Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, dezembro 12, 2016

Cem poemas sem recebidos com alegria agradecida
- em tarde de derby cá em casa





Muitos afazeres para este domingo. Para começar bem o dia, de manhã, caminhada, fotografias. E tarefas domésticas e compromissos. Para a tarde estava combinado lanche com toda a gente. A minha filha já tinha alertado: é dia de derby, vê lá isso. O meu marido disse: não dá na televisão. Sms dela: dá na Benfica TV. E alertou que o irmão haveria de querer ver. E o meu filho também. Referia-se ao pimentinha mais velho. Mas Benfica Tv é coisa que jamais poderia haver cá por casa. Passado um bocado, sms do meu filho: o pai podia subscrever a Benfica TV por 30 dias e se for preciso eu comparticipo financeiramente. Ri. Li para o pai ouvir. Reacção imediata: nem pensar! deve estar a gozar! é que nem pensar!

Deixei que se recompusesse. Então, de mansinho pedi para ele ver como é que se subscrevia. Não queria. Tentei acalmá-lo: só 30 dias. Que mal tem? Furioso: é que nem pensar eu ir dar dinheiro ao Benfica... Pedi: para os miúdos verem. Gostam tanto de ver futebol. Pronto. Lá toquei no ponto sensível. Andámos, então, por aqui com o comando à procura, a ver onde se fazia tal coisa -- até que descobrimos. Depois era preciso código. Sabíamos lá do código. O meu marido sugeriu 0000. Nada. Sugeri 9999. Nada. Perguntei ao meu filho. Sugeriu 1234. Nada. Logo a seguir sms dele: 5555. Deu. Subscrevemos, o meu marido revoltado. Não digo os palavrões. Mas basicamente era um queixume blasfemo que continha as seguintes palavras: 'o... benfica cá em casa...'. Ou seja, uma faca entrerrada no peito.


Portanto, a combinação era: lanche reforçado no intervalo mas, à chegada, quem quisesse podia abastecer-se. 

Até que chegassem, mais tarefas domésticas. A semana vai ser preenchida, o fim de semana tem que ser produtivo.

Eis senão quando abro a caixa do correio no computador e vejo um mail que me faz sempre ficar com um sorriso aberto de alegria. Leitor amigo dizia-me que, à semelhança de anos anteriores, tinha-me deixado, no sitio do costume, um livro de poemas, colheita 2016. E enviava-me fotografias de um lugar tão meu conhecido.


Fiquei: ah e agora...? tenho que ir buscá-lo... mas e se eles chegam entretanto...? Mas tenho que ir não vá alguém descobri-lo e ficar com ele...

O meu marido, mais prático: liga aos gajos. vê onde andam, diz que não venham muito antes das seis. E despacha-te.

E assim foi. Despachámo-nos em três tempos, ala moço que se faz tarde, carro, sempre a andar.

Lá chegados, a maravilha do entardecer, o rio feito mar espelhado, a luz suavíssima, as silhuetas recortadas contra a paisagem amena, a cidade a começar a acender-se. O meu marido, puxando-me, despacha-te, vê se queres que os gajos cheguem antes de nós.

E lá fui apressadamente até ao sítio do costume.
Baixo-me, estendo a mão por entre as flores húmidas da neblina nocturna que se aproxima e... la está, o saco de plástico transparente e, lá dentro, o envelope 'para a UJM'. Feliz como uma menina que acabou de ganhar o seu primeiro presente de natal, começo logo ali a abrir o livrinho, a sorrir com o cartão, a sorrir com a dedicatória.
O meu marido puxa por mim, anda,... mas tens que estar a ler já aqui... ? e quase sem luz...? despacha-te.

E mais umas fotografias.

Depois carro. Caminho de regresso. À justa.

Logo a seguir começaram a chegar os adeptos. Primeiro os do Benfica. Logo a seguir os do Sporting.

E depois foi o habitual desgosto dos sportinguistas, a alegria dos benfiquistas. E o lanche. E o jogo das escondidas entre os mais pequenos. E o chinfrin do costume. E as canções, as guitarradas, o sapateado, a alegria de sempre.

No fim ainda houve quem se abastecesse, desta vez com uma sopinha. E depois voltei aos meus afazeres. Pelo meio, ainda fiz o post abaixo com o casal de pombinhos que hoje me enterneceu. Um mel... beijinhos, beijinhos, todos denguice, todos sedução aqueles pombinhos. E ainda voltei às minhas arrumações. E cortei o cabelo. Tomei banho e, com o cabelo molhado, umas tesouradas valentes. De vez em quando apetece-me mudar de pele. Como não sei bem como é que isso se faz, limito-me a cortar o cabelo. Desta vez um corte a sério. Fiquei até com vontade de voltar a pôr-me à rapazinho. Um dia destes, quem sabe.

E agora aqui estou, outra, a ler os poemas do Joaquim Castilho, a ouvir Horowitz a tocar o concerto para piano nº 23 de Mozart, a sorrir, satisfeita. E um calorzinho tão bom aqui na sala. E uma paz imensa instalada no meu coração.

