Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, maio 28, 2017

Penso coisas tão profundas e sinto-me tão mal
que penso que sou um Intelectual.
E penso coisas tão mal e sinto-me tão profundo
que devo ser o Maior Intelectual do Mundo!





.  1  .

A leitura é uma espécie de celebração mágica. É a maneira de paradoxalmente descobrirmos que a realidade é aquilo que sonhamos e não aquilo que temos entre as mãos. É essa espécie de travessia de continentes. Que não existem. E nos quais reconhecemos aquilo que é mais profundo em nós e que não pode ser dito.


.  2  .

O problema é que os poderes do entretenimentos, sedutores e a exigirem uma entrega cega e sem reservas, são destrutivos. É uma das modalidades da irracionalidade do nosso mundo que não convivem bem com o pensamento, com uma certa distância, uma certa afirmação da autonomia individual, que são aspectos críticos para a literatura. Quando se liga a televisão, um dos emblemas maiores do entretenimento, há três coisas maravilhosas que acabam: o escuro, o silêncio e a solidão. Decisivas substâncias de que se faz a literatura, de que se faz a poesia. Onde está a música do pensamento no meio desse som e fúria sem contemplações a que se chama entretenimento?


.  3  .

A poesia e o romance não exprimem factos ou verdades, mas a possibilidade da verdade. Poesia e romance são o tempo interrogativo, o céu da possibilidade.


Senhor, permite que algo permaneça, 
alguma palavra ou alguma lembrança, 
que alguma coisa possa ter sido 
de outra maneira, 
não digo a morte, nem a vida, 
mas alguma coisa mais insubstancial. 
Se não para que me deste os substantivos e os verbos, 
o medo e a esperança, 
a urze e o salgueiro, 
os meus heróis e os meus livros? 

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Autores das palavras

1. Eduardo Lourenço

2. Luís Quintais

3. Paulo José Miranda

Título e poema no final - Manuel António Pina

[Tudo lido no livro 'Vale a pena?' - conversas com escritores de Inês Fonseca Santos]

Autor da música e das imagens do vídeo

Ketil Bjørnstad – Prelude 13
Fotógrafo – ©Hal Eastman

Fotografias

Minhas, in heaven

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terça-feira, março 08, 2016

Há um deus único e secreto em cada gato inconcreto




Nunca tive um gato. A minha mãe contava a história de um gato que se assanhava, todo ele crescia, arqueado, todo se inflava, dzzzzzzz, silvava ele, os olhos medonhos, metendo-lhe medo -- era ela criança. Guardou esse medo até hoje. Se via um gato, desviava-se, cheia de medo, segurando-me a mão, já pronta a proteger-me mas com medo de ter que o fazer. E eu herdei esse seu medo.

A minha avó, mãe dela, tinha um cão, o Matateu, um cão preto bem disposto que tinha pavor de trovoadas. Essa minha avó tinha patos, perus e, em tempos, porcos. Depois deixou-se disso. Primeiro desistiu dos porcos, depois dos perus. Os patos sobreviviam sozinhos. O cão acabou por morrer atropelado. A minha outra avó de animais só teve galinhas e perus, numa capoeira grande que havia ao fundo, no quintal, nas traseiras da casa.

Outros familiares ou amigos meus, gatos também não. Cães, sim, vários tinham cães. Vim também a ter uma cadela, uma boxer dourada, macia, doce como mel de que ainda hoje tenho saudades como não tenho de outra gente que partiu. Mas com gatos nunca se proporcionou ter que conviver.

Mais proximamente, a então namorada do meu filho tinha um gato. O bicho era feroz e traiçoeiro como uma pantera. Cioso, ciumento, possessivo, dissimulava-se e, quando apanhava o meu filho desprotegido, saltava-lhe para cima, implacável. Arranhava-o sem compaixão.  O meu filho, sendo apanhado desprevenido, apanhava grandes sustos. Eu assustava-me só de imaginar.

Lá no campo, de vez em quando aparecem gatos. Por vezes, estou na sala e aparece do lado de fora da porta de vidro um gato que olha fixamente para dentro, indiscreto. Outras vezes, vou a andar silenciosamente pelos caminhos, entre árvores, tentando não espantar pássaros ou coelhos e sinto um arrepio, sinto-me observada. Quase amedrontada, olho e dou com um gato a olhar-me fixamente. Depois, mal vê que o vejo, foge, furtivamente desaparece. Fico estática, meio trémula, como se um ser estranho me tivesse estado a vigiar.

Houve uma altura em que apareceu por lá um gato felpudo, de riscas cor de mel e baunilha. Aparecia frequentemente e ficava a olhar de longe. Talvez pela cor, imaginei que fosse meigo. Tentei cativá-lo, Bschhhhh-bschhhhh-bschhhhh e deixava-lhe lá um prato com leite. Não serviu de nada. Ia quando queria e desaparecia por temporadas. Agora não tem aparecido nenhum.

Onde agora vejo muitos gatos é no Ginjal. Já contei que há uma senhora que, faça sol ou faça chuva ela lá vai, carregada, levando-lhes ração, massa com comida enlatada. Os gatos estão gordos, ronceiros, uma pena. Quando vejo a senhora tenho sempre vontade de lhe dizer que não faça isso, que está a desgraçar os gatos. Mas tenho pena, também me custa desiludi-la.

Mas, apesar de gordos, os gatos conservam aquele olhar inteligente que eu gosto tanto de fotografar. Rondo-os, espreito-os. Por vezes olham-me com displicência, como se lamentassem que eu fizesse tentativas tão inúteis, depois olham noutra direcção, indiferentes, superiores.

Gosto de fotografá-los. Estas fotografias foram feitas lá.

Diz quem tem gatos que são bichos antigos, sábios, que parecem transportar o espírito de seres estranhos, eruditos, habitantes talvez de bibliotecas perdidas no tempo.

Uma colega minha chega sempre tarde a casa. Um dia que chegou cedo, a gata olhou-a com pasmo, e não a largava, intrigada com o que se teria passado.

