Quando vou ao google no telemóvel, aparece-me uma série de notícias. Não sei qual o critério de selecção e temo que o facto de eu carregar em algumas para as ler leve a inteligência artificial que rege o funcionamento de tudo isto a pensar que é disto que gosto.
E, no entanto, não é bem gostar, é mais cusquice. Por exemplo, apareceu-me que a Lili Caneças explicou a sua ausência de um qualquer programa pois sujeitou-se a uma cirurgia estética ao pescoço, intervenção essa mais complexa do que esperava pois obrigou a uma recuperação de um mês. Já fez várias e diz que, quando reaparecer, as pessoas verão o produto da transformação. E eu interrogo-me: o que leva uma mulher à beira de fazer 80 anos a sujeitar-se a processos destes, não isentos de riscos, certamente com dor e incómodo associados? Para quê? Para não parecer ter a idade que tem? Mas porquê? Não é bom ter quase 80 anos?
Também a Cinha Jardim, de vez em quando, é intervencionada. E o resultado está à vista: a pele está esticada, a boca perdeu a lógica e quase apenas a reconhecemos pelo cabelo e pela voz. Ela deve achar que está melhor. Eu acho que está estranha, artificializada.
Falei de dois casos mas é frequente ouvirmos as pessoas, em especial as que andam pela televisão, a dizerem que já se sujeitaram a liftings, a injecção do próprio sangue, a esfoliações e tratamentos locais com vitaminas, que o botox é normal e recorrente e outras coisas que tais.
Há casos dramáticos em que as pessoas ficam disformes, patéticas. Para não falar de outros casos da nossa televisão, posso referir a Madonna. Uma coisa é ter o corpo ginasticado pois os seus espectáculos vivem muito da performance física mas o que ela tem feito ao rosto é quase inexplicável: para contrariar a força da gravidade, ela sobe e insufla as maçãs do rosto. Mas tantas vezes o deve fazer que os olhos já subjazem ao fundo de uns promontórios desprovidos de sentido. Depois insufla os lábios e, para retirar vestígios do código de barras, preenche-se com botox para além da conta. O resultado a mim parece-me para além de duvidoso mas, como isto é muito subjectivo, tenho que admitir que, se ela o faz, é porque gosta de se ver e que posso ser eu que não estou a captar a essência dos novos conceitos de beleza.
Tenho lido que eliminar os vestígios da idade acaba, com alguma frequência, por tornar-se viciante e, às tantas, é isso que acontece, acabando por ficarem apagado tudo o que era distintivo da fisionomia inicial.
E isto, note-se, nem tem a ver apenas com mulheres pois parece que é prática igualmente comum entre homens.
A mim nunca me deu vontade de fazer nada. Não é apenas o medo de que a recuperação seja longa e dolorosa ou o medo de que, ao ver-me, me assustasse: é também a sensação de que eu, eu, de verdade, poderia desaparecer tornando-me uma desconhecida para mim própria.
Quando me vejo ao espelho e verifico como a erosão vai fazendo os seus estragos não me ocorre que poderia corrigi-los, ocorre-me, isso sim, que o melhor é não me deter muito espelho e, sobretudo, não me ver nem de perto nem com excesso de luz.
Os dois vídeos abaixo mostram duas mulheres muito belas.
A Juliette Binoche 'ainda' vai pelos 59 e o vídeo que aqui partilho já tem 9 anos. Ou seja, tinha 50. Mas a idade já era tema.
Já a Carole Bouquet tem 66 e no vídeo teria uns 64. Do que aqui ouço, tem uma abordagem semelhante à minha: olhar de longe ou sem óculos ou só de vez em quando.
Somos o que somos, como somos. E tomara que, por dentro, tudo esteja tão bem e tão funcional como está por fora. E não me refiro à alma: refiro-me, mesmo, às vísceras e a toda a traquitana que temos dentro de nós. E quem não gosta que não coma (salvo seja, claro).
A ginástica na piscina é, para mim, um dos pontos altos dos meus dias, ultimamente tão cheios de 'baixos'.
Já quando andei a fazer hidroterapia depois da artroscopia aos joelhos eu tinha adorado. Tinha que conduzir um bom bocado à hora de almoço, agravado pelo facto de ter que usar uma das vias, à época, mais congestionadas e acidentadas do país, a Segunda Circular. Aconteceu-me falhar a sessão por ficar presa no engarrafamento. Praticamente não almoçava mas, ainda assim, fazia todos os esforços para chegar uns minutos antes da hora para poder ter a piscina só para mim e nadar um bocado. Era uma pequena piscina, sempre com pé, mas era um prazer. Espantava-me ao ouvir, no balneário, algumas parceiras a contar as sessões que faltavam para 'se verem livres' daquilo. E eu só queria era que não acabassem. O único senão é que não podia atrasar-me pois dali voltava directamente para o trabalho, geralmente comendo qualquer coisa enquanto conduzia. Sempre à pressa de um lado para o outro.
Depois disso voltei a fazer hidroginástica mas era perto de casa, à noite. E era um stress pois nunca consegui ter horas para sair, havia sempre alguém que me aparecia no gabinete quando eu estava para dar de frosques, depois era o trânsito, um trânsito sempre ensarilhado. Só para sair do parque onde se situava o edifício onde trabalhava era um pesadelo. Um nervoso desgraçado, sempre com receio de chegar muito depois da hora. Não dá para entrar numa piscina a meio de uma sessão.
Agora é diferente. Chego a horas, não tenho pressa para sair e, maravilha das maravilhas, é uma piscina funda com dois metros e tal de altura de água e, portanto, toda a sessão decorre sem pé, sempre em suspensão. De vez em quando aquilo cansa a valer. Tenho que fazer um esforço para respirar fundo para oxigenar o organismo pois, quando em esforço, a tendência é fazer respirações curtas.
Quando acaba, o professor diz que podemos relaxar à vontade. Geralmente, aproveito para nadar. Gosto mesmo. Ainda por cima a água é morninha. Um prazer.
Há agora muita gente, muito mais do que antes das férias. Não sei se irão desistindo ao longo do ano ou se este ano as pessoas acordaram para o bom que é fazer exercícios dentro de água. A maioria frequenta a hidroginástica tradicional, com pé. Na classe da ginástica em suspensão somos poucos.