Refugiado 
em ti
nos teus livros
na tua música
nos teus sonhos
nos teus desejos
nos teus medos
caverna translúcida
teu conforto
teu pequeno mundo
dentro de ti.


Obrigada, Joaquim. Muito obrigada mesmo!

Precisei de ler os poemas, sim senhor, para poder dizer com convicção que os achei admiráveis!


E muitos presentes para todos, destes assim, que transportam afecto, generosidade, amizade.

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quarta-feira, abril 27, 2016

De que matéria?



De que matéria é feita a emoção que sinto quando vejo uma tela encarnada, quase só uma mancha, quase só nada? Que parte de mim é activada para que eu sinta o peito a vibrar e eu com vontade de entrar dentro do vermelho, o meu sangue feito pigmentos derramados sobre a tela, eu feita o nada que habita uma tela inerte? Ou não é inerte a matéria que assim me convoca? É mesmo luz o que sai do coração da tela, uma alvura que não tem explicação, talvez leite, talvez nuvem, talvez apenas silêncio? Que laços se soltam desta tela para virem, assim, enlear-me, eu atraída pela injustificação que me prende? Sombras, rolos de fumo, o quê, em baixo, que nasce de dentro da matéria da tela, que nasceu das mãos de Rothko, que nasceu do nada que por vezes habitava a sua mente? 

Mas a tela não está agora aqui, o que está é uma representação sob um vidro, flocos feitos de ínfimos impulsos que atravessaram o espaço, que entraram nas redes invisíveis e infinitas que entretecem o espaço; e, no entanto, vendo o que estou a ver, sem querer, eu penso em mim, no museu, eu em frente da tela imensa e silenciosa, e eu com vontade que a tela seja oração e eu uma sombra passageira que passou por ali levando consigo a emoção de ver estes simples rectângulos cor de sangue e luz.

De que matéria posso eu falar quando falo do que estou a falar? De matéria nula, intocável, toda e só abstração?


E de que matéria é este meu sentimento de devoção, de enlevo, de encantamento, como se só de ouvir esta música eu me tornasse outra, melhor, como se por atravessar as minhas células, a música me transformasse, eu por momentos transcendente, ou não eu mas a matéria que em mim se transformou para recolher a impressão que a música quer deixar gravada na minha curta memória?

Ouço uma música assim e penso que algures dentro de mim há cordas invisíveis que se agitam como borboletas efémeras ou como um mar de papoilas ondulando ao vento. Saberia eu fotografar essas imagens invisíveis que se formam dentro de mim quando ouço uma música assim? 

E as searas coloridas que dançam suavemente num lugar luminoso dentro de mim quando ouço Horowitz a tocar Mozart serão iguais às vossas, Caros Leitores? Ou a vocês a música não desenha searas mas nuvens deslizando no céu ou pássaros brincando na rebentação das ondas? Ou apenas um lugar de recolhimento, uma capela vazia? 


E de que matéria é feita a minha curiosidade atenta quando ouço Sylvie Guillem falar enquanto o seu corpo se move como eu gostava que o meu soubesse mover-se? E que partículas elementares dentro de mim se agitam em uníssono, certamente em uníssono, uma manta de partículas movendo-se em sintonia, enquanto observo as longas pernas de Sylvie, a elegância das composições, a inquietação dos arabescos que desenha com o seu corpo, os seus braços longos como asas nuas?

Ou não há matéria envolvida nesta história? Apenas rastos que as partículas em movimento deixam em mim? Sonhos imateriais, ligações intangíveis?

E de que matéria é o movimento que conduz os meus dedos que deslizam pelo teclado em busca das letras que cheguem até vós como sinais de luz com significado, transportando até junto do vosso olhar a emoção que sinto no momento em que as palavras se formam, já soltas de mim?

Pergunto -- mas felizmente não posso responder, porque me desconheço.

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E, caso estejam para aí virados, queiram descer para irem visitar a Dona Guidinha e, a seguir, a poesia de Eugénio de Andrade.

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terça-feira, julho 07, 2015

Nuno Melo diz que é "um absurdo" falar-se em perdão de dívida. E como ele muitos. O moralismo tolda-lhes as capacidades cognitivas. Penso que para gente assim só mesmo o tratamento de que o psiquiatra Daniel Amen, especialista em desordens mentais, fala no vídeo abaixo. [E, depois disto, se me permitem vou mas é escolher a minha toilette para mais um dia de labuta. E vou ouvir a Consolation.]


No post abaixo já referi a coisa sensata que o BCE e demais súbditos dos grandes chefes estão a fazer cortando a torneira da liquidez aos gregos já que eles não pagam a dívida com o dinheiro que não têm. 

Talvez devessem os gregos retirar os dentes de ouro, quiçá peças metálicas que tenham no corpo, próteses e assim, e mandassem derreter isso tudo, talvez sempre desse para pagar um bocadinho. E talvez devessem as mulheres cortar rente o cabelo e o vendessem. Talvez todos pudessem também vender um rim. Até um olho. Para que querem os gregos dois olhos com tanta gente a precisar de olhos novos? Talvez se todos os gregos se juntassem e dessem verdadeiramente um pouco de si, talvez o Nuno Melo ou o seu vice-irrevogável chefe brincalhão ficassem mais tranquilos, 
Esta posição resume muito do pensamento dos partidos de direita, PSD e CDS, que estão no Governo e que se negam a admitir qualquer perdão da dívida grega (e ainda qualquer perdão da dívida portuguesa por arrasto). 
e, quem diz eles, diz todos os outros igualmente espertos que por aí andam a exigir que os gregos paguem o que devem.

