Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca
Mostrar mensagens com a etiqueta Madoff. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Madoff. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, abril 14, 2017

O feiticeiro mentiroso


Há coisas de que não quero aqui falar. Se tenho isto de não me identificar não é para, depois, vir para cá relatar situações incómodas, com detalhes que podem levar a identificá-las.

De resto, calma, não tenho conhecimento directo de nada que tenha provocado danos alheios ou que configurem ilicitudes.

Bernie, Ruth e os filhos quando eram uma família feliz



Mas já tenho testemunhado situações em que alguém por fútil fanfarronice, por mesquinha ambição ou, apenas, por pura burrice, embarca numa situação cujos contornos não são tão lineares quanto é suposto.

Muitas vezes, a coisa é detectada e morre logo ali. Mas acontece, por vezes, que, porque naquelas circunstâncias convinha que aquela ficção fosse uma ideia viável ou porque se não quer apear as expectativas de quem lançou as sementes do embuste, quem teria o dever de cortar, cerce, a ficção, a deixe caminhar.

E, por essas circunstâncias, por vezes difíceis de explicar, a ficção começa a caminhar como se tivesse pernas de verdade.

Quem lhe é externo e não conhece da história o suficiente para a desmascarar, nada diz. Não tem o que dizer. E, quem teria a capacidade para a desmistificar, por vezes, ao fazê-lo, é apodado de desalinhado, de avesso à mudança. E, por vezes, é afastado.

Acontece também que cada vez mais pessoas comecem a trabalhar para dar corpo à ficção. A essas não convém desmascará-la pois a sua vida passa a depender disso. E, quem a conduz, cada vez tem mais dificuldades em assumir que está a alimentar uma fraude pois já envolveu muita gente, e já muita gente depende de se fazer crer que está tudo bem.

Pode ainda acontecer que a comunicação social comece a louvar a 'empresa', que muita gente comece a apostar nela, que as forças vivas da região divulguem o sucesso do empreendimento.

E acontece que o tempo vá passando, o embuste seja cada vez mais difícil de esconder mas, na directa proporção, cada vez é mais impossível assumir, fazer o mea culpa, deixar que tudo se extinga, aceitar o vexame de passar publicamente por mentiroso, por desonesto.

Então, quem está metido nela, embarca em optimismos que parecem louváveis, mostra resiliência, produz discursos articulados nos quais assume, com o que parece ser uma desarmante  sinceridade, dores de parto, dores de crescimento, mas, garante, o futuro é promissor e vamos todos dar as mãos e seguir em frente que o caminho se faz caminhando  e em equipa somos todos mais fortes. Um líder.

E, quem conservou algum distanciamento e, por isso, se encontra distanciado do inner circle do poder, assiste perplexo ao que se passa. Cegueira colectiva? Protecção mútua entre culpados? Instinto de sobrevivência? 

Talvez tudo junto.


Já quando aconteceu a queda do BES eu falei nisto. Do que conheço de meios relativamente parecidos (embora, como referi, sem o mesmo impacto e sem os mesmos contornos), penso que, ao mais alto nível, não há a ideia de querer prejudicar alguém. Pelo contrário, tudo farão para que ninguém saia lesado. O móbil diário passa a ser manter a máquina em movimento, não deixar que pare porque, se parar, morrerá. E não deixar que se descubra: E empurrar os problemas com a barriga, evitar o opróbrio generalizado, fazer de conta. Fazer de conta. A vida passa a ser, acima de tudo, isso: fazer de conta.


Do pouco que, na altura, li sobre Madoff, penso que foi mais ou menos isto que terá acontecido. 

Bernie Madoff geria uma empresa próspera. A mulher e os filhos não conheciam o âmago da questão. Para eles, Madoff era um bem sucedido homem de negócios. Viviam uma vida luxuosa e a sociedade não regateava o reconhecimento perante tão simpática e generosa família.

Até que veio a crise e o dinheiro deixou de entrar. Pelo contrário, os clientes começaram a querer resgatar os seus investimentos.

Como qualquer esquema Ponzi, isso é o que faz cair a pirâmide pois o que mantém a ilusão de bom funcionamento é o dinheiro entrante com o qual se vão pagando bons rendimentos aos que antes o lá meteram.

Daí ao fim foi um ápice. Madoff confessou à mulher e aos filhos o que se passava antes de o confessar às autoridades. Sempre assumiu integralmente toda a culpa.

