Porque não é a primeira vez que recebo comentários como o que alguém deixou na mensagem abaixo e porque é tema que gosto de deixar claro, tomo a liberdade de o puxar para aqui para, de seguida, dizer de minha justiça.
O comentário é este:
Não é sensato exibir uma vida fácil e grandes alegrias. Há nisso algum despudor. E é ingenuidade acreditar que alguém pode encontrar o que não tem na leitura do que outra pessoa tem. Mas é apenas uma opinião, claro. Se lhe dá prazer manter este registo, mantenha-o.
Tenho alguma dificuldade em ajuizar sobre a sensatez de pessoas que desconheço mas admito que quem o disse, por ler o que aqui escrevo, ache que já me conhece o suficiente. Portanto, passo por cima do argumento do (des)conhecimento e refiro um outro aspecto que esse, sim, me parece mais relevante: o da subjectividade.
Quem assim decreta a minha insensatez acha que detém a bitola da sensatez. Ora, duvido que a tenha. Mais: duvido que alguém a tenha. É que estamos no domínio da pura subjectividade.
Exemplifico. Eu acho que alegria e o prazer de viver são matéria pública enquanto acho que a dor e o sofrimentos são matéria reservada. Portanto, fico até admirada com a falta de reserva ou pudor com que algumas pessoas publicam dores tão íntimas. Não que vá ao ponto de as achar insensatas. Longe disso. Fico é a pensar que a dor deve ser tão grande que o pudor, para elas, deixa de ser relevante. Mas, salvo casos extremos, nunca me ocorre achá-las insensatas.
Como qualquer pessoa, tenho os meus momentos complicados, tenho cansaços, preocupações, tristezas. Contudo, quando as causas são coisas cá minhas, geralmente apenas falo a posteriori, com algum distanciamento, e sem grandes pormenores. Muitas outras vezes, tantas vezes, nem toco no assunto. Como já o contei, escrevi aqui -- na maior animação -- na véspera de ser internada, escrevi aqui sobre política e fait-divers de toda a espécie durante o doloroso pós-operatório, escrevi sobre ninharias quando me morreram pessoas muito próximas, escrevi histórias e maluqueiras debaixo de grandes preocupações. E quem diz isso, diz em tantas outras situações, em que acho que nem vem ao caso falar, em que ninguém deu por nada. Geralmente, guardo para mim os assuntos que me pesam. Em situações difíceis prefiro espantar as dificuldades em vez de me debruçar sobre elas. Por natureza, facilmente ponho para trás das costas o que me desagrada nem que apenas por uns instantes, para 'desopilar'. Mas há uma outra razão: de facto, sinto um certo pudor em exibir assuntos íntimos, dores, mágoas.
Mais: penso que falar sobre alegrias não faz mal a ninguém, enquanto falar sobre dores e angústias pode tornar-se contagioso, pode dar más ideias, pode fazer baixar ainda mais o ânimo de quem esteja a sofrer.
Eu sei que os portugueses, em geral, tendem a cultivar a baixa auto-estima e a sentir-se solidários com os que se mostram em baixo e a rejeitar os que se mostram afirmativos ou 'felizes da vida' ou, seja, os que gostam de rir e curtir os prazeres desta vida.
Mas eu não posso fazer nada contra isso. Sou sincera e não vou fingir que sou infeliz para agradar a quem tem uma vida difícil. Tenho sido afortunada e por isso me sinto agradecida. São factos de que não tenho que me envergonhar: não tenho dificuldades financeiras, nunca fui abandonada, tenho trabalho, adoro a minha família e sinto-me retribuída. Por isso, sendo esta a minha realidade, é sobre ela que falo. Não sinto pudor ao reconhecê-lo, sinto apenas alegria e, sobretudo, um grande agradecimento.
Quanto a ser ingenuidade acreditar que alguém pode encontrar o que não tem na leitura de outra pessoa que tem, permita que diga que talvez não seja bem assim. Não têm conta os mails que recebo de pessoas que me contam os seus problemas, as suas dificuldades, as suas doenças e ansiedades dizendo-me que lhes faz bem ler o que escrevo. Por alguma curiosa razão, muitos Leitores preferem dirigir-se-me num tom pessoal, de confidência, através de mails. Penitencio-me por cada mail a que não consigo dar a devida atenção mas o meu tempo livre é muito curto, não chega para manter a proximidade que eu gostava de ter com quem assim me procura e, ao mesmo tempo, manter o ritmo a que me habituei aqui no blog. Tantas vezes aqui tenho apresentado desculpas por não conseguir responder a mails (ou a comentários).
Portanto, para finalizar: vou manter este registo, sim, e não é apenas por me dar prazer: é porque este é o meu registo. Sou como sou e não é aqui que me vou pôr com fingimentos ou dissimulações.
E é no mesmo registo, o de sinceridade, que digo a quem escreveu aquele comentário -- que agradeço -- que espero que a vida lhe sorria para que sinta também vontade de sorrir e para que fique feliz quando vir o sorriso no rosto ou nas palavras dos outros.
Portanto, para finalizar: vou manter este registo, sim, e não é apenas por me dar prazer: é porque este é o meu registo. Sou como sou e não é aqui que me vou pôr com fingimentos ou dissimulações.
E é no mesmo registo, o de sinceridade, que digo a quem escreveu aquele comentário -- que agradeço -- que espero que a vida lhe sorria para que sinta também vontade de sorrir e para que fique feliz quando vir o sorriso no rosto ou nas palavras dos outros.
____
Lá em cima Rui Veloso canta 'As regras da sensatez', canção de que muito gosto, até pela letra (que é de Carlos Tê).
As fotografias foram feitas no Ginjal, lugar onde uns apenas vêem decadência e onde eu, impudicamente, vejo uma beleza quase mágica.
.................................