E eu, que não tenho o raciocínio formatado como os melos desta vida, pergunto: Paguem? Mas paguem como? Paguem tudo o que os abutres querem? Tudo, tudo?
Só para nos situarmos, a situação esta segunda feira foi assim:

Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos sobem para 3%. Trajetória de subida também nas obrigações espanholas e italianas. Juros da dívida grega acima de 17%. 


Volto à carga: Há alguém que consiga fazer face a agressões destas, com uma economia débil, enterrado em dívida? Juros acima de 17%? A dívida alimenta-se, cresce descontroladamente. Pagá-la? Mas pagá-la como?


Em contrapartida, do lado de lá, ouvem-se vozes sensatas. Só que temo bem que gente tão burra como os que não conseguem ver um boi à frente do nariz, nem saibam ler a língua inglesa. Se soubessem, talvez aprendessem umas coisas. Assim é uma pena. Não sabem, não sabem que não sabem, não sentem que precisem de aprender. Um verdadeiro desastre.

Seja como for, para um just in case, do editorial do The New York Times aqui transcrevo:


For Europe’s Sake, Keep Greece in the Eurozone


The resounding victory for the “no” vote in Greece’s referendum has left European leaders like Chancellor Angela Merkel of Germany with a stark and clear choice. Only they have the power to decide what happens next — whether to shove Greece out of the eurozone or offer some path forward for the Greek economy, starting by writing down its huge and unpayable debts. 
Greece has suffered and will continue to suffer: its unemployment rate is over 25 percent; its gross domestic product has fallen by a quarter since 2008. What the past several years have shown is that suffering and austerity did nothing to help Greece or its creditors. And no more moralizing and punishment at this point will change that reality.
(...) Those against debt relief have argued that saving Greece would merely reward a government that has failed to reform its inefficient economy. But that is a self-serving misreading of what happened in the crisis. It was European leaders and the International Monetary Fund that made the biggest error in 2012 when they only partially restructured Greece’s debts, a lot of which were owed to banks in Germany and the rest of Europe.
They compounded the problem by demanding that the country cut spending and raise taxes. That depressed a weak economy and drove up unemployment, making growth and increased revenues impossible. In their most recent proposal, Greece’s creditors sought even more cuts to already modest government pensions, which would lead to further economic contraction.
Yes, Greek officials past and present are responsible for many of their country’s problems. But European leaders have made the crisis worse by their mismanagement. Now it’s incumbent on them to end the threat to the eurozone by saving a small, paralyzed country.

Cristalino.

Fico a pensar se, para além de uns cursozitos de inglês e de bom senso, não seria de dar também cursos de aritmética aos melos, aos camelos avençados, aos papagaios ferreiras e a outros cursados em direito, letras, jotas, comunicação e jornalismos a metro que, de repente, se armam em doutores-economistas-cirurgiões-dentistas, revelando que não conseguem fazer as operações aritméticas mais simples. De caminho, dava-se-lhes também algumas aulas simples de cultura geral -- mas, bem entendido, uma coisa resumida (a ver se, sendo pouco, lhes entrava). 

Mas talvez o problema seja mais complicado do que se pensa, talvez tenham mesmo um problema naquelas cabeças. Não sei se alguém já lhes espreitou para dentro. Na volta o problema está mesmo aí: buracos que até fervem,

Fui à procura de solução para isso (que eu cá sou a favor da inclusão).

E achei. Daniel Amen explica como muita gente que revela problemas sérios de comportamento afinal tem é pancada na cabeça. E - boa notícia! - isso trata-se. 




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[Falei no tema da recuperação cerebral na maior ligeireza mas agora falo a sério: estes assuntos fascinam-me. Infelizmente para o meu pai estes tratamentos já não lhe fariam nada. A lesão (provocada por um grande AVC na sequência de outros menores) foi severa e a idade também não ajuda. Mas para quem tenha menos idade e lesões menos extensas e profundas é uma esperança. O cérebro pode recompor-se e, no caso em que a doença ou os acidentes levam as pessoas para os caminhos da marginalidade, é pena que em vez de se investir tanto dinheiro a aprisionar tanta gente não se invista na sua verdadeira recuperação.]

...

Adiante.

Não vos canso mais. 
Vou mas é pensar na toilette que vou usar para mais um dia de cão. 
Mal por mal, ao menos que me sinta arranjadinha.

Não, assim não, não faz bem o meu género. 


Talvez mais assim.
....

E pronto, está na hora de me recolher. Em paz.


Horowitz interpreta Liszt - Consolation No.3

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Relembro que abaixo há mais: a Grécia e os bancos, Moisés e os Mandamentos, a bardajona com pena que o Tsipras não seja a Marilú e assim,

....

E desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela e feliz terça-feira.