Um ex-colega meu, pessoa de alguma soberba e forte ímpeto liderante -- a quem vejo agora essencialmente na televisão pois tem agora relevantes funções nacionais -- virava uma torrão de açúcar, todo ele se derretia ao falar do seu gato. Que se enroscava no seu colo ou que se deitava na secretária enquanto ele trabalhava, uma companhia incondicional, uma ternura. Uma vez estávamos a ter um encontro de dirigentes no Algarve e liga-lhe a mulher, em pânico. Contou ele, depois, que, pela aflição dela, pensou que lhe tinha morrido a mãe. (Quando relembra isto, faz um sorriso escarninho: nunca se deu bem com a sogra, uma manipuladora, diz ele). Mas não. Era o gato que tinha fugido. Já não teve parança, um desassossego, sempre a ligar para casa a saber do gato. Nada. Aflito, aflito como se a um filho tivesse sucedido algo de mal. Nem o sol do Algarve lhe soube a férias. Quando regressámos, ao fim de dois dias, ele ia cabisbaixo, parecia de luto. Afinal o gato apareceu pouco depois dele ter chegado a casa. Ainda mais ligado ficou ao animal.

No domingo, enquanto o meu marido conduzia, eu lia em voz alta, de Agustina ainda, em Longos dias têm cem anos:
Tento recordar-me dos momentos em que vi Maria Helena, dos seus gestos, dos seus gatos, dos seus jardins. Havia Lolita, que eu conheci velha e tremendamente sentenciosa, como Deborah, que foi juiz em Israel. Sentava-se debaixo duma palmeira e julgava. Devia ter aquele ar albino e olhos azulados da gata Lolita. A sabedoria também, a aficíon da intriga, as palmas das mãos pintadas com henné, como Lolita as pinta de carmim; e os olhos, com patas de mosca. Agora há outro gato, Bicho, com aquela cara de dragão que faz lembrar um letrado chinês do século XVIII. Se Bicho me dissesse, de repente, a história dos 47 ronins, ou coisa parecida, eu não estranhava. Tem o ar de ter saído duma casa dum Pequim onde se dava importância às mulheres, desde a portadora de água até à tocadora de banjo: porque elas podem ser um dia concubinas, esposas, imperatrizes. Bicho tem ar de ter sido imperatriz noutra incarnação; as garras, cortou-as para tocar piano, como faziam as verdadeiras princesas de Shantung no século XIX. Gosta de levura, acho que isso a droga ligeiramente. Ou é o seu passado opiado que a faz parecer tão concentrada. 'Desperta, desperta, Deborah' - digo-lhe. Ela olha-me severamente, como se estivesse no monte de Efraim, debaixo da sua palmeira. O filósofo Buber dedica aos gatos umas páginas extraordinárias; percebe-se que ele captou o tempo-limite que Teilhard de Chardin chamou o 'passo de reflexão'. O gato está nesse desfiladeiro entre a bestialidade e a consciência; e, às vezes, o seu olhar parece tocar a primeira nota da nossa complexidade, 'Bicho -- digo-lhe --, conheces-me?'. Ela muda o peso do corpo sobre uma e a outra pata dianteiras. É uma maneira de concordar e de me reconhecer.
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Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos


['Os gatos' de Manuel António Pina in 'Como se desenha uma casa']

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E queiram, por favor, descer até aos amores desencontrados entre António Valada, Carlos Costa e Alexandra Ferreira com o Banco de Portugal e a Quinta das Celebridades à mistura.

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segunda-feira, janeiro 25, 2016

Um mundo efémero onde estamos de passagem






Antes que comece o tempo das contagens no final desta amorfa campanha eleitoral, e antes de me ir estender a ler e, quiçá deixar que o sono chegue e me tome nos seus doces braços, venho aqui para vos dizer que não sei como é aí, onde me estão a ler, mas, por aqui, esteve uma temperatura amena, o céu quase limpo e as poucas nuvens apenas serviram de véu, como que querendo atenuar o excesso de luz.

Parece que se adivinha a primavera. A beira do rio tinha muita gente, o parque agora de tarde também. Parece que as pessoas, sentindo o cheiro a bom tempo, procuram o sol.

Ontem, quando cheguei a casa da minha mãe, não apenas as persianas estavam todas levantadas como alguns vidros também abertos. Disse-me que era para deixar entrar o bom tempo. Também eu, aqui em casa, abro as janelas, ponho-me à janela a ver as cores limpas e suaves deste dia luminoso.


Antes, andei rente ao rio, fotografando. As pessoas recortam-se contra um pano de boca de cena sem igual: do outro lado, sobre um chão azul, Lisboa, a bela. Não resisto e capto as suas imagens, actores perfeitos num tableau ímpar, magnífico.

Fotografo as pessoas, a paisagem, e o meu coração expande-se de ternura pela visão de beleza que me proporcionam. Parece-me quase impossível tanta harmonia, tanta tranquilidade.

Ocorrem-me muitas vezes pensamentos terríveis: os que tentam alcançar um mundo em paz e se afogam, não chegando a ver de perto como é também difícil o seu sonho (mas que, sendo difícil, oferece a serenidade que um céu não atravessado por disparos e morte sempre tem para oferecer). Por aqui, em paz e liberdade, os namorados podem brincar, os pais podem passear com os filhos, os donos passear com os seus cães e eu posso deliciar-me, sempre e sempre, contemplando este cenário maravilhoso. 


Nos dias de vendaval e invernia os pescadores escasseiam: o fraco pescado não compensa as inclemências do frio e da chuva. Mas, mal o sol desponta, logo os cais se enchem de pessoas pacientes ou necessitadas que, por ali, tentam que um peixe pique o engodo. Não precisam de patranhas, de pentear cabeleireiras, de andar de feira em feira, de dizer balelas e distribuir beijinhos a granel: basta que fiquem imóveis que algum (peixe) palerma há-de morder o anzol.


É um mundo maioritariamente masculino, este dos pacientes. (Pacientes no sentido de terem paciência e não de estarem doentes). Mas há também mulheres pacientes. Gosto de ver as pescadoras. Um dia hei-de ir conversar com uma delas. Não sei se, para elas, haverá o lado lúdico que vejo nos homens ou se há apenas persistência.


Sabe muito bem estar à beira de água, ouvir o som das águas, sentir o calor do sol ameno, ouvir o voo livre das gaivotas, o deslizar dos barcos. Também eu tenho sempre vontade de me deitar ao sol, sentir o prazer de existir junto a um lugar de tanta beleza. Nem sempre o consigo mas é uma sensação de felicidade mesmo boa. Mesmo apenas passar e ver quem sabe descansar o corpo ao sol, já me sabe bem.