Perderam toda a sua fortuna. A mulher passou pela vergonha de ver as casas e os bens vendidos. Os filhos ficaram arrasados. Um suicidou-se. Outro morreu tempos depois. Ruth, a mulher que era feliz e milionaríssima perdeu os filhos, tem o marido preso e anda agora sozinha às compras deslocando-se num pequeno carro

Michelle como Ruth
Ruth Madoff agora




O caso está agora em filme e o elenco promete: Robert de Niro e Michelle Pfeiffer.



The Wizard of Lies será lançado a 20 de Maio



____________________

Talvez até já para vos mostrar por onde andei a cirandar ao fim do dia.

___

sábado, julho 12, 2014

Quando uma vida se constrói em cima de mentiras. A vida de Madoff. O desmoronar da vida de Madoff. O que conta a nora (agora viúva) de Madoff. Coisas que me ocorrem nestes dias em que o Grupo Espírito Santo pegou fogo e em que, não havendo quem o apague, está quase em cinzas.


No post abaixo já vos convidei a irem ler o discurso completo de José Manuel dos Santos, um belo texto a propósito de Sophia, publicado por um blogue onde ninguém pode pôr o pé em ramo verde.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


Já aqui ontem me lembrei de Madoff a propósito de Ricardo Salgado.


Hoje fui à procura de mais. E encontrei. Nada de novo: todos os ricos que fazem fortuna em cima de aplicações financeiras são ricos da mesma maneira. Mas, tal como a felicidade, é na forma como acaba que a riqueza faz a diferença. 

Madoff caíu e arrastou consigo as economias de muita gente que, de um dia para o outro, se viu pobre, sem nada, sem nada a que se agarrar. Mas caíu - como sempre acabam por cair os vigaristas.

Uns caem rapidamente e com estrépito, outros vão caindo devagar, ou nem isso, até que a gente se esqueça deles.

Madoff foi preso, julgado, preso. Tudo muito rapidamente.

Em Portugal há uma reverência que parece inibir as mãos da justiça. Tudo se vai sabendo e não acontece nada. 

Até que não dá mais para assobiar para o lado e, então, começam os processos, devagarinho, em segredo de justiça, e recursos e recursos sobre recursos, até que a coisa prescreve ou, se não prescreve, vai andando até que começam a aparecer os problemas de saúde, o bom comportamento, atenuantes de toda a ordem.

Madoff era respeitado pela sociedade. Quando em particular, era meigo. Proporcionava à família o melhor. Madoff levava uma vida de rico (casas, barcos, colecção de relógios, de sapatos, do que lhe passava pela cabeça). Era uma família feliz.

A firma de Madoff, uma das mais importantes firmas de investimentos financeiros de Wall Street, funcionava no Lipstick Building um dos edifícios de referência.

Madoff era um filantropo. Abnegado. Um exemplo.

Tinha dois filhos. Agora tem um.

Tinha uma nora, bonita, alegre: Stephanie. Agora, revoltada e triste, ela diz sentir aversão por essa pessoa que destruíu a vida de tanta gente incluindo a do próprio filho.

A entrevista de Stephanie - na qual fala do sogro, do casamento com Mark, da forma como Madoff reagiu quando percebeu que tinha perdido a mão no esquema que tão ardilosamente tinha engendrado - merece ser vista e ouvida.

Toda a história de Madoff podia dar um filme. Mas, infelizmente para as vítimas, foi mesmo verdade.


Não sendo permitido incluir aqui os próprios vídeos, deixo-vos alguns links através dos quais lá podereis aceder.

Stephanie Madoff fala do suicídio do marido



__

Relembro: até como acto de higiene, desçam, meus Caros Leitores, até junto de três pessoas que muito amam ou amaram as palavras.

_

sexta-feira, julho 11, 2014

O BES e o Expresso. O BES e a Política. O BES e o BdP. O BES e a solidez da Banca Portuguesa. O BES e a Troika. O BES e a pouca sorte dos portugueses. E Ricardo salgado e Bernie Madoff.


No post abaixo já levei os Leitores de Um Jeito Manso até Saint-Tropez onde poderão refrescar-se mergulhando nas águas tépidas e azuis do mar enquanto podem deitar o olho às seis mais requisitadas top-models da actualidade, de entre as quais se conta a portuguesíssima Sara Sampaio. Belas e desnudadas, elas estão ali melhor do que eu, que estou aqui cheia de calor enquanto elas estão ali à fresquinha.


Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é ainda sobre o BES. E quem diz BES diz GES, Grupo Espírito Santo.