...

segunda-feira, junho 29, 2015

Saudades para Alberto Vaz da Silva - diz José Tolentino de Mendonça e digo eu, também. Houve certos seres através dos quais Deus nos amou. Talvez seja isso. Talvez todo o mistério comece por aí.






Há uns quantos anos, resolvi fazer um curso de grafologia. Já aqui falei disso algumas vezes e, inclusivamente, já fiz análise grafológica a uns dois ou três leitores que me enviaram textos manuscritos. Quando agora alguém escreve à mão ao pé de mim até, sem querer, corro o risco de passar por mal educada, dou por mim só a deitar o olho para o que escreveram, não pelo que está escrito mas, sim, pela forma da escrita em si. Não sei porquê mas tenho constatado que, de facto, a forma como uma pessoa escreve revela a sua natureza e o seu estado de espírito.

Por todos os motivos, guardo do tempo em que fiz esse curso as melhores recordações. Nesses dias, às terças-feiras, salvo erro, saía do trabalho um bocado mais cedo, deixava o carro no parque do Chiado e depois ia para o Centro Nacional de Cultura. Tentava sempre chegar um pouco antes para poder dar uma volta por aquelas ruas que tanto amo, em especial ao fim da tarde. Depois havia o lugar onde decorriam as aulas, aquele edifício tão bonito, aquele soalho, aquelas luzes, todo aquele ambiente. Mas, sobretudo, o professor, o querido e especial Dr. Alberto Vaz da Silva. Aquelas aulas, dadas ao lusco fusco, eram momentos extraordinários. Culto, amoroso, de uma delicadeza extrema, todo ele memórias, referências, gestos de afecto - ouvi-lo e vê-lo era um privilégio. Eu assistia maravilhada, tudo aquilo era bem mais do que eu esperava.



Hoje, ao ler a crónica de José Tolentino de Mendonça falando dele, senti a emoção de ter tido a sorte de ter conhecido, ao longo de meses, aquela pessoa tão especial.

Transcrevo alguns excertos:

(...) não é estranho que [Alberto Vaz Silva), sendo licenciado em Direito, ele se tenha tornado um poliédrico e colossal humanista; que tendo exercido advocacia, por mais de trinta anos, ele se tenha sentido renascer no encontro com Rosaline Crepy, sua iniciadora no saber da grafologia, e a partir daí mudado de vida; que tenha viajado pelo hemisfério sul (e por um sem-número de hemisférios interiores) para ver grupos de constelações, como outros viajam pelo interior de bibliotecas ou de árduos e fascinantes problemas matemáticos. 

Ele vislumbrou uma nova relação com o real, feita não já de oposições e distâncias, como se a vida não fosse um mistério único, mas sublinhando corajosamente os traços de união, os hífens inesperados, as continuidades. E assim nos mostra que não há pequeno ou grande, não há cósmico nem quotidiano, não há interno ou exterior: por todo o lado e em todas as coisas está, pelo contrário, latente a mesma espantosa proposta que a vida em si mesma é.

(...) O contributo dele é aproximar na mesma visão, numa nova sintaxe, aquilo que se avista de galáxias diferentes. O que o apaixona é o que ainda não existe ou o que começa a emergir sem que a maioria se dê conta.


(...) Para homens como Alberto Vaz da Silva, a italiana Cristina Campo reserva um nome: imperdoáveis. Isto é, aqueles que possuem e definem um estilo, os habitados por uma força profunda, por um carácter próprio, por uma sabedoria irremovível, aqueles que desenham com as suas vidas um mapa de tal forma original que se torna necessário à viagem dos outros. 

Há uma frase de Saint-Martin, que Alberto Vaz da Silva recorda muitas vezes: "Houve certos seres através dos quais Deus nos amou". 

Talvez seja isso. Talvez todo o mistério comece por aí.




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As pinturas são de António Palolo

Horowitz interpreta Schubert - Impromptu in G flat major D899 No.3

A referida crónica de José Tolentino de Mendonça veio publicada na revista E do Expresso deste sábado, dia 27 de Junho de 2015.


Para quem queira conhecer melhor Alberto Vaz da Silva, aqui fica o link para a entrevista que concedeu a Anabela Mota Ribeiro em 2012, entrevista essa que é referida na crónica de José Tolentino de Mendonça.

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E, se quiserem saber das ameixas, orégãos e outras coisas in heaven, aceitem o meu convite e desçam, por favor, até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma fantástica semana a começar já por esta segunda-feira. 
Que a vossa vida vire para melhor. 

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quarta-feira, julho 02, 2014

A mensagem de Judite Sousa no facebook: agradecimento pelo apoio recebido e uma tocante confissão de uma profunda dor, de um desamparo imenso. E o que eu lhe diria, se pudesse dizer-lhe alguma coisa: palavras pequenas perante a dor infinita de perder o seu filho único, o seu André.





Tinha decidido não falar mais nisto. Não é meu costume deixar-me abater assim nem a notícia me diz directamente respeito. Percorro os blogues que acompanho, percorro grande parte dos jornais e quase ninguém fala nisto - e eu percebo. Não faz sentido uma pessoa ficar tão comovida perante a morte de alguém que não conhece. Não faz sentido uma pessoa deixar-se afundar perante um drama isolado. Há tanta dor no mundo, porquê incidir a angústia num único caso?

