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segunda-feira, abril 07, 2025

No reino da beleza

 

Desde que frequento as agitadas paragens do Instagram deparo-me com milhares (quais milhares... certamente milhões, biliões, zetaliões) de coisas. Cada um mostra ali o melhor que sabe e pode, ou o que lhe apetece, ou sabe-se lá o quê. Mil obras de arte, mil arranjos florais, mil restauros de móveis, mil maneiras de parecer mais nova, mil maneiras de parecer bronzeada, mil maneiras de cortar o cabelo, mil exercícios e mil dietas para perder barriga, mil maneiras de fazer bolos sem ir ao forno, mil maneiras de fazer panquecas, mil livros, mil citações, mil gracinhas do cão, do gato, dos filhos, mil arco-íris, mil decorações de nails, mil, mil, mil de tudo e tudo elevado a um expoente que transforma os mil em muitos, muitos mil.

Apercebo-me, como se me pusessem uns óculos de realidade aumentada, excessivamente nítidos, quase insuportavelmente saturados, que há gostos para tudo, conceitos díspares a propósito de tudo, teorias para tudo. Não que não o intuísse, não que não o soubesse da minha vida real. Mas a amostra era curta: era apenas a realidade que eu conhecia. Agora a amostra é o mundo. Aparecem-me imagens e vídeos e palavras de todo o mundo.

E, no entanto, se, ao fim do dia, eu quiser dizer o que é que me ficou de tudo o que vi, vou ter a maior dificuldade. Talvez fiquem umas palavras límpidas ou uma pintura singela de alguém que já conhecia de outras paragens e que fui ali encontrar, talvez as imagens genuínas e as palavras espantosamente sinceras e simples da Gina, talvez uma forma engraçada de dobrar camisolas com capuz.

Mas aquilo é o mundo. Uma tremenda cacafonia em que parece que o que é mesmo relevante se esbate no meio de tanta exposição.

Fica-me, isso sim, a vontade de silêncio, de alguma reclusão, de regresso às origens, às flores, à terra molhada, ao canto dos pássaros, a vontade da amabilidade sincera, simples, autêntica, a saudade de palavras transparentes.

Debruço-me, então, e vou em busca de uma pedra, de um cogumelo, de um líquen, de uma gota de água a escorrer de uma folha, do reflexo de uma nuvem na água que fica sobre a terra.

E depois é isso. Só isso. O reino da beleza das coisas simples. E chega-me.



sexta-feira, maio 27, 2022

Uma casa no campo, uma casa na cidade

 



Se seguirmos um blog com regularidade, acabaremos por reconhecer um padrão. Há quem fale com arrogância moral, colocando-se num plano de superioridade a partir do qual tudo o que alcançam são seres menores a cometerem actos vulgares, mesquinhos. Há quem use palavras raras para contar histórias de mulheres carentes ou ardentes que acabam por ceder aos desejos caprichosos do autor. Há quem se martirize com os próprios defeitos queixando-se das suas tendências auto-destrutivas. Há quem romantize a vida, os sonhos, a luz, e, em palavras ou em riscos, consiga traduzir sentimentos com uma precisão e contenção ímpares. 

Não sei como me vê quem por aqui me acompanha mas sei que há um padrão: o sono, a escrita sob o efeito do sono. 

Um dia vou aprender a escrever durante o dia, quando estou bem acordada. Agora não consigo pois só tenho tempo à noite. Mas, mesmo quando tenho tempo durante o dia, parece que todas as outras tarefas são prioritárias em relação a esta. Sinto que tenho que varrer, fazer o almoço, arrumar papéis, fazer pagamentos, ir às compras. E, mesmo nesses dias, só à noite, quando nada mais há para fazer e quando estou demasiado cansada para fazer qualquer outra coisa, é que me ponho aqui a escrever. E, no entanto, mesmo quando me custa manter os olhos acordados e pouco ou nada tenho para dizer, aqui estou.

Os dias têm andado madrugadores. Parece que os astros se andam a desalinhar pois para juntar o punhado de gente que deve tratar de alguns assuntos parece que as únicas horas possíveis são à hora em que as galinhas abrem os olhos. O défice de sono vai-se acumulando e eu anseio por pôr o descanso em dia. 

Hoje a meio do dia, lavei umas almofadas e coloquei os 'recheios' dentro da forra de outras que tinha lavado. Também reguei uns vasos. E lavei à mão uma blusinha sensível que não quero lavar na máquina. Com o sol e calor que estava secou num instante.

Ao fim da tarde, quase a noitar, antes de fecharmos as janelas, fui apanhar nêsperas com o pau que tem um gancho na ponta. Comi algumas ao jantar. Boas.

Com esse gancho a ver se esta sexta-feira arranjo tempo para puxar umas guias de glicínia que estão a invadir o quintal da vizinha. 

Sinto muita vontade de ter tempo para fazer coisas assim sem ser a correr.

Também tenho vontade de ir comprar uma grinalda de luzinhas solares para colocar aqui no jardim, no pátio onde costumamos juntar-nos. Mas gostava de ir com tempo para poder ver o que há e escolher com calma. E também gostava de ter tempo para poder dar bondex no banco de madeira que pusemos no jardim, à frente. 

Mas, em vez disso, uso o meu tempo a ver ebitdas, a pedir explicações sobre margens e afins. E o pior é quando aqueles a quem peço explicações, em vez de irem direito ao assunto e despacharem a resposta em três tempos, resolvem justificar tudo muito justificado, uma minúcia que quase me faz ficar com falta de ar, uma argumentação que quase me dá vontade de inventar uma desculpa e pirar-me a sete pés.

Enfim. Cada um é para o que nasce e, para além disso, todos temos uma cruz para carregar.

Portanto, com tudo isto, quando aqui me vejo, quero saber se alguém já internou o Putin (tenho ouvido dizer por aí que é assim que o seu destino se vai cumprir) ou se já acabou o julgamento que opõe Johnny Depp à Amber Heard (coisa com mais destaque do que pandemia, guerra ou degelo) ou, ainda, para ver em que param as modas, nomeadamente o que andam a vestir as socialites que embelezaram a passadeira vermelha de Cannes. Neste particular vi que o que está a dar é a transparência, tudo a ver-se por debaixo. Só ainda não percebi se se aplica a toda a gente, de qualquer idade e qualquer elegância, ou se apenas se aplica a jovens esculturais. Mas essa dúvida fica em stand by. Não estou com cabeça para temas metafísicos.

Vou escolher algumas das fotografias que fiz no outro dia in heaven para polvilhar este texto. Faz de conta que estou a polvilhar o meu kefir matinal com canela. 