Dali vamos para o balneário.
Antes das férias de verão, como não éramos muitas no balneário feminino, eu ficava sempre no mesmo canto. Agora, como é muita gente, quando chego, por vezes o 'meu' canto está ocupado e tenho que ir para onde há uma aberta. Hoje calhou ficar ao pé de uma senhora obesa. Íssima. Na maior das descontracções, toda nua, conversando, rindo, dizendo piadas. Antes, teve uma outra que ajudá-la a despir-se. Estava sentada, a rir e a galhofar, e outra a despi-la. Não estão na minha classe pelo que não imagino se consegue fazer os exercícios como deve ser. Sei é que voltei a vê-la, depois das aulas, nos chuveiros. Eu, pudica, de fato-de-banho, só a passar-me por água, ela, na risota, toda nua. Lava-se com gel de banho e faz uma ginástica dos diabos para chegar ao rabo. Mas enquanto se contorce, continua a falar e a rir.
Despachei-me o mais à pressa possível com medo que ainda me pedisse para eu a vestir. Com uma descontração como nunca vi, parece que nada a atrapalha ou de nada se intimida. Felizmente chegou a que a tinha ajudado a despir.
Em situações assim constato como as pessoas são diferentes umas das outras.
Hoje também fiquei surpreendida com uma coisa. Uma senhora que deve ter uns quantos anos a mais que eu, também nua nos chuveiros, tinha a pele tisnada das férias. E vi que usa apenas uma tanga minúscula pois tem a respectiva ínfima marquinha branca que se destaca no corpo ainda bronzeado. Também fiquei admirada.
Poderia fazer-se uma reportagem sobre as vidas das mulheres que frequentam uma coisa assim.
Claro que os homens também devem ter as suas idiossincrasias mas dentro da piscina não dá para conversar e nos balneários, como é bom de ver, não há 'misturas'. Por isso, só posso falar pelo que observo no balneário feminino.
Com lágrimas nos olhos e a voz embargada, Juliette Binoche refere o testemunho de alguém que não perdeu a vida mas perdeu parte do que a mantinha vivo, as palavras vazias, esmagadas pela dor de uma ucraniana que perdeu a família.
“Ouvi-os, a todos, a morrerem. Micha respirava pesadamente como se tentasse livrar-se do fogão, mas não conseguia. A dada altura, deixei de ouvi-lo”. E, então, ouvi Pauline a chorar. Morreu também. A minha mãe disse-me que o meu filho me chamou várias vezes, depois ficou calado. Para sempre. Tinha 14 anos."
Juliette Binoche : son hommage à l'Ukraine - César 2023
“É um triângulo impossível e todos se sentem magoados”, diz ela. “Algumas pessoas conseguem. Eu não. Foi uma situação destrutiva. É preciso coragem. Percebi perfeitamente o dano que isso pode causar. Para cada um de nós, foi doloroso. No entanto, não se consegue parar. É o que é. É como se tivéssemos que estar na frente de um dragão e tivéssemos que enfrentá-lo, sabe?”
Porque é que não conseguia escolher entre os dois homens da sua vida?
“Nós amamos de maneiras diferentes, acho que se pode dizer”, responde. “É como perseguir uma necessidade dentro de nós. Quando estamos no meio de uma situação destas, não percebemos porque é que acontece”
Penso no conselho que foi dado a Binoche aos 14 anos por uma amigo artista da sua mãe, quando ela não conseguia decidir entre atuar ou pintar. “Juliette: escolhe fazer tudo!”
Mesmo enquanto Sara está a planear encontros com François, ela convence Jean de que não há nada em andamento, que ela e ele foram feitos um para o outro. Porquê submeter os dois a essa tortura? "Tem que ser", diz Binoche decisivamente. “Ela está perante uma necessidade em si mesma, um apelo sexual, como uma onda de calor, talvez de amor. Tem que ser vivido. Ela tem que perceber o que é. Se ela não fizer isso, ela estaria a colocar-se entre parênteses, ou... no frigorífico! É o que a torna humana e verdadeira.”
“Permitir-se passar por isso é incrível porque muitos de nós diriam: ‘Não, é muito destrutivo’ ou ‘vou perder o que já tenho’. Tornam-se conservadores antes mesmo de começar. Mas quando uma onda tão grande está a chegar, é difícil não dizer sim, eu acho. Ela pede para ter essa liberdade de ser ela mesma, sem saber qual será o resultado. Isso é tão corajoso. E terrível! Eu sei o quão doloroso e perigoso pode ser.”
Porque há Leitores que me acompanham há muito tempo não vou entrar em pormenores ao voltar a recordar os épicos tempos em que vivi uma situação de intenso triângulo amoroso. Durou três, quatro meses, não mais, mas foi o que Juliette tão bem descreve: amor, medo, noites sem dormir.
E é tanto mais difícil quanto se decide expor a situação aos envolvidos. Pretendia ser franca, pensava eu, mas no fundo talvez esperasse que ambos aceitassem a situação. Melhor: nem sei bem o que esperava quando contei ao mais recente que eu já namorava, namoro firme, intenções de casamento já em andamento e quando contei ao legítimo namorado que achava que tinha conhecido o homem da minha vida. Não sei o que esperava quando me despedia de um dizendo que ia passar o fim de semana com o outro ou quando, ao domingo, me despedia deste dizendo que me ia encontrar com o outro no dia seguinte.
Claro que, se o 'intruso' começou por aceitar bem a situação, pois ele é que estava a entrar em terreno ocupado, já o outro aceitou pessimamente desde o início. E digo que aceitaram pois não podiam impedir-me e, portanto, deram por eles a viver essa situação. E claro que o 'intruso' ao fim de algum tempo também já não aceitava bem que eu me despedisse dele para me ir encontrar com o outro. Uma situação que se complicava de dia para dia.
E claro que, por fim, por defesa pessoal e também deles, eu já não podia ser completamente sincera. E não ser sincera dava cabo de mim. E claro que, por fim, já andava era sempre com medo que se cruzassem e que a coisa desse para o torto. Aliás, uma vez quase deu.
Não é fácil. Mas é o que Juliette Binoche diz: quando acontece parece que não há volta a dar, a tentação fala mais forte.