A verdade é que não sei explicar. Talvez porque acompanho Judite Sousa há tantos anos e há tantos anos falo dela - tantas vezes com ironia por causa das suas toilettes que me parecem excessivas ou pelas suas mudanças de visual, parecendo não acertar com o estilo que mais a favorece - que quase a vejo como alguém que me é familiar. Mas não é só isso. É que a acho humilde, de uma humildade que me agrada porque a vejo sempre receptiva a aprender ou aberta a colher novas ideias para o seu trabalho. Acho que deve ser boa pessoa. E acho-a frágil. E dizia-se sempre tão dedicada ao filho, parecia apoiar-se tanto no filho. A morte de um filho é daqueles horrores que nenhuma mãe consegue imaginar, nem quer em tal pensar. E eu não estou a ver como é que a frágil Judite, vulnerável e ainda mal recuperada de todos os problemas pelos quais passou recentemente, vai arranjar forças para superar tamanha dor.

Há uns anos eu tinha uma colega de quem era grande amiga. De facto, éramos a melhor amiga uma da outra. Ela tinha um marido por quem era apaixonada e de quem falava amiúde. Ela era sensível, ele era calmo, bem disposto. Ela tendia a preocupar-se facilmente, ele era à prova de stress. Ela pertencia a uma família de gente ligada às artes, ele era do mundo dos negócios. Complementavam-se, admiravam-se mutuamente, eram invulgarmente felizes. Iam frequentemente ao cinema, à praia, passear, e andavam sempre juntos. Todos os dias ele deixava-a de manhã na empresa e, à tarde, ia buscá-la e ficava no carro, lá em baixo, à espera dela. Ela via-o da janela e ficava sempre enlevada com o seu amor lá em baixo, infalivelmente à sua espera. Todos nós admirávamos a sua paciência, a sua compreensão e carinho.

Por vezes, se ela estava mais atrasada, ele subia. Já lá tinha trabalhado, conhecia toda a gente, aproveitava para cumprimentar velhos amigos. Era um simpático. Lembro-me que, por altura do Nove semanas e meia ele dizer que me achava parecida com a Kim Basinger. Eu ria, dizia à minha amiga que o marido era um sedutor, que mentia para fazer charme, e ela ria.

Um sexta feira, por volta das 5 da tarde, ela foi ao meu gabinete, apreensiva, que ia sair mais cedo, que estava preocupada, que o marido não tinha ido trabalhar, dizia que não se sentia bem, sem saber bem dizer o que tinha, e ela achava que ele estava com um princípio de depressão porque estava em rota de colisão com o administrador e receava até que ponto podia ir essa aversão, e que, havia pouco, ele lhe tinha ligado a dizer que ia ao médico, que não estava melhor. E que ele não era de doenças, de ir ao médico, que estava preocupada, que ia ter com ele. Fui despedir-me dela ao elevador, tranquilizando-a, que se calhar ele precisava de um ansiolítico, que não havia de ser nada, que ele não desse tanta importância ao dito administrador. Ela foi, inquieta. A porta do elevador a fechar-se, ela preocupada e eu a dizer-lhe adeus, até segunda, vá fazer-lhe um mimo, sim, se ele está preocupado com o emprego, vá dizer-lhe que há mais na vida para além do trabalho.

No sábado, estava eu a passar o dia em casa dos meus pais e tínhamos ido passear para o campo, ligou-me um outro colega meu, também ex-colega do marido dela, a dizer-me que me ia dar uma notícia terrível, que eu me preparasse, que são coisas que acontecem: o marido da minha grande amiga tinha morrido na sexta à tarde, pouco depois dela chegar a casa tinha caído nos braços do filho, então adolescente, e que, na ambulância, ia de mão dada com a nossa colega, ela achava que ele tinha morrido ali, a olhar para ela, mas que no hospital ainda tentaram reanimá-lo. Fiquei em choque. Como era tal possível? Ainda na quinta feira o tinha visto e estava bem. Como era tal possível? Mas, sobretudo, não imaginava como seria possível a minha amiga sobreviver sem o grande amor da sua vida. É certo que tinha um filho mas um amor como o dela pelo marido não era comum e, do ponto de vista emocional, ela dependia completamente dele.

Nessa tarde fui à igreja mas fui a medo. Estava muito abalada e não imaginava o estado da minha amiga, receava muito por ela e sabia-me num estado que não se recomendava. Quando lá cheguei não os encontrei. O meu colega tinha-me dito que a igreja era a S. João de Deus, que é na Praça de Londres e, afinal, estava na S. João de Brito que é em Alvalade. Como estava com o meu marido e os miúdos queriam ir para casa, isso foi o pretexto para não fazer mais diligências para esclarecer o equívoco. Arrependida por ser tão pouco corajosa mas sem ser capaz de ser forte, fui para casa.

Mas, claro, no outro dia, a medo, muito a medo, lá fui. Quando a minha amiga chegou à igreja já eu estava cá fora. Parecia que tinha envelhecido cem anos e mal andava. Ia amparada pelos sobrinhos mais velhos e pelo filho. Ela não me viu e eu não fui capaz de ir ter com ela. Fiquei cá fora, impotente, cobarde.

