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sexta-feira, junho 12, 2026

E se os psiquiatras e psicólogos precisarem ainda de mais tratamento que os seus pacientes...?

 

Já falei muitas vezes que, na minha adolescência, uma das minhas pimeiras escolhas como vocação profissional seria psiquiatria ou, retirando-me daí com receio de enfrentar cadáveres nas aulas de Anatomia em Medicina, psicologia. Desviei-me e tudo bem, realizei-me profissionalmente num mundo completamente diferente. Mas o bichinho ficou.

Contudo, permanece em mim a dúvida sobre a qualidade da terapia quando do outro lado está um psiquiatra ou um psicólogo também com problemas ou limitações.

Também já o contei: uma amiga nossa, psiquiatra e, pelos vistos, tão competente que chegou a directora de serviço num dos principais hospitais do país, era completamente doida. Mas doida varrida. Deixámos de nos dar pois divorciou-se e ficámos amigos do marido. Não apenas o divórcio foi traumatizante para eles, como, face a tudo o que se passou, sentimo-nos mais solidários em relação a ele. E, de resto, mesmo quando tudo estava bem (se é que alguma vez esteve tudo bem, tão doisa ela era), o meu marido não conseguia suportá-la, raspava-se de perto dela sempre que podia. E sempre nos interrogámos: como é que uma maluca assim podia tratar pessoas com doenças do foro mental? Provavelmente, ao trabalhar, transformava-se. Também já o contei: uma vez, um amigo, por razões que não eram de saúde e que agora não vêm aqui ao caso, precisava de consultar uma psiquiatra. Falei-lhe nesta mas avisei-o: não é boa da cabeça, não ponho as mãos no fogo por ela, é maluca mesmo. Pois não é que veio de lá encantado...? Achou-a o máximo, giríssima (e era), com uma voz super sensual, interessantíssima, inteligente, super profissionalona. Nem percebeu a razão dos meus alertas. Fiquei sem saber o que dizer.

Conheço uma outra, não psiquiatra mas psicóloga, psicanalista, conceituada terapeuta. Pois... Nada a ver com a maluqueira da primeira mas diria que também com uma certa pancada. Ainda no outro dia, umas duas outras que também a conhecem bem, se riam com as coisas dela, as desculpas esfarrapadas que arranja, os recuos de última hora que ninguém percebe. Tem coisas que me deixam um bocado de boca aberta, a pensar que, se calhar, algum acompanhamento psicológico não lhe fazia mal nenhum. 

E eu penso: se eu precisasse, recorreria a alguma delas...? E não tenho dúvidas: nem pensar. Acho que viria de lá pior do que para lá tinha entrado. No entanto, pode acontecer -- e certamente acontece -- há um qualquer fenómeno que faz com que, quando estão a trabalhar, dispam todas as suas doideiras pessoais e, no acto de terem de cuidar de outras pessoas, se portem de forma sensata e útil.

Mas o que protege uma pessoa vulnerável se lhe aparecer pela frente não um bom psiquiatra ou psicólogo mas um maluco? Ainda ontem vi uma notícia de que um psiquiatra se envolveu com uma paciente e, quando ela quis romper com ele, para se vingar, determinou que ela precisava de ser internada compulsivamente. Vejam bem... 

Lembrei-me destes aspectos ao ver o vídeo abaixo. Imagine-se a responsabilidade: um jovem meio perdido, desinteressado, desligado da vida concreta do dia a dia, com os riscos que isso comporta, riscos até existenciais... e imagine-se se dá com um psicólogo que não bate bem ou que não consegue agarrar os problemas do paciente de forma a restituir-lhe o entusiasmo e a motivação que tão imprescindíveis são a uma vida digna de ser vivida... Há um certo risco nisto, não há?

Contudo, neste caso, parece que o jovem paciente encontrou o terapeuta certo.

O caso do jovem que não sabia como estar no mundo | Do Outro Lado

O psicólogo Pedro Aires Fernandes acompanhou um paciente de 23 anos muito desligado e desinteressado da vida. O caso inquietou-o e levou-o a interrogar-se como terapeuta, como homem e como pai.

Desejo-vos um belo dia

terça-feira, maio 26, 2026

Ichi-go ichi-e
一期一会

 

Tive vários assuntos para tratar. E só o facto de o referir já me dá vontade de rir, gozar comigo própria. Até há cerca de três anos, fazia tudo e mais alguma coisa com uma perna às costas e, entre mil coisas, encaixava outras mil. Agora a gestão do meu tempo é tão extraordinária que meia dúzia de coisas para tratar parece que se transformam numa grande coisa. 

No outro dia, ao queixar-me da quantidade de coisas que compramos no supermercado e do dinheirão que gastamos, o meu marido recordou o óbvio: Quando trabalhávamos, durante a semana almoçávamos no restaurante e, sendo os jantares refeições mais ligeiras, as compras eram naturalmente muito menos.

Mas isso traduz-se também no tempo que agora gasto na cozinha a preparar refeições. 

Depois há o tempo das caminhadas mais o tempo do ginásio. E o tempo dispendido a apanhar banhos de sol. E o tempo a olhar para as coisas, a apreciar a sua beleza, a fotografá-las. E o tempo a ouvir os passarinhos. E o tempo usado a regar. E tudo isso consome tempo e corta o dia. Tudo coisas que antes não faziam parte da rotina diária (só a caminhada pós-laboral, nos últimos anos). Por isso, havendo tarefas que não são diárias, já parecem dignas de realce. Mas sei que não são, estou aposentada mas (ainda) não estou senil.

Ah, e esqueci-me de referir outra tarefa, não menos importante: também ando atrás das formigas. Têm aparecido resíduos em alguns parapeitos. Dá ideia que se alojam na caixa dos estores. Até aqui tenho estado a tentar resolver a bem, com água. Mas amanhã vou enveredar por medidas mais assertivas, vou aplicar um gel que espero que as afugente -- não precisa de ser letal, não sou de violências.

Mas isto para dizer que me encanto com as flores do meu jardim. Olho-as de todos os ângulos, maravilham-me. Tenho sempre a sensação que cada momento é único, no dia seguinte podem ter murchado, secado. E a sua beleza varia segundo as horas do dia, conforme a luz está de frente ou de lado ou a pôr-se, ou eu lhes proporcione grandes planos ou as apanhe quase à espreita. Ando nisto -- e, acreditem ou não, a verdade é que não me canso. 

Não sei se mudei muito ou se sempre fui assim e sempre consegui coexistir com as outras que não eram bem eu. Não sei. 

Mas também me parece que não vale a pena tentar saber. Ao contrário de muito boa gente que acha que tem que se dissecar até à medula, conhecer-se até ao mais não poder, e interpretar tudo o que faz ou deixa de fazer ou encontrar justificações ou desculpas para cada comportamento, eu estou-me bem a marimbar para tudo isso. Quero é viver bem o momento em que estou e o que se segue.

Nunca, n-u-n-c-a, me ocorreu puxar pela cabeça a lembrar-me se os meus pais se zangavam assim ou assado comigo, se alguma vez foram injustos, se alguma vez algum colega da escola me gozou ou deixou de gozar, se, de alguma forma, alguma coisa do passado me traumatizou ou moldou a minha personalidade. Sempre me estive completamente nas tintas para tudo isso. Se me chateava, era momentaneamente. Estrebuchava, mandava vir e, agora que falo nisto, lembro-me que uma vez uma miúda me chateou até à medula e tive um ataque de fúria, tendo-lhe dado um valente par de estalos. E tendo exteriorizado a minha zanga, logo me passava (para todo o sempre). Sempre, desde sempre, me considerei totalmente responsável pelos meus actos e pela minha personalidade. Havia de ter graça agora justificar alguma coisa no meu comportamento porque, no passado, a minha mãe me disse isto ou aquilo ou o meu pai me proibiu daquilo ou daqueloutro ou alguma professora se zangou com ou sem motivo. Quero lá eu saber disso para alguma coisa. Se na altura, logo que aconteceu ficou morto e enterrado era o que faltava que agora fosse consumir o meu precioso tempo a exumar comportamentos que passaram a cadáveres no instante seguinte a terem acontecido. Por exemplo, lembro-me dos ataques de fúria que a minha mãe tinha comigo: travava o punho cerrado no alto da minha cabeça, com vontade de me afincar com toda a força, cerrava a boca com toda a força, quase incapaz de pronunciar palavra. Ficava varada comigo, já nem sei porquê. Mas, ao lembrar-me disso, sempre me deu vontade de rir. Uma vez, contei ao meu marido e ele também achou um piadão e, então, às vezes, se eu o contrariava quando estava ao pé da minha mãe, ele dizia: 'vê lá se queres que eu faça como a tua mãe, e ameace dar-te murros na cabeça'. E ela ria e dizia: 'Sabe lá, levava-me ao desespero, nem imagina...'. Dar nunca me deu, mas eu sentia a pressão do punho fechado na minha cabeça. No entanto, em vez de pensar que ela era demasiado impaciente ou que demonstrava instintos agressivos ou que isso, de alguma forma condicionou o meu desenvolvimento, só me dá é vontade de rir e faz ter vontade de me lembrar o que é que eu faria para a deixar em tal ponto de rebuçado. E tenho a certeza que nada disso influenciou a minha maneira de ser nem me deixou com vontade de a culpar por alguma coisa. Zero. Desde que me conheço que a minha filosofia de vida é uma: bola para a frente. Ou: para a frente é que é caminho. Não é uma filosofia muito profunda, bem sei, mas é o que temos. 

E vem isto a propósito de quê?

Ah, já sei. Estava a questionar-me se sempre fui zen e disfarcei bem, ou se era speedada e agora é que mudei. Mas era uma questão retórica. Quero lá saber.

