Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, novembro 08, 2019

Sou um 0 (zero) na escala de Kinsey





A sério. É aquilo de que tenho falado. Tanta tecnologia, tanto automatismo, tanta porcaria e, afinal, o trabalho parece que cresce pelos lados. Não dá para perceber. Parece que atraio, caraças. O trabalho cai-me em cima. No carro, vinha a falar com a minha mãe e bocejei e ela disse que se percebia pela minha voz que eu estava cansada. E estava. De tantas horas de trabalho, de tanto trânsito, de tantos anos disto.

E, cá em casa, estive a trabalhar até agora. Até agora.

Bem, mas não estou aqui para continuar agarrada aos temas que se me colaram durante todo o santo dia, de tal forma que ainda me está a custar largar-me deles.

Ainda por cima ando com um outro tema encravado nos dedos. Já no outro dia o aflorei (quando falei da Mona Lisa que, na volta, tinha era um baita pirilau debaixo da saia) mas depois derivei, coisa que me acontece muito quando os deixo à rédea solta (e, nisto da rédea solta, tanto posso estar a referir-me aos dedos como aos temas, não aos pirilaus). Li um artigo sobre o amor na arte e fiquei com vontade de falar nisso. Hoje, ao vir para casa, noite bem noite, uma música boa na Antena 2, vinha a pensar em dar-lhe continuidade: pintores que puseram as suas amantes nas telas, algumas delas casadas com quem lhes tinha encomendado as obras, ou mensagens encriptadas que só eles viam, poetas que cantaram os seus grandes amores ou desgostos, compositores que escondiam segredos onde só eles sabiam. Pano para muitas mangas. Mas, a esta hora e depois de tanta tema desengraçado desfiado ao longo de tantas horas, como começar agora uma coisa dessas que, parecendo que não, requer alguma atenção? Não dá.

Para me enquadrar no mundo, ainda aqui dei uma volta breve pelas notícias e entristeci-me com umas, fiquei indiferente com a maioria, arreliei-me com algumas. Mas não é perto da uma da manhã que vou começar com resenhas, até porque já não me sobra tento para ter algum cuidado e não faltar ao rigor. Impossível.

Portanto, deixei-me de coisas e aterrei na platitude. Ou seja, já andei à procura daqueles casaquinhos de tricot que no outro da irrompiam por todo o lado, quando andava a navegar noutros mares, pois a minha mãe disse que anda sem nenhum trabalho em mãos e eu que visse se alguém quer alguma coisa. Ela disse: Vê lá com elas. Ainda só sondei a minha filha que disse que os miúdos já não querem coisas de malha mas, para ela, talvez um casaquinho ou um vestido. Vestidos não estou a ver mas um daqueles casaquinhos bonitos que, quais cuquinhos nos relógios de cuco, no outro dia me saltavam aqui da toca a toda a hora, talvez. E tanto cirandei que me apareceu finalmente qualquer coisa, não sei se era o mesmo site do outro dia, mas talvez. Já mandei à minha filha para ver se algum lhe parece bonito para o encomendar à avó.

E agora, já a assumir que hoje não dá para escrever nada, fui-me outras vezes aos quizzes. Se estivesse in heaven ia aos medronhos. Ou fotografar cogumelos, Ou, se fosse verão, ia às amoras. Assim, aqui, de noite, na sala, não tenho muito por onde ir em busca. Podia ir em busca de palavras, claro. Podia, por exemplo escrever:
sumo rubro das amoras a escorrer nos lábios, figos doces a derreterem-se na boca, uma manta macia sobre os ombros, uma sombra vertical num muro branco, o som das árvores numa noite de ventania que quase parece o rugido do mar, anjos sem corpo nem nome, os mais desejados, olhares húmidos de amor, perfume de ervas do campo, um abraço apertado, umas mãos tranquilas, o canto de um pássaro chamando pela liberdade, o som do violoncelo, o riso, o sorriso, a lágrima, a palavra nunca dita.
Mas não sei se tem grande jeito pôr-me para aqui a desfolhar ideias que se querem esvoaçantes e não transformadas em letras num ecrã.

Portanto, fui-me mesmo a mais um quizz. Como o fiz meio distraída e sem saber bem de que se tratava, nem estava bem a perceber a lógica das perguntas.

Quando apareceu o resultado, Straight as an arrow, não percebi. Avancei para a explicação e quando vi que era um zero pensei: pronto, uma nulidade. Não sabia qual a escala e, a bem dizer, nem sabia bem o significado da dita escala. Entretanto, já fui instruir-me, na modalidade instrução a la minute. A escala vai de zero a seis. É esta, escala de Kinsey:


E o que me deu foi isto (nada que eu não estivesse fartinha de saber, mas é sempre bom a gente perceber que minimamente se conhece -- isto fazendo de conta que acredito que estes testes, mais do que duvidosos, têm qualquer substância)
You are a 0 on the Kinsey scale meaning that you are exclusively attracted to members of the opposite sex and have never had any sexual experiences or fantasies about the opposite gender. You prefer to stick solely with the opposite sex and are not likely to experience any bisexual or homosexual encounters in the future.
E é isto. E já fiz um outro, sobre qual a minha característica psicológica dominante mas, bolas, haja algum respeito pela vossa paciência, não vos maço mais com estas palermeiras.

Espera-me mais um dia cheio de cenas e isto deixa-me menos espaço na cabeça para dar largas ao que me apetece. Mas as coisas são o que são e esta é a minha vida e, para dizer a verdade, não tenho de que me queixar. No outro dia um colega dizia-me que tencionava ficar a trabalhar até depois da idade da reforma para 'ir buscar umas bonificações'. Eu disse-lhe que eu não, que a vida é curta e que tenho uma nova vida para começar quando me vir livre desta vida de trabalho que levo há séculos. Ele ficou a olhar para mim muito sério, certamente intrigado com a vida nova que quero começar. E eu tive vontade de dizer um disparate, com ar muito sério, para o deixar a pensar que estou maluca. Por exemplo: vida de árbitro de futebol feminino. Ou vida de bailarina de dança clássica. Ou vida de guarda nacional republicana. Mas não disse nada. E ele também não. Quando contei ao meu marido, ele disse: no caso dele, não quer ir para casa para não ter que aturar a mulher. Consta que é uma coisa do além: ciumenta, chata, faladora, possessiva e eu já comentei isto em casa. E eu pensei que devia ser mesmo isso e não as bonificações.