Quando saíram da igreja, ela de novo amparada, o rosto quase desfigurado de tanto chorar, fiquei arrasada com o estado dela, estava irreconhecível, quase sem conseguir andar. Mas então ela viu-me. Veio na minha direcção e abraçou-se a mim, e chorava, chorava, e eu não consegui mais conter-me, desatei também num choro que não parava. Ela tratava-me, e trata-me ainda, pelo meu diminutivo e perguntava-me, como vou eu conseguir viver sem ele? e eu só era capaz de dizer vai, vai. Estivemos assim não sei quanto tempo, e ela dizia-me 'não vou conseguir viver sem ele' e chorava e eu, também a chorar, dizia 'vai, claro que vai'. Tenho ideia que, durante todo o tempo em que esteve abraçada a mim, eu a ampará-la, o que dissemos não passou disto.

Depois lá pegaram nela e lá a levaram. No cemitério, junto à cova, perdeu as forças e foi um sobrinho que a pegou ao colo. Foi assim, ao colo do sobrinho, leve como uma folha sem vida, que saíu de lá. Quando veio a ela, procurou-me com os olhos e fez-me um adeus ao de leve, cheio de tristeza.

Apenas uns quinze dias depois conseguiu voltar ao trabalho mas não parecia a mesma, envelheceu, encurvou-se, deixou de se maquilhar, o cabelo perdeu força. Eu tentava animá-la, íamos almoçar juntas, eu contava-lhe maluquices, fofoquices, tentava entusiasmá-la com roupas, que ela devia vestir uma roupa mais alegre, que devia pôr uma sombrazinha nos olhos, um baton, e queria que ela me contasse tudo sobre o filho, sobre o curso que tinha começado a tirar, e - sobre a equitação, sobre o amor crescente do miúdo por cavalos, e ela ia respondendo - mas sempre sem alegria. A vida começou a parecer-lhe uma casa desabitada.

Valeu-lhe sobretudo a irmã, ligada a museus, amiga de pintores e escultores, gente geralmente animada, e valeu-lhe também a catrefada de sobrinhos que ora tinham emprego, ora o perdiam, ora saltavam de um para outro e que mudavam de namoradas e namorados e que, depois, começaram a casar-se e descasar-se e, depois, a ter filhos e agora já devem ser quase uns vinte sobrinhos-netos senão mais e depois o filho dela, rapaz precocemente adulto, triste, que também arranjou namorada e, toda essa gente em sua volta impedia-a de se sentir tão desoladamente sozinha.

Mas nunca mais foi a mesma. Perdeu a alegria de viver. Numa qualquer reestruturação das muitas que sempre estão a acontecer, resolveu ir-se embora com indemnização. Tentei demovê-la, achava que ela em casa, sozinha, sem a rotina do trabalho, deveria sentir ainda mais a solidão mas ela disse que já não suportava a rotina de ir e vir todos os dias. Provavelmente não suportava não ver o marido no carro lá em baixo, aquela janela vazia devia recordar-lhe a toda a hora a ausência tremenda que sentia.

Foi-se embora e, mais tarde, reformou-se antecipadamente. Não há aniversário meu ou natal de que ela se esqueça. Toma conta dos sobrinhos-netos, ajuda a irmã a gerir aquela grande casa que é uma plataforma de apoio familiar e que também está sozinha já que se separou do marido, alguém bem conhecido dos meios culturais nacionais, um galã por quem também era apaixonada e que a trocou por uma jovem assistente, bela e ambiciosa.


A minha amiga conseguiu sobreviver mas ficou para sempre um ser incompleto. Muitas vezes recriminava-se por não ter percebido a gravidade da situação e o ter deixado em casa sozinho naquela fatídica sexta feira e esse sentimento ainda agudizava mais a sua dor. Mas sobreviveu. Sobrevive-se sempre especialmente se se quiser mesmo voltar a sentir o gosto por viver.

Claro que nem todas as pessoas são iguais nem as circunstâncias as mesmas. Conheço muitas pessoas, a maioria, que, depois de um período de luto, prossegue a sua vida, vai em frente, reencontra o equilíbrio emocional, volta a parecer ser capaz de encarar a vida com normalidade.

Li há pouco no DN o que Judite de Sousa escreveu no facebook e que depressa foi partilhado publicamente por vários amigos e que aqui transcrevo:


Não tenho palavras para expressar a minha gratidão. A todos. Do fundo do meu coração.

Perdi o meu filho. O meu único filho. A luz que dava sentido à minha vida. O meu santo que tantas alegrias me deu. Bom filho, bom estudante, inteligente. Com uma carreira de sucesso. Não sei como vou ultrapassar esta dor. O que sei é que uma parte de mim morreu com o meu André. Interrogo-me sobre o sentido da minha vida. As minhas escolhas, a minha vida focada no trabalho, na escrita, tendo sempre presente que o meu filho era quem mais se orgulhava do que eu fiz e construí ao longo da minha vida. Fiz tudo para que nada faltasse ao meu André, mas não consegui salvar-lhe a vida. Um fracasso e uma tragédia. Estranha vida a minha! Realizada profissionalmente, dramática pessoalmente. O último ano foi penoso. Apenas existia o meu André que me dizia muitas vezes: " Mãe, não vais ficar sozinha". E eu acreditava. Acreditava. Eram palavras ditas pelo meu filho, um jovem ponderado e sensato.


