Hoje acordei a ouvir movimentações dentro e fora de casa. Ao fim de um bocado, ocorreu-me que estava a ser cumprido um meu pedido: que as bolas gigantes de Natal fossem penduradas nas árvores do jardim, de preferência antes de Natal. Levantei-me e fui espreitar: a porta da rua escancarada, um frio de rachar. Pensei que devia ter vestido alguma coisa. E lá andava ele, com a caixa das bolonas, fio de nylon, a engalanar o jardim para que o Santa Claus não se esqueça de nós. O cão de roda dele, o pelo todo molhado. Fotografei-os.
Fui também espreitar à sala. Ontem eu já tinha trazido para cima a árvore grande mas hoje já tinham vindo mais umas quantas, as pequeninas. Faltam as grinaldas com luzinhas que não sei onde ele as guardou pois no outro dia andou na garagem a fazer arrumações.
Não tenho paciência para fazer decorações muito rebuscadas ou complexas mas gosto de ter recantos da casa com luzinhas. E nisso existem discordâncias, pois de bom grado deixaria algumas como presença efectiva, ao longo de todo o ano. Várias das minhas arvorezinhas são tão abstractas que bem poderiam passar por simples elementos decorativos, independentes do Natal.
O meu marido, minimalista, acha que quanto menos melhor e é frequente que a seguir aos Reis, ao levantar-me, dê com a casa e o jardim já inapelavelmente despidos de bolas, árvores e luzes.
Entretanto, a minha cabeça já está nas comidas do repasto e, como sempre, só me apetece inventar e adicionar. O costume é dizerem-me que não devo dispersar-me por várias coisas pois acabo por ter trabalheiras infinitas. Mas é mais forte que eu. Contudo, tenho a restrição do forno. Precisava de ter um forno duas vezes maior ou, então, ter dois. Infelizmente o forno de lenha está com um problema. O revestimento tem estado a desprender-se e não sei a quem recorrer. E não me arrisco a que caiam bocados nos tabuleiros com comida. Claro que os poderia tapar com papel de alumínio, mas sei lá se, às tantas, não cai algum bocado mais estrutural. Além disso, leva muito tempo a ficar quente. Um forno elétrico maior é que era. Mas não cabe. Portanto, tenho que me organizar e auto-limitar.
Mas, enfim, depois logo conto.
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Agora à noite pus-me aqui a ver as notícias e as novidades e voltou a aparece-me a Joanna Coles, desta vez com o Dr. John Gartner a conversarem sobre o comportamento errático, impulsivo, narcisista, destravado, ganancioso, corrupto, mentiroso, a atitude um alcoólico que acha que tudo pode (Susan Viles o disse) que, ainda por cima, evidência um progressivo quadro demencial.
Quem já lidou com alguém que entrou no enevoado corredor da demência sabe que não vale a pena contrariar ou tentar pôr ordem na cabeça deles. É improdutivo, inconsequente.
O drama maior neste caso é tratar-se do homem com mais poder no mundo. Talvez por isso, não deixa de ser extraordinário podermos assistir a esta situação insólita, perigosa e, ao mesmo tempo, caricata.
O declínio mental de Trump está a acelerar: afirma o psicólogo Dr. John Gartner | Podcast do The Daily Beast
O psicólogo Dr. John Gartner junta-se a Joanna Coles para analisar o mais recente discurso de Donald Trump na Casa Branca e explicar porque é que o seu ritmo frenético, a rígida disciplina com o teleponto e a velocidade vertiginosa alarmam os profissionais de saúde mental. Com base em décadas de experiência clínica, Gartner defende que a hipomania, o narcisismo maligno e a demência progressiva de Trump já não são teorias abstratas, mas padrões visíveis — acelerados, mensuráveis e cada vez mais descontrolados. Examinam porque é que os testes cognitivos repetidos sugerem a monitorização do declínio em vez dos exames de rotina e como as noites sem dormir, as decisões impulsivas e as publicações compulsivas apontam para um líder à beira de um colapso cognitivo.
Os dias andam cinzentos, quase deprimentes. Mas, ao caminhar no campo, vejo como as terras estão cobertas de verde, lindas - é o lado bom que geralmente está sempre presente.
Dos meus amigos chegam-me notícias boas e outras nem por isso, e nem sempre encontro palavras sinceras para transmitir optimismo. A vida não é uma fita colorida e glamorosa que se vai desenrolando. Por vezes é quebradiça, por vezes tem que ser remendada, por vezes perde a cor, por vezes rompe-se. Mas também há períodos em que as pequenas imperfeições são irrelevantes e em que predomina a harmonia, a felicidade das pequenas coisas.
A nível geral, a questão da paz (ou a ausência dela) é matricial na vida de qualquer povo. Quando se vive sabendo que aqui e ali e, por vezes, bem à porta do nosso espaço comum, há guerra e ameaças latentes de que o mal vai continuar à solta, não podemos ignorar que está em perigo o mundo tranquilo e seguro que desejamos para os nossos. De uma forma ou de outra, isso influencia a nossa vida, nem que seja pela imprevisibilidade que isso provoca na gestão das contas públicas (das quais todos dependemos) ou nas decisões de investimentos a médio e longo prazo.
E falo desta forma por, felizmente, estar longe dos cenários de guerra. Para quem lá vive, cada dia é uma roleta russa (no pun intended) e tenho uma admiração sem limites por quem sobrevive sem saber por quanto tempo, ou se os seus filhos, pais, irmãos, amigos, estarão vivos no dia seguinte.
E depois há o cancro do populismo que suga para o buraco negro da desinformação, da ignorância, da anulação da esperança em melhores dias todos os broncos, todos os ressabiados, todos os trogloditas
A segunda vitória de Trump mostra bem a fragilidade da democracia e o tremendo de risco que é o facto de cerca de metade da população ser estúpida. E essa evidência dá força aos estúpidos de todo o mundo. Veja-se a ascensão de Ventura.
Contudo, não nos esqueçamos: não há mal que sempre dure.
Trump está em decomposição e isso pode precipitar o seu fim. Não se sabe o que virá a seguir, mas tenhamos esperança. Pode ser que se mostre de tal forma grotesco que até os seus mais boçais adeptos batam com a cabeça nas paredes, percebendo a porcaria que fizeram ao votarem nele.
Convido-vos a ver e ouvir o sempre interessante podcast The Daily Beast. Está legendado. Muito do que se passa nos Estados Unidos, com consequências em todo o mundo, deveria ser visto tendo em atenção o que se passa dentro da cabeça de Trump.
Assessores de Trump estão secretamente a preparar-se para a sua queda
| Dentro da mente de Trump
Michael Wolff junta-se a Joanna Coles para abordar a questão que Washington se recusa a enfrentar: o que acontece quando o declínio cognitivo de um presidente é visível, mas sistematicamente racionalizado por aqueles que o rodeiam? Wolff descreve como o círculo íntimo de Trump encobre comportamentos alarmantes como "simplesmente a forma de ser de Trump", mesmo quando os eleitores reconhecem sinais de alerta familiares nas suas próprias famílias. Explica ainda a importância da longa relação de Susie Wiles com Marco Rubio e porque é que a sua influência ainda se manifesta na postura disciplinada e profissional de Trump à medida que este se vai deteriorando. À medida que a grandiosidade de Trump se intensifica — dos discursos inflamados à difamação das instituições nacionais —, Coles questiona porque é que ninguém está disposto a tomar as rédeas do poder e o que significa este silêncio para o país.