Reparem nestes little figuinhos. Agora estão assim, inocentes, infantes. Não tarda estarão tentadores, doces, carnudos. E sobre estes milagres é que os intelectuais deveriam escrever  tratados. Transcendência maior não pode haver. Digo eu.

Bem. Hoje não dá para mais que isto. Só se for decorações. Gosto muito de ver casas. Partilho convosco o vídeo com a simpática Alexandra Tolstoy (de quem já aqui falei, ex de um oligarca próximo de Putin) na sua casa de campo que é toda muito cottage, muito british mas que depois tem um recanto muito seu, muito russo.

Love your home x Alexandra Tolstoy

E agora em Chelsea, uma casinha à maneira. Muito agradável.

The Home of Alexandra Tolstoy Created With Colefax & Fowler Design Firm | Christie's

‘This house is a family home,’ says Alexandra Tolstoy of the beautiful six-bedroom Chelsea residence she converted from two adjacent artists’ studios. ‘I wanted it to be really comfortable — not to be stilted and too formal.
‘Everything we’ve got I feel is in its own right very unusual and special.’

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E tenham um dia bom

domingo, abril 05, 2020

Entre a contradição do silêncio e um fish kiss com limpezas domésticas pelo meio






Gosto de fazer limpezas. Tal como quando vivia em tempos normais, só ao fim de semana tenho tempo para as fazer. Na cidade, a limpeza do chão faz-se em primeiro lugar com o aspirador. Aqui não. Aqui começo por tirar tapetes, levo-os lá para fora, sacudo-os e deixo-os ao ar, de preferência ao sol. A seguir, varro o chão de ponta a ponta. Tenho uma vassoura forte. Gosto de varrer com força. Numa casa no campo entram folhinhas secas, sempre entra mais pó ou graozinhos de terra do que na cidade. Afasto sofás, mesas, móveis, levanto cadeiras. Nada escapa. Fico contente ao ver que não há vestígio de cotão ou folhinha que escape.


O meu marido prontificou-se a limpar o pó mas é sempre uma crise em potência. Por motivos que não alcanço, mal começa já está inquieto, quer despachar-se em três tempos. Eu, nas limpezas, sou a antítese: sou sistemática, rigorosa. Começo numa ponta e levanto cada peça para a limpar e limpar por baixo, e limpo tudo, incluindo as laterais dos móveis, os rodapés, as portas, tudo. Ele passa o pano a correr, à volta das coisas, e, se lhe chamo a atenção, fica logo irritado, ameaça desistir. E eu digo que prefiro isso, que desista mesmo, que prefiro que não faça do que faça mal. Ele, contrariado, diz que é impossível limpar como eu quero, que não sairia dali se se pusesse a levantar cada coisa ou a passar o pano por todo o lado. Aborreço-me. Digo que, primeiro, foi ele que se ofereceu e, segundo, se tivesse o Palácio da Ajuda para limpar, percebia o desespero. Agora uma casa do tamanho da nossa, só com nós dois...?  Meio furioso, ameaçando que, se digo mais alguma coisa ou se controlo o que anda a fazer, deixa a limpeza do pó, lá voltou atrás e, em meia dúzia de minutos mais, deu a coisa por concluída. Não vale a pena. 

Amanhã tenho muito que fazer: quero varrer lá fora, há muitas folhas secas, debaixo do telheiro há terra junto à mesa e aos bancos. Quando chove parece que ainda se junta mais lixo.


O meu marido, como se levanta de noite, começa por se embrenhar pelos seus trilhos no seu desporto de eleição. A seguir, quando regressa a casa, pega nos serrotes e podões e vai desbastar árvores e mato. Mas não há muito mato, há é muitas florzinhas. Há algum tojo, algumas silvas, mas muito menos que antes, quando as ramadas das árvores vinham até abaixo e tudo se enleava. O que rebenta agora por todo o lado são as folhinhas junto aos troncos anteriormente cortados. Uma graça.

O campo está lindo. Gosto muito de andar sob as árvores e, quando ele anda com aquele serrote que está na ponta do cabo gigante, gosto de ver onde se deve cortar para que a copa fique mais desafogada, para que o sol entre melhor e o ar circule e as ramagens fiquem mais alegres e viçosas. 

O meu marido lembra-me que durante anos era uma guerra: eu não queria que ele cortasse nada, achava que tudo era intocável, achava que tudo na natureza era sagrado. Com as regras de prevenção de incêndios, de desbastar as árvores até meia altura ou quatro metros, tive que me adaptar. E agora gosto muito. O campo está mais limpo, temos muito mais espaços por onde passear, as árvores desataram a subir, cada vez mais altas, mais 'sagradas'. E a luz do sol flui mais livremente e tudo, junto à terra, floresce. Dou-lhe razão: era uma parvoíce minha, antes, é verdade. Ele fica contente que eu lhe dê razão.


E os pássaros? O que eles cantam...? São tantos, tantos e cantam tanto. E as lagartixas...? Tantas, tantas, velozes, tão bonitas. E os gatinhos...? Agora, pelo menos dois, sempre por aqui andando na maior tranquilidade.

É um lugar de paz, este.

E, à hora de almoço, ligaram ao mesmo tempo, todos. Tão queridos, tão bem dispostos, sempre tão animados. O meu menino que fez anos continua com os legos. Segundo a minha filha me conta, são construções em mais de duzentos passos e que ele segue, sem dificuldade, montando carros, motas, carros de carga. E sei que, de tarde, estiveram a jogar uns com os outros, provavelmente o tal fortnite. E, ao longo da tarde, fomos trocando mensagens. Se estou ao pé do meu marido, ele fica um bocado impaciente ao ouvir aquele plim-plim sucessivo e por ver que interrompo o que estiver a fazer para ler o que escrevem e para, por vezes, também me meter na conversa. Não me importo com as impaciências dele. É a minha maneira de me sentir próxima daqueles de quem estou longe. E quase me sinto próxima. Vejo-os, ouço-os, leio-os. A minha mãe também se mantém animada, atarefada. O meu pai esteve um bocado adoentado, o que me deixou bem preocupada, mas parece que já está melhor. A enfermeira vai lá todas as semanas, vai feita astronauta, equipada de alto a baixo. A minha mãe diverte-se com isso.

A vida continua.