Outras vezes, penso que haveria eu de pegar num livro e sentar-me ali, em sossego e pôr-me a ler, com vagar. Mas não me dá para ler livros em lugares assim. Acho que qualquer veleiro que passasse me haveria de distrair, haveria de me dar vontade de voar e ir pousar nele. Tenho como que uma urgência em não deixar de ver aquilo que considero bonito e fugaz: um barco que passa, uma gaivota que dança nos céus, um traço de luz que ilumina uma rua ou o rio, uns cabelos esvoaçando, uma ponte quase invisível ao fundo.


E depois há os gatos. Estão gordos. Uma senhora, vá lá perceber-se porquê, em vez de os deixar andar na vadiagem, comendo peixes que tenham dado à costa ou que tenham sido desprezado pelos pescadores ou rapinando o que lhes apetecer, parece ter feito de razão de viver a engorda dos gatos. Leva-lhes comida enlatada e esparguete. Chama pelos gatos pelo nome: a Milu, a Estrela, a Maria, sei lá. Em tom de reprimenda, chama-lhes a atenção caso não respondam logo à chamada. Até às gaivotas já eu a vi a deixar esparguete cozido com qualquer coisa. Um dia eu estava a fotografar uma gaivota que vinha pousar e ela disse-me, à laia de ralhete: 'assim ela não vem comer'. Fiquei estupefacta.

Não sei se não se devia proibir isto. Os gatos estão a ficar obesos, já andam ronceiramente, pesados. Antes via-os esgueirando-se paredes acima, alcançando num ápice os telhados, saltando de pedra em pedra à beira de água. Agora não, agora deitam-se ao sol, arrastam-se entediados.

Tenho sempre vontade de dizer à senhora que não devia fazer isto. Mas não tenho coragem. Ela vem carregada com caixas, sacos, tem uma mala grande com rodas, por ali vem, chamando por eles, orgulhosa da sua boa acção.

No outro dia, quando me viu a fotografar um gato, disse-me com ar vaidoso: 'Têm uma página no facebook'. Eu talvez tenha dito 'Ai é?' porque não me ocorreu dizer mais nada pois o que tinha vontade de dizer era que só faltava mesmo mais essa.

Mas, enfim, fazer o quê? Se eu dissesse alguma coisa a senhora talvez me achasse insensível por não compreender a sua obra caridosa. Chova ou faça sol, lá vai ela naquela sua missão.


Seja como for, os gatos apesar de anafados, são lindos. Têm um ar inteligente. Gosto de os olhar, gosto de ver como me olham com indiferença. Não sei o que pensam eles da sua benfeitora ou o que pensam de mim que por ali ando, sempre encantada com eles. Talvez não pensem nada, talvez nos achem seres inferiores e, na volta, se calhar até têm razão. Não estou a ver os gatos a irem votar para escolher alguém em que, verdadeiramente, não se revêem. Enfim.

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Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos


['Os gatos', Manuel António Pina]

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A quem chegou só agora aqui e ainda não viu a Little Blue Girl, Pearl de seu nickname, sugiro que desçam até ao post já aqui abaixo.
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Até já.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Somos intrusos, bárbaros amigáveis, e compassivo o deus permite que o sirvamos e a ilusão de que o tocamos


Uma vez, eu falava deste sítio sagrado, no qual eu gosto de andar feita gata da beira-rio ou voar feita gaivota-danseuse, e dizia que é um lugar mágico de onde se vê Lisboa, a cidade magnífica envolta em beleza e luz, dizia que este é um lugar mesmo em cima do Tejo mas onde o rio já cheira a maresia, que é um lugar de silêncios e contemplação. E acrescentei que é também um lugar de decadência: as casas esventradas, as paredes em ruínas. Disseram-me então que em Portugal é tudo assim, que não se cuida de nada. E, ao ouvir isso, eu desejei não ouvir essas palavras porque há muita beleza nesta decadência e tomara que, se um dia alguém transformar este lugar, consiga preservar a sua alma e a sua perfeição. São visíveis as muitas camadas de vida, muitas histórias vividas nestes armazéns antes ruidosos e agora devastados, nestas casas de cujas varandas certamente alguém espreitava o rio e que agora estão abandonadas, quase destruídas, o que antes foram janelas agora parecendo olhos vazios. Mas há harmonia nesta soma de erosões. E há muita beleza no colorido suave deste casario, como se o tempo tivesse suavizado os desgostos, como se as memórias se tivessem aquietado nos recantos, como se os gatos que se esgueiram calassem segredos e apenas as gaivotas que gritam chorassem ausências. Há muita beleza aqui. Muita, muita, tanta.





[NB: Gostavam que lessem o poema em voz alta mas não muito alta, quase como se estivessem a contar um segredo. Eu também vou lê-lo assim]


À minha volta tudo envelheceu
como se fosse eu, e no entanto
uma casa, ou um espaço em branco
entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.

Pois nada
surge com a sua própria forma.


Digo 'casa', mas refiro-me a luas e umbrais,
a lembranças extenuadas,
às trevas do corpo, lúcidas,
latejando na obscuridade de quartos interiores.

E digo 'palavras' porque
não sei que coisa chamar
à mudez do mundo.

E digo 'sentido' sufocado
sob o pensamento
tentando respirar
a golpes de coração,
agora que se desmorona a casa
sobre todas as palavras possíveis.

....

O título deste post faz parte de 'Os gatos' e o poema que escolhi para juntar às fotografias é 'Talvez de noite', ambos de Manuel António Pina in 'Como se desenha uma casa'. 

Maria João Pires (que, no outro dia actuou em Londres, levando o público ao delírio e emocionando um ilustre conterrâneo que assistia) interpreta Chopin, Valsa no. 7 

As fotografias foram feitas esta terça-feira no Ginjal

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.

..

domingo, maio 17, 2015

Noite dos Museus em Lisboa - Arte e Decoração [3º de 5 posts]


Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.





Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.




Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.




Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.