Até que um dia, inevitavelmente, há que tomar uma decisão, fazer uma escolha.
No entanto, tenho para mim que a escolha só tem que acontecer porque os homens são muito territoriais. Se fossem menos picuinhas, talvez a convivência fosse pacífica. Para quê tanto drama?
Já agora, e porque Juliette Binoche também pinta e são suas as pinturas que aparecem no filme Words and Pictures também referido no artigo acima citado, aqui fica o trailer desse filme em que contracena com um dos meus xodós, Clive Owen.
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E é verdade, Lucy, Juliette Binoche é uma das mulheres que aos 58 anos continua belíssima e sem problemas em mostrar a idade que tem. Belíssima, sedutora, fantástica actriz.
Segunda-feira nunca é um bom dia. É daqueles axiomas que é bom que ninguém ouse questionar. Segunda-feira é o início do que pode vir a ser uma sucessão de dias carregados de chatices. Numa segunda-feira as tréguas do fim de semana ainda estão longínquas.
[Os Leitores reformados, ao lerem isto, esfregam as mãos de contentes: para eles todos os dias são fim de semana. Bem sei. São uns sortudos. Mas lá chegaremos, nós os pobres coitados que por aqui ainda andamos a trabucar.]
Enquanto não, tenta levar-se o melhor possível embora haja quem não se aguente sem moer a paciência aos outros. Para mim o pior é quando olho para a agenda e penso que tenho ali um buraquinho que virá mesmo a calhar para repousar a minha beleza e, acto contínuo, logo recebo uma chamada a pedir que arranje um bocadinho para uma reunião urgente. E uma pessoa tenta que não mas, às tantas, não tem como não e lá se vai o buraquinho à vida.
[A língua portuguesa é traiçoeira, também sei]
Agora tenho aqui uma coisa a chamar por mim. Ainda antes de ir para a cama terei que ver e despachar esse assunto. Não me apetece nem um pouco pois estive a trabalhar até há pouco, estou mais do que saturada. Mas, quando o dever me chama, parece que não consigo entregar-me ao desfrute da escrita mesmo se de uma colecção de frioleiras postas em palavras se tratar. Podia saltar por cima disto, do blog. Pois podia. Mas, enfim, ficar sem escrever também não consigo. Addicted to writing.
E, então, pensei escrever sobre uma coisa que li na Vogue francesa: as cenas mais eróticas do cinema. Fui conferir, curiosa. Como é costume nestas coisas, parece que quem escolhe os melhores livros, os melhores filmes, as melhores cenas faz de propósito para deixar os outros a sentirem-se ignorantes. Dos oito filmes, apenas conheço três. E das cenas que consegui ver, talvez por descontextualizadas, não achei grandes espingardas. Além disso, agora acontece uma coisa que me encanita solenemente: ao seleccionar um vídeo que contenha alguma ceninha mais encaloradita, o Youcoiso pede que comprove que sou adulta. Não estou para isso, era o que me faltava. Portanto, como não estou para fornecer comprovativos, marimbo-me para as ditas cenas.
A beatice vai alastrando. Claro que há que acautelar que as coisas não sejam vistas por crianças. Mas, caneco, parece que preferia as salas de cinema em que a barragem era feita à porta. Agora aqui...? Não basta a publicidade em cima de tudo senão ainda isto...? Que seca, caraças.
Por isso, com tanto entrave e chachada, desisto das listas alheias. Acontece que, para listas próprias, tenho um problema do escambau: não as tenho anotadas, não as tenho de cabeça e, pior ainda, a cabeça não está formatada para fazê-las.
Posso aqui enunciar algumas cenas ou alguns filmes que tenho a certeza que amanhã me ocorrerão outros, provavelmente mil vezes melhores. E não estou certa de que o algoritmo que é mais lápis azul e beato que fedorentozinho de antanho me deixe abrir o vídeo para conferir. Vou tentar mas, acreditem, não garanto que seja muito para levar a sério. E são oito apenas porque não posso ficar aqui a noite toda a puxar pela cabeça ou a tentar encontrar vídeos que expliquem o critério.
. 1 .
Lady Chatterly, na versão de Pascale Ferran, com Marina Hands e Jean-Louis Coulloc'h um filme belo demais. Mas, mais do que caliente, é belo, belo demais. As cenas mais eróticas apenas são disponibilizadas a quem provar que é adulto. Portanto, vai o trailer.
. 2 .
Dangerous Liaisons de Stephen Frears com Glenn Close, John Malkoviche Michelle Pfeiffer, um filme sensual da cabeça aos pés, passando pela insolente língua de Malkovich (e isto já para não falar do olhar, da voz, das mãos, do andar dele, o descaradão e perverso do Visconde de Valmont)
. 3 .
The Horse Whisperer de Robert Redford com ele e com Meryl Streep, envolvente demais
. 4 .
Damage de Louis Malle com Juliete Binoche e Jeremy Irons. Tem a chatice de não acabar bem mas, antes de acabar, é bom até dizer chea, a começar e a acabar na voz do Jeremy Irons
. 5 .
The Unbearable Lightness of Being de Philip Kaufman com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, um filme para sempre, com cenas inesquecíveis (a Lena Olin ficará para sempre na minha memória com aquele seu chapéu)
. 6 .
Closer de Mike Nichols com Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen
[Larry : You like him coming in your face?; Anna : Yes! Larry : What does it taste like?; Anna : It tastes like you but sweeter!]
. 7 .
La vie d'Adèle de Abdellatif Kechiche com Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos
O azul definitivamente a cor mais quente
. 8 .
The French Lieutenant's Woman de Karel Reisz com Meryl Streep e Jeremy Irons.
Foi como tinha dito: o que receava aconteceu. Talvez amanhã se deslinde e se tracem caminhos. Tomara. Mas, para já, a nebulosa paira sobre as coisas. E adensam-se as denúncias. Por algum motivo parece que quem calou queixas e acusações durante anos, de repente, encontrou alguém que os ouça. Mas ouvir coisas destas é um peso, uma responsabilidade. Não se pode fazer de conta que não fomos alertados. Temos que ir atrás, averiguar, ir até às últimas consequências. E, face a isto, não sei o que vai seguir-se. Quando mostro não saber como chegar às provas, recebo a seguir mensagens ou mails com novas pistas.