Parte-se-me o coração ao ler estas palavras tão tristes. 

Penso que percebo muito bem a infelicidade dela. Um dia, há 29 anos, o filho saíu de dentro dela e só agora, que ele partiu, é que ela sente o seu corpo verdadeiramente vazio. O que ela sente, agora, deve ser um vazio sem remissão. Como poderia não o sentir?

Tal como tentei fazer com a minha amiga, gostava também de tentar animá-la a ela, contar-lhe palermices, desafiá-la para irmos aqui ou acolá, confortá-la de alguma forma, dizer-lhe que o André está ali, na curva da estrada, que apenas não o está a ver mas que ele está lá, e que as suas memórias acompanhá-la-ão como se ele estivesse entre nós, perto dela, dizendo-lhe que não tenha medo, que nunca a vai deixar sozinha. Enquanto ela se recordar dele, ele estará dentro do seu corpo.

Palavras assim que talvez a pudessem ajudar - se é que há alguma coisa que possa ajudar uma mãe que perde um filho.  Mas, pelo menos, palavras que a mantenham distraída, iludida, e que a ajudem a atravessar o tempo que falta até que encontre maneira de viver, em paz, com o André dentro do seu coração.

E, então, quando estiver mais forte, que volte à televisão. Estamos à sua espera. E eu, nessa altura, meter-me-ei outra vez com ela, com as suas saias que deixam a bela perna bem à vista, com os seus saltos altos que fazem o meu marido dizer uns piropos, com os seus à partes 'mas ó dr. medina...' que me fazem rir - mas saberei que ela, como tantas outras mulheres que passaram pela mesma tragédia, conseguiu sobreviver. Porque se sobrevive sempre.

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Não quero falar mais nisto. Temo que tomem estas minhas palavras como mórbidas ou como um voyeurismo descabido. Não são. Quem aqui me costuma acompanhar sabe que sou avessa a isso.

Estas minhas palavras são apenas a confissão de como isto me abalou. Uma mãe sente uma coisa destas como a confirmação de que uma desgraça assim é possível - e isso aterroriza-nos. Não queremos pensar que isto possa alguma vez acontecer e, quando vemos uma mãe a passar por isto, a gente interroga-se: que forças descobrirá ela para conseguir sobreviver?

Mas é verdade: por quantas mães eu teria que chorar se chorasse por todas as mães que perdem filhos? 

As mães grávidas que embarcam, ao monte, numa qualquer embarcação onde se morre de fome, sede, falta de oxigénio, em busca de um futuro mais do que incerto. As mães que perdem os filhos em cenários de guerra. As mães que vêem os filhos ou as filhas raptadas. As mães que vêem os filhos sem cabelo, entubados, nos hospitais onde se espera um milagre todos os dias. As mães que não têm dinheiro para dar de comer aos filhos e que temem perdê-los para uma qualquer instituição. 

É um facto: por quantas mães eu teria que chorar se chorasse por todas as mães que choram pelos filhos?

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  • Horowitz interpreta Schubert-Liszt Ständchen (Serenade)
  • As mulheres abstractas são de André Wee
  • As fotografias de casas abandonadas são do fotógrafo alemão  Sven Fennema
  • A árvore cujas raízes se iluminaram é uma fotografia manipulada de Barry Underwood.
  • A última fotografia é uma fotografia galardoada pela World Press Photo, tirada no Yemen, e é da autoria do fotógrafo espanhol Samuel Aranda para o The New York Times.

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Amanhã, tenho a certeza, já falarei de outras coisas mais animadas. Há tantos assuntos.
(E talvez amanhã não me pareçam ridículos.)

Aliás, se ainda conseguir hoje, já o farei.

Mas, pelo sim, pelo não, já aqui deixo as minhas despedidas.
Tenham, meus Caros Leitores, uma boa quarta feira.

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segunda-feira, outubro 07, 2013

Fim de semana in heaven. Plantando árvores, apanhando uvas, apanhando sol, lendo ['A terra de que um homem precisa' (Tolstoi)]. O prazer das coisas simples.


No post a seguir a este poderão ler o que penso sobre a TSU das viúvas e sobre os velhacos que se lembraram de uma ideia tão canalha. Só não me insurjo mais porque tenho a certeza de que não irá avante. Há limites mesmo para os descarados que não conhecem limites. A bem ou a mal os cortes nas pensões de sobrevivência não passarão. 


A seguir a esse post, há um vídeo muito esclarecedor que explica bem para onde tem estado a ir o nosso suor e o nosso sangue.

Mas isso é a seguir. Como já o disse muitas vezes não gosto nada de me ir deitar aborrecida. Por isso, aqui, agora, a conversa é outra.