Pronto. Calo-me já, não estou a dizer coisa com coisa. Vou pregar para outra freguesia.


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Fotografias muito bonitas de Erika Astrid em Like a painting na Vogue italiana na companhia de Pedro Abrunhosa em dueto com Sandra de Sá em  'Eu não sei quem te perdeu'

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E um dia feliz a todos.
Thanks God it's Friday.

segunda-feira, outubro 14, 2019

Duncan, o grande amor da vida de Keynes e de Nessa Bell



Por vezes tenho pena de não ter pena para aprofundar os assuntos que me interessam. Guardo para o blog apenas o fim dos dias, quando a minha vida externa me liberta. E, quando chego ao fim dos dias, já tenho o fim da noite à vista e, geralmente, já estou cansada, incapaz de estudos e profundidades. Acresce a estas limitações o paradoxo de me deixar interessar por inúmeros assuntos e de, quando o interesse aparece, ter uma grande curiosidade em desvendá-lo. E, então, é como com os livros: vou juntando coisas para fazer, para estudar, para descobrir.

Talvez um dia. Talvez a maior parte nunca.

Isto para dizer que há um grupo de pessoas, uma época e um modo de vida que sempre despertaram a minha atenção. Ao revisitar imagens desse tempo e desse modo de vida no filme Vita & Virginia voltei a sentir vontade de ir conhecer um pouco melhor alguns dos personagens menos mediáticos (se é que assim me posso pronunciar).

Vanessa Bell, a irmã de Virginia, a Nessa, tão amiga, tão próxima, foi pintora e casada com Clive Bell. Clive Bell era um dos membros do grupo de amigos que gostavam de literatura, de pintura, de arte em geral, de conversar, de polemizar. 

Contudo, no filme, quem se vê em cumplicidade, a partilhar o estúdio, como se fosse o companheiro de Nessa é Duncan. Ora Duncan é homossexual. Fui confirmar. De facto, Vanessa, casada com Clive, tinha um amor profundo com Duncan Grant, homossexual assumido. Conseguiu, contudo, seduzi-lo a ponto de terem uma filha. Duncan tinha também um afecto profundo por ela.

Sobre Vanessa Bell, transcrevo da wikipedia:
(...) Após as mortes da sua mãe em, 1895, e do seu pai, em 1904, Vanessa vendeu o 22 Hyde Park Gate e se mudou para Bloomsbury com Virginia e os seus irmãos Thoby (1880-1906) e Adrian (1883-1948), onde eles conheceram e começaram a se socializar com artistas, escritores e intelectuais que viriam a formar o Grupo de Bloomsbury.
Casou-se com Clive Bell em 1907 e tiveram dois filhos, Julian (que morreu em 1937 durante a Guerra Civil Espanhola aos 29 anos) e Quentin. O casal tinha um casamento aberto, ambos tendo diversos amantes durante a vida. Vanessa Bell manteve relações extraconjugais com o crítico de arte Roger Fry e com o pintor Duncan Grant, com quem teve uma filha, Angelica, em 1918, que Clive Bell criou como sua filha.
Vanessa, Clive, Duncan Grant e o amante de Duncan, David Garnett, mudaram-se para o campo de Sussex antes do estopim da Primeira Guerra Mundial, e estabeleceram-se na Charleston Farmhouse, perto de Firle, East Sussex, onde ela e Grant pintaram e trabalharam em encomendas para o Omega Workshops, atelier fundado por Roger Fry. A sua primeira exposição ocorreu no Omega Workshops em 1916. (...)
Sobre Duncan Grant, transcrevo:
(...) Vanessa queria muito ter um filho de Duncan e ficou grávida na primavera de 1918. Embora se suponha que as relações sexuais de Duncan com Vanessa terminaram meses antes de Angelica nascer (Natal, 1918), os dois continuaram a viver juntos por mais 40 anos.
Viver com Vanessa não era impedimento para as relações de Duncan com outros homens, antes ou depois de Angelica nascer. 

His lovers included his cousin, the writer Lytton Strachey, the future politician Arthur Hobhouse and the economist John Maynard Keynes, who at one time considered Grant the love of his life because of his good looks and the originality of his mind.
Angélica cresceu acreditando que Clive Bell era o seu pai, até porque tinha o seu apelido e o comportamento dele nunca lhe deu nenhuma indicação em contrário.  
Duncan e Vanessa tinham um relacionamento aberto, embora ela aparentemente, nunca tenha tido outras relações depois de passar a morar com ele e de ter o seu filho. Duncan, pelo contrário, teve diversas relações sexuais esporádicas e vários relacionamentos sérios com outros homens, sobretudo com David Garnett. No entanto, o seu amor e respeito por Vanessa manteve-se até à morte dela, em 1961. (...)
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Uma fonte inesgotável de motivos de interesse.
Agora já fui atrás do Keynes mas isso já não cabe aqui e, de resto, daria pano para muitas mangas.

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Já agora, Angelica Garnett, a filha de Vanessa e de Duncan


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Vanessa Bell foi, nas pinturas acima, pintada por Duncan Grant. Mais abaixo pode ver-se Duncan com Keynes e, na última, com Ness. Lá em cima Hélène Grimaud toca Bach

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domingo, outubro 13, 2019

Vita & Virginia



Fui ver o filme. Está agora restrito a uma sessão por dia, a uma hora que não estorva o afluxo a filmes mais mediáticos. A sala quase vazia. Não se ouviu um ruído nem cheirava a pipocas. Os muito poucos que ali estavam, estavam apenas para verem e ouvirem o filme. No escuro do cinema, a beleza das palavras e a serenidade das imagens bastava. 

Quando saímos, uma enchente ruidosa nos corredores, no átrio, nos acessos. Não sei o que está a atrair tamanha multidão. Talvez o Rambo, talvez o Joker, talvez, até, a Judy. Provavelmente nenhum dos que estavam para os outros filmes sabia que o filme se refere à paixão entre Vita e Virginia que são, respectivamente, Victoria Mary Sackville-West, Lady Nicolson, conhecida como Vita Sackville-West (1892 – 1962) e Adeline Virginia Woolf (1882 – 1941). E, se calhar, mesmo que o soubessem, ficariam na mesma.