E surgem outros factos: provas de deslealdade. Coisas feias. Surgem-me apenas com as palavras 'para conhecimento'. Por vezes, ainda mais laconicamente: Pc. E, abaixo ou em anexo, o comprovativo de que há pessoas que são cobras venenosas, hienas traiçoeiras. Olho e, uma vez mais, fico sem saber como digerir. Não é que me surpreenda. Nada. Fico é a pensar: e agora? o que faço com isto?
Enquanto escrevo, vejo a Paula Moura Pinheiro na Visita Guiada, na Serra da Estrela, com convidados que, fellizes, sorridentes, relatam a ventura da vida que ali se encontra, relatam aspectos relacionados com as espécies. O senhor, um biólogo, fala, com felicidade, das lagartixas da montanha ou das plantas que lá nascem, cor de rosa. Como o percebo... Penso muitas vezes que há boas profissões. Estas pessoas não sabem o que é a vida peregrina em lugares em que as lagartixas apenas dão pelo nome de répteis e as flores seriam fleures du mal se houvesse ponta de poesia nos enredos com que se cosem.
Ao fim do dia, a querer desligar, o tempo esfriava. Resolvi apanhar a caruma sobre a relva, regar, fotografar as flores. Fui duas vezes lá ao fundo, muito devagar, tentando não fazer barulho, na esperança de dar com a raposa. No domingo, falando sobre ela, perguntei como é que se faz para atrair uma raposa. O meu filho respondeu: 'Arranjas uma galinha'. Não arranjei mas não vou desistir.
Estou cada vez mais convencida que há por aqui um pica-pau. Ouço um toc-toc-toc vindo das árvores, um toc-toc-toc firme, repetido. Também terei que tentar descobrir quem faz aquela espécie de martelar localizado nas árvores. E descobri uma romã oca. A romãzeira está carregada de romãs mas uma está oca. Tenho que me encher de coragem e, quando aqui chego ao fim do dia já sem pingo de energia, ir buscar a máquina e passar as fotografias para o computador. Deveria ilustrar o que estou a dizer com a imagem. Não percebo bem como aconteceu aquilo mas só me ocorre que os pássaros tenham comido, grão a grão, tudo, deixando apenas a casca.
À hora de almoço passei a ferro os cortinados brancos que ontem tinha lavado e deixado de molho em água e lixívia. Um tecido vagamente alinhado, difícil de engomar. Bem lhes dei com vapor, bem os humedeci. Grandes, franzidos, metros e metros de tecido. A bainha é bonita, tem uma fiada em ponto ajour, aberto. No fim, para não se amarrotarem, coloquei-os abertos sobre os sofás. Pareciam dois grandes véus de noiva. Até me fez lembrar o lindíssimo véu de noiva da minha filha, comprido, branco, com o peso elegante da renda, muito bonito. Pensei que se calhar será a nossa princesinha mais linda, cada vez mais a ganhar jeito de pré-adolescente, que um dia o usará. Mas depois deixei esses pensamentos para lá pois, parecida comigo como é na maneira de ser, ainda vai achar que casar não é sinónimo de a gente se fantasiar e ainda se casa vestida de calcinha branca justa, túnica curta transparente e com rendinhas. Mas depois refinei no pensamento e pensei que se a vovó aqui ainda estiver cá para opinar, talvez a convença a ir como quiser mas a pedir o véu emprestado à tia. Amiga de arrojar como ela é, ficaria um espanto.
Agora à noite, antes de jantar, estive a pendurá-los. Acho que já contei: teve que ser varão novo. Por defeito trazia argolas e eu fiquei toda contente, um pack completo. Mas, afinal, eram poucas. Os cortinados são grandes e com muito franzido, não são daqueles que ficam ralos. Por isso, convenci o meu marido a, no regresso, voltar lá para trazer mais uma embalagem de argolas. Depois dele as ter posto no varão, subi eu para pendurar os cortinados. Ficaram bem bonitos. Aqui as janelas vão até mais acima do que as da outra casa e, além disso, o varão também está mais acima do que é costume. Mas as janelas, estas em concreto, não vão até ao chão. Vão quase mas não chegam. Ficam com um parapeito interior onde nos podemos sentar. Então os cortinados não chegam ao chão mas ficam ligeiramente abaixo da janela. Gosto de ver.
Também resolvemos um dilema que tínhamos e que a anterior proprietária me confessou que nunca tinha conseguido resolver. Ao fundo, ao canto, a cozinha tem uma reentrância. Lá dentro, a toda a volta, prateleiras. Uma despensa com tudo à mão de semear. Como há a cave para as arrumações, ali é mesmo só para os produtos de primeira necessidade. E tudo completamente à vista, nada encafuado. Só que eu não gostava de ver aquela reentrância. Tudo branquinho e depois aquela coisa ali, uma abertura para prateleiras à vista. Mas não sabia o que ali pôr. No outro dia, quando cá esteve, perguntei à senhora. Disse-me que tinha tentado um estore, uma porta dobrável, várias soluções ao longo do tempo mas que nada era prático. Tinha desistido. Lembrei-me de um varão branco extensível e de um cortinado branco, opaco. Fui aos chineses e ficou tudo resolvido. Mal se dá por ele, fica na continuidade. E é super prático, é só afastar. Ao todo devo ter gastado uns vinte euros. Abençoadas lojas dos chineses.
E assim vão correndo os meus dias. Em breve vou voltar ao regime presencial, pelo menos em parte (isto se, entretanto, os números não vierem a aconselhar maior prudência). Também quero ver se me habituo a vir para aqui mais cedo para ver se vou mais cedo para a cama e para ver se arranjo energia para responder aos comentários. Sinto-me sempre em dívida. Tenho que ajustar os meus hábitos para conseguir chegar ao fim do dia com capacidade para falar com quem aqui deixa a sua opinião. Não levem a mal. E saibam que vos agradeço.
Mas o absurdo é que, antes de começar a escrever, tinha escolhido os dois vídeos abaixo e a minha ideia era escrever sobre mulheres que se chegam à frente, que dizem o que querem, que não se deixam ficar, que não se cortam, que ousam, que sabem divertir-se. Depois, sei lá como, distraí-me. Mas não faz mal, os vídeos ficam aqui na mesma. Acho-os um espanto. Espero que gostem.