Enquanto estava a andar lá por baixo, por entre cedros, eucaliptos e pinheiros, ia pensando no extraordinário que é, com meio mundo confinado e os hospitais e morgues a deitarem por fora,  haver um batalhão de gente que continua a trabalhar, a manter os concidadãos alimentados e o país a funcionar. Não são apenas os heróicos profissionais de saúde. São também os transportadores que levam as coisas para onde elas fazem falta, os empregados dos supermercados, os das empresas de telecomunicações, os que asseguram que temos electricidade, água tratada, os lixos recolhidos, combustível nas estações de serviço, os que fazem o pão, os que cultivam e embalam, os que levam encomendas a casa. Tantas vezes precários, mal pagos, tantas vezes fazendo da sobrevivência diária uma luta. E, no entanto, é graças a eles que o país se aguenta vivo. E as pessoas que, de repente, em vez do que fizeram toda a vida, passaram a fazer outras coisas, fatos, máscaras, desinfectantes...?Nunca agradeceremos suficientemente a todas estas pessoas.

Aqueles investidores e executivos que ganham larguíssimas centenas milhares de euros por ano, quando não milhões, deveriam perceber quão frágil é a sua vida e quão dependentes são daqueles que ganham misérias. E deveriam perceber que lhes cabe também a responsabilidade de dar passos significativos no sentido de um mundo mais equilibrado, mais inclusivo, mais justo.


Mesmo que a lusa ivermectina prove a sua eficácia no combate ao corona, e tomara, tomara que sim, que seja um verdadeiro mata-piolho destruindo o bicho em 48 horas, os testes ainda demorarão algum tempo para se poder dizer qual a dosagem certa. E, mesmo que os testes de imunidade comecem a ajudar a libertar os que já deram conta do merdinhas, a libertação será progressiva, condicional. Mas, seja quando for e seja como for, a verdade é que, mal consigamos retomar a vida 'normal', faremos bem se repensarmos o nosso modo de vida, pondo de parte as anormalidades que fazíamos.

Por exemplo. Se o teletrabalho é possível, qual a necessidade de meio mundo se concentrar nos grandes centros? Porque não poderemos viver na 'província', nas belas terras do interior, onde tudo é tão lindo e limpo, onde há outra qualidade de vida? Porque não poderão as mães e os pais de crianças pequenas viver tranquilamente, em vez de andarem numas aflições para sair do trabalho a horas, sabendo que têm o trânsito pela frente, nuns nervos para chegar a horas à escola dos filhos? Porque não poderão trabalhar em casa, podendo ir a pé buscar os filhos ou, mesmo, quando mais crescidinhos, irem eles a pé, sozinhos, para casa? E porque não poderemos ter uma hortazinha, comer fruta e legumes frescos?

Parece bucólico?
É bucólico. E seria muito bom.

Temos todos a obrigação moral de repensar a vida que queremos levar. Espero bem que, mal nos virmos livres do merdinhas invisível, não desatemos a fazer a bodega que fazíamos antes, a consumir toda a espécie de inutilidades, a fazer selfies em frente às paisagens e aos quadros nos museus, abrutalhados, acéfalos e sempre prontos para dizer mal de todos e de tudo e a enfiarmos, goela abaixo, toda a porcaria que nos derem a comer.

Acho um absurdo humanizar o corona, fazendo dele a encarnação do anjo vingador. O vírus é um vírus é um vírus (neste caso, quanto muito, um anhucazeco abichanado com totós cor-de-rosa). Mas acharei igualmente absurdo se não reflectirmos sobre o que está a passar-se. Se não soubermos mostrar a nossa inteligência, então, os que não forem desta para melhor com a covid-19 irão na próxima. Porque, a continuarmos como estávamos, haverá próxima -- e cada uma será pior que a anterior porque qualquer vírus revela ser mais inteligente e veloz que os burros dos humanos. 

Bem. Já chega disto. Queira eu ou não, acabo sempre a falar da mesma coisa. Parece que a sombra do cabrão do corona já se ensarilhou nos meus neurónios (pardon my french).


A ver se este domingo consigo ler. Anda a apetecer-me estender-me ao sol e, depois, recolher-me à sombra para ler. Mas o tempo não vai ajudar. Se não estiver mau de todo, levo uma cadeira ali para fora. Senão, talvez dê para me pôr do lado de dentro mas com a porta aberta, para sentir os cheiros e ouvir os sons da chuva, da aragem, dos pássaros.

Um dia destes viro um bicho. Hoje ao fim da tarde, para fotografar, subi a uma pedra. Depois fiquei, lá em cima, a ver se descobria os pássaros que cantavam. O meu marido viu-me e ficou intrigado.

E eu percebi que um dia ainda dou por mim a fazer o que os gatos fazem, a andar pelos muros, a subir aos telhados, a deitar-me ao sol.


E já escrevi demais. Distraio-me a escrever. Imagino a seca para quem me lê.

Partilho apenas mais uma coisa que acho o máximo. Não um french kiss, coisa banalmas um fish kiss. Muito bom. Gosto cada vez mais do Alexander Ekman. 


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Um abraço para cada um que tenha conseguido ler tudo até aqui.
(Merece, que ler tamanho exagero é feito que, imagino eu, não estará ao alcance de qualquer um).

Um bom dia de domingo.

domingo, junho 09, 2019

Casa cheia e coração cheio in heaven





Acordei cedo, com o despertador, e foi como se estivesse no meio de um sonho. Tinha dormido como uma pedra e, se o despertador não tocasse, era capaz de dormir mais uma ou duas horas. Depois ouvi uma máquina ao longe e pensei logo que devia ser o meu marido a roçar o mato. Temo pelos oregãos pois receio que, com os óculos de protecção, não os distinga das outras ervas. Por minha vontade, apanhávamos as ervas à mão, uma a uma, para não se correr risco de danificar alguma plantinha aromática ou flor. Mas é impossível.

Arranjei-me rapidamente e fui lá a baixo à procura dele. Estava longe e espantei-me por. àquela distância, se conseguir ouvir no quarto. Aqui ouve-se tudo a milhas. É a total ausência de ruído e a absoluta limpeza do ar que permite que o som se propague sem barreiras. Chamei-o, não eram horas de andar naquilo, tínhamos que ir ao supermercado. Lá veio, admirado das hora que eram. Pelos vistos, entretido que andava, nem tinha dado pela passagem do tempo.


Viémos do supermercado com um carrinho a deitar por fora mais um daqueles cestos grandes com rodas também a transbordar. O meu marido fica um bocado passado com isso, acha que eu exagero nas quantidades, que perco a cabeça e trago o supermercado em peso. Mas eu tento imaginar quanto é que cada um come e faço contas de multiplicar. O frigorífico ficou cheio, a bancada da cozinha cheia ficou. Fui logo fazer o almoço enquanto o meu marido punha a mesa e depois limpava o pó da mesa, cadeiras  e espreguiçadeiras debaixo do telheiro.