E, no entanto, que vidas extraordinárias as delas e das respectivas famílias e do grupo em que se integravam.

Não frequento já as estrelas e as bolas com que os críticos de cinema pontuam os filmes mas tenho curiosidade: como terão classificado este filme? 



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Já agora, para os que não sabem, a obra Orlando de Virginia Woolf foi inspirada em Vita Sackville-West e dela se fez o filme cujo trailer abaixo partilho e que tem a participação de Tilda Swinton na figura misteriosa e andrógina de Orlando.



sexta-feira, agosto 23, 2019

Vídeo com o Presidente do Parlamento Neo-Zelandês a dar biberão ao bebé de um deputado enquanto preside a uma sessão


Acredito que se percebe que a democracia é verdadeira e madura quando a aceitação das diferenças e de supostas extravagâncias acontece com naturalidade. Acredito também que uma sociedade é mais feliz se, em vez de haver permanentemente uma culpabilidade latente por parte de uns e uma apetência pela censura e pela maledicência por parte de outros, houver, isso sim, uma predisposição geral para a aceitação e para a generosidade.

Tāmati Coffey, Natasha Dalziel (a mãe de 'aluguer') e Tim Smith
com o bebé Tūtānekai.


No vídeo que abaixo partilho, aos meus olhos de democrata ainda primeva, tudo parece relativamente  atípico. Os pais do bebé são dois homens casados que recorreram a uma barriga de aluguer. Um deles é um deputado que, ao regressar da sua baixa de parentalidade, levou o bebé para o parlamento. 

Como se só isso, por si, já não fosse uma maravilha, Trevor Mallard, o Speaker do Parlamento, resolveu levar o bebé para o seu colo e, ali mesmo, alimentá-lo. E isso enquanto continuou a cumprir o seu papel de moderar o debate, presidindo à sessão.
Não nos esqueçamos que já Jacinda Ardern, a primeira-ministra, tinha levado o seu bebé para o Parlamento. Os exemplos têm que vir de cima. Sempre assim foi e é assim que deve ser.

E estou a lembrar-me da deputada australiana que, o ano passado, no parlamento, fez uma intervenção enquanto estava, justamente, a amamentar.

Larissa Waters e o seu bebé

E eu vejo isto e fico contente e a pensar que era tão bom que um dia isto fosse possível em Portugal.

As dificuldades que eu tive quando os meus filhos eram bebés e eu ainda os amamentava, o peito cheio, cheio, muitas vezes os seios a jorrarem leite e eu ainda com Lisboa inteira para atravessar primeiro que chegasse ao pé deles. Como a minha vida teria sido mais fácil se eu pudesse levá-los comigo para o trabalho. Em vez de dois filhos, se calhar tinha tido mais uns quantos. Que bom. Tanto que eu gostava de os ter junto a mim. E tinha que os deixar de manhã e só ir buscá-los ao fim da tarde, sempre em stress.


Ainda a semana passada um 'boss' me dizia que tinha estado a entrevistar um homem jovem para uma função exigente e que lhe tinha perguntado se já tinha filhos. O pobre disse que não e ele perguntou-lhe se estava a pensar ter nos próximos anos. O pobre disse que não. E eu, ao ouvir isto, não consegui esconder o meu incómodo: 'Não acredito que tenha feito isso. A sério? Não acredito! Mas que ideia. Que mal tem se tiver filhos?' e ele, admirado, 'Ah, é que é a licença de paternidade, depois é o menino que está doente ou que é preciso ir buscar o menino à escola. Então eu não sei como é?'. E eu: 'Mas e então? Vamos querer que a espécie se extinga para não beliscar a produtividade? Que coisa. Peço desculpa mas essa mentalidade já não está com nada'. Aí ele mudou um pouco o tom: 'Pois, se calhar tem razão. Mas, olhe, já fui muito pior. Nem queria que se contratassem mulheres que ainda não tivessem os filhos já criados. Aliás, preferia homens porque faltam menos que as mulheres'. Voltei a mostrar o meu desconforto: 'Claro que faltam menos. Pois se são as mães que têm que ficar com as crianças... Se a responsabilidade pelos filhos passar a ser assumida por ambos, a ver se os homens não passam a faltar tanto como as mães...'

E ainda me lembro quando, há uns anos, seleccionei uma jovem para a minha equipa. Não veio de imediato, tinha que dar um tempo à empresa onde ainda estava. Então, decorrido talvez um mês de lhe ter sido comunicada a nossa decisão, liga-me ela para me dizer que tinha descoberto que estava grávida e queria ser franca comigo e que eu estivesse à vontade para lhe dizer que já não iríamos admiti-la. Felicitei-a e sosseguei-a: 'Boas notícias. Vir uma criança a caminho é uma maravilha. Fico contente. E claro que será muito bem-vinda'. Quando transmiti a minha decisão aos meus colegas, ficaram a olhar-me um bocado de lado: 'Então entra para, logo a seguir, entrar em baixa?'. E eu: 'Isso mesmo'.

Teria a criança uns dois anos, voltou a ficar grávida e voltou a aparecer-me como que a medo e, de novo, a felicitei. Contudo, lembro-me de um administrador (um todo moderno, um que parece todo prá-frentex) me ter dito, com ar aborrecido: 'Mas essa veio para cá para ter filhos ou quê?'. E eu, furiosa: 'Mas isso diz-se? Queremos que nasçam muitas crianças no nosso país e é nossa obrigação não dificultar a vida a ninguém. Fazemos é pouco.'

Ele olhou para mim de lado, como sempre fez, quando achava que as minhas atitudes eram feministas. E, se calhar, eram. Se calhar, deveria era manifestar-me mais graficamente.


Como as ideias cavernículas de alguns portugueses (homens e mulheres) -- dos portugueses e de todos os estúpidos de todo o mundo -- devem parecer impensáveis aos felizes neo-zelandezes quando sabem delas...
Um desfasamento desta ordem tem a ver com o quê? Clima? Cultura? Um somatório de circunstâncias que, vulgarmente, dá pelo nome de história? Ou é apenas sorte, sorte dos que nasceram abençoados, sabendo ser boas pessoas?
E, quanto à maneira como ainda há quem olhe de lado para os casais gay ou para os gays em geral, nem é bom falar. Parece coisa antiquada, intolerante, inaceitável. Mas existe a faz sofrer muita gente. 