O que vale a pena ver é o vídeo lá mais abaixo, muito compatível com o meu mood actual. Mas antes, o meu amigo Gemini explica-nos em que consiste o 一期一会

Ichi-go ichi-e (一期一会) é um conceito cultural japonês lindíssimo que pode ser traduzido literalmente como "uma vez, um encontro" ou "neste momento, uma oportunidade".

A essência dessa filosofia é a impermanência e a singularidade de cada momento. Lembra-nos que cada encontro, conversa ou experiência que vivemos é absolutamente único e nunca se repetirá da mesma forma.

A Origem do Termo

O conceito está profundamente ligado ao Zen Budismo e à tradicional Cerimônia do Chá Japonesa (Chado), popularizado pelo mestre de chá Sen no Rikyu no século XVI.

Mesmo que o anfitrião e os convidados se reúnam frequentemente para o chá, o encontro de hoje nunca poderá ser replicado exatamente. A temperatura da água, o arranjo de flores, o humor das pessoas, o clima lá fora... tudo muda. Portanto, o encontro deve ser tratado com a máxima sinceridade e devoção.

Os Três Pilares do Ichi-go Ichi-e

Presença Absoluta: Estar 100% focado no aqui e agora. Se você está a jantar com um amigo, o mundo exterior e o celular deixam de importar; o foco é aquela pessoa e aquele instante.

Consciência da Impermanência: Aceitar que tudo passa. As coisas boas passam (o que nos faz valorizá-las mais), e as más também passam (o que nos traz conforto).

Apreciação e Gratidão: Tratar cada interação — seja com um estranho no metro ou com seu parceiro de vida — como algo precioso, pois aquela exata configuração de tempo e espaço jamais existirá novamente.

Como Praticar no Dia a Dia?

Não é preciso participar de uma cerimônia do chá para aplicar o ichi-go ichi-e. Você pode trazê-lo para a sua rotina de formas simples:

Evite o piloto automático: Preste atenção aos detalhes do seu caminho diário, ao sabor do café pela manhã ou ao tom de voz de quem fala com você.

Pratique a escuta ativa: Quando estiver a conversar com alguém, ouça para compreender, e não apenas para responder.

Não adie a gentileza: Se você teve um momento agradável com alguém, demonstre. Não assuma que haverá uma "próxima vez" para dizer algo importante.

Em resumo, o ichi-go ichi-e é um convite para desacelerar e viver a vida não como uma sequência de tarefas, mas como uma coleção de momentos irrepetíveis.

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Na volta já estão pelos cabelos com tanta sabedoria oriental e tanto slow living mas, como agora está na moda dizer-se, 'eu sou esta pessoa' (expressãozinha mais besta, não é?)

Portanto, cá vai mais uma dose, desta vez em forma de vídeo, o vídeo de que falei lá em cima. É que, como verão no vídeo, são tudo hábitos com que todos ganharíamos.

9 filosofias japonesas para uma vida mais tranquila

Alguma vez se perguntou por que razão o Japão parece tão organizado, calmo e profundamente respeitoso?

A ordem encontrada na sociedade japonesa não é uma coincidência. É o resultado de um código de conduta específico transmitido através das gerações. Do silêncio no metro de Tóquio à forma como as crianças limpam as suas próprias salas de aula, a cultura japonesa prioriza a responsabilidade partilhada e a elevada confiança social.

Organize os seus hábitos e limpe a sua mente. 


Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, maio 25, 2026

Os fenómenos bizarros que a medicina se esforça por explicar -- o poderoso testemunho de um neurocirurgião que recebeu a sentença de apenas mais 6 a 8 meses de vida

 

Desde sempre ouvi dizer que é preciso lutar ou que, se a cabeça quer, o corpo obedece, ou que é preciso ter calma. Mas, leiga que sou, sei lá se há fundamentação científica paa o que mais parecem lugares comuns.

O vídeo que abaixo partilho impressionou-me bastante, pela honestidade e pela vulnerabilidade do testemunho. Talvez também pela humildade. A vida é frágil. E essa é a nossa condição.

Qualquer um de nós estremece perante a possibilidade de uma doença, em especial se vier com veredicto associado, e o veredicto for assustador. Mas, creio eu, para um médico ainda talvez seja pior. Lembro-me de uma grande amiga que, quando jovem, com duas crianças muito pequenas, se viu perante um problema gigante. O marido, médico, hiperactivo, divertidíssimo, sempre cheio de ideias e de genica, um dia, do nada, caiu para o lado. Um aneurisma. Não morreu logo mas ficou sem se mexer, e foi uma coisa mesmo dramática, impensável. E muito triste. Ainda viveu algum tempo, tempos muito difíceis. A minha amiga dizia: Não vale a pena tentarmos animá-lo porque ele sabe o que tem, sabe o que o espera. Fecha os olhos, não quer ouvir, não quer que tentemos consolá-lo. Ele sabe que não vai viver muito mais.

Um neurocientista que tem um cancro raro e agressivo e uma curta expectativa de vida sofre como qualquer pessoa, ou talvez mais porque tem a objectividade da ciência a formatar-lhe as ideias. Mas David Linden diz que a sua atitude sempre foi a de um nerd, a de querer perceber tudo, querer entender a biologia daquelas células que, dentro dele, cresciam descontroladamente. 

Primeiro veio a revolta, depois a gratidão pelo que já tinha vivido e pelo apoio que sentia. Mas, sempre, a vontade de estudar, de compreender.

E uma coisa de que ele fala é como, de facto, cientificamente provado, a mente pode influenciar a sobrevida, e a qualidade da sobrevida. Não morreu ao fim dos seis a oito meses. Já passaram cerca de cinco anos e, pelo que diz e pelo que parece, está bem, o cancro ainda está lá, mas aparentemente controlado. E atribui sobretudo ao amor da mulher por ele e ao apoio dos filhos e dos amigos o prolongamento da sua vida.

Mas não o diz como homem de fé. Não tem fé, diz. Fala numa perspectiva científica. Estudos humanos e ensaios em animais demonstram como o exercício, a tranquilidade, um bom enquadramento social, haver uma rede de afecto, influenciam a sobrevida dos doentes cardiológicos ou com cancro.

Ainda estão a estudar quais as reacções biológicas que se operam para que tal aconteça. E dessa compreensão estão a nascer novos tratamentos que complementam os existentes.

O vídeo é longo e, por vezes, a terminologia é técnica. Mas é muito interessante. Não é só o lado humano, é também a esperança que estes novos caminhos da mente --- a mente como um centro não apenas reactivo mas de elaboração de previsões e de activação de recursos para lidar com essas previsões -- traz a quem enfrenta situações de susto e sofrimento.

[Relembro que dá para activar as legendas automáticas em português (do Brasil ou de Portugal)]

Os fenómenos bizarros que a medicina se esforça por explicar | David Linden: Entrevista completa

O neurocientista David Linden esclarece a biologia por detrás de fenómenos que a medicina há muito luta por explicar, desde as mortes associadas ao vudu e a síndrome do coração partido até ao efeito placebo, e porque é que o luto aparece nos resultados das autópsias. 


Desejo-vos uma boa semana
Saúde. Paz. Alegria.

terça-feira, maio 05, 2026

Sobre a inimputabilidade

 

Há sempre aquilo, o lugar comum dos dois gumes. Está bem que não estava bem da cabeça quando cometeu o crime... mas o pobre coitado que foi assassinado...? E não pode haver um terceiro gume: o da possibilidade de voltar a acontecer?

Estes domínios, que me atraem  -- e, não por acaso, a primeira hipótese de opção profissional quando tive que escolher um curso era a psiquiatria, depois não por causa dos mortos nas aulas de anatomia, depois psicologia, mas, afinal, não porque não sabia se era reconhecido como curso superior --. têm sobre mim o fascínio de tudo se passar dentro da cabeça, de não serem visíveis a olho nu e de ainda estarmos longe de perceber o funcionamento do nosso cérebro.

Já contei que, quando ia para as minhas reuniões a norte (porque, a sul, ia eu a conduzir), tentava ir de boleia e, muitas vezes com um colega e amigo com quem tinha muita confiança. Uma das coisas que eu gostava era de ouvi-lo a falar da prima que era doida-varrida. E, por umas três ou quatro vezes, apanhei, ao vivo, aquelas delirantes conversas. Ele levava o telemóvel em alta voz e não tinha segredos em relação a mim. Cheguei também a apanhar dessas conversas no gabinete dele. Acabava por sair porque eram intermináveis, ele pura e simplesmente não conseguia pôr um fim naquilo. Tudo começava com: 'Ligaste-me?', e dizia o nome dele. Ele dizia que não. Ela insistia: 'Apareceu-me aqui o teu número. Ligaste...'. Ele voltava ao mesmo: 'Não, não te liguei.'. Por fim, pedia-lhe ele: 'Mas, vá, diz lá o que queres.'. E aí a coisa começava a ganhar graça. Lembro-me de uma vez em que ela queria que ele assinasse um documento. Ele perguntava: 'Ah, sim? Mas que documento?'. E ela dizia que o banco dizia que ele tinha que assinar um documento a dar-lhe, a ela, autorização para movimentar a conta. Ele, já não estranhando nada daquilo: 'Eu? Mas a que propósito? A conta é tua. Eu não tenho nada a ver com a tua conta.'. E ela muito admirada: 'Ah não? Julgava que já te tinhas feito titular da minha conta...'. Ele piscava-me o olho e continuava a conversa: 'Eu? Mas então uma pessoa pode fazer-se titular da conta de outra pessoa...?'. Ela ficava em silêncio. Depois dizia: 'Mas tu e a Elita não combinaram fazer-se titulares da minha conta? Ela disse-me que sim.'. Ele fazia-me sinal de que a paranoia dela começava a manifestar-se e retorquia: 'Ah foi? Ela disse-te isso? Mas como é que fazíamos isso sem a tua permissão?'. Silêncio. Ele contra-atacava: 'Mas não foi o Banco que te pediu uma assinatura minha para eu te autorizar a ti a movimentares a tua conta?'. Silêncio dela. Depois, como se já estivesse cansada: 'Eu não estou é a perceber já nada desta conversa...'. Ele concordava: 'Pois, também me parece que essa conversa não tem grande sentido, não.'. Ela ficava em silêncio, ouvia-se a respiração. Depois voltava: 'Mas então tu e a Elita não se fizeram titulares da minha conta?'. Ele começava a agastar-se: 'Olha, não vais volta ao mesmo, pois não? E era só isso? Como pelos vistos estás a fazer confusão, vai lá esclarecer melhor. Eu agora não me dá jeito, estou no carro.'. Silêncio. Depois: 'Ah, estás a conduzir... Então vê lá... Tem cuidado. Mas olha, quando chegares, depois liga-me que é para combinarmos.'. E ele já farto: 'Mas combinarmos o quê?'. E ela: 'Então, vires assinar o documento que o banco pediu.'. Ele: 'Mau... Outra vez...?'. E ela, a suspirar: 'Já estás outra vez impaciente, não se pode falar contigo. Não vês que tenho que esclarecer isto? Julgas que não percebo que já estás a despachar-me?'............