E quem diz Grupo Espírito Santo diz a família Espírito Santo, diz Ricardo Salgado, o ex-todo-poderoso Ricardo Salgado.



Antes de eu dizer o que quer que seja, peço-vos que vejam o vídeo abaixo, que vejam a tranquilidade de um homem que escondia o dinheiro em offshores, que fugiu pessoalmente ao fisco no valor de milhões (enquanto a grande maioria da população do seu país vive com dificuldade, uns sem emprego, muitos com pensões e salários cortados, quase todos esmagados sob o peso dos impostos, muita gente com ordenados penhorados, muitos sem casa), que pelos vistos recebia presentes no valor de vários milhões (e pergunto eu: uma pessoa de negócios receber presentes de 14 milhões não é corrupção?!?!? E da grossa?!?!?), em cujas sociedades se camuflavam contas, fugiam ao controlo dos auditores, enganavam reguladores, accionistas, colaboradores, investidores e depositantes - e que, no entanto, se apresenta como um vencedor, um impoluto gestor, alguém que sabe mais do que qualquer outra pessoa à superfície da Terra.

Vejam como, tranquilamente, com aquela pose de banqueiro sólido, afirma que o Banco resistiu à crise, que foi o banco que melhor aguentou o embate da crise. Visto agora - agora que assistimos ao desmoronar de um império que estava assente em cima de dívida, de imparidades, de incobráveis, de créditos concedidos sabe-se lá a quem, de dinheiro que rolava sem que se soubesse bem por onde, para quem - é sinistro. A hipocrisia, a impunidade, o sentimento de superioridade, de que vale tudo, de que o dinheiro compra tudo, é o que justifica tudo o que está a acontecer.


(No título do vídeo fala em Laurinda Alves mas não: como seria de esperar é Maria João Avillez. Who else?)





Quantas pessoas já estão hoje mais pobres porque acreditaram na solidez do nome Espírito Santo e compraram títulos, fundos, acções?

Quanto do aumento de juros da dívida pública resulta da desconfiança que os investidores têm no que se passa em Portugal em que uma coisa destas acontece nas barbas da Troika, do FMI, do Banco de Portugal? E com razão: que raio de testes de stress, que análises pagas a peso de ouro é que tantos especialistas da troika e do FMI andaram a fazer que não deram por nada?

E quem mais, senão nós, os contribuintes, vai pagar estes juros acrescidos?

O facto é que o Grupo Espírito Santo desmorona-se de dia para dia, o BES desvaloriza-se de dia para dia, as empresas caminham a passos largos para a insolvência - e vamos ver onde é que isto vai parar.


Carlos Costa, a sumidade, a esperteza que tinha obrigado a sair os elementos da família para lá meter gente da confiança dos mercados (Vítor Bento, Moreira Rato), que diz agora com a negociação de acções em bolsa suspensas, tamanha a hecatombe? E de que vai servir ao BES, perante este desmoronamento, ter à frente do Conselho de Administração um homem que sabe mais dos segredos do País do que toda a Secreta junta? 


Trafulhices, conluios, esquemas e papagaios - são os ingredientes desta história.

Maria João Avillez, José Gomes Ferreira e tantos outros não têm feito outra coisa senão estender a passadeira vermelha a todos os senhores da nação que até aqui têm achado que, se querem, então podem e mandam. Ao louvarem, ao tecerem loas, ao mostrarem servil reverência perante pessoas como Ricardo Salgado, estes jornalistas mais não têm feito do que legitimar, perante a opinião pública, toda a política criminosa que tem vindo a esbulhar muitos para que uns quantos possam viver como nababos.

Neste processo, honra seja concedida a Nicolau Santos que, no Expresso, desde há tempo, vem alertando para as fragilidades e comportamentos desviantes do BES, e para Pedro Santos Guerreiro que, como um cão de fila, tem avançado na peugada das pistas que indiciavam fraude e falência, desvendando, um a um, (quase) todos os podres.


Tirando estas e talvez mais algumas (poucas) excepções, ao longo de três anos ouvimos que vivíamos acima das nossas possibilidades, que éramos piegas, pouco produtivos, que tínhamos que empobrecer, que o País não podia suportar escolas no interior nem postos médicos com médicos lá dentro. Durante anos a política tem sido a de espezinhar o ensino e a investigação, escorraçar os jovens, esvaziar o País, vendê-lo ao desbarato a chineses, angolanos, russos, brasileiros. Durante anos a política tem sido a de retirar direitos aos trabalhadores, tratá-los como ociosos. Durante anos a política tem sido desprezar os idosos, apresentando-os como um grupo de gente que suga a seiva dos novos.