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As fotografias mostram salas do Palácio da Ajuda

(A última mostra o grande salão dos banquetes oficiais oferecidos pelo Presidente da República)

O poema é de Manuel António Pina de Como se desenha uma casa

Yo-Yo Ma interpreta Bach Cello Suite No.1 - Prelude

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quinta-feira, outubro 30, 2014

Estamos a ser invadidos pelos russos? A Cruz Citiada descobriu dois bugs humanos a darem-lhe cabo do projecto informático que estava tão bem planeado? Pois não sei de nada. Tenho aqui a casa invadida, não por russos nem por agentes da judiciária, mas por dois pimentinhas e respectiva mãe e, por isso não sei de nada do que por aí se anda a passar. Face a isso, deixo-me aqui estar a ouvir o Agostinho da Silva e o Manuel António Pina a falarem de gatos sem dono e de outras conversas vadias e a ver as pinturas da menina Aelita Andre


Esta noite, fruto de movimentações profissionais que obrigam a um breve reajustamento doméstico, para não ficar em casa, parte da trupe veio para cá em regime de meia pensão. A minha filha fica no quarto que era o dela mas os mais pequenos não quiserem ir dormir para o quarto que era do tio e que é mais distante dos outros e, por isso, estão aqui no sofá cama da sala.

O pior é que uma cena destas a meio da semana é para eles como se o fim de semana tivesse sido antecipado. A seguir ao jantar (durante a recta final do qual, para os manter quietos, contei a história de um barco maluco que pregou um tal susto a um golfinho que este desmaiou e teve que ser içado para bordo a fim de ser acalmado), estiveram sossegados a desenhar, a fazer construções, o mais crescido a fazer um ditado (e só deu um erro: às tantas a frase que inventei dizia que ele tinha dado um pontapé na bola e ele escreveu potapé, esqueceu-se do n. Mas pôs os acentos e tudo). Enquanto estavam entretidos, estive a fazer penteados com tranças à minha filha. Herdou a fartura da minha juba embora a cor do cabelo seja a do pai. O cabelo dá para fazer umas 20 tranças e todas de boa grossura, seria perfeito para fazer penteados românticos como os da era dos vestidos compridos, com rendas e folhos, daqueles penteados cheios de puxos, apanhados e tranças. 

Depois de estarem tranquilos e bem comportados, desataram a brincar e a partir daí foi uma coisa jeitosa: saltaram, picaram-se, perseguiram-se, esconderam-se, riram; conseguir pô-los calados e sossegados foi o bom e o bonito.

Depois de terem finalmente adormecido, estive com a minha filha a ver a telenovela Lado a Lado e só agora, bem depois da meia noite, consegui ligar o computador e não vou aqui ficar por muito tempo pois, depois disto tudo, está a dar-me um sono que não é brincadeira nenhuma. E amanhã tenho que me levantar cedo pois esta logística de se levantarem, vestirem-se, tomarem o pequeno almoço vai ser outra tourada. Para começar, devem estar cheios de sono pois estão habituados a deitar-se a horas decentes e hoje foi dia de borga, E depois devem querer pequenos almoços demorados como se fosse fim de semana, já para não falar que haverão de se lembrar de fazer mil coisas à última hora, de ir à procura do pião que trouxeram, do livro dos aviões e sei lá que mais. Eu devia era ter metido dois dias de férias. O que me valeu foi que, de véspera, já tinha deixado o jantar adiantado. Fiz logo uma quantidade grande e, por isso, até vão poder levar farnel. A minha filha tem é que ainda ir deixar as caixas de comida a casa antes de ir trabalhar.

Há bocado, depois de jantar, o meu marido ainda esteve a tentar ver as notícias mas o mais crescido não o largava com montagens de aviões. Bem que ele os tentou mandar calar, a eles e a mim também, pois queria ouvir o Nuno Rogeiro. Tenho ideia que os russos nos quiseram atacar, que mandaram uns aviões e tudo. Não sei se estivemos à beira de ser invadidos, se quê. Teria graça. Logo esta noite em que estive neste forró é que os russos nos vinham invadir. Às tantas, amanhã quando for trabalhar tenho a rua aqui de casa ocupada por pára-quedistas russos, um russo pára-quedista dentro de cada pára-quedas, uma coisa de tipo matrioska. 


Aviões russos...? Isto não é normal.

Fui agora espreitar o Diário Digital para ver o que era aquilo de que o Rogeiro estava a falar e, pelo menos nos destaques, não vejo nada.

Pelo contrário, vejo que aquela que tenta fazer-se passar por adolescente retardada anda a ver mosquitos na outra banda, isto é, infiltrados no Citius, dois bugs humanos, e que, loura em excesso, já os acusa sabe-se lá de quê e que, autenticamente possuída, até já os esconjurou e correu (ou se prepara para correr) com eles à vassourada, uma tresloucadice que até dói. Vejo também que o láparo, provavelmente em mais um surto la-feriano, desafia os parceiros a apresentarem propostas com clareza, como se aos outros e não a ele competisse governar o país. Claro que a esta hora já não vou abrir notícia nenhuma, bastam-me os disparates que se adivinham através dos títulos.

E parece que não descubro notícias sobre a invasão russa. Às tantas aquilo dos aviões no espaço aéreo português foi um delírio do Rogeiro. Será...? Ou eu que ouvi mal? Não sei.

Espreitei o Expresso e vi que o Pedro Santos Guerreiro fala na aldrabice pegada que foi o passa-culpas relativo à machadada sem paralelo que aplicaram ao BES. Não vou ler o artigo todo. Mas quase adivinho. Logo na altura eu aqui escrevi que aquilo não tinha sido imposição de Bruxelas coisa nenhuma e que coisa tão mal pensada só podia dar em disparate. Sabe-se agora que foram os espertos do governo (o láparo e a sua chefe) que pariram tal aborto. Mas poderia esperar-se outra coisa daqueles progenitores? 


E, uma vez mais, acho que não vale a pena especular muito sobre as intenções subjacentes a tanto disparate. A minha opinião é que, uma vez mais, foi burrice pura e dura. Claro que, tenrinhos como no fundo são todos os burros, houve muita gente que se aproveitou deles mas, de resto, tudo aquilo, decisões em cima do joelho, soluções não testadas nem pensadas, é coisa daquelas cabeças ocas.

E depois Carlos Costa que, em minha opinião, não é menos destituído e que, para além do mais, tem uma grande dificuldade em tomar decisões, prestou-se ao papelinho que os outros lhe encomendaram.