Ao meio dia e tal ouvi um carro a apitar. E logo crianças a chamarem. Tinha chegado metade do grupo. Da carrinha-autocarro saltaram bicicletas, meninos de capacete que logo desataram a pedalar e, claro, crescidos com sacos e braçadas de casacos.

Depois de darem umas voltas e uns passeios, almoçou-se. Todos comem bem mas de salientar o bebé que, no fim, deve ter comido para cima de uma dúzia de morangos. Adora fruta e, como os morangos eram óptimos, foram uns atrás dos outros, praticamente de penalti. Dá gosto ver uma criança tão pequena comer tanto, de seguida, de gosto.

Depois de se arrumar a cozinha e tratar da louça, vim para a sala e estive com os meninos a jogar ao jogo das letras (nomes, países, animais, objectos, comida, marcas e mais não sei o quê começado por essa letra). Pouco tempo depois, tocaram à campainha e era o resto do grupo. Da carrinha-autocarro saltaram mais meninos, sacos, casacos, chapéus, bolas e, claro, gente crescida.


O grupo hoje esteve reforçado com amigos. E mais meninos. Ao todo foram sete meninos entre os dois e os dez anos e, felizmente, havia mais uma menina, pelo que a bonequinha linda, ao contrário do que é costume, hoje teve companhia feminina. Mal se viram, logo foram para a escrivaninha explorar gavetas e pintar e fazer desenhos com lápis florescentes e canetas douradas e prateadas e coisas assim.

E os rapazes foram jogar à bola e correr. E depois as meninas juntaram-se e foram todos jogar às escondidas no meio de esconderijos, todos a correrem nos caminhos atapetados de caruma entre árvores, todos devidamente incentivados e picados pelo mais azougado de todos, o meu filho, que os persegue, prega partidas, brinca às lutas e os diverte até mais não. 

As meninas grandes foram apanhar sol e conversar e, of course, pelo meio tomaram conta dos dois mais pequenos.

E depois foi hora do lanche e durante uma hora houve sempre alguém a pedir mais pão, mais sumo, mais iogurte, mais qualquer coisa.


A  seguir fui pôr o jantar a fazer. Entretanto, seguiu-se mais futebolada, jogos, uns a trepar a barreira, outros na casinha feita há um ano, e corridas de bicicletas, e perseguições, meninas pequenas e grandes a fazerem a roda e a fazerem passos de ballet, a fazerem ioga (e aqui até o meu marido fez), e filmes em câmara lenta, e risota, e fotografias de grupo e fotografias de semi-grupo, e palhaçadas de todo o género.

E eu, o tempo todo, a fotografar, a observar, a tomar conta, a rir, a dar água a um, água a outro, sumo a um, fruta a outro, pão com queijo a um, água a outro, iogurte a outro, gelatina a outro. E a fotografar. E a vir pôr água no dói-dói, e a dar água a outro, e a ir a correr atrás do bebé que se aproximou demais da barreira,  e evitar que o bebé terrível empurre o outro ainda não habituado a estas jagunçadas, e depois a limpar a mão a outro e a vir ver o jantar e a dizer onde está isto e onde está aquilo, e a ver como crescem tanto e como gostam tanto de estar juntos, os da família e os amigos, e a sentir-me feliz e agradecida.

Ao fim do dia, o frio já era muito e ainda tudo de tshirt na rua. Depois lá vieram todos para dentro para virem jantar.


A mesa toda aberta, apesar de bem grande, obviamente não era suficiente pelo que tivemos que montar a outra mesa ao lado. Era a chamada mesa dos pequeninos mas não cabiam lá os sete. Por isso, o mais crescido ficou na mesa dos grandes. E os dois pequeninos também. Ficaram os quatro do meio na mesa dos pequenos mas na mesa grande ficou tudo completamente à justa. Para estes dias de grandes enchentes teremos que arranjar uma terceira mesa ou arranjar outra maior para os mais pequenos. Comeram todos bem, excepto o outro menino pequeno que, apesar de corpulento, é de má boca: a mãe pena para o convencer a comer. Pelo contrário, o nosso bebé senta-se e despacha sozinho uma pratada. Aliás, tal como irmãos e primos. Penso que é de ninguém os forçar a nada que, de pequenos, se habituaram a comer sozinhos. sem darem qualquer trabalho, comendo de tudo. Havendo várias terrinas e travessas com comida, é normal, ao perguntarmos aos meus o que querem, dizerem: 'tudo'. Por isso, já estranho quando vejo uma criança sem querer comer e a mãe, coitada, a insistir, a dar-lhe à boca ou mesmo, eles no chão, a andarem de um lado para o outro e a mãe atrás a tentar que coma qualquer coisa. Se calhar se não insistisse, ele acabaria por ter fome. Mas sei bem o que isso é porque eu, com a minha filha, passei pelo mesmo. Era quase uma adolescente, eu, preocupava-me muito se ela não comia o que eu achava que era vital para o seu crescimento, queria que ela se alimentasse bem -- e ela era muito vagarosa a comer, não ligava muito a comida, não gostava de uma data de coisas que eu achava que ela tinha que comer porque eram saudáveis, proteicas, vitaminadas. O que eu fazia para a distrair e lhe enviar, à sorrelfa, colheres de comida na boca. Parvoíces que uma pessoa faz convencida que está a fazer o melhor possível. 

Mas, enfim, hoje comeu-se e bebeu-se, uma conversa e alegria pegada, os meninos numa festa, tudo numa animação.


Até que resolveram dar a jornada por concluida, recolher casacos, sacos, enfiar as crianças nas carrinhas, uns a quererem irem nos bancos lá mais de trás, outros já a dar-lhes a rabugice e sono -- e lá foram todos. 

Já estava um frio dos diabos. Fomos para a rua para nos despedirmos e não levei nenhum agasalho, fiquei enregelada. Que amplitudes térmicas estas...

O que vale é que, ao entrarmos em casa, estava quentinha, acolhedora.

Arrumámos o que pudemos arrumar e concluímos que, curiosamente, o frigorífico ficou quase vazio. Aliás, as queixadas e bochechas que fiz para o jantar, acompanhadas por puré de batata e puré de maçã, pouco sobraram. Eram duas sacadas de carne, um disparate. Quando estava a fazer até vacilei, achei que o meu marido, afinal, tinha razão, aquilo era bochecha para rebentar com as queixadas de um quartel em peso. Pensei não fazer todas. Mas depois, pensei que, se sobrassem, se quisessem levavam para casa e, senão, este domingo já estavamos servidos. Fiz tudo: a maioria estufadas, outras no forno. Pois marchou praticamente tudo. A minha filha ainda levou um restinho mas quase só aparas sobrantes. 