E tudo abençoado por Ricardo Salgado, o senhor do Espírito Santo. Com Passos Coelho, o executor desta política, à frente do Governo e com uma criatura diminuída em Belém que nada faz em prol do bem dos portugueses e da honra de Portugal.


Ninguém sabe o que vai acontecer ao GES ou ao BES. Provavelmente vai ser tudo vendido e sabe-se lá a quem. Angolanos, venezuelanos, chineses, japoneses, quem calhar. Pelo caminho ficarão as vítimas, os danos colaterais do costume.

Numa altura em que se impunha um comunicado que tranquilizasse os detentores de acções ou títulos, nada se substancial e credível diz: o Grupo está paralisado, ninguém se pronuncia (com excepção para Ricciardi que já ninguém leva muito a sério) e, do lado do Banco de Portugal, o que nos chega é também um estranho silêncio. Carlos Costa, a sumidade, para além de surdo e cego agora parece que também emudeceu.


Ao ouvir, naquele vídeo, o Ricardo Salgado, fez-me lembrar o Madoff, na altura em que era todo-poderoso, um caso de sucesso. Reparem, no vídeo aqui abaixo, como falava com descontração e segurança de como eram as operações, como diz com ar sincero que era tudo tão regulado que ninguém jamais poderia cometer alguma coisa vagamente fraudulenta já que seria inevitavelmente pelo apanhado pelo regulador. Dava aulas de boa gestão, explicava como se ganhava dinheiro, fazia humor. Descarado, vaidoso, achando-se imune.

Ao seu lado um dos filhos. Aparentemente os filhos não sabiam de nada. Ninguém sabia de nada. Era uma das empresas mais importantes de Wall Street - e, no entanto, era uma fraude monumental, um vulgar esquema da pirâmide, uma D. Branca. E ninguém sabia de nada.

Enquanto Madoff ria, cavava-se a ruína de muitas pessoas que acreditaram nele e lhe entregaram a gestão das suas economias. Enquanto, poderoso, se sentia acima da moral comum, o mundo começava a ruir tal como o conhecíamos.

Tantas as mentiras, tantos os esquemas, tanta prepotência, tanto rei na barriga - e sempre tantos sabujos e atrasados mentais prontos a servir os senhores do dinheiro, prontos a papaguearem aldrabices, conveniências.

Madoff acabou preso, um dos filhos suicidou-se, não sei se aquele que ali ouvia as gabarolices do pai. Não sei como vai acabar Ricardo Salgado. Provavelmente vai viver para o Brasil e viverá rico e de consciência tranquila.

Mas, nada do que aconteça a Madoff, Ricardo Salgado, Oliveira Costa ou João Rendeiro anula a ruína que causaram em tantas famílias.




__


Recordo: se descerem até ao post seguinte, sairão do fogo do inferno financeiro para mergulhar nas belas águas em que se banham as seis mais belas e sexy top models da actualidade, entre as quais a nossa Sara Sampaio. O dress code é: de preferência nada em cima.

___


Daqui a nada tenho que estar a pé que esta sexta feira a alvorada é com os galos ou antes de isso. Rumo a norte e vai ser jornada longa. 

Portanto, por hoje, fico-me por aqui e, uma vez mais, já não consigo reler o que escrevi. Como estou a escrever a grande velocidade porque já é mais tarde do que eu queria, antecipo letras trocadas, vírgulas fora do sítio e toda a espécie de barafunda. As minhas desculpas.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta feira!


quarta-feira, setembro 14, 2011

'Andar no fio da navalha', 'O ruir dos nossos sonhos', 'Da queda da Grécia ao sobressalto na Europa', ou antes 'Como é que chegámos aqui?!' - valham-nos os homens bons como o Dr. Silva Lopes que 'empacotava o Alberto João que nem ginjas' (*)


Meus Caros Amigos, as coisas estão de novo muito incertas. Com as ilhas vendidas ao desbarato e a sofrer a agiotagem de juros a mais de 60%, a Grécia (que estudámos como o berço do conhecimento e da democracia, lembram-se?) está a sofrer a humilhação que sofrem os desapossados, os desacreditados.

Mas, ruindo a Grécia, a Europa afundar-se-á ainda mais um pouco.

Os urubus aí andam, a sobrevoar os nossos tectos, a rondar os nossos antigos sonhos.