E isto poderia durar quase a viagem inteira, ele a querer desligar e ela a prendê-lo, em loop.

Solteira, sem irmãos, sem pais, apenas com dois primos. Professora do ensino secundário, a maior parte do tempo de baixa, com vários surtos psicóticos, os vizinhos a chamarem a polícia com o barulho que ela fazia supostamente a matar bichos que a queriam atacar. Com duas casas muito bem situadas, requintadamente mobiladas, com obras de arte valiosas, tudo herança dos pais, supostamente com uma conta bancária recheada. Segundo o meu amigo, para entrar em casa dela só de luvas e máscaras. Não limpava as casas nem queria lá ninguém, sempre a achar que todos a queriam roubar. De facto, ele e a prima Elita já tinham falado com ela algumas vezes que era melhor ela ter acompanhamento médico, ter alguém em casa a ajudá-la, que seria mais seguro que alguém mais pudesse também ter acesso à conta, talvez um advogado para ela não desconfiar que eles, os primos, queriam roubá-la. Nunca quis nada. Por duas ou três vezes a polícia levou-a para o hospital e ela deu o contacto dos primos. Lá chegados, encontraram-na a simular uma lucidez que não lhe conheciam. Dizia-me ele: 'Os malucos parecíamos nós, eu e a minha prima Elita'. Dizia também que dela queriam era distância pois estava sempre a insinuar que eles a queriam roubar, tinha chegado a dizer que já tinha apresentado queixa deles.

Mas, dizia-me ele: 'Se a vir, não diz. Vê-se que não anda muito bem arranjada, mas parece assim uma senhora fina, uma aristocrata um pouco alternativa, e consegue manter uma conversa completamente normal, disfarça completamente'.

E tive uma que trabalhava numa das minhas equipas, e cheguei a falar aqui dela, que nunca foi boa da cabeça, mas que chegou a um ponto que começou a ser ameaçadora, os meus colegas já temiam pela minha segurança, já me diziam para eu ter cuidado com ela. Sempre que podia, punha-se virada para mim, a olhar-me fixamente, com ar ameaçador. Chegou a entrar-me no gabinete uma vez que fiquei sozinha naquele piso, a trabalhar até tarde. Quando lhe perguntei o que estava ali a fazer, fez um sorrisinho maligno: 'Não tenha medo, não vou fazer-lhe mal.' E ficou ali a olhar para mim. Mas, ao mesmo tempo, com as pessoas com quem não tinha interacção directa, fazia-se de muito querida, fazia bolos e bolachinhas para oferecer aos colegas, desfazia-se em mesuras com toda a gente. E, no entanto, a nível pessoal a sua vida era uma complicação. Por exemplo, empreendeu que o irmão queria roubar os pais, empreendeu que o irmão tinha feito com que os pais a prejudicassem a ela, apresentou queixa na esquadra contra o irmão, o que levou o pai a cortar relações com ela, engendrava coisas surreais para virar a mãe, já meio demente, contra o irmão. E, a nível profissional, cometeu erros gravíssimos pelos quais responsabilizou outras pessoas, promoveu campanhas de vitimização e, ao mesmo tempo, de culpabilização dos colegas. Nem sei. Conseguiu que todos os colegas directos se incompatibilizassem com ela e que em alguns locais proibissem a sua entrada. Para eu me ver livre dela foi o cabo dos trabalhos. Finalmente, por acharmos que era um caso social, conseguimos mantê-la mas em funções inócuas, em que, na prática, não tinha que interagir com ninguém (pois já toda a gente queria distância e alguns já tinham medo dela), nem havia risco de causar danos com os seus erros. Já eu não estava lá quando soube que a mãe tinha morrido e que, no dia seguinte, apareceu lá, cabelo pintado de uma cor arrojada, vestida de um colorido exuberante e que ria e contava piadas por todo o lado, sem ninguém saber como reagir perante tão insólita reacção. 

Isto para dizer que muitas vezes se subestima o risco que pessoas assim podem representar para os outros. Num momento de paranoia, num surto psicótico, podem atacar alguém. Muitos dos que acabam a cometer crimes já antes tinham dado sinal de que a sua estabilidade mental e emocional não existia. 

O episódio que aqui partilho é disso exemplo.

O homem que perdeu a liberdade antes de ir para prisão | Do Outro Lado

O psiquiatra Sérgio Saraiva lembra o momento em que um doente percebeu que tinha cometido um crime violento. O caso mostrou-lhe, na prática, como a doença mental grave pode anular a vontade própria.


Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, março 30, 2026

Parem tudo!
Eis as fórmulas inteligentes para lidar com gente estúpida

 

Começo por sacudir a responsabilidade pelo que é dito no vídeo que abaixo partilho. Não fui eu que o fiz e, além do mais, não tenho conhecimentos para avaliar se há rigor científico no que se diz ou se as referências filosóficas respeitam o espírito da letra de quem as proferiu.

Não tendo aqui nenhum filósofo à mão de semear, e querendo pelo menos o conforto de que o aqui apresento não seja um total barrete, submeti-o à apreciação do chatgpt. Disse-me que sim, que as referências não são inventadas nem despropositadas, ou seja, que não se pode dizer que seja uma banhada, mas que, enfim, é uma coisa na base do mais ou menos, ou seja, de facto existiram mesmo as afirmações, não são falsas as referências, mas, segundo o chatgpt, estão um pouco enroupadas à luz das tendências actuais, mormente o léxico e as preocupações, que é daqueles vídeos self não sei quê, cheios de ensinamentos e coiso e tal. Compreendido.

Seja como for, gostei. Direi mesmo: bacteriologicamente correcto ou não, a mim faz-me muito sentido. Digo mais: é daquelas que já deveria ter aprendido há anos e anos pois, se eu tivesse percebido e interiorizado isso, muitas maçadas me teriam sido poupadas.

Sei que não sou a última coca-cola do deserto, muito longe disso, mas também sei que não serei a mais burra da turma, seja qual for a turma. E toda a minha vida, toda, toda, t-o-d-a, foi passada a tentar explicar o que me parece ser correcto, a defender as ideias que acho certas, a tentar desmontar argumentos falaciosos. Um desgaste. Percebo agora a burra que tenho sido. Aliás, implicitamente já o sabia, mas agora, vendo-o assim explicitado, ainda mais claro fica.

Muitas vezes, para meu desgosto, chegava à conclusão que, em determinados meios, o que é mais apreciado é o que é mais básico, menos valioso, mais irrelevante. Já o referi anteriormente. Na minha vida profissional, várias vezes fiquei chocada ao ver que alguns projectos inovadores, revolucionários, fracturantes, verdadeiramente relevantes, eram incompreendidos e pouco valorizados enquanto alguns, que nem à categoria de projectos deveriam ascender de tão básicos que eram, acabam por ser louvados, enaltecidos e até premiados. E sempre cheguei à mesma conclusão: se quem apreciava os assuntos era gente de pouca cabeça, só percebiam os temas que eram elementares, que não requeriam nem grandes conhecimentos nem grandes discernimentos para serem entendidos. Tudo o que fosse mais complexo já era chinês para eles e, para não darem parte de fracos, preferiam mostrar pouco interesse.

Também já contei que, algumas vezes, ao ver projectos que eram apresentados como extraordinários, que envolviam investimentos de milhões, que eram divulgados em jornais de referência e que eram visitados pelo governo ou, até, pelo presidente da república, eu dizia de caras: um bluff, um fiasco, um saco cheio de nada, nunca na vida vai dar em alguma coisa, a ideia inteligente é abortar já. E, ao sustentar esta posição, era olhada de lado como uma céptica, uma pessoa do contra, alguém desalinhado, olhada até com algum temor não fosse eu falar alto de mais ou onde não devia. Desfazia-me a tentar demonstrar o que para mim era óbvio, cristalino, a tentar evitar o desperdício de milhões ou estar-se a contratar carradas de pessoas altamente especializadas para uma coisa que jamais teria pernas para andar. Nunca consegui. Custava-me aquilo, parecia-me um embuste disfarçado de ideia grandiosa, sabia que ia trazer prejuízos avultados, geral imparidades de se lhes tirar o chapéu. Fui derrotada, era a única a tentar ir contra a corrente. Quando, anos depois de milhões e milhões jogados para o lixo e de tentar arranjar novas funções para os que, para aquilo para que foram contratados, já não teriam trabalho, eu me lamentava: 'Se alguém me tivesse dado ouvidos...', um colega e amigo dizia-me: 'Sabe, tão grave como não ter razão é ter razão antes de tempo.'. Não têm conta as lutas que travei para tentar demonstrar erros, linhas estratégicas erradas, decisões sem nexo. E para quê? Para nada.