E, por falar em sobras, parece que só cá ficou um boné. A menos que de dia se descubram outras coisas lá fora.


Agora já são quase duas da manhã e passam na televisão imagens de leituras de Agustina na Feira do Livro. Deve ter sido bonito. Mas aquela confusão, tanta gente, tanto barulho, tanto best seller, tanta capa às cores e tanta gente a falar aos altifalantes, aquilo assim já não faz bem o meu género.

Enfim, é o que é.

Como se poderá imaginar agora estou capaz é de ir descansar. Dias assim enchem-me a alma, enternecem-me e motivam-me sob todos os pontos de vista mas, como é bom de ver, chego a esta hora da noite e o corpo pede-me algum repouso. Tenho amigos que, quando juntam alguém em casa, e é só quando o rei faz anos, compram comida feita ou contratam mesmo catering. Inclusivamente, contratam os serviços de mesa. Antes dos convidados, chega o pessoal do catering. Levam louça, talheres, toalhas, tabuleiros de comida, bebidas, etc, por vezes até cadeiras e mesas de apoio. Põem a ou as mesas, servem os convidados, vão levantando a louça das mesas e, no fim, levam tudo e deixam tudo arrumado. O meu marido acha que é bem pensado e ansearia por uma coisa assim. Eu não consigo nem conceber. Faço tudo por mim e faço de gosto.


Mas pronto, este domingo vou descansar e na segunda-feira é feriado e também será dia de dolce far niente.
E será dia de Portugal em versão pechisbeque, com o tal João Miguel Tavares a abastardar o dia e eu recusar-me-ei a ver na televisão para não ter que me enervar com o Marcelo que nisto deu um tiro no pé para o qual não há explicação. Querer agradar a gregos e troianos, não se importando de baixar o nível, é coisa que não lhe posso admitir. Mas, enfim, estou in heaven, é fim de semana e estou de coração cheio e cabeça tranquila, não quero pensar em coisas que me maçam.

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Grande parte das fotografias não são de hoje já que as de hoje, montes, carradas delas, resmas, paletes, são praticamente todas com as gentes que este sábado povoaram a minha casa, in heaven.

A todos desejo um feliz dia de domingo.

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domingo, abril 21, 2019

Quem sabe este não é mesmo um lugar poderoso aqui in heaven?
E que o seu poder não chega até vós...?





Dia tranquilíssimo. Uma aragem suave, um sol ameno. Limpei a casa, pasmei com o que a casa se suja mesmo com pouco movimento. A casa tem cinco portas que dão para a rua. Destas usamos regularmente três. E como andamos sempre dentro e fora, deve entrar pó ou somos nós que o trazemos connosco. Pó, não. Terra. Folhinhas, coisinhas do campo. 

E passeei, sentindo-me de férias. Três dias de férias.

E fiz uma descoberta que me deixou maravilhada e de que falarei mais logo.

E vi, espantada, que as roseiras bravas floriram. Costumo chamar-lhes rosinhas de Maio (e se calhar é mesmo o nome delas -- não sei) e, vendo-as agora, em Abril, perfumadas e efémeras, enterneci-me.

E o gatinho cor de mel veio pôr-se no banco de pedra junto à casa, como se fosse um barão. Ou uma baronesa -- não faço ideia.

E outro, o preto e branco, andou a passear-se sobre um muro e eu, que estava noutra, só o apanhei em desfocagem.

Depois, mais à frente, apareceram dois branquinhos a correr, assustados.

E, portanto, andei pelos campos a flanar e a fotografar e, de novo, fiz vídeos.

O meu marido hoje apanhou alguns dos infinitos rebentos ladrões que despontam por todo o lado mas circunscreveu-se à parte de cima do terreno. Está com dor nas costas.
Esta nossa terra, pela morfologia e por tudo, nunca poderá ser um terreno agrícola mas de terreno seco e pedregoso virou esta terra fértil onde tudo nasce, tudo cresce. E cresce de forma descontrolada. Se um dia deixarmos de tentar conter toda esta exuberância tenho a impressão que os caminhos desaparecerão no meio de árvores e arbustos e que a própria casa se tornará mais uma gruta para animais ou outros seres dos bosques.
Depois queimou o que apanhou mas num bidão para não ter que levar tudo lá para baixo. Não sabemos se mesmo para queiminhas destas tem que haver autorização mas, por via das dúvidas, pedimos na mesma.

Um dos vídeos que fiz foi uma tentativa de repetir um que tinha feito ontem ao fim do dia e que não pude aproveitar.
Como sempre que ando muito tempo fora quando a tarde vai alta, o meu marido começou a chamar por mim. Não respondi, claro, pois estava a filmar mas, na ausência de resposta, ele foi andando e chamando e o meu nome acaba por se ouvir perfeitamente. 
Hoje repeti mas não ficou nada bem pois deu-me para fazer com a máquina o que faço quando lá estou mas, pelos vistos, a uma velocidade muito maior. Portanto, uma almariação. Uma das coisas que tenho que aprender é a pôr alguns bocados dos vídeos em slow motion. Assim, como poderão constatar, fica complicado de ver. Fechem, por favor, os olhos para, no fim do vídeo, não caírem para o lado ou então tomem antes comprimidos para o enjoo.

Mas, acreditem, a intenção é boa.

Círculo de pedras in heaven



Entretanto, vou procurar uma coisa.

Cá está. Mostro um bocadinho daquilo do livro de Feng Shui para não pensarem que é delírio meu.


Aliás, o livro tem boas ideias e a disposição das coisas e dos jardins transmite uma sensação de grande harmonia. Não sei se algo mais que isso mas serenidade e harmonia transmite.

Tenho também a dizer que, quando me ouço, percebo que a meio das frases parece que me distraio e me esqueço de conjugar o sujeito com o predicado ou outras coisas do género. Um exaspero. Não sei se isso daria para editar mas devia dar porque há casos em que é uma vergonha.