Lembro-me de um conhecido me contar que tinha estado num almoço em casa de um empresário que na altura era de referência no país, com alguns dos seus homens de confiança, com um ex-presidente da Câmara, com um ou dois ex-ministros, e que, no meio da animada conversa em que as línguas se iam tornando mais soltas à medida que os bons vinhos iam subindo da bem fornecida adega do anfitrião, se teriam referido ao que na altura era presidente de uma das maiores empresas do país dizendo que 'esse gosta muito de meninos'. Esse meu conhecido ficou intrigado e estupefacto e quis confirmar se tinha percebido bem. Tinha. Entre risadas e piscar de olhos falaram das incursões da pessoa em causa nas noites Parque Eduardo VII. Isto antes do escândalo Casa Pia.
O meu conhecido ficou chocado com a forma 'normalizada' como todos aparentemente sabiam e fechavam os olhos, aparentemente achando até uma certa graça. Para eles, parecia que o grande administrador gostar de meninos estava ao mesmo nível de gostar de usar o cabelo penteado de uma determinada maneira ou só usar sapatos feitos por encomenda numa certa casa italiana ou ter um gosto refinado a nível de obras de arte. Excentricidades, idiossincrasias, particularidades inócuas próprias de quem tem dinheiro e poder.
Ao ouvir isso, fiquei estarrecida. E incrédula. Não encaixava na imagem que tinha dele. 'Mas será verdade?''. Era pessoa conceituada no país, politicamente relevante, profissionalmente reconhecida. Eu não o conhecia pessoalmente mas conhecia quem o conhecia e sempre tinha ouvido falar dele e da mulher, dele e da sua casa de praia onde recebia os amigos, dele e do prestígio como bom profissional. Na altura, para mim isso era incompatível com ir 'aos meninos'. E que meninos eram esses? Se me tivesse falado de ir às prostitutas, eu teria ficado chocada mas percebia. Por exemplo, as mulheres nas esquinas ali nas ruas na zona do Técnico eram bem visíveis. Agora 'meninos'...? No Parque Eduardo VII? Parecia-me uma história estapafúrdia.
Mas, a ser verdade, igualmente chocante era todos saberem e ninguém o denunciar, e todos continuarem a conviver com ele -- como se 'ir aos meninos' não fosse uma perversão, um crime.
E, volto a dizer, isto foi antes, embora pouco antes, de ter rebentado o escândalo da Casa Pia.
Leio o artigo do Guardian, The banality of evil: how Epstein’s powerful friends normalised him - David Smith, e é nisso que penso. Toda aquela gente sabia e todos se mantiveram amigos dele, todos mantiveram o relacionamento estreito. Mesmo depois da primeira condenação, continuaram a ser amigos chegados. Mesmo sabendo que continuava a abusar de meninas. Como se fosse normal. Isto se é que eles próprios, amigos do condenado, não continuaram a fazer o mesmo. E, pela troca de mails, vê-se como a erosão moral se estende à política. Epstein a ajudar os russos a lidar com Trump, Epstein amigo do peito de Bannon, conselheiro de Bannon sobre como melhor dar cabo da Europa. Todos em torno de Epstein. Epstein, Epstein.
Não tenhamos dúvidas: as pessoas com vidas simples, as boas pessoas, provavelmente nem sonham qual a dimensão do mal que pode habitar a cabeça dos que se acham donos do poder, da influência e da impunidade suficientes para tudo fazer. Roubar, extorquir, chantagear, abusar, manipular, ocultar provas, comprar o silêncio, subornar -- tudo actos normais para certas pessoas que se vão tornando coniventes umas das outras.
Vale a pena ler o artigo.
E vale também a pena ver e ouvir a entrevista de Joanna Coles a Mary Trump, a sobrinha renegada pelo homem mais poderoso do mundo. Partilho esse vídeo.
Este mundo em que vivemos brinda-nos com um realidade que supera a mais imaginativa e pervertida das imaginações.
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Why Seeing Epstein and My Uncle Donald Haunts Me | The Daily Beast Podcast
Mary Trump joins Joanna Coles to pull back the curtain on the Trump family and the man at its center. She recounts a childhood spent seeing her uncle everywhere, the opulent parties that doubled as power plays, and the lessons learned about a man who thrived on attention and control. Mary dissects Donald’s core pathologies—from his craving for wealth and status to the public slips and impulsive behaviors that now define him. She warns that the real danger isn’t just Trump himself, but the enablers who prop him up and profit from his rise. From her perspective as a clinical psychologist and family insider, Mary asks: when the myth collapses, what happens to those left in its wake?
Têm-me dito que estou demasiado interessada em Trump, quase como se houvesse o risco de o interesse virar obsessão. Não creio que haja esse risco mas é verdade que o exagero dos dislates, a sua acelerada trajectória na direcção de uma parede, a loucura patente que está, sem oposição, a corroer dramaticamente a democracia, tudo isso me intriga e me dá vontade de antever qual o momento em que a coisa vai ter um fim dramático. Porque me parece inevitável que o fim seja estonteante, dramático.
Já aqui o referi, fazendo-me eco do que tanta gente advoga: em simultâneo com o narcisismo exacerbado, parece óbvio que há uma excessiva ausência de filtros, uma alarvidade que ultrapassa o razoável. Talvez esteja, de facto, demente. E a forma abstrusa como se deixa influenciar, a volatilidade das intenções, o protesto do seu ímpeto vingativo, tudo junto, torna-se um cocktail perigoso demais pois, não nos esqueçamos, está ao comando do país mais poderoso do mundo. E nem falo dos códigos nucleares.
A sua porta-voz confirmou que o Salão de Baile para 999 pessoas e que, segundo ele, tem tido óptimas reviews, é a sua grande prioridade. Com o governo paralisado, com consequências tão pesadas para tanta gente, com tantos e tão graves problemas, a sua prioridade é o Salão de Baile. Vai para as reuniões com plantas, com desenhos. Tal como agora quer mandar construir uma réplica do Arco do Triunfo. Tudo delirante. Depois de ter garantido que não ia mexer no edifício para construir o Salão de Baile, é com espanto e horror que as pessoas percebem que afinal está a demolir a ala esquerda da asa Branca.
Contudo hoje ouvi uma coisa que me deixou um pouco de pé atrás sobre se é só demência e ostentação ou se é também paranoia -- ou se há alguma racionalidade, inconfessa, a justificar tudo isto. Nos tempos de Hitler, em 1936, também foi construído um Salão de Baile. Só que, por baixo, estava o verdadeiro objectivo: um bunker. Sucede que, justamente, por debaixo da ala que agora está a ser destruída existe o Presidential Emergency Operations Center (PEOC). Ora acontece que não deve ser tão grande nem tão moderno nem tão 'anti-nuclear' como Trump deseja. Por isso, será que isto do grande e opulento Salão de Baile, que bate muito certo com a demente ostentação de Trump, não é ao mesmo tempo o pretexto para reformular e reconstruir um novo, huge, fantastic, bigger then anyother nuclear bunker?
Enfim. O que for soará.
Seja como for, partilho o mais recente vídeo em que o psiquiatra Dr. John Gartner conversa com Joanna Coles sobre a deterioração evidente da mente de Trump -- e como é preocupante que aparentemente ninguém se preocupe a ponto de tomar sérias providências. Mais depressa as pessoas gozam com as derivas tresloucadas do que ficam apreensivas com a sua demência que já estão a levá-lo para actos a todos os títulos preocupantes para os Estados Unidos e para o mundo.