Para que o único dia de férias parecesse uma big semana de férias foi encostado ao fim de semana e foi aproveitado até à medula.
Pelo meio aconteceu um contratempo mas bola para a frente, coração ao largo, e o mantra de que tudo se resolve e há coisas piores sempre presente. Não era um detail que ia manchar os tão desejados dias felizes.
Hoje o dia já foi de regresso. Se conseguir ainda mostro o sítio tão lindo que hoje conheci. Uma livraria como nunca vi igual.
Mas, para já, abro um intervalo para ir directa aos finalmentes. A cena é que, turismo degustado com o espanto de quem vê maravilhas naturais pela primeirissimamente vez, eis-nos de regresso a casa. Mas antes das máquinas de roupa, da panela de sopa, do estufado, das arrumações e demais obrigações domésticas e quotidianas, vamos mas é curtir as vacances até à última gota. Bora ao cinema.
E lá fomos: uma sala com meia dúzia de pessoas, ausência de pipocas, um filme sem perseguições, sem monstros, sem tiros, sem brigas, sem sangue. Um filme civilizado, bem representado, actual, simpático, divertido. E com a Binoche, luminosa como toujours. Livros em papel ou e-books, o mundo da edição num mundo digital, e escreve-se mais e melhor apesar de ninguém tem paciência para ler?, algoritmos a condicionar o gosto dos leitores, escrita autobiográfica ou autoficcionada, verdades ou meia verdades, hipocrisia ou savoir faire, inteligência conjugal e social e etc. E isto em casas bem decoradas, ambientes simpáticos. E amores não tão clandestinos quanto isso. E falado em francês que, a seguir ao italiano, é a língua em que melhor se diz e faz o amour.
Ou seja, um filme bom de ver com umas fantásticas cenas e música finais, à laia de cerise sur le gateau.Pâtisserie e da fina.
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Depois viemos para a casa e foi non stop até há pouco. Vou agora ver as fotografias para tentar organizar-me para vos mostrar pelo menos dois sítios que acho que merecem uma visita.
Ia dizer que há um mundo que desconheço. Iria referir-me ao Facebook, ao Instagram. Ou ao Tinder. Ou a redes sociais desse tipo. Mas tenho o blog, ainda por cima sem me identificar, e, por isso, se calhar, não posso dizer que desconheço.
Mas o blog é um lugar onde escrevo ou partilho fotografias que faço ou outras de que gosto. Ou pinturas ou músicas ou filmes. Ou danças. Não o tenho para fazer amigos, para interagir, para me aproximar de alguém. Não sou uma pessoa solitária, muito pelo contrário, nem tenho necessidade ou dificuldade em arranjar amigos por via directa. Também pelo contrário, penso muitas vezes, com pena, que vou deixando pessoas para trás, pessoas que se queixam do meu esquecimento. Mas não é esquecimento, é mera indisponibilidade física para manter o contacto. Com a vida que tenho, não me sobra tempo. Ou estou a trabalhar ou no trânsito ou com a família. Ou no campo ou a ler ou no blog. Ou sei lá em quê.
Mas, se as minhas circunstâncias fossem outras, se calhar tentaria experimentar divertir-me ou arranjar companhia através de uma qualquer dessas redes sociais. Porque não?
Aconteceu que, mesmo não sendo esse o propósito do blog, arranjei alguns amigos, não muitos mas alguns, pessoas especiais que jamais conheceria se não fosse o blog. E conheci outras pessoas, não direi amigos-amigos, mas pessoas em que penso, pessoas invulgares, pessoas, em certo sentido, extraordinárias. E posso testemunhar que, apesar de tudo -- da distância, da imaterialidade do contacto, do desconhecimento concreto de quem está do outro lado -- genuíno afecto pode acontecer.
Agora que estou a escrever, lembro-me que há muito tempo, seguramente para cima de mil anos, havia uma coisa chamada mIRC. Presumo que, entretanto, se tenha extinto. Foi o meu filho, então adolescente, que me falou nisso, me explicou o conceito e como funcionava. E experimentei. E gostei. Falava-se com desconhecidos. Usava um nome, por sinal ainda me lembro, por sinal ainda gosto desse nome. Aliás, estou a lembrar-me, depois, querendo sair de cena com o primeiro nome, arranjei um segundo de que talvez ainda goste mais. Falava com pessoas muito interessantes. Um é hoje presidente de uma grande autarquia. Aprendi algumas coisas com ele. Era, então, como hoje, tanto tempo depois, ainda é: desconcertante, provocador, culto e polémico. Outro era administrador de uma empresa, disse-me o seu nome e a empresa onde trabalhava (e eu não) e deu-se o caso de, inesperadamente, o encontrar em contexto profissional e, num súbito ataque de nervosismo, não ter sido capaz de me identificar. De resto, não estava sozinha, estava integrada numa delegação, e pareceu-me que a conversa poderia desencadear perplexidade junto de quem a ouvisse. Nessa noite, pelo computador, disse-lhe que tinha estado com ele e ele ficou aborrecido por eu não me ter apresentado. Lembro-me também da noite em que a mãe dele morreu e de como estava triste enquanto conversava comigo. O contacto escrito em tempo real com desconhecidos, por razões que não sei explicar, pode gerar uma estranha proximidade. Mas pode ser também um espaço de sedução. E havia quem quisesse mais. E estar sempre a dizer que não tornava-se um bocado esgotante.
À medida que vou escrevendo, vou recordando: provavelmente esse mIRC foi o precursor das actuais plataformas de encontros, sejam eles virtuais ou físicos.
Acabei por me deixar daquilo provavelmente por saturação ou porque aquilo, na verdade, era um bocado viciante, ou pelas duas razões -- já nem me lembro bem. Mas sei que, como tudo na minha vida, tendo sido porta que se fechou, para sempre ficou fechada. E, se agora estou a recordar, é certamente pelo filme que vi.
Juliette Binoche extraordinária, como sempre. Um filme belo, com uma bela música, envolto em silêncio e onde a luz de Binoche cintila. Muito interessante, também, o desempenho de Nicole Garcia.