Mas vejam, por favor, o vídeo que obtive via Guardian, do qual transcrevo
Trevor Mallard, New Zealand's House of Representatives speaker, cradled and bottle fed a lawmaker's baby while he presided over a debate.
Baby Tūtānekai Smith-Coffey, the son of Labour MP Tamati Coffey and his husband Tim Smith, was born in July via a surrogate mother
Encantem-se, please. Isto é real. Aconteceu.


E até já

[E estou aqui a torcer-me para encontrar o registo certo para falar do que está a acontecer à Amazónia e de quão perigoso é estar parte do mundo na mão de imbecis. E é que, de caminho, a seguir ao Bolsonaro teria que falar no Trump, no Salvini, no Bannon, e em todas as bestas quadradas que se puseram a cavalo no mundo. Mas não estou a encontrar a forma moderada para falar disto com calma]

quarta-feira, julho 24, 2019

Your Post Has Been Deleted
e
Not your girl




Espanto-me quando vejo as marchas gay. Tanta gente. Pode acontecer que alguns que ali estão sejam apenas apoiantes mas, quando as câmaras se chegam, vêem-se muitos casais abraçados, a beijarem-se. Tantos. Vejo também cada vez mais casais no seu dia a dia, a céu aberto, sem esconderem a sua orientação sexual. E penso como deve ser libertador para eles poderem fazer o que a maioria faz: manifestar o seu afecto. E como deve ser-lhes reconfortante a indiferença de quem com eles se cruzam. E imagino como, pelo contrário, deve ser horrível viver tendo que esconder uma coisa que é da própria natureza, viver uma vida de mentira, recear os olhares de censura ou de chalaça dos outros, recear ser segregado, rejeitado.

Não sei que percentagem da população é homossexual mas estou em crer que não é tão marginal quanto se possa pensar e estou também em crer que muitos ainda não são francamente assumidos. Talvez a gente mais nova já se sinta mais liberta e são esses que mais se vêem de mão dada ou, mesmo, a darem um ou outro beijo, mas muitos que hoje já são pais e mães de família imagino eu que não tenham coragem para se assumir. Por exemplo, desde há vários anos que convivo com um que todos achamos que é completamente gay e, no entanto, é casado, faz-se de muito hetero e até passa a vida com anedotas e gracinhas sobre gays. E sei de uma que é lésbica, assumida na sua vida privada, e que, no entanto, na sua vida social ninguém desconfia nem um pouco da sua orientação. A duplicidade a que isso obriga deve ser arrasadora. Mas, com eles, nunca falamos no assunto, é tabu. 

E se hoje se fala muito em inclusão a propósito de deficiências e se dão passos importantes no sentido das acessibilidades e da adopção de políticas de recutamento abertas a pessoas portadoras de deficiência, a verdade é que, em privado, na primeira oportunidade, parodiam-se alguns possíveis trejeitos ou ampliam-se as suspeitas das simpatias gays. 

Não quero com isto dizer que um homossexual seja deficiente e se aqui faço esta ressalva é porque sei como é fácil uma pessoa ser treslida. Uma pessoa homossexual não é deficiente. O que quero dizer é que enquanto a deficiência tende a despertar o lado caritativo dos decisores 
(e digo isto consciente do que estou a dizer pois se há um lado de abertura mental ou de consciência social, a verdade é que há também muito um lado que é isso mesmo, caritativo, e isto porque há muito, entre os decisores, a ideia de que o poder de que dispõem os torna invulneráveis, ou seja, superiores, disponíveis para dar uma 'mãozinha' aos seres inferiores), 
a homossexualidade é ainda vista, por muita gente, como uma perversão, um comportamento desviante, um traço de personalidade que predispõe os homossexuais à submissão, a serem alvo de gozo, humilhados. 


Já aqui o disse mil vezes e é um facto. Sou heterossexual irredutível e, desde que me conheço, que me sinto atraída pelo sexo oposto. Sempre me conheci em estado de enamoramento por meninos primeiro pequeninos e depois maiorzinhos. Nunca senti qualquer atracção por nenhuma mulher e, se penso na possibilidade de ter algum contacto sexual com uma, involuntariamente sinto alguma aversão física. Mas isso sou eu. Se calhar, teria uma vivência mais rica se fosse bissexual. Mas, lá está, isso não é coisa que se escolha.

E é por ter muito claro que isto é coisa da natureza e/ou das circunstâncias de vida que, aqui, não me canso de falar no direito dos homossexuais à sua vida vivida em plenitude, na companhia de quem escolherem, sem terem que esconder ou, de alguma forma, pretender mitigar a sua orientação sexual. Toda a gente tem direito a viver feliz e em liberdade.

E estou a escrever isto porque vi umas fotografias na Vogue italiana e apeteceu-me tê-las aqui. São muito bonitas.

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A primeira fotografia é de Jörg Colberg e a segunda e este vídeo já aqui acima são de Stella Asia Consonni.

Vi a primeira em Your Post Has Been Deleted – Censorship on Instagram e a segunda em Not Your Girl, ambos na Vogue italiana.

A Nina Simone está aqui porque sim, porque mil vezes sim, pela voz, pelo piano, pela presença. E porque o Strange Fruit é muito bonito.

quinta-feira, janeiro 17, 2019

Uma casa decorada com muito bom gosto



Tenho conhecido casas muito bem decoradas. Tenho também experimentado a sensação desagradável de estar em casas em que tudo é depressivo ou de péssimo mau gosto.

Conheço pessoas que não gostam nem sabem decorar as suas próprias casas e contratam decoradores. Dois deles (que nada têm a ver um com o outro -- e digo isto pois poderia tratar-se de um casal), por exemplo, quando mudaram de casa, contrataram a decoração integral da casa, desde móveis, iluminação e, até, bibelots e quadros. Ouço isto com um arrepio interior. Eu, que sou toda de casa, escolho tudo, cada peça, cada pormenor. Seria do além ter alguém aqui a decidir por mim o que pôr em cima do mõvel ou aparecer-me aqui um sofá, uma mesa e cadeiras ou um candeeiro que não escolhi -- coisa mais grave do que ter aqui em casa uma mulher a fazer de conta que era mulher do meu marido.