Mas adiante que eu a esta hora não posso dar cabo da minha beleza, tenho é que me despachar para me ir deitar.

Custa-me, no entanto, deixar-vos assim sem nada aqui que se aproveite e, por isso, partilho convosco o que tenho estado a ouvir enquanto escrevo. Duas mentes brilhantes à conversa, Manuel António Pina com Agostinho da Silva em mais uma conversa vadia: muito bom. Com pessoas assim a gente aprende sempre. São o oposto da papagaiada que agora pulula pelas televisões e com quem a gente nunca aprende coisa alguma.



Conversas Vadias




...   ...   ...   ...   ...





As pinturas que usei para sarapintar o texto são da autoria de Aelita Andre, uma menina australiana que agora já tem sete anos mas que começou a pintar antes de fazer 1 ano, que teve a sua primeira exposição com quatro e que está no centro da polémica: pode considerar-se uma criança desta tenra idade já uma artista? 


Aelita: Secret Universe






Isto também não é normal... Esta Aelita é do além.


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Bem, vou dormir que estou que não me aguento. 
(Relevem gralhas que acredito que as haja de toda a espécie e feitio, está bem?)

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.


...

terça-feira, agosto 26, 2014

Percebi que quando entro para uma palavra é como quando entro numa casa. Ambas podem e devem estar desabitadas.


No post abaixo já vos falei de José Gil, o filósofo com sorriso de menino, e já vos disse que Einstein - a ser dele a frase que se cita - explica bem porque é que dos actos de Passos Coelho e da tropa fandanga que o apoia não é de esperar outra coisa senão derrapagem no défice, aumento da dívida, pobreza, subdesenvolvimento. Estranho é que os mesmos disparates repetidos vezes sem conta produzissem resultados diferentes. Ele faz porcaria e os resultados são uma porcaria. Bate certo. E é um sortudo. Poderia querer fazer porcaria e não o deixarem. Mas não, todos o deixam à vontade para fazer porcaria em todo o lado a toda a hora.

Para cortar, mostrei-vos a vista maravilhosa que tinha da esplanada sobre o mar onde estive ao fim do dia. Uma beleza que só vista.

Mas, enfim, isso é a seguir a este post. Aqui, agora, a conversa é outra. Tinha começado a compor este post ontem mas depois mudei de rota. Aqui estou de novo, pois, para prosseguir. Desenhar nuvens.


&






"Não tenhas receio; a ilha está cheia de ruídos, de sons e de músicas suaves que agradam e não fazem mal. Às vezes, mil sonoros instrumentos ressoam-me nos ouvidos; outras vezes, são vozes tão doces que, se estou acordado depois de um sono prolongado, me tornam a adormecer; então, em sonhos, parece-me que as nuvens se abrem e vejo riquezas sem conta que vão chover sobre mim; assim é que, quando acordo, anseio por sonhar outra vez."
(Shakespeare, A Tempestade, Caliban, 3º acto)



Através das janelas, tal como na grande moldura da ilusão que é a boca de cena, vejo desfilar as gentes e os lugares.

E não é uma questão da quantidade de livros que lemos, nem do tamanho da biblioteca, mas sim o modo como só alguns poucos livros nos podem acompanhar e alimentar a vida inteira. E por vezes são só mesmo pequenos fragmentos de alguns livros que nos marcam.

(...) percebi que quando entro para uma palavra é como quando entro numa casa. Ambas podem e devem estar desabitadas. Ambas esperam ser moldadas, seduzidas pelo universo que transporto aos ombros. E é com esse peso, qual densidade da minha própria sombra, que se contamina uma qualquer atmosfera, que se produz um lugar efémero e puro. O espaço da palavra.



Saber vaguear, folhear num aparente caos. Preciso de me perder por lá, e quantas vezes me é difícil encontrar a saída.

Mas é com redobrada alegria que consigo trazer dessas 'viagens' as referências que vão acarinhar as futuras descobertas. Estar nessa grande biblioteca como na cidade.

Tal como Walter Benjamin dizia sobre viajar e conhecer cidades "... gosto de me perder na cidade, mas como tudo requer uma aprendizagem..."



"o que atrapalha ao escrever é ter que usar palavras. (...) Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear no campo, jamais teria entrado pelo caminho da palavra."
(Clarice Lispector, Lembrança da feitura de um romance, 1984)


Ao entardecer, gosto intuitivamente de reparar com especial atenção na projecção que o sol faz no chão da sala ou nos surpreendentes de contraluz que o mesmo provoca nos corredores.

Os longos corredores das casas são também verdadeiros laboratórios de cena, com as suas várias cortinas de luz e cor. Infelizmente, as casas de hoje já não têm esses corredores. Lá nasciam muitos dos sonhos de infância. Normalmente às escuras, o corredor é como um palco vazio sempre à espera de um acontecimento. Basta que uma porta se abra para deixar espreitar um pequeno raio de luz, para uma simples fresta surgir. Suficiente para o início de outra aventura.

Os nossos sonhos estão impregnados de luz e cor. (...)

E se há uma memória da luz, também há uma poética da luz. O mergulho no mundo da luz e da cor é também para mim um acto poético. A poesia emerge sempre que a imagem consegue vibrar.



À beira da estrada, um casebre. Um homem, lavrador decerto, de olhar doce e sagaz, recebeu-nos. "Este senhor lhe dirá então as oliveiras que pretende."
Caminhando pelo olival adentro, na terra lavrada, o homem disse-me que, vendo uma a uma, era só escolher. Ele me diria depois as que poderia cortar ou não.
"Esta aqui pode ser?"
"Ah, esta aqui é a Sara."
E deu uma volta atenta em redor da mesma.
"Não, esta não pode ser.". Continuamos.
"E aquela ali?"
"A Begónia? Vamos ver. Sim, pode ser. Cortamos aqui, deste lado."
E assim fui apresentado a tantas oliveiras amigas. Árvores centenárias ou mesmo milenárias, de troncos possantes, rendilhadas carcaças, ostentando em mil rugas a passagem do tempo.

Todas tinham um nome. Manolo vivia só e esta era a sua família. Observava carinhosamente as velhas carcaças dos seus troncos. Tocava-lhes com suavidade. parecia sussurrar-lhes algo que eu não entendia. Dando voltas na terra mole e com alguma relva, sabia com segurança aquelas que já tinham 'sus hijos' a nascer da mesma raiz, o que lhes garantia a sobrevivência. 
"De certo modo, até me dava jeito limpar algumas árvores", dizia ele.