Há pessoas que não querem ouvir a verdade. Ou não a compreendem. Há que saber aceitar isso: não vale a pena tentar avisar quem não quer ser avisado. Ou tentar explicar a quem é incapaz de compreender.

Uma das que me marcou, e aqui uso o verbo marcar no sentido de chatear, mas chatear profundamente de tão estúpida que foi, aconteceu numa sessão de avaliação, ao ser avaliada por um que estava na empresa há poucos meses e que mal me conhecia, no item 'trabalho de equipa' -- área em que sempre tive pontuação máxima pois gosto de trabalhar em equipa, nunca fui individualista, acredito piamente na convergência de esforços --, numa escala de 1 a 5, me atribuiu um 3. E justificou assim: 'É muito inteligente e as pessoas têm medo de si'. Fiquei a olhar para ele certamente com espanto mas, acredito, sem conseguir disfarçar que achava que só um tipo muito burro poderia avaliar-me com um 3 apresentando tal justificação. Tive vontade de lhe perguntar se era o caso dele, se tinha medo de mim. Com o passar do tempo, percebi que tinha. Não percebia nada do que eu dizia e ficava deveras aflito, tentava desviar-se, tentava evitar-me. Quando o confrontava, eu percebia que, a ele, só lhe apetecia fugir. Como não podia, desviava o assunto, contava histórias, elogiava-se, contava-me façanhas que, para mim, eram ridículas mas que ele descrevia como se fosse o maior, tudo para não ter que se debruçar sobre o tema profissional que eu queria discutir.

Em contrapartida, sempre que trabalhei com pessoas inteligentes ou em empresas ou em momentos em que as administrações eram globalmente inteligentes, que motivante foi, que desafiante, que entusiasmante. Ou conduzir equipas de pessoas inteligentes, que bom, que bom que é.

Politicamente é a mesma coisa: quantas vezes tive discussões escusadas pois estive a tentar demonstrar a vacuidade ou a inconsequência de propostas junto de pessoas que se recusaram a ouvir os meus argumentos e que persistiam em defender posições erradas à luz da lógica e da razão.

Devia ter visto este vídeo antes. Querer demonstrar um raciocínio lógico junto de quem não é capaz de o acompanhar é como querer instalar a última versão de um sistema operativo numa máquina de escrever. Não vale a pena. 

Mas vejam o vídeo e ajuízem se vos parece ou não interessante. É relativamente longo mas vale a pena. Claro que os ignorantes, que não sabem que o são, pensarão que encaixam na categoria dos inteligentes. Mas isso, já sabemos, é o costume. 

É como o Trump: acha-se o maior e vá lá alguém tentar convencê-lo que as suas ideias são fantasiosas, estúpidas, ridículas. Aliás, é difícil ver e ouvir este vídeo sem pensar em como realmente se aplica a tantas situações reais da nossa vida e, em particular, da realidade política actual.

Mas, enfim, é o que é. O mundo é assim mesmo e a gente tem é que aprender a posicionar-se.

E se os filósofos a sério que por aqui passem acharem que tudo isto é uma pepineira, pois muito bem, cá estou, receptiva para aprender com quem sabe. É dizerem de vossa justiça.

Como as pessoas inteligentes lidam com as pessoas estúpidas — Schopenhauer

Arthur Schopenhauer compreendeu aquilo que a maioria das pessoas se recusa a aceitar: a lógica é impotente contra a ignorância deliberada. Neste vídeo, exploramos a filosofia implacável de Schopenhauer sobre como as mentes inteligentes se podem proteger dos efeitos psicologicamente desgastantes de lidar com pessoas irracionais, tolas e deliberadamente ignorantes. (...)

Aqui poderá aprender:

— Porque é que discutir com um tolo é suicídio intelectual

— Como utilizar o absurdo como arma, utilizando a redução ao absurdo (reductio ad absurdum)

— O método da quarentena psicológica para proteger a sua mente

— O Dilema do Porco-Espinho de Schopenhauer e o distanciamento estratégico

— A Estratégia da Submissão: Como Sima Yi derrotou um poderoso tolo

— Porque é que a sua empatia está a alimentar a ilusão deles

— Como fazer a transição da inteligência para o verdadeiro poder

Não se trata de arrogância. Trata-se de estratégia. A sua energia mental é finita. Deixe de a desperdiçar com pessoas comprometidas com a sua própria ignorância.

Referências e Pesquisa:

📚 "A Arte de Ter Razão" — Arthur Schopenhauer

📚 "Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar" — Daniel Kahneman

📚 "A Armadilha da Inteligência: Porque é que as Pessoas Inteligentes Cometem Erros Burros" — David Robson

Relembro que poderão optar por legendas (automáticas) em português. 

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Nota: as duas imagens que juntei ao texto foram geradas através de Inteligência Artificial

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Desejo-vos uma boa semana

quinta-feira, março 19, 2026

Conversar, ouvir

 

Quando estou com alguma das minhas amigas mais antigas, mal nos vemos desatamos a conversar como se não tivesse havido tempo de permeio. Aquelas com quem mais gostava de estar em miúda continuam a ser aquelas de quem ainda mais gosto. Não são iguais a mim. Cada uma delas tem coisas que vão quase em sentido oposto ao que eu sigo. Mas, ainda assim, nas nossas diferenças, entendemo-nos. Gostamos de ouvir as opiniões umas das outras. Para quem não tem problemas de maior, conversar assim deve ser tão bom e tão válido como fazer terapia. Tudo o que alguma de nós diz não encontra espanto ou censura nas outras, encontra aceitação, vontade de compreender. Não há vergonha nem inibição.

Nunca fiz terapia, nunca senti necessidade. Pelo contrário, gosto é de ouvir as outras pessoas. Já contei muitas vezes este fenómeno: sem que me conheçam, as pessoas desatam a falar-me da sua vida. Sempre assim foi. Mesmo agora no ginásio isso acontece. Uma companheira, digamos assim, com quem lá me cruzo com alguma frequência, quando estamos as duas ao lado uma da outra, conta-me tudo e mais alguma coisa sobre a sua vida. No fim, já despachado, o meu marido fica à minha espera no sofá, a ver televisão, pois a conversa costuma demorar. Nem sei o nome dela nem ela o meu, e no entanto sei como se chamam o marido e os ex-maridos, sei porque se separou dos ex, sei o que a encanta no actual, sei dos desaires da filha, sei de muita coisa. E a sensação que tenho é que mal abro a boca. O meu marido costuma dizer, ao ver como as pessoas se abeiram de mim e desatam a falar: 'se não desses conversa, a ver se a conversa durava tanto...' Mas a conversa que ele diz que dou não é nenhuma, limito-me a ouvir com atenção, eventualmente faço uma ou outra observação. 

Quando no fim do outono passado almoçámos passámos a tarde com uns amigos, alguns com quem já não estava há bastante tempo, para o fim, um que é muito conversador desatou a contar-me coisas. O meu marido sentou-se num banco, incapaz de acompanhar. Mas um outro que estava também sentado nesse banco, levantou-se e veio mostrar-me umas fotografias, de certa forma interrompendo a conversa do outro. E eram fotografias de uma mulher muito bonita, que ele mostrava embevecido. Eu não a conhecia. Disse-me depois que era a mulher, que tinha morrido há uns dois ou três anos, salvo erro e que eu nunca tinha conhecido. Vi que continuava apaixonado por ela. Ora ele estava lá, naquele dia, com a namorada, namorada essa que, quando me tinha apanhado sozinha, também me tinha estado a contar toda a sua vida e como, agora, com este namorado, continuava a morar cada um em sua casa, tanto mais quanto, em casa dele, havia fotografias da mulher por todo o lado. Então, quando ele estava a mostrar-me as fotografias da mulher, linda, eu estava a modos que meio desconcertada por ver como, se calhar, ele ainda não estava preparado para estar a viver um namoro quando ainda se derretia todo a mostrar fotografias da mulher. Claro que não disse nada, não apenas porque o meu outro amigo, que este tinha interrompido, estava à espera que ele acabasse para retomar a conversa, como o meu marido não parava de me fazer sinais para nos irmos embora.

Quando chegámos ao carro, queixou-se do que se queixa sempre, que me deixo ficar a ouvir as pessoas, que não percebo que, se não as interromper, as pessoas não se calam. E eu, de certa forma, até concordo: as pessoas começam a falar comigo e não param de falar, e, por isso, custa-me desligar-lhes o botão. Pergunta porque é que não faço como ele. Respondo que não faço porque não sou capaz. Ele desliga. Ora como posso fazer isso com as pessoas a confidenciarem-me sobre as suas vidas?

Disse lá em cima que nunca fiz terapia, e é verdade. Mas, quando a minha mãe estava internada, nos Cuidados Paliativos, as médicas disseram à psicóloga que achavam que eu precisava de apoio e, então, ela procurou-me. Falei com ela, não me recordo se duas ou três vezes e foi muito útil, gostei bastante, ajudou-me. E, naquela altura em que eu estava meio perdida, desorientada, quase sem saber interpretar o que estava a acontecer e a querer que tratassem a minha mãe em vez de tentarem convencer-me que já não havia nada a fazer, foi bom ter alguém a fazer-me perguntas, a ouvir-me, a ajudar-me a interpretar. Lembro-me que desatava a chorar e que ela me dizia que era natural que eu estivesse assim, e continuava a falar como se, de facto, a minha reacção fosse normal, dizia que era normal eu estar até quase revoltada por a minha mãe ter escondido tudo e estar, até ao fim, a fazer de conta que não sabia o que tinha, deixando-me sem saber como agir.