Não vou desvendar o enredo mas posso apenas dizer que me parece uma situação muito plausível, provavelmente muito comum. Assumir um perfil que não é exactamente o seu, pretender fazer-se passar por outra pessoa, construir uma persona, vestir completamente a pele dessa persona, agir já como se fosse essa persona, manter a verosimilhança, ir acrescentando pormenores para lhe dar consistência, depois já não ter como voltar atrás, ver-se preso na teia que se urdiu e que já não é teia mas armadura, tudo isso me parece possível, real. Quantas vezes, sob outro nome, com outra fotografia, outra história de vida, não é assim que algumas pessoas se apresentam perante outras? Juraria saber de alguns casos.
Pode começar por ser uma brincadeira. Um jogo de espelhos. Pode acabar por ser um vício. Ou um modo de vida. Pode ser a heteronímia levada ao extremo, pode ser já a incapacidade em saber qual o verdadeiro eu.
Se puderem, vejam. É interessante sob todos os pontos de vista.
A menininha linda também gosta de podar árvores. Sozinha cortou uma rodada de ramos altos de cedro. Ajeitou-se com aquele serrote na ponta de um grande cabo que ofereceram ao avô pelo Natal. O bebé pegou num pau grande, uma estaca redonda e comprida, e andava também com ela ao alto debaixo das árvores a fazer de conta que fazia o mesmo que a mana e os grandes faziam. Também andou com o carrinho de mão onde punhamos as folhas secas e ia despejar, todo contente por ir despejar o 'lixo'. O mano do meio preferiu andar de bicicleta, anda em grande velocidade e, se cai, levanta-se, sacode-se e volta a montar-se e a pedalar. No carro, quando íamos petiscar, enquanto eu falava com a minha mãe, pediu para eu contar que também andou a pôr ramos na fogueira.
O pai deles deitou abaixo, à machadada, um pinheiro. Dito assim custa a crer e eu, se não tivesse visto, ficaria admirada. Mas assisti e confirmo: atirou abaixo um pinheiro alto à força de machadadas. E cortou um ramo gigante de eucalipto. Quando o ramo estava quase separado do tronco principal, começou a ouvir-se ranger, depois as folhas a agitarem-se e, de repente, aquele grande volume desabou lentamente, a despegar-se progressivamente, até que, num grande estrondo, caíu por terra. Desramou também vários pinheiros em altura, serrou os troncos grandes em troncos pequenos e ajudou na fogueira. Ao fim do dia estava, tal como os filhos, cansado e cheio de sono. A mãe dos meninos também desramou pinheiros e varreu o 'campo de futebol' que estava pejado de folhas secas. Ao fim do dia adormeceu no sofá mas, à noite, era a que estava mais acordada pelo que foi ela que foi a conduzir de volta para casa.
Eu também desramei árvores mas hoje não muitas pois, sobretudo, andei atrás do bebé (que já não é bem um bebé mas um rapazinho lindo e terrível, muito independente e cheio de personalidade e, não menos importante, com um sentido de humor fantástico: faz patifarias e, se vê a minha cara espantada, desata a rir à gargalhada). Também trouxe os meninos para casa para lancharem e para ficarem a brincar aqui à porta de casa enquanto os crescidos ficaram no trabalho pesado lá em baixo. E fiz também um ditado à menina já que vai ter teste na segunda-feira e os pais fazem questão que se prepare.
O meu marido, por seu lado, arrastou toneladas de ramos para a fogueira (queima esta devidamente autorizada, refira-se, que isto agora está, e bem, tudo controlado) e disse-me que também desramou árvores.
Conto-vos: é impressionante a quantidade brutal de ramos e de árvores que se têm cortado e queimado e de cuja falta não se sente -- já que tudo o que fica se desenvolve à força toda, num vigor assombroso.
Como sempre, quando já estavamos apenas os dois, cheguei aqui e adormeci. O meu marido anda na mesma e queixa-se: 'um gajo não descansa'. É que, se as semanas úteis pedem o descanso do fim de semana, a verdade é que há não sei quantos que não temos podido ter as merecidas tréguas.
De cada uma das coisas de que aqui falei tenho fotografias. Vou acompanhando o andar do tempo quer com as minhas palavras, quer com as minhas fotografias. Não é apenas a permanente transformação da natureza que vou registando, é também a transformação dos meninos. Estão grandes, desenvoltos, amorosos.
Entretanto, ao abrir o YouTube, voltou a aparecer-me, como sugestão, o trailer do filme que tentarei não perder quando cá aparecer: Celle que vous croyez. Não sei bem como traduzir: Aquela em que acreditas? Aquela que achas que conheces? Aquela que tu julgas que eu sou? Talvez seja mais este último.
Já tinha visto pois tem-me aparecido amiúde. E já li e vi entrevistas, nomeadamente com a actriz principal, Juliette Binoche.
É a história de Claire, uma professora universitária com 50 anos, que, para se vingar de um amor perdido ou para se desforrar da sua condição de mulher a perder o viço ou apenas para tentar viver uma situação emocionante (não sei -- nem sei se ela sabe), cria um perfil falso, o de Clara (Clara Antunes porque, quando estava a criar o perfil, ao pensar no nome, pousou o olhar num livro de Lobo Antunes).
Para tal inventa que tem 24 anos e, para a coisa ser credível, arranja uma fotografia de uma rapariga bonita e usa-a. Aproxima-se, então, de um jovem, amigo do ex-amante. Aos poucos o jovem apaixona-se por ela. Ela é simpática, sempre presente, usa frases joviais, emojis e outros bonequinhos, e assim vai enleando o ente cada vez mais seduzido. E do facebook passa para o telefone. E, aos poucos, vai, também ela, ficando prisioneira do avatar que criou, passando de sedutora também a seduzida. Rejuvenesce, apaixona-se. E, no entanto, ela é apenas uma voz, palavras, uma presença remota. Só que o mistério e intangibilidade seduzem. O trailer mostra as sessões que Claire tinha com a psicóloga, onde explica o que se passa.
Sem culpa: pelo contrário, com desarmante franqueza, Claire explica que, se não se disfarçasse de jovem alegre e descontraída, Alex, o jovem, não se apaixonaria por ela.