Lembro-me da forma peculiar como, naquela tarde, o sol entrava através dos ramos do olival. Também do silêncio e tranquilidade daquele campo.








Georges Banu consagrou-lhe um belo livro chamado, precisamente, O esquecimento (L'oublie). Aquela zona de nós mesmos por onde começa o vazio.

"As metáforas mais habituais do esquecimento: a areia, o pó, o fumo... todos parecem dizer-nos o mesmo: o esquecimento é monotonia."

Uma 'black box' é também um exercício para o esquecimento total, na tentativa de recomeçar tudo de novo. Tentativa impossível, porque o esquecimento por maior que seja nunca é total. É como a ferrugem. Na oxidação do ferro mais vigoroso, a ferrugem, em conluio com o tempo, avança, sem parar, mas deixa um pó. O óxido da memória.



E quando envelhecemos, 
parece que ficamos heróis 
das pequenas histórias 
sem importância.

(Tchekhov)

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Todo o texto até aqui e abaixo do vídeo com Benedict Cumberbatch a ler 'The Seven Ages of Man' de Shakespeare são excertos transcritos desordenadamente do maravilhoso livro Desenhar Nuvens de José Manuel Castanheira, um 'Manual de sobrevivência de um Cenógrafo, Cenógrafo a quem Fernando Alves muito justamente colocou na galeria dos Portugueses Excelentíssimos.


Este livro é, em si, uma obra excelente, de uma qualidade e requinte ínvulgares. O design e a paginação são de Rui Rica, a Edição é de Caleidoscópio e teve o apoio da Câmara de Almada.

Os desenhos ou aguarelas são da autoria de José Manuel Castanheira. A penúltima imagem, com texto de Tchekhov, mostra uma fotografia de Constantino, avô do autor.


O que também merece uma atenta visita é o seu site que é interactivo e especial. Há pessoas que são diferentes mas que o são de uma forma produtiva, elas fazem a diferença. José Manuel Castanheira é, sem dúvida, uma pessoa que desenha nuvens como ninguém, desenha sonhos, inventa espaços de luz para acolher o milagre da palavra dita.


A escolha do poema de Shakespeare ou o de Manuel António Pina (Amor como em casa lido por José-António Moreira) para integrarem este post são da minha responsabilidade e não me perguntem a que se devem pois apenas saberei dizer que acho que fazem sentido ou que soam bem neste contexto.


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Relembro: no post já a seguir, o caldo azeda. Tirando a parte em que falo de José Gil e mostro um mar belo ao cair do dia, o resto é mesmo só para a desgraça. Estão avisados.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma terça feira em beleza. 
Saúde, sorte e boa disposição e bons sonhos para todos.


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sexta-feira, novembro 15, 2013

Quem, se eu gritar, me ouvirá entre as legiões de anjos?


Manhã difícil hoje. Há sons que custam ouvir e eu tento afastar-me porque não sou nada forte. O momento em que fecham o caixão é terrível, é o fecho de um ciclo, é o momento em que se encerra o que sobrou do que foi uma vida inteira. É um som seco, madeira contra madeira. Não vejo. Nunca vi. Tento não ouvir. Mas hoje não consegui afastar-me o suficiente pelo que não consegui deixar de ouvir. E fiquei ali, no meio das pessoas, e fui vendo como, tal como a mim, as lágrimas corriam nos rostos à medida que aquele som se ouvia. 

É tudo muito triste. Não quero falar mais nisto.

Depois, de tarde, fui trabalhar e agora aqui estou a tentar abstrair-me e a ver se escrevo coisas animadas. 

Mas, antes, quero agradecer as vossas palavras, quer aqui nos comentários, quer através de mail. As demonstrações de afecto sabem-me sempre muito bem. Gosto de as receber tanto quanto de as oferecer.

Não agradeço individualmente a cada um de vós mas, a todos, meus queridos Leitores, vizinhos da minha rua, aqui deixo o meu muito sincero agradecimento.

Escolhi imagens, palavras, uma música, um momento de dança, tudo para tentar retribuir a generosidade dos vossos abraços e, ao mesmo tempo, retribuir também, um pouco, muito pouco, de todo o imenso carinho que sempre recebi da minha tia.


Tanta terra,
tantas palavras sob tantas palavras.
Regressa como um corpo o coração
à apenas existência,

lembrança de
alguma coisa lida:
o rosto da mãe, a trepadeira do jardim.
Mãe, afastei-me de mais, perdi-me



no meio de palavras minhas e palavras alheias,
quem, se eu gritar, me ouvirá entre as legiões de anjos?
E nem isto me pertence,

a tua ausência e o meu medo;
nem estou na minha ausência,
fui como um vaso e quebrei-me ou qualquer coisa assim.


































..
























The secret of life is enjoying the passage of time

Isn't it a lovely ride
Sliding down
Gliding down
Try not to try too hard
It's just a lovely ride

Now the thing about time is that time
Isn't really real
It's just your point of view
How does it feel for you

**

  • O poema é Tanta Terra de Manuel António Pina in 'Nenhuma palavra e nenhuma lembrança'.
  • O bailado é Romeu e Julieta numa interpretação de Sylvie Guillem numa coreografia de Sir Kenneth MacMillan, sobre música de Sergei Prokofiev
  • A música é 'The Secret of Life' interpretada por JamesTaylor


**

Afinal hoje não escrevo mais. 
Fico-me, pois, por aqui não sem antes vos desejar, meus Caros Leitores, uma boa sexta feira 
(tanto mais que as sextas feiras têm tudo para ser um bom dia)

sexta-feira, maio 10, 2013

Mais a borboleta, coisas sólidas e verdadeiras, para cantarle a mi amor e blackbird (: Miguel Esteves Cardoso que diz 'Como é linda a puta da vida', Manuel António Pina, o mestre da 'Crónica, saudade da literatura', Maria Bethania e Omara Portuondo e, ainda, Sir Paul McCartney)


Abaixo poderão encontrar dois posts sobre a situação político/económica do país e sobre as PPPs.

Mas agora, aqui, a conversa é outra. Ou melhor: dou a palavra a outros.

A vossa melhor atenção, por favor: les beaux esprits se rencontrent.