Estávamos sentadas ao mesmo nível, ela num sofá, eu num outro, perto uma da outra. 

Não sei se funcionaria se eu estivesse deitada num sofá e ela sentada, num nível mais elevado. Não sei. Não sei se uma pessoa deitada, se abandona, se se expõe mais facilmente. Não sei.

Aqui à noite, sem televisão ligada, vou vendo o que o algoritmo do Youtube tem para me mostrar. E tenho gostado de ver as conversas de algumas pessoas interessantes, deitadas no sofá, com a anfitriã, sentada num outro plano. Com uma câmara apontada ao rosto, sabendo que a conversa está a ser gravada, não sei se conseguiria desinibir-me e conversar sobre tudo. E, mesmo pondo-me no papel de quem ouve o que outra pessoa fala sobre a sua vida, não creio que me sentisse confortável estando o outro ali deitado no sofá. Mas, se calhar, funciona. Pelo menos, aqui, como abaixo poderão constatar, funciona.

Neste caso a conversa é com Helena Bonham Carter, que admiro bastante, é uma excelente diseur e uma excelente actriz. E quem conduz a conversa é Bella Freud, filha do pintor Lucian Freud e bisneta de Sigmund Freud. E divertem-se imenso, a conversa é gostosa. E falam com vagar, o que é muito bom. Conversar requer tempo, disponibilidade.

Helena Bonham Carter fala sobre traseiros proeminentes, androginia e a Princesa Margarida | Fashion Neurosis

Helena Bonham Carter é uma atriz inglesa. Conhecida pelas suas interpretações de mulheres interessantes e singulares, alcançou a fama ao interpretar Lucy Honeychurch em Um Quarto com Vista, em 1985, e a personagem-título em Lady Jane, em 1986. Em 1999, Bonham Carter rompeu com a imagem de "rosa inglesa" ao interpretar a mulher fatal Marla Singer em Fight Club. Interpretou a malévola bruxa Bellatrix Lestrange na franquia Harry Potter e, mais recentemente, a Princesa Margarida em The Crown, papel pelo qual foi nomeada para vários prémios. Helena vai protagonizar uma nova adaptação de Os Sete Relógios, de Agatha Christie, para a Netflix em janeiro de 2026.

Helena Bonham Carter tem dois filhos com o realizador Tim Burton. Conheceram-se em 2001 no set de O Planeta dos Macacos, e o casal colaborou em sete filmes, incluindo A Noiva Cadáver e Alice no País das Maravilhas, até à separação em 2014.

Conhecida pelo seu amor por calças abalonadas, saias compridas e estilo vitoriano, Bonham Carter lançou a sua linha de moda, The Pantaloonies, em 2006. Protagonizou campanhas para Marc Jacobs e Prada, e citou Vivienne Westwood e Maria Antonieta como as suas inspirações de estilo.

Bonham Carter recebeu um prémio BAFTA, um Critics' Choice Movie Award, um Emmy Internacional e três prémios do Screen Actors Guild, além de ter sido nomeada para dois Óscares, nove Globos de Ouro e cinco Primetime Emmy Awards. Foi nomeada Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE) na lista de Honras de Ano Novo de 2012 pelos serviços prestados ao teatro.

Neste episódio de Fashion Neurosis, Bella Freud e Helena Bonham Carter discutem sobre roupas andróginas, rabos proeminentes e a palavra "vagina" como o novo elogio.

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Boas conversas

Dias felizes

segunda-feira, março 16, 2026

Pessoas com QI extremamente elevado...?


Não que eu sofra demasiado do chamado síndrome do impostor mas, com alguma frequência, ainda me surpreendo ao constatar que pessoas que se sentem extremamente autoconfiantes e que exibem grande conhecimento e à vontade oratório, quando postas à prova, vêm a revelar-se, afinal, bem mais limitadas do que ostentavam, não tão mais intelectualmente superiores que eu como, à primeira vista, se poderia pensar.

Um exemplo disso, que ficou muito marcado em mim, tem a ver com a minha entrada na faculdade. Uma das cadeiras daquele horroroso 1º ano era um pesadelo, uma coisa difícil de descrever. Pelo menos para mim era. A sala era enorme e não era em anfiteatro. Imagino que haveria lá, à vontade, para cima de cem pessoas. Só se devia ver bem na primeira ou na segunda fila. Mas eu não me sentia bem ali à frente, no meio de gente tão marrona. A professora era baixinha, mal se via das últimas filas, e falava muito depressa, tinha péssima dicção. E enchia quadros gigantes a grande velocidade. Para conseguir transcrever tudo o que ela dizia, eu não tinha tempo para processar. Se me atrasava, perdia-me de todo pois o quadro estava pejado de gatafunhos despejados a granel. Ela não contextualizava, não enquadrava. Limitava-se a despejar. E eu não conseguia acompanhar aquela enxurrada permanente de matéria. Vinha de ser a melhor aluna do meu ano na minha escola e, ali chegada, sentia-me a mais burra das criaturas. Parece que quase toda a gente percebia tudo, menos eu. No início da aula, havia uma dúzia de alunos que iam, muito íntimos da professora, colocar questões sobre trabalhos que tinham feito em casa. E pareciam dominar tudo de trás para a frente. Eu vinha também de um ambiente de convivência permanente, de muitas festas de aniversário e tardes dançantes, idas ao cinema e passeios à beira mar, muita amizade, namoros, alegria e irreverência. Pois ali ninguém queria saber de nada disso. Todos pareciam bem comportados, só queriam saber de engraxar os professores e estudar, e, mal acabavam as aulas, todos se evaporavam. Pensei seriamente em desistir. Parecia não me enquadrar ali. Nas outras cadeiras não era tão grave mas, ainda assim, o padrão era o mesmo: matéria despejada aos baldões, sem enquadramento, sem que os professores explicassem o interesse, a utilidade ou a beleza do que ali se ensinava. Mas parece que só eu me incomodava com aquilo e me sentia desajustada e, sobretudo, sem conseguir captar e assimilar quase nada do que ali se passava.

Vieram os primeiros exames. Salas gigantes, mesas individuais, completamente separados uns dos outros. Nunca antes eu tinha feito um exame, tinha dispensado sempre. Estava enervada e com a sensação que ia ter a pior nota de entre aquele batalhão de gente iluminada. Ia humilhada por antecipação. Achava que os resultados confirmariam que tinha que mudar de curso.

Fiz o que pude com a sensação de aflição de ver ali coisas que não sabia ou para as quais não tinha tempo para conseguir pensar e resolver. Nunca antes tinha passado por essa sensação. Saí de lá a pensar que se reprovasse não me admiraria nada. Apenas a uma cadeira fui com confiança, com a consciência de que sabia apenas uma pequena parte do que havia para saber mas com a sensação que tinha conseguido tocar o véu que envolvia aqueles assuntos que me pareciam tão fascinantes.

Quando saíram as notas, ia com o coração aos saltos, mentalizada para o pior. Naquela cadeira horrível, em que me sentia a mais burra da sala, vi uma pauta cheia de números encarnados à frente dos quais se escrevia 'reprovado'. Até que cheguei ao meu nome. 12. Nunca tinha tido uma nota tão baixa em toda a minha vida... mas, caraças, não sabia como mas tinha conseguido passar... Em contrapartida, quase toda aquela gente que exibia despudoradamente sapiência e à vontade tinha reprovado. Uma razia. Fiquei espantada, nem conseguia perceber. 

(Nas outras disciplinas tive notas um pouco mais altas e, naquela de que gostava mesmo, tive uma nota mesmo muito alta.)

Para mim foi uma lição. Assistindo ao comportamento das salas, eu não daria nada por mim. Certamente ninguém daria nada por mim. Sentia-me limitada, desajustada, burra. E, afinal, ao sermos avaliados, os resultados provavam o contrário do que parecia.

E ao longo de toda a minha vida constatei isto mesmo: nem sempre os mais exuberantes, os mais imediatistas, os mais extrovertidos, os mais autoconfiantes, os que sabem tudo e nunca se enganam, os que dizem que estão tão certos da sua razão que se fizessem a mesma coisa que fizeram há vinte anos, fariam exactamente da mesma maneira, são os que mais sabem. 

E não digo isto para me auto-valorizar pois estou muito longe de ser a última batata frita do pacote ou a última coca-cola do deserto ou porque o que eu sou ou deixo de ser não tem qualquer interesse nem para mim nem para ninguém. Digo isto porque estou farta de ver comentadores de tudo e mais alguma coisa, todos a falarem de qualquer assunto, todos a saberem de tudo, todos muito convictos das suas razões, todos a dizerem uma coisa e o seu contrário sem pestanejarem, picaretas falantes. Começa uma guerra aqui ou ali e eles sabem tudo, detêm o ex-príncipe André e lá estão eles, a saberem tudo sobre a Casa Real britânica, depois há um ataque a uma sinagoga e aí estão eles, a saberem tudo sobre religiões e história e geografia associada ao tema. Antes, na minha adolescente inocência, eu teria pensado que são todos tão inteligentes, tão sabedores, tão fantásticos, que nem dava para imaginar, e sentir-me-ia burra por não lhes chegar aos calcanhares. Hoje o que penso é que mais valia que não se desse tanto palco a tanto papagaio. A poluição que tanto comentário gera é atrofiante. E cansa. 