É muito interessante.
Trump's Cognitive Collapse is Clear: Psychologist | The Daily Beast Podcast
O Dr. John Gartner junta-se a Joanna Coles, da Beast, para avaliar o desfasamento mental de Donald Trump. O psicólogo clínico e antigo professor da Johns Hopkins, que alertou precocemente para o "narcisismo maligno" de Trump, afirma agora que o presidente demonstra sinais claros de declínio cognitivo, comparando a sua confusão e grandiosidade a ditadores nas suas fases finais. Coles pressiona Gartner sobre se a demência de Trump o torna mais perigoso ou simplesmente mais delirante, e o que isso significa para o resto do segundo mandato de Trump e mais além. Estarão os Estados Unidos a ser liderados por um homem que está a perder o contacto com a realidade ou Trump ainda é suficientemente astuto para esconder os seus sintomas crescentes?
00:00 - Introdução
02:56 - Explicando o Narcisismo Maligno de Donald Trump
04:09 - Comparar as Ações de Trump com o Alarmismo de Hitler?
10h10 - Porque é que as derivas erráticas de Trump são, na verdade, um sintoma de declínio cognitivo
13h11 - A grandiosidade de Trump é uma componente de uma perturbação de personalidade
15h19 - O vídeo da IA de Trump, "No Kings Poop", é um sinal do sadismo de Trump
16h29 - Trump confundir Irão e Índia é sinal de declínio cognitivo
19h00 - Como as pessoas que rodeiam Trump tentam lidar com o seu declínio cognitivo
20h37 - A incapacidade de Trump para se calar revela o seu distúrbio de pensamento
23h09 - Trump deu sinais de AVC durante a cerimónia de 11 de setembro
27h13 - Porque é que diagnosticar a saúde mental de Trump é urgentemente necessário
32h26 - Como o declínio cognitivo de Biden difere do de Trump
36h30 - O discurso militar de Trump mostra como o seu pensamento é desordenado
39h48 - A comunicação social generalista precisa de cobrir os problemas cognitivos de Trump
Hoje fui com o meu amor passear à beira mar. Fomos andando devagar, devagarinho, vendo a paisagem, o mar tão branco, tão bonito, o ar tão enevoado e, contudo, tão translúcido.
As ondas estavam pejadas de cavaleiros armados com o seu fato negro e com o largo escudo servindo de sela.
No paredão, cruzámo-nos com mil vozes e só, de vez em quando, a reconhecíamos como idêntica à nossa. Maioritariamente são jovens. Penso que haverá uma larga comunidade praticante de erasmus e de surf. Têm bom gosto.
Há também muita gente que faz surf no asfalto, skate de seu nome. E outros de bicicleta e outros passeando o cão, vários passeando-se a si próprios e ainda alguns, geralmente algumas, auto fotografando-se, todas estilosas e boas para se mostrarem ao mundo.
Quando chegámos a casa vínhamos estafados como se estivéssemos a chegar de um esforçado programa dia inteiro de caminhada pelas montanhas.
Almoçámos, cada um foi para o seu sofá e dormimos a tarde toda.
Agora, ainda cheia de falta de energia, resolvi espreitar os vídeos e dei com este aqui abaixo que é uma maravilha, uma ternura. Comovente mas encantador. Mesmo perante situações que parecem nada ter de belas há quem tenha, dentro de si, a elegância para ver o mundo com olhos enternecidos e felizes.
Love at First Sight | Sir John Hurt stars in this Oscar® short-listed short film about true love
Do you believe in love at first sight? This romantically poignant film features wonderful performances from Sir John Hurt and Phyllida Law in an Oscar® short-listed short film.
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E agora vou ver se consigo atirar-me à minha nova empreitada.
Sobre a minha menopausa já aqui falei várias vezes. Não sei ao certo que idade teria. Cinquenta e picos, por aí. O período foi ficando incerto. Às tantas já nem me lembrava bem. Creio que calhou quando andava a fazer uma pós graduação num período em que também andava cheia de trabalho, quando veio o diagnóstico do meu sogro com o que se lhe seguiu, muito stress à mistura. Mas também pode não ter tido nada a ver com isso, pode ter tido apenas a ver com o relógio biológico. Foi-se. Naturalmente.
Um descanso.
Uma vizinha, por causa disso, do espaçamento que até nos leva a esquecer e a desvalorizar, engravidou. Pensava que a loja estava fechada, distraiu-se. Veio uma bebé quando os filhos eram crescidos, adolescentes, tal como os meus. Poucos meses depois, andava ela de bebé ao colo, a barriga mantinha-se estranhamente grande. Escondeu enquanto pôde. Uma vez disse-me: 'Até tenho vergonha... Que me tenha distraído uma vez, enfim, é estúpido mas acontece... Mas uma segunda vez...? Logo a seguir...? Não há explicação. Tenho vergonha...' Fartei-me de rir, mas percebi-a.
Depois dos partos, a menstruação desaparece por algum tempo.
Ainda me lembro de quando nasceu a minha filha, era ela bebé de colo, eu a amamentar, e, um dia, vi sangue. Fiquei assustada. Contei ao meu marido a minha preocupação. Pensei que estava doente, gravemente doente, com alguma hemorragia. O meu marido é que se lembrou: 'Não será a menstruação?'. Já nem me lembrava de tal coisa. Depois dos nove meses da gravidez, creio que já ia em seis ou sete meses depois do parto, e nada. Tinha-se-me varrido. Claro que era! Que burra, credo.
Às tantas também poderia ter engravidado nessa altura. Imagine-se, então, isso numa altura em que a pessoa pensa que já está na menopausa...
Também já contei que a menopausa se me deu uma meia dúzia de afrontamentos foi muito. De todas as vezes, que me lembre, foi ao fim da semana quando ao fim do dia íamos para a nossa casa no campo. Davam-me uns calores brutais, tinha que abrir a janela, quase pôr a cabeça de fora. Aquilo durava uns segundos, não mais que isso, mas, enquanto durava, era uma onda de calor avassaladora que avançava dentro de mim. Parecia que ia pegar fogo. Depois passava. Assim como vinha, assim ia.
Mas teve outro efeito: aumentei de volume. Antes vestia o 38, depois passei para o 40, depois para o 42, agora, frequentemente, já o 44. Olho para o que vestia antes e espanto-me: tão fininha, tão estreitinha. Como é que eu cabia ali? Agora há ondulação a la Rubens a bombordo, a estibordo, you name it.
Mas parece que os danos não se ficam pelo volume. Parece que no cérebro a coisa pode fiar mais fino. O que a neurocientista Lisa Mosconi explica ajuda-nos a perceber muitas coisas e a evitar outras. Menos mal: parece que, uma vez mais, a dieta mediterrânica opera milagres. Isso e uma vida activa, tranquila... e, claro, dormir bem (e, neste particular, pela parte que me toca, reconheço: tenho que me esforçar por ir para a cama mais cedo)
Convido-vos a ver o vídeo abaixo pois é muito interessante. Não interessa apenas a mulheres na menopausa mas a quem um dia lá há-de chegar bem como a todos os homens que lidam com mulheres. E, desta vez, milagre, milagre... está legendado.
