróis. Não sei se isto é só obra do bom olhado do nosso Presidente ou se há também mão da borboleta de prata que pousou na cara do Ronaldo. Capaz daquilo ter dado sorte ao País inteiro.

Ah, é verdade, à vinda, no noticiário da TSF, também disseram que aquela turminha dos bolinhas armados em bons -- e refiro-me, obviamente, aos comissários europeus -- tinham ido avante com a bambochada das sanções mas que agora a 'cena' era que as sanções tivessem valor facial de zero. Ou seja, uma coisa na base da brincadeirinha. E, cúmulo dos cúmulos da farrinha democrática, quem vai decidir são os ministros das finanças. Uma coisa assim como atribuir as grandes decisões de gestão de uma empresa ao contabilista de serviço. Está certo. Carnaval avant la lettre. Mas, não sei porquê, acho que isto já não dura muito. Palpita-me que um dia destes, alguém, lá de dentro, puxa a toalha e atira a louça ao chão. E aí aquelas pardas sumidades talvez percebam que está na hora de recolherem à casota. E talvez alguma voz se faça ouvir para explicar à bicharada que não é hora das galinhas andarem pelos salões, que é hora de puxar os políticos de verdade para a política.

Bem. Mas isto vinha eu no carro.

Chego agora aqui, faço uma ronda pela net e é quase tudo também na base do futebol. Acho bem. Ao menos, com esta vitória, a honra do convento não ficou manchada. Mas logo o lado religioso das gentes: um vai rezar o terço, vários vão a pé a Fátima e outro pôs-se nu no Marquês. Já a Ágata se tinha posto de bikini.


Felizmente nunca prometo nada. Imagina que me tinha dado para dizer que, se o Éderzito marcasse um golo, pintava o cabelo metade de verde, metade de encarnado e a ponta do nariz de amarelo. E um sapato de cada cor. Com medo das vinganças, depois tinha medo de não cumprir. Havia de ser lindo, eu a ter reuniões e naquela figura.

Bem.

Com isto tudo, não tendo eu promessas a cumprir, não sabendo que mais agora dizer e continuando em pousio no que à alta política diz respeito, mudo-me para o mundo mágico do algoritmo do youtube. Quiçá me reserva matéria suculenta.

E cumpriu, lindo menino. Ciência com fartura, música erudita de várias eras, hetero e ortodoxa, bailados clássicos e modernos, poesia de toda a espécie, muita poesia, e cartas lidas. E sei lá que mais. E, no meio, The school of life. Olho para os vídeos sugeridos e escolho um ao acaso. What Nice Men Don’t Say To Nice Women. Da música escolhi, lá em cima, o novo  e muito bom dos The Lumineers - Cleopatra.

Já agora: para ilustrar o texto apeteceu-me ter aqui as esculturas de bronze da autoria do polaco Malgorzata Chodakowska que as combina sempre com água. Acho que é o tempo quente que me faz apetecer passar junto aos repuxos dos jardins.


Mas, pronto, já chega de conversa mole e vamos à aula da Escola da Vida. Dizem eles deste vídeo:
A lot isn’t expressed between couples because of a fear of not seeming very ‘nice’. That’s deeply unfortunate, and stores up a lot of trouble. We’d be better off daring to be a little more honest
E eu confirmo. Sou casada para aí há uns mil anos -- ou mais -- e quer eu quer o meu marido estamos praticamente santos do que temos aturado um ao outro. Há respeito, claro, que respeitinho é muito bonito e sem respeito não há relacionamento que resista. Mas não há cá pruridos, nem conversas da treta ou teorias de cão de caça, que conversa a mais e muita teoria dão cabo da paciência de qualquer mortal. É pão pão, queijo queijo, Mas nem eu nem ele somos exemplo para ninguém. Aqui os camaradas da The School of Life devem saber disto mais do que eu.


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Sem conseguir responder aos comentários e aos mails que a hora vai avançada, agradeço-os e vou tentar responder esta terça-feira (bem, talvez esta terça também não seja fácil) mas, atenção, não é uma promessa senão já sabem, fico com medo de ser severamente punida se não cumprir. Foge. Punições é que não -- mesmo que também sejam só de brincadeirinha. 
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.
Sejam felizes. Muito felizes.

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