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Estou a ver a reportagem da entrega dos Oscares, mas como, até agora, está a ser muito sensaborona, com aquela minha mania de estar sempre com um olho no burro e outro no cigano (ditado popular que se calhar se tornou inconveniente...😏), estou, ao mesmo tempo, a ver o youtube. E apareceu-me um vídeo interessante, que fala um pouco nestes aspectos. 

Se V., meu Caro/a Leitor/a, quer saber se é muito inteligente ou se nem por isso, veja se se identifica com as características que aqui se enunciam (isto partindo do princípio de que quem fez o vídeo sabe do que fala).

Psicologia das pessoas com QI extremamente elevado

Já alguma vez se perguntou por que as pessoas extremamente inteligentes parecem, por vezes, um pouco diferentes?
Elas nem sempre são as mais barulhentas na sala.
E não sentem a necessidade de provar o quão inteligentes são.

Mas, se observar com atenção, vai notar pequenos sinais no seu comportamento que revelam como a sua mente funciona.

Segundo a psicologia e a neurociência, pessoas com QI muito elevado costumam desenvolver hábitos que refletem a forma como processam informações, analisam situações e entendem o mundo à sua volta.

Neste vídeo, exploram-se 10 hábitos que são comuns entre pessoas com inteligência acima da média.

Descubra:
• Por que pessoas inteligentes adoram passar tempo sozinhas
• Como a curiosidade se torna um motor mental poderoso
• Por que falar consigo mesmo pode melhorar o controlo da mente
• Por que dizer “Não sei” é algo natural para elas
• A ligação surpreendente entre pensar demais e inteligência
• Por que ter bom humor está ligado a um cérebro avançado
• Como a flexibilidade mental permite mudar de opinião com base em novas evidências
• Por que alguns se sentem mais alertas e criativos à noite
• O poder de observar mais do que falar
• E por que procuram sempre um significado mais profundo na vida

Este vídeo não é só sobre inteligência.
É sobre entender a psicologia humana, os padrões de pensamento e a forma fascinante como o cérebro interpreta o mundo.

A verdadeira inteligência nem sempre se faz ouvir.
Às vezes, é uma mente tranquila que continua a questionar, analisar e explorar.

Mantenha-se curioso. A mente humana é muito mais fascinante do que imaginamos. 


Se gosta de descobrir a psicologia por trás do comportamento humano e entender como a mente funciona, inscreva-se no Psychology Insight para mais vídeos como este
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Desejo-vos uma boa semana

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Será possível que o mundo esteja nas mãos de alguém que padece de demência frontotemporal?



Tenho visto entrevistas ou vídeos de médicos americanos que convergem na opinião de que Trump padece de demência frontotemporal. Inicialmente havia quem dissesse que poderia ser Alzeihmer, tal como o pai teve, mas agora todos referem que parece não ser isso mas algo com consequências piores dadas as funções que ocupa.

Pedi ao chatGPT que caracterizasse essa doença e transcrevo parte da informação que obtive.

A demência frontotemporal (DFT) é um grupo de doenças neurodegenerativas que afetam sobretudo os lobos frontal e temporal do cérebro — áreas responsáveis pelo comportamento, personalidade, linguagem e funções executivas (planeamento, controlo emocional, julgamento).

Ao contrário de outras demências, no início a memória pode estar relativamente preservada. O problema principal está no comportamento, personalidade ou linguagem.

Sinais típicos:

    • Mudanças de personalidade marcadas
    • Falta de empatia
    • Comportamentos socialmente inadequados
    • Impulsividade
    • Apatia ou perda de iniciativa
    • Desinibição (dizer coisas impróprias, gastar dinheiro impulsivamente, etc.)

Afeta a linguagem. Pode causar:

    • Dificuldade em encontrar palavras
    • Fala lenta ou com erros
    • Dificuldade em compreender frases
    • Problemas em nomear objetos

Evidências e sinais de alerta

- Alterações comportamentais:
  • Indiferença emocional
  • Falta de autocontrolo
  • Repetição de comportamentos (rotinas obsessivas)
  • Alterações alimentares (ex: comer exageradamente doces)
  • Alterações cognitivas
  • Dificuldade em planear
  • Perda de capacidade de tomar decisões
  • Diminuição do pensamento abstrato
- Linguagem
  • Fala pobre ou com erros
  • Dificuldade em compreender ou expressar ideias
Como é diagnosticada

O diagnóstico baseia-se em:
  • Avaliação clínica e neurológica
  • Testes cognitivos
  • Exames de imagem (TAC ou ressonância magnética)
  • Às vezes exames genéticos
Prognóstico
  • Evolução média: 6 a 10 anos após início dos sintomas (mas pode variar)
  • Geralmente progride mais rapidamente que a doença de Alzheimer
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Tem sido o próprio Trump a referir que tem feito testes cognitivos (que ele se gaba de acertar em tudo, a começar por identificar a girafa e o elefante) bem como Ressonância magnética ou TAC. 

E parece estar a perder os poucos filtros internos que tinha e a ter as suas capacidades cada vez mais deterioradas: insulta pessoas, toma decisões erráticas, parece não planear nada do que decide nem acautelar as consequências, inventa as mais desvairadas aldrabices em que parece mesmo acreditar, demonstra não se informar sobre as matérias sobre as quais decide, passa a vida a adormecer nas reuniões, nas conferências de imprensa e até já adormeceu de pé.

Li que há opiniões médicas a referir o seu estado de declínio desde o 1º mandato, o que o colocaria já na recta final do percurso da doença. Como sou leiga na matéria, não consigo avaliar mais do que o que salta à vista de toda a gente (de toda a gente menos dos MAGAs, claro)

Com o poderio militar de que os Estados Unidos dispõem, com um gabinete de gente fraca e bajuladora em que não se consegue perceber quem é que, de facto, manda ali, a ser verdade que Trump padece mesmo de demência frontotemporal, ter à frente dos destinos do mundo uma pessoa que não mede o que diz ou faz parece ser causa para alarme.

Estou certa de que meio mundo deve andar já a estudar formas de 'atacar' o problema caso venha a tornar-se evidente que não pode continuar ao leme do país. O pior é o que ele ainda irá fazer até que o retirem. Por exemplo, a situação do Irão pode ser explosiva e ter consequências dramáticas e duradouras. Mas saberá ele avaliá-las? Tenho muitas dúvidas.

Vejo muitas discussões políticas e muitos comentadores a analisarem as suas decisões como se fossem ideológicas. E não vejo que as analisem como me parece que deveriam também ser analisadas, como provas de um caso clínico.

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Junto o vídeo em que Joanna Coles conversa, de novo, com o Dr. John Gartner para analisarem os acontecimentos mais recentes. Como sempre, é interessante e, até, divertido. Poderão accionar a tradução automática para língua portuguesa.

Porque é que o ego instável de Trump está a deixar o mundo em alerta | Podcast do The Daily Beast


O Dr. John Gartner junta-se a Joanna Coles para uma análise profunda e instigante do que ele defende serem os sinais crescentes de declínio cognitivo e comportamental em Donald Trump — desde palavras confusas e histórias desconexas até grandiosidade, paranóia e o espetáculo de adormecer no seu recém-formado Conselho da Paz. Enquanto dissecam a história da conspiração da escada rolante de Trump, a obsessão com a aparência, a fixação em nomear pontos turísticos em sua homenagem e os discursos noturnos nas redes sociais, a conversa alarga-se aos verdadeiros riscos: os códigos nucleares, a política de risco no Médio Oriente, as eleições intercalares e aquilo a que o Dr. Gartner chama uma perigosa combinação de ferida narcisista e poder desenfreado. Com referências à Gronelândia, Gaza, Irão, ao Departamento de Justiça e até à sombra dos arquivos de Epstein, Coles questiona se ainda existem mecanismos institucionais de proteção — ou se o impulso orienta agora as políticas.

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Desejo-vos uma boa semana

domingo, fevereiro 08, 2026

A psicologia das pessoas que têm um forte apego aos seus cães

 

O meu filho repreende-me: 'Não fales com ele como se fosse um bebé. Não é. É um cão.'. Bem sei. Mas é também um serzinho dependente de nós, um serzinho que precisa de atenção e de mimo. Claro que depois também é independente, por vezes barulhento, por vezes desaustinado. Mas também nos divertimos com isso. 

E, se o carteiro deixa qualquer coisa, eu sei logo. E, se vem alguém e não ouço a campainha, ele não se cala até eu perceber que alguém está ao portão. E se vou na rua e me cruzo com alguém que, noutra situação, me atrofiaria um pouco, com ele ao meu lado sinto-me segura. 

E a ternura que sinto quando se senta todo encostado a mim e deita a cabeça na minha perna ou quando faz uma habilidade e se vira a olhar para mim enquanto dá ao rabo e todo ele parece rir, isso não tem explicação.

Por isso, no seguimento do post de ontem, não levem a mal se reincido mas gostava que vissem este vídeo:

A psicologia das pessoas que estão profundamente apegadas aos seus cães vai para além da simples amizade. É uma necessidade biológica. Este vídeo explora a neurociência da ligação humano-cão, explicando porque é que o seu cão não é apenas um animal de estimação, mas um "guardião" do seu sistema nervoso.

Se se sente mais seguro com o seu cão do que com a maioria das pessoas, não está sozinho. Neste ensaio visual, mergulhamos nos conceitos de "Corregulação", "Testemunha Silenciosa" e porque é que os cães são essenciais para a estrutura da saúde mental. Discutimos como os cães ajudam a lidar com a ansiedade, a depressão e a solidão, ancorando-nos no momento presente.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Solidão

 

No tema das doenças mentais há várias vertentes, qual delas a mais interessante e, talvez, a mais complexa. Como leiga, direi: misteriosa. 