[E aqui abro um parêntesis para elucidar os Leitores que às vezes se queixam que escolho versões não legendadas. Muitas vezes não é isso, muitas vezes tem que ser o próprio a ir às definições (a rodinha dentada que aparece em baixo, à direita, no vídeo) e escolher a opção das legendas e a língua]
How menopause affects the brain | Lisa Mosconi
Muitos dos sintomas da menopausa - ondas de calor, suores noturnos, insónia, lapsos de memória, depressão e ansiedade - começam no cérebro. Como exatamente a menopausa afeta a saúde cognitiva? Compartilhando descobertas inovadoras da sua pesquisa, a neurocientista Lisa Mosconi revela como a diminuição dos níveis hormonais afeta o envelhecimento do cérebro - e compartilha mudanças simples no estilo de vida que você pode fazer para apoiar a saúde do cérebro ao longo da vida.
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Pinturas de Rubens ao som da banda sonora da 2ª temporada do White Lotus
De novo um dia muito preenchido. Entre o programa de festas da manhã e o da tarde, tempo para fazer peixe cozido para o almoço (maruca com batata, feijão verde e ovo, temperado com azeite e sumo de limão). Acabámos de almoçar à três e tal e, como a companhia da tarde não chegaria antes das quatro e meia e eu estava que não podia, deitei-me no sofá e liguei a netflix. Para dizer a verdade nem sei se cheguei a começar a ver alguma coisa. Tenho a vaga ideia que sim mas não faço a mínima sobre o que foi. Acordei estremunhada quando eles chegaram. Devo ter dormido uma hora ou quase. Estava mesmo cansada.
O que me vale é que durmo um niquinho e acordo fresca. Mas estes niquinhos não chegam. Sinto que estou a precisar de descansar e o aborrecido é que não estou a ver maneira de consegui-lo nos próximos tempos. Precisava de poder dormir de manhã até o corpo querer, sem despertadores, sem ter que me preocupar com o que tenho que fazer a seguir. E precisava que isto pudesse acontecer durante vários dias seguidos. Precisava também de dormir a sesta todos os dias durante vários dias. Claro que também era bom que conseguisse passar a deitar-me mais cedo. Só que este bocado, à noite, é o meu tempo, o bocado em que estou sozinha, sem ter mais nada que fazer senão o que me apetece.
Outro que está como eu é o dog. Com este calor só lhe apetece descansar à fresca e ou somos nós que saímos e o levamos ou é a animação que vem até nós. Acresce que o cão da casa ao lado o tira totalmente do sério. Aliás, o cão não faz quase nada. Mas existe e é carismático e isso perturba a existência do nosso cabeludo. Corre, salta e ladra freneticamente durante tempos e tempos. Não consegue descansar de dia e, chega a esta hora, e deixa-se cair, completamente desfeito.
Mas a tarde foi boa, a companhia animada. E deu até à noite. Estivemos na rua até talvez às dez. Depois de um caloraço durante o dia, pôs-se muito bom para a noite, uma temperatura agradável, uma levíssima aragem a refrescar o ambiente. As luzinhas solares são o máximo, criam uma onda acolhedora. Para além disso, são fotogénicas. Hei-de fotografá-las para vos mostrar.
Uma noite de verão assim é uma maravilha. Infelizmente sabemos que se há casos em que as aparências iludem este é um deles.
As temperaturas anormais e persistentemente altas como corolário de um ano demasiado seco mostram o que serão os calores cada vez maiores e mais frequentes, os riscos cada vez mais intensos de incêndios difíceis de controlar e o devastador problema da falta de água. Ou acordamos seriamente para a necessidade de puxar pela cabeça, da ciência dar as mãos à tecnologia e de arregaçar as mangas ou o país tornar-se-á um lugar não apenas perigoso como francamente inóspito para algumas espécies, nomeadamente para a humana.
Mas, enfim, adiante.
Na sexta, o meu filho não perdeu os Metallica e, neste sábado, foi a minha filha que me falou no imperdível concerto dos Da Weasel. E disse-me que se podia acompanhar na rtp. Desconhecia. E, por isso, quando chegámos à sala, foi na rtp 1 que nos sintonizámos. Já ia adiantado mas, até ao fim, não despegámos. Muito bom. Fabulosa energia.
Pasmo com a incrível multidão que ali esteve, unida, em comunhão, vibrando com o potente som e a muito boa vibe daqueles matulões da margem sul. E estão melhores, muito melhores. Ganharam uma outra dimensão.
Agora, enquanto escrevo, actuam os Two Door Cinema Club. Nunca tinha ouvido. Estou a gostar. Estou a escrever e a dançarinhar ao mesmo tempo. No recinto mantém-se uma multidão.
Dá ideia que a malta se marimbou de vez para a covid, se marimbou para distanciamentos e para a vida em suspenso. A malta quer é curtir, quer é viver em liberdade. A vida é uma coisa extraordinária.
Há pouco, enquanto a Filomena Cautela enchia chouriços com uns bacanos, dei uma volta pelo youtube. E vi este que aqui partilho e que, lamentavelmente, não tem legendas em português.
Explica o que é a doença de Alzeihmer e, de certa forma, como tentar preveni-la. Nada de novo: fazer exercício, ter uma boa alimentação, em especial na base da dieta mediterrânica, conviver, evitar o stress prolongado, aprender coisas novas e... dormir o suficiente. Pode não trazer novidades espampanantes mas é claro e bem sistematizado. Recomendo-o.
Lembro-me da minha avó paterna. Para o fim, de vez em quando tinha alguma perturbação que a fazia ter comportamentos algo estranhos, deixando-nos desconfortáveis, sem sabermos como deveríamos agir. O meu avô fazia por ignorar. Eu tentava relativizar. O meu pai não. Reagia como se ela estivesse normal, zangava-se. Lembro-me de uma vez estarmos em casa dos meus pais e de ela e o meu avô lá estarem também a almoçar. Ela queria ir, a seguir, a casa do seu outro filho, o meu tio, e estava preocupada que se fizesse tarde. E, então, por mais do que uma vez, levantou-se da mesa com a intenção de se ir embora. O meu pai irritava-se, que estivesse a almoçar sossegada, onde é que ia?, todos à mesa e ela naquele disparate, o irmão sabia que ela lá ia, não ia sair, ela que tivesse calma. Ela não respondia mas estava ansiosa. Sentava-se, comia mais alguma coisa e, de seguida, voltava a levantar-se e a dirigir-se para a porta. Aquilo fez-me muita impressão. Fez-me também muita impressão ver como o meu avô assistia com aparente indiferença mas não era indiferença, era impotência. Em vão, tentava que aquilo nos parecesse normal ou irrelevante. Muito triste.
Outra vez perdeu completamente o conhecimento. Partiu uma perna, foi operada. A seguir apanhou uma pneumonia. Esteve muito mal. O hospital fez-lhe também mal. De alguma confusão inicial passou para a total ausência de tino. Não dizia coisa com coisa nem conhecia ninguém. Os médicos diziam que era normal as pessoas ficarem confundidas em situações assim. Não era aconselhável que tivesse muitas visitas pois ainda mais baralhada ficava mas os meus pais disseram que não sabiam como é que a situação ia evoluir pelo que era melhor eu ir lá. Não conhecia ninguém. Mas mal me viu, reconheceu-me: 'Olha a minha menina, a minha querida', disse o meu nome e abraçou-me e beijou-me muito. Estava quente, febril. Foi uma sensação estranha pois comigo falava normalmente e com as outras pessoas era o vazio. Não sei se teve Alzeihmer ou um outro tipo de demência ou se era fruto de AITs que na altura não sabíamos que tinha, só o soubemos quando teve um AVC que viria a ser fatal.