E uma rectificação. Quando estamos na cidade a preparar as coisas para virmos para cá, andamos numa azáfama, a guardar isto, aquilo e o outro, e eu arrumo umas coisas, ele arruma outras e eu pergunto-lhe se ele já guardou isto e ele diz que eu me despache, que está farto de estar à espera. Ora bem. Eu sou despassarada, faço as coisas em piloto automático e, volta e meia, no meio destes preparativos, nem me lembro bem de as ter feito. E tão habituada estou a cometer gaffes que hoje, quando constatei que, em vez do cabrito pascal, tinha vindo porco, logo assumi que tinha sido mais uma das minhas. Quando, arreliada comigo mesmo, contei ao meu marido que não iríamos sacrificar nenhum cabrito, ele saíu-se com esta: 'Mas não era o saco que estava em cima, no congelador?'. E aí percebi que não fui eu, foi ele. Mas pronto, o assado de porco, cozinhado como um cabrito, ficou quase a saber ao dito. E comeu-se. 

Fiz assim: 
Num tabuleiro de forno, coloquei uma grande cebola nova cortada grosseiramente, um bom ramo de salsa, uns dentes de alho, um bocado de casca de laranja. Por cima a peça de porco. Por cima, pouco sal, mais salsa, orégãos, alecrim. Reguei com um pouco tinto alentejano e de azeite. O forno que estava previamente aquecido, foi reduzido para receber o tabuleiro. Esteve lá cerca de duas horas em forno a 170º. De vez em quando, virava a carne. No fim, cozi batata doce e, quando cozidas, verti-as sobre o tabuleiro. Parte das batatas absorveu o molho. Por cima pus um pouco mais de orégãos e um fio de azeite. Voltou tudo ao forno para bronzear. 
E esta fotografia é para o Soliplass que talvez reconheça a silhueta que se vê ao fundo.
Boa Páscoa, Lenhador que se fez ao Mar

E, uma vez mais, boa Páscoa a todos

domingo, abril 07, 2019

E é isto que, muito brevemente, tenho para vos contar





Depois das palavras da JV e do Paulo, dois millennials extraordinaires e de quem muito gosto, não quero alongar-me muito pois, tendo-os colocado aqui no palco, não quero que as luzes se desviem deles. 

Por isso, num breve registo, tenho a informar que o carro, ontem à noite, me alertou para que um pneu estava com pouca pressão. Tendo o meu marido posto mais ar, voltou a assinalar o mesmo. Com receio que fosse um furo, fomos a uma oficina de pneus. Enquanto o marido tentava estacionar, fui falar com um funcionário. Perante a descrição, confirmou: é um furo. Quando chegou a nossa vez, apalpou-o, mirou-o e remirou-o (refiro-me,obviamente, ao pneu). Depois levantou um bocado o carro, observou-o mais atentamente, depois tirou-o, inspeccionou-o, aplicou-lhe um líquido, pô-lo de molho numa tina... e nada, não descobriu furo nenhum. Presume-se, pois, que o sensor é que se avariou. Está bonito, isto. Quanto mais sofisticados os carros, mais fricotes têm, tornam-se hipocondríacos e tudo.


Tenho também a informar que lá estava um dos concorrentes do Casados de Fresco. Estava sozinho, discreto, homem normalíssimo. Olhei, observei e inspeccionei-o e não detectei nele sinal de nenhuma das parvoíces que lá fez nem sinal que fosse maluco a ponto de participar em tal programa. Só me faltou pô-lo na tina a ver se, debaixo de água, deitava bolhinhas. Mas presumo que o problema tenha estado, também, nalgum neurónio avariado.

Tenho também a informar que, há bocado, depois de jantar, estando aqui a fazer zapping, quase dei um salto. Impossível. Chamei o meu marido que confirmou. O actor principal da novela, um jovem bonito e até agora desconhecido (para mim), era, nem mais nem menos, o rapaz que ontem estava no boteco, na mesa ao lado da nossa, a comer marisco com uma jovem digamos que carismática. Ele há coisas.


Mais informo que, tendo chegado a casa, in heaven, o meu marido saíu, foi para a sua ocupação preferida, e eu fiquei em casa, e peguei num livro do Ruben A. e pus-me a ler. Depois, passado um bocado, a ver se me dava o sono, liguei a televisão. Estava a dar um filme de adolescentes. E o curioso é que fui ficando, a gostar de ver, sentindo-me pouco normal por estar sem dormir, sem ler, sem sair para passear e fotografar, ali a ver um filme de quando os adolescentes do filme ainda eram adolescentes de verdade. Agora devem andar pelos cinquenta.


E a seguir, quando o filme acabou, peguei na máquina e saí, andando devagar, fotografando. Lá em baixo, ao fundo, andava o meu marido. Fui buscar um serrote e fui cortar ramos até que o céu, cinzento, pesado, muito escuro, foi baixando, baixando, até que rebentou, E umas pingas grossas começaram a cair. Ele chamou-me e foi andando e eu fiz que não ouvi e fui ficando. E a chuva veio com força e eu fiquei molhada e da terra veio aquele cheiro morno a mulher fértil e eu ali, maravilhada, abrigada debaixo das árvores e os pássaros a cantaram ainda com maior alegria.

Voltei quando o ouvi a chamar por mim. Já eram quase oito da noite mas ainda não era bem de noite. Vinha feliz da vida, sentindo que nada melhor do que respirar o ar límpido, húmido e perfumado que habita este heaven onde o tempo passa devagar, onde os anjos esvoaçam devagar. E é isso que, assim, muito brevemente, tenho para vos contar.


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E queiram, por favor, descer para lerem as boas palavras da JV e do Paulo
Ah, e também para verem a fotografia que a JV entretanto me enviou que mostra a fantástica floresta onde gosta de se perder.

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A todos, desejo um belo dia de domingo.

segunda-feira, janeiro 21, 2019

In heaven a natureza começa a florescer. E eu com ela.




Dividida entre fazer o tapete ou falar do meu mundo, opto por voltar a entrar no meu heaven. Estou a rever o que já antes tinha visto, o documentário que mostra a paixão de Judi Dench por árvores. Uma coisa fascinante. 

Cheguei no sábado já era noite. Tínhamos estado a passear à beira rio enquanto os miúdos estavam no Pavilhão do Conhecimento. Depois fomos lanchar com eles, demorámo-nos, conversámos, matei saudades e, de lá, seguimos para o campo.

Tinha estado a chover.  Estava frio, uma noite de inverno.


Enquanto o meu marido andou a levar pedaços de madeira para a salamandra, andei a fotografar as laranjas lavadas pela chuva, as flores do vaso que está à porta despontando, um rosa viçoso no escuro da noite, um escuro iluminado por um intenso luar branco.


Depois, já ele tinha acabado, chamou-me, estava frio, não eram horas de andar  ali na rua, às escuras. Não gosta de chegar de noite. E eu, lembrando-me, do bicho misterioso que por lá tinha andado, concordei que era melhor recolher-me.