Uma pessoa tem a ideia que os homens homossexuais têm, em regra, muito bom gosto. Conheço um (não assumido) que, pela descrição que me faz da sua casa e das peças que lá tem, deve ser um tremendo wannabe, coisas caríssimas, armadas em coisas altamente estilosas mas que, para meu gosto, devem ser de susto. Mas talvez seja a excepção. Ou, na volta, é por ser não assumido.

Mas acredito que tenham uma sensabilidade mais apurada do que os hetero. E acredito sobretudo desde um episódio de que aqui já falei. Havia uma loja de móveis muito grande que tinha mõveis muito bonitos. Não é aquela loja cujo dono fornecia embaixadas e que também era antiquário. Não, esta era o oposto. Ali não havia móveis de estilo inglês nem coisa que se lhe parecesse. Eram móveis de grande porta, móveis todos eles design, madeiras geralmente claras, madeiras exóticas. Aparadores compridos e largos, bibliotecas imensas, mesas de sala de jantar enormes, sofás de quatro ou cinco lugares, tecidos luxuosos. Comprei lá o quarto dos meus filhos, o aparador da copa e mais um ou outro móvel solto. E comprei pois tinham uma linha de produtos de boa qualidade mas 'normais'. Eu via as montras, outras vezes entrava, e ficava pasmada com aquelas mobílias tão extraordinárias (e caras!) e com a rotação que indiciava que arranjavam compradores para aquilo. Uma vez perguntei: Mas quem é que compra estes móveis? Tem que ser gente com grandes casas pois isto não cabe em casas com divisões normais. E gente com muito dinheiro.


A senhora da móvel explicou-me: Temos uma clientela predominantemente gay. Têm muito bom gosto e um grande poder de compra.  Como não têm o quarto dos filhos, deitam paredes abaixo e ficam com grandes divisões que aguentam muito bem este tipo de mobílias. São os nossos melhores clientes. E disse que muitas vezes compram andares com uma grande vista. 

A loja acabou por fechar. Penso que o Ikea acabou com muitas destas lojas. Era como a Conceição Vaz Costa. Comprei a minha cristaleira lá. É um dos móveis da minha casa de que mais gosto. Muito sóbrio, muito elegante. Ainda a loja era na Artilharia Um. Depois abriu aquela loja enorme ali ao pé do IADE, perto de onde oje é o enorme escritório Vieira de Almeida. Era uma loja espectacular. E um dia fechou. 

No Colombo também havia uma boa loja. Desapareceu. Agora, no Colombo, há apenas a Area 8 que não tem nada de clássico mas que tem coisas de muito bom gosto, design e estilo a valer (e preços a condizer)


[As fotografias que aqui usei para 'enfeitar' o texto são de uma casa de campo muito bonita em França e, ao vê-la, lembrei-me da casa de um casal francês que uma vez visitámos numa zona de campo perto de Versailles.  O meu marido conhecia o francês e, uma vez que fomos a Pars, ele fez questão de nos receber para um almoço delicioso e muito atípico. A casa era uma luminosa moradia de dois pisos aberta para um terreno relvado com uma grande árvore de tipo chorão]

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Mas vem isto a propósito de um vídeo de que o algoritmo do YouTube achou que eu ia gostar. E gostei. Um casal mostra a sua casa. Que casa fantástica. Vejam, por favor, pois vale a pena.




PS: Não me apetece falar do Brexit, essa galinha pelada e sem cabeça que por uma daquelas coincidências do destino foi parar às mãos da desengonçada May que parece outra galinha que tal. Também não me apetece falar do PSD, esse saco de gatos que mais parecem ratos, onde não há quem tenha estilo ou ponta de graça. E ainda estou a perceber se completo a minha reportagem de Lisboa ou se me deixe disso.

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Talvez até já.

terça-feira, outubro 09, 2018

Ninguém nos pode parar.
["Seria incapaz de amar um filho homossexual" - palavras de Jair Bolsonaro, o preferido de muitos milhões de Brasileiros]


No outro dia recebi, via YouTube, notícia de um novo vídeo da União das Tribos. Fui vê-lo. Curioso: justamente no dia em que pessoa amiga me disse que tinha estado a almoçar com um conhecido nosso que eu pensava que ainda estaria a viver em Berlim.

Vendo o filme perceberão melhor a relação com o que vou escrever a seguir.


Como ontem referi, vou escrever com pinças. Não quero que alguém consiga saber de quem vou falar.
Lembro-me sempre de que uma vez escrevi aqui um texto violento, insurgindo-me contra uma situação que muito me abalou. Pelo tema que era, não disse o nome da pessoa envolvida nem, em meu entender, disse fosse o que fosse que a pudesse identificar. Mas penso que deixei transparecer o meu asco por quem tinha praticado tais actos. Pois bem: no dia seguinte recebi um mail da dita pessoa. Fiquei estupefacta. Era uma carta sentida. Dizia que se tinha reconhecido no que eu tinha escrito. Negava o seu envolvimento no caso e dizia que, de tudo aquilo pelo que tinha passado (e era muito), nunca nada o tinha feito sofrer tanto como as minhas palavras. Quando acabei de ler o mail, eu estava petrificada. Poderia ser que ele estivesse inocente? Seria possível que estivessem todos enganados, acusando-o injustamente, e que eu também estivesse a cometer uma tremenda injustiça? Li e reli. Eram palavras toldadas pela mágoa e nelas reconheci a verdade.
E, no entanto, relendo as minhas palavras, ninguém poderia adivinhar que era ele. Só ele. Escusado será dizer que fui alterar o meu texto e lhe pedi mil desculpas. E nunca mais deixei de me lembrar: toda agente é inocente até prova em contrário. E à Justiça o que é da Justiça. De facto, foi ilibado. De facto, eu e meio mundo estávamos enganados. Nunca me arrependerei o suficiente: como fui capaz de fazer sofrer tanto uma pessoa, ainda por cima uma pessoa inocente?