Pensávamos que estávamos a construir um futuro, pensávamos nos anos dourados da nossa reforma, pensávamos num futuro risonho para os nossos jovens, idealizávamos um admirável, tecnológico e descansado futuro para os que agora são ainda crianças.

Tínhamos qualidade de vida e achávamos isso natural dado que trabalhamos, dado que investimos antes na vida que temos agora.

Mas um dia começámos a ouvir que lá bem longe havia uma crise, a dos subprimes, depois ouvimos falar numas tais Fanny Mae e Freddie Mac, nomes engraçados, era tão longe de nós, depois veio a surpresa do escândalo do Maddoff e a queda do Lehman Brothers e o mundo começou a estremecer. A grande AIG e grandes bancos, até em Londres, e a coisa já estava aqui.




Escândalos domésticos de má gestão e usura começaram a rebentar por cá e os anteriores casos exemplares de boa gestão como Rendeiro e afins e toda a trupe do BPN, deram à costa. E, de repente, tudo estremecia e nós começámos a temer que a nossa vida anterior tivesse, afinal, sido apenas um sonho.




O BCP, caso de estudo, um banco que soube diferenciar-se e, assim, crescer, viu-se envolvido em guerras pouco cristãs, ódios fraticidas, formaram-se facções, a banca, ah a generosa banca que tanto ajudou à festa, emprestou dinheiro à tripa forra para o que fosse preciso, para tomar partido contra accionistas mal amados, para crescerem sem que, de outra maneira, tivessem como, e a banca foi emprestando dinheiro tendo como garantia as própria acções, e a banca emprestou também para que as pessoas comprassem casas que jamais poderiam pagar, para que as pessoas fossem de férias à Turquia, à República Dominicana, emprestou dinheiro para que as empresas investissem não tendo os accionistas que meter lá nem uma pinga do seu sangue... e assim fomos, até que um dia, de repente, tudo isso era, afinal, mal feito.

Um dia o dinheiro rarefez-se e as acções desvalorizaram-se e os grandes empréstimos ficaram a descoberto, um dia a banca fez as contas e viu que já não tinha dinheiro para continuar a emprestar e que toamara que ninguém se lembrasse de levantar os depósitos (porque o dinheiro tinha ido para Joe Berardo derrotar O Dr. Jardi, para o Nuno Vasconcellos da Ongoing se tornasse accionist ade referência na Zon, e por aí fora, por aí fora (porque, afinal, vemos agora, ricos não os há, o que há são grandes endividados que vivem como ricos).


Joe Berardo no seu Budha Eden Garden

E, no Estado, um dia viu-se que já não tinha dinheiro para pagar as reformas, as baixas, os subsídos de férias e que só tinha dinheiro para trocos, nem quase já para ordenados.

E assim fomos até que um dia acordámos e estávamos de joelhos.

Um dia acordámos e a Irlanda também já assim estava, a Grécia era a paródia do mundo.



E este é o tempo que vivemos.

Os nossos governantes são abúlicos, dizem uma coisa aqui, outra quando estão pela mão da madame Merkel, dizem uma coisa entre nós, dizem o contrário quando se apanham longe de nós, dizem que estão a esforçar-se e só os vemos a irem-nos ao bolso sem dó nem piedade.

E hoje a troika diz que não chega, que nos últimos meses já se desviaram mil milhões (mas onde, Mr. Gaspar, onde?!, como é possível tamanho desvio em tão poco tempo?), que novos sacrifícios são precisos. E Vitor Gaspar, obediente, assegura à troika, 'ok, there will be blood' e já pensa quais as próximas vítimas que irá sacrificar


O dito Gaspar: já têm que o levar quase pela mão que ele, pelo ar, já não dá lá muito bem com o caminho

Mas o que é aquilo que ele tem ali pendurado nas calças, bem na frente...?
(estou aqui a ver se percebo e não consigo)

Ao que chegámos, ao que chegámos... Que descontrolo, que aflição!

Entretanto, na Madeira, o Alberto João, depois de resolver fazer oposição aos cubanos e de, com essa desfaçatez, ter provocado mais um rombo nas contas públicas, prepara-se airosamente para ser reeleito.

Tudo isto é patético, tanto mais que assistimos mansamente (ah como eu às vezes odeio o meu jeito manso), a esta pouca vergonha.

No outro dia, o Comissãrio Europeu para a Energia, o alemão Gunther Oettinger, saíu-se com uma ideia peregrina: a de que as bandeiras dos países faltosos fossem postas a meia haste. Nem mais.