Este mundo virtual em que se podem criar personagens, inventar-lhes uma identidade, criar laços com outros seres que igualmente são nada mais do que presenças intangíveis do lado de lá do espelho é algo que me interessa bastante.
Tenho conhecido personagens assim, por aqui.
Uma coisa é uma pessoar ser anónima. Por razões pessoais ou profissionais uma pessoa pode não revelar a sua identidade. É o meu caso. Mas, em tudo o resto, haver verdade e, até -- se no mundo virtual faz sentido falar nisso -- haver transparência. UJM sou eu.
Mas outra coisa é inventar personas, dar-lhes um nome e criar para elas uma imagem, uma história, uma maneira de ser. Note-se que, ao falar, não critico isso pois admito que seja um caso psicológico, uma impersonalização, uma transposição de uma personalidade ficcional para um avatar. Não sei explicar bem mas admito que possa até não ser coisa voluntária ou racional. Suponho que o próprio acaba -- tal como Claire ficou prisioneira de Clara -- também refém das mentiras que vai criando para dar vida ao seu personagem, e isso dá-me alguma pena.
Há depois outras pessoas, pessoas com frustrações, que vivem vidas de solidão, e que preenchem o vazio aproximando-se virtualmente de outras pessoas, imaginando amizades maiores do que são na realidade, ficcionando afectos, insinuando-se, seduzindo. E, se percebem que, do outro lado não há disposição para alimentar essa fixação, forjam novas personagens que usam para se vingarem, para acusarem, para difamar, intimidar. E, de novo, falo nisto sem crítica. Acontece e há que aceitar que a vida é cheia de situações que preferíamos que não existissem. Mas o mundo não é perfeito. Há pessoas com problemas, que precisam de ajuda. Mais do que rejeitá-las, tenho pena, desejo que procurem apoio, que se tratem. Viver uma vida na sombra de personagens, ou mostrando uma carência afectiva muito grande ou mostrando rancor pela felicidade alheia, é uma forma estranha e, creio, pouco saudável de viver a vida.
Mas, enfim, não tenho conhecimentos suficientes para saber qual a melhor forma de lidar com estas situações. Diria que não se deve alimentar a dependência dessas pessoas, que o melhor é deixar que percebam que devem procurar tratamento ou alguma outra forma de apoio. Mas não sei mesmo.
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Lamento não conseguir responder aos comentários ao post de ontem. Passa bem das duas da manhã, estou perdida de sono. Se conseguir ligar o computador durante o dia, tentarei responder. Vai ser muito preenchido mas pode ser que tenha uma aberta. Aceitem as minhas desculpas.
As pinturas que usei neste post são de Hee Sook Kim.
Cheguei aqui cansada, um dia bem longo e extenuante. Já jantei, claro, e, por cima da janta, para rematar, comi uns três ou quatro morangos e duas tâmaras secas. Gosto de tâmaras. Mas estava capaz de comer mais qualquer coisa docinho. Em dias assim, parece que preciso de um suplemento calórico para repor os níveis de energia. Contudo, tenho que me controlar porque, por cada 20 gr de doces que como, parece que engordo 2 kg.
Mas isto há coincidências. Sem paciência para coisas mais profundas (piadinha: é sabido que as minhas profundidades são relativas), fui-me aos magazines onde posso veranear sem me maçar. E dei logo com uma artigo engraçado: o que é que o nosso doce preferido diz sobre nós.
Depois de ser sujeita a toda a espécie de ressonâncias psicológicas e sociais com assessments feitos por psicólogos ou sujeita a avaliações 360º, essas pérolas civilizacionais em que uma pessoa é avaliada pelo chefe, pelos colegas e pelos subordinados (e até pelo cão da rua, se o cão estiver para isso), só me faltava mesmo ser avaliada pelos bolos que como.
Mas já estou por tudo. Querem avaliar-me os inspeccionar-me a alma, pois que o façam, não tenho nada para esconder, revistem-me, virem-me do avesso, descubram qualquer coisa que me surpreenda.
Adiante.
Gulosa como sou, fui logo à procura do meu bolo preferido. Li as opções e, lambona, optei por comer dois. Depois, garganeira de dar vergonha, voltei atrás e fui buscar mais um. Nham, nham.
Tarte de maçã ou tarte de limão (de preferência, merengada). E outro que, se o tenho à mão, não me faço rogada: o brownie, de preferência daqueles espalmados de chocolate bem preto -- e se, lá dentro tiver bocados de amêndoa, melhor ainda..
Depois fui conferir o que dizem de quem prefere o que eu escolhi e, para tirar teimas, fui ver o que não tinha escolhido. E o que tenho a dizer é que se non è vero, è ben trovato.
Ora bem. A tradução é tentativamente literal embora, com comportamentos desviantes como os meus, facilmente me desvio e escrevo como me soa melhor.
Dizem que quem prefere a tarte de maçã, que é uma bolo delicioso, bom e natural, é alguém assim mesmo. Ou seja, alguém frutado, doce e quente, ou, dizendo de outra forma, a companhia ideal para um longo dia de chuva.
Pronto. Se dizem que sim.
Por acaso, gosto delas bem molinhas, macias, cheias de fruta a escorregar, quentinhas, de preferência com uma pitada de canela (refiro-me, claro, às tartes de maçã). Tem dias que gosto de as comer com uma bola de gelado de sésamo ou de chá verde ao lado.
No que se refere à tarte de limão, que adoro com merengue por cima, dizem que é coisa de amar até perder a razão. Ou de quem ama até perder a razão.
Com ou sem merengue é a sobremesa dos apaixonados e dos curiosos, dos que pensam que o amor rima forçosamente com sempre (e também com forno).
Pois. Que sim, que é mesmo assim, that's me, sempre enamorada, sempre a gostar de saber que sim (e isso do forno -- pois, dizer o quê?)
Quanto ao brownie é assim - e passo a transcrever: intenso e compacto, o brownie é o bolo favorito dos que têm fortes personalidades.
Hiper concentrado em chocolate, este doce não deixa espaço a hesitações... isto não vos lembra alguém?