E nunca mais me esqueci de outra coisa: tem que se ter cuidado com o que se escreve aqui.
Outra vez falei aqui de uma pessoa com quem trabalhei, a pessoa com quem, até hoje, mais aprendi a todos os níveis. Um senhor. Um grande amigo. Aprendi o que é a confiança absoluta. Nunca ninguém confiou tanto em mim. Tinha defeitos e algumas pessoas odiavam-no. Eu reconhecia os seus defeitos mas gostava dele a ponto de tudo lhe desculpar. Nunca conheci ninguém tão inteligente, tão descarado, com tanto sentido de humor. Um sedutor. Um estratega. Um desafiador.
Não referi nome, traços fisionómicos, dados pessoais. Nada. No dia seguinte tinha um mail de uma Leitora que me dizia: conheci a pessoa de que falou, era exactamente assim. E dizia o nome e qual a empresa onde o tinha conhecido. Era verdade. Era ele e de facto, antes de ter trabalhado na empresa onde eu trabalhava, ele tinha trabalhado nessa empresa.
Mas isto para dizer que tenho que ter cuidado quando falo de alguém pois pode essa pessoa reconhecer-se e não gostar que eu esteja a fazer revelações sobre ela.
É o caso.

Conheci esse jovem de que falo lá em cima há uns anos. Discreto, afável, inteligente. Começou a progredir. Toda a gente lhe reconhecia valor. Passou a viajar bastante, em serviço. Era muito eficaz e alguém em quem se podia confiar para levar a cabo missões mais difíceis. Falava inglês fluente, tinha à vontade a falar em público. Low profile mas seguro, tranquilo. Almocei várias vezes com ele. Boa conversa, simpático. Os outros homens contavam viagens comuns, relatavam feitos. Sempre discreto, ele era um bom parceiro. Nada exibicionista mas também não excessivamente reservado. Lembro-me de um jantar no Porto, num restaurante escolhido por ele, o vinho escolhido por ele. Tudo irrepreensível.

Até que, um dia, um outro com quem tenho uma relação de uma certa cumplicidade, me disse: 'Cá para mim ele é gay'. Achei um disparate. Protestei: que disparate. Nem sinal disso. Nem um trejeito, nem um maneirismo, nada, nada, nada. Ele disse-me: 'Fui a um bar na sexta à noite e vi-o, numa mesa ao canto, estava com outro e tinham a mão em cima da mesa, como se estivessem prestes a dar a mão. Não me viu'. Achei uma conclusão despropositada. Às tantas tinha calhado porem o braço na mesa e ele ali, logo, a lançar tal suspeita. É que nunca, nunca, nada, nem uma forma de rir, nem um olhar suspeito, nada. 

De quando em quando, voltava à carga: 'Nunca se lhe ouve uma palavra de uma namorada, nada. Nunca nem uma palavra da vida privada. Não acha esquisito?'. Respondia: 'Não. Não acho nada. É discreto. E faz ele bem'

Pois bem. Continuou a sua justa progressão profissional, sem ninguém saber o que quer que fosse da sua vida. Sabia-se apenas que vivia num belo e caro apartamento numa das melhores zonas de Lisboa.

Até que um dia, do nada, a novidade estalou: demitiu-se. Pasmei. Toda a gente pasmou. Perguntei: Mas porquê? O que aconteceu? Faz aquilo de que gosta, parece sempre tão motivado, ganha tão bem. Disseram-me: 'Diz que vai viver para Berlim, diz que vai ter com a namorada. Diz que lá ia de vez em quando, ao fim de semana, mas que quer ir viver para junto dela'. Perguntei: Mas tem lá trabalho? Que não, que ia sem nada, simplesmente queria fazer lá a sua vida, e que arranjaria qualquer coisa. Fiquei admirada. Eu e toda a gente. Se houve ascensão meteórica, foi a dele. Toda a gente reconhecia o seu valor e era recompensado principescamente.

Mas foi.

Há uns anos. Esqueci-me dele. Pois bem, para minha surpresa, disse-me agora o meu amigo: 'Sabe com quem almocei?' E contou: 'Regressou. Telefonou-me. Fomos almoçar'. Perguntei: Mas então? O que aconteceu? Ele explicou-me: 'Parece que não conseguiu arranjar trabalho que lhe agradasse. E parece que o namoro também não correu bem. O não ter trabalho fez com que as coisas se degradassem. Voltou sozinho. Está a tentar montar a sua própria empresa'. Pensei logo que, se quisesse voltar, teria as portas abertas. O meu amigo disse: 'Também lhe disse isso mas ele disse categoricamente que não'.

Fiquei calada, sem perceber.

O meu amigo disse-me, então: 'Eu tinha razão. Ele é gay. Ele não diz nada e eu também não falo nada. Uma amiga contou-me. Contou-me que não era uma namorada coisa nenhuma em Berlim, era um namorado. Contou-me que ele saíu de cá porque vivia apavorado com medo que descobrissem'. Respondi: Mas que mal teria? Ele disse-me: 'Reconheça: é um meio conservador, machista. A minha amiga disse-me que ele não conseguia imaginar o que pensariam quando descobrissem. Tornou-se insuportável para ele manter a capa, esconder. Não conseguia mais. Ele diz que nunca ninguém desconfiou mas ele tinha horror de que um dia percebesse uma piada, de que desconfiasse de que os outros sabiam e falavam pelas costas'

E eu fiquei a pensar como deve ser horrível a vida das pessoas que se sentem obrigadas a esconder a sua natureza com medo da rejeição.


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A afirmação completa de Jair Bolsonaro, o candidato mais votado nas eleições do Brasil, é a seguinte:
"Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí" 
Bolsonaro, a par de Trump e de outros, é mais um caso extremo entre os políticos civilizados do nosso tempo --  mas a verdade é que a maioria dos votantes brasileiros escolheu-o a ele. E, para angústia dos democratas e das pessoas que prezam a liberdade e a tolerância humanista, pode acontecer que seja o próximo presidente do Brasil. 

Terá, com ele, milhões de pessoas que apoiam as suas ideias cavernícolas e assassinas. Parece mentira, parece uma loucura -- mas é o mundo perverso em que vivemos, um mundo a ser devorado pelo populismo.