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O sol de outono regressou. A terra estava húmida das chuvas que caíram durante a semana. As folhas estão douradas, cheias de luz. Aprisionam a luz para depois partirem. A glicínia, que na primavera se enche de cachos de flores lilases, está agora requintadamente envolta em ouro. O portão está assim como aqui o vêem, envolto em rendas suaves, filigranas delicadas.




Aproveito a terra húmida do início do outono para plantar algumas árvores e arbustos.

No meio das pedras apareceu um pequeno rebento de pinheiro. Ali não poderia medrar. Transplantar pinheirinhos não costuma resultar bem. Com muito cuidado tento trazer o pequeno rebento à superfície sem que a raiz se parta. Os pinheiros deitam raízes fundas. Mesmo este pequeno rebento tem uma raíz bem maior que ele. Num lugar de terra mais farta abri uma cova e, com muito cuidado, plantei-o. Depois aconcheguei bem a terra à sua volta.




Vamos ver se vinga, tomara que sim. Que vingue para vingar o grande pinheiro que tombou com o vendaval de inverno.

À sua volta coloquei umas pedras para delimitar o seu espaço pois, quando vier a primavera, a erva vai rebentar e cercá-lo e, assim, quando se for roçar o mato, as pedras farão alguma barreira, não vá a máquina feri-lo de morte.

Plantei também um pequeno cedro. Gosto muito de cedros. Quando grandes são frescos, densos e perfumados.




Plantei também loendros e callunas. São resistentes, floridos e perfumados, é o género de arbustos que se dá muito bem por aqui.

Não uso luvas, não me dá jeito. Na cozinha também não uso. No campo gosto de sentir a terra, a terra molhada. Ajeito as plantas à mão, é quase como se estivesse a ajeitar a roupa na cama a um bebé. E como usar luvas e não sentir a pele dos bebés?

Claro que por estas e por outras é que não consigo ter unhas compridas. Nails é coisa que não se dá comigo. Vejo as unhas das raparigas do escritório, artísticas, em dois tons ou com estrelinhas, unhas enormes. É coisa que não consigo: entre as unhas compridas e o gosto de sentir a terra nas mãos, opto, sem dúvida, pela segunda alternativa. A pele também se ressente, fica seca mas, enfim, depois tento compensar com um creme.




As uvas estão doces, muito doces, alguns bagos já estão comidos pelos pássaros - e como eu os compreendo - outros são quase passas. São uvas moscatel. Mel. Um mel líquido. Andei a apanhá-las mas, enquanto as apanho, vou comendo. E logo as uvas que, tal como os figos, engordam tanto. Paciência. Logo faço dieta ou logo faço caminhadas mais longas para compensar.




Na sexta feira tinha descoberto uma pequena livraria que vende livros dos fundos. Uma maravilha. Qualquer dia só encontro livros que me interessem nos fundos. Comprei logo uns quantos. Baratos. Só um custou 7€, os outros foram a 3.




No sábado li A Arte de Caminhar de Henry David Thoreau um livrinho cuja leitura me encheu de prazer. Sou caminhante de curtas caminhadas mas sei bem o prazer que é caminhar, ir para onde os passos nos levam, e o prazer imenso de percorrer os caminhos limpos da natureza, viver dentro dela, ser apenas um dos muitos pequenos seres que a habitam.

No domingo, de tarde, deitada ao sol, estive a ler 'A terra que um homem precisa' de Tolstoi (ou Tolstoy). Conta a história de um homem chamado Pahóm que nunca estava contente com o que tinha. Podia ser feliz, era bem sucedido, mas comparava-se com quem tinha mais e ficava impaciente enquanto não conseguia ter também. Ia sucessivamente largando o que tinha para ter mais e mais. Por fim, soube de um sítio de terras férteis a preço baixo. Partiu para lá, com o criado, para comprar terras, muitas terras, num lugar longe do sítio onde vivia com a mulher e os filhos. Nessa terra vivia um povo, os Baskirs. Os Bashkirs vendiam por um preço baixo toda a terra que ele pudesse percorrer e marcar num único dia desde que voltasse ao sítio de onde tinha partido antes do sol se pôr. Pahóm correu, correu para marcar mais e mais terra, correu, exausto, correu para conseguir chegar ao ponto de partida. Quando conseguiu, de tal forma estava exausto, caíu morto.

Os Baskirs davam estalos com a língua, para mostrar a pena que sentiam. O criado pegou na pá, fez uma cova em que coubesse Pahóm e meteu-o dentro; sete palmos de terra: não precisava de mais.

Assim termina a história.


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A música acima é Serenade de Schubert interpretada por Horowitz. As pinturas que se vêem no vídeo são de Ivan Aivazovsky (1817-1898).

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Hoje no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, Mia Couto traz as suas palavras simples como a terra e as minhas juntam-se às dele quase como se rezassem a um deus que anda desaparecido. A seguir há duas grandes vozes, Kate Aldrich e Daniela Dessi, interpretando a Norma de Bellini. Muito gostaria de vos ter por lá.

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Relembro: se quiserem testemunhar a minha revolta e náusea por causa da TSU das viúvas, por favor desçam até ao post abaixo.

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Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana.
Que as patifarias do desGoverno não vos tirem a vontade de ser felizes.