Vou confessar uma coisa muito má. Geralmente, tento almoçar peixe. Volta e meia acompanho apenas com legumes. A bebida é água -- e nem pensar em sobremesa. Alguma disciplina é necessária. Pois só vos digo que, tem dias em que, a seguir, me dá uma tal carência que não resisto a entrar num Mcdonalds qualquer e pedir um brownie. E, enquanto o como, sabendo-me mal comportada, digo de mim para mim: 'Que se lixe a dieta'. Como é pensamento que não vê a luz do dia, até substituo o verbo por outro mais consentâneo com o momento, até porque chocolate apimentado é do melhor que há.
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Quanto aos outros bolos, para que encontrem também à vossa medida, aqui estão
- e atenção que isto é retirado de uma revista francesa, ou seja, os bolos não são exactamente os nossos
Da parte que me toca, passo muito bem sem o cupcake (para os amigos de modas e de dar nas vistas), sem o flan (para quem tem personalidade forte mas gosta de uma vida bem tranquila e discreta), sem o tiramisu (para os sedutores que gostam de quebrar corações), sem o paris-brest (equivalente ao éclair? - para os que gostam de se prevenir e que estão sempre à defesa ), sem o corne de gazelle (não sei bem se tem equivalente em portugal, a pata de veado, talvez - para os nostálgicos, que gostam de devaneios), sem o éclair de chocolate (para os impertinentes, inteligentes mas obcecados) e sem o mil folhas (para os meticulosos, arrumados, quadrados... e maníacos).
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Já agora, um filme achocolatado, bom de se ver
Juliette Binoche e Johny Depp
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.
Com muito chocolate, com muito afecto.
Já vos avisei, meus Caros, sou mediúnica. Antevejo o que vai acontecer a milhas. Já sei quem vai ganhar as eleições. Mas não posso dizer. Por isso, vou ter que falar noutras coisas.
1. A sucessora da Cátia Palhinha
Há pouco recebi um mail que continha uma fotografia. Olhei com atenção. Não queria acreditar no que os meus olhos viam. Chamei o meu marido. Apurou a visão, olhou de longe não fosse a vista cansada estar a pregar-lhe uma partida. Não achou que fosse caso para ir buscar os óculos mas confirmou: 'é mesmo a gaja'. Explico: uma madame nossa (nossa = minha e vossa) conhecida, de quem, volta e meia falo aqui, moça para aí da minha idade, imagino eu, descia a rua, atrás do chefe, com um vestidinho que pouco descia abaixo do decote. Acontece que a garotona estava de braço no ar, em campanha. Então o vestido trepava por ela acima e só não consegui ver se usa cueca da avó ou fio dental ou quiçá mesmo nada. O meu marido, malandreco, sugeriu que se via qualquer coisa, mas não posso aqui reproduzir o quê. Acho que não, acho que aquilo foi mais wishful thinking da parte dele, na gozação. Intrigada, questionei o meu correspondente, o que me tinha enviado a fotografia, sobre se a senhora estaria doida. Respondeu-me que era consabido que a dita ingeria e inalava e que, estando onde está, é um seguro de liberdade para dois figurões que por aí andam, seus correlegionários.
Fiquei muda e queda, sem saber o que dizer. Assim andamos. E eu que sempre achei que a senhora sistematicamente não anda bem, apesar dos meus dons mediúnicos, nunca me tinha passado pela cabeça tais hábitos. E ainda mais perplexa fiquei com aquele vestidinho, hiper mini-saia. Imagino o que será aquilo lá nas reuniões em que participa. Ou lhe põem à frente algum de outro sindicato, um que não ligue a tais minudências ou, se algum dos galfarros daquele grupinho fica de frente para ela, aquilo deve ser lindo, uma cena tipo Cátia Palhinha. Devem fazer apostas: será que hoje lhe vamos ver a passarinha?
Bem. Adiante.
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Deixa-me cá ver se me ocorre mais algum assunto interessante que não perturbe a reflexão dos meus Caros Leitores.
Sim, já sei.
2. Slow dating
Leio que as apps que permitem descobrir possíveis 'companheiros amorosos' numa fracção de segundo e entabular aproximação a vários candidatos em simultâneo começam a cair em desuso. Agora o que está a dar é o slow dating. As pessoas descobrem que é bom dar algum tempo para que a sedução aconteça. Leio e não sei bem de que falam. Não sei de que sites ou apps falam nem consigo perceber que falem em 'nova tendência' ao falarem de encontros em que as pessoas tenham tempo para se conhecerem.
Chegam ao ponto de enunciar as vantagens de encontros mais lentos por forma a permitirem que um e outro possam reparar nos pormenores e falam como se descobrir isso fosse uma inovação, algo digno de registo.
Penso que devo ter estado fora do planeta durante um século. No meu tempo era normal as pessoas encontrarem-se para se conhecerem. Pelos vistos, durante o tempo em que vivi fora deste mundo, a coisa mudou, percorreu uma linha curva e voltou ao ponto de partida, apanhando-me no mesmo sítio.
Pois eu confirmo: alguma coisa substitui uma troca de olhares? A vontade do contacto, pele contra pele? O sorriso partilhado? As flechadas que se sentem no coração com uma palavra, um sorriso, uma insinuação?
Mas, pronto, ok, slow dating. Na boa. Só tenho pena de, sendo eu mediúnica, não ter adivinhado que isto ia acontecer: é que escusava de estar aqui feita papalva, a mostrar esta surpresa toda.
Mas, enfim, eu ainda sou do tempo de cenas como esta:
Tomas e Tereza em A insustentável leveza do ser
(Se bem que eu puxe mais para a Sabina - talvez também pelo gosto pela fotografia)
3. Especial noite de eleições
Com os meus dotes mediúnicos, o que abaixo vos mostro é o que antevejo para a noite televisiva desta noite de 4 de Outubro: comentadores aos saltos, apontamentos de reportagem estapafúrdios: as previsões, as análises, as considerações, as certidões de óbito, as loas, as conversas à toa. E os partidos ganhadores e os perdedores e os que ganharam porque perderam e os que perderam porque ganharam e os ganharam porque ganham sempre mesmo quando perdem sempre. E os partidos parvos e os partidos sensíveis. E os papagaios acéfalos e os doutores-sabedores. E os outros. E os mesmos de sempre.
...
De resto, só mais uma coisa: votem, pela vossa saúde.
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.
E que o futuro volte a ser um lugar que apeteça visitar.