Qual a vida das pessoas como aquele meu conhecido que, apesar de viver num meio civilizado e tolerante, teve medo que descobrissem a sua orientação sexual e fugiu? Como será para um homossexual viver num país presidido por um perigoso troglodita como Bolsonaro?

Quantos se esconderão atrás de máscaras --  em segredo sussurrando as palavras do refrão de 'Ninguém nos pode parar'?

Vamos fugir
Vamos deixar que as estrelas nos guiem
Vamos tentar
E começar noutro lugar
E vamos fugir
Vamos deixar que as estrelas nos guiem
Vamos lutar
E encontrar outro lugar 


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Não levem a mal que hoje não responda aos vossos comentários (e que bons eles eram...). O meu dia não foi fácil e, ainda por cima, foi longo. Cheguei a casa muito tarde e muito cansada. E ainda quero forçosamente tratar de um assunto profissional antes de me ir deitar; e, como um mal nunca vem só, amanhã tenho que madrugar. Por isso, desculpem-me mas não consigo. Se amanhã tiver a cabeça mais fresca, tentarei responder.

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terça-feira, agosto 28, 2018

O Papa, a homossexualidade e a psiquiatria


Estou eu aqui sossegada, a banhos, e a ser maçada com um surururu que atravessa dunas e marés para chegar até mim. Desde jornalistas a bloggers meio mundo desatinou com um desabafo do ex-Jorge Bergoglio: disse ele que, quando um filho manifesta inclinações homossexuais, os pais deveriam tentar fazer qualquer coisa por ele, nomeadamente levá-lo ao psiquiatra.

E tão politicamente incorrecta a coisa soou que logo a Santa Cúria limpou a palavra psiquiatria do conselho, reescrevendo a história da frase. Mas nem mesmo assim os incomodados se aquietaram, continuando a blasfemar. Ora, em meu entender, deveriam  antes atentar no sentido profundo da recomendação.

É que eu, que não me tenho por beata ou conservadora, não consigo divisar o mal da ideia de Francisco, o Papa. 
[Até porque quando a malta pensa em psiquiatria já vai com o pensamento enviesado, logo pensando em médico para malucos, tarados, gente depressiva ou esquizo. Mas, calma, há psis para a juventude.]
Eu leio assim a ideia do Papa Francisco: 
  • A julgar pelo que se sabe, alguns jovens que sentem inclinações homossexuais acham que a única maneira de consumarem os actos que têm em mente é irem para padres.
  • Portanto, parece-me bem que o Papa sugira que se explique aos jovens que podem ser homossexuais à vontade sem terem que ir para padres. 
Mais:
  • Claro que, para os que gostam de usar saia não querendo assumir o fetiche, a batina pode parecer um bom sucedâneo. 
  • Mas ainda assim, se é só por isso, o psiquiatra pode falar de outras opções. 
Mais ainda:
  • Alguns deles, com gostos mais perversos, sabendo que, em certas situações, a perversidade dá prisa, acham que onde podem usar e abusar da impunidade é nos seminários e noutros meandros paroquiais. 
  • Mas também aqui me parece que há espaço para a psiquiatria, nomeadamente para lhes explicar que ir para padre para abusar de crianças não é a melhor ideia. Claro que podem passar impunes durante anos ou mesmo para sempre mas ainda assim pode haver tratamento, seja na base da persuasão seja na base do tratamento químico ou mesmo físico (embora não se recomende que um psiquiatra dê um par de estalos num putativo pedófilo).
Acho que já é tempo dos homossexuais que gostam de fazê-la pela caladinha e os pedófilos que gostam do cheirinho a batina e a incenso deixarem de se acobertar na igreja. E se a solução é mandá-los ainda jovens para o psiquiatra pois muito bem. Estou com Bergoglio.

sábado, agosto 11, 2018

Pensamentos perdidos, casamentos gays, uma luz dourada e doce sobre o mar, gaivotas.
E o tempo que falta.





Estou com vontade de escrever uma história e isto porque, há bocado, em conversa ao jantar, depois de ter andado a ver o mar e a fotografar tudo o que mexe, me ocorreu uma cena. E tão delirante ou hilariante ela me pareceu que estou com aquela sensação de que tenho que pô-la a ver a luz do dia. E como me parece altamente improvável que, no contexto actual, a possa passar à prática, parece que a única maneira de a valorizar como ela o merece é inventar uma história e implantá-la lá no meio. Uma espécie de obrigação moral que, de repente, me caíu em cima.


Mas acontece também que, tão longo e cheio de arrelias e perplexidades e revoltas e fúrias e desprezos e incompreensões foi o meu dia que, a esta hora, tendo chegado há pouco a casa, o que me apetece é pôr-me para aqui feita maria-zonzinha, atapetada em preguiça, olhando vagarosamente as fotografias e ouvindo religiosamente a música que vai passeando sobre o meu corpo que, involuntariamente, se abandona.

Estava um fim de dia tão bonito. Fresquinho, uma aragem um pouco fria mas com uma luz derramada sobre o areal e sobre o mar quase de cortar a respiração. 
Não. Vou reescrever a parte da luz para ver se a banalidade do corte da respiração não desvaloriza a beleza a que me foi dado o privilégio de assistir. 

A luz era muito bela e doce, quase como se quisesse que mar e céu se fundissem.
Treta. Há dias em que eu devia limitar-me a despejar aqui as fotografias e manter-me de bico calado. Escrevo duas palavras de olhos semi-cerrados e acordo a meio da quarta sem saber bem o que saíu. Quanto mais calorias o meu cérebro consome durante o dia mais esvaziada a cabeça se sente quando a meia-noite se aproxima. Penso que deve ser a esta sensação que se chama boa noite, cinderela.
Olho para a televisão enquanto ouço a música. Um casamento. Cena bonita. Dois homens de uma certa idade casam-se. A seguir um desaguisado com um padre que tem mesmo cara de cínico e isto para não dizer parvo. Agora já estão a comunicar que têm que vender o apartamento. Parece que o barbudo que se desaguisou com o padreca foi despedido.
Pelo meio, estive a falar ao telefone com a minha filha. Fala-me de uma vila que diz que é muito bonita, não muito longe da nossa casa de campo. Tem um nome que também é bonito. Penso que conheço o país e, afinal, a toda a hora me falam de lugares que não conheço. No tempo que usei a viajar por outros países e a ir para a praia noutras paragens devia era ter andado a conhecer o meu país. Houve alturas da minha vida em que fui ainda mais parva do que sou agora. Se é que isso é possível.