Com o meu pai foi diferente. Foi o AVC que lhe varreu o cérebro e o deixou com sérias limitações. Estava lúcido e com excelente memória mas foi perdendo a audição, depois a visão. Depois ficou acamado. E muito medicado. De vez em quando passava por períodos muito complicados. Até que se acertasse com a dosagem era, por vezes, um calvário. Chegou a perguntar se já tinha morrido. Nem sabia se estava vivo. Muito complicados esses períodos. Quando ficava lúcido, pedia para o deixarmos morrer. Muito difícil. Por isso, para o fim quase só dormia e a comunicação era quase nula. Também quase não falava, estava com sonda gástrica e com oxigénio em permanência. Se calhar, para ele foi melhor não assistir lúcido ao inevitável desenlace.
Talvez por estes dois casos próximos, a falta de lucidez, a dependência e o declínio que acompanham as limitações mentais assustam-me bastante. E gosto de me informar.
Espero que também achem útil.
5 ways to build an Alzheimer’s-resistant brain | Lisa Genova
Only 2% of Alzheimer’s is 100% genetic. The rest is up to your daily habits.
Escusava de o dizer mas digo na mesma: não sou médica. Nem farmacêutica. Nem bióloga. Em matérias destas sou leiga da cabeça aos pés. Por isso, no título deste post dirigi-me aos homens mas, na volta, vale também para as mulheres.
Li que um estudo demonstra que há 69% menos de probabilidade de ter Alzheimer por parte de quem toma Viagra.
Ao ler, instintivamente, exclamei: 'Olha... boas notícias!'.
O meu marido, no sofá ao lato, olhou-me, curioso: 'O que é?'.
Elucidei: 'Com um único comprimido resolvem-se dois problemas.'
Ele ainda mais curioso: 'Estás a falar de quê?'.
Expliquei: 'Os homens que tomam Viagra não apenas ficam funcionais como menos taralhoucos'.
Olhou para mim como se temesse que o meu entusiasmo encerrasse alguma indirecta.
E eu, de repente, sem ter tempo para o tranquilizar, assustei-me: 'Não me digam que o mundo vai ser um lugar de velhas monas e taralhoucas e de velhos espevitados e bons da cabeça'.
Uma perspectiva muito pouco inspiradora, convenhamos.
Mas a questão é que não sei qual o efeito que o Viagra tem nas mulheres. Posso imaginar mas, enfim, como dizê-lo...?, imagino em ponto pequeno.
Mas não há-de ser problema. Estando aberta esta porta do conhecimento, tudo o resto é pormenor que se há-de resolver. Melhor: duplamente espero que se resolva.
E agora, para acabar, ia reforçar o apelo que fiz no título mas lembrei-me que tenho ideia que o dito comprimido azul deve ser usado com moderação por quem padeça de doença cardíaca. Portanto, se alguns dos meus caros Leitores homens está capaz de mandar de imediato a mulher à procura da primeira farmácia de serviço para que ela vá comprar Viagra (com a desculpa que é para um tio que está num Lar), calma aí. A sua mulher que tenha paciência por mais algum tempo: pergunte primeiro ao seu médico se o pode tomar.
E é isto. E quem não me leve a sério e queira tirar o assunto a limpo, pode conferir aqui:
Viagra could be used to treat Alzheimer’s disease, study finds
Gosto das interpretações de Anthony Hopkins. Não conheço muitas mas as que tenho visto são superlativas. É um grande actor. Sendo contido é, no entanto, o máximo. E tem boa pinta e, estou em crer, é boa onda.
Tenho ideia que a grande bolada que me atingiu foi a sua interpretação n' O Silêncio dos Inocentes. Ainda não vi este, O Pai. Nem sei se o verei de bom grado. Talvez em casa, num dia em que esteja especialmente bem disposta. A demência assusta-me. Assusta-me muito e mais ainda se pensar que a pessoa pode ter consciência que está a caminhar inexoravelmente no sentido da perda das suas capacidades cognitivas. Deve ser aterrador.
Quando a minha mãe esteve a recuperar de uma cirurgia, esteve numa residência assistida cujas condições, creio eu, são superiores às normais. Dir-se-ia um hotel de muitas estrelas com a vantagem de ter médico todos os dias e enfermeiros em permanência. Acontece que havia ali uma concentração considerável de pessoas com demência. Todas as que conheci nessas condições pareciam normalíssimas. Dir-se-ia o cenário de um filme: nada era exacatamente o que parecia. Uma seria sensivelmente da minha idade. Bem arranjada, bonita. Estava sentada a uma mesa com o que parecia ser o marido. Viu-me, sorriu-me, cumprimentou-me como se me conhecesse. Pensei que me conhecia e fiquei a pensar quem seria. Ela disse-me mais qualquer coisa e eu aproximei-me. Contudo, o que admiti ser o marido fez um gesto discreto que percebi que quereria dizer que eu não parasse, que não fizesse muito caso. Fiquei muito intrigada. Contou-me, depois, a minha mãe que era sempre assim, cumprimentava sempre com afabilidade toda a gente. E era mesmo o marido. Ia lá todos os dias para tomar as principais refeições com ela. Numa das vezes que a minha mãe tomou o pequeno almoço com ela, despejou o iogurte no guardanapo e comeu a partir do guardanapo. No fim, ia limpar a boca com o guardanapo e, não sei como, lá conseguiram trocar-lhe as voltas. Tudo com muitos bons modos, gestos de quem sabia estar à mesa. E contava a minha mãe que as proezas se sucediam. Sempre bem disposta, sorridente, amistosa, como se tudo estivesse normal com ela.
Havia uma outra que parecia uma diva de Hollywood mas do tempo do mudo. Uma pessoa com uma pose extraordinária. Aparecia vestida como se fosse para um cocktail chic de fim de tarde numa Embaixada. Casaco comprido de verão (isto passou-se no verão), belas e vistosas jóias, saltos altos, carteira a condizer, cabelo muito bem penteado. Não sei que idade teria mas era seguramente mais velha que a minha mãe. Se a minha mãe estava sentada nos sofás perto dos elevadores (e era onde estava quando estava à nossa espera), ela, ao passar por ali, vinda do seu quarto num dos pisos superiores, perguntava à minha mãe se tinha visto a mãe dela. A minha mãe respondia com naturalidade que não. E ela dizia: 'Ah, disse que vinha aqui ter comigo... Estranho... Vou ver se está ali...' e lá ia, com aquela atitude de grande diva.
A minha mãe contava-nos peripécias das suas 'vizinhas', coisas extraordinárias. Eu gostava de ouvir. Ouvia com um misto de curiosidade e de inquietação. A demência assume várias formas e frequentemente dissimula-se sob a ténue capa da 'normalidade'. Ao princípio a minha mãe assistia com alguma estranheza e muita benevolência e generosidade a todas essas demonstrações. Contudo, ao fim de algum tempo, começou a achar muito deprimente o convívio com a degenerescência. Se calhar, começou a recear que alguma vez lhe tocasse a ela. Felizmente, estava recuperada e pode voltar para casa.