De um lado há as causas, muitas vezes ocultas, da doença. E, num outro lado, há os meios para as descobrir ou controlar. De forma mais material, de um lado estão as pessoas que têm os problemas e de outro estão as pessoas que conseguem tratar as primeiras.

Se nem sempre é fácil a quem tem ataques de pânico ou sofre de depressão ou de uma qualquer outra patologia perceber o que origina as crises também não será menos verdade que também não é fácil encontrar o terapeuta que acerta na abordagem ou que consegue despertar a confiança virtuosa junto de quem precisa de apoio.

Tenho aqui partilhado diversos vídeos sobre o tema e fica claro que estes domínios não são da ordem da ciência exacta. E fica também claro que o tempo dos estigmas ou dos tabus deve ser do passado. Tem que ser do passado. Ninguém está livre de ter um problema destes ou de ter que lidar com quem esteja afectado. E é importante que todos estejamos sensibilizados para esta temática seja por nós seja para podermos compreender e apoiar quem disso precisar.

Mas se as causas profundas destes distúrbios são misteriosos, também o são os vínculos entre médico/psicólogo/terapeuta e o doente, ou a forma como o terapeuta tem que se despir de si próprio para conseguir alcançar o paciente.

Já falei várias vezes de uma amiga psiquiatra que é das pessoas com a vida mais problemática que conheço. Perdi-lhe, entretanto, o rasto pois divorciou-se e éramos amigos do casal e algo se desmoronou depois dos inúmeros conflitos que ensombraram o fim do casamento. O meu marido chegou a um ponto em que, de cada vez que estávamos com eles, me dizia: 'Não tenho paciência para aturar esta maluca'. E chegava a sair da sala em que ela estava de tal forma ficava exasperado. Sendo fisicamente uma bela mulher e aparentemente normal, era, de facto, uma mente perturbada. No entanto, a nível profissional, parece que era muito competente. Chegou a directora do serviço num grande hospital. E depois deixei de saber dela. Com isto das redes sociais, descobri, no outro dia, que é amiga de um amigo meu. E vive no estrangeiro. Hei-de saber dela. Mas o que me espanta é como é que uma pessoa com forte pancada consegue ajudar os doentes de foro mental a encontrarem equilíbrio quando ela é, na sua vida pessoal, completamente desequilibrada.

Conheço também uma psicóloga, embora não tão bem como a psiquiatra. Mas, do que lhe conheço, também lhe detecto aqui e ali uns pontos que me colocam alerta. No outro dia estava com duas amigas que a conhecem muito bem e que se referiram a ela como alguém com alguns desequilíbrios. E, no entanto, profissionalmente, é conceituada e reconhecida. Portanto, há nisto também um certo mistério.

O vídeo abaixo é muito interessante. Sem meias palavras, com muita objectividade, Henrique Dias descreve o surgimento dos primeiros sinais e guia-nos pelos caminhos da sua ansiedade, da sua depressão, dos tratamentos, da procura do terapeuta que, finalmente, conquistou a sua confiança e conseguiu conduzi-lo para fora dos labirintos onde o negrume imperava.

Diz ele que quem tem problemas de ansiedade ou depressão muitas vezes não o partilham. Talvez  por amor aos mais próximos, para não os preocuparem. Talvez por incapacidade. Talvez caiba, pois, a quem está bem a responsabilidade por estender a mão. Não deixemos que os que se sentem sós no seu sofrimento, por dificuldade em sair da solidão, não possam contar com a ajuda de quem poderia ser, de alguma forma, uma boia de salvação.

Henrique Dias, depressão e ansiedade. “Há uma solidão tremenda nas doenças mentais”

Foram precisos 12 anos, a partir do diagnóstico, para encontrar o psiquiatra certo para ele e a terapia que o pôs no caminho onde está hoje. Henrique Dias, guionista, autor de inúmeros textos no teatro e na televisão e um dos criadores da série “Pôr do Sol”, da RTP, era um jovem de 22 quando teve o primeiro ataque de pânico. No Labirinto — Conversas sobre Saúde Mental, fala do percurso entre o diagnóstico, o internamento num hospital psiquiátrico e a descoberta da psicanálise.


Desejo-vos uma boa semana

segunda-feira, novembro 10, 2025

O mentalista

 

Eu sei, ou julgo que sei, que um mentalista é um ilusionista que, em vez de trabalhar com cartas ou com lenços ou coelhos a saírem da cartola, trabalha com a observação, com a psicologia, com a manipulação. 

E, no entanto, tal como, quando assisto a passes de magia, fico sempre entre o estupefacto e o estarrecido como se estivesse a assistir a alguma coisa impossível, também ao assistir às proezas dos mentalistas, fico incrédula, como se não pudesse ser, como se fosse coisa que transcende o que a razão consegue alcançar.

Idêntica reacção vejo nos que se sujeitam às experiências. Arrepiam-se, sentem que a sua mente está  ser devassada, não conseguem compreender o que aconteceu, assustam-se.

Eu jamais me sujeitaria.

Por exemplo, nunca deixei que ninguém me hipnotizasse. Tive um professor que dizia que conseguia hipnotizar. Aparentemente, conseguia mesmo. Assisti a sessões disso. Ele perguntava quem é que queria colaborar e, claro, havia sempre destemidos que avançavam. Alguns iam com a ideia de o desafiar, não se deixando hipnotizar nem por mais uma. E lembro-me de cenas incríveis. Uns faziam figuras patéticas, totalmente vertidos para o personagem que o professor os mandava encarnar, outros resistiam ou fingiam e nós sofríamos ao ver o professor ao ver a sua arte ser questionada. Eu, nunca por nunca, conseguiria expor-me sem controlo sobre os meus actos. Não consigo estar em situações em que não tenha total domínio sobre mim própria. Por isso, nunca me embebedei, nunca me droguei. O mais que fui nesse domínio foi a sedação de quando fiz colonoscopia ou a epidural aquando da artroscopia. Mas aí foi porque teve que ser e, em qualquer dos casos, não fiquei acordada a fazer ou a dizer disparates. Puseram-me a dormir e foi tudo.

Nisto do mentalismo, apesar de saber que aquilo não tem nada a ver com sobrenaturalidades e que, no fundo, o que ali há são truques -- ou melhor, técnicas --, como não as consigo divisar, parecem mesmo uma estranha divinação e causam-me alguma inquietação.

Não obstante, gosto de ver. Talvez porque gosto de tentar perceber como o conseguem.

E, de entre os mais conhecidos mentalistas da actualidade, destaca-se Oz Pearlman. E é levado tão a sério que é convidado para palcos prestigiados.

É ver para crer. 

Mentalista partilha alguns truques com Anderson Cooper

Diz que lê pessoas, não mentes — e não é nenhum mágico. O mentalista Oz Pearlman revela como as capacidades que impressionam as celebridades e os CEO podem ajudar qualquer pessoa a destacar-se, numa entrevista emocionante com Anderson Cooper, da CNN.

O mentalista Oz Pearlman impressiona toda a gente, de Joe Rogan a magnatas da tecnologia | 60 Minutos

O mentalista Oz Pearlman lê as pessoas tão bem que parece ler mentes. Partilha insights sobre os truques que intrigam bilionários, celebridades e atletas em plateias por todos os Estados Unidos.
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Desejo-vos uma boa semana

Dias felizes

quinta-feira, outubro 30, 2025

O que 85 anos de investigação apontam como a verdadeira chave para a felicidade

 

Continuo com severas limitações no computador e isso corta-me a disposição para escrever pois estou habituada a deixar que os dedos se aventurem à vontade sem que eu tenha que vigiá-los. Ora, agora, para conseguir usá-lo é uma ginástica e um esforço mental para os quais já estou destreinada. Para além das limitações que só com muita dificuldade consigo ultrapassar como, por exemplo, colocar acentos graves ou travar letras que ele desata a escrever sozinho e que me vejo aflita para controlar... Terei que levá-lo a uma loja, mas, caraças, custa-me deixar a minha caixinha dos segredos nas mãos sabe-se lá de quem. Não sei, não.

Por exemplo, estive a ver um vídeo com uma interessante entrevista a Brian Cox, um bacano por quem desenvolvi uma embirração de estimação só porque aquele cabelinho à f...-se e aquele sorrisinho que me parece um misto de falso maroto e de sonsinho abetalhado (abetalhado, de betinho apetatado) tendem a distrair-me do que ele diz. Mas ele sabe do que fala e sabe falar de forma clara e explícita, e isso eu tenho que receber.

Só que o tema da entrevista é, de facto, tão interessante e tem tanto que se lhe diga que me sinto inibida sabendo que vou estar a lutar com o teclado, a tentar encontrar atalhos ou correcções para os disparates que vejo aparecer no ecrã. 'Há vida depois da morte'', é um dos temas que ele aborda. Ora, posso eu chapar aqui um vídeo com temas tão do caraças e não dizer de minha justiça? Não posso, não é? Por isso, tenho que passar adiante.

Assim sendo, vou antes partilhar um vídeo, não tão complexo mas também imperdível, no qual o psiquiatra e professor em Harvard Robert Waldinger fala de um estudo que vem sendo conduzido há 85 anos sobre a felicidade. Não é coisa pouca. A felicidade é dos temas mais relevantes em qualquer sociedade, em qualquer extracto social, em qualquer faixa etária. Sermos felizes, verdadeiramente felizes, é o que todos queremos para nós e para aqueles a quem mais queremos. Contudo, não me parece que seja um objectivo a perseguir a qualquer custo, uma daquelas felicidades instagramáveis, enquadradas em cenários cinéfilos, em que as poses são estereotipadas e as conversas são vãs, conjugadas em torno de lugares comuns. Essa felicidade é efémera, artificial. Vejo mais a felicidade como o prazer de estar bem com as pequenas coisas, como a alegria simples de existir. Mas isto sou eu, leiga, leiga, a dizer.