Este domingo acordei tarde. Não há lugar no mundo onde durma tão bem. Parece que o meu corpo percebe que aqui, em dias assim, não tenho horários nem compromissos, estou por minha conta.

Quando estava a tomar o meu frutado pequeno almoço, chegou o meu marido. Madruga, ele. Anda pelos caminhos silenciosos da manhã, vê o levantar do dia, vê o orvalho, vê as cores lindas da natureza. Diz sempre que não sei o que perco.  Não sei mas acho que sou capaz de adivinhar. Desta vez, como era bem tarde, depois do seu passeio, já tinha andado de volta das árvores com aquelas ferramentas que o meu filho lhe ofereceu pelo Natal e que o traz viciado. É ele que diz: esta coisa é viciante. Vinha com um serrote telescópico. pode serrar troncos que estão nas alturas.

Logo de seguida fui eu que fui passear. Devia dizer caminhar pois devia ter caminhado, andado apressadamente, compenetrada no acto de caminhar. Mas sou uma diletante. Parece que não consigo concentrar-me nos deveres quando tenho tentações a chamar por mim. E tudo aqui me tenta.


Um ninho aconchegado entre dois ramos. Há coisa mais bonita do que um ninho? Quanto trabalho ali está. Tão perfeito. Gostava de um dia conseguir ter tempo para ficar sentada num canto, imóvel, a observar estes pequenos seres que aqui habitam e que tanto se atarefam nas suas obrigações. Fazer uma casinha para porem os seus ovinhos, para nascerem os seus filhotinhos.

Continuo nas minhas observações vagarosas, atentas, à procura de mais casotinhas, de mais grutas, de novidades.

Não encontrei dois buracos na rocha, penso que já estão tapados pois a vegetação cresce vigorosamente. Até que descobri um. Intrigam-me. Um dia ainda arranjo uma câmara pequenina e enfio-a lá para dentro.


No outro dia os meninos levaram os troncos que resultaram do pinheiro grande que tombou e que eu tinha em volta da  árvore que dá flores amarelas e de que agora não recordo o nome para junto do murinho verde. O ano passado já se tinha enchido de folhos vaporosos. Este ano está outra vez assim, engalanado, vistoso. O meu pinheiro reinventa-se, vivo, metamorfoseado.

Se calhar estas asas macias e quase douradas estão a querer decompor a madeira. Não faz mal. A transformação é, em si, uma forma de viver.


Mais à frente, umas coisinhas nunca antes vista. Ando mil vezes por aqui e mil vezes estas coisinhas por aqui devem ter estado e nunca antes tinha visto. Cega ao que desconheço, cega em relação ao que não procuro.

Agora como ando à espreita, baixo-me, aproximo-me, quase um gata vagarosa. Penso que sejam cogumelos. O que ainda resta deles. Quando digo que numa semana estáo lá, na semana seguinte desapareceram, se calhar se olhar melhor verei sempre isto. Mas nunca antes tinha visto. E isto encanta-me muito, esta permanente sucessão de surpresas. Esta terra é uma caixinha de surpresas. Uma arca do tesouro, de mil jóias, mil mil mil, muitas mil maravilhosas jóias.


E depois, mais à frente, uma borboleta dourada pousada entre a caruma. Aproximei-me. Talvez não uma borboleta, talvez uma folha caída, uma sobrevivente do outono.

Mas não. Um belo cogumelo alado, pequeno, ali isolado, tão frágil, tão bonito, um pé fininho, tão desprotegido. Mas talvez aqui tudo se proteja entre si. Que sei eu do que aqui se passa?


Entretanto, outra novidade. À saída gruta grande, pegadas fundas. Deve fazer força nas patas para subir. E agora estão por todo o lado, até cá em cima, até no largo da capela. No musgo fofo, muito visíveis. Pegas grandes, fundas. A terra revolvida. Procura raízes, procura o quê? 

De que tamanho é, onde vive? De noite está na gruta? Vive sozinho? Como foi lá para dentro?

Hoje reparei como uma reentrância de uma rocha havia água, ainda bastante água. Se calhar é ali que bebe água. Não assustará os coelhinhos? Os gatinhos? Só andará por ali de noite? 

Tantas pegadas intrigam-me. 


Entretanto, o alecrim, o rosmaninho, o alfazema estão a despontar. As florzinhas cheirosas e perfeitas começam a aparecer. Adoro-as como outros adoram santos, anjos, deuses. Adoro-as porque são simples, pacíficas, belas. incrivelmente perfeitas na sua inexplicável espontaneidade. Adoro-as porque me sinto feliz quando estou perto, quando as olho, quando as cheiro, quando as toco.

Tenho vontade de as apanhar para as ter comigo durante a semana, quando não há natureza perto de mim, apenas a memória de quando por aqui ando. Mas não. Deixo-as ficar, intactas, intactas na sua inocência.


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A todos quantos por aqui me acompanham desejo uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

Be happy.

domingo, novembro 18, 2018

Um buraquinho perfeitinho


Está muito vento. Gosto de ouvir o vento. Também chove mas a chuva está a dançar nos braços do vento. Tão bom. 

De tarde andei, outra vez, nas minhas caminhadas de micro-observação. Devagarinho, a espreitar tudo, encantada com tudo. E continuo a descobrir coisas que sempre cá devem ter estado e que nunca antes tinha visto.

Só vemos o que queremos ver. Em cada espaço, em cada instante, apenas captamos uma ínfima parte do que ali está. 
Como aquilo daquele livro de novecentas páginas para descrever dezoito horas de vida, cada uma delas desdobrando-se, fractalmente, em infinitos pequenos eventos. Não li e temo nunca ler mas ouvi dizer que é assim. 
Assim mais ou menos como eu em que, a cada passo, ao longo dos anos, vou descobrindo mais e mais pequenas coisas: uma árvore a nascer, uma flor nova, uma pedra nunca antes vista, o canto diferente de pássaro, o musgo a revestir a rocha de uma maneira diferente. E, hoje, isto: um buraquinho redondo, perfeito. Nunca tinha visto, nunca, nunca. Aproximei-me, incrédula. Como é possível que nunca tivesse visto? Espreitei. Não se via o fundo. Como um furo feito na pedra. Fui buscar um pau comprido. Devagar, comecei a enfiar. Nunca se sabe o que lá se esconde. E fui enfiando... Senti alguma resistência, tirei rapidamente. Não sei qual a extensão nem sei se irá assim, redondinho, até ao outro lado do mundo ou se é o respirador de alguma gruta secreta a muitos metros de profundidade. Ou se é apenas um inocente buraquinho perfeito que um deus secreto ali colocou para pôr à prova a minha crença.