Até me admiro que não tivesse também proposto que os governantes desses relapsos países comparecessem nas reuniões com orelhas de burro. E eu não sei se me ria, se já não ligue nada a tanta parvoíce. Teria graça ver o Passos Coelho, submisso, de orelhas de burro, a lamber os pés à Angela - mão não, não quero ver isso. É que ele é português e eu sou muito portuguesa, não quero ver os portugueses a serem humilhados.


Mas, se quase só vejo parvoíce á minha volta, há pessoas cujas opiniões venero. Não há muitas, mas há algumas. Às vezes até posso não concordar com algumas coisas mas são sempre opiniões inteligentes, sérias, sóbrias, ditas por genuína vontade de contribuir, nada de vão exibicionismo. Uma dessas pessoas que eu ouço e vejo com respeito, admiração, carinho mesmo, é o Dr. Silva Lopes.

Um homem bom


Ele fala, com aquele sorriso de homem bom, com aquelas suas belas mãos de homem sábio, e eu quero que à minha volta toda a gente se cale para eu o poder ouvir atentamente.

Hoje ele falou. E disse que achava que se deveria fazer uma lei que impedisse os governantes que fossem infractores fiscais de voltar a candidatar-se durante uns quantos anos, 10 sugeriu ele. E exemplificou: 'com uma lei destas o Alberto João Jardim há muito que tinha deixado de poder fazer o que tem andado a fazer, nomeadamente a fazer oposição política com o dinheiro dos nossos impostos.'

Grande ideia. E tão simples. Como sabe bem ouvir a voz de gente séria, sábia, generosa, culta à moda antiga.


(*) O Crédito a quem de direito - aprendi a expressão 'empacotar que nem ginjas' com a fiel depositária do mais conhecido Fio de Prumo deste País que a usou num divertido comentário que aqui me deixou, e, por tal, daqui lhe envio os meus agradecimentos.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Mark Madoff ou o insuportável infortúnio de arcar com as consequências de uma monumental fraude

Conheci uma pessoa que sempre achei de escrupulosidade duvidosa. Tudo o que se dispunha a fazer era sempre a troco de um plus qualquer. A primeira reacção, sempre que era instada a fazer qualquer coisa para além da mera rotina, era, ‘E o que é que eu ganho com isso?’. Sendo uma pessoa com responsabilidades na organização em que se inseria, o exemplo que dava era nefasto.

Uma vez, no meio de acesa discussão, perguntei-lhe para que queria mais dinheiro, uma vez que tendo dois empregos, muito bem remunerado pelo menos num deles (e no outro creio que também) dificilmente tinha como escoar o chorudo income mensal. Com o seu típico esgar (que eu classificava de mercenário), respondeu-me que ‘nunca é de mais’.

O caso Madoff estava recente e eu referi-o, pensando catequizá-lo com um evidente exemplo de crime-castigo: ‘Veja o Madoff: de que lhe valeu tanta esperteza, tanta ardilice, tanto dinheiro ganho, para agora passar pela vergonha planetária de ser conhecido como um trafulha e estar atrás das grades?’.

Mas não o demovi, gente assim não se demove: ‘Mas enquanto esteve cá fora viveu à grande, e, entretanto, já deve ter acautelado o futuro da família e o dele, quando vier cá para fora.”

Vem isto a propósito desta notícia: hoje, exactamente no dia em que passam 2 anos da prisão do pai, Mark Madoff, 46 anos, um dos dois filhos de Madoff, apareceu morto, provável suicídio. Alvo também de processos que tentavam provar o seu envolvimento na fraude, a ser instado a indemnizar as vítimas em milhões e milhões, Mark vinha desde há algum tempo dando mostras de não aguentar a pressão, emocionalmente estava a ir-se abaixo – o que é mais do que compreensível.


Não sei de que fibra é feito Madoff. Mas se, apesar de tudo o que fez, for uma pessoa normal, deve estar a questionar-se sobre o raio de inferno em que transformou a sua vida, ludibriando meio mundo, espoliando das suas economias reformados de todo o mundo, levando à ruína famílias e empresas, para afinal acabar preso (foi condenado a 150 anos de prisão), para um filho de suicidar aparentemente não resistindo à pressão infernal dos acontecimentos. Talvez tente perceber qual foi o momento em que a ganância, o despudor, a falta de escrúpulos, tomaram conta da sua vida, conduzindo-o não aos píncaros da fortuna como desejava mas, sim, aos labirintos escuros e sem fim de um fosso onde não há honra, nem orgulho, nem amor.