O vídeo é longo mas é muito interessante. E também não tem que ser visto de penálti... E está legendado. E tem matéria interessante. Solidão, isolamento, partilha, convívio. E de quantos amigos chegados precisamos para sermos felizes? E a nossa experiência infantil tem impacto na nossa felicidade'

What 85 years of research says is the real key to happiness | Robert Waldinger

“Podemos aumentar as nossas hipóteses de sermos felizes construindo uma vida que inclua as condições que contribuem para a felicidade.”

E se o segredo para uma felicidade duradoura estivesse mesmo à frente dos nossos olhos? O psiquiatra de Harvard, Robert Waldinger, revela as conclusões do estudo mais longo do mundo sobre a vida adulta, com 85 anos de dados que desafiam as nossas suposições sobre o sucesso, a saúde e a realização pessoal.

Waldinger explica como as nossas relações e ligações — e não a nossa riqueza, fama ou sucesso — impactam diretamente a nossa mente, o nosso corpo e a nossa longevidade.

 

Dias felizes

sábado, outubro 25, 2025

Psicologia das pessoas que não publicam as suas fotos nas redes sociais

 

Não faço selfies, não tenho interesse em mostrar-me, nenhum, não me mostro com as minhas toilettes, não me mostro com a comida que vou comer, não me mostro com paisagens em fundo nem com o que quer que seja atrás, ao lado, em cima ou à frente. No mundo inteiro, tão cheio de coisas fantásticas, a última coisa que me interessa é desviar a atenção dessas coisas para me colocar a mim em primeiro plano.

E nem é só isso, é também porque não faço gosto em que vejam que estou feliz, que estou sorridente, que estou pensativa, sonhadora, brincalhona, bem ou mal conservada, bem ou mal amanhada. 

Sou o que sou e a mim basta-me o que sinto e como me vejo. Claro que também me interessa a opinião dos meus, mas interessa-me sobretudo numa perspectiva construtiva, ou seja, gosto que me sugiram dicas sobre como fico melhor. Mas se me disserem que, com este tempo, não faz sentido ainda andar de calções, estou-me nas tintas pois, se me sentir bem assim, é assim que vou andar. 

Mas também não faço disso um filme, não me vitimizo por me achar uma incompreendida (até porque não acho), nem me faço de heroína por achar que não cedo a modas (até porque não acho me heroína nem por isso nem por coisa alguma), nem me mostro nem assim nem assado pois a chuva é linda, as árvores, quando chove, são lindas, a urze é linda, a terra molhada é linda e cheirosa e tudo é uma maravilha -- e eu sou coisa nenhuma, sou irrelevante, uma poeira insignificante que é o que é, independentemente de acharem bem ou mal, gostarem ou não gostarem.

Dito isto, nada contra quem se acha o centro do mundo e se coloca no meio de todas as fotografias. É o que é, e são tantas as pessoas que o fazem que tenho que aceitar que é o novo normal -- o mar é lindo mas lá está o emplastro em primeiro plano, o jardim é uma graça mas lá está o emplastro a tapar parte da sua beleza. Por todo o lado. Mas, enfim, nada contra os emplastros. Se as pessoas sentem essa necessidade, lá terão as suas razões. 

Aliás, enquanto vou passeando à beira mar -- as águas revoltas, bravias, o céu lindíssimo --, o que mais vejo é gente de costas para o mar a fotografar-se com ele em fundo. Devo ser a única pessoa que se limita a fotografar o mar.

No entanto, não escondo que, de quando em quando, me ocorre que deve haver qualquer coisa em mim que me leva a não seguir essa tendência, a não ter qualquer interesse em partilhar a minha imagem. 

Pois bem, não sei porquê, hoje o algoritmo do youtube apareceu-me com o vídeo que aqui partilho. Gostei. Sim senhor, então é isso. Very well.

Vejam porque é interessante. E se V que me lê, meu Caro Leitor ou Leitora, é mais do tipo selfie, selfie, selfie, então veja o vídeo em reverso pois o que aqui se diz para os que não se mostram pode ser entendido ao contrário para os que se mostram. 

Psychology of People Who Don't Post their Photos on Social Media

Porque é que algumas pessoas nunca publicam fotografias online — nenhuma selfie, nenhuma atualização, nenhum vestígio da sua vida pessoal?

Num mundo que premeia a visibilidade, o silêncio delas sobressai.

A psicologia diz que este comportamento revela algo mais profundo — sobre confiança, limites e inteligência emocional.

Estas pessoas podem não ansiar por atenção, mas compreendem algo que a maioria de nós ignora sobre a natureza humana e o mundo digital.

Neste vídeo, descobrirá a verdadeira psicologia por detrás das pessoas que preferem a privacidade à popularidade — e porque é que isso pode ser um sinal de força, e não de insegurança.

Esta perceção vai além das redes sociais. Trata-se de autoconsciência, identidade e de quão profundamente as nossas mentes se adaptam à exposição constante.


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Desejo-vos um belo sábado
Be happy

sábado, outubro 18, 2025

Ataques de pânico

 

Já aqui trouxe várias vezes o tema das questões mentais. Sou muito sensível a isso. Aliás, recordo que, quando acabei o liceu, uma das minhas primeiras opções era a Psiquiatria. Pu-la de lado pois tirar primeiro medicina e ver-me confrontada com a presença mortos nas aulas de Anatomia era-me insuportável. Depois virei-me para Psicologia e ainda me lembro de andar com a minha mãe a procurar informação. Creio que fomos ao ISPA. Sem internet e sem informação facilmente consultável, tudo era complicado. Não conseguimos obter a certeza de que o curso era uma licenciatura e que os psicólogos poderiam exercer de forma certificada. Mas, sei-o agora, a informação que obtivemos não deve ter sido a mais correcta pois o que não falta são psicólogos mais ou menos da minha idade. desisti e fui para outra área completamente diferente. Mas o gosto por compreender o outro e de ajudar quem precisa na medida das minhas possibilidades manteve-se.

E gosto de compreender o que se esconde sob as aparências e gosto de compreender os mecanismos físicos que fazem com que tantas vezes reacções psicológicas sejam percepcionadas como reacções físicas. E são mesmo físicas. Só que o que as desencadeia não é muitas vezes uma doença 'física' mas uma reacção emocional inoportuna, descontrolada.

Felizmente tenho sido bafejada pela sorte e, até hoje, nunca me aconteceu que a ansiedade passasse das marcas e desencadeassem em mim reacções que não conseguisse controlar. Profissionalmente lidei com assiduidade com situações de stress, tive frequentemente de me expor, apresentando opiniões divergentes da linha mais corrente, tive que enfrentar quem queria impor a sua vontade contra a minha. Acontece que, nesses momentos, uma calma que até enervava os outros parecia tomar conta de mim. Pessoalmente, em particular com os problemas de saúde dos meus pais, quer com o lento e doloroso declínio do meu pai quer com a situação complexa da minha mãe que encobriu um segredo enquanto se deixava consumir pelo medo que não assumia, não têm conta os momentos de tremenda ansiedade que se ia progressivamente instalando dentro de mim, tendo inclusivamente pensado que era quase impossível que uma depressão não me colhesse. Mas, não sei como, o meu corpo sempre se conseguiu aguentar. Sorte, apenas. 

Mas trabalhei com um jovem alegre, talentoso, muito competente, reconhecido por todos, acarinhado por todos, que um dia me confessou que de vez em quando tinha tremendos ataques de pânico. Contava que apareciam do nada, muitas vezes quando até considerava que estava calmo, muitas vezes à noite, em casa. Como morava sozinho, tão aflito ficava, tão convencido ficava que estava em risco de vida mas, ao mesmo tempo, também sabendo que já antes tinha estado no hospital e que lhe tinham dito que eram ataques de pânico, saía de casa e ia para dentro do carro que estava estacionado na rua. Pensava que ali mais facilmente pediria ajuda se estivesse mesmo a morrer. Quando ele me contou, fiquei admiradíssima. Nunca tinha percebido que ele fosse uma pessoa ansiosa. 'Disfarço bem', disse-me ele. Quanto tentei perceber o que lhe provocava a ansiedade a ponto de ter ataques de pânico, disse-me: 'Tudo'. E, no entanto, parecia sempre bem disposto. 

Ou seja, as pessoas desenvolvem mecanismos para se protegerem. Ou melhor, para esconderem dos outros. E esses mecanismos nem sempre são os melhores. Quando lhe perguntei porque não se tratava disse-me que não tinha tempo, que eu sabia bem como era a sua agenda, o seu ritmo de trabalho, o seu dia a dia. Não aceitei pois se tinha tempo para ir ao ginásio ou ao dentista também podia conseguir tempo para se tratar. Desvalorizou: 'Vou conseguindo controlar. Isto passa.'. Ainda insisti mas percebi que já estava era arrependido de me ter falado nisto.

Recorrer a tratamento psicoterapêutico ainda é um passo que muitas pessoas não conseguem dar. E, no entanto, como poderia ser mais leve a sua vida, se o conseguissem.

Partilho um vídeo em que um psiquiatra fala de um doente seu e, em paralelo, fala de problema idêntico pelo qual passou. Penso que alertar para a necessidade de levar a sério e tratar devidamente as questões de saúde mental nunca será demais.

O doente que superou os ataques de pânico | Do Outro Lado

Ao acompanhar um jovem com ataques de pânico, o psiquiatra João Perestrelo recordou-se da sua própria luta, na juventude, e da coragem necessária para enfrentar a ansiedade


Desejo-vos um bom sábado