Hei-de ir com uma lanterna tentar espreitar, descobrir o que se esconde dentro da terra in heaven.  E só espero que, ao fundo, não esteja uma pequena fadinha a rir para mim, rodeada de cogumelos coloridos e flores musicais.

Uma fadinha como esta que se foi pôr em frente dos livros de Vergílio Ferreira

domingo, julho 01, 2018

Uma casa entre árvores, no meio dos rochedos




Se em vez de me pôr aqui todos os dias a escrever coisas assim, soltas, sem pensar, publicadas sem qualquer edição prévia, conseguisse impôr-me a disciplina de escrever obra apurada talvez fosse preferível: poupava-me tempo e poupava a vossa paciência e generosidade.


Mas não. Sou isto. O meu marido há pouco perguntou-me o que achava eu das manhãs. Que não se pense que é dado a perguntas metafísicas. Nada. É dado, sim, à ironia. Respondi que devem ser bonitas mas que prefiro as noites. É que esta das noites é outra. Sei que entrar pela noite adentro não é saudável. Sei que dormir pouco não é saudável. Então porquê isto? Não sei. Deve ser também coisa genética. Vivo os dias normalmente, sem querer saber de escritas e, chegada a esta hora, dá-me para isto. No sofá, pés sobre uma banqueta, computador nas pernas, aqui estou. As palavras aparecem à medida que os dedos as escrevem sem que eu me detenha a pensar no que vou escrever a seguir ou a alinhar ideias.


Quando tento entender-me, desisto logo. Deve ser por isso que não sou dada a depressões ou ansiedades: não descubro nada que me desagrade ou preocupe porque, sinceramente, não quero descobrir-me, não quero saber das razões que me justificam. Estou-me nas tintas. E não estou a fazer género. É mesmo assim. 

Mas, nisto da escrita, eu tenho uma razão. Ou melhor, uma desculpa. E já falei muitas vezes nela. Não escrevo como deve ser porque sinto que me falta a logística certa para o fazer.

Reparem como me poupo: poderia dizer que não escrevo porque me falta o talento. Mas não. Simplifico a coisa, iludo-me, permitindo-me alimentar a esperança de que um dia ainda venha a ver reunidas as condições para que o milagre aconteça.


Para escrever preciso de sossego. Não consigo ter interacção humana, conversar a meio das frases, levantar-me para ir fazer o jantar, interromper para ir arrumar roupa. Não -- tem que ser de seguida, entregue completamente ao fluir das palavras, não permitindo que o que quer que seja lhes barre o caminho.

Mas, por outro lado, sou uma pessoa de família, não gosto de estar sozinha, gosto de ter os meus por perto, vivo bem no meio da confusão. Por isso, esta dicotomia: de dia, vida gregária e intensa e, de noite, quando a casa está em repouso, aqui na sala a escrever.

Alguma vez, de dia, eu poderia estar sozinha, fechada numa casa, enquanto lá fora o pessoalzinho anda à solta ou, volta e meia, à procura de comida? E eu, alheada, a escrever...? Nem pensar.


Já agora, conto.

O dia foi muito bom. Os meus meninos, em conjunto com o avô, a cortarem mato, a serrarem ramos de árvores, depois todos à volta da mesa, as crianças com um apetite surpreendente, em conversa boa, e sempre brincalhões, sempre felizes da vida. E ainda deu para acabar o livro do Miguel Sousa Tavares e estive a ler o Dano e Virtude, estilo bem conhecido, apontamentos do dia a dia. E fotografei -- mas pouco porque o gosto pela fotografia precisa de ter com que exercê-lo de forma orgânica, temos que sentir que o instrumento não obsta ao seu exercício, e esta máquina pequenina não me permite aproximar-me, estando de longe, guardando o devido respeito, mantendo a qualidade. Falta-me sentir o peso da minha máquina grande, que podia manusear. Mas, enfim, apesar de desconsoladamente, sempre fiz umas quantas.

Apanhei ramos de eucalipto, ramos de aroeira, ramos de loureiro, ramos de orégãos e alecrim para levar este domingo à minha mãe. Ela diz que os ramos de loureiro afastam as traças da roupa. Acho que vai pôr, não sei como, se pendurados se as folhas em saquinhos de pano, nos roupeiros.


E apanhei alfazema. Não levo à minha mãe porque também o tem agora, no seu jardim. Apanhei para mim. Distribuí por várias jarras e, por exemplo, aqui onde estou está um cheirinho bom, fresquinho. 

O contacto com a natureza que, para mim, desde que me lembro, me é vital, é-o cada vez mais.

Hoje, estive com os meninos à porta da gruta grande. Impõe respeito. A toda a volta rocha maciça, superfícies inteiras e, a meio, uma abertura natural que se estende não se sabe até onde. Como sempre, não passámos da entrada mas um dos meninos reparou que lá a meio, na terra fina que a atapeta, uma terra quase arenosa, há um buraco. Quase uma toca subterrânea. Mas também grande. Um animal de algum porte. Quando estava a espreitar, coloquei a mão na parede da entrada. A textura da rocha agrada-me muito. Lisa, densa. No verão está morna. No inverno fria e húmida, por vezes escorrendo água. Por vezes cobre-se de era selvagem, outras de musgo macio.


Os meninos perguntam porque não entramos e eu explico que não sabemos se é segura e levo-os a espreitar uma outra que é pequenina, uma abertura a meio da rocha. Não sabemos até onde vai ou se, lá dentro se alarga, mas, à superfície, é pequena, talvez apenas toca de coelhos. Dela escorre uma terra vermelha como se fosse o mênstruo de uma mulher. A terra é fêmea. O mundo é macho.


A casa que se vê no vídeo aqui abaixo é uma casa maravilhosa. Um ninho transparente no meio da rocha, entre o arvoredo. Numa casa assim talvez eu conseguisse escrever e, ao mesmo tempo, ver os meus, sentindo-me acompanhada mas suficientemente em sossego para poder desfrutar a inspiração que talvez me chegasse, límpida, tocada pelo contacto com a natureza.

É uma casa extraordinária. Quem imagina e desenha uma casa assim é alguém que foi tocado pelo sagrado sopro da arte em estado puro.

Uma casa no rochedo - arquitecto Jan Jensen



E depois há o silêncio. O silêncio que na natureza não é silêncio: é canto, é harmonia, é paz. O silêncio dos deuses.

Gordon Hempton tenta salvá-lo


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