Para cantarle a mi amor
tengo mariposas blancas






Muito depende de sermos capazes de estar no momento em que estamos, sem pensarmos no que fizemos para ali estar ou nos preocuparmos para onde vamos a seguir.

Se pudéssemos ser inteiramente inteligentes, não pensaríamos senão no momento em que estivéssemos, sem expectativas. Para estarmos à espera, sem saber de quê. Anteontem, durante um segundo de um almoço de Agosto, pousou num copo uma borboleta espampanante. E logo voou, deixando-nos a falar dela.

O momento e o tempo estão tão ligados como o nosso coração e a nossa alma. Tenho a certeza que todos os dias somos visitados por lembranças do muito que nos pode acontecer, do pouco que sabemos e do pouco tempo que temos para ficar com uma pequena ideia do que tudo isto é.

Estas visitas espantosas, em que só se repara por sorte, só são bem recebidas e apreciadas, quando a nossa atenção se desliga de nós próprios e do mundo que gira dentro de nós e se vira, como se de uma casa vazia, para fora.

Há um estado activo de recepção, de estarmos prontos para o que vier, sem termos nada marcado ou expectativa nenhuma. Não se consegue ver a borboleta, se estivermos à espera dela e resolvermos: 'Agora vou estar aqui sentado, com a cabeça esvaziada, inteiramente distraído pelo que me rodeia, à espera que me apareça pela frente uma coisa maravilhosa'.

É quando se está com que se ama que se é mais visitado. Se calhar, o que atrai as visitas é a doçura da companhia e a distracção em que o amor vive. Ali.


[Mais a Borboleta, de Miguel Esteves Cardoso in 'Como é linda a puta da vida']


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O leitor que, à semelhança do de O'Neill, me pede a crónica que já traz engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska, "mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político". Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Portas, de todos eles, da 'troika', do défice, da crise, de editoriais, de analistas!

Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante: nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles em voo picado.

Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente de lado, como se se perguntassem: "E estes, quem serão?"

Em breve nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente, daquilo a que chamamos impropriamente vida.


[Coisas sólidas e verdadeiras, de Manuel António Pina in 'Crónica, saudade da literatura']




*


Relembro que, se quiserem estragar a vossa disposição, há dois posts abaixo que são bem capazes de cumprir essa missão (e não venham depois queixar-se de que não avisei).

*
Mas, caso prefiram antes lembrar o Dia da Espiga e ir espairecer para o meu Ginjal e Lisboa, então Pedro Tamen apareceu vindo de uma Rua de Nenhures para pôr a mão sobre o meu coração sonhador. Para iluminar ainda mais a brancura das palavras do poeta temos mais uma maravilhosa música do Mali.

*

E mais nada. Desejo-vos, meus Queridos leitores, uma sexta feira muito feliz, com mariposas blancas voando em volta do vosso coração e rosas tempranas na vossa imaginação (ou nas vossas mãos!).


quinta-feira, março 14, 2013

Para Francisco I, o Papa que veio do fim do mundo para mostrar a Luz aos que a não vêem, para fazer ouvir a Sua voz aos que não a ouvem




Igreja de Luis Barragán, arquitecto mexicano
(o calor das cores da América Latina)


Francisco, nosso irmão e irmão de tudo!
Sublime doido, jóia rara
com a nossa miséria por engaste...
Quem, de ti digno, te cantara!
Mas a mim, dá-me a glória de ser mudo:
irmão das pedras que pisaste.



Rothko Chapel em Houston, Texas, com pinturas de Mark Rothko
(o despojamento absoluto das cores em recolhimento)



Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo

Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância

Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombra e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes



O espaço de recolhimento de uma agnóstica, in heaven


Estarei ainda muito perto da luz?
Poderei esquecer
estes rostos, estas vozes,
e ficar diante do meu rosto?

Às vezes, como num sonho,
vejo formas como um rosto
e pergunto: "De quem é este rosto?"
E ainda: "Quem pergunta isto?"

E: "E com quem fala?"
Estarei ainda longe de Ti,
quem quer que sejas ou eu seja?
Cresce a noite à minha volta,

terei palavras para falar-Te?
E compreenderás Tu este,
não sei qual de nós, que procura
a Tua face entre as sombras?

Quando eu me calar
sabei que estarei diante de uma coisa imensa.
E que esta é a minha voz,
o que no fundo de isto se escuta. 




*

O primeiro poema é de José Régio e chama-se 'O Pólo Sumo, em louvor de S. Francisco de Assis'

O segundo poema é de José Tolentino Mendonça e chama-se 'Revelação'

O terceiro poema é de Manuel António Pina e chama-se ' Estarei ainda muito perto da luz?'

A música é uma Cantata de Bach (BWV 63) e é interpretada pela orquestra Divino Sospiro

*

Este é o meu segundo post de hoje. Abaixo poderão ver a minha primeira impressão de Francisco, antes Jorge Mario Bergoglio, depois de o ter visto dirigir-se aos fiéis que o aguardavam à chuva. 


*

Se me permitem, muito gostaria que hoje me visitassem também no meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras seguem as linhas da minha mão, guiada pelas mãos de Maria do Rosário Pedreira, e dedico-as à Leitora amiga que me falou nas linhas da minha mão e neste poema. A música é de sonho: numa grande interpretação Mischa Maisky toca Tchaikovski.

*

E, tirando isto, nada mais a não ser desejar-vos uma quinta feira muito boa (apesar de fria). 

E que o afecto aqueça os vossos corações (...soa piroso, não é?... Mas é o que vos desejo mesmo...).


sexta-feira, outubro 19, 2012

Dizem que hoje morreu o Manuel António Pina mas aqui, no Um Jeito Manso, as suas palavras verticais e puras sempre trarão vida e luz a estas páginas, hoje tão tristes


Há algum tempo, ao fim da tarde, vinha eu de um encontro profissional de dois dias, entro no carro e ouço na rádio que tinha morrido o Bernardo Sassetti. Apeteceu-me parar o carro e ficar ali a tentar perceber o vazio que subitamente se abrira à minha volta. Hoje, vindo identicamente de um segundo dia de reuniões, entro no carro, ligo ao meu marido e, quando lhe pergunto se há novidades, ele diz-me que morreu o Manuel António Pina. Fiquei como na outra vez, triste, espantada, muito desolada. Pessoas assim eu gostava que estivessem sempre perto de nós. São pessoas com uma luz especial, uma luz muito pura que irradia através da sua arte. 