Antes, durante o copo-de-água, uma mulher muito simpática disse que só de olhar para a comida engordava. Às vezes penso que isso também me acontece. Outras vezes sou honesta. Hoje sou: assumo que deve ser do bolo de chocolate com morangos que comi ao jantar. Mas foi a meias, só deve engordar metade. Que arrependida fico quando olho para a minha indecorosa barriga aqui mesmo à vista, quando deveria estar discretamente oculta.

Se calhar devia ver com mais atenção. O filme da 2, quero eu dizer. Agora a família discute na escada, naquela solidariedade alheia e fortuita que não dura muito. O que parece o Quintanilha parece que é pintor. A música do filme é bonita. Não sei se é filme ou série. O casal gay é simpático. Na verdade, também tendo a solidarizar-me com os casais gays, talvez porque acho que muita gente os vê quase como se fossem deficientes, uns a precisar de desprezo, outros a precisar de donativos. Eu olho e vejo-os como gente normal. No entanto, cá no fundo, acho que uma relação homossexual não deve ser tão descontraída como as heterossexuais que não precisam de estar à defesa ou envoltas numa carapaça de indiferença para suportarem bem os olhares de través.


Estou a ouvir uma voz que acho que conheço, uma voz bonita, um pouco rouca. Parece a voz da Debra Winger mas a mulher parece quase velha. Não pode ser. A Debra Winger é a jovem do Oficial e Cavalheiro e será forçosamente inocente e teenager para o resto da vida. Tenho que tirar a limpo. Apareceu e desapareceu logo: um papel de meia dúzia de falas, nem deve vir no elenco.

Bem.

Queria ter falado daquele momento que a gente sente, com emoção, que vai ser perfeito: a neblina envolvendo o poente, as silhuetas de navios ao longe, a gaivota a cruzar os ares ou, antes, a luz muito dourada, a cidade do outro lado completamente abstracta, um vago recorte no horizonte, como se fosse não mais do que uma pintura sem gente lá dentro, e o mar muito tranquilo e o pequeno forte a meio e, então, deslizando naquele céu maravilhoso, uma gaivota. Largas asas, largo o vagar, largo o seu tempo, imaterial. E, então, a gente dispara. Suspende o tempo. O momento para sempre eterno.

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Combien de temps...

Combien de temps encore ?

Des années, des jours, des heures, combien ?



quinta-feira, julho 12, 2018

Vaginas com estilo




Pronto. Ninguém conseguiu descobrir a adivinha. Eu também não descobriria mas isso sou eu e eu sou eu e sou limitada -- e, ademais, desconhecedora da realidade alheia. Pelo menos, desta realidade alheia. Doutras ainda vá que não vá mas desta matéria, confesso, não sou conhecedora prática. Bronca, bronca. Bronquinha de todo. E da teoria fiquei a conhecer agora. Antes não fazia ideia. Mas, bolas, com tanto Leitor aí desse lado e nenhum foi capaz de descobrir...? E acham-se cultos e informados...? Está bem, está. 

Relembro a adivinha: 


Antes de dizer, contextualizo. Já se sabe que gosto de contextualizar. Ocorreu-me formular a pergunta depois de ter visto as imagens que ilustram os seis estilos possíveis.

E isto quando estava a ler um artigo onde se dizia que, para as mulheres, o sexo com outra mulher é, na maior parte das vezes, mais gratificante do que com homens.


Já agora, no inquérito realizado junto de 7.000 mulheres, em Junho, no Reino Unido, apurou-se que cerca de metade das mulheres entre os 25 e os 34 anos não apreciam a sua vida sexual. Curiosamente a percentagem reduziu-se para 29% entre as mulheres entre os 55 e os 64 anos. Comentava-se, no artigo, que o sexo melhora com a idade. Não é novidade mas é reconfortante vê-lo confirmado em números. Contra números não há conversa fiada.

Contudo, este estudo não segmentou as respondentes segundo a sua orientação sexual.

Em 2017, um estudo mais completo abrangeu 53.000 americanas e aqui concluíu-se que as lésbicas atingiam mais vezes o orgasmo do que as hetero: 86% versus 65%.

E isto verifica-se em todos os inquéritos. Quando se tenta perceber a razão, as justificações parecem óbvias: as mulheres conhecem melhor o seu corpo do que os homens (mas agora ressalvo eu: do que os homens pouco instruídos) e que, portanto, mais depressa sabem onde tocar e o que fazer.


E é no artigo onde li isto [Do lesbians have better sex than straight women? de Hannah Jane Parkinson no The Guardian] que, às tantas, ao recomendar-se que, para melhores resultados, cada mulher se conheça e se dê a conhecer, que o texto remete para um outro site.

O site é o de Betty Dodson, uma sexóloga que, para além do mais, é dada ao desenho e à pintura. O site é feito em conjunto com Carlin Ross e chama-se Betty Dodson with Carlin Ross e tem como 'slogan': Better Orgasms. Better World. Quem tenha problemas ou, simplesmente, tenha vontade de se instruir deverá consultá-lo.

E foi, justamente por estas bandas que fiquei a conhecer os diferentes tipos de que ontem vos falei.

Clássica
Gótica
Art-Déco ou Coração
Moderna

Barroca
Renascentista









Não é por nada mas cada um é como é. Não desfazendo, eu sou mais dada a tangos como estes que acima se dançam e, por isso, é assim que entro no dia de hoje. Como se sabe, é uma dança cá muito das minhas preferências. O meu par não me tira para dançar mas não faz mal. Pode ser que, um dia que a gente tenha tempo, o convença a ir comigo para uma escola de dança. Enquanto isso não acontece, vou ficcionando ou observando. Quem não tem cão, caça com gato. 

E haja saúde, alegria, amor, descaramento e, sempre que possível, algum glamour e charme à mistura.
E uma vida longa e feliz para todos os que por aqui me acompanham.