Mas, voltando ao filme que trouxe o Oscar pra melhor actor deste ano a Anthony Hopkins, tenho mixed feelings em relação a vê-lo. Gosto de ver filmes com finais felizes e, quando a demência se instala, não há tal coisa. O final é sempre o corolário de um caminho cada vez mais curto, cada vez mais sombrio. Não sei se para a vida há finais felizes mas, enfim, queremos sempre sonhar com um fim que seja breve, pouco doloroso, em que possamos manter intacta a nossa dignidade e consciência. E, em casos como o deste filme, é tudo ao contrário disso: é um pesadelo. Um pesadelo às tantas mais para os que lhe são próximos do que para o próprio que, por fim, perde a consciência de si.
A primeira vez que soube de alguém concreto com demência foi com a mãe de um colega. Ele era daqueles solteirões ingénuos, desejosos de arranjar namorada, mas tão explícito nessa vontade que se tornava alvo fácil de chacota. As mulheres gostam de perceber que os homens têm uma certa malandrice e que já tiveram alguma vida. Ora, aparecer-lhes um homem com cerca de quarenta anos e que, pela sofreguidão que demonstrava, mais parecia um adolescente virgem é coisa que uma mulher dificilmente pode levar a sério.
Na altura eu tinha uma colega, a quem tinha levado para lá para me substituir durante a baixa de parto. Tinha-a conhecido na faculdade e tínhamos ficado amigas. Muito bonita, muito independente, muito maliciosa, ultra moderna, super gozona. Provocava-o só para se divertir com os inocentes entusiasmos dele. Eu casada, na altura já com a minha filha, pedia-lhe que não exagerasse pois ele não percebia, caía em todas as esparrelas, estava como se estivesse apaixonado, sem perceber que uma mulher como ela jamais -- em tempo algum --poderia interessar-se por um inocente carente e totó como ele.
Vivia com a mãe, ele, uma senhora viúva, professora reformada, tinha sido uma mãe tardia. Falava dela sempre com cuidado e ternura e percebia-se que a mãe deveria querer que o filho se casasse e percebia-se que, até para dar esse gosto à mãe, ele não apenas tinha vontade de namorar como queria que fosse coisa 'a sério' para dar essa alegria à mãe.
Mais tarde, o namorado de longa data dela, um homem divorciado, mais velho que ela, com filhos adolescentes, com quem nunca vi qualquer afinidade nem grande interesse mútuo, saiu da hesitação em que andava há uns dois anos e propôs que namorassem mais a sério e casassem. Nunca consegui perceber qual o verdadeiro sentimento dela em relação a ele. Contava-me que andavam com advogados a discutir acordos pré-nupciais. Eu, que me tinha casado, miúda ainda, na desportiva, sem pensar em nada disso, aliás sem sequer saber que coisas dessas existiam, pasmava com tanta discussão para delimitar com o que cada um ficaria se se separassem. Ela tinha um apartamento dela mas ele morava numa grande casa numa zona nobre da cidade para além de que tinha uma outra casa na praia. E devia haver dinheiros, já não me lembro.
No meio disto, destas discussões entre eles, desentendimentos, geralmente aborrecidos um com o outro por estes motivos, entrou um jovem economista, alto, giraço todos os dias, uma simpatia. Arranjava sempre maneira de vir falar connosco: éramos os mais jovens e gostávamos de conversar e de rir. O outro pobre coitado andava pelos cantos a morrer de ciúmes, completamente descartado. Claro está que não tardou que, saindo eu para ir buscar a criança, dar-lhe de mamar e ir tratar da vida doméstica, ela e o jovem colega saíssem dali para beber um copo, depois beber um copo e ir jantar, depois beber um copo, jantar e ir dançar. Ela ia-me contando isso com sorrisos maliciosos, que o colega beijava bem que só visto, que dançava bem que só experimentando. O namorado dela devia andar muito ocupado com advogados e com os filhos adolescentes e a muito bem sucedida vida profissional que o levava a viajar muito, e ela andava naquilo, ocupada a gozar a vida.
Um dia, de manhã, apareceu com ar pesado, quase choroso. 'Então, o que foi?'. Nem precisava de ouvir a resposta mas ela confirmou: 'Aconteceu'. Fiquei admirada com aquele ar tão pesaroso quando estava na cara que tinha que acontecer. Disse-me que não, que não era suposto acontecer e que se sentia muito mal, que não sabia se havia de contar ao namorado. Respondi-lhe que ela parecia querer arranjar pretexto para se afastar do namorado e que aparentemente não gostava dele, que, se calhar, mais valia, simplesmente, dizer-lhe que afinal não gostava dele o suficiente. Desatou a chorar, que gostava, que não sabia porque tinha feito aquilo. Fiquei estupefacta, disse-lhe que me parecia que ela estava a enganar-se. Disse-me que não, que gostava mesmo. Achei extraordinário. Mas desde cedo aprendi que não se deve fazer juízos de valor.
Mais estupefacto ficou o bonitão com ela a cortar relações com ele, sem perceber o que tinha acontecido, que tinha sido uma noite fantástica, não entendia tal reacção.
O outro ingénuo, percebendo que a costa estava livre, voltou a aproximar-se mas só recebeu da parte dela uma grande frieza.
Passado pouco tempo, a minha bela colega demitiu-se. E pouco tempo depois casou-se. E, como expectável, uns quatro ou cinco anos depois, período durante o qual andou a iludir-se relatando viagens, festas e feitos enamorados de ambos e louvando as grandes qualidades dele como se estivesse apaixonada, divorciou-se. Quando me contou, face à minha indiferença, perguntou-me: 'Não dizes nada?'. Só consegui dizer-lhe que não, e mudei de assunto. Desde o início era claro que n,ão eram um para o outro. Não sei como aquele pseudo-romance tinha durado aquele tempo todo pelo que a surpresa era essa, não que tivessem acabado.
Entretanto, tinha entrado uma outra colega, uma mulher grande, gorda, despudorada, desbocada, sempre pronta para uma conversa apimentada, palavrão de criar bicho de permeio. Também pelos quarenta, divorciada, mulher livre, sem receio do que dissessem ou pensassem. Os homens gostavam de provocá-la para verem até onde ela ia e ela nunca desiludia. O outro inocente, sempre a ver se conseguia namorada, não percebia que aquela não era também a mulher certa para ele. Mas o que ela se divertia com o pobre coitado. Ele, uma vez mais, caidinho por ela, autêntico babaca, toda a gente a gozar com ele e ele sem perceber. Ainda me lembro quando ela fez anos, ele a mandar entregar-lhe um ramo de rosas, ela levemente comovida -- mas toda a gente a gozar com ele e ela também, para não desiludir a plateia, e ele, tão tonto, apesar de tudo, a julgar que tinha encontrado a mulher certa. Durante muito tempo ela dizia-me que das poucas coisas que se arrependia na sua vida de excessos era de ter gozado com ele quando ele lhe tinha oferecido as rosas.
Até ao dia em que ele recebeu um telefonema da polícia: a mãe tinha saído de casa, tinha-se perdido, tinham-na levado para uma esquadra porque ela não se lembrava da morada, tinham encontrado na carteira dela o cartão de visita do filho. Ficou espantado, preocupado, saiu a correr.
Nessa tarde, voltou ao trabalho, disse que a mãe tinha ficado em casa, estava bem, não percebia o que se tinha passado. Tenho ideia que não se preocupou muito. Desvalorizou. Achou que toda a gente de vez em quando pode ter um lapso.