Quem por estas bandas me costuma acompanhar, sabe como Manuel António Pina me é muito querido. Acabei de escrever no Ginjal que gosto que ele me leve pela mão. Gosto mesmo. Abro qualquer um dos seus livros e encontro sempre as palavras que me levam pela mão. Tem uma sabedoria, uma lucidez, uma frontalidade, uma bondade que me tocam. E, se falo no presente e não no passado, é porque pessoas assim, que deixam a sua marca impressa na vida dos outros, não morrem.

Mas, apesar disso, fiquei muito triste. Ele foi-se embora, ouvi que estava doente (e eu não sabia, senão teria feito com que o meu pensamento se ajoelhasse em prece, pedindo por ele). 

Não mais nascerão palavras das suas mãos. Mas a mim e a todos que tanto o admiravam, ele sempre nos vai acompanhar. Tenho-o agora aqui ao meu lado. Passo as minhas mãos tristes pela sua pele onde estão impressas palavras que me fazem companhia.

Hoje a companhia que me fazem é uma companhia silenciosa, as palavras vêm com véus de luto, mãos frias, vazias, e trazem lágrimas muito sentidas.


Uma infinita estrada de luz



                                             Por onde quer que tenha começado,
                                             pelo corpo ou pelo sentido,
                                             ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
                                             como um sono agitado interrompido.

                                             O teu nome tinhas alturas inacessíveis
                                             e lugares mal iluminados onde
                                             se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
                                             e deveria talvez começado por aí.

                                             Agora é tarde, do que podia
                                             ter sido restam ruínas;
                                             sobre elas construirei a minha igreja
                                             como quem, ao fim do dia, volta a casa.



Uma casa quase em ruínas entra na noite



                                                      A mão que tacteia o papel
                                                      tacteia o próprio tacto,
                                                      como se o papel fosse a pele
                                                      de um corpo menos que corpo, intacto,

                                                      que a mão levemente aflorasse
                                                      acordando paisagens que são
                                                      antes pensamento que imaginação,
                                                      onde, imaginando-se, o pensamento parasse.

                                                      Também a mão é uma árvore
                                                      crescendo para dentro,
                                                      e o desenho o instrumento
                                                      de esclarecimento da paisagem.




Um veleiro que parte, num rio que parte



                                                     Com que palavras ou que lábios
                                                     é possível estar assim tão perto do fogo,
                                                     e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
                                                     tão sem peso em cima do pensamento?

                                                     Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
                                                     e não só uma voz de ninguém.
                                                     Onde, porém? Em que lugares reais,
                                                     tão perto que as palavras são de mais?

                                                     Agora que os deuses partiram,
                                                     e estamos, se possível, ainda mais sós,
                                                     sem forma e vazios, inocentes de nós,
                                                     como diremos ainda margens e como diremos rios?




Olhando o imenso desconhecido

*

Os poemas são da autoria do querido Poeta Manuel António Pina e podem ser lidos no livro 'Todas as Palavras', poesia reunida.

As fotografias foram todas feitas no Ginjal (a primeira, em particular, foi feita sobre o Ginjal, na Boca do Vento, de frente para Lisboa). 

*

Hoje, uma vez mais, não consigo responder aos comentários. Também não vou poder responder aos vossos mails. Li todos, enterneci-me como de costume, gostei muito de os ler, vocês são tão atenciosos, tão generosos; sabem que, por minha vontade, me punha aqui na conversa convosco, respondendo, um por um, a cada comentário, a cada mail. Ao vivo não sou muito tagarela, acho que sou até razoavelmente contida na fala. Mas a escrever é o que sabem, escrevo, escrevo e, então, quando é a conversar convosco, escrevo de gosto, é como se vos tivesse à minha frente, meus amigos, e estivéssemos um bocadinho à conversa. Mas hoje, uma vez mais, não consigo mesmo: é tarde e dentro de menos de quatro horas tenho que estar a pé. Peço-vos que me desculpem.

Não vou ter computador comigo pelo que vou estar longe de vós durante os próximos quatro dias. Talvez na terça feira à noite já consiga vir aqui dar-vos notícias. Senão, na quarta feira estarei de volta.

*

Tão triste e abalada fiquei com a triste notícia do Manuel António Pina que também fiz questão de deixar as minhas palavras emocionadas no Ginjal em Lisboa. Ao meu lado estava o Poeta, tentando animar-me com a sua poesia, mas a sua poesia hoje também estava triste. Se quiserem ir até lá, muito gostaria de vos ter por lá.

Também senti a necessidade por passar por vários dos blogues que costumo ler e que faziam referência à partida do Poeta para deixar uma palavra, como se as pessoas que lamentam a sua partida fossem seus amigos, amigos próximos a quem apresentamos condolências.

Se quiserem ver todos os posts aqui no Um Jeito Manso em que inseri palavras (em prosa ou poesia) de Manuel António Pina poderão clicar aqui.

*

Enquanto estava agora a escrever, estava a ouvir na televisão as palavras duras de Manuela Ferreira Leite. Nem eu digo deste OE e desta gente incompetente o que ela diz.

Também vi o Paulo Portas dizendo banalidades e coisas ocas. Estava com um casaco azulão e gravata cor de rosa vivo e todo ele mais as palavras que dizia me pareceram de plástico. Vai destruir o CDS.

Vi a primeira página do Expresso que diz que escutas a Passos Coelho foram enviadas para investigação. São os bancos, ao que parece. Ah os bancos, que caladinhos que andam... como eu ando a desconfiar dos bancos... (já aqui o disse, há dias, lembram-se...?).

*

Mas, tenho que acabar de escrever. 
Quero desejar-vos que fiquem bem, que tenham saúde, alegria. E, olhem, portem-se mal, está bem? 

Que o meu e o vosso rosto sejam inocentes, com olhar de criança, alegria, irreverência, gosto pela vida - em honra ao Poeta Manuel António Pina, Prémio Pessoa, grande cidadão, português orgulhoso, Homem de bem, para sempre connosco (pelo menos aqui, no Um Jeito Manso, sempre esperarei que as suas palavras apareçam para nos visitar).