Continuava aquela paródia de flirt tardo-adolescente, ela tinha um carro meio velho e ele um desportivo e, volta e meia, um dos carros ficava lá durante a noite -- e nada de mais. Até que um dia, de tarde, ele chegou bem mais tarde. Não morando muito longe do trabalho, ao passo que todos nós almoçávamos uns com os outros nos restaurantes das redondezas, ele ia almoçar a casa com a mãe. Nessa tarde, vinha atordoado. A mãe não tinha feito o almoço e tinha deixado o gás ligado, sem colocar o tacho em cima e, aparentemente, não tinha dado por isso. Não tinha havido almoço e a mãe, que toda a vida tinha tratado escrupulosamente, do seu menino, aparentemente não estava nem aí.
Na altura tenho ideia que pouco ou nada se falava em Alzeihmer. Eu também ficava espantada com aquilo, dizia-lhe que alguma coisa não estava bem. Ele dizia que ela conversava bem, estava bem, de boa saúde, cuidava da casa, que não percebia o que tinha sido aquilo, talvez tivesse adormecido, talvez nada de mais.
Mas, progressivamente, as coisas estranhas iam-se sucedendo. Um dia, quando ele ia a chegar a casa, viu uns sacos de plástico com roupas à porta de casa. Espreitou e pareceu-lhe perceber serem lençóis normais. Quando perguntou à mãe que sacos eram aqueles, ela disse que não sabia mas ele viu as gavetas da cómoda desarranjadas, meio esvaziadas.
A partir daí foi em crescendo. Coisas inexplicáveis, esquecimentos, alheamento. A tristeza dele era comovente. Ajudámos muito, nós, com os nossos conselhos, ouvindo-o, apoiando-o. Mas apoiou-o, sobretudo, ela, a maria-doida. Foi uma irmã para ele. Por fim, saíam juntos para ela ir ajudá-lo no que fosse preciso, e cada vez era preciso mais. Passou a ter que fechar a mãe pois fugia e perdia-se, deitava tudo fora, tinha que deixar a torneira do gás desligada. Andava sempre em pânico. As coisas que ele contava enchiam-no de estranheza e a nós também. Acabou por contratar uma senhora para ficar com a mãe durante o dia. Frequentemente, confundia o filho com o marido, depois com o pai. Por fim, já nada dizia que fizesse qualquer sentido. Já não tinha força nem qualquer autonomia. O declínio foi rápido.
Na altura falava-se de demência. Quando ele falou em Alzeihmer ficámos a saber que havia uma doença com esse nome.
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A prescrição de Sanjay Gupta para combater a demência
The neurosurgeon, CNN commentator and author of "Keep Sharp: Build a Better Brain at Any Age" has long studied the brain and the onset of Alzheimer's. He talks with CBS News chief medical correspondent Dr. Jon LaPook about the recommended steps to a healthier brain, from diet and exercise to the value of sleep and social interaction.
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Pinturas de Paula Rêgo ao som de Spiral · Ólafur Arnalds
Afinal a coisa é capaz de ser ainda pior: pode muito bem acontecer que o donaldim, o pato-palhaço, o narcisista-mor, trapalhão, aldrabão e ridículo, esteja também já a habitar o obscuro território da demência.
O que se passou na entrevista que ontem referi na qual transpirou como uma laranja aparvalhada ao ser confrontado com as suas mentiras infantis e na qual insultou o adversário político com base em acusações falsas, foi até constrangedor. A cena do teste, em que se referiu a ele como sendo um teste para avaliar o QI, gabando a sua suprema dificuldade, duvidando que o entrevistador fosse capaz, por exemplo, de responder às últimas cinco perguntas, ficará para a história. Vê-se e é de tal forma patético que mais dá vontade de o levar pela mão para ser internado e tratado por cuidadores especializados. A criatura não bate bem.
Pois bem, vem agora a CNN divulgar que aqueles testes não são para medir QI coisíssima nenhuma, são para despistar demências como, por exemplo, o Alzheimer -- ver se a pessoa consegue repetir o nome de cinco objectos, contar de trás para a frente, dizer a data do dia e o local em que se encontra. Coisas assim.
Portanto, subsistem agora dúvidas ainda mais sérias: Donald Trump confundiu o teste que fez com um teste ao QI? E... achou-o muito difícil? E porque é que os médicos da Casa Branca o fizeram submeter-se a um tal teste? Estão desconfiados de alguma coisa...?
A sério...?
As eleições são em Novembro, não é?
Se calhar vai ser triste de assistir já que parece que ninguém, por aquelas bandas, se preocupa em ajudá-lo a acabar o mandato com dignidade.
Já aqui falei algumas vezes da grande impressão que me faz essa maldita doença. Também já contei da mãe de um colega meu e do que ele passou com ela. E já falei do desgosto que o senhor que fazia pequenas obras in heaven tinha por assistir, impotente, à degradação crescente da mulher, que deixou de conhecer os filhos, que andava atrás dele como uma criança carente, que se foi alheando de tudo, que deixou de se alimentar, que ficou reduzida a um inútil vegetal. E já falei do terrível desconforto que sentia quando, ao ir visitar a minha mãe à residência onde estava a recuperar de uma cirurgia, via pessoas aparentemente normais a fazerem as mais desconcertantes coisas. Alzheimer.
Sabe-se que a erosão começa bem antes de se manifestar e isso ainda assusta mais. Pensa uma pessoa que isso é com os outros e, sem o saber, já a alma se está a esfumar. O cérebro vai-se escondendo, a matéria negra suga-o. E a impressão que tenho é que, mesmo que se queira, mesmo que apareça a cura, já não será possível reconstruir um cérebro que esteja em tal processo de obscurecimento.
No outro dia, quando a minha mãe, toda chorosa, se lastimava com o declínio físico do meu pai, como se fosse o pior que pode acontecer a uma pessoa -- e dizia, 'coitado... tão orgulhoso que era e agora tão dependente...se ele tivesse plena consciência do estado em que está...' -- eu disse-lhe que nem vale a pena estarmos com este tipo de conversa porque, para quem está a assistir, qual a forma mais aceitável de morte para aqueles que amamos? Não há. Portanto, é uma conversa que nem vale a pena. A minha mãe concordou.
Eu sei como é que eu gostava de morrer. Provavelmente é a mesma que toda a gente queria: sem aviso prévio, sem sofrimento, sem se dar por ela, sem dar trabalho a quem quer que seja. Mas, de facto, não é coisa que se programe ou que se escolha.
E se todas as doenças sem cura são assustadoras, esta é diabólica. A pessoa começa por assistir à sua despessoalização e acaba como um peso morto para os outros.
Detesto falar de doenças ou de temas mórbidos mas interessa-me conhecer o que se vai sabendo a propósito de algumas doenças. Em especial, fascina-me tudo o que tenha a ver com o cérebro, essa maravilhosa fábrica de abstrações.
Claro que, para o Alzheimer, há mil curas anunciadas e nenhuma verdadeira mas, entre falsas expectativas, inocentes esperanças e muitos baby steps, o caminho vai sendo percorrido e, não tenho dúvida, um dia saberemos prevenir, despistar antecipadamente, tratar esta como muitas outras doenças. O problema é o meanwhile.
Embora, para dizer a verdade, também não sei bem o que será o mundo quando o planeta, exaurido, ressequido, estiver a transbordar de velhos saudavelmente imortais.
Entretanto, vou espreitando o que, nestes domínios, se vai fazendo ou sabendo. Partilho convosco dois vídeos que vi hoje.
A miracle cure? Horizon: Curing Alzheimer's
Closer to a Cure: Combating Alzheimer's With New Compute Technology
Os leõezinhos atacam em força e era bom já estar em férias para ter tempo para poder escolher presentezinhos especiais para cada um deles. Mas as lojas estão cheias, os intervalos para andar a procurar bonequinhos ou carrinhos são limitados e, por isso, resolvemos ir à noite. Chegámos há pouco. Pelo caminho disse ao meu marido que quem o viu e quem o vê, a andar a escolher bonequinhas princesas. Não concordou. Diz que sempre o arrastei para todo o lado pelo que, de certeza, sempre andou comigo a escolher brinquedos para os miúdos. Digo-lhe que nunca com a motivação com que agora o vejo, como hoje a chamar-me para me mostrar as mais variadas versões dos pin y pons. Encolhe os ombros, diz que é porque não havia pin y pons. Está bem.
Agora cá em casa, ainda estive a arrumar umas coisas, sempre o que fazer, e com isto passa da meia noite. Enquanto escrevo, vejo o filme 'O meu nome é Alice' com a Julianne Moore. Impressiona-me muito esta doença.
A primeira vez que soube de alguém com Alzheimer foi com a mãe de um colega. Era professora reformada e ele, na altura, era ainda solteiro. Casou-se tarde. Viria a enamorar-se encaloradamente, viria a ter uma filha, viria a ser feliz. Mas, na altura, era ainda apenas o filho único de uma professora com Alzheimer. Não conseguia disponibilidade mental para pensar em namorar. A mãe ocupava todo o seu espaço. Vivia numa permanente ansiedade. Houve uma altura em que a mãe tirava a roupa das gavetas, colocava em sacos de plástico com que, depois, enchia o hall. Ele chegava a casa e dava com aquilo. Mais tarde, aconteceu ele ir no passeio e ver sacos com roupa no passeio debaixo das janelas. Já sabia de quem eram. Lá os apanhava e levava para casa. Lençóis, toalhas, roupa dela. Volta e meia apanhava sustos de outro tipo. Havia bicos de gás abertos, torneiras abertas. Depois piorou. Saía de casa, perdia-se. Ele numa aflição, pelas ruas à procura da mãe, a perguntar por ela, a ir à esquadra, aos hospitais. O medo que fosse atropelada, que lhe acontecessa alguma coisa de grave. Arranjou uma empregada mas, por fim, a empregada já não era suficiente pois o estado físico degradou-se, ja era preciso mais do que isso. Internou-a. Foi um grande sofrimento para ele. Para ela talvez não, pelo que ele dizia a mãe já tinha perdido a consciência de si.
O outro caso foi a mulher do senhor da aldeia que ia fazer-nos arranjos. Ao princípio, era uma mulher activa, normal. Foi ela que uma vez me disse que, com a quantidade de coelhos que lá havia, dava para fazermos umas belas caldeiradas. Deixou-me escandalizada. Alguma vez eu era capaz de pensar em matar coelhinhos que por lá andavam em liberdade? Ela riu-se com a minha reacção. Foi também ela que disse que a única maneira de não termos mato à porta de casa era acimentarmos o chão, empedrar, qualquer coisa dessas. E eu, outra vez, escandalizada. Alguma vez? Nada disso, haveria de ter terra batida, canteiros com flores do campo. Ela abanou a cabeça como se as meninas da cidade só tivessem peneiras na cabeça. Com o tempo dei-lhe razão e o marido foi chamado para empedrar o chão em volta da casa. Anos mais tarde, o marido contou, com tristeza, que ela cada vez estava pior, que ao princípio não ligaram, que era esquecimentos da idade. Agora já não sabia o nome dos filhos, já não fazia nada. Só queria andar atrás dele para todo o lado. Depois perdeu o andar. Até que se foi.
Quando a minha mãe foi para uma residência assistida para convalescer de uma cirurgia, por comodidade, para ficar mais perto de nós, da minha filha e do hospital, optou por uma em que a maioria dos doentes sofre de demências. Muito Alzheimer. Na altura, contei aqui. Situações que poderiam ser hilariantes se não fossem dramáticas. A minha mãe contava-nos e, com a sua facilidade em fazer imitações, quase nos desatávamos a rir. As coisas que diziam e faziam podiam ser muito cómicas. Mas não ríamos porque sentíamos uma compaixão profunda. E eu, no fundo, sinto medo. Há doenças terríveis e esta é uma delas. É daquelas situações em que o corpo se vê esvaziado da sua alma. Uma das que lá mais me impressionava era uma mulher talvez da minha idade. Muito elegante, muito bonita. Olhava-se para ela e não se percebia. Parecia completamente saudável. Sempre sorridente e faladora. O marido ia jantar com ela. O cuidado dele era tocante. Outra, de idade, punha-se na sala e dizia que estava à espera da mãe, sempre ansiosa com a demora da mãe. Outras vezes fazia conversa com a minha mãe em que contava que a mãe ali tinha estado, que daí a nada ia voltar. A minha mãe fazia de conta que acreditava e tentava acalmá-la. Apesar de ali se estar muito bem, um hotel de qualidade com assistência médica, com actividades, com toda a espécie de cuidados, ao fim de um mês, a minha mãe estava doida para se vir embora, dizia que qualquer dia estava ela também maluca.
Entretanto já acabou o filme.
É uma névoa triste que se abate sobre quem sofre desta doença mas é uma névoa igualmente triste para quem lida de perto com pessoas com esta doença.
O meu pai, pela extensão do AVC que teve, ficou com o cérebro muito danificado. A idade também não ajuda e o estado físico geral impede-o de poder combater a crescente erosão geral. De vez em quando, a senhora que lá vai ajudar nos seus cuidados diz que acha que ele já está com um bocadinho de Alzheimer mas a médica encolhe os ombros, diz que é a progressão natural e não acrescenta muito. Também há situações em que dar um nome às coisas não adianta nada. As coisas são o que são. A minha avó, mãe dele, também tinha tido um AVC mas nada que se pareça com o dele. Depois também partiu uma perna e esteve internada. Aí ficou baralhada de todo. A seguir teve uma pneumonia e internada de novo e, de novo, sem dizer coisa com coisa. Mas viu-me, disse o meu nome no diminutivo, acrescentou 'a minha menina...' e comoveu-se. Recuperou mas nunca mais ficou muito bem da cabeça. Fazia uma coisa que deixava o meu pai muito arreliado. Estávamos todos à mesa, na sala de jantar dos meus pais, e ela levantava-se, dizia que queria ir a casa do outro filho, não fosse ele ter que sair. O meu pai reagia como se aquilo fosse uma tremenda falta de educação ou uma desfeita para os presentes. Zangava-se com ela. Ela sentava-se mas ficava nervosa. Pouco tempo depois, levantava-se de novo. Todos percebíamos que aquilo já não era ela mas o meu pai teimava em reagir como se a mãe estivesse lúcida. O meu avô nunca dizia nada. Era para mim muito claro que aquilo o enchia de desgosto.
Mas, enfim, há cada vez mais notícias de promissoras descobertas e pode ser que, um dia destes, se consiga travar a evolução da degeneração cerebral. Ninguém fica cá para todo o sempre mas seria bom que se conseguisse impedir que a alma se evadisse do corpo, deixando-o tristemente vazio. Quando chegar a hora da partida, que partam ao mesmo tempo, corpo e alma. (Digo eu).
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Still Alice, com Julianne Moore
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As fotografias provêm do National Geographic.
Quem canta lá em cima é Fatoumata Diawara.
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A todos vós, meus Caros Leitores, desejo uma bela sexta-feira.